Afetos presentes: dos loucos e das rosas

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Barbacena é um município mineiro situado a 169 quilômetros de Belo Horizonte, capital do estado. A partir do século XX, a cidade tornou-se conhecida no Brasil e no exterior como “Cidade das Rosas”. A alcunha se popularizou devido ao grande núcleo de cultivo, produção e importação destas flores. Em meados dos anos 1970, a produção e plantio era organizado pela Associação Barbacenense dos Produtores de Rosas e Flores (ABARFLORES) e contava com 97 produtores.

De maneira concomitante, um outro nome foi dado à cidade que ainda carrega ambos os apelidos: a “Cidade dos Loucos”. A denominação se deve ao histórico do município e sua consequente relevância no cenário psiquiátrico brasileiro como o maior polo manicomial de Minas Gerais. A exclusão dos loucos do convívio social foi uma prática comumente realizada no Brasil a partir do modelo de tratamento de transtornos mentais popularizado na Europa a partir do século XVII. Segundo Passos (2007), os loucos eram vistos como o resíduo da sociedade e passaram a ser excluídos do convívio social, juntamente com os ladrões, as prostitutas e demais marginalizados sociais.

Neste contexto, Andreia Pinto resgata a memória afetiva dos profissionais e pacientes do que restou do Hospital Colônia para apresentar as novas realidades sob as quais estão inseridos os tratamentos ao portador de transtornos mentais. O programa, publicado pela TVNBR em 2011, apresenta as dissonâncias entre como podem ser consideradas a cidade dos loucos e a cidade das rosas.

A partir da perspectiva dos moradores de Barbacena, um som em off introduz as opiniões públicas acerca do apelido. No filme, é possível compreender que, para a maioria dos entrevistados, a questão manicomial é enxergada com cunho cômico – a partir dos estereótipos do “louco”, e da negação ao enxergar a cidade como “cidade dos loucos”, mas sim a cidade que recebe os loucos.

O filme buscou compreender de que maneira o resgate das memórias afetivas do hospital puderam ser incorporadas à investigação jornalística do atual panorama das casas terapêuticas – residências psiquiátricas que funcionam, hoje, como modelo sucessor ao manicomial em Barbacena –.

O trabalho de memória é realizado por artistas plásticos e historiadores locais, enquanto o trabalho de elucidação acerca dos tratamentos atuais fica a cargo de psicólogos e psiquiatras envolvidos com os personagens que outrora estiveram internados na sede do manicômio.

No filme, transborda a necessidade de enxergar o portador de transtorno mental enquanto sujeito afetivo, dotado de paixões, necessidades e capacidade técnica de exercer trabalhos. A reforma psiquiátrica é aludida, na obra, como principal fator capaz de promulgar melhores condições humanas aos que, por muitos anos, foram impedidos de enxergar as rosas.

Assista ao documentário em: https://www.youtube.com/watch?v=dQMIUqj6tPw

Por Iago Rezende

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