Arquivo da categoria: Análise

Acerto de Contas

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  • Roteiro: Leonardo Gudel
  • Elenco: Silvio Guindane, Ângelo Paes Leme, Aline Fanju, Stephan Nercessian, Antônio Pitanga e Rafael Logan.
  • Período de exibição: 02/04/2014 – 18/04/2014
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 13

Feita em parceria com a RioFilme e a Morena Filmes, a série Acerto de contas foi a primeira produção ficcional policial do canal Multishow. Exibida diariamente entre 2  e 18 de abril de 2012, o seriado foi idealizado por Silvio Guindane, que também interpreta o protagonista Dante. A direção dos 13 episódios roteirizados por Leonardo Gudel ficou a cargo de José Joffilly.

Acompanhando a história de Dante (Silvio Guindane), filho adotivo de Nicolau (Stephan Nercessian), a trama se desenrola no incômodo de Quinho (Ângelo Paes Leme), filho biológico, quanto ao fato do irmão ser o predileto do pai. Quinho então arma um falso sequestro e Dante, inocente, tentar salvá-lo e acaba preso por sete anos. Deixando a prisão, o protagonista quer se vingar dos responsáveis por sua prisão, contudo se depara com uma realidade diferente: o pai perdeu dinheiro e a influência no desmanche de carros, seu irmão Quinho se tornou vereador da cidade e a ex-namorada, Luana (Aline Fanju) se torna esposa do político. Ainda que busque vingança, a lealdade de Dante a família faz com que ele, durante os episódios, seja ludibriado de diversas formas.

Embora se trate de um formato episódico, em todos os episódios acompanhamos o desenvolvimento da macro-narrativa familiar de Nicolau e seus filhos. Contudo, em todas as exibições são promovidas recapitulações da história, dos episódios anteriores e spoilers do próximo episódio, facilitando a compreensão dos arcos que permeiam a série.

No Plano da Expressão desta análise iremos destacar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Ambientada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a série buscou retratar a periferia da cidade do ângulo do morador com a representação de casas com construção interrompida, da iluminação pública deficiente, além da presença de bares, mercearias de bairro e a promoção de “churrascos na laje”. A relação entre os cômodos pequenos, a mobília simples e amontoada e a família grande também são reforçam essa construção imagética.

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A caracterização dos personagens das tramas com formato episódico buscam seguir arquétipos e estereótipos de forma proposital, para que o público compreenda rapidamente seu propósito. Em Acerto de contas, este indicador colabora no contraste do cenário da periferia com zonas mais abastadas cidade, principalmente se analisarmos as diferenças de figurino e maquiagem antes e após a ascensão financeira de Quinho. Por exemplo, a personagem Luana no primeiro episódio tem suas roupas marcadas por decotes sensuais, estampas de animais, shorts curtos e brincos chamativos. Após casar e mudar-se da casa de Nicolau, assume um estilo mais sóbrio e executivo com roupas lisas, saltos, joias e cabelo cacheado, como a própria personagem classifica “uma mulher da Zona Sul”.

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Demarcando também diferenças de personalidade entre os personagens, demarcando estereótipos de mocinho e vilão, as roupas de Dante durante o primeiro episódio são velhas e simples assim como o seu semblante cansado enquanto Quinho energético e calculista usa camisas sociais e sapatos de couro.

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A trilha sonora, composta por músicas instrumentais, não tem outra função na narrativa senão demarcar a atmosfera nas cenas de ação e servir como background music para panorâmicas do Rio de Janeiro.

O indicador fotografia segue o estilo naturalista, sem interferência significativa nas cenas com exceção dos flashbacks que são sinalizados com um filtro amarelado, facilitando a assimilação do telespectador.

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A edição de Acerto de contas seguiu a linearidade da proposta do roteiro. Por abordar a temática policial, foram explorados os closes e a “câmera nervosa” para transmitir tensão. Nesse sentido, a perseguição do ator aliada à tremulação da imagem e os zooms rápidos nas faces dos personagens promovem um incômodo intencional no público contribuindo para o propósito de dinamismo e ação. Outro ponto importante são para as cenas em motos e veículos, onde são adotadas câmeras fixas no capacetes e para-brisas, bastante utilizadas para dar velocidade às sequências. Também foram captadas imagens aéreas da cidade do Rio de Janeiro com drones para situação do público nos cenários.

