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Dupla Identidade

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  • Roteiro: Gloria Perez
  • Direção: Mauro Mendonça Filho e René Sampaio
  • Direção de núcleo: Mauro Mendonça Filho
  • Período de exibição: 19/09/2014 – 19/12/2014
  • Horário: 23h30
  • Número de episódios: 13

Dupla Identidade é uma série policial escrita por Glória Perez com direção de Mauro Mendonça Filho para o horário das 23h30 da Rede Globo. Exibida pelo canal aberto entre 19 de setembro e 19 de dezembro de 2014, a trama busca abordar o universo dos serial killer (assassino em série, em português). Este tipo de criminoso comete crimes com certa frequência e segue um modus operandi, muitas vezes deixando sua assinatura.

No caso de Dupla Identidade, acompanhamos Edu (Bruno Gagliasso), que é, aparentemente, um bom rapaz. Formado advogado, estudante de psicologia, voluntário em um grupo de atenção à vida e funcionário do senador Oto (Aderbal Freire-Filho), porém, sua face oculta é um assassino em série de mulheres. A onda de morte de mulheres assombra a cidade e uma equipe de força-tarefa é designada para trabalhar com o delegado Dias (Marcello Novaes) na resolução do caso que, pelas características, cogitam ser um assassino em série. A psicóloga forense Vera (Luana Piovani) então é convocada por conta de sua experiência no FBI e vasta literatura publicada sobre o tema. Enquanto desenrola-se a investigação, Ray (Débora Falabella), uma produtora de moda com transtorno de bordeline se apaixona pelo criminoso trazendo riscos para si e sua filha, ainda pequena.

O elenco da produção conta ainda com Marisa Orth, Bernardo Mendes, Mariana Nunes, Bárbara Paz, Luana Tanaka, Maria Eduarda Militante, Paulo Tiefenthaler, Felipe Hintze e Thiare Maia. Em 2017, os episódios da série foram condensados em formato de telefilme para a plataforma de vídeos sob demanda GloboPlay, do Grupo Globo.

Para a análise do Plano da Expressão, observamos os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Dupla Identidade é ambientada no Rio de Janeiro e isto fica claro desde o sotaque carregado dos personagens ao grande número de sequências externas da série gravadas em bairros conhecidos da cidade como Copacabana, Santa Teresa, Barra da Tijuca, Centro e Grajaú. Segundo o site Memória Globo, o cenário da Superintendência de Polícia foi construído em um prédio da Barra da Tijuca em três andares que comportaram sala de inteligência, salas com equipamentos técnicos de pesquisa e segurança, sala de interrogatório, laboratório de perícia, stand de tiros, sala do delegado e uma copa para café dos policiais. A escolha de filmagem de boa parte da série em externas noturnas e a construção de cenários que reproduzem fielmente um centro de investigações imprimem verossimilhança à narrativa e a composição do clima de mistério exigido pelo gênero.

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A caracterização dos personagens busca exacerbar aspectos emocionais dos personagens, como o vilão-protagonista, Edu. Narcisista e vaidoso, o personagem está sempre bem-vestido com roupas de grife, chiques e alinhadas. Também percebemos que o seu figurino se adapta conforme sua necessidade de conseguir algo, característica da psicopatia: uma das vítimas é abordada por ele trajando camiseta florida e boné.

dp3Ray, sua namorada, apesar de trabalhar com moda não se apresenta como uma fashionista. Suas roupas simples e em tons pastéis demonstram sua fragilidade emocional. Ao contrário da firmeza e sobriedade que Vera, a psicóloga forense, traduz com suas camisas de seda, blazers e calças. Por fim, os personagens do núcleo político, Oto e Sílvia, estão sempre alinhados com ternos e roupas sofisticadas, prontos para qualquer ocasião.

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A trilha sonora da série é composta por músicas instrumentais e heavy metal compostas por Iuri Cunha e Andreas Kisser. Todas tocadas pela banda Sepultura. Tais canções são reproduzidas em momentos específicos da série colaborando com a criação do clima macabro e de loucura que o criminoso Edu sente em suas ações que culminam na morte obtusa das vítimas.

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A atmosfera de tensão e mistério permeia todas as cenas de Dupla Identidade. Numa fotografia descolorida, soturna, percebemos uma luz escura que esconde o rosto das personagens. As nuances e a frieza com que são cometidos os crimes ficam aparentes assim como a melancolia de Ray e a imersão da Superintendência da Polícia no caso. Neste caso, a escolha da fotografia reforça o universo narrativo proposto pela série. Foi também a primeira produção seriada da Rede Globo a ser captada com tecnologia 4K.

A edição da série seguia apenas uma linearidade e buscava mostrar a vida de Edu e os avanços da investigação dos crimes de forma paralela. Foram usados também recursos visuais como legendas para diálogos em outras línguas e a inserção, entre a recapitulação da história e o início do episódio inédito, uma citação de algum serial killer. Por exemplo, no primeiro episódio temos a frase “Nós serial killers, somos seus filhos, nós somos seus maridos, nós estamos em toda a parte” de Ted Bundy, famoso assassino dos Estados Unidos que cometeu seus crimes entre os anos 60 e 70. Tal recurso serve para contextualizar a temática e instigar seus telespectadores a se aprofundarem conhecendo casos reais.

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No Plano do Conteúdo, destacamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

O primeiro indicador, a intertextualidade, está presente no uso de citações de serial killers famosos em no início de cada episódio inédito, como citado anteriormente, fazendo uma ligação entre o universo da série e casos reais. Também podemos perceber este indicador quanto ao comportamento de Edu ao posicionar suas vítimas em posições similares a quadros impressionistas.

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Tratando de um gênero ainda pouco explorado no Brasil, a série é carregada de setas chamativas tanto nas falas da psicóloga forense Vera quanto nos flashbacks transmitidos ao longo da atração, conforme podemos conferir na crítica de Fernando Oliveira do portal R7, não satisfazendo assim o indicador de escassez.

“[...] A julgar pelo primeiro episódio, “Dupla Identidade” peca por certo didatismo nos diálogos. Tudo é explicadinho, racionalizado, para não sobrar dúvidas no espectador. Talvez seja costume vindo das muitas novelas que a autora escreveu, mas num gênero como seriado, a pressuposição às vezes funciona melhor.” (OLIVEIRA, 2014, Online)

Também não explorado pela trama são os efeitos especiais narrativos. A história transcorre em uma linearidade de acontecimentos e em nenhum momento o telespectador é obrigado a reconsiderar o que já lhe foi transmitido.

Os recursos de storytelling não são contemplados. Existem sequências fantasiosas onde Edu demonstra seu desejo de matar, vislumbrando a vítima amordaçada e presa em cima de uma banheira onde o mesmo se banha de forma calma contudo existem setas chamativas, como efeitos visuais de transição que demarcam claramente a fantasia do personagem. Os flashbacks na trama que são usados para relembrar os crimes e o andamento da investigação até o momento, de forma didática a minimizar o esforço analítico do telespectador em compreender a razão das atitudes policiais.

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Por fim, Dupla Identidade foi consta por várias estratégias transmídia. Por parte da emissora, encontramos no site oficial da atração no Gshow, portal de entretenimento do Grupo Globo, a seção “Extras” que concentraram as ações da que expandem e aprofunda no universo ficcional.

Na área de Extras, antes da estreia da série na TV, foi possível acessar um infográfico com os perfis dos personagens. O recurso ajudava o público a se familiarizar com a narrativa. Ao longo da exibição, também foram liberadas entrevistas com o criador da abertura, detalhando o processo de criação e finalização da vinheta. Outro conteúdo presente nesta seção são Fotos de Bastidores como, por exemplo, a da cena final onde Edu é executado. Incitando a participação do telespectador interagente, três enquetes foram realizadas pedindo a opinião do público sobre o primeiro episódio, quais comportamentos de um serial killer lhe pareciam mais perturbador e se um serial killer seria capaz de amar.

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Contudo, destacamos como principal estratégia da emissora a criação do webdocumentário Dupla.Identidade.DOC. Em sete episódios de, em média, cinco minutos foram apresentadas entrevistas com a autora Gloria Perez, o diretor Mauro Mendonça, o ator Bruno Gagliasso e também a criminóloga e escritora Ilana Casoy, a psiquiatra Dra. Ana Beatriz Barbosa, o pesquisador de neurociência do IDOR  Dr. Ricardo de Oliveira, e a perita do Instituto de Criminalística Rosângela Monteiro.

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A construção do webdocumentário buscava traçar um perfil de assassinos em série, relacionando as falas dos entrevistados a casos famosos e a cenas da própria série. Nesse âmbito, podemos identificar, diferente das outras ações realizadas pela emissora, o indicador transmidia literacy, já que o telespectador ao consumir esse conteúdo em outra plataforma expande sua compreensão sobre as temáticas abordadas na série realizando correlações entre o perfil do protagonista Edu com as características citadas pelos entrevistados na atração.

Uma ação transmídia não-oficial, porém relacionada ao cânone foi realizada pela autora Glória Perez em seu site De tudo um pouco. A autora criou a seção Dupla Identidade no mesmo e passou a disponibilizar sua pesquisa para construção da série, postando os casos em que se inspirou na criação dos personagens e conflitos além de informações sobre o transtorno de bordeline vivido pela personagem Ray.

sqlNeste sentido, as ações transmídia de Dupla Identidade propiciam uma visão ampliada e crítica do conceito de serial killer, das práticas de investigação e dos temas abordados pela série em geral e do processo criativo da autora. Concluímos assim que tanto o webdocumentário quanto o site mantido pela autora são exemplos de transmidia literacy porque proporcionam aos telespectador novas possibilidades interpretativas. Isto é, as ações estimulam o público a correlacionar as informações díspares com a série de TV.

Por Léo Lima

Felipe Neto

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O sucesso do youtuber Felipe Neto veio com a série de vídeos Não Faz Sentido, na qual criticava personalidades e comportamentos através de uma linguagem agressiva e provocante.

