Arquivo da categoria: Análise

Zé do Caixão

15107255

  • Roteiro: André Barcinski, Ricardo Grynszpan, Vítor Mafra
  • Elenco: Matheus Nachtergaele, Maria Helena Chira, Bruno Autran, Anamaria Barreto, Walter Breda, Felipe Solari
  • Período de exibição: 13/11/2015 a 18/12/2015
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 6

Zé do Caixão foi uma produção do canal pago Space que retratou a vida do cineasta José Mojica Marins, mais conhecido por criar e interpretar o personagem Zé do Caixão. A série acompanha, sem compromisso documental, alguns anos da vida de Mojica e a produção de alguns de seus filmes, bem como a criação do icônico personagem. O elenco é composto por Matheus Nachtergaele (Mojica/Zé do Caixão), Maria Helena Chira (Dirce), Bruno Autran (Chico), Anamaria Barreto (Dona Carmen) entre outros.

A trama segue o formato episódico, ou seja, a maioria dos arcos narrativos tem início e fim no mesmo episódio. Cada capítulo mostra a produção de um filme de Mojica e, entre cada um, às vezes se passam anos. Tal escolha de formato permite, portanto, que o telespectador entenda a maior parte da trama sem precisar acompanhar todos os episódios.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A história tem início em São Paulo na década de 60 e tanto a ambientação quanto o figurino são montados de acordo com a época. Nesse sentido, o indicador não só interfere no desdobramento da trama como também contribuiu para a imersão do público.

Print 1

Um fator importante é a caracterização do personagem Zé do Caixão (Matheus Nachtergaele), que segue fielmente a estética do personagem original, interpretado pelo próprio Mojica. Isso se faz importante não apenas para a verossimilhança e aproximação com a história real, mas para o envolvimento do público com a trama.

1ffa195cdeeb76f2d2a1684583cdd193_XL

A trilha sonora é predominantemente instrumental e composta, principalmente, por músicas de suspense e terror, que ambientam os filmes rodados por Mojica (Matheus Nachtergaele) como Zé do Caixão. Entretanto, outros momentos fazem uso da trilha sonora para dar o tom da cena, como aqueles divididos por Mojica (Matheus Nachtergaele) e Dirce (Maria Helena Chira), nos quais, por vezes, há músicas românticas.

A fotografia, por sua vez, é composta, na maioria das vezes, por muitas sombras, contrastes e cores escuras, o que se adequa à figura do Zé do Caixão. Além disso, quando há cenas dos filmes que estão sendo rodados nos episódios, a imagem fica em preto e branco para simular o aspecto do filme real.

Cap 01

Já a edição segue o padrão linear e não apresenta alterações cronológicas, deixando a narrativa clara ao telespectador, que não se confunde nas temporalidades exploradas na trama.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, a trama faz referência a lugares e pessoas reais, como São Paulo e Glauber Rocha, que tem a famosa frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” citada em um dos episódios da série. Isso contribui na ambientação da produção e na verossimilhança da trama, uma vez que traz elementos da realidade a uma série que trata de um personagem que realmente existiu – o cineasta Mojica(Matheus Nachtergaele).

Em relação à escassez de setas chamativas, foram observados alguns elementos que facilitam a compreensão do telespectador a cerca do que está ocorrendo na trama. Um exemplo ocorre no primeiro episódio, onde balas de festim são trocadas por balas reais pela mulher do delegado durante a produção do filme “A sina do aventureiro”, o que acaba ferindo a atriz principal. Antes de isso ocorrer, o público já pode imaginar o que acontecerá, já que a câmera foca, mais de uma vez, nas balas de festim ao lado das balas reais.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, a série apresenta pequenos clímax e reviravoltas em todos os episódios, mas em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que viu até então. O estilo narrativo do programa também se mantém constante ao longo dos episódios.

Cap 02

Quanto aos recursos de storytelling, há, ao longo da série, algumas sequências fantasiosas, as quais são, em sua maioria, sonhos do protagonista. Isso se mostra claro, uma vez que tais sequências são em preto e branco e pode-se ver o personagem abrindo os olhos ao final dessas sequências, deixando evidente, portanto, que se tratam de sonhos. Dessa forma, pode-se perceber, também, a presença de setas chamativas.

Por Júlia Garcia

Os Normais

Dos criadores Jorge Furtado, Alexandre Machado e Fernanda Young, Os normais é uma série brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão. No ar por três temporadas, a sitcom estreou em 1º de junho de 2001, e trazia nas noites de sexta-feira o cotidiano de Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres), um casal de noivos que há cinco anos vivia uma vida “normal”, com mal-entendidos, brigas, confusões e reviravoltas, como todo casal da vida real. Com a direção geral de José Alvarenga Jr., Os Normais exibiu 71 episódios e ficou no ar até 3 de outubro de 2003. Três anos mais tarde foi lançada na mesma emissora de TV a série Minha Nada Mole Vida, com os mesmos criadores, diretores, formato e ator principal, que também abordava o cotidiano dos personagens, mas agora o de Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) com a ex-mulher e o filho.

Aparentando ser um típico casal de classe média, na faixa dos 30 anos de idade, Rui e Vani são, na verdade, cheios de manias, preconceitos, paranoias, superstições e falhas de caráter, características que colocam em cheque a ideia de casal perfeito e pessoas normais.  O programa usa frequentemente a metalinguagem e os protagonistas falam direto com o espectador, interferindo no episódio e pedindo a aparição de “mini-flashbacks”.

No Plano da Expressão, os aspectos destaques são a vinheta do programa, a linguagem e o cenário. Na abertura do seriado, a canção de fundo “Doida Demais”, interpretada por Lindomar Castilho, compõe uma sequência de fotos aleatórias de rostos de pessoas desconhecidas, dos atores Fernanda e Luiz Fernando, de uma criança e um cachorro. Fazendo careta, sorrindo ou com expressão séria, o objetivo das fotos é fazer jus ao nome do programa, já que essas são pessoas normais, de todas as cores e idades, que faziam parte da equipe de produção da sitcom. A trilha de fundo constitui-se apenas por um único refrão da música, o trecho “você é doida demais”, que contrapõe o título do programa, já anunciando para o espectador o que se pode esperar: a personificação de pessoas normais, porém, loucas, pois aos olhos do outro, todo normal é um pouco descontrolado.

Quanto ao vocabulário adotado, o programa apresenta uma linguagem coloquial, cotidiana e cheia de palavrões, como caralho, merda, puta que pariu, xoxotas e paus, como acontece no dia a dia de muito casal “normal”. Os cenários utilizados não são variados, com a residência de cores saturadas e contrastantes de Rui sendo o principal local de gravação dos atores. Esses três elementos (vinheta, vocabulário e cenário) se complementam de modo que o espectador se identifique com o programa e se aproxime do mesmo, pois ver na televisão algo que também acontece na sua vida, de maneira tão espontânea e credível, instiga e gera curiosidade no espectador.

Além do formato em comum, equipe de criação, direção, e ator principal, outra característica vista também no seriado Minha Nada Mole Vida (lançado cinco anos após a estreia de Os Normais) é a da câmera em contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima), apontando normalmente para o prédio em que Rui mora, com o intuito de situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade tem avaliação razoável em todas as emissões analisadas devido ao fato de, assim como em Minha Nada Mole Vida, abarcar assuntos cotidianos da vida dos personagens, incluindo problemas, questionamentos e prazeres da vida a dois, e não necessariamente assuntos da agenda midiática.