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No Plano do Conteúdo, analisamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Apesar de citar programas e artistas da Rede Globo, como o quadro Lata Velha do Caldeirão do Huck, a intertextualidade em Acerto de contas não contribui para expandir o universo ficcional da série.

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Pelo seu formato episódico, também mostra uma narrativa de fácil compreensão com diversas setas chamativas que explicam ao público didaticamente situações e perfis dos personagens. Como, por exemplo, a própria abertura onde Dante, o protagonista, narra todo o arco macro-narrativo de sua família e sua trajetória até ser recluso. Situando também no arco que permeia os 13 episódios, são feitos resumos dos episódios anteriores antes do início do exibido bem como procura instigar o telespectador durante a exibição dos créditos dividindo a tela com as próximas cenas.

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Neste sentido as setas chamativas são usadas constantemente na série, por exemplo, a cena do episódio 7 entre Luana e Velha Guarda, onde a vilã repassa toda a história do personagem e explica sua traição contra ela. O diálogo diminui o esforço analítico para entender já que na cenas posteriores ela afirma aos seus amigos que irá matá-lo.

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Os efeitos especiais narrativos também não foram identificados nesta produção. A trama define bem os estereótipos dos personagens e o clímax de cada episódio é sempre a ação entre Dante e Quinho, sendo assim, a trama segue linearmente, sem reviravoltas.

No indicador recursos de storytelling, observamos somente a presença de flashbacks na trama. Utilizados em momentos pontuais, boa parte destes flashbacks tem finalidade de rememorar o sequestro que levou Dante à prisão ou sua relação sempre difícil com o irmão. É importante ressaltar que estas analepses sempre são sinalizadas com um filtro amarelado, diferenciando-se do tempo presente da série.

Por Léo Lima

Afetos presentes: dos loucos e das rosas

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Barbacena é um município mineiro situado a 169 quilômetros de Belo Horizonte, capital do estado. A partir do século XX, a cidade tornou-se conhecida no Brasil e no exterior como “Cidade das Rosas”. A alcunha se popularizou devido ao grande núcleo de cultivo, produção e importação destas flores. Em meados dos anos 1970, a produção e plantio era organizado pela Associação Barbacenense dos Produtores de Rosas e Flores (ABARFLORES) e contava com 97 produtores.

De maneira concomitante, um outro nome foi dado à cidade que ainda carrega ambos os apelidos: a “Cidade dos Loucos”. A denominação se deve ao histórico do município e sua consequente relevância no cenário psiquiátrico brasileiro como o maior polo manicomial de Minas Gerais. A exclusão dos loucos do convívio social foi uma prática comumente realizada no Brasil a partir do modelo de tratamento de transtornos mentais popularizado na Europa a partir do século XVII. Segundo Passos (2007), os loucos eram vistos como o resíduo da sociedade e passaram a ser excluídos do convívio social, juntamente com os ladrões, as prostitutas e demais marginalizados sociais.

Neste contexto, Andreia Pinto resgata a memória afetiva dos profissionais e pacientes do que restou do Hospital Colônia para apresentar as novas realidades sob as quais estão inseridos os tratamentos ao portador de transtornos mentais. O programa, publicado pela TVNBR em 2011, apresenta as dissonâncias entre como podem ser consideradas a cidade dos loucos e a cidade das rosas.

A partir da perspectiva dos moradores de Barbacena, um som em off introduz as opiniões públicas acerca do apelido. No filme, é possível compreender que, para a maioria dos entrevistados, a questão manicomial é enxergada com cunho cômico – a partir dos estereótipos do “louco”, e da negação ao enxergar a cidade como “cidade dos loucos”, mas sim a cidade que recebe os loucos.

O filme buscou compreender de que maneira o resgate das memórias afetivas do hospital puderam ser incorporadas à investigação jornalística do atual panorama das casas terapêuticas – residências psiquiátricas que funcionam, hoje, como modelo sucessor ao manicomial em Barbacena –.

O trabalho de memória é realizado por artistas plásticos e historiadores locais, enquanto o trabalho de elucidação acerca dos tratamentos atuais fica a cargo de psicólogos e psiquiatras envolvidos com os personagens que outrora estiveram internados na sede do manicômio.

