15 Minutos

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15 Minutos foi um programa de comédia da MTV Brasil, apresentado por Marcelo Adnet e Felipe Ricotta (Kiabbo). O programa durava apenas 15 minutos, como propõe o título, e tinha direção de Fábio Arantes e roteiro Rafael Blecher. Foi exibido pela primeira vez em 10 de março de 2008, tendo a sua última exibição em 9 de dezembro de 2010. Adnet lia mensagens dos telespectadores e baseado nelas inventava canções – geralmente parodiadas – imitava celebridades e fazia improviso. O formato curto teve sucesso e desde o seu início o programa foi bem recebido entre o público.

No plano da expressão percebeu-se o uso de recursos expressivos na atuação dos apresentadores, que sempre eram muito espontâneos; porém Kiabbo, nunca mostrava o rosto e estava sempre com uma máscara diferente. O cenário do programa era um apartamento fictício e o cômodo que tinha evidência era o quarto, onde as câmeras permaneciam fixas. Basicamente o ritmo do programa se dava através dos e-mails recebidos do público, que continham pedidos a Adnet, que cantava as músicas improvisadas enquanto Kiabbo tocava violão.

No que se refere ao plano do conteúdo, pode-se dizer que as avaliações não foram altas. A ampliação do horizonte do público foi razoável em três emissões. Um exemplo foi no episódio Década de 50, em que Adnet diz que através de uma pesquisa descobriu que foi nessa década que surgiu no cinema filmes clássicos como “Alice no país das maravilhas”, “Peter Pan”, “Cinderela”, e “A bela adormecida”. Além disso, o apresentador destaca alguns acontecimentos importantes da década, como a descoberta do DNA e a chegada da televisão no Brasil bem na época da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perde a disputa. Outra ampliação razoável foi a da emissão Ciganos. São ditas algumas das tradições desse grupo, como o costume de não negar abrigo a outro cigano, ser um povo nômade e desapegado de bens materiais, ter uma linguagem diferente e o misticismo de ler a mão das pessoas e queimar os pertences de outro cigano que morreu.

O indicador diversidade de sujeitos representados obteve a maioria das avaliações boas. Isso justifica-se porque qualquer espectador podia participar do programa através da internet, bastando que sua pergunta fosse selecionada pela produção. Além disso, o tema do programa também era desenvolvido nas ruas, através do “povo fala”, o que trazia uma pluralidade de opiniões, mesmo que não tão profundas. No episódio Década de 50, é enviada uma mensagem que fala dessa temática; com isso a equipe vai buscar o ponto de vista de pessoas na rua, sobre o que elas mais sentem falta dessa época. As respostas são múltiplas e vão desde os filmes e roupas até o trânsito tranquilo e as ruas mais vazias.

Já a desconstrução de estereótipos chamou a atenção por não constar em nenhum episódio. Às vezes o senso comum era até reafirmado por meio de falas do apresentador. No episódio Vozes, por exemplo, um espectador envia um email dizendo que é um nerd que quer ser descolado e quer que esse tema seja abordado. Adnet compõe um improviso: “Eu sou nerd, mas quero ser descolado/Não sou popular ninguém anda ao meu lado/Sou o melhor aluno de química e português/Eu beijei uma menina foi só uma vez/E foi pagando, pagando/Não foi de graça não”. Esse tipo de fala reitera características e comportamentos considerados socialmente como “coisa de nerd”, como bom desempenho escolar, falta de popularidade e poucas experiências amorosas.

Outro episódio que marca esse indicador é Ciganos. Durante o programa, alguns deles acampam no banheiro no apartamento fictício. No fim Adnet diz que um de seus quadros da casa sumiu, o que deixa a entender que um dos ciganos levou. Essa é uma reafirmação do estereótipo de que essas pessoas roubam objetos, frase já dita anteriormente por uma mulher no “povo fala” da edição.

O indicador oportunidade foi pouco observado, sendo que durante quatro vezes, não constou. Isso aconteceu porque os temas não eram necessariamente pautas midiáticas ou sociais, nem sequer assuntos que estavam constantemente no cotidiano das pessoas, uma vez que os maiores pedidos eram de imitações ou improvisos. O único episódio que constou oportunidade razoável foi o Episódio do Professor, que botava em questão esses profissionais. Uma participante diz como é difícil trabalhar ensinando e pede protesto contra a desvalorização do ofício. O quesito foi identificado nesse caso, porque o assunto é tema presente dentre as conversas do dia a dia.