O indicador ampliação do horizonte do público não é muito observado no decorrer dos episódios, sendo quatro deles considerados razoáveis e um bom. Na emissão do dia 6 de junho de 2003, por exemplo, a boa avaliação é justificada pela abordagem mais longa da depressão, uma doença muito comum nos dias de hoje que necessita de atenção para que haja sempre informação sobre os sintomas e prejuízos ao paciente. Nas outras emissões, o estímulo do público ao pensamento e ao debate de ideias se dá pela inserção de reflexões a cerca de valores morais, como mentira, traição, felicidade, relacionamentos, sexo e amizade, porém de forma rápida e sem muita intensidade.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados não foi muito bem avaliado. Apesar de abordar assuntos bem diversos, as pessoas representadas na série não são muito diferentes umas das outras: todas são jovens na faixa dos 30 anos de idade, de pele branca e de classe média. Negros e crianças não aparecem em nenhum momento dos episódios e o que mais se diversificou quanto a esse indicador foi na emissão do dia 29 de junho de 2001, em que, brevemente, aparecem representantes de Nova Iorque, Tóquio e Berlim das filiais da empresa em que Rui trabalha.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, desconstrução de estereótipos, foi observado que a série faz constante uso do estereótipo para provocar o riso. Em duas das cinco emissões o estereótipo está muito presente e um pouco menos em outras três. A sitcom aborda a normalidade de duas pessoas através do uso de estereótipos, alguns sendo reforçados e outros questionados, para deixar que o telespectador tire suas próprias conclusões. No episódio exibido no dia 15 de junho de 2001, por exemplo, aos 7 minutos e 17 segundos, Rui começa a categorizar meninas de programa de acordo com o anúncio delas no jornal, baseando-se, portanto, em alguns estereótipos para afirmar o que acha:

Susi: ‘Mulherão dominadora’. Bom, ‘mulherão’ significa que já passou dos 35, né, e ‘dominadora’ significa que vai dar uns tapas na tua cara. Não… Vivian: ‘Morena, mignon, completa’. ‘Mignon’ quer dizer que tem um metro e meio, né? E ‘completa’ que tá desesperada e vai roubar teu aparelho de som.

(Os Normais – episódio Brigar é normal 15/06/2001).

Abaixo, a qualidade do plano do conteúdo, com a avaliação de cada indicador:

N1

Na Mensagem Audiovisual, Os Normais é razoável no indicador de qualidade originalidade/criatividade. Essa avaliação se deve, principalmente, ao uso da metalinguagem, comprovada quando na trama os protagonistas falam do próprio programa. Um exemplo disso está no episódio Um dia normal, exibido no dia 29 de junho de 2001, que traz Rui e Vani sentados no sofá da sala jogando dama, enquanto os bastidores arrumam o cenário. No momento em que Rui e Vani começam a interagir com o espectador que está do outro lado da tela, antes mesmo da vinheta de abertura, mostra-se um profissional do programa segurando o cartaz com as falas que serão ditas, e os atores (que se confundem com seus próprios personagens) olham para a câmera como se estivessem falando com o público.

RUI: Oi gente, é pra gente voltar com o programa agora…

VANI: …Mas a gente pediu pra passar mais uns comerciais.

RUI: É, porque nós estamos numa disputa importante.

VANI: É, se eu ganhar o Rui vai ter que lavar toda a louça da casa.

RUI: Não, mas ela não vai ganhar não.

VANI: E, não vou ganhar o quê, ó.

RUI: Pera aí, você roubou.

VANI: Ahh, roubei nada.

RUI: Você roubou enquanto eu estava falando com eles.

(Os Normais – episódio Um dia normal 29/06/2001)

Além da metalinguagem, outro momento criativo do programa que ajuda a incrementar o indicador originalidade/criatividade é na propaganda de um produto, em que Os Normais faz uso do humor sobre a própria situação do merchandising para divulgar uma marca.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, todas as emissões são boas, pois é comum vermos nos episódios ao menos uma menção a outra plataforma, programa ou personalidade. No exibido no dia 2 de maio de 2003, por exemplo, Rui questiona Vani sobre ela não dar mais atenção a ele por causa da novela, quando Vani o interrompe:

VANI: Peraí, que vai começar.

RUI: Pô, ainda tá no Jornal Nacional, cara.

VANI: Não, mas agora é assim, eles colam o início da novela no fim do Jornal Nacional. Se você bobeia, você perde o início do capítulo, entendeu?

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Após dialogar com um programa real (Jornal Nacional), a história continua e Vani mais uma vez menciona outro conteúdo que não é da trama, dessa vez com personalidades: “É, por exemplo, hoje, a Christiane Torloni e o José Mayer, antes mesmo da abertura da novela, eles vão transar, brigar e transar de novo”. Ainda na sequência, Vani novamente cita pessoas reais, o que mais uma vez justifica a avaliação boa que o indicador diálogo com/entre plataformas recebeu: “Peraí, peraí, que a Fátima Bernardes e o William Bonner já estão dando aquela notícia divertida do fim do Jornal Nacional”.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito bem avaliado em todas as emissões e é um dos indicadores de maior destaque no programa, tanto da mensagem audiovisual quanto do plano do conteúdo, e também pode ser exemplificado com o episódio mostrado acima. Na sequência da trama, ainda na discussão da novela, Rui conversa com Vani sobre saber antecipadamente o que vai acontecer nas novelas e no episódio que estão fazendo:

RUI: Por isso que eu não acompanho novela. Todo mundo já sabe o que vai acontecer, caramba.

VANI: Todo mundo já sabe que a gente vai passar o episódio discutindo, e nem por isso as pessoas param de assistir.

RUI: É, todo mundo já sabe que a gente vai ficar junto no final. Estão assistindo por causa de quê?

VANI: Não, não faz essa pergunta se não as pessoas trocam. Não! Não troca de canal.

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Além de usar a metalinguagem para falar do próprio programa, os personagens utilizam também esse recurso para falar do público e com ele. Como mostrado acima, nas duas últimas falas de Rui e Vani, há uma mescla de receptores da comunicação estabelecida: ora os personagens falam um com o outro, e ora voltam-se para o espectador. Em seguida à última fala de Vani, o programa faz uso de efeitos especiais para simular a troca de canal do espectador e na tela é mostrada uma cena de tiroteio em que várias pessoas estão sendo mortas. Novamente o efeito especial é utilizado para simular que o espectador voltou para o canal do programa e Rui vai ao banheiro sozinho para conversar com o público. Olhar e falar para a câmera, como se estivesse olhando para os olhos do espectador e esperando dele uma resposta, faz dessa técnica, portanto, mais um instrumento de identificação e aproximação de público e programa.

O indicador de qualidade clareza da proposta é, como o indicador anterior, igualmente bem avaliado. Toda essa intensa metalinguagem utilizada, juntamente com a atuação dos personagens e o formato bem definidos, são essenciais para a clareza e objetivo do programa. No exibido dia 15 de junho, por exemplo, a história já se inicia com os dois protagonistas em cenários diferentes e queixando-se um do outro, o que deixa evidente que os assuntos abordados no episódio serão os problemas que o casal tem entre si e as consequências do desejo de vingança que cada um sustenta consigo após os vários insultos mútuos. Observe, a seguir, a avaliação de cada indicador da mensagem audiovisual:

N2

Levando em consideração os episódios aqui analisados, que representam apenas uma pequena parcela de Os Normais e não necessariamente a sua totalidade, podemos afirmar que a série apresenta poucas características de qualidade. Por mais objetiva, curiosa e instigante que tenha sido (experimentação), as emissões analisadas não prezam pela diversidade cultural, faz constante uso do estereótipo de afirmação para gerar o riso e não aprofunda em temas importantes devido ao pouco tempo que dedica a eles (representação), por mais que tais temas tenham sido levantados.