A linguagem, aliás, foi, na análise, um ponto de destaque do canal em relação ao Plano da Expressão. Em todos os vídeos, Felipe Neto utiliza uma linguagem informal, carregada de expressões populares, principalmente palavrões. Essa escolha permite uma aproximação por parte do público do conteúdo disseminado nos vídeos. Assuntos polêmicos e muitas vezes considerados complexos, como a situação política do país, tratada no vídeo “Não Faz Sentido – Dilma e o PT”, podem ser melhor trabalhados através de uma linguagem próxima do público, como ocorre nesse vídeo.

Outro destaque do Plano da Expressão foi o cenário utilizado nos vídeos do Não Faz Sentido. Assim como o cenário dos primeiros vídeos desse quadro, lançados há cerca de seis anos, o cenário atual mantém as famosas placas e molduras dispostas em uma parede branca. São utilizadas placas de trânsito, por exemplo, como Pare ou Proibido. Além disso, Felipe Neto, ao fazer o Não Faz Sentido, sempre usa óculos escuros, o que diferencia o personagem do quadro, sempre agressivo e incisivo, do Felipe Neto que aparece nos outros vídeos. Mesmo em vídeos que não pertencem a essa série, Felipe Neto também utiliza os óculos escuros quando vai falar agressivamente sobre algo, em referência ao personagem do Não Faz Sentido.

Já em relação ao Plano do Conteúdo, o canal obteve destaque no indicador oportunidade, no qual recebeu avaliação muito boa em quatro emissões e avaliação boa em outras duas. Assuntos cotidianos, presentes tanto na agenda da mídia quanto do público, são frequentemente abordados nos vídeos do canal. Tem-se como exemplo o vídeo “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha”, cujo tema é o Video Music Awards, grande premiação da música americana feita pelo canal televisivo MTV. À época do vídeo, a premiação havia ocorrido recentemente, sendo ainda pauta no cotidiano da mídia e do público.

Outro vídeo que recebeu avaliação muito boa nesse indicador foi o “Não Faz Sentido – Dilma e o PT”, que trata da situação política do país. O vídeo “Soco na Cara e Haters”, que traz Lucas Salles como convidado, foi igualmente avaliado, uma vez que tem como tema o soco que o ator levou durante uma entrevista, à época recente, que fazia para o programa CQC, do canal Bandeirantes. Na entrevista, Lucas Salles questionava um homem sobre a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”.

Tais vídeos também receberam avaliação muito boa no indicador ampliação do horizonte do público, pois tratam de temas relevantes socialmente e que estimulam o pensamento do público e o debate de ideias. Entretanto, o canal não obteve destaque nesse indicador, sendo que a maioria dos vídeos analisados recebeu avaliação fraca nesse quesito.

O indicador diversidade de sujeitos representados também não obteve destaque nas emissões analisadas, uma vez que, em tal indicador, a maioria dos vídeos recebeu avaliação fraca. Apenas os vídeos “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha” e “Desafio da MC Melody – Felipe Neto Responde” receberam avaliação razoável por citarem ou falarem sobre diferentes personalidades da mídia.

O indicador desconstrução de estereótipos foi, por sua vez, percebido em apenas cinco emissões, sendo três fracas, uma razoável e uma boa. O vídeo “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha” recebeu avaliação fraca no indicador, pois Felipe Neto desconstrói o que ele chama de “gourmetização” da maconha – pessoas que sentem orgulho de usar a substância – e também do Rivotril. Entretanto, durante o vídeo há diversas afirmações de estereótipos, o que justifica o desempenho fraco no indicador. Outro vídeo que obteve tal desempenho foi o “SDV Troco Like – Felipe Neto Responde”, no qual Felipe Neto desconstrói a ideia de que homens não choram ao responder que ele chorava com livros e filmes.

Já no vídeo “Crush no Youtube – Felipe Neto Responde”, que recebeu avaliação razoável no indicador, uma fã pergunta: “Quero ir na sua peça, mas meu noivo descobriu que sou apaixonada por você e não quer deixar eu ir. O que eu faço?”. Felipe Neto responde: “Seu noivo diz o que você deve ou não deve fazer? Você faz o que você quiser da sua vida e foda-se o seu noivo.” Desse modo, desconstrói-se a ideia da submissão feminina, por exemplo.

O único vídeo que recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos foi o “Soco na Cara e Haters”, que trata da questão da criminalidade e da afirmação de que “bandido bom é bandido morto”. Durante o vídeo desconstrói-se tal afirmação, ao passo que assuntos como violência e justiça são discutidos.

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Já na esfera da Mensagem Audiovisual, os indicadores diálogo com/entre plataformas, clareza da proposta e solicitação da participação ativa do público obtiveram avaliação muito boa em todas as emissões analisadas do canal.

Em todos os vídeos Felipe Neto disponibiliza suas redes sociais, como Instagram ou Snapchat. Links para outros vídeos do canal também são disponibilizados para o público. Além disso, em alguns vídeos tem-se a participação de convidados, como no vídeo “Soco na Cara e Haters”, que conta com a presença de Lucas Salles, então repórter do programa CQC. Elementos da realidade, externos à internet, também são frequentemente citados durante os vídeos, como a premiação VMA, no caso do vídeo do dia 01/09/2015, ou a MC Melody, no caso do vídeo do dia 14/09/2015, incrementando o indicador diálogo com/entre plataformas.

Já em relação ao indicador solicitação da participação ativa do público, a avaliação muito boa se deve ao fato de Felipe Neto, além de sempre se dirigir ao público olhando diretamente para a câmera, solicitar que o internauta clique em links para se inscrever no canal ou para assistir outros vídeos. Em várias emissões Felipe Neto também solicita que o público entre no site da sua peça e compre os ingressos.

As propostas e objetivos dos vídeos, por sua vez, são nítidos e não deixam dúvidas aos internautas, o que justifica a avaliação muito boa do canal no indicador clareza da proposta. Quando algum formato novo é estreado nos vídeos, Felipe Neto explica a dinâmica da proposta, como no vídeo “Minha Vida Não Faz Sentido – Primeiro Ensaio”, em que diz: “Olá, seja bem-vindo para algo diferente aqui no canal agora”. Felipe Neto explica, então, que o vídeo vai acompanhar os bastidores dos ensaios da peça Minha Vida Não Faz Sentido.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável nas emissões analisadas, pois o formato dos vídeos apresentados pelo canal não é inovador ou muito diferente de outros formatos utilizados por outros canais do YouTube.

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A partir da análise, pôde-se perceber que o canal Felipe Neto se destacou em elementos da Mensagem Audiovisual, como no diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Contudo, tais indicadores são bem trabalhados de um modo geral no YouTube, não constituindo, portanto, um diferencial do canal.

Em algumas emissões, porém, o canal apresentou conteúdo com características do humor de qualidade, se destacando no indicador oportunidade, por exemplo. Alguns vídeos também obtiveram avaliação razoável no indicador ampliação do horizonte do público, essencial por fomentar o pensamento e o debate de ideias.

Entretanto, a maioria dos vídeos traz temáticas cotidianas que não possuem grande relevância social, além de reafirmarem algum tipo de estereótipo, motivo pelo qual o indicador desconstrução de estereótipos foi percebido em poucas emissões. Sendo assim, de um modo geral, o canal Felipe Neto não obteve grande destaque em indicadores essenciais ao humor de qualidade, considerado aquele que traz discussões férteis e relevantes, capazes de estimular o público ao debate.

Por Júlia Garcia

Amorteamo

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  • Criação: Cláudio Paiva, Guel Arraes e Newton Moreno
  • Roteiro: Claudia Gomes, Julia Spadaccini e Newton Moreno
  • Redação Final: Cláudio Paiva
  • Direção: Flávia Lacerda e Isabella Teixeira
  • Direção-geral: Flavia Lacerda
  • Período de exibição:08/05/2015 – 05/06/2015
  • Horário: 23h30
  • Nº de episódios: 5

Amorteamo é dirigida por Flávia Lacerda e Isabella Teixeira e gira em torno das relações amorosas envolvidas pela morte. Arlinda (Letícia Sabatella) é casada com Aragão (Jackson Antunes), mas se apaixona por Chico (Daniel de Oliveira), que se torna seu amante. Um dia, Aragão flagra o casal na cama e atira no seu rival, matando-o. O fruto dessa relação proibida é Gabriel (Johnny Massaro) que é apaixonado desde a infância por Lena (Arianne Botelho). Quando mais velho, por conta da saúde de sua mãe, Gabriel (Johnny Massaro) é obrigado a se casar com Malvina (Marina Ruy Barbosa). Porém, ele foge e abandona a noiva no altar por descobrir que Lena (Arianne Botelho) não era sua irmã, como disse seu pai, e então o jovem decide ficar com a amada. Desolada, Malvina (Marina Ruy Barbosa) comete suicídio, mas por algum motivo sobrenatural, ela volta do mundo dos mortos como uma noiva-cadáver, disposta a ficar ao lado de seu amado.

O elenco conta com nomes como Johnny Massaro, Marina Ruy Barbosa, Arianne Botelho, Daniel de Oliveira, Letícia Sabatella, Jackson Antunes, Tonico Pereira, César Cardadeiro, Bruno Garcia, Guta Stresser, Maria Luísa Mendonça, Aramis Trindade, entre outros.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Todos os cenários explorados na série foram construídos na cidade cenográfica da Rede Globo, o Projac. A ambientação trouxe verossimilhança para a série, contribuindo assim para a imersão do telespectador na trama. A fim de representar a época em que se passa a trama, ambientada no Recife do início do século XX, os espaços presentes na atração presentam uma estética envelhecida e a arquitetura que remete a época retratada. Amorteamo tem como principal ambiente o cemitério, o espaço palco das reviravoltas presentes na trama. O cenário tinha o céu formado por um painel de 360 graus pintado à mão em tons de preto, cinza e branco. Além disso, o espaço, de 1000 m², possuía 15 esculturas em isopor, árvores cenográficas, areia lavada misturada com pó xadrez.

