Adorável Psicose

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Exibido pelo canal Multishow de 17 de outubro de 2010 a 08 de janeiro de 2014, o programa Adorável Psicose narrou, ao longo de cinco temporadas, o cotidiano de Natália e seu tratamento com a psicóloga Dra. Frida. A série foi escrita e estrelada por Natália Klein, além de ser inspirada em seu blog homônimo. A direção é de Gustavo Chermont e o elenco também conta com Juliana Guimarães (Dra. Frida), Lucas Oradovschi (Cara de Bigode), Carol Portes (Carol) e Raoni Seixas (Diogo).

O programa geralmente tem início no consultório da Dra. Frida, onde Natália aparece contando suas aflições do momento. A partir de então, Natália narra a psicóloga os acontecimentos que levaram a tais aflições, enquanto o que ocorreu com ela é mostrado ao público. Desse modo, a narrativa, constituinte do plano da expressão, pode ser considerada não linear na maioria dos episódios, já que geralmente não é contada de modo cronológico.

Ainda no plano da expressão, se destaca a vinheta final, que, em um estilo retrô e em preto e branco, mostra Natália fazendo algo relacionado à temática do episódio, ao mesmo tempo em que há um narrador comentando, em off, o que ela faz. Essa vinheta tem como foco o público, já que o narrador se dirige aos espectadores, muitas vezes com expressões como “vocês”, e Natália olha diretamente para a câmera, com a intenção de se comunicar ao mesmo tempo com o narrador e com a audiência.

No plano do conteúdo todos os episódios analisados receberam avaliação fraca no indicador oportunidade, uma vez que não se pautam em assuntos presentes na agenda midiática ou em temas atuais e relevantes que constam na agenda do público. A maioria dos episódios se baseia em assuntos cotidianos que não possuem grande pertinência.

Com relação à ampliação do horizonte do público, quatro emissões receberam avaliação fraca por não trazerem discussões relevantes ou temas que estimulem o pensamento dos espectadores e o debate de ideias. Apenas o episódio “A Bunda” recebeu avaliação razoável, pois traz a problemática do preconceito. Nesse episódio, a compilação das ações preconceituosas de Natália pode levar a audiência à reflexão, ainda que essas ações sejam apresentadas de uma forma cômica e rápida, motivo pelo qual a pontuação do indicador não é maior.

Quanto à diversidade dos sujeitos representados, três episódios foram caracterizados como fracos, já que não trazem grande pluralidade de personagens e pontos de vista. Contudo, os episódios dos dias 02/06/11 e 07/11/10 receberam avaliação regular. O primeiro por apresentar personagens que fogem ao padrão daqueles geralmente retratados no programa, com diversidade de orientações sexuais e pensamentos; o segundo por exibir certa diversidade geográfica e cultural, já que traz a Itália à pauta do episódio.

O episódio “O Gayzorcismo” foi o único que pontuou no indicador desconstrução de estereótipos. Mesmo baseado na afirmação de estereótipos, esse episódio pode levar à reflexão e ao questionamento desse tipo de generalização, uma vez que tal afirmação é feita de forma exagerada e repetitiva, o que pode gerar dúvida a respeito da validade de tal modo de representação.

No gráfico a seguir, pode-se conferir os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Quanto à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas, pois o formato do programa é delineado de modo nítido. A maneira como é estruturada a série se repete ao longo das transmissões, como as vinhetas de abertura e final e as consultas de Natália com sua psicóloga. Apenas no episódio intitulado “A sitcom” (25/08/2011), há uma mudança na estrutura da vinheta de abertura, a qual é modificada de modo a imitar as vinhetas comumente associadas às sitcoms, fazendo referência especificamente ao seriado Friends. Essa mudança, entretanto, se mostra totalmente condizente com a proposta do episódio, sendo, inclusive, um ponto de destaque.

Já em relação ao indicador originalidade/criatividade, as transmissões analisadas receberam boa avaliação, devido a elementos como a vinheta final, que utiliza de estilo e proposta particulares, e aos temas cotidianos abordados de uma forma distinta, a partir das “psicoses” da protagonista, com as quais o público muitas vezes pode se identificar.