Por Luma Perobeli

O Não Famoso

photo

Criado por Daniel Santos, o canal O Não Famoso, em maio de 2016, contava com cerca de 280.000 inscritos e 232 vídeos. Na descrição do canal, Santos se apresenta como “cantor, compositor e produtor musical”, o que justifica o grande número de paródias dentre os vídeos. Em geral, também há vídeos sobre temas diversos, às vezes com convidados ou perguntas dos internautas.

Na esfera do Plano da Expressão, se destaca a linguagem utilizada por Daniel Santos – sempre informal e com expressões populares, como “bagaça” ou “vai plantar batata”, o que permite uma aproximação do público. Já o cenário e o figurino não possuem grande destaque. Os vídeos são gravados em um estúdio musical, com paredes de isolamento acústico e um computador ao fundo. O cenário, geralmente, só muda nas paródias, quando é utilizado o chromakey para colocar certas imagens como fundo.

Quanto ao Plano do Conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados recebeu avaliação fraca em todas as emissões analisadas, já que, na maioria dos vídeos, tem-se apenas Daniel Santos, ou ele e mais um convidado, geralmente homem. Desse modo, há também pouca diversidade de opiniões e pontos de vista.

A desconstrução de estereótipos foi percebida em apenas uma emissão, a do dia 10 de setembro, no vídeo com a participação de Wilson Neto, mas mesmo assim de forma bem discreta e superficial. Nele, Daniel pergunta:

DANIEL: E se a gente tivesse um olho só?
WILSON: A gente não podia cagar né… A mulher nunca, não ia ser permitido que mulher tirasse carteira de motorista, jamais. Se dois olhos ela…
DANIEL: Não, não. Aí pegou no pé das mulheres que assistem os meus vídeos, agora não. Castigo, vai ter castigo.

O indicador oportunidade, por sua vez, recebeu avaliação fraca em três emissões, por não haver nelas temas relevantes ou atuais, presentes constantemente nas agendas do público e da mídia. Já a paródia da música Suíte 14 recebeu avaliação razoável no indicador, uma vez que se refere a uma canção atual e muito tocada em festas, por exemplo. Desse modo, a música se faz presente no cotidiano de grande parte do público.

O vídeo Adaptando Filosofias, do dia 17 de setembro, e Falsetes da Melody, do dia 08, receberam avaliação boa nesse indicador. O primeiro traz citações de pensadores antigos, como Platão e Aristóteles, para os dias atuais, numa readaptação. Sendo assim, várias situações cotidianas e muito comuns são representadas. No vídeo, Daniel readapta, por exemplo, a frase “Tente mover o mundo, o primeiro passo é mover a si mesmo” para “Tente mover a si mesmo, o primeiro passo será sair do WhatsApp”. Modificou ainda a frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” para “Não sabendo que era impossível, foi lá e clicou para mudar a cor do Facebook”.

Já em Falsetes da Melody, Daniel discorre sobre os vídeos da MC Melody, muito compartilhados nas redes sociais, motivos de debates e de alguns memes. O pai da menina, inclusive, foi acusado de hipersexualizar a filha nos seus shows, assunto que estava em pauta na época. Dessa forma, os falsetes da MC Melody compunham temas recorrentes na agendas do público e de algumas mídias.

A ampliação do horizonte do público foi avaliada de modo fraco em três das emissões analisadas, as quais não apresentavam temas relevantes que pudessem estimular o debate ou o pensamento. Já os vídeos Adaptando Filosofias e Paródia Suíte 14 receberam avaliação razoável. O primeiro, ao trazer frases de filósofos para os dias atuais utilizando, na maioria das vezes, hábitos comuns na era da internet, pode levar a uma reflexão a cerca desses hábitos, muitas vezes questionáveis. Já a paródia discorre sobre coisas comuns da infância nos anos 90 e 2000, como assistir desenhos ou brincar na rua. Resgatar tais elementos pode fazer com que o público reflita sobre as mudanças que ocorreram e como as crianças se divertem hoje em dia.

O vídeo Falsetes da Melody, por sua vez, traz uma discussão sobre o modo como o MC Belinho, pai da MC Melody, trata a exposição da filha. Daniel comenta no vídeo: “Na real, eu sinto pena dela, porque, na verdade, ela está sendo usada como um produto do próprio pai.”. E ainda complementa: “Não é difícil perceber que ele está explorando a imagem dela de todas as formas possíveis, expondo ela ao ridículo.”. A partir do vídeo é possível levantar questões sobre exposição infantil e paternidade, por exemplo. A seguir, o gráfico que mostra os indicadores e as avaliações de cada emissão no plano do conteúdo:

Untitled 1

Em relação à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. Normalmente a estrutura dos vídeos se repete, mas quando há um formato diferente do usual, como a gravação de uma tag, a proposta é explicada no início do vídeo. Na emissão do dia 10 de setembro de 2015, E Se (ft. Wilson Neto), Daniel explica: “A gente vai gravar um vídeo um pouco diferente (…) Então, a gente vai fazer uma tagque a gente inventou que se chama E Se”. Já no vídeo Nudes, do dia 22, Daniel explica a dinâmica do AskSnap, novo quadro do canal: “No caso, vai ser um quadro que eu vou abrir o meu snap pra galera mandar vídeos, fazendo perguntas”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do públicorecebeu avaliação muito boa. Comumente Daniel cumprimenta sua audiência com a frase “fala galerinha não famosa”, além de, em quase todas as emissões, pedir para o público deixar likesnos vídeos e seguir o canal em outras redes sociais. Expressões como “vocês” também são utilizadas, ao mesmo tempo em que Daniel olha, a quase todo momento, diretamente para a câmera. Ao final dos vídeos também há dois links: um que leva a outro vídeo do canal, com a frase “veja também”, e outro que leva à página do canal, com a frase “me aperta vai”.

A solicitação da participação do público também pode ser percebida em alguns quadros do canal. No quadro AskSnap, como citado anteriormente, os internautas enviam perguntas para Daniel por vídeos feitos através do Snapchat. O quadro Não Famoso Responde se assemelha a ele, mas as perguntas são feitas através de comentários nas redes sociais.

O diálogo com/entre plataformas também recebeu avaliação muito boa em todas as emissões. Nos quadros citados, por exemplo, as perguntas dos internautas são feitas em outras mídias, como o Snapchat, e respondidas através dos vídeos do YouTube feitos pelo canal. Além disso, em todos os vídeos são mostradas as outras redes sociais do canal, como Instagram ou Facebook. Frequentemente também há parcerias com outros canais, sendo os vídeos feitos com a participação de convidados, como a paródia de Suíte 14, da dupla Henrique e Diego, ou a tagE Se. Na paródia de Suíte 14, por exemplo, percebe-se também a presença de elementos externos à internet, como no trecho: “É que eu estudava vendo/ Dragon Ball e Pokémon”. Ou ainda: “Vê/ que Merthiolate arde pra desgraça”.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável na maioria das emissões, já que não há grande inovação no formato ou no conteúdo do canal. A única emissão que recebeu avaliação boa nesse indicador foi a do dia 15/09/2015 – Paródia Suíte 14 (ft. Caio Romano) – pois transforma totalmente uma música já existente, utilizando outro tema como base. Abaixo, o gráfico da mensagem audiovisual:

Untitled 2

A partir da análise, pôde-se concluir que o canal O Não Famoso, nas emissões estudadas, não se destaca em aspectos importantes do humor de qualidade, explicitados em indicadores como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos, nos quais o canal não obteve avaliações relevantes. Já no plano da mensagem audiovisual, puderam-se ver alguns elementos de destaque, como diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Entretanto, tais elementos são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um grande diferencial do canal.