No filme, transborda a necessidade de enxergar o portador de transtorno mental enquanto sujeito afetivo, dotado de paixões, necessidades e capacidade técnica de exercer trabalhos. A reforma psiquiátrica é aludida, na obra, como principal fator capaz de promulgar melhores condições humanas aos que, por muitos anos, foram impedidos de enxergar as rosas.

Assista ao documentário em: https://www.youtube.com/watch?v=dQMIUqj6tPw

Por Iago Rezende

A Segunda Vez

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  • Roteiro: Renato Fagundes
  • Elenco: Marcos Palmeira, Monique Alfradique, Michel Bercovitch, Marcelo Várzea, Priscila Sol, Letícia Persiles, Eline Porto, Nathalia Rodrigues e Camila Lucciola.
  • Período de exibição: 11/08/2014 – 29/08/2014
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 15

A Segunda Vez foi uma série exibida pelo canal Multishow em agosto de 2014. Inspirada no livro A Segunda Vez Que Te Conheci, de Marcelo Rubens Paiva, a produção contou com nomes como Marcos Palmeira (Raul), Monique Alfradique (Luiza), Letícia Persiles (Carla), Priscila Sol (Ariela), dentre outros.

A trama gira em torno de Raul (Marcos Palmeira), jornalista que, após uma confusão no trabalho, é demitido. Isso acontece no mesmo dia em que sua mulher Ariela (Priscila Sol) termina o relacionamento dos dois. Raul (Marcos Palmeira) vai morar em um apart-hotel e conhece Carla (Letícia Persiles), uma garota de programa que o leva a se tornar cafetão.

Embora seja uma trama episódica, a maioria dos arcos narrativos de A Segunda Vez não se encerra em apenas um episódio, tendo continuação ao longo da série. Por isso, no início dos episódios, é feita uma recapitulação do que aconteceu anteriormente, para situar o espectador. Entretanto, a narrativa não é complexa e pode ser entendida, no geral, também por quem não acompanhou os episódios anteriores.

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No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A trama se passa na cidade de São Paulo e dentre os cenários utilizados estão, principalmente, apartamentos, carros e ambientes fechados. Isso ajuda na ambientação da série, uma vez que reforça a atmosfera da cidade grande. A caracterização dos personagens também é um ponto importante nesse aspecto, já que as roupas utilizadas, por exemplo, se adequam ao estilo da grande capital, além de seguirem a personalidade de cada personagem. As garotas de programa utilizam roupas curtas e provocantes, mas Luiza (Monique Alfradique), por exemplo, quando não está trabalhando, usa um óculos, que pode ser relacionado ao desejo da moça de estudar.

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A trilha sonora não representa um ponto de destaque dentro da narrativa. Por vezes são utilizadas trilhas diegéticas, que são aquelas que fazem parte do universo e da cena dos personagens.  Um exemplo é no primeiro episódio, quando Raul (Marcos Palmeira) se acomoda no novo apartamento e coloca uma música enquanto assiste TV. Ainda no primeiro episódio, no apartamento de Carla (Letícia Persiles), enquanto Raul (Marcos Palmeira) a espera para sair, é possível ouvir a música Smells Like Teen Spirit, do Nirvana. Tal trilha sonora reforça a personalidade da moça e ajuda na caracterização do personagem.

A fotografia segue um estilo naturalista, que muda apenas quando o ambiente é a boate Press, onde a iluminação fica avermelhada devido às luzes da boate. Quando há um flashback do passado de Luiza (Monique Alfradique), por exemplo, a fotografia também se modifica, ficando mais neutra, esbranquiçada, e com tons mais claros que o natural. Isso reforça a mudança de temporalidade, deixando mais claro ao espectador que se trata de um flashback.

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A edição segue, majoritariamente, o padrão linear. O primeiro episódio se inicia com Raul (Marcos Palmeira) em um terraço com uma piscina cheia de mulheres. Após essa cena, a história volta alguns dias no passado e segue a cronologia linear normalmente, com exceção de flashbacks como o de Luiza (Monique Alfradique), já citado anteriormente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, são feitas referências à cidade de São Paulo e a filmes como Scarface, Os Bons Companheiros e O Poderoso Chefão, por exemplo. Além de aproximar a trama ao público com a utilização de elementos reais, no caso dos filmes também há a contextualização de uma situação vivida pelos personagens. Raul (Marcos Palmeira) deve dinheiro ao cafetão Aquiles Perrone (Roney Villela), um homem perigoso. Enquanto pensa nas soluções para quitar a dívida, Raul (Marcos Palmeira) se lembra de tais filmes, que tem como temática a máfia, realizando um paralelo entre as obras e sua própria situação.

