A arte de ouvir: a saúde mental em “Vozes da Voz”

das-doida1O documentário Vozes da Voz propõe a detenção do olhar do espectador para a realidade das CAPS, serviço comunitário criado para cuidar de pessoas em estado de sofrimento psíquico. Nestes centros de atenção psicossocial, os ingressos são tratados como usuários do serviço, e não como pacientes, o que os confere o direito de decisão e de autonomia, como exemplo.

Em 35 minutos, o filme realiza um resgate histórico de algumas instituições psiquiátricas e aborda a luta antimanicomial, importada pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia em 1979, que instaurou serviços alheios aos realizados pela lógica manicomial.

A apresentação dos psicólogos, psiquiatras e líderes sociais são justapostas às dos usuários do sistema público de tratamento mental. O filme, então, se desenvolve apresentando depoimentos de profissionais do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha e de envolvidos com o CAPS Itapeva (SP).

De acordo com o diretor Valnei Nunes, o filme foi realizado a partir de 3 anos de pesquisa e registro do tratamento da saúde mental em detrimento da luta antimanicomial e dos direitos humanos. Os depoimentos presentes na película exploram os novos tratamentos utilizados nas CAPS filmadas e revelam a necessidade do tratamento humanizado do portador de sofrimentos mentais.

Não obstante, a necessidade de se discutir a questão psicossocial é investida como tema de relevância não somente para aqueles que estão inseridos no processo da Reforma Psiquiátrica. Também é necessário que haja um debate para que a sociedade obtenha esclarecimentos sobre métodos de tratamento, reinserção social e arte-terapia. A loucura, que segue carregada de estigmas, é apresentada no filme como identidade que deve ser ouvida e respeitada.

De acordo com Comolli (2001), crítico e ensaísta francês, o cinema documentário possui a capacidade de se ocupar de todas as fissuras do real. A filmagem dos excluídos, que escapam das normas majoritárias, entregam novos desvios do olhar para os espectadores que, juntamente dos especialistas em um assunto específico, podem debandar em juízo novas formas de atender, ouvir e solucionar problemas de ordem social.

Assim, é possível conjurar, através da manifestação das imagens do filme, questionamentos que tem como objetivo principal o fim do estigma do louco, a relação da sociedade com o portador de transtornos e a necessidade de amparo familiar e social para aqueles que precisam do sistema. Nas palavras de Ismail Xavier (2010): “As pessoas são mais interessantes quando se libertam do estereótipo”.

Assista ao filme: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/vozes-da-voz/

Por Iago Rezende

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