Por Júlia Garcia

Treme, Treme

treme-treme-caruso-gustavomendes

 

  • Direção: Pedro Antonio Paes
  • Roteirista: Letícia Dornelles
  • Elenco: Gustavo Mendes, Fernando Caruso, Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna
  • Período de exibição: 01/11/2015 a 26/05/2016
  • Duração: 25 minutos
  • Nº de episódios: 50

Exibido pelo canal pago Multishow, o sitcom Treme, Treme é protagonizada por Gustavo Mendes e Fernando Caruso. Na trama os humoristas interpretam o zelador Belmiro e o porteiro Gilmar, respectivamente. Ao longo dos episódios da série os funcionários têm que lidar com os encontros inusitados e o cotidiano dos moradores na portaria de um prédio residencial e comercial Treme Treme, em São Paulo.

Além do elenco fixo composto por Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna, as esquetes contam com a participação dos competidores do Prêmio Multishow de Humor e de comediantes veteranos. A cada episódio os humoristas vão se revezando em diferentes papeis.

Fernando Caruso interpreta o porteiro Gilmar. O personagem é dedicado, está sempre atento a tudo, porém possui um lado ranzinza, que o torna antipático. Já o zelador Belmiro (Gustavo Mendes), assume a portaria quando Gilmar (Fernando Caruso) precisa se ausentar. O personagem é enrolado, muito desatento e adora aumentar o que ouve.

treme-treme-nerso-da-capitinga-ju-coutinho

Além dos protagonistas, a atração conta com mais de 30 personagens. Entre os tipos estão o faxineiro Gagoberto (Caíke Luna), o torcedor fanático Faisão (Felipe Ruggeri), o estranho garotinho Jaquisom David (Rafael Mazzi), o funkeiro Gigante Ostentação (Gigante Léo) e a dupla sertaneja Três Marias (Larissa Câmara e Bia Guedes). Entre as participações especiais estão nomes como Ary Toledo, Ceará, Dani Valente, Gorete Milagres, Marcelo Marrom, Nany People, Paulinho Serra, Pedro Bismarck, Samantha Schmütz, Sergio Mallandro e Tirullipa.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

As esquetes da série Treme Treme são ambientadas no prédio residencial e comercial que leva o nome do programa. Entretanto, o único ambiente explorado é a portaria do edifício.

ddd

A cada episódio do telespectador acompanha a entrada e a saída dos moradores e funcionários do Treme Treme. Além da limitação do cenário, que retratada, em todos os 50 episódios o mesmo espaço, a ambientação da trama não apresenta verossimilhança. Os objetos cênicos se distanciam dos que integram, normalmente, um prédio residencial e comercial.

1280x720-pQh

Outro ponto que chama a atenção na ambientação da série é que apesar da portaria do edifício ser o principal cenário onde que desdobram todos os arcos narrativos da história, em momento algum o indicador contribui efetivamente para a atração. Isto é, a ambientação só serve como pano de fundo para as esquetes e não interfere do desenvolvimento do sitcom.

Por se tratar de uma série episódica a caracterização dos personagens de Treme Treme tem a função de passar uma mensagem instantânea para o telespectador. Em outras palavras, os personagens são construídos a partir de arquétipos nesse sentido as roupas e o gestual são facilmente compreendidos pelo público.

Alguns personagens vestem, praticamente, a mesma roupa durante vários episódios, como, por exemplo, a síndica (Márcia Cabrita). Muito rigorosa com as regras do edifício, um pouco louca e com um prazer imenso em mandar, a personagem está usando o mesmo figurino ao longo das temporadas, independente da situação.

Treme-Treme-Marcia-Cabrita-Caruso

A trilha sonora de Treme Treme é composta por efeitos sonoros pontuais que marcam a transição das esquetes. Desta forma, os episódios não apresentam músicas e/ou faixas instrumentais.

A fotografia é norteada pelo estilo naturalista, a variação de iluminação e uso de filtros não esteve presente na análise das temporadas. Todos os episódios possuem o mesma tonalidade e o mesmo contraste.

63d6

Por ser gravada em um teatro no Rio de Janeiro, a edição de Treme Treme é linear. As esquetes não exploram múltiplas temporalidades e se passam apenas no presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Por ser composta por várias esquetes e personagens a série apresenta várias intertextualidades, as referências externas ao universo ficcional da trama abrangem desde figuras conhecidos do cenário humorístico nacional como, Juninho Play, interpretado por Samantha Schmutz, até citações a Caio Ribeiro, Casagrande, Galvão Bueno, entre outras personalidades do âmbito televisivo.

209_tremetremejuninho_1

Apesar de não serem fundamentais para a compreensão das esquetes, ao reconhecer as intertextualidades os telespectadores têm uma experiência mais rica da trama, passando por várias camadas interpretativas.

O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em Treme Treme. Nesse sentido, vários elementos da trama apresentam cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Desde a abertura da atração até os diálogos encenados pelo elenco não exigem esforço analítico dos telespectadores, os desdobramentos narrativos são didaticamente pontuados.

Por fim, os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram identificados nas temporadas de Treme Treme. Os arcos narrativos não estimulam o telespectador a reconsiderar o paratexto e as histórias exploram a mesma temporalidade, estética e narratológica.

Por Daiana Sigiliano

O Que Tem Pra Hoje

Untitled 1

 O canal O Que Tem Pra Hoje, criado em agosto de 2011 é, segundo as descrições dos vídeos, “um canal de esquetes (vídeos engraçados, de humor), independente.”. Em maio de 2016 contava com cerca de 130.000 inscritos, 92 vídeos e mais de 20.000.000 visualizações.Entretanto, as emissões analisadas do canal – todas de setembro de 2015 – fazem parte de uma websérie produzida pela Toca dos Filmes: Os Britos Também Amam. Nela, é apresentado Rafael Brito, um homem de 32 anos que leva uma vida semelhante à de um adolescente, juntamente com seus dois amigos, Chelo e Rico. Brito é procurado por Kelly, sua ex-namorada de 15 anos atrás, que revela que ele tem uma filha adolescente chamada Raquel. Ele, então, passa a ter novas responsabilidades que o levam ao temido amadurecimento.

No plano da expressão se destaca a produção do programa, de alta qualidade. O cenário, por exemplo, é bem montado e o figurino bem planejado.  Os equipamentos utilizados para filmagem e iluminação também conferem destaque à produção, dando qualidade à série. Tais características fazem lembrar as produções televisivas. O projeto foi financiado através do Catarse, uma plataforma online de financiamento coletivo, que permitiu a realização da série com tal qualidade.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados foi pontuado de forma razoável em todas as emissões. Há certa diversidade de gênero e pontos de vista, visto que se tem a representação de uma mulher séria e correta, uma adolescente e um homem despreocupado e sem responsabilidades, por exemplo. Entretanto, faltam personagens que deem diversidade socioeconômica, cultural, étnica, dentre outros. Não há grande pluralidade dentre os sujeitos representados, motivo pelo qual o indicador foi considerado razoável na análise.