A trama possui setas chamativas que impedem que o espectador complete o sentido da narrativa, uma vez que já entrega o conteúdo pronto a ele. Como exemplo de seta chamativa tem-se a mudança de fotografia no flashback do passado de Luiza (Monique Alfradique) ou o fato de Raul (Marcos Palmeira) ser também um narrador em voz over, que explicita os pensamentos do protagonista, apresenta personagens e contextualiza situações.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, a trama apresentou clímax e reviravoltas que nem sempre aconteciam em um único episódio, o que contraria, de certa forma, o formato episódico. Entretanto, em nenhum momento o espectador foi levado a reconsiderar tudo visto até então. Também não houve alteração no formato narrativo do programa.

Já no que se refere aos recursos de storytelling, a série apresentou pequenas alterações cronológicas e flashbacks, como já citado anteriormente. Há também uma sequência fantasiosa, no último episódio, quando Raul (Marcos Palmeira) vê Carla (Letícia Persiles), que está morta, dançando entre as outras meninas. Contudo, esse não é um indicador de destaque na trama.

Por Júlia Garcia

Odeio Segundas

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  • Roteiro: Fernanda Young e Alexandre Machado
  • Elenco: Marisa Orth, Fernanda Paes Leme, Thiago Rodrigues, Carol Machado e Anderson Müller.
  • Período de exibição: 21/10/2015 – 23/12/2015
  • Horário: 23h00
  • Nº de episódios: 10

Roteirizada por Fernanda Young e Alexandre Machado, a série Odeio Segundas foi exibida pelo canal pago GNT entre novembro e dezembro de 2015. Seguindo a estrutura episódica, a trama é ambientada em um escritório e cada episódio se passa em uma segunda-feira, dia onde coisas atípicas acontecem, causando mal entendidos e confusões na empresa. Nesse sentido, os episódios são compostos por arcos narrativos isolados e auto suficientes. Uma situação é apresentada nos minutos iniciais, posteriormente os personagens enfrentam algum tipo de conflito e no final o equilíbrio é restabelecido.

É importante ressaltar que por retratar os contratempos de uma segunda-feira, o tema central da série vai ao encontro do formato episódio. Isto é, os desdobramentos das situações procedurais se adequam perfeitamente ao modo de construção dos personagens, ao desenvolvimento das relações e das cenas criadas por Fernanda Young e Alexandre Machado.

O elenco de Odeio Segundas é composto por Marisa Orth, Fernanda Paes Leme, Thiago Rodrigues, Carol Machado e Anderson Müller. Cada um dos atores e atrizes interpreta personagens que são facilmente compreendidos pelo público, já que o texto é norteado por estereótipos e arquétipos. Desta forma, em poucos minutos de episódio o telespectador já está familiarizado com a dinâmica narrativa proposta pelo programa do GNT.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A ambientação de Odeio Segundas é fundamental para que o telespectador compreenda o ambiente maçante e impessoal do mundo corporativo retratado por Fernanda Young e Alexandre Machado. Os tons de cinza são usados para ressaltar a monotonia do lugar, contribuindo para quê os elementos cênicos quase não se destaquem durante as cenas. Em meio à impessoalidade do escritório, os funcionários Bárbara (Lyv Ziese), Brenda (Carol Machado), Guedes (Thiago Rodrigues), Lipe (Flavio Pardal), Murtinho (Anderson Müller), Sueli (Fernanda Paes Leme) e Valéria (Marisa Orth) tentam trazer um pouco de suas personalidades para o trabalho.

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Durante as sequências da atração, é possível observar que cada baia dos funcionários é decorada por objetos que dialogam com o estereótipo representado na história. Isto é, Lipe (Flavio Pardal) é chamado de nerd durante toda a trama, por isso sua baia é cheia de super-heróis e referências ao mundo dos quadrinhos e games. Já Valéria (Marisa Orth) é taxada pelos colegas de trabalho como uma pessoa descontrolada emocionalmente e sua baia é cheia de remédios e florais para controlar suas crises de ansiedade e insegurança.