O desenrolar das histórias é geralmente inusitado, assim como as reações dos personagens, em especial Natália. O episódio do dia 25/08/11, por exemplo, revela a criatividade do programa à medida que é feito nos moldes das sitcoms americanas, utilizando dos inúmeros elementos desse formato sem, contudo, perder as características já enraizadas de Adorável Psicose. Outro episódio que poderia ser citado nesse contexto é o intitulado “A Bunda” (23/06/2011), no qual há um surto psicótico de Natália durante a vinheta final e aparecem os personagens do programa numa espécie de clipe musical, cuja música “Baby Got Back” remete ao tema do episódio.

O indicador solicitação da participação ativa do público em quatro dos episódios recebeu uma avaliação razoável. Tal análise se deve pela vinheta final, na qual o narrador se dirige à Natália e ao público, ao qual Natália também se dirige, pois olha diretamente para a câmera, numa comunicação tanto com o narrador quanto com a audiência. Expressões como “vocês” são utilizadas em alguns episódios para se referir aos espectadores. Entretanto, esse é o único momento no qual a participação do público é solicitada ativamente, o que justifica a avaliação razoável. O episódio “A sitcom”, contudo, foi o único dos episódios analisados que recebeu uma avaliação boa nesse indicador, pois, durante a vinheta final, o narrador deixa de ser apenas uma voz em off para se juntar a Natália em frente às câmeras. Nesse instante, ele e a protagonista se dirigem ainda mais especificamente ao público, estreitando a relação entre o programa e sua audiência.

Ainda na mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas recebeu avaliação boa em três dos episódios analisados. Isso se deve às inúmeras menções a elementos do “mundo real” ou de outras plataformas, como filmes e séries. A trilha sonora, por exemplo, faz referência em vários episódios ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock – filme cujo título se relaciona estritamente com a proposta da série, embora de conteúdos completamente diferentes.

Já no episódio “O Gayzorcismo” (02/06/2011), por exemplo, Natália afirma: “Eu nunca assisti Glee. Eu não sei nada sobre o casal gay de Modern Family” – se referindo a duas séries de TV exibidas pelos canais Fox e ABC, respectivamente. No episódio do dia 23/06/11, por sua vez, Natália diz: “Eu não tô interessada em fazer seguro de vida, porque eu me acho imortal e o que é imortal não morre no final”. A referência, dessa vez, é à música Imortal, da dupla Sandy & Júnior, alvo de vários memes da internet pelo pleonasmo do trecho. Além das inúmeras referências, o programa é inspirado em outra plataforma: o blog Adorável Psicose, da própria Natália Klein.

Contudo, o episódio “A Napolitana” (07/11/2010) recebeu uma avaliação fraca nesse indicador, pois não faz alusões ou dialoga ativamente com outras plataformas, sendo pontuado apenas pela inspiração do programa no blog de Klein. Já o episódio “A sitcom” recebeu avaliação máxima nesse quesito, uma vez que o programa é totalmente transformado a partir da utilização de características das sitcoms americanas, revelando a capacidade da série em se adaptar aos diversos tipos de programas e modelos.

A seguir, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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A partir da análise, pôde-se perceber que Adorável Psicose se destacou em elementos da mensagem audiovisual, como originalidade/criatividade e diálogo com/entre plataformas. O programa possui um formato diferente, tratando de temas cotidianos a partir das psicoses muitas vezes inverossímeis de Natália. Situações cômicas improváveis são usadas para dialogar com temas do cotidiano do público, como uma ida ao cinema ou um encontro.Adorável Psicose também dialoga constantemente com outras plataformas, fazendo referências a outros programas ou séries, por exemplo. Tais elementos constituem um diferencial em relação ao outros programas televisivos.

Entretanto, em relação ao plano do conteúdo,indicadores como ampliação do horizonte do público e diversidade de sujeitos representados não obtiveram destaque dentro da produção. Temas que pudessem levar o público à reflexão e ao debate de ideias – característica essencial ao humor de qualidade – não foram apresentados com relevância nas emissões analisadas.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

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