O indicador oportunidade foi igualmente avaliado. O tema tratado pela websérie – a descoberta da paternidade, o amadurecimento e o cuidado com os filhos – pode ser encontrado comumente em outras séries ou novelas, por exemplo. Essa situação também faz parte do cotidiano de algumas famílias, estando, portanto, presente nas agendas da mídia e do público, em maior ou menor quantidade. Contudo, esse tema não é pauta constante ou rotineira nessas agendas, motivo pelo qual a avaliação não foi maior.

Em relação à ampliação do horizonte do público, o episódio 13 da websérie recebeu avaliação razoável, já que, assim como todos os capítulos em geral, trata da figura do pai, em especial da descoberta da paternidade, questão pertinente e que pode levar os espectadores à reflexão sobre o tema. Tem-se como exemplo o diálogo entre Brito e Raquel:

RAQUEL: Não, por que você tá defendendo a minha mãe?
BRITO: Eu não tô defendendo a sua mãe.
RAQUEL: Ela é uma pentelha!
BRITO: Para de falar, boca suja.
RAQUEL: Eu falo como eu quiser, quem é você pra mandar em mim?
BRITO: Eu… Eu sou seu pai.
(Os Britos Também Amam – Episódio 13)

Já os episódios 12(01/09/2015) e 14 (08/09/2015)receberam avaliação boa. O primeiro, por tratar, além do assunto geral da série, da gravidez na adolescência e dos papéis conjuntos da mãe e do pai. O diálogo entre Kelly e Brito exemplifica isso:

KELLY: Eu te falei pra não deixar aquele moleque dormir aqui!
BRITO: Kelly, eu fiquei fora do esquema por 15 anos, me deixa sair como o pai gente fina, vai.
KELLY: E eu como a mãe megera.
BRITO: Que bom, achei que você não ia topar!
KELLY: Não vou!
(Os Britos Também Amam – Episódio 12)

Já o episódio 14 recebeu tal avaliação por enfatizar a importância do papel paterno, como visto no diálogo entre Brito e seus vizinhos Rico e Chelo, os quais questionavam se Brito seria realmente o pai de Raquel. Brito responde: “Vocês dois são uns imbecis. Eu sou o pai dela. Por bem ou por mal, se eu peguei no meio do caminho, dane-se. A partir de agora eu vou fazer de tudo pra ser uma boa pessoa pra ela. Vocês entenderam?”. Essas questões abordadas durante as emissões são férteis e têm a capacidade de promover o debate de ideias, incrementando o indicador.

No episódio 12, o diálogo entre Brito e Kelly, que aborda o papel do pai “gente fina” e da mãe “megera”, foi o motivo pelo qual tal emissão recebeu avaliação fraca no indicador desconstrução de estereótipos. O diálogo aborda os estereótipos representados por esses papeis sem, contudo, desconstruí-los, o que justifica a avaliação fraca no indicador.

O episódio 14, por sua vez, é construído sobre a dúvida a respeito da paternidade de Brito, uma vez que Chelo e Rico, ao descobrirem que o amigo não se lembra da “concepção” da filha, questionam se ele é realmente pai de Raquel. Brito, ao contrário do que é esperado, não leva o questionamento adiante, mesmo sendo incentivado pelos amigos. Chelo chega a pegar a garrafa de água de Raquel e a entrega para Brito fazer um teste de DNA, mas Brito joga a garrafa fora. Ao contrário do que comumente se espera de um homem sem responsabilidades e imaturo como Brito, ele assume a paternidade sem questionamentos e tenta ser um bom pai, como exemplificado anteriormente durante o diálogo dele com seus vizinhos. Por esse motivo, o episódio 14 recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos. Abaixo, as avaliações de cada emissão:

Untitled 1.jpg555,

No que diz respeito à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas, pois o objetivo da série não deixa dúvidas e o que foi proposto é apresentado de forma clara.

Quanto à originalidade/criatividade, a websérie recebeu avaliação razoável, pois não traz grandes inovações. O conflito principal proposto não se diferencia muito de temáticas já expostas em outras produções, assim como não há grande experimentação na forma dos vídeos.

O não teve destaque nas avaliações, sendo pontuado de forma razoável. O que incrementou o indicador foram as semelhanças com as produções televisivas e a posterior transformação da websérie em DVD pela Toca dos Filmes.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público também não foi destaque. Poucos recursos são utilizados para uma comunicação mais estreita com a audiência ou para estimular dela uma participação ativa. A linguagem é um ponto que aproxima os personagens do público, uma vez que se assemelha muito àquela utilizada no dia-a-dia. Como exemplo, tem-se o episódio 13 da websérie (04/09/2015), no qual Chelo conversa com Brito:

BRITO: Chelo, alguma vez eu falei mal da Kelly?
CHELO: Tirando ontem à noite?
BRITO: Eu não falei nada ontem à noite.
CHELO: Disse que ela era uma megera e que merecia levar uma surra de jabá.
(Os Britos Também Amam – Episódio 1304/09/2015)

Há também um link no início do vídeo, escrito “pular abertura”, que leva ao final da vinheta inicial e representa uma solicitação da participação do público. Porém, esses são uns dos poucos recursos que incrementam o indicador e não possuem destaque na produção. Veja, abaixo, os indicadores de qualidade de cada episódio e as suas respectivas avaliações na mensagem audiovisual:

Untitled 2

A partir da análise, pôde-se verificar que o canal O Que Tem Pra Hoje, a partir das emissões estudadas da websérie, obteve avaliações consideráveis em indicadores essenciais à qualidade do humor, como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos. Sendo assim, podem-se observar certas características de qualidade na websérie, entretanto tais características não possuem, geralmente, muito destaque dentro da produção.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

Trair e coçar é só começar

TeC

  • Escrita por: Marcos Caruso e Gisele JorasElenco: Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro.
  • Duração: 45 minutos
  • Período de exibição: 24/11/2014 a 31/08/2015
  • Nº de episódios: 26

Escrita por Marcos Caruso e Gisele Joras, a série Trair e coçar é só começar é protagonizada pela empregada doméstica Olímpia (Cacau Protásio). A personagem passa por conflitos relacionados à separação do seus dois patrões, Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). A partir de então Olímpia (Cacau Protásio) passa a se dividir entre os dois e decidida a unir o casal novamente apronta várias confusões com ajuda de Lígia (Dani Valente), Cristiano (Marcelo Flores), Zilda (Gorete Milagres) e Joel (Vinícius Marins).

O elenco conta com nomes como Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro. Os arcos narrativos giram em torno das tentativas de Olímpia (Cacau Protásio) de reatar o casamento de seus patrões Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). Por ser norteado pela estrutura episódica, cada episódio apresenta um arco narrativo isolado, sempre se iniciando com um equilíbrio, passando por conflito e culminando no equilíbrio novamente, no desfecho.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A série Trair e coçar é só começar é gravada em um teatro, sendo assim seu cenário é fixo e, neste caso, não apresenta nenhuma mudança durante a narrativa. Outro aspecto importante na análise do indicador é a composição do ambiente. A trama do canal pago Multishow apresenta um cenário com dois andares, o andar de baixo representa a casa de Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin) e o andar de cima é a cobertura, também de posse do casal. No episódio Separação a visualização simultânea dos dois ambientes por parte do telespectador era necessária para a compreensão da narrativa, uma vez que parte do humor e desenvolvimento da trama envolviam conflitos que aconteciam nos dois ambientes no mesmo momento.

