Bope, o lado obscuro do Rio

O documentário Bope, o lado obscuro do Rio (2008), dirigido pelo francês Antoine Robin e produzido pela RTPi – Rádio e Televisão Portuguesa Internacional – é um filme que permite um vasto questionamento sobre uma série de aspectos envolvendo a narrativa audiovisual, especialmente no que tange ao olhar estrangeiro e as consequências do mesmo na enunciação e recepção, por isso, podemos dizer que é uma obra, no mínimo, controversa.

Optamos por incluí-lo nesse dossiê para buscar compreender esse “olhar de fora”, comum nas reportagens televisivas, que poderia contribuir para visibilizar a violência social brasileira, mas acaba por disseminar interpretações superficiais e simplistas sobre nossa complexa realidade social, demonstrando ainda desconhecimento de nossa história político-econômica. Muitas vezes, essa visão estrangeira vem carregada de estigmas e estereótipos, os quais podem acabar inseridos na obra através das escolhas de enquadramentos, da seleção de personagens, tipo de entrevista, montagem, dentre outras operações tomadas pelo cineasta que tornam o enunciado mais um “ponto de vista” do que a visão ampla de determinado contexto.

Filmado durante o primeiro semestre de 2008, principalmente nas favelas Jacarezinho e Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, o documentário acompanha, numa espécie de diário de bordo feito através de uma narração em off, as ações de policiais da CORE – Coordenadoria de Ações Especiais da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais, órgão da Polícia Militar, considerados as “tropas de elite” da polícia brasileira. No filme, são comparados respectivamente ao FBI e à SWAT, numa aproximação que não leva em conta suas diferenças e singularidades.

Como um produto televisivo destinado ao mercado europeu, o filme foi produzido somente para exibição em Portugal e na França, pela RTP. Entretanto, tornou-se conhecido dos brasileiros porque o DVD pirata acabou fazendo sucesso nos camelôs cariocas, na esteira do ocorrido no ano anterior com Tropa de Elite (2007), ficção de José Padilha, que tinha como protagonista exatamente um capitão do BOPE. Nesse sentido, partimos do princípio de que o intuito inicial era apresentar ao espectador europeu a situação da violência no Rio de Janeiro e como a tropa de policiais considerada de “elite” age diante dela.

Nas bancas de camelôs, o documentário Bope, o lado obscuro do Rio foi lançado com o título de Tropa de elite 4. O mercado da pirataria já tinha identificado o alto interesse do público pelo tema e tratado de lançar no mercado outros filmes com essa temática. No mesmo período, como Tropa de Elite 2,  piratearam Notícias de uma guerra particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund (filme que abriu esse dossiê de Violência Social). Também lançaram um Tropa de Elite 3, compilado de imagens feitas por policiais do 12º Batalhão da Polícia Militar (BPM) de Niterói sobre as operações da Polícia Militar nos morros daquela cidade.

Tema e montagem

Bope evoca a estrutura narrativa de Notícias, também organizada como reportagem televisiva que se propõe a ouvir todos os setores envolvidos na problemática da violência urbana: policiais, traficantes e moradores. Porém, faz isso de forma superficial, sem relacionar os depoimentos ao contexto brasileiro, o que não permite ao espectador estrangeiro, que desconhece a nossa realidade, estabelecer as conexões necessárias para o entendimento de um problema de tamanha complexidade.

O documentário começa acompanhando as ações do CORE, inicialmente uma operação na favela do Jacarezinho. “Às 7h30 da manhã tudo parece calmo, e de repente é o caos” (…) Parece uma guerra civil, mas é uma manhã normal no Rio de Janeiro” (BOPE, 2008), diz o locutor. A narração em off organiza todo o filme e se sustenta numa montagem sensacionalista, e numa locução  (do português Paulo Coelho) cheia de comentários, o que demonstra o ponto de vista dos realizadores, porém há que se questionar se o espectador tem competências necessárias para perceber essa mediação.

Assim, a falta de cuidado da produção com a abordagem do tema e a montagem resulta num filme desconectado, em que os depoimentos não conversam e não contribuem para a reflexão do tema. A montagem parece mais uma colagem de fragmentos do que um processo articulado. A locução só é interrompida durante a fala dos entrevistados, e ainda são cometidos equívocos, como o de identificar o BOPE como uma força especial do Exército Brasileiro.

Ao apresentar o Rio de Janeiro como uma “cidade de contradições”, o filme até mostra aos europeus aspectos da desigualdade social brasileira, mas não tem profundidade, referindo-se à cidade de forma sensacionalista, “local onde os mais ricos e os mais pobres coexistem sem trocar sequer um olhar! O Rio é um paraíso para os turistas e é também miséria!” (BOPE, 2008), diz o locutor. E seguem-se explicações superficiais e comparações generalistas, como já mencionado. O filme ainda trabalha de maneira descontextualizada os números da violência e das mortes, atribuindo, por exemplo, o aumento de 33% nas mortes de traficantes em um período de dois anos (2006-2008) a um “endurecimento da política contra a droga imposta pelo presidente Lula” (BOPE, 2008), sem informar aos espectadores dados de períodos anteriores ou buscar dar profundidade à informação.

