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TOCs de Dalila

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  • Direção: Daniela Braga
  • Elenco: Heloísa Pérrissé, Thelmo Fagundes, Bruno Jablonski, Analu Prestes, Maria Clara Gueiros, Alice Borge, Paulo Betti, Luisa Pérrissé, Mouhamed Harfouch, Lorena Comparato
  • Período de exibição: 12/09/2016 – 25/11/2017
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 25

TOCs de Dalila é uma série ficcional exibida pelo canal pago Multishow e co-produzida pela Rede Globo e A Fábrica. Criada e estrelada por Heloísa Périssé, em parceria com Denise Crispun e João Brandão, a série, composta por duas temporadas, gira em torno de Dalila (Heloísa Périssé), uma psicóloga que se afastou da carreira para se dedicar à família.

Sua família, então, é formada pelo marido Pedro Henrique (Thelmo Fernandes), vendedor de seguros dedicado ao trabalho e pelo filho Tuka (Bruno Jablonski), adolescente superprotegido viciado em internet e jogos eletrônicos. Na casa também vive Dona Clara (Analu Prestes), sua sogra, recém-viúva de características conservadoras e dissimuladas. Cansada da rotina que se tornou seu casamento e da falta de tempo do marido, Dalila se tornou neurótica por limpeza e organização. Tentando ajudar a amiga, Olga (Maria Clara Gueiros) a incentiva a buscar uma forma de voltar ao mercado de trabalho. Neste meio tempo, o filho Tuka posta um vídeo na internet que transforma Dalila em uma celebridade virtual.

A obsessão de Dalila por limpeza acaba rendendo frutos quando ela passa a ser contratada para organizar ou dar dicas de organização para as pessoas, a quem também ajuda com seus problemas emocionais. Quando o marido perde o emprego, o trabalho de Dalila passa a ser o sustento da família e isto acaba trazendo problemas para sua relação com Pedro Henrique, que começa a ter problemas de autoestima.

A série, de formato episódico, gerou um vlog real da personagem Dalila no canal Humor Multishow do YouTube com dicas de organização e conselhos sentimentais. Os vídeos simulam uma gravação e edição caseiras realizadas por uma mulher que ainda não está íntima no manuseio de equipamentos eletrônicos. Durante a exibição da primeira temporada na televisão fechada, foram liberados cinco vídeos com temas como “Como organizar uma gaveta”, Bolsa de mulher” e “Dicas de limpeza”.

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Nesta análise, temos como base a primeira temporada da trama, exibida em 2016 e analisamos no Plano da Expressão os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A ambientação de TOCs de Dalila é a cidade do Rio de Janeiro e seus bairros habitados em sua maior parte por pessoas com renda média. O apartamento da família é o cenário principal, sendo mobiliado com móveis e objetos antigos. O imóvel, contudo, se torna insuficiente com a chegada de Dona Clara, que é obrigada a dormir na sala, provocando irritação em Dalila.

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A academia e a praça próxima ao condomínio com o trailer de sanduíches e cachorro-quente “Saldanha” também são pontos de encontro dos personagens. Desta forma, a ambientação escolhida, aliada à caracterização dos personagens, contribui para a fácil identificação da situação financeira da família com a classe média brasileira.

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Quanto à caracterização dos personagens, destacamos a construção do figurino das personagens baseados em arquétipos. Nesse sentido, o indicador dialoga diretamente com o formato episódico da série. Dalila usa roupas em tons sóbrios como saias longas cinzas e marrons, blusas brancas e pretas e cardigãs bordô, além de jóias e maquiagem discretas, reforçando o estereótipo de mãe. Em contraponto, temos a amiga Olga, solteira e usuária de aplicativos de paquera, que usa decotes, brincos grandes, calças coladas e roupas de academia transparentes.

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Outros personagens também são pautados por arquétipos como, por exemplo, Tuka, o filho viciado em computadores, que usa óculos e tem corpo franzino e Pedro Henrique, o marido, workaholic que não fica sem roupas sociais um único momento.

A trilha sonora de TOCs de Dalila consiste em instrumentais de acompanhamento de sequências cômicas ou de suspense e transição de cenas, com o único intuito de sinalizar estas ocasiões.

Como outras produções do canal Multishow, conta com uma fotografia naturalista, não influenciando assim na compreensão e no desdobramentos dos arcos narrativos da série. A edição dos episódios analisados é linear, seguindo apenas uma temporalidade.

No Plano do Conteúdo destacamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

O primeiro indicador, intertextualidade, não foi constatado nos episódios analisados de TOCs de Dalila. A escassez de setas chamativas também não é contemplada na série. A partir do corpus de análise identificamos cartazes chamativos na abertura, onde são simbolizados em forma de animação os transtornos por organização e limpeza de Dalila e o sucesso da personagem na web. Dentro da série, diálogos também diminuem o esforço analítico do telespectador na compreensão da narrativa. Por exemplo, após Dalila desconfiar que Paulo Henrique a trai, ocorre um diálogo entre a protagonista e sua amiga Olga, em que ela relata a preferência da sogra pela ex-namorada do marido, a descoberta de um celular desconhecido nas roupas dele e as ligações confidenciais recebidas pelo marido enquanto tomava banho. Sendo assim, ao confidenciar seus problemas conjugais com a amiga, a personagem faz uma espécie de resumo para o telespectador do desenrolar de sua história.

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Por seguir uma linearidade, o clímax e reviravoltas das micronarrativas da série são já esperados pelo telespectador, o que acontece também com o arco narrativo que permeia toda a temporada. Também não identificamos nos episódios analisados o uso de flashbacks, flashforwards ou sequências fantasiosas. Desta forma, os indicadores de efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling não foram constatados na produção.

Por Léo Lima

Crítica e riso: Filomena e “Rio Doce – 60 Dias Depois”

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Os rejeitos advindos dos processos de extração de minério de ferro pela mineradora Samarco, localizada em Mariana-MG, eram concentrados em um dique que se rompeu no dia 05 de novembro de 2015, fazendo com que cerca de 32,6 milhões de m³ desse material escapassem do reservatório. Os sedimentos cobriram os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. A tragédia provocou a morte de 19 pessoas, derrubou grande parte das infraestruturas dos locais e inundou casas e propriedades rurais, atingindo cerca de 2,2 mil hectares.

O material fluiu até Barra Longa-MG, no distrito de Gesteira, onde atingiu o Rio Doce. Em uma extensão de 113 km, os detritos prejudicaram a pesca, a fauna e flora típica dos locais e o abastecimento de água potável em todo o percurso das águas do rio, de Minas Gerais até o Espírito Santo.

Dois meses após a tragédia, o documentário “Rio Doce – 60 dias depois – a atriz Gorete Milagres e o Fotógrafo Domenico Pugliese na rota da lama” foi ao ar na página da atriz em seu canal no YouTube. No vídeo, a atriz volta a encarnar a personagem Filomena / Filó para percorrer os principais locais aonde os detritos causaram maior impacto, conversando com moradores e expondo as principais dificuldades do cotidiano dos atingidos. O documentário nasce, como salienta Comolli (2008), a partir de um encontro: o do documentarista com a fragilidade do momento em que se depara com o caos ali instaurado.

O documentário, que mescla a atuação e a construção de uma personagem fictícia em meio a um cenário real, transgride os dois espaços principais do cinema: o da ficção e o da não ficção. No entanto as próprias distinções entre ficção e não ficção são diluídas nos estudos cinematográficos desde os primórdios do cinema, quando o hibridismo midiático e as referências extratextuais já começavam a se notar presentes nas produções audiovisuais.

