Alice

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  • Criador: Karim Aïnouz
  • Diretores: Karim Aïnouz e Sérgio Machado
  • Roteiristas: Sérgio Machado e Antônia Pellegrino
  • Elenco: Andréia Horta, Vinicíus Zinn, Regina Braga, Daniela Piepszyk, Carla Ribas, Marat Descartes, Denise Weinberg,Olga Machado, Walderez de Barros, entre outros.
  • Período de exibição: 21/09/2008 a 14/12/2008 – 26/11/2010 e 03/12/2010 (telefilmes)
  • Nº de episódios: 13 + 2 telefilmes

Produzida pela HBO Brasil a série Alice foi exibida entre 21 de setembro e 14 de dezembro de 2008. Posteriormente, a trama ganhou, em 2010, dois telefilmes com 90 minutos de duração. Protagonizada por Andréia Horta a atração retrata os encontros e desencontros de Alice na cidade de São Paulo. A personagem levava uma vida pacata na cidade de Palmas, no Tocantins, mas sua vida muda quando ela recebe a notícia da morte de seu pai. O que era para ser uma viagem de dias para cuidar do inventário dos bens deixado pelo pai se transforma em uma mudança permanente para São Paulo.

Como iremos detalhar ao longo desta análise, o lançamento da série envolveu ações de engajamento até então inéditas no âmbito das narrativas ficcionais seriadas da TV paga brasileira. Para aproximar a protagonista Alice (Andréia Horta) do público, a emissora criou vários perfis em redes sociais. As postagens relatavam os contratempos da personagem na grande metrópole e aprofundavam o universo ficcional.

Alice foi a terceira produção original da HBO Brasil, após Mandrake (2005-2007) e Filhos do Carnaval (2006). Nesse sentido, a trama apresenta uma estética característica das atrações do canal. Com a direção de Karim Aïnouz e Sérgio Machado as sequências criam uma atmosfera única em que a trilha sonora, a fotografia e a atuação do elenco convergem para a criação do universo imersivo de Alice.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A ambientação de Alice contribui não só para a verossimilhança da série, já que o principal plot é a adaptação da protagonista na metrópole, mas como elemento narrativo. Isto é, muitos sub plots são desencadeados a partir do lugar onde se passa a trama. Como, por exemplo, no episódio Pela Toca do Coelho, exibido no dia 21 de setembro de 2008, a protagonista só conhece DJ (Peter Ketnath) e, consequentemente trai o noivo Henrique Teles (Marat Descartes), porque fica perdida na cidade. Nesse contexto, vários conflitos na história acontecem por conta o lugar onde Alice (Andréia Horta) está.

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A série é composta por diversas sequência externas em pontos turísticos e lugares conhecidos de São Paulo como, por exemplo, o bairro da Liberdade, a Avenida Paulista e o Edifício Copan. O mesmo pode ser observado nas cenas se que passam em Palmas, no Tocantins.  Locais como a Praça dos Girassóis e o Jalapão também integram a atração.

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Outro ponto importante na análise da ambientação de Alice é contraponto entre as cidades de Palmas e São Paulo e como esse aspecto se reflete nos perfis dos personagens. Ou seja, as características dos personagens vão ao encontro a atmosfera dos lugares. Dani (Luka Omoto) e Marcela (Gabrielle Lopez), por exemplo, refletem de maneira nítida a vida noturna e a diversidade da capital paulista. Em contrapartida Glícia (Walderez de Barros) e Henrique Teles (Marat Descartes) dialogam com a introspecção de Palmas.

alice4A caracterização dos personagens de Alice reforçam o desenvolvimento dos arcos narrativos de série.  Nesse sentido, o modo de se vestir dos personagens dialoga diretamente com suas características centrais. Se estabelecermos um paralelo entre os pares românticos da protagonista este aspecto fica claro. Enquanto as roupas usadas por Henrique Teles (Marat Descartes) são simples, com combinações monocromáticas, o figurino de Nicholas Araújo (Vinicíus Zinn) é mais ousado, misturando ternos de alta costura com camisas básicas.

Na trama, Henrique (Marat Descartes) representa a antiga e, pacata, vida de Alice (Andréia Horta) em Palmas. Onde todos se conheciam e tinham uma rotina bastante monótona. Já Nicholas (Vinicíus Zinn) representa o novo na história, o personagem está sempre nas melhores baladas da metrópole, conhece muita gente e não tem medo de se arriscar em novos projetos.