Untitled 2

Considerando a personalidade plana dos personagens, ou seja, baseada em arquétipos, a caracterização é responsável por fazer o telespectador entender rapidamente o papel desempenhado por cada um na narrativa. Assim, Inês (Márcia Cabrita) compondo uma mulher rica e bem-sucedida veste peças de tecidos leves, calças de alfaiataria e sapato de salto e seu marido Eduardo (Cássio Scapin), um médico de sucesso, está sempre de roupa social.

Untitled 3

Untitled 4

A série não apresenta trilha sonora ao longo dos episódios. Há apenas a presença de efeitos sonoros ressaltando encerramento de cada episódio. A fotografia de Trair e coçar é só começar é pautada pela iluminação característica de teatro onde a atração é gravada. Apesar disso, o indicador não influência no desdobramento dos arcos narrativos.

Por ser também uma peça de teatro, a edição da série se apresenta de forma linear, ou seja, não utiliza de outra cronologia além do presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Trair e coçar é só começar não apresenta nenhum tipo de intertextualidade no seu enredo, ou seja, não traz nenhuma referência externa ao universo ficcional da série.

A atração apresenta setas chamativas, em forma de repetição de acontecimentos. Por exemplo, no episódio Casamento de Neco, o personagem Túlio (Pedro Monteiro) reforça em forma de diálogo com Cristiano (Marcelo Flores) que acontecerá um casamento e outras informações que já foram apresentadas ao telespectador anteriormente. Desta forma, o indicador não foi observado no programa. Nesse sentido, o indicador escassez de setas chamativas não foi identificado.

Compondo a estrutura episódica, as reviravoltas são presentes em cada episódio e são solucionadas no mesmo episódio, fechando o arco narrativo. Apesar de ser esperado pelo telespectador, o clímax não deixa de cumprir seu papel de representar uma quebra na narrativa. As reviravoltas são importantes para a trama, porém não tão significativas a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a história até então, aspecto central dos efeitos especiais narrativos.

Por último, os recursos de storytelling não são explorados em Trair e coçar é só começar. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

 Por Mariana Meyer

TOCs de Dalila

Tocs De Dalila - A Entrevista de Dalila Assista online no Mu.mp4_snapshot_00.32_[2017.11.23_23.19.43]

  • Direção: Daniela Braga
  • Elenco: Heloísa Pérrissé, Thelmo Fagundes, Bruno Jablonski, Analu Prestes, Maria Clara Gueiros, Alice Borge, Paulo Betti, Luisa Pérrissé, Mouhamed Harfouch, Lorena Comparato
  • Período de exibição: 12/09/2016 – 25/11/2017
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 25

TOCs de Dalila é uma série ficcional exibida pelo canal pago Multishow e co-produzida pela Rede Globo e A Fábrica. Criada e estrelada por Heloísa Périssé, em parceria com Denise Crispun e João Brandão, a série, composta por duas temporadas, gira em torno de Dalila (Heloísa Périssé), uma psicóloga que se afastou da carreira para se dedicar à família.

Sua família, então, é formada pelo marido Pedro Henrique (Thelmo Fernandes), vendedor de seguros dedicado ao trabalho e pelo filho Tuka (Bruno Jablonski), adolescente superprotegido viciado em internet e jogos eletrônicos. Na casa também vive Dona Clara (Analu Prestes), sua sogra, recém-viúva de características conservadoras e dissimuladas. Cansada da rotina que se tornou seu casamento e da falta de tempo do marido, Dalila se tornou neurótica por limpeza e organização. Tentando ajudar a amiga, Olga (Maria Clara Gueiros) a incentiva a buscar uma forma de voltar ao mercado de trabalho. Neste meio tempo, o filho Tuka posta um vídeo na internet que transforma Dalila em uma celebridade virtual.

A obsessão de Dalila por limpeza acaba rendendo frutos quando ela passa a ser contratada para organizar ou dar dicas de organização para as pessoas, a quem também ajuda com seus problemas emocionais. Quando o marido perde o emprego, o trabalho de Dalila passa a ser o sustento da família e isto acaba trazendo problemas para sua relação com Pedro Henrique, que começa a ter problemas de autoestima.

A série, de formato episódico, gerou um vlog real da personagem Dalila no canal Humor Multishow do YouTube com dicas de organização e conselhos sentimentais. Os vídeos simulam uma gravação e edição caseiras realizadas por uma mulher que ainda não está íntima no manuseio de equipamentos eletrônicos. Durante a exibição da primeira temporada na televisão fechada, foram liberados cinco vídeos com temas como “Como organizar uma gaveta”, Bolsa de mulher” e “Dicas de limpeza”.

23949303_1967240013292161_1134906194_o

Nesta análise, temos como base a primeira temporada da trama, exibida em 2016 e analisamos no Plano da Expressão os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A ambientação de TOCs de Dalila é a cidade do Rio de Janeiro e seus bairros habitados em sua maior parte por pessoas com renda média. O apartamento da família é o cenário principal, sendo mobiliado com móveis e objetos antigos. O imóvel, contudo, se torna insuficiente com a chegada de Dona Clara, que é obrigada a dormir na sala, provocando irritação em Dalila.

 Tocs De Dalila - A Entrevista de Dalila Assista online no Mu.mp4_snapshot_13.25_[2017.11.23_23.12.50]Tocs De Dalila - O Prcipe Virou Um Sapo Assista online no .mp4_snapshot_15.09_[2017.11.23_23.16.24]

A academia e a praça próxima ao condomínio com o trailer de sanduíches e cachorro-quente “Saldanha” também são pontos de encontro dos personagens. Desta forma, a ambientação escolhida, aliada à caracterização dos personagens, contribui para a fácil identificação da situação financeira da família com a classe média brasileira.

Tocs De Dalila - Meu Mundo Caiu Assista online no Multishow .mp4_snapshot_22.21_[2017.11.23_23.28.26] Tocs De Dalila - A Entrevista de Dalila Assista online no Mu.mp4_snapshot_15.36_[2017.11.23_23.27.21]

Quanto à caracterização dos personagens, destacamos a construção do figurino das personagens baseados em arquétipos. Nesse sentido, o indicador dialoga diretamente com o formato episódico da série. Dalila usa roupas em tons sóbrios como saias longas cinzas e marrons, blusas brancas e pretas e cardigãs bordô, além de jóias e maquiagem discretas, reforçando o estereótipo de mãe. Em contraponto, temos a amiga Olga, solteira e usuária de aplicativos de paquera, que usa decotes, brincos grandes, calças coladas e roupas de academia transparentes.

Tocs De Dalila - A Entrevista de Dalila Assista online no Mu.mp4_snapshot_14.51_[2017.11.23_23.13.00] Tocs De Dalila - A Entrevista de Dalila Assista online no Mu.mp4_snapshot_03.15_[2017.11.23_23.36.21]

Outros personagens também são pautados por arquétipos como, por exemplo, Tuka, o filho viciado em computadores, que usa óculos e tem corpo franzino e Pedro Henrique, o marido, workaholic que não fica sem roupas sociais um único momento.

A trilha sonora de TOCs de Dalila consiste em instrumentais de acompanhamento de sequências cômicas ou de suspense e transição de cenas, com o único intuito de sinalizar estas ocasiões.

Como outras produções do canal Multishow, conta com uma fotografia naturalista, não influenciando assim na compreensão e no desdobramentos dos arcos narrativos da série. A edição dos episódios analisados é linear, seguindo apenas uma temporalidade.