Os limites entre a realidade e a ficção também tangem outra problemática: a inserção do grotesco em produções humorísticas e vice-versa. Segundo Sodré (2002), o grotesco é marcado pela figura do rebaixamento (bathos) em uma junção de elementos heterogêneos, nos quais os sentidos são postos em deslocamentos escandalosos e em situações absurdas.

O produto documental dialoga com a literacia fílmica, marcada pela capacidade do sujeito contemporâneo de analisar e avaliar o poder de imagens, sons e mensagens que o confrontam. A partir do encontro entre o documentarista, a personagem e a população com a fragilidade no momento do caos, a estratégia pôde ser utilizada na produção de um discurso capaz de acometer o espectador em afetos necessários para trabalhar em prol da população atingida.

Por Iago Rezende

Segredos Médicos

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  • Período de exibição: 07/04/2014 – 31/07/2015
  • Horário: 23h30
  • Nº de episódios: 40

Segredos Médicos foi uma série exibida pelo canal Multishow entre abril de 2014 e julho de 2015. O programa mostra histórias fictícias baseadas em casos reais para simular o ambiente de um hospital e as relações entre médicos e pacientes. A série se assemelha a outras produções com a temática, como Pronto-Socorro: Histórias de Emergência.

Cada episódio acompanha o dia-a-dia de um hospital, com cerca de três casos de pacientes, os quais possuem uma história dramática como pano de fundo. Um exemplo é o caso, no primeiro episódio, do adolescente alcoólatra, que chega ao hospital com queixas de dores no braço. Ao longo da consulta o médico suspeita que o menino seja vítima de agressões, mas acaba descobrindo, no decorrer do episódio, que o adolescente, na verdade, é alcoólatra. O estilo falso-documentário do programa, que acompanha o dia-a-dia, corrobora o formato episódico da série, pois, como em cada episódio há casos diferentes e desconectados, o público não precisa acompanhar toda a trama para entender a narrativa.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Em relação à ambientação, os episódios se passam dentro de um hospital, o qual é representado de modo verossimilhante, assim como a caracterização dos personagens. O figurino muda de acordo com a personalidade, ocupação e classe-social de cada paciente, além de os médicos sempre se vestirem com jalecos brancos.

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Já em relação à trilha sonora, há músicas instrumentais em alguns momentos mais tensos dos episódios, assim como ocorre em realities médicos. Quando o caso de algum paciente se encerra, há também músicas não-instrumentais que corroboram o clima da cena, como no episódio em que a paciente tem um transplante de rim bem-sucedido.

A fotografia segue um padrão naturalista, o que condiz com o formato de falso-documentário da série. Os indicadores do Plano da Expressão são construídos de modo a enfatizar a proposta de falso-reality e fazer com que o espectador se confunda sobre os casos, achando que eles são, de fato, reais, e não apenas ficção.

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Já a edição segue o padrão dos programas de documentários médicos, não possuindo grandes alterações cronológicas. Os casos dos pacientes são intercalados e, ao final dos episódios, todos se encerram. Há também a inserção de artes identificando os médicos e pacientes, como nos documentários.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, há menções a lugares reais, como, por exemplo, Belo-Horizonte e Vale do Jequitinhonha, que servem como pano de fundo para um caso de doença de chagas no décimo episódio da primeira temporada. Tais referências aproximam o programa do telespectador e conferem verossimilhança aos casos médicos.

Quanto à escassez de setas chamativas, o seriado apresentou algumas setas chamativas, que explicavam melhor ao espectador termos e situações médicas. Essas explicações aconteciam ao longo dos episódios, nos quais os próprios médicos explicavam à câmera certas situações que apareciam durante os casos. Desse modo, o público não tem dificuldades para compreender e acompanhar a produção.

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Os efeitos especiais narrativos podem ser observados nos clímax e reviravoltas que ocorrem durante os casos dos pacientes, geralmente relacionados às situações dramáticas que os envolvem como pano de fundo. Entretanto, em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que foi visto até então. O formato narrativo do programa também não se altera ao longo das temporadas.

Já os recursos de storytelling, como analepses, sequências fantasiosas ou flashbacks, não foram observados durante as emissões analisadas do seriado, o qual não obteve, portanto, nenhum destaque no indicador.

Por Júlia Garcia

Canal Ironia

maxresdefaultO canal Ironia foi criado por Oney Araújo – que é quem faz os vídeos – em 16 de Outubro de 2012. De acordo com descrição do canal, há postagem de vídeo toda semana, porém isso não se comprovou. Foram analisadas duas emissões, resultado das postagens do mês de Setembro de 2015; ambas foram classificadas pelo próprio canal como comédia. Além disso, há a divulgação de uma loja online de suplementos no fim dos vídeos e na descrição; existem várias emissões com a temática de academia e estética corporal.

No Plano da Expressão não foi observada uma riqueza de elementos estéticos. Os dois vídeos foram gravados no mesmo formato: a câmera fixa e Oney falando diretamente para o público. Ele se portava de forma natural e falava em linguagem coloquial. A edição foi feita de maneira linear, o que trouxe uma fluidez no decorrer da emissão.

O vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresenta um off falando sobre o que será feito, enquanto Oney na tela, faz menções com a cabeça como se estivesse entendendo o que a voz diz. Já no vídeo “Pergunte ao frango”, havia uma vinheta que aparecia a cada troca de perguntas; a arte consistia em uma inscrição da “Fábrica de frango” e o nome de Oney Araújo abaixo, em um fundo preto. Além disso, as perguntas sempre apareciam em formato de print. O recurso sonoro utilizado foi o som de uma guitarra. No canto inferior direito da tela, sempre havia um ícone com uma pequena foto do criador do canal.

Avaliando o Plano do Conteúdo, os dois episódios apresentaram pouca ampliação do horizonte do público. Isso justifica-se pelo pouco engajamento do programa em assuntos de relevância social ou estímulo à reflexão. Um exemplo de situação em que o tema poderia ser aprofundado, foi no vídeo do dia 21 de Setembro de 2015, em que o apresentador lê uma pergunta que diz: “O que é maior, os músculos do Arnold Schwarzenegger ou os impostos da Dilma?”. A resposta tenta escapar de um debate mais aprofundado. Oney diz que Kai Greene (fisiculturista profissional americano) saiu porque a Dilma entrou em seu lugar e que ela é a nova campeã; a única capaz de enfrentar Phil Heath (um dos maiores fisiculturistas estadunidenses) no próximo campeonato.  Essas citações não apresentam uma ampliação do conhecimento do público que não conhece o universo do fisiculturismo, pois a menos que este faça uma pesquisa, o vídeo não se preocupa em explicar o que cada um dos nomes representa.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, esta não constou em nenhum vídeo, já que o único que aparece na tela e consequentemente tem o protagonismo na representação e nas ideias, é Oney Araújo, um homem jovem e branco. Não há uma pluralidade de pensamentos nem mesmo no vídeo “Pergunte ao frango”, em que há a participação de espectadores, pois foi feita uma seleção das questões que apareceriam, sendo escolhidas as mais descontraídas, de acordo com a proposta de Oney.

O indicador desconstrução de estereótipos foi pouco observado. O episódio do dia 9 de Setembro de 2015 foi avaliado como fraco, por ter apresentado um assunto sério sem aprofundamento.  O vídeo começa com o apresentador imitando Mc Melody, uma garota de 10 anos, cantora de funk. No momento da música em que ela daria um falsete – sua marca particular – aparece na tela um porco grunhindo. Oney é irônico ao falar que ela é uma cantora profissional e que tem um agente, ao contrário dele.