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A caracterização ressaltava a origem social dos personagens. Por exemplo, quando financeiramente abastada, Arlinda (Leticia Sabatella) usava peças de veludo. Já Cândida (Guta Stresser), representante da classe média que trabalhava em um bar, usou tecidos rústicos. E Dora (Maria Luisa Mendonça), dona do bordel da cidade, vestia trajes inspirados no século XVIII, como espartilhos. Outro papel do figurino foi o de representar a passagem do tempo de 18 anos na trama. Arlinda (Leticia Sabatella) começou a série usando peças em tons de bege e, posteriormente, adotou roupas mais escuras. Com Aragão (Jackson Antunes) aconteceu o oposto, suas roupas ficaram desgastadas e envelhecidas representando o seu estado, já decadente. Com a função de marcar outra fase da Malvina (Marina Ruy Barbosa) como noiva cadáver, o figurino também foi fundamental. A personagem aparece com o vestido sujo, maquiagem borrada e dentes e unhas pintados com efeito de descascado e sujeira.

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Desenvolvida por João Falcão e Juliano Holanda a trilha sonora de Amorteamo foi composta somente por artistas pernambucanos, entre eles Juliano Holanda e Laila Garin. As músicas tocadas na série possuíam função narrativa, uma vez que a letra dialogava com a situação do plot em que a canção se fazia presente. Por exemplo, a música Já era tarde de Juliano Holanda, cuja a letra dizia: Quando eu cheguei já era tarde eu sei / Pra te encontrar, pra te dizer o que você queria ouvir / Quando eu cheguei o sol não tava mais / Nem por aqui nem por nós dois. A canção foi executada no momento em que Gabriel (Johnny Massaro) vai se desculpar com Malvina (Marina Ruy Barbosa), porém nesse instante a personagem já se encontrava morta.

A fotografia de Amorteamo era bem demarcada a partir do uso de tons escuros, trazendo um clima fúnebre e sombrio para a trama. Outro recurso utilizado foi jogos de luz e sombra nas cenas. Em cenários internos a iluminação era à luz de velas, proporcionando um ambiente intimista e contribuindo para a imersão do telespectador, uma vez que traz verossimilhança com a época retratada. Apesar da fotografia ser elaborada, ela não possui nenhum tipo de influência ditera narrativa na trama, o recurso apenas reforça o universo ficcional.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

A série não apresenta referências externas ao universo ficcional. Portanto, o indicador intertextualidade não foi observado na narrativa.

Amorteamo apresenta setas chamativas em momentos pontuais, como, por exemplo no terceiro episódio quando a morte de Malvina (Marina Ruy Barbosa) é repetida diversas vezes, quando cada personagem da série recebe a notícia. Porém, em cenas como a volta de Chico (Daniel de Oliveira) como morto-vivo, não houve um indicio que pudesse reapresentar o personagem para o público. Levando em conta que Chico (Daniel de Oliveira) não esteve na trama nos dois episódios anteriores, a seta seria utilizada para situar o telespectador, no entanto, optou-se por não utilizar o recurso. Além disso, considerando a exibição semanal, o que demandaria um esforço maior em retomar os acontecimentos anteriores para situar o público na trama, a atração estimula a cognição do telespectador, uma vez que não explora de recursos como recapitular o episódio anterior ou usar muitas setas chamativas. Neste sentido, o indicador escassez de setas chamativas foi observado em Amorteamo.

Os efeitos especiais narrativos, não foram explorados em Amorteamo. A principal reviravolta acontece quando os mortos saem de seus túmulos para resolverem situações anteriores ao momento da morte e começam a criar conflitos com os outros personagens. Apesar de provocar a surpresa e curiosidade no telespectador, este acontecimento não é significativo a ponto de fazer o público reconsiderar toda a trama até este momento.

Os recursos de storytelling também não integraram o desenvolvimento dos arcos narrativos deAmorteamo. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

Amorteamo apresentou duas estratégias transmídia. A websérie Causos do Zé Coveiro expandiu a narrativa central por meio de um personagem secundário na série da TV. O spin off, disponível no portal Gshow apresentou, em quatro websódios de aproximadamente 3 minutos. A história gira em torno de quatro defuntos enterrados no cemitério da trama de Amorteamo, sendo o último deles a história de amor do próprio Zé Coveiro. A websérie dialoga com Amorteamo, uma vez que também se passa no mesmo universo ficcional da série. Além disso, Causos do Zé Coveiro traz aprofundamento para o personagem que não foi muito explorado em Amorteamo, apesar da sua grande relevância na série.

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Outra proposta transmídia foi a criação de um novo desfecho para a trama de Amorteamo, durante a exibição doscapítulos finais da série na TV. A proposta possuía o seguinte enunciado:“Não é o fim! Participe e crie novos desfechos para a trama de ‘Amorteamo’. Promovida pelo Portal GShow, a ação permitia que o telespectador pudesse escrever como seria o seu desfecho da série através da criação de novos finais para os personagens da série.

Neste contexto o indicador transmedia literacy foi observado em ambas as estratégias adotadas. Em Causos do Zé Coveiro, o telespectador é estimulado a realizar correlações entre a websérie e a série principal, o que exige um entendimento crítico do público de forma a associar ambas as narrativas a um mesmo universo.

Na ação do portal Gshow: “Não é o fim! Participe e crie novos desfechos para a trama de ‘Amorteamo’”, podemos traçar uma comparação com as fan fictions, já que a estratégia oferece margem para a livre criação do telespectador a partir da trama original. Sendo assim, o indicador transmidia literacy se fez presente na ação ao exigir esforço cognitivo do telespectador e ao mesmo tempo estimular a leitura crítica e criativa da série.

Por Mariana Meyer

Sensacionalista

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Sensacionalista foi um programa de humor exibido pela Multishow de 2011 a 2014. Inspirado no site norte-americano The Onion (“A Cebola”, em tradução livre), o projeto foi criado em 2009, por Nelito Fernandes, e permaneceu na TV por cinco temporadas, sendo transmitido toda segunda-feira, às 21h30, no canal fechado. Com um formato que se assemelha a um telejornal, o programa cria notícias fictícias com tom de verdade. Os âncoras, interpretados por Betina Kopp, Cristiane Pinto, Larissa Câmara, Tatá Lopes, Marcio Machado e Anderson Freitas, informam notícias que parecem reais, mas que não passam de grandes absurdos.

No Plano da Expressão, observamos que os apresentadores do humorístico se posicionam do mesmo modo que os apresentadores de qualquer outro telejornal verídico: apresentam a mesma entonação de voz, e as imagens são editadas da mesma forma, intercalando informação no estúdio e reportagem nas ruas. Nas externas, o jornalista faz uma pergunta séria, que é respondida também de forma séria pelo entrevistado, e a reportagem é toda construída de forma linear e bem editada, o que comprova a verossimilhança do programa ao seguir fielmente a estética de um telejornal. O cenário também se assemelha ao dos noticiários brasileiros: cores neutras, computadores e uma bancada, bastidores do jornal mostrado ao fundo, e os figurinos dos apresentadores constituem a paródia feita pelo Sensacionalista aos telejornais diários.

Os temas, que são completamente banalizados e inúteis, no sentido em que não acrescentam nenhuma informação à vida das pessoas, fazem parte das pautas dos jornais convencionais, sendo escolhidos, portanto, a partir de assuntos que estavam na agenda midiática. Mesmo não acrescentando informações úteis aos espectadores, o uso de estereótipos e o inusitado das notícias os levavam à reflexão sobre o sensacionalismo presente no jornalismo atual, ampliando, assim, o horizonte e o repertório cultural do público, fazendo-o pensar sobre novas problemáticas e pontos de vista.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade que se destaca é o diversidade de sujeitos representados, devido ao fato de os assuntos tratados serem variados e exigirem personagens diferentes nas interpretações. No caso específico do Sensacionalista, o personagem grotesco não só faz parte, como completa a narrativa já absurda e improvável do programa.

No entanto, esses personagens influenciam diretamente o indicador desconstrução de estereótipos, já que esta não é a proposta do programa, que “noticia” muitas vezes, por exemplo, o estereótipo do homem adúltero, um dos mais observados no segundo episódio da temporada dois. Dentre treze manchetes no Jornal Sensacionalista, três eram sobre o assunto:

“O Sindicato dos Dentistas se reuniram para pedir que as pessoas parem de falar que foram aos seus consultórios. Os dentistas se cansaram de ser usados como desculpa para adúlteros”;

“Camisinha com GPS. A mulher substitui a camisinha do marido por essa e, com isso, vigia o marido”;

“Em São Paulo, um empresário está ganhando muito dinheiro ajudando as pessoas a cometerem adultério. Ele inventou um spray que tonaliza a pele e disfarça a marca da aliança”.

No indicador de qualidade ampliação do horizonte do público, o Sensacionalista obteve maior destaque, porque apesar de tratar temas corriqueiros, os aborda de forma irônica, enfatizando o absurdo das situações, o que pode gerar no espectador uma nova forma de pensar sobre os assuntos discutidos. Veja, abaixo, exemplos sobre divórcio e a banalidade com a qual o assunto é tratado em noticiários, principalmente quando envolve celebridades:

“Uma bibliotecária faz book sensual para o marido, mas quando recebeu o resultado não se reconheceu e pediu o divórcio, pois acredita que é uma amante”;

“Um estranho pedido de divórcio chamou a atenção da vara da família. O marido estava arrumando a casa, fazendo comida, levando os filhos na escola e isso a incomodava”;

“Um outro motivo curioso de divórcio foi no Paraná. Uma produtora de eventos pediu a separação porque ao longo de um dia inteiro o marido não avisou a ela que ela estava com uma alface no dente”.

Já com o indicador oportunidade acontece o oposto: justamente por tratar temas banais, mesmo que estes gerem identificação no espectador por serem cotidianos e comuns, o programa deixa de falar sobre algo de interesse público ou que seja pertinente por meio do humor.

Abaixo, o gráfico com os indicadores de qualidade do plano do conteúdo.

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Na análise da Mensagem Audiovisual, ressalta-se a originalidade/criatividade do programa, que copia o formato de um telejornal em toda a sua composição estética, alterando justamente o conteúdo e trazendo assim novas camadas de significação ao produto final, fato que lhe atribui nota máxima nesse indicador.