No Plano do Conteúdo destacamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

O primeiro indicador, intertextualidade, não foi constatado nos episódios analisados de TOCs de Dalila. A escassez de setas chamativas também não é contemplada na série. A partir do corpus de análise identificamos cartazes chamativos na abertura, onde são simbolizados em forma de animação os transtornos por organização e limpeza de Dalila e o sucesso da personagem na web. Dentro da série, diálogos também diminuem o esforço analítico do telespectador na compreensão da narrativa. Por exemplo, após Dalila desconfiar que Paulo Henrique a trai, ocorre um diálogo entre a protagonista e sua amiga Olga, em que ela relata a preferência da sogra pela ex-namorada do marido, a descoberta de um celular desconhecido nas roupas dele e as ligações confidenciais recebidas pelo marido enquanto tomava banho. Sendo assim, ao confidenciar seus problemas conjugais com a amiga, a personagem faz uma espécie de resumo para o telespectador do desenrolar de sua história.

Tocs De Dalila - A Entrevista de Dalila Assista online no Mu.mp4_snapshot_06.42_[2017.11.23_23.31.41]

Por seguir uma linearidade, o clímax e reviravoltas das micronarrativas da série são já esperados pelo telespectador, o que acontece também com o arco narrativo que permeia toda a temporada. Também não identificamos nos episódios analisados o uso de flashbacks, flashforwards ou sequências fantasiosas. Desta forma, os indicadores de efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling não foram constatados na produção.

Por Léo Lima

Crítica e riso: Filomena e “Rio Doce – 60 Dias Depois”

filo

Os rejeitos advindos dos processos de extração de minério de ferro pela mineradora Samarco, localizada em Mariana-MG, eram concentrados em um dique que se rompeu no dia 05 de novembro de 2015, fazendo com que cerca de 32,6 milhões de m³ desse material escapassem do reservatório. Os sedimentos cobriram os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. A tragédia provocou a morte de 19 pessoas, derrubou grande parte das infraestruturas dos locais e inundou casas e propriedades rurais, atingindo cerca de 2,2 mil hectares.

O material fluiu até Barra Longa-MG, no distrito de Gesteira, onde atingiu o Rio Doce. Em uma extensão de 113 km, os detritos prejudicaram a pesca, a fauna e flora típica dos locais e o abastecimento de água potável em todo o percurso das águas do rio, de Minas Gerais até o Espírito Santo.

Dois meses após a tragédia, o documentário “Rio Doce – 60 dias depois – a atriz Gorete Milagres e o Fotógrafo Domenico Pugliese na rota da lama” foi ao ar na página da atriz em seu canal no YouTube. No vídeo, a atriz volta a encarnar a personagem Filomena / Filó para percorrer os principais locais aonde os detritos causaram maior impacto, conversando com moradores e expondo as principais dificuldades do cotidiano dos atingidos. O documentário nasce, como salienta Comolli (2008), a partir de um encontro: o do documentarista com a fragilidade do momento em que se depara com o caos ali instaurado.

O documentário, que mescla a atuação e a construção de uma personagem fictícia em meio a um cenário real, transgride os dois espaços principais do cinema: o da ficção e o da não ficção. No entanto as próprias distinções entre ficção e não ficção são diluídas nos estudos cinematográficos desde os primórdios do cinema, quando o hibridismo midiático e as referências extratextuais já começavam a se notar presentes nas produções audiovisuais.

Os limites entre a realidade e a ficção também tangem outra problemática: a inserção do grotesco em produções humorísticas e vice-versa. Segundo Sodré (2002), o grotesco é marcado pela figura do rebaixamento (bathos) em uma junção de elementos heterogêneos, nos quais os sentidos são postos em deslocamentos escandalosos e em situações absurdas.

O produto documental dialoga com a literacia fílmica, marcada pela capacidade do sujeito contemporâneo de analisar e avaliar o poder de imagens, sons e mensagens que o confrontam. A partir do encontro entre o documentarista, a personagem e a população com a fragilidade no momento do caos, a estratégia pôde ser utilizada na produção de um discurso capaz de acometer o espectador em afetos necessários para trabalhar em prol da população atingida.

Por Iago Rezende

Segredos Médicos

419e7799115bc8c36c279a4cb0c2

  • Período de exibição: 07/04/2014 – 31/07/2015
  • Horário: 23h30
  • Nº de episódios: 40

Segredos Médicos foi uma série exibida pelo canal Multishow entre abril de 2014 e julho de 2015. O programa mostra histórias fictícias baseadas em casos reais para simular o ambiente de um hospital e as relações entre médicos e pacientes. A série se assemelha a outras produções com a temática, como Pronto-Socorro: Histórias de Emergência.

Cada episódio acompanha o dia-a-dia de um hospital, com cerca de três casos de pacientes, os quais possuem uma história dramática como pano de fundo. Um exemplo é o caso, no primeiro episódio, do adolescente alcoólatra, que chega ao hospital com queixas de dores no braço. Ao longo da consulta o médico suspeita que o menino seja vítima de agressões, mas acaba descobrindo, no decorrer do episódio, que o adolescente, na verdade, é alcoólatra. O estilo falso-documentário do programa, que acompanha o dia-a-dia, corrobora o formato episódico da série, pois, como em cada episódio há casos diferentes e desconectados, o público não precisa acompanhar toda a trama para entender a narrativa.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Em relação à ambientação, os episódios se passam dentro de um hospital, o qual é representado de modo verossimilhante, assim como a caracterização dos personagens. O figurino muda de acordo com a personalidade, ocupação e classe-social de cada paciente, além de os médicos sempre se vestirem com jalecos brancos.

 Print 1

Print 2

Já em relação à trilha sonora, há músicas instrumentais em alguns momentos mais tensos dos episódios, assim como ocorre em realities médicos. Quando o caso de algum paciente se encerra, há também músicas não-instrumentais que corroboram o clima da cena, como no episódio em que a paciente tem um transplante de rim bem-sucedido.

A fotografia segue um padrão naturalista, o que condiz com o formato de falso-documentário da série. Os indicadores do Plano da Expressão são construídos de modo a enfatizar a proposta de falso-reality e fazer com que o espectador se confunda sobre os casos, achando que eles são, de fato, reais, e não apenas ficção.

Print 3 Print 4

Já a edição segue o padrão dos programas de documentários médicos, não possuindo grandes alterações cronológicas. Os casos dos pacientes são intercalados e, ao final dos episódios, todos se encerram. Há também a inserção de artes identificando os médicos e pacientes, como nos documentários.

Print 5 Print 6

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, há menções a lugares reais, como, por exemplo, Belo-Horizonte e Vale do Jequitinhonha, que servem como pano de fundo para um caso de doença de chagas no décimo episódio da primeira temporada. Tais referências aproximam o programa do telespectador e conferem verossimilhança aos casos médicos.

Quanto à escassez de setas chamativas, o seriado apresentou algumas setas chamativas, que explicavam melhor ao espectador termos e situações médicas. Essas explicações aconteciam ao longo dos episódios, nos quais os próprios médicos explicavam à câmera certas situações que apareciam durante os casos. Desse modo, o público não tem dificuldades para compreender e acompanhar a produção.

Print 7 Print 8

Os efeitos especiais narrativos podem ser observados nos clímax e reviravoltas que ocorrem durante os casos dos pacientes, geralmente relacionados às situações dramáticas que os envolvem como pano de fundo. Entretanto, em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que foi visto até então. O formato narrativo do programa também não se altera ao longo das temporadas.

Já os recursos de storytelling, como analepses, sequências fantasiosas ou flashbacks, não foram observados durante as emissões analisadas do seriado, o qual não obteve, portanto, nenhum destaque no indicador.