Depois de zombar do jeito da garota cantar e até do nome do pai dela – Belinho, seu agente – ele faz um apelo real para as pessoas pararem de “zoar” a Melody. Ele argumenta que ela é uma criança e não tem culpa e nem noção do que faz; mas o importante é que ela está conseguindo o que quer, que é ficar famosa. Oney fala que inclusive gostou muito de sua música nova e chega a cantar um trecho. Diz ainda que desde que o pai dela não a coloque dançando de maneira sensual na frente de “um monte de macho”, está tudo bem. O debate sobre sexualização da garota, assunto que foi pauta midiática e social no momento em que ela fazia sucesso, foi levantado de maneira superficial, por isso a classificação da desconstrução foi baixa.

Já o quesito oportunidade obteve avaliação fraca no episódio do dia 9 e não constou em 21 de Setembro. Pode-se justificar a diferença pelos temas abordados. No primeiro vídeo, em que o assunto era a Mc Melody havia uma atualidade, uma vez que sua imagem estava muito presente nas redes sociais naquele momento. O segundo vídeo, com temática sobre estética e academia, não era uma pauta social especificamente nova.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Falando da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve uma classificação razoável e uma muito boa. Isso justifica-se no primeiro caso (emissão do dia 21 de setembro de 2015) porque o modo como o vídeo foi conduzido tinha chances de confundir o espectador. No início parecia que seriam esclarecidas dúvidas reais do público sobre o mundo da academia, porém as perguntas demonstraram que ao contrário, o vídeo seria somente de comédia e não visava responder seriamente nenhuma questão. Já na emissão muito boa, o próprio nome do vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresentava o que seria feito; de fato Oney tinha a intenção de fazer um falsete, imitando a Mc Melody .

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como muito bom em ambas as emissões, uma vez que no início dos vídeos eram divulgadas as redes sociais do dono do canal. Além disso, existem citações ao longo dos vídeos sobre personagens de séries – power rangers –, fisiculturistas reconhecidos internacionalmente e até cantoras.

A solicitação da participação ativa do público obteve uma avaliação boa e uma muito boa, pois por se tratar de um programa do You Tube, já existe um estímulo que chama o espectador a interagir. No final dos vídeos, a tela se dividia e enquanto Oney continuava falando em uma divisão, nas outras telas apareciam links para outros vídeos e um link fixado para se inscrever no canal.  Também apareciam novamente suas redes sociais. Além disso, o público sempre é convidado a dar like no vídeo.

No dia 9 de Setembro, a emissão termina com o anúncio de uma promoção e uma propaganda de uma loja de suplementos que o patrocina – aparece o site na barra do vídeo. O canal possui um cupom de desconto para os espectadores, o que além de estimulá-lo a assistir os vídeos, estimula a compra.  O vídeo avaliado como muito bom foi o dia 21 de Setembro, onde todo o conteúdo foi baseado nas perguntas dos internautas, que concorreriam a uma camiseta através de um sorteio.

O indicador originalidade/criatividade obteve duas classificações razoáveis. No vídeo “Pergunte ao frango” isso se deu porque a proposta de responder perguntas dos internautas não é nova, porém Oney faz isso com o intuito principal de fazer rir e não de tirar as dúvidas das pessoas, que também não eram sérias. Já na emissão “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, a avaliação se justifica pela reciclagem da proposta de tentar reproduzir alguma ação famosa na internet, sendo assim não foi observada uma originalidade considerável.

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Falando sobre os modos de representação, a atuação de Oney diante da câmera se dava de forma natural, buscando deixar o espectador à vontade. Dentre as emissões, o tema com potencial para um debate de cunho social, não foi tratado de maneira aprofundada, o que reforçou a banalização que o audiovisual geralmente reafirma nesses casos. Também não foi observada uma diversidade de olhares sobre as questões.

No aspecto da experimentação também não houve novidade; os recursos técnico-expressivos utilizados já eram conhecidos no YouTube e as propostas não passavam de reciclagem de formatos já existentes. Existia a possibilidade da participação do público, de modo a tornar o programa mais rico em perspectivas, porém isso foi pouco empregado e a construção da narrativa ficou majoritariamente por conta do dono do canal, Oney Araújo.

Por Letícia Silva

 

É pó, é pedra, é o vício no meio do caminho

23660025_1957326210950208_1799782868_oEntre março e julho de 2010, sete meninos adolescentes participaram de uma oficina realizada no Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) de Goiânia, realizada pelo Movimento do Vídeo Popular. Com a intenção de fazer com que os jovens aprendessem técnicas audiovisuais, um dos resultados foi a produção do documentário É pó, é pedra, é o vício no meio do caminho, protagonizado, gravado, dirigido e montado pelos meninos (sob o acompanhamento da equipe que realizou a oficina), que imprimem no vídeo seu envolvimento com as drogas e o crime, no meio das suas diferentes trajetórias de vida.

- “Minha mãe mesmo, nunca morei com ela e nunca vou morar, porque ela não tem amor por mim. [...] O único amor que eu tinha era da minha avó, quando eu era menino”.

Com pouco mais de 15 minutos, o curta traz depoimentos dos internos, que são indagados por quem está atrás das câmeras. Só na metade do filme percebemos que o olhar de quem registra as imagens é o mesmo que o daquele que fala diante da câmera, e também é o mesmo que o de quem faz a montagem final: o olhar de jovens que se encontram numa mesma situação. Tal percepção se dá aos 8min e 23seg, quando o menino que fala aponta o dedo para a câmera e adverte o amigo que grava para que ele faça um depoimento, já que também “é um usuário de crack”.

As falas em off, que pouco aparecem no vídeo, são suficientes para que o espectador perceba a importância das intervenções e da montagem do filme para que a condução da narrativa seja a pretendida pelos idealizadores. No desenrolar do tempo, as perguntas e intervenções direcionam os internos para que eles falem o que os diretores (e também a equipe do Movimento do Vídeo Popular) querem ouvir, e o olhar dos montadores prevalece para fazer com que as imagens e depoimentos, após edição, se correlacionem e façam sentido.

- “Se eu roubar de uma pessoa, todo mundo vai ficar sabendo e eu vou ser chamado como ladrão na sociedade. Mas não é por mim, é pelo vício da droga que faz eu fazer isso”.

Pensar no julgamento feito pelas pessoas e na ociosidade que precede o início do uso das drogas é o que pretendem os sete jovens e os realizadores da oficina, que lapidaram o material bruto gravado e protagonizado pelos meninos. As primeiras falas já explicitam esses objetivos, como a proferida aos 29 segundos, que denuncia a discriminação social sofrida por eles: “Eu andava nas ruas, as pessoas já ficavam me olhando, fui desgostando. [...] Eu saía numa terça, ficava uma semana sem voltar em casa. Quando voltava os vizinhos estavam tudo com o olho desse tamanho me olhando”.

Sobre a ociosidade que permeia a vida desses adolescentes, resultado de uma estrutura familiar calcada na pouca atenção dos pais dedicada aos filhos devido às tensões familiares ou à necessidade de se trabalharem e não ter com quem deixá-los, um dos meninos é enfático: “Minha irmã é mais nova que eu. Minha mãe trabalha a maioria do tempo. Trabalha em três serviços. Passa a maioria do tempo fora de casa trabalhando, e eu fico sozinho a maioria do tempo”.

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Anunciada a linha narrativa do que vai se seguir, o curta imprime as histórias e os olhares dos internos, mas também o olhar dos idealizadores do projeto Movimento do Vídeo Popular, que ensinou, guiou e acompanhou os meninos em todos os processos de produção da obra, deixando refletir, portanto, também as suas concepções acerca do que seria interessante mostrar.