Além disso, este formato apresenta clareza da proposta, pois é perceptível a intenção de satirizar a banalização da informação em noticiários e, sem dúvidas, gera a curiosidade do público, que fica atento à próxima informação, improvável de ser real, mas que foi estruturada de acordo com os critérios da narrativa jornalística, o que configura a solicitação de participação ativa do público, outro indicador de destaque no programa, característica que também é observada na interação direta dos atores com a câmera.

O indicador de qualidade diálogo com/entre outras plataformas se mostra no Sensacionalista por meio da citação de locais públicos reais, mesmo considerando que as notícias são simuladas, nas quais aparecem bairros, cidades e vias públicas conhecidas. Ademais, os episódios analisados apresentam o quadro Caravana Sensacionalista, que faz referência irônica a lugares já conhecidos, como no terceiro episódio da segunda temporada, em que a caravana vai à Nossa Senhora das Graças, cidade do Sul do Brasil, “onde ninguém acha graça de nada”, fazendo tanto um trocadilho com o nome, quanto às velhas piadas sobre gaúchos, que é sobre o que trata a “reportagem”.

Veja, abaixo, cada um dos indicadores do plano da mensagem audiovisual:

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Após esta análise, é possível concluir que o programa Sensacionalista possui diversas características que configuram um programa de qualidade, como originalidade e criatividade no formato, clareza da proposta, além dos modos de representação, que se referem à criação dos personagens e, logo, à diversidade de sujeitos representados. Além destes, a ampliação do horizonte do público por meio da ironia e do absurdo também é uma das características muito bem construídas do humorístico.

Entretanto, alguns indicadores como desconstrução de estereótipos e oportunidade deixam a desejar no que diz respeito à experimentação, pois, junto aos outros poderiam agregar à construção da narrativa se explorados, bem como a solicitação da participação ativa do público, que em um programa como esse, no qual é possível se identificar com diversas situações do dia a dia, poderia ser muito melhor desenvolvido.

Por Lilian Delfino

Aline

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  • Baseado em: Aline (Adão Iturrusgarai)
  • Roteiro: Mauro Wilson com colaboração de Mauro Wilson, Cláudio Lisboa, Péricles Barros, Tatiane Bernardi, Manuela Dias, Zé Dassilva e Gabriela Amaral.
  • Elenco: Maria Flor; Pedro Neschling; Bernardo Marinho
  • Período de exibição: 01/10/2009 a 03/03/2011
  • Horário: 23h
  • Nº de episódios: 13
  • Diretores: Maurício Farias; Mauro Farias

Inspirada nos quadrinhos de Adão Iturrusgarai a série Aline conta a história das descobertas e percalços de uma jovem paulistana. Como nas tiras do cartunista, a protagonista (Maria Flor) tem dois namorados, Otto (Bernardo Marinho) e Pedro (Pedro Neschling), com os quais divide um apartamento no centro da cidade de São Paulo. Aline (Maria Flor) só quer curtir a vida com os dois, mesmo com alguns empecilhos, como a Dona Rosa (Camila Amado), síndica do prédio onde os três moram e seu filho, Wallace (Fernando Caruso), que é obcecado pela jovem. A personagem (Maria Flor) trabalha na loja de discos de Pipo (Gilberto Gawronski). A trama também apresenta os pais de Aline (Maria Flor) Estevan e Dolores, interpretados por Daniel Dantas e Malu Galli.

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Apesar de ter como base o universo criado por Adão Iturrusgarai, na adaptação televisiva, a história virou uma comédia romântica, cujo ponto de partida era o ousado amor de uma mulher por dois homens. A abordagem apresentava um humor mais ‘delicado’ do que nas tiras, embora Aline dividisse a cama com os dois namorados, não havia cenas de nudez e sexo, que estão muito presentes nos quadrinhos estrelados pela personagem. A protagonista também era tão libertina quanto nas tiras, na série televisiva Aline (Maria Flor) aparece, no máximo, de calcinha e sutiã.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Logo nos primeiros episódios da série é possível observar que a personalidade forte e moderna de Aline (Maria Flor) estabelece um diálogo com a cidade de São Paulo. O ritmo agitado da fala da personagem acompanha o caos da metrópole. Para reforçar essa correlação entre a personalidade da protagonista e a atmosfera da capital, muitas cenas da trama foram gravadas em lugares emblemáticos de São Paulo. Como, por exemplo, o parque do Ibirapuera; a rua Augusta, o elevado Costa e Silva (Minhocão), os bairros de Vila Madalena, Liberdade e Lapa, entre outros. A loja de disco onde Aline (Maria Flor) trabalha também se passa em um ponto popular da cidade, a Galeria do Rock, no Centro.

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A cidade de São Paulo inspirou a estética da série televisiva, segundo o produtor de arte Guga Feijó os grafismos e gravuras espalhados pelas ruas da capital serviram de base para o desenvolvimento do figurino e dos cenários.

No indicador caracterização dos personagens podemos destacar a constante referência de Aline (Maria Flor) ao rock e às pin ups. Mesmo sendo inspirada na obra de Adão Iturrusgarai a protagonista apresenta algumas diferenças em relação à personagem dos quadrinhos. O cabelo preto e a mistura de peças modernas com roupas de brechós se distanciam da figura criada por Iturrusgarai com cabelo rosa e pouca roupa. Entretanto, a emblemática saia minissaia de caveira foi incorporada a personagem de Maria Flor na TV. A atriz também fez duas falsas tatuagens, um coração espetado por várias flechas no braço esquerdo e um gatinho no peito do pé direito.

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De modo geral o figurino de Aline reforça a estética da série e contribui para a construção da trama. Isto é, em momento algum o objetivo da caracterização é reproduzir de modo fiel os elementos dos quadrinhos, mas integrar o mesmo universo ficcional. Já os figurinos de Otto (Bernardo Marinho), Pedro (Pedro Neschling), Pipo (Gilberto Gawronski) e Wallace (Fernando Caruso), por exemplo, são compostos por peças que ajudam, diretamente, na construção dos perfis dos personagens. Ou seja, apresentam poucas referências externas e elementos elaborados.

Com a direção musical de Branco Mello (Titãs) e Emerson Villani, a trilha sonora de Aline é norteada por uma variedade de estilos musicais. As sequências da série são embaladas pelo rock da década de 1970, MBP, ópera e música eletrônica.

O último episódios da segunda temporada, intitulado O Musical, exibido em março de 2011, os personagens Wallace (Fernando Caruso), Kelly (Bianca Comparato), Yuri (Isio Ghelman), Otto (Bernardo Marinho), Pedro (Pedro Neschling) e Aline (Maria Flor) interpretaram músicas como Olhar 43, do RPM, De Repente, Califórnia, de Lulu Santos, Inútil, do Ultraje a Rigor e São Paulo, São Paulo, do grupo Premeditando o Breque (Premê). Nesse sentido, a música tem um papel fundamental na trama contribuindo para os desdobramentos dos arcos narrativos.

A fotografia da série Aline segue, em sua grande parte, o estilo naturalista. A variação de iluminação e uso de filtros acontece em momentos pontuais na trama. Como, por exemplo, durante as sequências me que a protagonista cria situações fantasiosas em sua cabeça e nas analepses. Desta forma, a alteração na fotografia também é usada como sete chamativa, como iremos discutir mais adiante.

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Os episódios de Aline são estruturados a partir de uma edição não-linear. Isto é, as temporalidades exploradas pelos roteiristas variam entre o passado e presente, além das sequências fantasiosas imaginadas por Aline (Maria Flor). No primeiro episódio da série, por exemplo, intitulado Diário de Aline, vemos Estevan (Daniel Dantas) e Dolores (Malu Galli) durante a gestação da protagonista e, posteriormente, a personagem já adulta.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

Os episódios de Aline são permeados por referências externas ao universo ficcional. A intertextualidade abrange os quadrinhos de Adão Iturrusgarai e elementos da cultura pop. Como discutimos anteriormente, apesar reproduzir integralmente a história da HQ na televisão, as sequências da série estabelecem um paralelo com a trama de Iturrusgarai, seja através do figurino e/ou do cenário a atração mantém a estética dos quadrinhos, exploram cores vivas e fortes.

Ao longo dos episódios também é possível observar várias intextualidades como, por exemplo, a cena final que integra o especial de fim de ano que deu origem a série. Gravada no terraço do edifício Planalto, no Centro de São Paulo, a cena Aline (Maria Flor), Otto (Bernardo Marinho) e Pedro (Pedro Neschling) fazem coreografia mesma coreografia dos personagens do filme Bande à Part (1964), de Jean-Luc Godard. Filmes como Uma Mulher É uma Mulher (1961), de Godard, Jules e Jim (1962), de François Truffaut e Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, também são referenciados na trama televisiva.

Apesar de ter uma narrativa ágil e com muitas intervenções gráficas, os plots e sub plots são construídos a partir de várias setas chamativas. O recurso é usado de maneira pontual nos diálogos dos personagens – na contextualização dos desdobramentos dos episódios – e nas mudanças na fotografia. As variações na iluminação das cenas indica que a sequência em questão é uma analepse. Ou seja, a mudança de temporalidade é sinalizada ao telespectador através de filtros mais escuros, inserção de elementos gráficos, etc. Dessa forma, esses cartazes narrativos ajudam o público a compreender a trama.

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O indicador efeitos especiais narrativos não está presente em Aline, apesar da história ser composta por clímax e reviravoltas, em nenhum momento o telespectador é obrigado e reconsiderar tudo o que viu até então.

Já os recursos de storytelling integram vários episódios da série, em muitos momentos os desdobramentos narrativos são conduzidos a partir de flashbacks e sequências fantasiosas. Porém, é importante ressaltar que todos os recursos são didaticamente sinalizados para o telespectador.

Durante a exibição de Aline a Rede Globo lançou um site com informações gerais sobre a trama e um jogo. Intitulado ‘Equilibre Aline’ o game em flash mostrava a protagonista da série em uma gangorra entre Otto (Bernardo Marinho) e Pedro (Pedro Neschling).

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O objetivo era não deixa Aline pender um lado, no final o público podia compartilhar sua pontuação nas redes sociais. Entretanto, apesar de expandir o universo ficcional o jogo não estimulava diretamente a produção e a multilateralidade do telespectador interagente. Nesse sentido, o indicador transmedia literacy não foi observado na estratégia da Globo.