Confira abaixo as avaliações do canal nos indicadores do plano do conteúdo:

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Falando sobre a mensagem audiovisual do programa, percebeu-se que a clareza da proposta foi o indicador com melhores avaliações, sendo quatro episódios considerados muito bons. Isso se deu porque o programa mantinha o formato fixo, sempre com participação dos espectadores através da internet e Marcelo Adnet fazendo imitações e improvisos. A única emissão que com queda em relação às outras, foi avaliada como boa é o Episódio do Professor. A proposta do episódio não ficou explicada o suficiente e poderia deixar o espectador confuso em relação à opinião do apresentador. No início, Adnet começa imitando alguns professores, que de acordo com ele são classificados como o “com paixão” e o “sem paixão” pelo que fazem. Ele diz que o professor apaixonado de filme americano, sempre termina bem sucedido, enquanto na realidade do Brasil esse mesmo profissional termina dentro de uma condução lotada rumo ao Méier (bairro do subúrbio carioca). É feita uma crítica sobre as condições de trabalho e Marcelo diz que ser professor em nosso país é muito difícil pela falta de respeito e educação dos alunos. Porém, a contradição acontece quando o mesmo apresentador, ao imitar um antigo mestre que ensinava matemática, questiona o porquê de tantas contas e expressões complexas no colégio, se no cotidiano as pessoas lidam somente com soma e subtração. Algumas pessoas poderiam interpretar essa fala como um desprezo com relação às matérias ensinadas.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas obteve três avaliações muito boas e duas razoáveis. Nas avaliações muito boas o apresentador, que tinha talento para imitação, fazia sua voz parecer com a de personalidades como Sílvio Santos, Faustão, Marília Gabriela, Cid Moreira dentre outros. No Episódio do Professor, por exemplo, Adnet interpreta um professor e acaba gostando do resultado e incluindo no que chama de “Escolinha da MTV”, uma paródia já feita antes. Nesse momento ele começa a imitar o programa “A escolinha do professor Raimundo” usando o mesmo formato de texto e modo de representação. Outra citação a um produto da Rede Globo foi quando no episódio Ciganos, o apresentador pede que Kiabbo fale o nome de um sentimento, que ele imitaria de acordo com o que chama de “escola de interpretação do Cigano Igor” – personagem da novela “Explode Coração”. É feita a atuação buscando deixar clara a falta de expressão que o ator continha, satirizada por Adnet.

Quanto à solicitação da participação ativa do público pode-se dizer que foi muito bem observada na maioria das emissões – quatro dentre cinco. Geralmente, o programa começa com Marcelo Adnet chamando os espectadores a participar enviando os e-mails para seu endereço eletrônico; são selecionadas algumas mensagens que irão ao ar. Além disso, dentre as avaliações muito boas percebeu-se uma característica comum: todas tinham o chamado “povo fala”, ou seja, as pessoas que andavam pela rua eram chamadas a participar, dando opiniões sobre os temas trazidos pela produção do programa.

Outro indicador com avaliações boas foi originalidade/criatividade. O programa inovou no tipo de proposta quando trouxe o improviso que admitia pedidos do público de casa, muitas vezes com músicas que o apresentador inventava. Na emissão Reggae, por exemplo, Adnet lê uma mensagem de um participante da Bahia – imitando o sotaque da região. O pedido do espectador é que Marcelo cante o hino do açaí. É improvisado um reggae com a temática, sendo que há a utilização de recursos muito vistos nesse estilo musical. Tentando deixar o máximo parecido, são usadas as batidas característica do violão e a segunda voz mais suave na música. Além da criatividade no modo dos apresentadores conduzirem o programa, o fato das cenas se passarem no quarto de um adolescente, traz uma inovação.

A seguir, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual:

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Ao final da análise, percebe-se que a representação utilizada para gerar o riso muitas vezes reforça estereótipos, por não utilizar esses recursos como forma de questionamento. Isso pode ser comprovado em emissões como Década de 50 em que é sugerido o tema “moças”, a ser cantado em forma de rock característico da época. A música diz que para agradá-las tem que dar presente, ter dinheiro, não morar no Brasil, ter uma “caranga”, dentre outras coisas que contribuem para uma reafirmação do senso comum de que mulheres são interesseiras.

Nos modos de representação vê-se que a atuação dos personagens na maioria das vezes é satírica, com imitações de outros produtos ou pessoas famosas. O programa não tem preocupação de fazer uma crítica mais aprofundada a costumes enraizados ou contribuir para quebrar tabus, uma vez que os temas não eram necessariamente pautas sociais. Porém, o uso dos recursos como cenário e escolha narrativa se deu de forma inovadora. Era incentivada uma participação do público, tanto presencialmente – povo fala – quanto pela internet, o que promovia uma diversidade de pontos de vista.

Por Letícia Silva

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