O curta não deixa claro até que ponto os jovens tiveram autonomia e/ou exclusividade para imprimirem as suas asserções de mundo, por isso, perceber que a abordagem selecionada é também fruto de um recorte feito por quem está fora dos muros do CASE, é imprescindível para que o espectador entenda que o vídeo não é a realidade, mas a representação de uma das inúmeras possíveis realidades que permeiam o assunto.

Como afirma Comolli (2008, p. 80), “longe de filmar a-realidade-tal-como-ela-se-dá, o cinema só pode apreendê-la como acumulação de relações” e, dessas relações, além do objetivo de ensinar técnicas audiovisuais para os jovens do CASE, trazer à tona as questões que cercam os jovens envolvidos com drogas, através de suas próprias falas, é também um meio de provocar neles a reflexão sobre o que fizeram.

Apesar das encenações inerentes a qualquer personagem que está sendo filmado, tais reflexões podem se mostrar, por vezes, confusas, porém, reais. Junto a esses pensamentos, os cortes se mostram poderosos quando a intenção é passar uma determinada ideia, dando pouca abertura para contestações.

Aos 7min e 44seg, por exemplo, um dos meninos manifesta sua vontade em parar de fumar crack e cometer crimes: “Sair dessa vida, que eu não dou conta mais não. Tô cansado de apanhar, cansado de ficar preso, enjaulado. Vou sair dessa vida”. Após, uma voz ao fundo se faz audível e diz “você acha que você vai…”. Um corte é feito e na sequência o garoto continua: “Sair pra estudar, né, porque eu não gosto de estudar não, falar pra você. Quando eu vejo um caderno, eu vou falar pra você, dá vontade de sumir”.

Enquanto na primeira fala o menino se mostra otimista quanto às mudanças, na fala imediatamente posterior ao corte o tom é pessimista e desanima o espectador, que talvez tenha dificuldades em depositar nele esperança com relação à sua melhora. Por mais que digam querer sair “dessa vida”, parece que eles mesmos não “botam fé” no que dizem (vide o fato de estarem em um centro socioeducativo, local para jovens reincidentes no crime).

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Esse mecanismo do corte seco no meio da fala, que imprime no espectador um tom pessimista para o futuro do adolescente, de certa forma reforça o estereótipo de que esses jovens “não têm mais jeito”, que estão “perdidos na vida”, e que “não têm mais volta”. Não explicitar até que ponto os jovens tiveram autonomia e/ou exclusividade na produção do filme é o que deixa margem para o espectador pensar que essas impressões talvez sejam fruto das intervenções de quem está fora dos muros do CASE, e não de quem está dentro.

O documentário, ao usar do dispositivo de ceder a câmera e a montagem aos meninos, consegue ser político não por quebrar estigmas e padrões, mas por abordar as duas temáticas centrais que, de certa forma, colocam o espectador num lugar de desconforto ao fazê-lo sentir-se culpado (ou, ao menos, sensível) diante da situação dos meninos, que pouco indica um futuro diferente. Dessa forma, uma brecha para a reflexão espectadora talvez seja, assim, possível e instigada.

E por mais que essas percepções infelizes sejam o estereótipo do que se esperar dos jovens que se envolvem com drogas, o fato desse estereótipo ser comum é o que nos faz refletir que a sociedade que julga e discrimina, é também a sociedade que condena; que segregar e não dar oportunidades só reproduz a lógica escravocrata que determina o lugar e o destino de cada um; que lutar para permanecer livre é a solução encontrada, e que subsistir na rua talvez seja o plano de fuga mais viável para essa condenação.

“A sociedade me influenciou por causa disso. Por causa da falta de oportunidade. Porque eles pensam que a gente faz os erros uma ou duas vezes, a gente não pode mudar de vida, que vai ser sempre aquilo”, disse um dos meninos aos 7min e 30seg. Pelas histórias, percebe-se que o tempo desses jovens não caminha com o relógio, mas com a vontade de viver intensamente o pouco tempo que ainda lhes restam, a pouca parte que lhes cabem desta sociedade que já os condenou.

Assista ao documentário: http://curtadoc.tv/curta/comportamento/e-po-e-pedra-e-o-vicio-no-meio-do-caminho/

Por Luma Perobeli

 

Procurando Casseta & Planeta

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  • Elenco: Beto Silva, Cláudio Manoel, Hélio de la Peña, Hubert Aranha, Marcelo Madureira, Reinaldo Figueiredo.
  • Período de exibição: 17/10/2016 a 14/11/2016
  • Duração: 25 minutos
  • Nº de episódios: 20

Exibido pelo canal pago Multishow, Procurando Casseta & Planeta marca o retorno dos humoristas Beto Silva, Cláudio Manoel, Hélio de laPeña, Hubert Aranha, Marcelo Madureira e Reinaldo Figueiredo após um longo período longe da televisão. Ao longo dos 20 episódios, com cerca de 25 minutos de duração, a série mistura esquetes de personagens populares da franquia como Maçaranduba e Seu Creysson, depoimentos de populares nas rua do Rio de Janeiro e um mockumentary.

Com a premissa de reunir os integrantes do famoso programa dos anos 1990 para a gravação de um documentário Cláudio Manoel sai em busca dos seus ex-parceiros. Porém, os humoristas já estão envolvidos com outros projetos e, principalmente, enfrentando dificuldades para retomar a carreira de sucesso.

Mesclando o mockumentary com as referências aos programas que foram ao ar na Rede Globo entre 1992 a 2010, Procurando Casseta & Planeta tenta reaproximar o telespectador o universo do humorístico. Seguindo o formato do ‘Povo Fala’ a atração do Multishow entrevista populares nas ruas ironizando o fim do Casseta & Planeta Urgente! e o seu enfraquecimento perante os programas concorrentes.

Além dos humoristas, Procurando Casseta & Planeta ainda conta com as participações de Arlindo Cruz, Kid Bengala, Danilo Gentili e Eduardo Sterblitch.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Por mesclar vários formatos, a série Procurando Casseta & Planeta explora distintas ambientações abrangendo tanto locações externas quanto cenários recorrentes. Como, por exemplo, no episódio Cadê Os Caras?, exibido em 17 de outubro de 2016, podemos observar sequências gravadas no centro da cidade do Rio de Janeiro e em um estúdio.

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Os cenários tentam reproduzir o ambiente de trabalho dos humoristas e trazem elementos que dialogam com o programa Casseta & Planeta Urgente! No escritório de Hubert Aranha, por exemplo, podemos ressaltar a camisa do Tabajara Futebol Clube, a faixa de ex-presidente de Fernando Henrique Cardoso, que era satirizado pelo humorista, e a taça da copa do mundo, fazendo alusão ao longa metragem Casseta & Planeta: A Taça do Mundo é Nossa (2003). Nesse contexto, a ambientação contribui mais para o formato adotado pelo atração do Multishow que para os desdobramentos dos plots e sub plots.

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No indicador caracterização dos personagens podemos ressaltar tanto os figurinos usados pelos humoristas em suas imitações quanto nas sequências do mockumentary. Isto é, a caracterização é norteada por duas vertentes, a que mostra as esquetes dos atores como, por exemplo, no episodio Cadê Os Caras?, em que Beto Silva faz uma sátira de uma cantora baiana, e quando falso documentário que acompanha o dia a dia dos humoristas.

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A trilha sonora de Procurando Casseta & Planeta é composta por musicas criadas especificamente para o programa como, por exemplo, ‘Cadê Os Caras?’. A canção, interpretada por Beto Silva, Cláudio Manoel, Hélio de la Peña, Hubert Aranha, Marcelo Madureira, Reinaldo Figueiredo faz alusão a temática da atração ironizado o fim do programa na TV aberta. A trilha também apresenta musicas de populares de outros cantores, executadas em momentos pontuais da atração, principalmente na passagem de uma cena para a outra.