Por Daiana Sigiliano

Tapas & Beijos

Leia a análise dos indicadores de qualidade de Tapas & Beijos

Tapas & Beijos é uma série de televisão brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão entre 5 de abril de 2011 e 15 de setembro de 2015. Protagonizada pelas atrizes Fernanda Torres e Andréa Beltrão, a comédia romântica tem a direção de Maurício Farias, produção de Cláudio Paiva, e nomes como Vladimir Brichta, Fábio Assunção, Otávio Müller, Natália Lage e Daniel Boaventura no elenco. Com uma duração média de 45 minutos cada emissão, a série exibiu 169 episódios e foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Prêmio Extra de Televisão, o Troféu APCA, o Troféu Imprensa e o Arte Qualidade Brasil Televisão.

A série conta as peripécias do dia a dia de duas amigas de mais ou menos 40 anos de idade, trabalhadoras, independentes e francas, que vivem cercadas por confusões em suas vidas amorosas, mas que ainda assim tentam ser felizes e sonham com seus príncipes encantados. Ao longo das cinco temporadas em que esteve no ar, a série passou por muitas mudanças. Num primeiro momento, por exemplo, Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andréa Beltrão) são solteiras, dividem apartamento no Méier e trabalham na Djalma Noivas, uma loja de Capacabana que aluga vestidos e artigos para cerimônias de casamento; posteriormente, as amigas se interessam por Armane (casado) e Jorge (dono de uma boate de strip-tease), respectivamente, e acabam casando com eles; na quarta temporada, Fátima e Sueli percebem que seus casamentos estão desgastados e põem fim às suas relações, tentando seguir a vida a diante, mas tendo diversas recaídas com os ex; e no último ano em que foi exibido, em 2015, as protagonistas pedem demissão da “Djalma Noivas”, após 15 anos, para abrirem o seu próprio negócio: um brechó chique.

No Plano da Expressão, muitos aspectos se destacam. A vinheta de abertura, por exemplo, traz em todas as temporadas uma animação em que noivos no topo de um bolo aparecem em situações de conflito, e no final a cabeça do homem desmonta de seu corpo e cai sobre o bolo. Na vinheta final, os créditos em cor branca sobem na tela enquanto são mostradas as últimas imagens do episódio, que diminuem de tamanho e ficam de lado. Quanto aos efeitos sonoros, a série traz barulhos de carros e buzinas quando os personagens estão na rua, barulhos característicos de cada cenário e músicas de fundo que condizem com a temática da obra.

Os cenários que compõem a trama são bem diversos, como o apartamento de Sueli, o apartamento de Fátima, a boate La Conga, a loja Djalma Noivas, a loja de importados do Armane, e o restaurante do seu Chalita. Sobre a linguagem, a série adota um vocabulário informal, com palavras como sacanagem, cassete, cafajeste, piranha, gostosa, baranga, cretino, pilantra e bunda, além de expressões metafóricas e cotidianas, como a proferida por Fátima no episódio do dia 10 de junho de 2014: “minha relação é tão quente, mas é tão quente, que ela até piora o efeito estufa”.

No decorrer de alguns episódios analisados, verifica-se que mershandising não é uma prática incomum. Marcas como Fiat, Citroën e Kia são identificadas na trama, às vezes até não exclusivas no mesmo episódio, e sempre compondo o cenário, ao fundo das personagens. Outros tipos de propagandas também são feitas, como a do filme S.O.S Mulheres ao Mar, que naquele momento estava passando nas salas de cinema do Brasil. Quanto à composição gráfica, chama atenção as passagens de uma cena para outra, em que muitas vezes transitam na tela figuras geométricas mais transparentes que caracterizam o Rio de Janeiro, como as famosas paisagens ou formatos de calçadas.

No Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público deixou a desejar. Somente os episódios da primeira e da última temporada são considerados razoáveis e, os demais, fracos. Isso se deve ao tipo de tema abordado pela trama, que é preferencialmente o desenrolar do dia a dia de uma pessoa que acorda cedo todos os dias, pega condução lotada, trabalha longe de casa, e tem que enfrentar os percalços da rotina. O episódio da última temporada, por exemplo, é razoável nesse indicador porque trata de temas relevantes de forma razoavelmente eficaz, como o suborno de representantes da lei, o exercício ilegal de uma profissão, e o racismo intrínseco nas pessoas.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, vemos novamente um destaque para o episódio de 2015, que usou diferentes tipos de personagens para a encenação dos temas mecionados acima, como um fiscal do comércio, um dentista, um advogado, duas senhoras idosas, duas mulheres de meia idade, cinco crianças, um bebê de colo, um vendedor ambulante, patrões e empregados. Das emissões analisadas, quatro são razoáveis nesse indicador, e apenas essa é considerada boa.

No indicador desconstrução de estereótipos, as notas também não são muito altas. Entretanto, apesar de não desconstruir estigmas, Tapas & Beijos não os reafirma constantemente. No episódio do dia 12 de novembro de 2013, intitulado Lembranças do passado geram brigas no presente, porém, é uma exceção. Aos 7 minutos e 50 segundos acontece o seguinte diálogo entre Sueli e Jurandir:

JURANDIR: Oi Sueli. A gente precisa levar um papo sério.

SUELI: Tem que ser agora?

JURANDIR: É. A Bia me falou sobre o lance de você ter iniciado o pequeno PC.

SUELI: Poe que, eu também fui a sua primeira vez?

JURANDIR: Que… você foi a segunda.

SUELI: Que desculpa de mulherzinha. Vai, desembucha Jurandir, que eu tô ocupada.

(Tapas & Beijos – episódio Lembranças do passado geram brigas no presente 12/11/2013)

Com essa última fala de Sueli, vemos a inferiorização da mulher: o uso da palavra “mulherzinha”, uma tentaiva do diminuivo de “mulher”, associado a uma atitude errada (inventar motivos para algo), deixa claro o pressuposto de que mulheres mentem e agem de forma indevida.

E no último indicador de qualidade do plano do conteúdo, oportunidade, vemos uma variedade na avaliação: das cinco emissões, duas são fracas nesse indicador; duas, razoáveis; e uma, boa. Sobre as fracas, a justificativa é por abordar temas que ocorrem no dia a dia das pessoas, mas não estão na agenda midiática. E sobre a boa, a jusificativa é por abordar temas recorrentes na sociedade, que constantemente são vistos também nas mídias informacionais a que temos acesso, como, por exemplo, o racismo, que ainda é uma questão a ser vencida e veio na trama representada pela dificuldade que as pessoas têm para agirem de forma natural diante de um pai negro com um filho branco. Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo, com suas respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas obteve avaliação razoável em todos os cinco episódios analisados devido à pouca interação do programa com os diferentes tipos de plataformas e conteúdos. Na série, o que constantemene acontece é o diálogo implícito com filmes que estão no cinema da vida real, a menção a bairros reais do Rio de Janeiro, e um dos sites da Rede Globo, que aparece no final dos créditos de cada episódio.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi fraco em todas as emissões. Isso se deve, principalmente, ao formato do programa, que não é aberto à opinião do público e conta com uma equipe de roteiristas já formada. Na série, um dos únicos exemplos de interação direta entre personagem e público está aos 28 minutos do episódio do dia 10 de junho de 2014, intitulado Sueli é acolhida por Fátima e Armane, quando Sueli, sozinha na cena, olha para a câmera, aperta os olhos e morde a boca, como se estivesse mostrando ao público como ela está feliz com a situação de amor entre Fátima e Armane, que incluiu naquele momento gritos, tapas e gemidos.

No quesito originalidade/criatividade a série foi razoável em todas as emissões analisadas. Contudo, extrapolando o campo de visão dessas emissões, percebe-se que a série em geral é importante para a ampliação do horizonte do público quando aborda na trama as questões LGBT, até então original por trazer, a partir da terceira temporada, a personagem Stephanie, interpretada por Rafael Primot, que é uma travesti ingênua que se relaciona com Tijolo (Orã Figueiredo), o sócio de Jorge (Fábio Assunção) na boate.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, ao contrário dos anteriores, foi muito bem pontuado. Clareza da proposta foi assim avaliado devido à transparência dos seus objetivos e à explicitação do formato com o qual o programa trabalha. A linguagem coloquial, por exemplo, e o fato de o episódio sempre começar mostrando as ruas da cidade do Rio de Janeiro, as pessoas passando, trabalhando ou conversando na calçada, a frente de algumas lojas e os carros passando na rua geram uma identificação do público com o programa, que já no início se situa e entende sobre onde a narrativa se passará.

A primeira canção que é apresentada também contribui para essa clareza, já que a letra geralmente dialoga com a temática que será abordada em seguida. No episódio exibido no dia 10 de junho de 2014, por exemplo, o trecho “ele já não gosta mais de mim, mas eu gosto dele mesmo assim, que pena, que pena…” da música Que Pena, de Marisa Monte, introduz a história em que Sueli, separada de Jorge, tenta se recuperar com outros homens e vê o ex se relacionando com Flavinha, uma narrativa, portanto, que se relaciona com o trecho da música cantado no início. Abaixo, a avaliação recebida por cada indicador de qualidade da mensagem audiovisual.

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Por levantar questões importantes sem explorá-las de forma aprofundada e abrangente, podemos afirmar que Tapas & Beijos é uma série que apresenta características de qualidade em algumas emissões, mas que não pode ser assim considerada majoritariamente. Entretanto, é inegável a identificação e aproximação que o público teve com a série, fazendo com que ele se visse e se inspirasse nas personagens, espelhando-se nos seus desejos e objetivos.

Por Luma Perobeli

1 contra todos

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  • Criação:  Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein.
  • Direção: Breno Silveira
  • Período de exibição: 20/06/2016 – atualmente
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 16

Exibida pelo canal pago Fox, a série 1 Contra Todos foi produzida pela FIC e pela Conspiração Filmes. A primeira temporada, objeto desta análise, foi veiculada em 2016 e apresentou oito episódios. A produção conta com nomes como Júlio Andrade (Doutor/Cadu), Júlia Ianina (Malu), Roney Vilela (Santa Rosa), Silvio Guindane (Mãe) e Thogun Teixeira (China), entre outros.