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A transição de Alice (Andréia Horta), que deixa Palmas e vai para São Paulo, também fica clara em sua caracterização. Além das mudanças na personalidade da personagem, que ganha mais auto estima e confiança, as roupas usadas por ela externalizam esse processo de amadurecimento. Nas primeiras sequências de série vemos a protagonista usando roupas básicas em tons claros, porém com o passar dos episódios Alice (Andréia Horta) muda o seu visual. As roupas, em que maioria na cor preta, apresentam muitos brilhos e decotes. Dessa forma, o indicador ajuda nos desdobramentos dos arcos narrativos ao acompanhar o perfil dos personagens.

A trilha sonora de Alice é composta por várias músicas de novos artistas brasileiros como, por exemplo, Instituto e Irina Gatsalova, Estela Cassilatti, Boss In Drama, 3 na massa, Curumin,entre outros. As canções reforçam os plots e sub plots da trama e também refletem a atmosfera criada por Karim Aïnouz. Desde a harmonia das baladas eletrônicas até as letras das musicas românticas dialogam com a trajetória da protagonista e a megalomania da metrópole.

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As sequências externas de Alice apresentam, em sua grande maioria, uma fotografia naturalista. Porém, as cenas em que a protagonista vai para a noite de São Paulo são pautadas por filtros que realçam o contraste dos elementos cênicos. O recurso também estabelece um diálogo com a abertura da série, que explora vários planos da capital paulistas com o efeito light painting.

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Composta por uma edição não linear, ou seja, que apresenta analepses, a série da HBO Brasil usa o indicador para ampliar o universo ficcional da protagonista. Nesse sentido, os flashbacks ajudam o telespectador a conhecer melhor a vida de Alice (Andréia Horta) e como esses acontecimentos contribuíram para a formação de sua personalidade e para as situações abordadas na atração.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmídia literacy.

Os episódios de Alice são permeados por referências externas ao universo ficcional da série. Durante as sequências da trama é possível identificar citações a livros, filmes e artistas contemporâneos. Porém, a intertextualidade mais presente na série é a obra de Lewis Carroll, o livro Alice no País das Maravilhas. As correlações entre a conhecida história infantil e a série da HBO são claras e abarcam o nome do programa, os desdobramentos narrativos, os figurinos e até os títulos dos episódios.

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Logo na sequência inicial da atração, na abertura, vemos a imbricação entre a Alice do País das Maravilhas e a Alice (Andréia Horta) de São Paulo. As imagens da metrópole paulistana são espelhadas, a protagonista aparece brincando com um coelho e as transições são marcadas por cartas de baralho. Nos episódios podemos identificar que assim como a protagonista de Lewis Carroll, a Alice (Andréia Horta) de Karim Aïnouz também está perdida em um mundo desconhecido que será fundamental para seu amadurecimento pessoal. Os elementos cênicos do programa reforçam a alusão feita pelos roteiristas como, por exemplo, na festa do primeiro episódio da série que toda a decoração é composta por coelhos. A correlação das obras também pode ser observada nos títulos de alguns episódios que apresentam referências a aspectos centrais da história de Carroll tais como, Pela Toca do Coelho, O Lado Escuro do Espelho e Wonderland.

As setas chamadas são usadas em vários pontos da trama, o recurso ajuda o telespectador a compreender as angustias e a trajetória da protagonista. Nesse sentido, durante os episódios Alice narra, em off, a sua percepção dos acontecimentos, deixando claro para o público o que está se passando naquele momento. Outro cartaz narrativo usado na atração são os resumos da história de vida da personagem, ao longo dos episódios é possível acompanhar, através de flashbacks, situações importantes que contribuíram, mesmo que indiretamente, para a construção da personalidade de Alice. Dessa forma, o indicador escassez de setas chamativas não foi identificado.

Apesar de ser composta por reviravoltas e clímax, a trama de Alice não obriga o telespectador a reconsiderar tudo o que lhe foi apresentado até então. Em outras palavras, episódios como, por exemplo, Pela Toca do Coelho e O Lado Escuro do Espelho apresentam mudanças consideráveis no roteiro quando a protagonista passa por transformações tais como ficar em São Paulo e terminar com Henrique (Marat Descartes), mas nenhum desses acontecimentos ressignifica o universo ficcional da série, por tanto o indicador efeitos especiais narrativos não foi observado.

Como ressaltamos anteriormente, a trama de Alice apresenta vários flashbacks. O recurso é usado para aprofundar a história da protagonista, fazendo com que o telespectador conheça pontos importantes da trajetória da personagem. No primeiro episódio da temporada, por exemplo, é possível observar momentos da infância de Alice (Andréia Horta), o suicídio de Ciro, como Alice (Andréia Horta) e Henrique (Marat Descartes) se conheceram, etc. Nesse sentido, o indicador recurso de storytelling contribui na densidade da história, explorando vários desdobramentos importantes na vida de Alice (Andréia Horta).

