As Canalhas

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As Canalhas é uma série de televisão brasileira exibida pela GNT desde 6 de maio de 2013. Inspirada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, conta com a direção geral de Vicente Amorim e a produção da Migdal Filmes. As emissões, que terminaram em junho de 2015, trouxeram, em cada temporada, 13 mulheres, uma para cada episódio, contando suas “maldades” contra suas vítimas em um salão de beleza. Exibido todas as terças-feiras às 22h30, o programa durava de 20 a 25 minutos e contava com poucas personagens fixas, sendo Marilyn (Zezeh Barbosa), a dona do salão em que cada história se inicia, uma das poucas.

Na série, cada episódio mostra uma mulher relatando friamente a algum profissional do salão de beleza suas maldades contra maridos, filhos, patrões ou namorados, enquanto se cuida. Além da sua intrínseca relação com as redes sociais, a temática da série já se anuncia também logo no início, ainda na vinheta de abertura e na música que a compõe. Nesse começo, são mostradas fotos frontais e da lateral direita do corpo de todas as protagonistas da série, em preto e branco, e em plano médio, segurando uma placa com seus nomes, cidades e alguns números, o que nos remete às fotos de identificação tiradas nas cadeias. A música de abertura que acompanha as imagens, uma produção musical do estúdio Maravilha 8, também nos ajuda a entender que o objetivo do programa é subverter o comum e mostrar o outro lado das mulheres,um lado pouco mostrado: “Eu te quero sim. Ao mesmo tempo eu me pergunto: o que vai ser de mim agora? Nessa hora, a encruzilhada, quando aparece na tua frente aquela fera tão querida, na valha no olho do furacão. Pedrada amorosa no coração. Canalhinha, canalhosa, canalhuda, canalhante, canalhianque, fêmea, canalha”.

Além da vinheta de abertura, outros elementos também são destaques, como a narração em off, que ocorre a todo momento, quando a personagem principal narra um fato e na tela aparece a situação relatada; a caracterização da protagonista no começo de cada episódio, como no exibido no dia 3 de junho, com a descrição “INGRID 29 ANOS, LOIRA EM ASCENSÃO”, ou no do dia 8 de junho, com a descrição “ISABELA 15 ANOS, ESTUDANTE”; e a pronúncia de ao menos uma vez no episódio da palavra canalha. No exibido do dia 10 de junho, por exemplo, na caracterização da história, aos 18 minutos e 40 segundos, a personagem Meg indaga ao personagem Jandir: “Quem é? Quem é a canalha? Pelo menos me diz: quem é a canalha?”. 35 segundos depois, aos 19 minutos e 15 segundos, o personagem Geraldo pronuncia quase a mesma coisa à esposa: “Quem é o canalha? Pelo menos me diz: quem é o canalha?” Como vemos, além de canalha ter sido falada mais de uma vez na emissão, foi proferida duas vezes por cada personagem em cenas seguidas uma da outra, como se a trama e o roteiro pretendessem, de certa forma, justificar o nome da série.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi pouco observado em todos os episódios. Apesar de apostar na subversão dos gêneros (pois “cafajestagens” como as retratadas são características, estigmatizadas e comumente vistas em personagens masculinos) e de a atuação das protagonistas ser ideal e passar total credibilidade para quem assiste (desconstruindo a ideia de que somente os homens são canalhas), o programa também faz uso de estereótipos de afirmação. O episódio exibido no dia 3 de junho de 2013 é um exemplo desse uso, pois aborda mulheres que ascendem socialmente de forma aparentemente inexplicável.

No decorrer do episódio, são mostradas quatro cenas em que a personagem principal Ingrid mantém relações sexuais com três homens e uma mulher. Ao final das cenas com os homens, depois do ato sexual, cada um deles falou que Ingrid tinha muito talento, o que fez sentido no final do episódio, aos 21 minutos e 43 segundos, quando na sua última fala a personagem principal disse: “Tudo que eu quis na minha vida, eu consegui com o meu trabalho, fruto do meu talento”. Nesse episódio, por exemplo, o programa estereotipou mulheres de sucesso ao deixar subentendido que elas só conseguiram alavancar a sua carreira tendo relações amorosas e sexuais com pessoas influentes do mundo artístico, como produtores de elenco, diretores, atores e empresários, do mesmo sexo ou não, ajudando a confirmar essa concepção do senso comum.