O enredo, baseado em uma história real, narra à história de Cadu (Júlio Andrade), um advogado preso injustamente por tráfico de drogas. O advogado é confundido com um famoso traficante, o Doutor (Roberto Birindelli), e, para sobreviver na cadeia, tem que se passar pelo criminoso, o qual é respeitado pelos presos. Malu (Júlia Ianina), esposa de Cadu (Júlio Andrade), passa a cuidar dos filhos com a ajuda do seu pai, JP (Xando Graça).

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A história se passa na cidade de Taubaté, em São Paulo, variando entre sequências externas, a cadeia e a casa de Cadu (Júlio Andrade). Todos os ambientes são retratados de forma realista, o que contribui para a verossimilhança da trama. O presídio, por exemplo, mostra a precariedade das condições em que os detentos vivem, situação enfrentada em inúmeras penitenciárias brasileiras.

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Da mesma forma que a ambientação, a caracterização dos personagens também contribui para a verossimilhança da série e reforça o universo ficcional. Cadu (Júlio Andrade), antes de ir para cadeia, se vestia de modo formal, o que condizia com a condição de advogado. Porém, ao ser preso o personagem passa a usar roupas simples e padronizadas, como os outros presos. Quando se estabelece na prisão como o Doutor, ele muda novamente seu estilo. Malu (Júlia Ianina) também muda a forma de se vestir ao se passar por “mulher de traficante”, tentando enganar o policial federal Jonas (Caio Junqueira). Nesse sentido, o indicador acompanha, diretamente, os desdobramentos da história.

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A principal música da trilha sonora é cantada por Criolo e compõe a abertura da série. “Não existe amor em SP” dialoga com o enredo à medida que contrasta o ético Cadu (Júlio Andrade) com o Doutor (Júlio Andrade) em que ele se transforma após ser preso, demonstrando o descontentamento do personagem com a desvalorização da honestidade no país. O trecho “A ganância vibra/ A vaidade excita” faz alusão a mudança de personalidade do advogado depois de adquirir poder dentro do presídio. Ao mesmo tempo, trechos como “Os bares estão cheios de almas tão vazias” dialogam com a solidão e a tensão que o personagem vivencia durante a série.

A fotografia segue um padrão naturalista que se adequa à proposta da série de apresentar um enredo verossimilhante. As cenas internas da cadeia, por exemplo, são marcadas por sombras e penumbras e retratam de maneira realista esse tipo de ambiente. Ao mesmo tempo, se relacionam com a melancolia e a situação degradante de um presídio.

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A edição segue um padrão majoritariamente linear. Por vezes, são inseridas indicações de tempo que esclarecem o período em que Cadu (Júlio Andrade) está na cadeia.

Print 9No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy. A intertextualidade pode ser observada em menções a lugares reais, como Santa Cruz de laSierra e Bolívia, e na própria ambientação da série, que se passa na cidade de Taubaté. O episódio da chacina de Carandiru, por exemplo, também é citado, o que estreita os laços entre ficção e realidade.

Em relação à escassez de setas chamativas, observou-se que a série faz usos pontuais do recurso, o que induz o telespectador a relembrar certos acontecimentos e facilita o entendimento da trama. Um exemplo é o flashbacks no terceiro episódio, intitulado “Caminho do Crime”, quando Cadu (Júlio Andrade) irá enfrentar Magrão (Júlio Machado). Os flashbacks trazem cenas de episódios anteriores que mostram as primeiras explicações que os presos deram a Cadu (Júlio Andrade) sobre quem era Magrão (Júlio Machado), enfatizando que ele era um homem perigoso e violento. Tais flashbacks ainda eram acompanhados de mudanças na fotografia, deixando clara a mudança de temporalidade. Entretanto, tal tipo de recurso não foi usado com grande frequência, permitindo que, em certos momentos, o telespectador complete por ele mesmo o sentido da narrativa.

Os efeitos especiais narrativos, referentes aos clímax e reviravoltas, foram observados ao longo dos episódios, mas se apresentaram apenas como recurso de desenvolvimento da trama. Dessa forma, o telespectador não é levado a reconsiderar tudo o que viu até então e não há mudanças no formato narrativo do programa.

Os recursos de storytelling, por sua vez, não foram observados com frequência. Em alguns episódios há alteração da cronologia, uma vez que a série se inicia com uma cena que, cronologicamente, está no futuro, ainda irá acontecer de acordo com o desenvolvimento do episódio. Há também, por vezes, a inserção de alguns flashbacks, como citado anteriormente, mas acompanhados de setas chamativas que facilitam a compreensão do público.

Em relação à transmedia literacy, o canal Fox, que veiculou a série, divulgava através de suas redes sociais e propagandas televisivas o chamado “código de cadeia”. Essa ação transmídia consistia em revelar, a cada estreia de episódio, uma hashtag diferente, através da qual o público poderia debater sobre a série e enviar perguntas e comentários ao elenco, que sempre estava ao vivo nas redes sociais durante as exibições. Desse modo, além de estimular que o público acompanhasse as redes sociais da emissora e repercutisse sobre a série, a Fox permitia que o telespectador interagente ampliasse a experiência televisiva e participasse ativamente, de modo a transcender a narrativa e encorajar a discussão. Nesse sentido, o indicador está presente no estimulo a produção criativa do público através do compartilhamento de conteúdos na segunda tela.

Por Júlia Garcia

Quinta Categoria

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Quinta Categoria foi um programa exibido pela MTV Brasil pela primeira vez em 13 de março de 2008. Dirigido e escrito por Ivan VonSimson, consistia na apresentação de jogos improvisados a partir de temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa. Durante as quatro temporadas em que foi transmitido, o game-show foi ao ar todos os sábados, às 20h, com duração média de 45 minutos, e destinava-se ao público jovem, de 15 a 30 anos de idade, das classes A, B e C. Os jogos são elaborados pelo grupo Desnecessários (Paulo Serra, Rodrigo Capella e Tatá Werneck), e conta também com a participação de um artista convidado. Tendo as mesmas características do programa Whose Line Is It Anyway?, criado em 1988 na rádio BBC, no Reino Unido, o formato do Quinta Categoria se instalou nas telinhas do Brasil após o sucesso da Cia. Barbixas de Humor no teatro, que já adotava o gênero.

No Plano da Expressão, são destaques os códigos visuais e gráficos, referentes ao cenário e à vinheta de abertura, respectivamente. O amplo palco de apresentação dos artistas, composto por paredes de tijolos, vigas de ferro, grandes janelas ao fundo, placas de trânsito, um telão à esquerda do plano, uma caixa de energia à direita do plano, e caixas de madeira posicionadas ao lado das cadeiras que ficam alinhadas ao fundo, conferem ao programa um ambiente moderno e descontraído, despreocupado com a beleza artística do cenário. E a vinheta de abertura, trazendo um robô vestido com roupa amarela e azul, que participa de uma série de situações engraçadas e absurdas de maneira tosca, já anuncia ao espectador o estilo do programa, que utiliza o grotesco e o caricato para gerar o riso. A composição gráfica também chama a atenção, pois o logotipo e as letras dos grafismos de rodapé dialogam com o mesmo aspecto geométrico e despojado do cenário e da vinheta de abertura, sendo vistos, portanto, como um conjunto de elementos do plano da expressão essenciais para a identificação do público jovem com o programa.

No Plano do Conteúdo, os indicadores de qualidade oportunidade e desconstrução de estereótipos foram pontuados. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o Quinta Categoria um programa atual porque utiliza as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um. Analisando o estereótipo, podemos considerar que o programa utiliza esse recurso para a desconstrução, afirmação ou para uma mistura das duas formas. No episódio do dia 5 de novembro de 2011, por exemplo, quando aos 18 minutos e 25 segundos Rodrigo Capella anuncia o jogo da cena em funk, ele estereotipa as pessoas que escutam o estilo musical funk (“Ahh, é o jogo da cena em funk, pra você que é carioca, ou você que tem uma gangue, ou você que faz parte de uma facção criminosa”) e depois, ao perceber a asneira que falou, tenta desconversar o que havia dito (“Não tem nada a ver com isso rapaz, que aqui é só um funk, é só uma brincadeira”), fazendo, portanto, a afirmação e a desconstrução do estereótipo na mesma frase.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados obteve bons resultados, pois, como já falamos anteriormente, o programa é inteiramente elaborado por temas sugeridos pelo público, pertencente às diferentes classes da sociedade. Apesar de a plateia ser constituída na sua maioria por jovens e brancos, há pessoas de todas as idades, cores e estilos, que são selecionadas pelos artistas e têm voz no programa. Porém, no indicador ampliação do horizonte do público, ao contrário do anterior, os números já não existem, pois as propostas sugeridas pela plateia (e até mesmo as selecionadas do site), não são polêmicas, contraditórias ou férteis, no sentido que podem fazer os telespectadores refletirem ou debaterem ideias relevantes que contribuirão para ampliar o seu repertório cultural ou sua visão de mundo. Confira, abaixo, a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito identificado em todos os episódios. Isso se deve, além da comunicação coloquial estabelecida entre os artistas e a plateia, ao formato do programa de se constituir inteiramente pelos jogos de improviso com temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa, que interage virtualmente. No episódio exibido no dia 21 de junho de 2011, aos 12 minutos e 44 segundos, por exemplo, Rodrigo Capella vai até a plateia para pegar um tema:

RODRIGO: Vou pegar um tema ali com o meu amigo aqui… Pô, vai ser difícil de passar, mas não problema. Como é teu nome?

ESPECTADOR: Lucas.

RODRIGO: Você me chamou até aqui, se você não tiver um tema bom, você tá ferrado, hein. Ô Lucas, fala pra mim uma briga entre duas pessoas, porque que tava rolando essa briga, e essas pessoas, fala aí quê que você veio pensando de casa.

ESPECTADOR: Ahh, um índio assim todo barrigudo…

RODRIGO: Um índio?

ESPECTADOR: Todo barrigudo.

RODRIGO: Um índio barrigudo tá brigando por quê?

ESPECTADOR: Porque ele queria os pataxó todo em volta da fogueira.