Por Júlia Garcia

Canal Ironia

maxresdefaultO canal Ironia foi criado por Oney Araújo – que é quem faz os vídeos – em 16 de Outubro de 2012. De acordo com descrição do canal, há postagem de vídeo toda semana, porém isso não se comprovou. Foram analisadas duas emissões, resultado das postagens do mês de Setembro de 2015; ambas foram classificadas pelo próprio canal como comédia. Além disso, há a divulgação de uma loja online de suplementos no fim dos vídeos e na descrição; existem várias emissões com a temática de academia e estética corporal.

No Plano da Expressão não foi observada uma riqueza de elementos estéticos. Os dois vídeos foram gravados no mesmo formato: a câmera fixa e Oney falando diretamente para o público. Ele se portava de forma natural e falava em linguagem coloquial. A edição foi feita de maneira linear, o que trouxe uma fluidez no decorrer da emissão.

O vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresenta um off falando sobre o que será feito, enquanto Oney na tela, faz menções com a cabeça como se estivesse entendendo o que a voz diz. Já no vídeo “Pergunte ao frango”, havia uma vinheta que aparecia a cada troca de perguntas; a arte consistia em uma inscrição da “Fábrica de frango” e o nome de Oney Araújo abaixo, em um fundo preto. Além disso, as perguntas sempre apareciam em formato de print. O recurso sonoro utilizado foi o som de uma guitarra. No canto inferior direito da tela, sempre havia um ícone com uma pequena foto do criador do canal.

Avaliando o Plano do Conteúdo, os dois episódios apresentaram pouca ampliação do horizonte do público. Isso justifica-se pelo pouco engajamento do programa em assuntos de relevância social ou estímulo à reflexão. Um exemplo de situação em que o tema poderia ser aprofundado, foi no vídeo do dia 21 de Setembro de 2015, em que o apresentador lê uma pergunta que diz: “O que é maior, os músculos do Arnold Schwarzenegger ou os impostos da Dilma?”. A resposta tenta escapar de um debate mais aprofundado. Oney diz que Kai Greene (fisiculturista profissional americano) saiu porque a Dilma entrou em seu lugar e que ela é a nova campeã; a única capaz de enfrentar Phil Heath (um dos maiores fisiculturistas estadunidenses) no próximo campeonato.  Essas citações não apresentam uma ampliação do conhecimento do público que não conhece o universo do fisiculturismo, pois a menos que este faça uma pesquisa, o vídeo não se preocupa em explicar o que cada um dos nomes representa.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, esta não constou em nenhum vídeo, já que o único que aparece na tela e consequentemente tem o protagonismo na representação e nas ideias, é Oney Araújo, um homem jovem e branco. Não há uma pluralidade de pensamentos nem mesmo no vídeo “Pergunte ao frango”, em que há a participação de espectadores, pois foi feita uma seleção das questões que apareceriam, sendo escolhidas as mais descontraídas, de acordo com a proposta de Oney.

O indicador desconstrução de estereótipos foi pouco observado. O episódio do dia 9 de Setembro de 2015 foi avaliado como fraco, por ter apresentado um assunto sério sem aprofundamento.  O vídeo começa com o apresentador imitando Mc Melody, uma garota de 10 anos, cantora de funk. No momento da música em que ela daria um falsete – sua marca particular – aparece na tela um porco grunhindo. Oney é irônico ao falar que ela é uma cantora profissional e que tem um agente, ao contrário dele.

Depois de zombar do jeito da garota cantar e até do nome do pai dela – Belinho, seu agente – ele faz um apelo real para as pessoas pararem de “zoar” a Melody. Ele argumenta que ela é uma criança e não tem culpa e nem noção do que faz; mas o importante é que ela está conseguindo o que quer, que é ficar famosa. Oney fala que inclusive gostou muito de sua música nova e chega a cantar um trecho. Diz ainda que desde que o pai dela não a coloque dançando de maneira sensual na frente de “um monte de macho”, está tudo bem. O debate sobre sexualização da garota, assunto que foi pauta midiática e social no momento em que ela fazia sucesso, foi levantado de maneira superficial, por isso a classificação da desconstrução foi baixa.

Já o quesito oportunidade obteve avaliação fraca no episódio do dia 9 e não constou em 21 de Setembro. Pode-se justificar a diferença pelos temas abordados. No primeiro vídeo, em que o assunto era a Mc Melody havia uma atualidade, uma vez que sua imagem estava muito presente nas redes sociais naquele momento. O segundo vídeo, com temática sobre estética e academia, não era uma pauta social especificamente nova.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

i3

Falando da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve uma classificação razoável e uma muito boa. Isso justifica-se no primeiro caso (emissão do dia 21 de setembro de 2015) porque o modo como o vídeo foi conduzido tinha chances de confundir o espectador. No início parecia que seriam esclarecidas dúvidas reais do público sobre o mundo da academia, porém as perguntas demonstraram que ao contrário, o vídeo seria somente de comédia e não visava responder seriamente nenhuma questão. Já na emissão muito boa, o próprio nome do vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresentava o que seria feito; de fato Oney tinha a intenção de fazer um falsete, imitando a Mc Melody .

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como muito bom em ambas as emissões, uma vez que no início dos vídeos eram divulgadas as redes sociais do dono do canal. Além disso, existem citações ao longo dos vídeos sobre personagens de séries – power rangers –, fisiculturistas reconhecidos internacionalmente e até cantoras.

A solicitação da participação ativa do público obteve uma avaliação boa e uma muito boa, pois por se tratar de um programa do You Tube, já existe um estímulo que chama o espectador a interagir. No final dos vídeos, a tela se dividia e enquanto Oney continuava falando em uma divisão, nas outras telas apareciam links para outros vídeos e um link fixado para se inscrever no canal.  Também apareciam novamente suas redes sociais. Além disso, o público sempre é convidado a dar like no vídeo.

No dia 9 de Setembro, a emissão termina com o anúncio de uma promoção e uma propaganda de uma loja de suplementos que o patrocina – aparece o site na barra do vídeo. O canal possui um cupom de desconto para os espectadores, o que além de estimulá-lo a assistir os vídeos, estimula a compra.  O vídeo avaliado como muito bom foi o dia 21 de Setembro, onde todo o conteúdo foi baseado nas perguntas dos internautas, que concorreriam a uma camiseta através de um sorteio.

O indicador originalidade/criatividade obteve duas classificações razoáveis. No vídeo “Pergunte ao frango” isso se deu porque a proposta de responder perguntas dos internautas não é nova, porém Oney faz isso com o intuito principal de fazer rir e não de tirar as dúvidas das pessoas, que também não eram sérias. Já na emissão “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, a avaliação se justifica pela reciclagem da proposta de tentar reproduzir alguma ação famosa na internet, sendo assim não foi observada uma originalidade considerável.

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

i2

Falando sobre os modos de representação, a atuação de Oney diante da câmera se dava de forma natural, buscando deixar o espectador à vontade. Dentre as emissões, o tema com potencial para um debate de cunho social, não foi tratado de maneira aprofundada, o que reforçou a banalização que o audiovisual geralmente reafirma nesses casos. Também não foi observada uma diversidade de olhares sobre as questões.

No aspecto da experimentação também não houve novidade; os recursos técnico-expressivos utilizados já eram conhecidos no YouTube e as propostas não passavam de reciclagem de formatos já existentes. Existia a possibilidade da participação do público, de modo a tornar o programa mais rico em perspectivas, porém isso foi pouco empregado e a construção da narrativa ficou majoritariamente por conta do dono do canal, Oney Araújo.

Por Letícia Silva