O indicador de qualidade oportunidade foi razoável nas emissões, pois estas não se pautam na agenda midiática para a escolha dos seus temas, mas nas abordagens recorrentes da vida social, que abarcam problemáticas e situações passíveis do dia-a-dia de qualquer pessoa. Outro indicador do plano do conteúdo, o diversidade de sujeitos representados apresentou valores significativos. O episódio em que esse indicador mais foi observado foi o do dia 27 de junho, em que trouxe na trama pessoas de diferentes cores, classes e orientações sexuais, representados pela protagonista da história, a acompanhante de idosos de pele branca, o namorado, o porteiro de pele negra, o filho gay, o idoso homofóbico e preconceituoso, e a senhora empregada doméstica.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, a ampliação do horizonte do público, duas emissões analisadas mostraram-se razoáveis e três boas. No episódio do dia 13 de maio, por exemplo, a personagem principal Carol faz uma declaração pertinente e relevante para os dias atuais que pode contribuir para que os telespectadores reflitam sobre o assunto. Aos 8 minutos e 52 segundos, durante o seu relato, ela diz: “Além do mais, eu pensei: ‘poxa, se ele quer tanto ter um filho, ele com certeza vai assumir várias responsabilidades em relação a essa criança, vai ajudar a cuidar, botar pra dormir, lavar fralda, trocar fralda, enfim, essas coisas, né, que pai ajuda a fazer’”. Ao afirmar que os pais ajudam na realização dessas tarefas, é possível que reflexões tenham sido despertadas em alguns pais ausentes que assistiam ao programa no momento.

Outro exemplo em que a abordagem de temas polêmicos e contraditórios foi utilizada está na emissão do dia 27 de maio. Antes do diálogo que se inicia, Gisleine e Agenor estão andando na rua, quando um menino passa vendendo bala:

GISLEINE: O que quê foi, seu Agenor?
AGENOR: Ahh, na minha época não tinha isso aqui não…
GISLEINE: Isso aqui o quê?
AGENOR: Criolo vendo balinha na rua. Não sabe o que foi o regime militar. Era aquela disciplina, ordem na rua.
GISLEINE: Racismo é crime, viu, seu Agenor. E é pecado também.

Após esse diálogo, que faz parte da história narrada pela protagonista, a cena é cortada para o salão de beleza, e Gisleine continua o seu relato: “Ainda bem que eu não peguei essa ditadura aí, viu. Já imaginou: um bando de velho feito o seu Agenor, comandando tudo aqui no Brasil? Deus me livre e guarde”.Essa sequência de falas, portanto, aborda temas relevantes para a sociedade e possuem elementos essenciais para contribuir com a ampliação do horizonte do público, enriquecendo a visão de mundo do telespectador interagente, apresentando outros pontos de vista e estimulando o pensamento e o debate de ideias. Abaixo podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Analisando a série à luz dos aspectos que compõe a Mensagem Audiovisual, identificamos que o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas. Isso se deve, principalmente, a dois fatores: à maneira com que a série é referida nas redes sociais, e à vinheta de abertura, pertencente ao plano da expressão. Como já adianta o próprio site do programa, “a série mostra que os homens podem ser mais canalhas em quantidade, mas que as mulheres sabem ser com muito mais qualidade”, ou seja, o programa objetiva mostrar o grau de canalhice que algumas mulheres têm, que muitas vezes ultrapassa o nível pré-estabelecido para o homem, normalmente subjugado como o gênero mais cafajeste.

Quanto ao indicador originalidade/criatividade, o programa também foi muito bem pontuado em todas as cinco emissões analisadas. Apesar de parecer mais uma série televisiva que traz protagonistas e vilões, conflitos e reviravoltas, o programa inova ao colocar mulheres interpretando papéis que geralmente são destinados aos homens.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi notado de forma considerável nas emissões, pois estas se desenvolvem sempre no mesmo formato:mesclando o depoimento da personagem principal com a história que está sendo contada. Na confissão, as protagonistas interagem, falam e olham para a câmera, com entonação e perguntas, como se estivessem conversando pessoalmente com quem está do outro lado da lente, numa tentativa de gerar intimidade e identificação com o público, o aproximar da trama e prender a sua atenção. Um exemplo disso pode ser identificado no episódio Carolina, da 1ª temporada, em que no primeiro minuto e 39 segundos a protagonista Carol se deita na cama de massagem e sua filha, que não está aparecendo em cena, começa a chorar. Após ouvir o choro, Carol lamenta: “Ai, gente, acabou meu sossego. Por favor, Marilyn, você pode ir lá calar a boca dessa criança?”. Neste momento, a massagista sai de cena e a personagem retorna a falar, olhando pra câmera e sem ninguém a sua volta, como se estivesse se comunicando com o público.

Último indicador da mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas não foi muito identificado no programa. Sua baixa avaliação somente se deve ao fato de a história se adaptar à convergência midiática, pois foi inicialmente contada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, e depois transformada em um produto audiovisual, portanto, uma outra plataforma. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador teve na mensagem audiovisual:

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À luz dos modos de representação adotados pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual, As Canalhas se destacou na atuação verossímil dos personagens e nas construções das cenas. A subversão de gênero, bem como a abordagem de temas comuns da vida social, causam não só uma identificação com o púbico, que quer ver nas telinhas o que acontece na vida real, mas também a curiosidade de ver como essa nova trama se desenvolverá, se será criativa e credível ao ponto de se assemelhar à realidade e fazê-lo acreditar no que vê.Nos modos de experimentação, ouso dos recursos técnico-expressivos de apostar numa interação com o públicoatravés da linguagem e da função da câmera, que serve como um canal entre o personagem e o espectador, também foi de certa forma inovador, pois prende a atenção do público e assim contribui para uma possível reflexão e debate sobre o que está sendo falado.

Por Luma Perobeli

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