RODRIGO: Cara, um índio barrigudo brigou por que queria os pataxó em volta da fogueira. Aí você vê… mas foi bom. Como é teu nome? Lucas, né? Eu falo, não usa droga, galera, mas vocês insitem… Valeu, valeu.

(Quinta Categoria – episódio 21/06/2011)

Para a participação do público de casa, o jogo das frases exemplifica bem essa solicitação, pois nele os jogadores têm que improvisar algo relacionado a uma frase enviada pelo espectador para o site do programa. Abaixo, aos 9 minutos e 36 segundos do mesmo episódio, a fala de Paulinho Serra para explicar o jogo:

Muito bem, então se você é do Quinta Categoria e tá aqui sempre, você sabe que quem manda são vocês as frases agora no nosso programa. Então entra no site, manda a sua frase por que ela vai ser selecionada, ou não [...]. então vamos ver qual é a frase e quem mandou: ‘Maneiras de quinta para contar para seu pai que você está grávida’. Foi a Laura Juliani, que tá grávida, daqui de São Paulo. (Quinta Categoria – episódio 21/06/2011).

Além da solicitação da participação ativa do público através de temas dados por eles, pessoal ou virtualmente, outro método bastante usado pelo programa é o da participação do espectador na própria cena, como acontece no jogo da foto e no jogo serenata de quinta.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, os resultados também foram bastante satisfatórios. Além de aparecer na tela a referência do Twitter de cada humorista na sua primeira fala, menções a outras plataformas ao longo do episódio também são comuns, como ocorre no início do episódio do dia 2 de julho de 2011, com a fala de Paulinho Serra: “Hoje, está de arrepiar os culhões. Então, vamos colocando aí no Twitter ‘#QUINTACATEGORIA’. Vamos bombar de palmas também a presença dos Desnecessários”.

Ainda na mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todos os episódios da amostra. Uma das formas utilizadas para deixar claro o objetivo do programa de fazer o público rir com os jogos de improviso, é pela apresentação de Paulinho Serra logo no início de cada episódio, quando ele profere frases como “embarque no mundo do improviso” ou “o programa mais improvisado da televisão brasileira” (falada em três das cinco emissões analisadas). Além dessa, a outra forma de esclarecer para o público o tipo de conteúdo que está assistindo é explicando as regras de cada jogo antes de começá-lo. Com o nome e o funcionamento do jogo aparecendo no telão do palco, um humorista fixo do programa explica para o público como se dará a brincadeira, para que este tome nota de como serão os próximos minutos e julgue se acha interessante assistir ou não.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Quinta Categoria também se destaca em todas as emissões analisadas. Em nível mundial, não podemos dizer que o programa foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado no Reino Unido e Estados Unidos. Porém, por se tratar de um programa nacionalmente novo, nunca antes visto nas telinhas brasileiras, e de formato pouco conhecido pelo espectador, é considerado um programa original, criativo e experimental, pois, além das adaptações que sofreu para cair no gosto popular, conta ainda com o talento de quatro comediantes que, na sua maioria, já tinham experiência com o teatro e com a arte do improviso, o que fomenta a criação dos jogos e enriquece a qualidade artística do programa. Observe, a seguir, a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual: q2

Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no programa Quinta Categoria. Quanto ao modo de experimentação, vimos que o programa foi inovador porque ajudou a popularizar os jogos de improviso no Brasil, e se mostrou original e criativo ao levar o riso ao público de maneira irreverente, nova e até então incomum. Entretanto, não foi possível unir esse formato ao humorismo (modo de representação), uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Apesar de levar o riso, o programa não adota temas relevantes para a sociedade ou não apresenta ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias. Além disso, o uso do estereótipo muitas vezes é para reafirmar preconceitos já consolidados na nossa sociedade e, por mais que tenha em alguns momentos desconstruído paradigmas, isso não foi uma preocupação constante do programa.

Por Luma Perobeli

9mm São Paulo

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  • Direção: Michael Ruman
  • Período de exibição:10/06/2008 – 26-07-2011
  • Duração: 50 minutos
  • Nº de episódios: 20 episódios

Dirigida por Michael Ruman, a série 9mm: São Paulo mostra o cotidiano de cinco policiais integrantes do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa da Polícia Civil), localizado na cidade de São Paulo. O enredo aborda questões como a influência da vida pessoal dos policiais no combate ao crime, o desvio de conduta e de caráter dos profissionais, bem como as dificuldades de trabalhar em uma das maiores cidades do mundo. A trama também explorar os dramas pessoais dos personagens como, por exemplo, Luiza (Clarissa Kiste) que desconta no trabalho os problemas com sua filha, e acaba complicando sua relação com Dani. 3P (Nicolas Trevijano), é o mais jovem da equipe e, por isso, acaba agindo sempre por impulso e causando problemas. Já Tavares (Marcos Cesana) possui forte personalidade e é orgulhoso. Horácio (Norival Rizzo), por ser o mais velho da equipe, acaba tendo seus métodos questionados pelos colegas além de também possuir problemas pessoais com sua esposa e seu filho usuário de drogas. Eduardo (Luciano Quirino), ocupa o posto de delegado por conta de seu sogro deputado e para evitar má impressão ele procura fazer seu trabalho da melhor forma.

O elenco conta com Norival Rizzo, Luciano Quirino, Clarissa Kiste, Marcos Cesana e Nicolas Trevijano nos papéis principais.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A delegacia é um dos cenários principais de 9mm: São Paulo. O ambiente é de onde partem as pesquisas e investigações. A série contou também com gravações em vários lugares de São Paulo como, por exemplo, as favelas do Moinho, de Paraisópolis e do Real Parque, a Estação da Luz e o Bairro de Santa Efigênia. Desta forma, a ambientação contribui para a verossimilhança da série, uma vez que retrata lugares típicos de São Paulo e representa o dia-a-dia de policias nas ruas e dentro da delegacia.

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A série tem como arco narrativo central a vida profissional dos protagonistas, assim a caracterização do elenco é um reflexo direto de suas profissões, neste caso, a de policiais. O figurino era composto de roupas sociais, algumas vezes adicionada de colete a prova de bala quando os personagens saiam às ruas para alguma operação.

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A trilha sonora de 9mm: São Paulo é composta por músicas instrumentais e se faz presente apenas em cenas de maior ação como, por exemplo, em momentos de perseguição.

A fotografia da série é marcada principalmente pelo uso de tons escuros e acinzentados. Apesar de estar presente, ela não possui nenhuma função narrativa na série, o indicador apenas reforça o gênero policial explorada na atração.

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A série se passa apenas no tempo presente e não possui mais de uma temporalidade. Portanto sua edição se caracteriza como linear, não explorando flashback, flashforward, etc.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

A série apresentou intertextualidade no episódio “Nós é polícia” da primeira temporada. Neste capítulo, o delegado Eduardo (Luciano Quirino) recebe a notícia que terá apenas 24 horas para solucionar cada caso novo em sua delegacia. A partir disso o delegado Ricardo Pompeu (Douglas Simon) chama Eduardo (Luciano Quirino) de Jack Bauer em tom de ironia, se referindo ao seriado estadunidense 24 horas,protagonizada pelo ator Kiefer Sutherland. Nesse sentido, a série do canal Fox traça um paralelo com o tempo que Eduardo (Luciano Quirino) teria para resolver seus casos.

A trama de 9mm: São Paulo é norteada por setas chamativas, por se tratar de uma série de investigação o recurso é constantemente usado para facilitar o entendimento do telespectador. Como, por exemplo, no episódio “Eu não vivo disso” Eduardo (Luciano Quirino) recebe os arquivos de Tenente Emílio e o seu conteúdo é apresentado ao telespectador. Algumas cenas depois, o conteúdo dos arquivos é reforçado no momento em que Eduardo (Luciano Quirino) o descreve para o promotor Caio Graco (Alvaro Franco). Dessa forma, o indicador escassez de setas chamativas não foi observado na série.

9mm: São Paulo explora vários clímax em sua narrativa, dessa forma grande parte dos episódios apresenta mais de uma reviravolta. Como, por exemplo, no episódio”Limpeza” em que Tavares (Marcos Cesana) volta ao DHPP, Eduardo (Luciano Quirino) finalmente decide realizar uma visita ao seu pai e um inocente é dado como culpado pelo delegado Ricardo Pompeu (Douglas Simon).Apesar de possuir reviravoltas, a série não apresenta efeitos especiais narrativos, nesse sentido o uso do recurso não é significativo a ponto de fazer com que o espectador reconsidere tudo o que viu até então.

A série apresenta analepses como recursos de storytelling. No episódio “Eu não vivo disso” há uso de flashback quando Eduardo (Luciano Quirino) relembra o assassinato do Tenente Emílio enquanto estuda o caso com o promotor Caio Graco (Alvaro Franco). Outro exemplo é no episódio “Garoto problema” em que 3P (Nicolas Trevijano) relembra a conversa que teve com Felipe na noite de seu assassinato enquanto estava sendo interrogado sobre sua localização no momento da morte de Felipe. Os flashbacks não são acompanhados de indícios estéticos como mudança na fotografia ou mesmo modificações na narrativa.

A série apresentou duas estratégias transmídia, ambas promovidas para o seu lançamento. A primeira promovida pelo canal Fox, consistia em algemar 200 pessoas em postes, ponto de ônibus e placas de trânsito no centro de São Paulo, o que despertou a curiosidade das pessoas que passavam no local e da imprensa.

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A segunda foi realizada no momento em que a série retorna com novos episódios. Promovida pela agência Santa Clara Nitro, a ação tinha como intenção enfatizar o conceito de “A vida por um fio” apresentado pela série. Para isso, um equilibrista atravessou os 125 metros do Vale do Anhangabaú em uma bicicleta a 120 metros de altura. A ação, conseguiu mobilizar uma multidão e passar o conceito do programa de forma literal: a vida por um fio.

As ações dialogam com o conceito de “A vida por um fio”, amplamente abordado na série. Na primeira, o conceito foi abordado de forma mais simples com o intuito de chamar a atenção do público. Considerando que a ação foi realizada antes da série ir ao ar, as algemas e a camisa da série estimulam o telespectador a deduzir a temática policial da série.