A fotografia da série do canal pago Multishow segue o estilo naturalista e não interfere no desdobramento dos arcos narrativos. Apesar de a iluminação variar em algumas cenas como, por exemplo, nas sequências gravadas na casa noturna, o indicador não contribui para o universo do humorístico.

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Por fim, a trama segue uma edição não linear. Por mesclar diferentes formatos, um mesmo episódio temos a cenas dos programas antigos, depoimentos de populares nas ruas e mockumentary. Porém, como iremos discutir mais adiante esses múltiplos formatos são delimitados por setas chamativas, ajudando na compreensão do público.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Por se tratar de uma série de humor e que aborda as questões do cotidiano e o fracasso dos humoristas, os diálogos de Procurando Casseta & Planeta são permeados por referências externas ao universo ficcional. Como, por exemplo, no episódio Cadê Os Caras? em que Kid Bengala cita o canal de humor no You Tube Porta dos Fundos. Nesse sentido, apesar de não serem fundamentais para a compreensão do público as intertextualidades ampliam a experiência televisiva do telespectador.

O indicador escassez de setas chamativas não foi observado na primeira temporada da série. As cenas dos 20 episódios apresentam cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Esse recurso pode ser observado na forma como a separação dos humoristas é abordada em Procurando Casseta & Planeta, constantemente os diálogos retomavam que o programa exibido na Rede Globo tinha sido cancelado. As setas chamativas também estão presentes na abertura da atração, através da letra da musica e das inserções gráficas a sequência mostra o grupo no auge do sucesso e depois vivenciando as quedas de audiência.

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Apesar ter clímax e reviravoltas, a série do canal pago Multishow não apresenta o indicador efeitos especiais narrativos. Os recursos são usados de maneira conveniente na trama e não estimula o telespectador a reconsiderar tudo o que assistiu até então.

O último indicador do Plano do Conteúdo está presente, principalmente, nas cenas que lembram os personagens populares da franquia.

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Os flashbacks são marcados por setas chamativas que evidenciam ao público que a sequência é uma analepse. Conforme pode ser observado nas capturas de tela acima, a cena apresenta um filtro que escurece a iluminação. Nesse sentido, da adoção do  flashbacks o programa ressalta para o público todas as suas mudanças cronológicas.

Por Daiana Sigiliano

Casseta & Planeta, Urgente!

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Casseta e Planeta Urgente! foi um programa exibido pela Rede Globo de Televisão por 18 anos, entre 1992 e 2010, primeiro mensalmente, em uma faixa da programação global chamada Terça Nobre e, em 1998, conquistando episódios semanais, com duração média de 25 minutos.

Redigido e estrelado por Hubert, Cláudio Manoel, Bussunda, Hélio de laPeña, Reinaldo, Marcelo Madureira e Beto Silva, os artistas já haviam participado de programas da Globo escrevendo esquetes para Fantástico, TV Pirata e Dóris para Maiores. Antes disso, comandavam a revista Casseta Popular e o jornal Planeta Diário, periódicos humorísticos com circulação nos anos 1980.

No Plano da Expressão, o programa sempre foi composto por esquetes, sendo característica fundamental as paródias de novelas do horário nobre da Globo. Alguns quadros se mantiveram fixos por mais tempo, como a expedição Casseta Brasil Adentro e o Plantão Urgente. Mas a maior parte dos assuntos abordados era dividida entre clichês da comédia, com piadas já conhecidas e exploradas, e assuntos da agenda midiática do país.

Apesar da sátira e da construção grotesca de alguns personagens e situações, o programa se preocupava com a verossimilhança, por isso, cenários e figurinos eram muito bem produzidos e realísticos, assim como o roteiro era seguido fielmente, não permitindo improviso ou mesmo mostrando erros de gravação, características bastante comuns a programas similares.

Alguns personagens em especial marcaram os espectadores e deixaram na memória seus bordões, como o presidente Folgado Henrique Cardoso, sempre indignado: “Assim não pode! Assim não dá!”, ou a dupla de marombeiros, Maçaranduba e Montanha, com a frase “Vou dar porrada!”, usada para qualquer um que duvidasse da masculinidade deles. Gavião Bueno e seu fanatismo pelo jogador Ronaldo, Marrentinho Carioca e Os Sambabacas também estão nessa lista.

Além disso, o programa utilizava bastantes recursos gráficos inserindo animações em seus quadros, artes gráficas entre um esquete e outro ou até mesmo durante as cenas. A vinheta de abertura passou por várias modificações ao longo dos anos, mas sempre manteve a animação de uma cobra verde junto com o planeta Terra, que compunham o logotipo do programa.

No Plano do conteúdo, o indicador oportunidade foi bem avaliado devido à escolha de temas importantes abordados no programa, como violência, crise política, conflitos geopolíticos, Copa do Mundo, Pan Americano, Jogos Olímpicos, dentre outros acontecimentos paralelos às datas de exibição das emissões aqui avaliadas.

No entanto, o indicador ampliação de horizonte do público, muito dependente do anterior, não foi tão bem avaliado, pois as pautas citadas acima não são tratadas de maneira relevante, mas com ironia ou reafirmando clichês, como associar o Rio de Janeiro à violência, por exemplo. Além disso, o Casseta e Planeta, apesar das sátiras críticas, principalmente quando se trata de política, não deixa claro um posicionamento, transformando a abordagem em deboche.

O indicador desconstrução de estereótipos também não teve boa avaliação, já que o programa se baseia justamente no lugar-comum para fazer graça e utiliza comentários grotescos, trocadilhos vulgares e frases de duplo sentido em boa parte dos diálogos. Em 2003, por exemplo, o programa recebeu um manifesto do povo do Rio Grande do Sul que os acusava, entre outras coisas, de ser racista e ofensivo à honra e tradição do estado sulista. Os atores responderam que as considerações que faziam sobre gaúchos eram apenas brincadeiras e que nunca tiveram a intenção de ofender o povo daquele estado.

Já a diversidade de sujeitos representados foi considerada razoável, afinal, os personagens são de diversas etnias e gêneros, mesmo quando as mulheres são representadas por atores do sexo masculino. No entanto, a baixa classificação se deve à representação cênica de tais sujeitos, que reafirmam clichês e preconceitos.

O diálogo do quadro Plantão Urgente, do programa de 20 de junho de 2006, exemplifica bem os quatro indicadores acima citados. Na cena, um repórter vai falar sobre a polêmica do estado do Acre pertencer à Bolívia e não ao Brasil, e o fato dessa questão antiga atrapalhar assuntos políticos entre os dois países. No entanto, a oportunidade de discussão e debate se perde quando o presidente da Bolívia, descendente indígena, é representado grotescamente, além de falar em “portunhol” e ser debochado pelo repórter.

REPÓRTER: Na semana passada, o presidente da Bolívia, Pé Nuevo Morales, continuou enchendo o ‘tchaco’, radicalizou ainda mais e mandou o Brasil pra quele lugar que rima com o nome do nosso querido país. Não é mesmo, índio?
MORALES: É verdade. Nosotros somos unpuevo de los Andes, por isso estamos cagandes e andandes para el Brasil. E, no más, quiero de vueltael Acre!
REPÓRTER: Mas o senhor perdeu o lacre? Eu pensava que o sr. era espada!
MORALES:Soy espada e matador! Me refiro ao estado do Acre, que losbrasileños nos sacaram enla mano grande trocando por um cavalo. E tudo para plantar as seringueiras e depois los seringueiros, los chicos brasileños que passam lo dia inteiro sacando elleche de lo pau.
SERINGUEIRO: Não acredito que o sr. fez essa quizomba toda, arrumou essa presepada toda na geopolítica da América Latina só pra fazer, pela milionésima vez, essa piadinha de seringueiro tirando leite do pau! Ô, Lula, tu não vai fazer nada? Dá um pau nesse índio, rapá!
(Casseta e Planeta– episódio 20/06/2006).

