À sombra da marquise e a luz da exclusão

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De quantas formas é possível sentir a dor da exclusão? Para as pessoas em situação de rua nos grandes centros urbanos, a experiência de não ter um lar revela-se ainda mais dura quando se deparam com o olhar do outro. Um olhar que os ignora enquanto humanos, que está cercado pela viseira do egoísmo e com lentes repletas de preconceitos.

Em apenas oito minutos, Vladimir Seixas, no documentário À sombra da marquise (2010) consegue revelar uma das facetas da vida marginal e da sensação de perda de direitos e de humanidade. Seixas convida o espectador a pensar sobre a questão, à medida que mostra vários olhares e versões.

O filme começa com imagens de câmeras de segurança e percebe-se que o cenário é uma rua de algum bairro de classe média, com calçadas em pedras portuguesas. Além dos transeuntes, aparecem a entrada de um prédio e estabelecimentos comerciais ao lado. Em seguida, a câmera capta em close up o rosto de várias pessoas, sem identificá-las. Poderíamos nos perguntar: quem são elas? O que têm em comum ou o que as diferem? É justamente essa diferença que Seixas irá mostrar mais a frente.

É noite. Um homem caminha com um lençol na mão, estende-o sobre a calçada e se deita. Mas não dura muito. Logo se escuta o som de águas caindo, ele se levanta, abandona o local e torce sua blusa.

Corte para imagens captadas durante o dia. Agora, a câmera focaliza canos afixados em uma marquise. Um funcionário da farmácia que fica ao lado do prédio onde está a marquise relata que todas as noites o porteiro liga o registro para molhar a calçada, de modo a evitar que pessoas em situação de rua durmam ali. Em seguida, o porteiro aparece em cena e o cineasta pergunta do outro lado da câmera: “quem inventou isso?”. Ele responde: “o síndico”.

Corte para o close no rosto um homem de cabelos e bigodes brancos, sem camisa e que parece estar na cozinha de seu apartamento. Ele justifica que o sistema que joga água na calçada é uma forma de minimizar a situação, já que, segundo ele, as pessoas que ali dormiam estavam “atrapalhando todos”. E continua: “É chato porque a gente fica… Prejudicado… Não prejudicado, mas com medo de que esses caras amanhã ou depois venham fazer alguma… Sei lá, venham fazer alguma maldade aqui, quebrar o vidro, quebrar alguma coisa na loja…”. E diz que até o momento, isso não aconteceu.

É hora de ouvir aquele que ali tinha tentado se deitar, mas logo precisou levantar-se por causa da água que caía sobre si. Ele caracteriza como um ato de maldade. E diz: “a gente não pode fazer nada… Se a gente falar com eles, eles ainda chamam a polícia…”.
Outra pessoa então, assume o discurso. É um homem que transita frequentemente naquela calçada. Ele conta que uma vez viu uma família inteira abandonar o local por ter se molhado à noite, quando o sistema de água foi ligado. “Não sei porque isso”, diz, com certo tom de desaprovação. “Eu não gosto disso não… Se eu chegar aqui e arrancar o cano, eu que vou preso, né…”. E completa: “Mas nosso país é isso mesmo, né? Quem tem tem, quem não tem é pisado”. O filme, então, termina com a imagem do sujeito em situação de rua caminhando pelo bairro, há cenas da calçada molhada e o fechamento com a indicação do local: Copacabana, um bairro de classe alta da cidade do Rio de Janeiro.

Observa-se, na obra, uma tentativa de mostrar os vários olhares em torno da questão, incluindo o do próprio cineasta que, ao escolher fechar o filme com a frase do personagem “quem tem tem, quem não tem é pisado”, deixa a sua visão sobre a vida marginal e uma certa falta de esperança. Ao trazer o discurso do síndico, justificando o porquê da instalação do sistema e alegando ter medo de uma reação violenta, Seixas traz a questão da exclusão às claras, mostra que o preconceito tem endereço certo e que está longe de ser superado. O olhar do personagem que motivou o tema do filme pode ser traduzido na frase “a gente não pode fazer nada, se a gente falar com eles chamam a polícia”, reconhecendo que o preconceito não está apenas nos olhos do síndico e dos moradores do prédio, mas nas instituições que deveriam protegê-los e zelar pelos seus direitos e não o fazem.

Não se pode dizer que a obra opta por uma estética de rompimento dos jogos de poder presentes na sociedade, conforme propõe Rancière (2011), mas ao trazer os vários olhares, ela entrega ao espectador a missão de pensar sobre a questão e, de certo modo, posicionar-se sobre ela. Comolli (2008) diz que um dos grandes trunfos do documentário é perfurar a consciência de quem assiste ao filme. Na obra de Seixas, o espectador é convidado a pensar a partir da identificação que faz: ao se ver no síndico ou no transeunte que se indigna com a situação – tudo dependerá de como o filme irá afetá-lo.

As várias versões dão luz ao preconceito e chamam a uma reflexão. Em poucos minutos é apresentada a dor de ser marginalizado e de não ter um pertencimento, frutos de uma mentalidade que prefere roubar os direitos e a humanidade do outro a ceder um pouco do espaço que possui. É a voz do documentário traduzindo o que se passa no real.

Assista ao filme aqui: http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_sombra_da_marquise

Por Tatiana Vieira

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