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Na segunda estratégia, já no retorno da série, o conceito é expresso de forma literal com um ciclista andando em uma corda suspensa a 120 metros de altura. Ambas as ações apresentam o conceito da série, porém não trazem nenhum tipo de aprofundamento ou exploram algum aspecto novo da trama. Consequentemente, o telespectador não é incentivado a realizar correlações ou mesmo ter uma visão mais densa da série. Desta forma, o indicador transmedia literacy não foi identificado em nenhuma das ações de 9mm: São Paulo.

 Por Daiana Sigiliano

Comédia MTV

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O programa Comédia MTV estreou na MTV Brasil no dia 3 de março de 2010 e foi veiculado até março de 2012, quando mudou seu formato e passou a ser chamado de Comédia MTV Ao Vivo.Criado por Lilian Amarante, Gabriel Muller e Álvaro Campos, a apresentação ficava por conta de Marcelo Adnet, que contava no elenco com Rafael Queiroga, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Talita Werneck, Paulo Serra, Rodrigo Capella, Guilherme Santana e Fabio Rabin. Com duração de 1 hora e 45 minutos, o programa era composto por esquetes que faziam paródias de temas ou conteúdos da época.

Apesar de rotulado pela própria emissora como um programa de humor, o Comédia MTV era mesmo um programa de comédia, como sugere o próprio nome, que se baseava no riso fácil diante do “anormal”, daquilo que fugia do padrão. Dos cinco elementos que compõe o Plano da Expressão, ao menos um aspecto de três deles é destaque. Nos códigos visuais,cenário e atuação do elenco chamam atenção por atribuírem ao programa uma característica despojada e descontraída, que não preza pela verossimilhança, ou seja, a preocupação de passar realismo às cenas ao ponto de torná-las credíveis ao espectador. No episódio do dia 3 de maio de 2011, por exemplo, aos 7 minutos e 4 segundos, Bento Ribeiro protagoniza um esquete em que interpreta um homem prestando serviço comunitário a crianças por não pagar pensão alimentícia aos filhos. Na ocasião, o homem veste roupa da Branca de Neve e chega para contar histórias para as crianças, que são interpretadas por outros sete humoristas do programa, adultos, portanto, mas que devidamente caracterizados com roupa e penteado se comportam e falam como crianças. Também no cenário, a descontração está na diversidade de lugares apresentados, sem muitos detalhes e cuidados artísticos. Com uma ausência de padrão ou ordem na execução e/ou transmissão das cenas, o único momento que se repete em todas as emissões analisadas é quando aparecem os clipes musicais, que se passam num quadrado no centro da tela, sobre uma arte de muro de tijolos com quatro setas de luzes de neon piscando e apontando para o mesmo.

Nos códigos sintáticos, o destaque está na edição, que muito se faz presente no programa. Movimentos abruptos de câmera, efeitos sonoros, o uso do zoom in (que acontece para dar destaque para trechos da fala do emissor), do zoom out (para revelar a reação dos outros personagens diante do que é falado) e a presença dos cortes secos (cortes sem transição que têm a finalidade de aproximar a câmera e dar destaque ao rosto dos atores) são aspectos constantemente vistos no programa, que chamam a atenção do espectador e o faz por isso, talvez, pensar no conteúdo que é mostrado. Nos códigos gráficos, o aspecto que se destaca é a vinheta, tanto de abertura quanto de finalização, que é adequada ao estilo do programa no que se refere às cores, cenário, roteiro, falas e atuação.

Na abertura, a vinheta traz figuras que se formam em luzes de neon coloridas. Na primeira cena um homem corre na esteira, atrás dele vários chapéus passam voando e um deles o atinge; logo após, uma mulher pula num trampolim. Na terceira cena, uma mulher dança em frente a um homem de terno e gravata; ao fundo algumas bailarinas dançam e um laser vermelho sai do homem de terno e corta a cabeça da dançarina. Na segunda cena,uma garçonete segura uma bandeja e, ao fundo, um guitarrista sem cabeça toca. Na sequência, a cabeça da dançarina surge na bandeja da garçonete e, ao final, surge o nome do programa, também em letras de neon. Uma abertura, portanto, bastante irreverente.

No Plano do Conteúdo, o indicador desconstrução de estereótipos foi pouco identificado no programa. Apesar do posicionamento progressista da MTV de se mostrar a favor da diversidade sexual, a representação dos homossexuais ainda é carregada de estereótipos, o que acarreta uma visão distorcida dessa minoria. No quadro Nunca vai passar de novo, por exemplo, o objetivo é parodiar o quadro da Rede Globo Vale a pena ver de novo, que reprisa novelas antigas de sucesso. No Comédia MTV, a  paródia se dá pela representação de situações ruins, homofóbicas, machistas e absurdas, de novelas escritas por autores homossexuais. A título de exemplo, a frase proferida aos 5 minutos e 36 segundos do episódio do dia 19 de abril reforça ainda mais esse estigma de que escritores gays só fazem novelas ruins, com temática homossexual, situações absurdas e incapazes de serem reprisadas: “De um autor homossexual:Pais e Filhos. Mais uma novela que nunca vai passar de novo”.

Tendo em vista a diversidade presente dentro do grupo de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais, entre outros, é inegável a complexidade de se fazer uma boa representação dos mesmos, mas é inegável também a possibilidade de assim fazê-la. Se a proposta é de um humor inteligente, a opção mais razoável é tentar fugir dos estereótipos. E então, nesses casos, a opção por fazer piada do opressor é mais viável e, falemos a verdade, muito mais engraçada. Entretanto, não foi essa a postura adotada pelo Comédia MTV.

O indicador de qualidade oportunidade não foi muito pontuado. A avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato deo Comédia MTV produzir esquetes que fazem referência a assuntos de conhecimento do público, mas que não necessariamente estão na agenda midiática. Paródia de outros programas, como o feito em Big Brother Afeganistão, Nunca vai passar de novo, Desgraça Urgente, Domingúo e Plantão, ou de personalidades, como mostrado em HebeCam e Pormeliê, são a base do programa e por isso comumente vistos nas emissões.

A diversidade de sujeitos representados foi razoável nas emissões analisadas. A única melhor avaliada é a do dia 3 de maio de 2011, que se destaca pela grande variedade de tipos que mostrou, principalmente no quadro que abordava a religião Normal. Cariocas, paulistanos, lésbicas, negros, brancos, presos, consumistas, gordos,magros, estrangeiros, crianças, jovens, idosos, pais, mães,jornalistas, psicólogos, atrizes e cantores são alguns dos tipos representados pela emissão, seja por muito tempo ou não.

Ampliação do horizonte do público e estímulo ao pensamento e ao debate de ideias não são recorrentes ao longo das emissões aqui analisadas. A avaliação fraca recebida por esse indicador de qualidade em todas as emissões se justifica pela forma escrachada e estereotipada com que o programa faz referência aos outros conteúdo se pela escolha por temas rasos e quase que insignificantes que pouco objetivam a transformação sócio-político-cultural dos espectadores. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta está muito presente em todas as emissões analisadas. O objetivo do programa é bem apresentado ao espectador porque é constante o uso da paródia, da ironia ou da sátira para criticar padrões e provocar o riso. Como exemplo, temos o primeiro esquete do dia 29 de março de 2011, que traz Dani Calabresa e Tatá Werneck conversando sobre uma possível cena entre elas e outro humorista, que interpretaria um pai. No diálogo, que tem intercalado cenas dos humoristas fazendo o clipe de uma música, vemos que todos os personagens fazem papel de si mesmos, estando cada um o seu próprio nome artístico, o que deixa evidente se tratar de uma sátira à ausência das pessoas aos seus compromissos.

No indicador diálogo com/entre plataformas, todos os episódios foram bem avaliados, pois a relação da TV com as outras plataformas é vista em alguns esquetes do programa e na vinheta final de cada emissão, quando aparece nos créditos a frase: “mas quem faz o Comédia?! equipe completa no site!!!”. Abaixo dessa frase, que dialoga muito bem com o estilo descontraído do programa ao usar as letras minúsculas no início das frases e os excessos de pontuação, tem o endereço do site e do Twitter do programa. Além disso, a esse indicador também compete a menção a outros conteúdos televisivos, que é comumente visto no Comédia MTV através das inúmeras referências a músicas, artistas e outros programas da TV.

Em alguns esquetes do programa esse diálogo com outras plataformas também é visto quando vídeos feitos pelos espectadores são mostrados, o que incrementa também o indicador solicitação da participação ativa do público. Sendo considerável em todas as emissões, a avaliação desse indicador se justifica não pelo Comédia MTV solicitar diretamente a participação do espectador, mas por dar a ele oportunidade de aparecer na emissão. No final do episódio do dia 29 de março de 2011, por exemplo, o clipe que aparece é o enviado pelo espectador Bruno Costta, que mostra um homem vestido de passarinho azul dançando ao lado de duas meninas a música de fundo, que faz referência ao Twitter. Outro exemplo está no clipe exibido no final do episódio do dia 17 de maio do mesmo ano, enviado pelo Twitter @rodrigoguth1, em que um rapaz faz paródia da música New York, de Alicia Keys.

Último indicador da mensagem audiovisual, originalidade/criatividade, foi razoável em todas as emissões. Por ser de um formato já conhecido pelo público, inovação e experimentação não são destaques no programa, mas originalidade e criatividade pode-se dizer que sim, pois parodiava programas, personalidades, músicas e temas conhecidos da massa de forma escrachada, exagerada e engraçada. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Como vimos,aspectos característicos do programa, como o próprio nome diz, apenas geram a comédia, o riso fácil, imediato e despreocupado diante do diferente. Segundo os modos de representação e experimentação, a atuação dos personagens é satírica e grotesca e, por isso, acarreta uma visão distorcida das minorias, principalmente da comunidade LGBTTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais). Estigmas sociais foram reforçados, e a banalização do audiovisual reiterada incessantemente na maioria dos produtos da televisão não deixou de ser assim tratada no Comédia MTV, o que dificultou o envolvimento de uma comunidade e a sua categorização como humor de qualidade, já que nem ao humor o programa pertence.

Por Luma Perobeli