Capitu

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  • Roteiro: Euclydes Marinho
  • Colaboração: Daniel Piza, Luís Alberto de Abreu e Edna Palatnik
  • Texto final: Luiz Fernando Carvalho
  • Direção-geral e de núcleo: Luiz Fernando Carvalho
  • Período de exibição: 09/12/2008 – 13/12/2008
  • Nº de episódios: 5
  • Horário: 23h

Produzida pela Rede Globo em comemoração ao centenário da morte do escritor Machado de Assis, a minissérie Capitu foi ao ar entre os dias 9 e 13 de dezembro de 2008. Baseada no livro Dom Casmurro, publicado em 1899, a trama foi a segunda produção do Projeto Quadrante, que tem como objetivo adaptar para a televisão obras da literatura nacional. Com o elenco formado por Michel Melamed (Bentinho), Maria Fernanda Cândido (Capitu), Eliane Giardini (Dona Glória), Ezequiel Santiago (Alan Scarpari), Antônio Karnewale (José Dias), Beatriz Souza (Capituzinha), Letícia Persiles (Capitu jovem), Emílio Pitta (Padre Cabral), entre outros, a atração teve o roteiro final e a direção geral de Luiz Fernando Carvalho.

O arco narrativo central conta a trajetória de Bento Santiago (Michel Melamed/ César Cardadeiro), que, por uma promessa da mãe, é destinado ao seminário para tornar-se padre. Porém, o menino é apaixonado pela amiga Capitu e tenta, de todas as formas, se livrar da vida eclesiástica. Ao longo da minissérie, é possível acompanhar o desenrolar da história de Bentinho e Capitu, bem como sua ruína, causada, principalmente, pelos ciúmes do protagonista.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Filmada, quase totalmente, no Automóvel Club do Brasil, antigo palácio localizado no centro do Rio, a minissérie traz diversos aspectos teatrais. O cenário é composto por poucos elementos e o mesmo ambiente é utilizado para representar quase todos os locais da trama. A iluminação e as próprias atuações também reforçam tais aspectos e as famosas cortinas vermelhas do teatro são utilizadas em diversos momentos. Além disso, coreografias de dança compõem algumas cenas.

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Os figurinos e os cenários remontam o século XIX, época em que se passa o livro. Entretanto, elementos da atualidade são inseridos em certos momentos, criando paralelos entre passado e presente. Conforme aponta Luiz Fernando Carvalho, “Pensei muito nos jovens. Queria quebrar o preconceito com a obra de Machado, geralmente empurrada goela abaixo nas escolas. Existe a percepção de que Machado é confuso, obscuro e obtuso” (DAUROIZ, 2008, Online)

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Já a trilha sonora ajuda a reforçar o sentido da narrativa e varia de acordo com o estado psicológico dos personagens e também com o desenrolar da cena. No quarto episódio da minissérie, por exemplo, Escobar e Bentinho conversam sobre dinheiro e renda, enquanto ao fundo toca a música Money, da banda Pink Floyd.

Outro exemplo de reforço pela trilha sonora pode ser encontrado no primeiro episódio, exibido no dia 9 de dezembro de 2008, quando uma música de tensão interrompe uma música suave ao Bentinho descobrir que Dona Glória pretende levá-lo ao seminário.

Assim como feito pela direção de arte, as músicas também variam entre clássicas e contemporâneas, opondo bandas como Pink Floyd e Black Sabbath a orquestras como Beirut. Nesse contexto, mais uma vez, a trama reforça o paralelo passado-presente.

A minissérie recebeu boas críticas em relação à fotografia, sendo escolhida como Melhor Fotografia pelo Prêmio ABC de Cinematografia. Enquanto a maioria dos monólogos do protagonista é marcada por sombras e penumbras, as cenas que revivem o passado de Bentinho já apresentam uma iluminação mais clara. Nesse contexto, a felicidade dos tempos de juventude se contrasta com a amargura do envelhecido Bentinho. Os tons utilizados na paleta de cores são sóbrios e reforçam tal cenário.

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Já em relação à edição, a narrativa intercala monólogos de um Bentinho presente com sequências que revivem seu passado. Ele, por vezes, interage com os acontecimentos passados ao desenrolar de tais cenas. Durante os monólogos, é comum o uso de cortes descontínuos, que quebram a lógica dos cortes invisíveis.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Em relação à intertextualidade, ao longo da narrativa é possível identificar menções a lugares como São Paulo e Itália e a obras como Macbeth e Otelo. Outro diálogo intertextual é feito com o filme Psicose, de Alfred Hitchcock. Há um plano da minissérie que pode ser relacionado estreitamente à famosa cena do chuveiro do cineasta britânico.

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Por fim, o uso de setas chamativas não foi observado com constância, o que induz o espectador a completar o sentido da narrativa. As sequências oníricas e os paralelos entre passado e presente não são didaticamente explicados ao público, o qual tem que se adaptar à lógica da narrativa. Entretanto, a presença do narrador Bentinho, somada à utilização de algumas imagens de arquivo históricas que ajudam a situar o espectador diante da falta de alguns cenários explícitos, facilitam a compreensão da trama.

Já em relação aos efeitos especiais narrativos, a trama apresentou o clímax e reviravolta apenas no quinto e último episódio. A partir de então, o curso da narrativa é alterado de forma considerável, mas não a ponto de fazer o espectador reconsiderar toda a trama até então.

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No que diz respeito ao indicador recursos de storytelling, a narrativa apresenta diversas sequências oníricas ao longo de todos os episódios, as quais, muitas vezes, ajudam a endossar o estado psicológico do protagonista Bentinho. No primeiro episódio, por exemplo, o protagonista vê sombras que dançam, mas não há ninguém no local além dele. Ainda no mesmo episódio, Bentinho, já envelhecido, assiste a jovem Capitu brincar e dançar, interagindo, de certa forma, com a menina. Tais encontros impossíveis entre passado e presente se repetem ao longo de toda trama, assim como diversas outras sequências dessa natureza. Não fica nítido ao espectador o que é realidade e o que é fantasia. Cabe ao público, portanto, compreender e completar os sentidos de tais sequências dentro da trama.  Há ainda a apresentação de alguns flashbacks funcionais, que introduzem alguns personagens, como José Dias (Antônio Karnewale).

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Referências

DAUROIZ, Alline. Ela quer seduzir jovens. Estadão, dez. 2008. Disponível: <http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,ela-quer-seduzir-jovens,285883>. Acesso em: 5 jun. 2017

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