A Grande Família

a-grande-familiaA Grande Família foi uma série produzida por Guel Arraes, que estreou em 2001 no canal Globo e foi exibida até setembro de 2014. O programa foi uma releitura da versão dos anos 1970, idealizada por Max Nunes e Marcos Freire e escrita por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. O seriado, que ia ao ar toda quinta-feira às 23h, retrata o cotidiano da família Silva, que vive no subúrbio carioca e luta para se manter unida apesar de conflitos nas relações familiares e dificuldades diversas.

O elenco contava com atores fixos, dentre eles, Marco Nanini (Lineu), Marieta Severo (Dona Nenê), Lúcio Mauro Filho (Tuco), Guta Stresser (Bebel) e Pedro Cardoso (Agostinho). Rogério Cardoso interpretou Floriano, pai de Nenê, na série até 2003 quando faleceu; depois disso não houve substituição para o personagem.

No que diz respeito ao Plano da Expressão no programa, alguns aspectos são chamativos. A música tema é marcante e tem uma letra que explica bem a proposta da série: “Esta família é muito unida/E também muito ouriçada/Brigam por qualquer razão/Mas acabam pedindo perdão…/Pirraça pai!/Pirraça mãe!/Pirraça filha!/Eu também sou da família/Eu também quero pirraçar…”. Essa vinheta toca tanto no início quanto no fim do programa, sendo que na abertura ela acompanha a exibição de um antigo álbum de fotografias que mostra fotos de pessoas “comuns” se transformando nos rostos dos personagens. No fim, os créditos sobem na tela enquanto a música está em BG.

Um ponto notório de A Grande Família são os cenários, figurinos e linguagem, que, por serem simples, geram uma identificação popular com o programa e maior aceitação do público.

Outro detalhe percebido foi que o nome de todos os episódios aparece quase na metade do programa, sempre com uma formatação característica do tema do dia.

Em relação ao Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público foi tido como bom em duas emissões. Na emissão do dia 15 de maio de 2001, notou-se uma forte presença do tema machismo, tratado de maneira a levar o público a refletir sobre as opressões que em geral são normalizadas na sociedade. Outro exemplo foi no episódio do dia 17 de abril de 2008, quando Agostinho faz um escândalo no salão onde Bebel trabalha porque o filho deles, um bebê, não parava de chorar. Esse episódio enfatiza o debate sobre o papel do pai no cuidado com o filho e a ideia de que não só a mãe é responsável pela criança; uma vez que Bebel precisava voltar a trabalhar após o fim de sua licença maternidade. O mesmo episódio também faz uma rápida citação ao Bolsa Família, programa do governo federal.

Todos os episódios analisados tiveram classificação razoável no que diz respeito à diversidade de sujeitos representados, isso se deve à multiplicidade de tipos de pessoas observada nas emissões. No episódio do dia 17 de abril de 2008, por exemplo, são vistos personagens jovens, amigos de Tuco; pessoas mais maduras, no baile da Terceira Idade; diferentes profissionais na delegacia. Além disso, é possível observar diversos pontos de vista sobre o tema central, que é a volta de Bebel ao trabalho após ela ter um filho. Porém, em nenhuma das emissões analisadas foi percebida uma grande pluralidade no que diz respeito à questão racial e sexual.

O indicador de destaque no plano de conteúdo foi desconstrução de estereótipos, sendo que dois episódios foram avaliados como bons e três como fracos. Os episódios que foram bem avaliados focaram em assuntos que estão presentes em pautas feministas. A emissão do dia 15 de maio de 2001 focou no machismo dos personagens da família Silva. Agostinho tenta impedir Bebel de sair com um vestido curto, justo e transparente e chega a dizer que “Nem madrinha de bateria de escola de samba usa um negócio desse”, valendo-se da imagem estereotipada da mulher no carnaval. Além disso, é consenso entre os homens da família que uma roupa daquela causaria assédios. Bebel se posiciona em favor da sua liberdade e diz: “Quer dizer então que esses animais não sabem se conter e eu é que tenho que me reprimir? Eles que aprendam a se controlar!” e a mãe a apoia. Bebel considera os homens da família retrógrados e repressores. Quando ela se arruma com um vestido mais longo, sem transparência e decotes, este é visto como “vestido de evangélica”.