Risco e hegemonia

Algumas cenas, filmadas durante as operações dos policiais, parecem se abrir ao risco, à possibilidade de algo não planejado acontecer. Mas percebe-se, pela própria condução da narrativa, que não foi um risco propriamente dito, mas a tentativa de  captar exatamente o que precisavam para compor a história – tiroteios, perseguições aos traficantes, crianças brincando ao redor sem serem impactadas pelas ações dos policiais e criminosos. As cenas capturadas nessas condições não são complexificadas como o contexto requer. O narrador apenas detalha o que acontece, como se sua função fosse somente a de traduzir em palavras o que é mostrado na tela.

Sobre a questão hegemonia x contra hegemonia, o fato de a obra se pautar em um modelo telejornalístico, onde o assunto já apresenta um enquadramento prévio, sem dar espaço ao espectador para refletir e fazer as suas asserções acerca que vê, acaba colocando o documentário como hegemônico.

Relação personagens e diretor e a voz do documentário

Numa tentativa de mostrar o outro lado, o filme inclui os registros feitos no Morro do Cantagalo, favela situada em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Somos informados que para ter acesso ao local a produção teve que negociar um pagamento de mil reais para que um “guia” os acompanhasse. Um dos líderes do tráfico na região é entrevistado, reclama ser visto somente como traficante e promove seu “trabalho social”: “Fazemos o que o governante não faz, damos remédio, passagem. O desemprego é tão grande e a saúde tão precária que eles se revoltam e vêm para o crime, onde têm um salário muito mais alto, de R$ 5 mil a R$ 10 mil por mês.” (BOPE, 2008)). Ironicamente, é o traficante brasileiro quem explica ao realizador europeu e sua equipe um pouco sobre a realidade social brasileira.

No filme, alguns moradores contam como é conviver com a violência diária e com as perdas de familiares e amigos, mas novamente o tratamento ao tema não mostra profundidade e não busca estabelecer conexões, prejudicando a identificação do espectador  com o filme. De certo modo, todos os personagens do documentário são apresentados de maneira bastante superficial, o que impede que qualquer projeção / identificação seja feita.

O documentário dedica quase a metade do seu tempo para mostrar o pesado treinamento físico e tático do Bope e a rígida preparação dos agentes para agir em situações de confronto nas favelas, e também em ações envolvendo sequestros e reféns. Mas são preparados sobretudo para atuar nessa “guerra não declarada” das favelas, como enfatiza o policial que se exibe com os trajes e equipamentos usados nas operações. Quase 40 quilos de armamento de guerra, como exalta a fala da produtora brasileira, que ouvimos em off em algumas entrevistas. A tentativa parece ser de retratar a realidade daqueles policiais, mas isso é feito de forma simplista e generalizante, seja no que tange aos seus comportamentos, ou quanto ao dos demais personagens.

A partir de 34 minutos, o filme passa a acompanhar uma das operações do BOPE, e assume essa proximidade quase como uma vantagem, tendo a equipe de filmagem autorização inclusive para gravar dentro do “Caveirão”, o veículo blindado do BOPE. O documentário segue enfocando unicamente a corporação e ressaltando as inúmeras músicas e o longa-metragem feitos para enaltecer a imagem dos policiais como as verdadeiras “estrelas” do Rio.

Na sequência final, uma das mais impactantes do filme, vemos o Caveirão chegando ao hospital com o traficante baleado na operação que a produção acompanhou e somos informados de que esse homem morreu. O policial que atirou é saudado pelos colegas e conta que a vítima, “mesmo com dois tiros no peito, correu 20 metros”. A produtora pergunta se o suspeito, que estava armado, reagiu, ao que ele responde: “Não teve tempo”.

O oficial responsável pela operação fala sobre a sensação de “dever cumprido”, pois “é menos um elemento marginal na sociedade”. Ele ainda culpa o traficante que reagiu e sugere ironicamente: “Se eu fosse eles quando o BOPE chegasse eu me esconderia, mas eles querem pagar pra ver e é isso que acaba ocorrendo”. Tal questão, que poderia render uma discussão ampla, não é vista pela produção como motivo de aprofundamento, conforme o discurso organizado pela montagem.

Com tudo isso, o  filme acaba não contribuindo para uma reflexão crítica sobre essa lógica perversa da violência social brasileira que, seja no Rio de Janeiro,em São Paulo ou em qualquer outra metrópole brasileira, tem causas profundas e continua dizimando gerações de jovens, pobres e negros nas periferias brasileiras.

Documentário disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9QJcRy5rz1o

Referências

BOPE, O LADO OBSCURO DO RIO.  Direção Antoine Robin. Rio de Janeiro, 2008, 51’52 minutos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=9QJcRy5rz1o>.

UCHÔA, Alicia. ‘BOPE, o lado obscuro do Rio’. Documentário sobre as favelas exibido pela RTP chega às ruas do Rio de Janeiro. Portal G1, Rio de Janeiro, 25 SET., 2008.  Disponível em:<http://www.dnoticias.pt/hemeroteca/184727-bope-o-lado-obscuro-do-rio-GDDN184727>

 Por Beatriz Colucci
Tatiana Vieira

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