Desta forma, o indicador da ambientação é usado para reforçar o universo ficcional em que Odeio Segundas e reafirmar a personalidade dos funcionários da empresa Ashauhsa & huasha.

Assim como os elementos cênicos, a caracterização dos personagens da trama do GNT ressalta a proposta narrativa do programa. Nesse sentido, o perfil de cada um dos funcionários da empresa Ashauhsa & huasha é transposto para o seu modo de se vestir. Isto é, Lipe (Flavio Pardal) representa o estereótipo do nerd, logo suas roupas fazem alusão a isso, já Guedes (Thiago Rodrigues) é o malandro do escritório, por isso ao invés de usar gravata, como os outros funcionários, deixa sua camisa desabotoada. O mesmo acontece com Sueli (Fernanda Paes Leme), o figurino da personagem é composto por saias e terninhos vermelhos, reforçando sua sensualidade. De modo geral, apesar de ajuda o telespectador a identificar rapidamente os arquétipos explorados por Odeio Segundas, o indicador não se destaca a ponto de influenciar nos desdobramentos narrativos nem por apresentar apuração estética em sua elaboração.

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No indicador trilha sonora podemos destacar as músicas que fazem referência ao título e ao tema central do programa: a segunda-feira. Ao longo dos episódios, principalmente nos créditos finais, é possível escutar canções como, por exemplo, Monday Monday do The Mamas & the Papas, Bombs On Monday da Melanie Martinez e Monday do Carlo Dall’anese. A abertura da trama é cantada pela banda Titãs e ressalta em tom de ordem as frases “Vamos ao trabalho! E só há uma maneira de faze-lo direito, bem feito senão é melhor nem começar”.

Composta por Paulo Miklos a faixa, que integra o disco A Melhor Banda de Todos Os Tempos Da Última Semana, dialoga com a ambientação de Odeio Segundas mostrando as questões do mundo corporativo.

A fotografia de Odeio Segundas é naturalista, ou seja, em momento algum a trama faz o uso de iluminação específicas e filtros que alterem a estética das sequências. Apenas nos flash forwards as cenas ficam um pouco mais clara, mas nada que altere e/ou influencie diretamente no desenvolvimento das microestruturas propostas pelos roteiristas.

Por fim, o último indicador do Plano da Expressão, a edição da série é linear. Por se tratar de uma série episódica, a trama tente a não explorar sequências em distintas temporalidades. Desta forma, Odeio Segundas segue a ordem cronológica dos acontecimentos. Apenas no episódio Um natal de segunda, exibido 23 de dezembro de 2015 é possível observar dois flash forwards, mas como iremos discutir no indicador escassez de setas chamativas, o recurso é facilmente identificado pelo telespectador.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Apesar de ter uma abordagem contemporânea e tratar de temas do cotidiano, Odeio Segundas não apresenta nenhuma intertextualidade. Ou seja, em nenhum momento da trama o telespectador é estimulado a buscar uma informação externa ao universo ficcional para preencher as lacunas narrativas ou aprofundar o seu entendimento da história.

Além de ser composta por personagens lineares, a série é narrada por Fernanda Young. A escritora, que também é roteirista do programa, interpreta a segunda-feira. Nesse sentido, a atração é norteada por inúmeras setas chamativas, seja por manter uma única trama dominante que chega há uma conclusão no final do episódio e/ou pelas características dos personagens. Em outras palavras, por mais que o telespectador não compreenda o desenvolvimento linear e unitário da história, os sentimentos e intenções dos personagens são didaticamente explicitados durante as cenas.

Por se tratar de uma estrutura episódica, ou seja, composta por quatro atos (1. Equilíbrio , 2. Quebra do Equilíbrio, 3. Conflito/Clímax, 4. Resolução), o clímax e a reviravolta presentes nos desdobramentos narrativos de Odeio Segundas são usados pontualmente e de maneira esperada na trama. Desta forma, em momento algum o público é obrigado a reconsiderar tudo o que assistiu até então.