Seguindo o modelo de ações transmídia de outras tramas da HBO, as estratégias de engajamento de Alice são consideradas um marco no estudo do fenômeno no Brasil. Apesar de serem comuns para atrações internacionais da HBO, poucas produções nacionais tiveram seu universo ficcional expandido em múltiplas plataformas. Ao longo da primeira temporada foram desenvolvidas sete ações transmídia. Hospedado dentro da página do canal HBO, o site oficial de Alice reunia a maioria das estratégias da série. Através do menu da página era possível acessar os perfis fictícios da personagem nas redes sociais, fazer o cadastro do e-mail e/ou do telefone celular para receber informações da trama, além de conhecer outros desdobramentos da história, como iremos detalhar mais adiante.

alice9Para divulgar a série, a HBO deixou pen drives em várias festas de São Paulo. O dispositivo continha informações sobre a trama de Karim Aïnouz, tais como: clipes, fotos e wallpapers. Além de apresentar a atração ao público, o lugar onde os pen drives foram deixados dialogava diretamente com a proposta da série e o novo estilo de vida de Alice (Andréia Horta).

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Disponibilizadas em um blog e na plataforma LiveSpace, as publicações de Alice (Andréia Horta) relatavam a vida da protagonista antes de sua viagem para São Paulo, mostrada no primeiro episódio da série. Nesse sentido, o conteúdo representava o início da trajetória da personagem. Durante a exibição da trama, as plataformas eram atualizadas três vezes por semana com postagens que contribuíam para a expansão da narrativa. Ao acessar os conteúdos o público podia conhecer as percepções de Alice (Andréia Horta) sobre os acontecimentos que foram mostrados no episódio.

Com o objetivo de aproximar os telespectadores da protagonista da série da HBO, foi criado um bot no extinto MSN (originalmente The Microsoft Network). O robô respondia aos comandos pré programados que eram gerados a partir de palavras chave. Ao adicionar a personagem no MSN o telespectador poderia conhecer melhor o passado de Alice (Andréia Horta), suas expectativas para sua nova carreira profissional em São Paulo, entre outros conteúdos extras.

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Outra forma familiarizar o público com os personagens e trazer verossimilhança para a trama foi a criação de perfis da extinta rede social Orkut. Além de interagir com Alice (Andréia Horta), Teobaldo (Juliano Cazarre), Marcela (Gabrielle Lopez) e Nicholas (Vinícus Zinn) o telespectador ainda podia acompanhar as mensagens trocadas entre os personagens. O conteúdo reforçava e ampliava o universo ficcional da atração HBO. O mesmo aconteceu no Facebook, porém na rede social apenas a protagonista tinha um perfil. A página reunia relatos, fotos, vídeos, indicação de músicas e passeios em São Paulo. Os telespectadores também podiam fazer perguntas à protagonista.

As músicas que compunham a trilha sonora de Alice foram disponibilizadas pela HBO no Blip.fm. Ao acessar o perfil da série, também era possível escutar as playlists que Alice (Andréia Horta) criava para as suas festas.

alice12Após a exibição da temporada no canal pago HBO, a protagonista manteve seu perfil no Twitter ativo, inicialmente as postagens na rede social iam ao encontro dos conteúdos disponibilizados no Facebook. Porém, com o término da trama, o perfil deu continuidade ao universo ficcional. Os tuítes ressaltam o cotidiano e as angustias da protagonista.

Em 2010, a HBO lançou dois telefilmes de Alice intitulados O Primeiro Dia do Resto da Minha Vida e A Última Noite, respectivamente. Os episódios mostravam os novos desafios da vida de Alice (Andréia Horta), após a sua mudança definitiva para São Paulo. Entretanto, apesar integrarem o universo ficcional da série, os telefilmes podiam ser assistidos de forma isolada. Isto é, para compreender a trama não era necessário que o público tivesse assistido a primeira temporada.

As ações transmídia de Alice contribuem diretamente para o aprofundamento do universo ficcional da série. Ao acompanhar as estratégias o público conhecia novas perspectivas da história. Cada desdobramento da atração apresentava uma linguagem e um propósito diferente, nesse sentido o telespectador interagente tinha que interconectar as distintas estratégias. Dessa forma, o indicador transmedia literacy foi identificado atração da HBO, pois as ações estimulam o público a fazer uma leitura multilateral. Seja na interação com o bot, nas postagens nas mídias sociais ou nos conteúdos complementares os telespectadores tinham que interpretar variados contextos midiáticos e correlacionados a narrativa televisiva.

Por Mariana Meyer

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