Abaixo, o gráfico com a avaliação de cada emissão em relação ao plano do conteúdo:

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No plano da mensagem audiovisual, o Casseta e Planeta Urgente! foi muito bem avaliado no indicador clareza da proposta, considerado bom em dois episódios e muito bom nos outros três avaliados. Isso se deve à organização do programa, dividido em quadros e esquetes, à junção de todos os elementos do plano da expressão, e à fidelidade do programa ao seu lema “jornalismo-mentira e humor-verdade”, fatos que tornam claros a sua proposta.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas também obteve avaliação satisfatória em quatro dos episódios, pois o programa satiriza novelas e publicidades, além de falar de acontecimentos reais, como a Copa do Mundo, e terem participação e entrevistas com celebridades e personalidades conhecidas, trazendo verossimilhança ao programa. O que conferiu nota máxima ao episódio do dia primeiro de dezembro de 2009, nesse critério, foi, principalmente, o quadro Expedição Casseta Brasil Adentro, no qual a intenção do programa é viajar pelo Brasil mostrando as diferenças culturais que o país tem por meio de matérias especiais de comportamento e enquetes.

Já o episódio que recebeu nota razoável foi o de 20 de junho de 2006, um especial em homenagem a Bussunda, no qual não houve preocupação do programa em manter seu padrão, mas mostrar tudo o que o falecido humorista interpretou. Ademais, o Casseta e Planeta Urgente! tornou-se uma marca, com lançamento de dois filmes, oito livros, revistas e até CD’s.

Já a solicitação da participação ativa do público foi avaliada entre razoável e boa, pois há interação direta com o espectador e, em alguns episódios, um preview do próximo bloco antes do intervalo comercial. Além disso os produtos fictícios das Organizações Tabajara, além da sátira às publicidades televisivas, têm como objetivo entreter o espectador, como se fossem feitos para eles.

O indicador originalidade/criatividade não obteve notas tão relevantes quanto os outros indicadores da mensagem audiovisual, pois Casseta e Planeta Urgente! é uma reciclagem de outros programas que passaram pela Rede Globo, principalmente o TV Pirata, com suas paródias sobre a programação do canal, e o Dóris Para Maiores, do qual a principal influência foi a adoção de uma apresentadora.

Confira, abaixo, o gráfico referente a cada uma das emissões de acordo com os indicadores da mensagem audiovisual:

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Com base na análise feita é possível concluir que o Casseta e Planeta Urgente! trata-se de um programa de comédia, no qual não há preocupação com a desconstrução de conceitos arraigados.No modo de representação dos personagens e na construção de diálogos, o programa deixa a desejar quando se utiliza de tantos estereótipos, quando poderia, na verdade, desconstruí-los ou, no mínimo, amenizá-los em vez de reforça-los. Como visto, pautas atuais e relevantes foram abordadas, mas poderiam ter sido aprofundadas de forma a estimular o debate ou uma discussão sob novos pontos de vista.

Apesar de não trazer inovações quanto ao formato, o Casseta e Planeta explora muito bem os recursos audiovisuais, com roteiro bem estruturado e verossímil, e produção cênica bem elaborada. Assim como a interação com o público e a adaptação a outras plataformas, características muito claras no programa e que de certa forma trazem a ele um diferencial em relação a outras produções do gênero.

Por Lilian Delfino

À sombra da marquise e a luz da exclusão

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De quantas formas é possível sentir a dor da exclusão? Para as pessoas em situação de rua nos grandes centros urbanos, a experiência de não ter um lar revela-se ainda mais dura quando se deparam com o olhar do outro. Um olhar que os ignora enquanto humanos, que está cercado pela viseira do egoísmo e com lentes repletas de preconceitos.

Em apenas oito minutos, Vladimir Seixas, no documentário À sombra da marquise (2010) consegue revelar uma das facetas da vida marginal e da sensação de perda de direitos e de humanidade. Seixas convida o espectador a pensar sobre a questão, à medida que mostra vários olhares e versões.

O filme começa com imagens de câmeras de segurança e percebe-se que o cenário é uma rua de algum bairro de classe média, com calçadas em pedras portuguesas. Além dos transeuntes, aparecem a entrada de um prédio e estabelecimentos comerciais ao lado. Em seguida, a câmera capta em close up o rosto de várias pessoas, sem identificá-las. Poderíamos nos perguntar: quem são elas? O que têm em comum ou o que as diferem? É justamente essa diferença que Seixas irá mostrar mais a frente.

É noite. Um homem caminha com um lençol na mão, estende-o sobre a calçada e se deita. Mas não dura muito. Logo se escuta o som de águas caindo, ele se levanta, abandona o local e torce sua blusa.

Corte para imagens captadas durante o dia. Agora, a câmera focaliza canos afixados em uma marquise. Um funcionário da farmácia que fica ao lado do prédio onde está a marquise relata que todas as noites o porteiro liga o registro para molhar a calçada, de modo a evitar que pessoas em situação de rua durmam ali. Em seguida, o porteiro aparece em cena e o cineasta pergunta do outro lado da câmera: “quem inventou isso?”. Ele responde: “o síndico”.

Corte para o close no rosto um homem de cabelos e bigodes brancos, sem camisa e que parece estar na cozinha de seu apartamento. Ele justifica que o sistema que joga água na calçada é uma forma de minimizar a situação, já que, segundo ele, as pessoas que ali dormiam estavam “atrapalhando todos”. E continua: “É chato porque a gente fica… Prejudicado… Não prejudicado, mas com medo de que esses caras amanhã ou depois venham fazer alguma… Sei lá, venham fazer alguma maldade aqui, quebrar o vidro, quebrar alguma coisa na loja…”. E diz que até o momento, isso não aconteceu.

É hora de ouvir aquele que ali tinha tentado se deitar, mas logo precisou levantar-se por causa da água que caía sobre si. Ele caracteriza como um ato de maldade. E diz: “a gente não pode fazer nada… Se a gente falar com eles, eles ainda chamam a polícia…”.
Outra pessoa então, assume o discurso. É um homem que transita frequentemente naquela calçada. Ele conta que uma vez viu uma família inteira abandonar o local por ter se molhado à noite, quando o sistema de água foi ligado. “Não sei porque isso”, diz, com certo tom de desaprovação. “Eu não gosto disso não… Se eu chegar aqui e arrancar o cano, eu que vou preso, né…”. E completa: “Mas nosso país é isso mesmo, né? Quem tem tem, quem não tem é pisado”. O filme, então, termina com a imagem do sujeito em situação de rua caminhando pelo bairro, há cenas da calçada molhada e o fechamento com a indicação do local: Copacabana, um bairro de classe alta da cidade do Rio de Janeiro.