O indicador recurso de storytelling foi usado apenas no último episódio da primeira temporada. Durante a confraternização de fim de ano, a narradora da série mostra dois flash forwards dos casais Guedes (Thiago Rodrigues) e Sueli (Fernanda Paes Leme) e Valéria (Marisa Orth) e Murtinho (Anderson Müller). Entretanto, é importante ressaltar que apesar das analepses, em momento algum o recurso dificulta a compreensão do telespectador, pelo contrário os flash forwards são didaticamente anunciados pela segunda-feira (Fernanda Young) e demarcados por uma iluminação mais clara, se diferenciando da habitual fotografia da série.

Por Daiana Sigiliano

As Canalhas

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As Canalhas é uma série de televisão brasileira exibida pela GNT desde 6 de maio de 2013. Inspirada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, conta com a direção geral de Vicente Amorim e a produção da Migdal Filmes. As emissões, que terminaram em junho de 2015, trouxeram, em cada temporada, 13 mulheres, uma para cada episódio, contando suas “maldades” contra suas vítimas em um salão de beleza. Exibido todas as terças-feiras às 22h30, o programa durava de 20 a 25 minutos e contava com poucas personagens fixas, sendo Marilyn (Zezeh Barbosa), a dona do salão em que cada história se inicia, uma das poucas.

Na série, cada episódio mostra uma mulher relatando friamente a algum profissional do salão de beleza suas maldades contra maridos, filhos, patrões ou namorados, enquanto se cuida. Além da sua intrínseca relação com as redes sociais, a temática da série já se anuncia também logo no início, ainda na vinheta de abertura e na música que a compõe. Nesse começo, são mostradas fotos frontais e da lateral direita do corpo de todas as protagonistas da série, em preto e branco, e em plano médio, segurando uma placa com seus nomes, cidades e alguns números, o que nos remete às fotos de identificação tiradas nas cadeias. A música de abertura que acompanha as imagens, uma produção musical do estúdio Maravilha 8, também nos ajuda a entender que o objetivo do programa é subverter o comum e mostrar o outro lado das mulheres,um lado pouco mostrado: “Eu te quero sim. Ao mesmo tempo eu me pergunto: o que vai ser de mim agora? Nessa hora, a encruzilhada, quando aparece na tua frente aquela fera tão querida, na valha no olho do furacão. Pedrada amorosa no coração. Canalhinha, canalhosa, canalhuda, canalhante, canalhianque, fêmea, canalha”.

Além da vinheta de abertura, outros elementos também são destaques, como a narração em off, que ocorre a todo momento, quando a personagem principal narra um fato e na tela aparece a situação relatada; a caracterização da protagonista no começo de cada episódio, como no exibido no dia 3 de junho, com a descrição “INGRID 29 ANOS, LOIRA EM ASCENSÃO”, ou no do dia 8 de junho, com a descrição “ISABELA 15 ANOS, ESTUDANTE”; e a pronúncia de ao menos uma vez no episódio da palavra canalha. No exibido do dia 10 de junho, por exemplo, na caracterização da história, aos 18 minutos e 40 segundos, a personagem Meg indaga ao personagem Jandir: “Quem é? Quem é a canalha? Pelo menos me diz: quem é a canalha?”. 35 segundos depois, aos 19 minutos e 15 segundos, o personagem Geraldo pronuncia quase a mesma coisa à esposa: “Quem é o canalha? Pelo menos me diz: quem é o canalha?” Como vemos, além de canalha ter sido falada mais de uma vez na emissão, foi proferida duas vezes por cada personagem em cenas seguidas uma da outra, como se a trama e o roteiro pretendessem, de certa forma, justificar o nome da série.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi pouco observado em todos os episódios. Apesar de apostar na subversão dos gêneros (pois “cafajestagens” como as retratadas são características, estigmatizadas e comumente vistas em personagens masculinos) e de a atuação das protagonistas ser ideal e passar total credibilidade para quem assiste (desconstruindo a ideia de que somente os homens são canalhas), o programa também faz uso de estereótipos de afirmação. O episódio exibido no dia 3 de junho de 2013 é um exemplo desse uso, pois aborda mulheres que ascendem socialmente de forma aparentemente inexplicável.