O episódio do dia 17 de abril de 2008 também foi bem avaliado graças à temática feminista, em que Bebel descontrói a visão de Agostinho de que a mulher deve cuidar da casa e do filho e o homem trabalhar fora, ser o provedor da família.

Já o episódio do dia 27 de julho de 2006 foi considerado fraco nesse quesito porque reforçava alguns estereótipos, como quando Paulão repreende Marilda por ter ido ao “Baile das cachorras” dizendo: “Você que não devia estar aqui. Isso aqui não é lugar pra mulher decente.” E quando mostra uma briga no mesmo ambiente, reafirmando a visão de que baile funk é um lugar violento.

O indicador oportunidade obteve baixas avaliações, sendo considerado duas vezes como razoável e duas vezes como fraco. O episódio do dia 14 de abril de 2008, por exemplo, foi tomado como razoável, pela atualidade do tema da bebida combinada com direção. Esse episódio mostra que enquanto Lineu estava bêbado em um clube noturno que tinha ido com Nenê, Tuco, que estava na função de levar os pais para casa, preferiu não beber álcool, justamente para a segurança deles. Uma forma de conscientização popular no mesmo ano em que a Lei Seca foi promulgada no Brasil.

Veja a seguir as avaliações referentes aos indicadores do plano do conteúdo:

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Observando a Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões. Isso se deve ao formato narrativo do programa, que sempre apresenta desentendimentos e suas respectivas soluções. Porém, no final há sempre um conflito, mesmo que pequeno, que é deixado em aberto. Além disso, as personalidades são bem definidas e as personagens têm atitudes previsíveis; por exemplo, Lineu geralmente é estressado e tem muitas preocupações, já Agostinho sempre tenta se beneficiar de alguma situação. A música tema, como dito anteriormente, também já deixa clara a ideia do programa.

O critério diálogo com/entre outras plataformas teve três avaliações fracas e uma razoável. Isso justifica-se pelo pouco contato com outras mídias, sendo que somente em alguns episódios analisados houve esta relação, com citações a outros produtos audiovisuais da própria emissora. O episódio do dia 31 de Julho de 2008 foi o único razoável, por fazer citações a uma telenovela, ao reality show da emissora, “Big Brother Brasil”, e uma pequena divulgação do projeto Criança Esperança.

Com relação à solicitação da participação ativa do público, esta não foi muito observada, sendo percebida somente na linguagem, sempre popular e jovem. Por este motivo todas as emissões foram avaliadas como fracas.

Na análise sobre originalidade/criatividade, todos os episódios foram razoáveis, uma vez que o programa faz uma abordagem diferenciada de alguns temas que não são tratados na mídia, inserindo-os dentro do cotidiano. Porém não é completamente inovador, justamente por se tratar de um sitcom passado num ambiente familiar.

Confira os indicadores de qualidade referentes à mensagem audiovisual:

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Pode-se dizer que os episódios ficaram divididos em relação ao seu potencial de levar o espectador à reflexão. Falando sobre reforço de estereótipos, percebeu-se que alguns promoviam um debate sobre assuntos relevantes socialmente – como o papel da mulher – outros evidenciavam comportamentos e opiniões já convencionadas.

Não foi percebida uma experimentação técnico-expressiva considerável no programa, que se utilizava de um roteiro sem grandes novidades para um sitcom. A atuação dos personagens contribuiu para a característica mais importante do programa: identificação popular pela familiaridade. À medida que situações cotidianas de um núcleo familiar se repetem nos episódios, o espectador se sente mais próximo da história. Além disso, não há uma participação do público na construção da narrativa, porém os episódios analisados deixam claros a diversidade de opiniões das personagens – muitas vezes divergências que se tornam brigas – o que pode enriquecer a reflexão do espectador.

Por Letícia Silva

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