Observa-se, na obra, uma tentativa de mostrar os vários olhares em torno da questão, incluindo o do próprio cineasta que, ao escolher fechar o filme com a frase do personagem “quem tem tem, quem não tem é pisado”, deixa a sua visão sobre a vida marginal e uma certa falta de esperança. Ao trazer o discurso do síndico, justificando o porquê da instalação do sistema e alegando ter medo de uma reação violenta, Seixas traz a questão da exclusão às claras, mostra que o preconceito tem endereço certo e que está longe de ser superado. O olhar do personagem que motivou o tema do filme pode ser traduzido na frase “a gente não pode fazer nada, se a gente falar com eles chamam a polícia”, reconhecendo que o preconceito não está apenas nos olhos do síndico e dos moradores do prédio, mas nas instituições que deveriam protegê-los e zelar pelos seus direitos e não o fazem.

Não se pode dizer que a obra opta por uma estética de rompimento dos jogos de poder presentes na sociedade, conforme propõe Rancière (2011), mas ao trazer os vários olhares, ela entrega ao espectador a missão de pensar sobre a questão e, de certo modo, posicionar-se sobre ela. Comolli (2008) diz que um dos grandes trunfos do documentário é perfurar a consciência de quem assiste ao filme. Na obra de Seixas, o espectador é convidado a pensar a partir da identificação que faz: ao se ver no síndico ou no transeunte que se indigna com a situação – tudo dependerá de como o filme irá afetá-lo.

As várias versões dão luz ao preconceito e chamam a uma reflexão. Em poucos minutos é apresentada a dor de ser marginalizado e de não ter um pertencimento, frutos de uma mentalidade que prefere roubar os direitos e a humanidade do outro a ceder um pouco do espaço que possui. É a voz do documentário traduzindo o que se passa no real.

Assista ao filme aqui: http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_sombra_da_marquise

Por Tatiana Vieira

Os Suburbanos

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  • Direção: Luciano Sabino
  • Elenco: Rodrigo Sant’Anna, Babu Santana, Mariah da Penha, Carla Cristina Cardoso, Nando Cunha, Isabelle Marques, Érika Januza, Tadeu Mello, Rafael Zulu, Zezeh Barbosa, Solange Couto.
  • Período de exibição: 06/07/2015 a 02/08/2017
  • Duração: 45 minutos
  • Nº de episódios: 70

Dirigida por Luciano Sabino, a série Os Suburbanos é protagonizada por Jeferson (Rodrigo Sant’anna), um homem humilde que mora no bairro de Madureira na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. A partir de um sonho, o personagem decide escrever a música “Xavasca Guerreira” que depois se transforma em um clipe, gravado com a ajuda de seu primo Welinto (Babu Santana) e de alguns amigos. Inesperadamente, o vídeo se torna um sucesso na internet e traz fama para Jeferson (Rodrigo Sant’anna) que passa a ser conhecido como Jefinho do Pagode. A partir de então, o protagonista que antes possuía uma vida humilde trabalhando como motorista de kombi, agora precisa lidar com a fama e a riqueza.

O elenco conta com nomes como Rodrigo Sant’Anna, Babu Santana, Mariah da Penha, Carla Cristina Cardoso, Nando Cunha, Isabelle Marques, Érika Januza, Tadeu Mello, Rafael Zulu, Zezeh Barbosa e Solange Couto.

Os arcos narrativos da trama giram em torno do novo estilo de vida de Jeferson (Rodrigo Sant’Anna) após conquistar a fama com a grande repercussão de seu clipe. Seguindo a estrutura episódica, a série apresenta em arcos isolados em cada episódio, sendo assim cada um se inicia com um equilíbrio e logo após é inserida uma situação nova ou conflito, culminando no desfecho ao final.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A trama se passa no bairro de Madureira no Rio de Janeiro, nesse contexto o lugar conte se passam os plots e sub plots é fundamental já que as narrativas giram em torno de questões relacionadas ao estilo de vida no subúrbio. Desta forma, a ambientação é responsável por situar o telespectador na história e aliado aos estereótipos dos personagens proporciona uma rápida imersão e compreensão do tema de Os Suburbanos.

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O figurino dos personagens é norteado por muitas cores e mix de estampas. Apesar de reforçar as características centrais dos personagens, é importante destacar que a caracterização se modifica ao longo da série. Como, por exemplo, quando Jefinho (Rodrigo Sant’Anna) está em busca da fama, e ainda trabalha como motorista de Kombi seu figurino é simples. Já quando o personagem alcança o sucesso e a riqueza, mantém o uso do mesmo estilo de se vestir, porém com tecidos mais refinados e acessórios mais extravagantes como óculos de sol espelhados, correntes e relógios. Entre os personagens masculinos, o cabelo é marcado pelo estilo descolorido ou com desenhos feitos por cortes de máquina estilizados. Já as personagens femininas usam figurinos curtos, roupas sensuais e justas,com estampas coloridas e salto alto, sempre pautados pelos arquétipos. A caracterização em Os Suburbanos ajuda na identificação do personagem, uma vez que pelo figurino é possível compreender as características e personalidades de cada um.

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A trilha sonora de Os Suburbanos conta principalmente com canções de gêneros como pagode e funk. Como, por exemplo, Caraca, Muleke! do Thiaguinho, Te ensinei certin de Ludmilla, Meu lugar de Arlindo Cruz, entre outras. As músicas eram utilizadas, na maioria das vezes, em momentos de passagem em que há a transição de um lugar para outro dentro da trama. A composição da trilha sonora dialoga com a temática da série, uma vez que traz gêneros musicais muito populares nos subúrbios, lugar em que se passa a trama.

Apesar da série apresentar cores nos figurinos e cenários, a fotografia se mostra de forma naturalista e não é muito explorada na série. Portanto,o indicador não interfere e/ou reflete no desdobramento dos episódios da atração.

A edição em Os Suburbanos se faz presente de forma linear. Cada episódio segue uma única cronologia e não há o uso de recursos como flashbacks.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

A intertextualidade se faz presente em muitos momentos de Os Suburbanos. A trama apresenta diversas referências externas ao universo ficcional e é usado, na maioria das vezes, para ironizar e satirizar alguma situação. Como, por exemplo, no episódio A lança de Jefinho o personagem Jeferson (Rodrigo Sant’Anna) é satirizado, quando Welinto (Babu Santana) diz que sua caracterização está parecendo uma mistura dos cantores Tim Maia e Belo. Nesse mesmo episódio, Jefinho (Rodrigo Sant’Anna) sugere que seja feita uma cena em seu clipe musical inspirada na garota do fantástico na abertura do programa.

A série utiliza de setas chamativas em alguns momentos. No episódio E fez-se a Luz, a gravidez de Bárbara (Isabelle Marques) é repetida várias vezes, de forma a reforçar esse acontecimento. Além disso, o questionamento sobre a paternidade da criança é apresentado de várias formas neste episódio. Desta forma, o indicador não foi observado no programa.

Já os efeitos especiais narrativos foram usados no desenvolvimento dos arcos narrativos de Os Suburbanos. Como os episódios são norteados por microestruturas e arcos autônomos, o conflito se faz presente em todo eles e no mesmo episódio são solucionados, fechando o arco narrativo criado. Apesar de ser esperado pelo telespectador, o clímax não deixa de cumprir seu papel de representar uma quebra na narrativa. As reviravoltas são importantes para a trama, porém não tão significativas a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a história até então.

Por fim, os recursos de storytelling não são explorados em Os Suburbanos. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

Por Mariana Meyer

Barbixas

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Barbixas é um canal do YouTube criado em 29 de dezembro de 2007, que conta com esquetes e jogos de improviso inspirados no programa americano Whose Line Is It Anyway?. Publicando vídeos novos todas as terças e quintas, seu conteúdo mescla esquetes de estúdio e apresentações que a Cia. Barbixas de Humor faz em todo o Brasil desde 2008. O espetáculo Improvável, idealizado pelos barbixas Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento, Elidio Sanna e um ator convidado, é um projeto baseado em jogos de improviso feitos ao vivo com a ajuda da plateia. O canal tem hoje a direção geral de Elidio Sanna, um dos integrantes da companhia, e a produção e captação de imagens da TJ Produções.

