A Cracolândia e o Estado Higienista: uma história que se repete

craco1Em 2012, o programa que visava acabar com a Cracolândia em São Paulo foi tema do curta-metragem “A Cracolândia e o Estado Higienista – a violência legitimada”. Com direção, filmagem e edição de Fernanda Eda Paz, os 28 minutos de duração do curta mostraram o lado de quem conviveu na prática com esse programa, e não o lado de quem dizia extinguir o tráfico de drogas e “revitalizar” a área. No filme, um psicólogo, uma criminóloga, uma jornalista e uma psiquiatra embasam os depoimentos das pessoas em situação de rua e dos moradores do centro de São Paulo.

Vencedor do prêmio de melhor documentário no IV Festival de Vídeo de Maringá, a produção trata das ações higienistas do governo do estado de São Paulo na região da Cracolândia, caracterizadas pela intervenção violenta, abusiva, desrespeitosa e inconstitucional da Polícia. O crack, como um dispositivo para alavancar e legitimar as medidas de contenção social e truculência contra os pobres é, na verdade, uma farsa para o que está por trás desses projetos de limpeza urbana do centro de São Paulo: os interesses imobiliários das grandes corporações.

Melhorar a qualidade de vida de quem está na Cracolândia certamente não era o objetivo em 2012, e também não o é agora, cinco anos depois. A estrutura adequada para o tratamento dessas pessoas não inclui passar com viaturas por cima delas, destruir seus pertences, agredi-las, violentá-las sexualmente, ou conduzi-las a uma internação compulsória, como indica o documentário. Favorecer empresários e especuladores em detrimento da vida humana, só comprova o desinteresse dos governantes pela saúde mental da população dependente química, que formará novas Cracolândias em outros pontos de São Paulo a cada medida que não contribui para a sua melhora.

Gravar para não esquecer

Com a intenção histórica de representar o real, os documentários gravam para melhor conhecer uma situação, apreender dela a sua essência e, assim, talvez, suscitar mudanças. Incomodar, colocar o espectador em movimento. Fazê-lo pensar sobre o que está acontecendo à sua volta é o que pretendia o curta “A Cracolândia e o Estado Higienista – a violência legitimada” com os depoimentos das vítimas dos abusos policiais da limpeza humana da Cracolândia.

No espetáculo está o nosso desejo de tudo ver. No cinema, o desejo é o de melhor ver. Mas, na vida real, muitas vezes a nossa vontade é a de não ver. Para Comolli (2008, p. 141), “Não apenas não vejo tudo o que o quadro me mostra como visível, mas nesse não tudo há ainda aquilo que, mais ou menos inconscientemente, eu não quero ver. O espectador, e este é o seu lugar, talvez deseje ver tudo, e ainda mais, mas nesse desejo esconde-se um outro desejo, aquele de cegar-se a si mesmo e de não ver tudo”.

Dentro ou fora das salas de cinema, esse auto cegamento acontece o tempo inteiro, quando assistimos a um quadro ou quando somos espectadores da própria vida alheia. Estar numa zona de conforto não é tão trabalhoso quanto estar numa zona de indeterminação, uma zona de medo. E esse outro lado da história, o lado que no dia a dia nos limitamos a conhecer por não ser o mais reconfortante é, por isso, o mais afetado pelo recurso da auto fragmentação do olhar.

O “disk faxina”, acionado à época pela política higienista de Gilberto Kassab (PSD) e Geraldo Alckmin (PSDB), está se repetindo agora com João Doria (PSDB) na Prefeitura de São Paulo e, novamente, Alckmin está à frente do governo do estado. O filme se repete, e a história é a mesma. Os “buracos” de gente não vão ser substituídos por paredes de tratamento e reinserção social, mas esses documentos não nos deixam esquecer a história (por mais que tentemos fugir dela no presente), e eles sim podem mobilizar e conscientizar para tais construções.

Assista ao documentário: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/a-cracolandia-e-o-estado-higienista-a-violencia-legitimada/

Por Luma Perobeli

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