No Plano da Expressão, são destaques o cenário, a composição gráfica e a vinheta final de cada vídeo. Em todos os oito conteúdos publicados no mês de setembro de 2015, observamos uma padronização estética do canal, ainda que conteúdo e formato entre os vídeos de esquetes e os de improviso sejam diferentes. Nos vídeos de improviso gravados do espetáculo Improvável, o cenário é sempre o mesmo: o show é sempre em um teatro, com cortina azul escura ao fundo, cadeiras e caixas alinhadas também ao fundo, e iluminação focada nos atores. A composição gráfica, nos dois formatos, é sempre a mesma: nos primeiros segundos do vídeo aparece à direita da tela o logo do programa com um espaço amarelo contendo o endereço eletrônico do site dos barbixas, e a palavra “inscreva-se”. Até o final de todos os conteúdos permanece no lado direito inferior da tela o logo característico do canal: um rosto redondo e amarelo, de olhos pretos e sorriso grande, com pequenos pelos abaixo da linha que delineia o rosto, remetendo às barbas que os integrantes do elenco têm no queixo.

Quanto às vinhetas, o canal só preserva as finais, já que todos os vídeos analisados nos levam direto ao conteúdo. As publicações não têm uma média padrão de tempo, mas nota-se que há uma preferência por vídeos mais curtos, de três ou quatro minutos, embora tenha alguns com cinco, seis e até oito minutos. Todos os vídeos com o formato de esquete terminam com blocos retangulares nas cores amarelo, branco e preto subindo na tela em diagonal, e encerrando com o logo do canal no centro. E nos vídeos de improviso, anterior a essa parte da vinheta final, aparecem também vários blocos coloridos que sobem na tela e o nome “Improvável” acima da frase “um jogo provavelmente bom”, no centro.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade foi o melhor avaliado em todas as emissões. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o canal Barbixas um programa atual porque utiliza nos jogos de improviso as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um, e nos esquetes temas muitas vezes atuais e/ou pertinentes para a sociedade.

Para o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, somente o vídeo Trem se mostrou razoável. Os demais foram avaliados como “fracos”, pois, apesar de mencionar pessoas de algumas classes distintas da sociedade, fica claro que a preocupação do canal não está na diversidade dos sujeitos que serão representados, mas sim no roteiro que será falado (no caso dos esquetes). No caso dos vídeos de improviso, essa diversidade também não é muito identificada, pois como a plateia que dá o tema para jogos não aparece na tela em momento algum, não tem como saber se ela é diversa, constituída por pessoas de todas as cores, idades, estilos e classes sociais.

Ainda no plano do conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos recebeu avaliação fraca em todas as emissões, pois utilizou o estereótipo, nas poucas vezes que apareceu, para a afirmação, e não para a desconstrução. No último indicador de qualidade desse plano, o ampliação do horizonte do público, percebe-se que somente os vídeos do formato esquete foram avaliados, sendo dois deles razoáveis, um, fraco, e outro, muito bom. Em nenhuma das emissões de improviso podemos afirmar que há preocupação em fazer com que os espectadores interajam e reflitam sobre assuntos polêmicos ou contraditórios, pois os temas são pontuais, sugeridos pela plateia e sem maior significação social. A ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias só foi possível, portanto, nos vídeos de esquete, que reforçam a ideia de que com os vídeos de improviso o canal quer apenas que o espectador se divirta e dê risadas, e que com os esquetes o público reflita depois de rir. Veja, a seguir, o gráfico do plano do conteúdo:

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Quanto à estética, como já falado, o canal preserva elementos característicos e semelhantes para os dois formatos que apresenta, mas, com relação ao conteúdo e consequentemente às suas qualidades, as diferenças são evidentes. Na Mensagem Audiovisual, por exemplo, os indicadores de qualidade clareza da proposta e solicitação da participação ativa do público foram muito bem avaliados em todos os quatro vídeos de improviso do canal. Uma vez que esse formato só é desenvolvido pela constante participação do público e que um “mestre de cerimônias” explica todos os jogos antes de o mesmo ser iniciado, dá os desafios aos atores e seleciona as sugestões da plateia, a presença desses indicadores torna-se simultânea ao ato da cena. Um exemplo em que esses dois indicadores é identificado está na emissão publicada no dia 3 de setembro de 2015, intitulada Improvável – Frases #37:

MESTRE DE CERIMÔNIA: Dani e José Luiz vão jogar o jogo das frases. Nesse jogo eu vou pedir pra eles tirarem uma frase da caixinha laranja, que tem frases que vocês escreveram lá fora [olha para a plateia]. Cada um tira duas e coloca no bolso por favor. Eles vão improvisar uma cena e a qualquer momento eles vão tirar uma dessas frases, falar e ter que se virar pra fazer essa frase ter sentido na cena. Eu queria que essa galera daqui da direita falasse um objeto pra mim, um objeto comum, qualquer.

ESPECTADOR [grita do fundo]: Castiçal.

MESTRE DE CERIMÔNIA: Castiçal. Muito bem. Valendo!

(Barbixas – episódio Improvável – Frases #37 3/09/2015).

Nos esquetes, a presença do indicador solicitação da participação ativa do público também se faz presente, com boa avaliação em todas as emissões, mas de forma diferenciada. Por ser um formato que exige roteiro, produção e gravação prévios, a participação direta do público, como no improviso, torna-se impossível. No entanto, o indicador é observado na solicitação da participação indireta do público, pois com uma linguagem clara e apropriada ao tema proposto, o espectador se identifica e se aproxima do canal; através das diversas redes sociais a que o canal se dispõe, o público pode deixar comentários e sugestões; e ainda através dos links que aparecem ao final de cada vídeo, que solicita a sua participação e interação através do seu clique para outros conteúdos do canal. Na clareza da proposta, esse formato também foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas, pois o canal deixa bem claro o seu objetivo ao trabalhar um formato diferente do outro: no improviso, o canal quer apenas que o espectador ria, e nos esquetes, quer fazê-lo rir e pensar.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Barbixas também foi destaque. Como o programa de TV Quinta Categoria, em nível mundial não podemos dizer que o canal foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado, o programa americano Whose Line Is It Anyway?. Entretanto, a Cia. Barbixas de Humor foi inovadora no Brasil ao ajudar a popularizar esse formato através das apresentações que faziam nos teatros e da estreia do canal no YouTube, que mais tarde inspirou a criação do programa Quinta Categoria, exibido a partir de março de 2008 no canal MTV. Além de experimental, os Barbixas são também criativos e originais, pois os três comediantes são talentosos e experientes no que fazem, o que fomenta a criação dos jogos e dos esquetes e enriquece a qualidade artística do programa. A seguir, o gráfico da mensagem audiovisual:

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Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no canal do YouTube Barbixas. Quanto à experimentação, vimos que o programa foi inovador no Brasil porque ajudou a popularizar os jogos de improviso, formato que, entretanto, não foi possível se unir ao humorismo, uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Nos esquetes, porém, o humor é identificado por apresentar, nesse formato, ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias, que são requisitos básicos da representação. Um exemplo está no vídeo publicado no dia 15 de setembro de 2015, chamado Trem, que alerta para a importância de se discutir o pouco uso da malha ferroviária do Brasil e o intenso uso da malha rodoviária, que traz prejuízos imensamente maiores se comparado aos trazidos pela ferroviária.

Por Luma Perobeli