No decorrer do episódio, são mostradas quatro cenas em que a personagem principal Ingrid mantém relações sexuais com três homens e uma mulher. Ao final das cenas com os homens, depois do ato sexual, cada um deles falou que Ingrid tinha muito talento, o que fez sentido no final do episódio, aos 21 minutos e 43 segundos, quando na sua última fala a personagem principal disse: “Tudo que eu quis na minha vida, eu consegui com o meu trabalho, fruto do meu talento”. Nesse episódio, por exemplo, o programa estereotipou mulheres de sucesso ao deixar subentendido que elas só conseguiram alavancar a sua carreira tendo relações amorosas e sexuais com pessoas influentes do mundo artístico, como produtores de elenco, diretores, atores e empresários, do mesmo sexo ou não, ajudando a confirmar essa concepção do senso comum.

O indicador de qualidade oportunidade foi razoável nas emissões, pois estas não se pautam na agenda midiática para a escolha dos seus temas, mas nas abordagens recorrentes da vida social, que abarcam problemáticas e situações passíveis do dia-a-dia de qualquer pessoa. Outro indicador do plano do conteúdo, o diversidade de sujeitos representados apresentou valores significativos. O episódio em que esse indicador mais foi observado foi o do dia 27 de junho, em que trouxe na trama pessoas de diferentes cores, classes e orientações sexuais, representados pela protagonista da história, a acompanhante de idosos de pele branca, o namorado, o porteiro de pele negra, o filho gay, o idoso homofóbico e preconceituoso, e a senhora empregada doméstica.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, a ampliação do horizonte do público, duas emissões analisadas mostraram-se razoáveis e três boas. No episódio do dia 13 de maio, por exemplo, a personagem principal Carol faz uma declaração pertinente e relevante para os dias atuais que pode contribuir para que os telespectadores reflitam sobre o assunto. Aos 8 minutos e 52 segundos, durante o seu relato, ela diz: “Além do mais, eu pensei: ‘poxa, se ele quer tanto ter um filho, ele com certeza vai assumir várias responsabilidades em relação a essa criança, vai ajudar a cuidar, botar pra dormir, lavar fralda, trocar fralda, enfim, essas coisas, né, que pai ajuda a fazer’”. Ao afirmar que os pais ajudam na realização dessas tarefas, é possível que reflexões tenham sido despertadas em alguns pais ausentes que assistiam ao programa no momento.

Outro exemplo em que a abordagem de temas polêmicos e contraditórios foi utilizada está na emissão do dia 27 de maio. Antes do diálogo que se inicia, Gisleine e Agenor estão andando na rua, quando um menino passa vendendo bala:

GISLEINE: O que quê foi, seu Agenor?
AGENOR: Ahh, na minha época não tinha isso aqui não…
GISLEINE: Isso aqui o quê?
AGENOR: Criolo vendo balinha na rua. Não sabe o que foi o regime militar. Era aquela disciplina, ordem na rua.
GISLEINE: Racismo é crime, viu, seu Agenor. E é pecado também.

Após esse diálogo, que faz parte da história narrada pela protagonista, a cena é cortada para o salão de beleza, e Gisleine continua o seu relato: “Ainda bem que eu não peguei essa ditadura aí, viu. Já imaginou: um bando de velho feito o seu Agenor, comandando tudo aqui no Brasil? Deus me livre e guarde”.Essa sequência de falas, portanto, aborda temas relevantes para a sociedade e possuem elementos essenciais para contribuir com a ampliação do horizonte do público, enriquecendo a visão de mundo do telespectador interagente, apresentando outros pontos de vista e estimulando o pensamento e o debate de ideias. Abaixo podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Analisando a série à luz dos aspectos que compõe a Mensagem Audiovisual, identificamos que o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas. Isso se deve, principalmente, a dois fatores: à maneira com que a série é referida nas redes sociais, e à vinheta de abertura, pertencente ao plano da expressão. Como já adianta o próprio site do programa, “a série mostra que os homens podem ser mais canalhas em quantidade, mas que as mulheres sabem ser com muito mais qualidade”, ou seja, o programa objetiva mostrar o grau de canalhice que algumas mulheres têm, que muitas vezes ultrapassa o nível pré-estabelecido para o homem, normalmente subjugado como o gênero mais cafajeste.

Quanto ao indicador originalidade/criatividade, o programa também foi muito bem pontuado em todas as cinco emissões analisadas. Apesar de parecer mais uma série televisiva que traz protagonistas e vilões, conflitos e reviravoltas, o programa inova ao colocar mulheres interpretando papéis que geralmente são destinados aos homens.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi notado de forma considerável nas emissões, pois estas se desenvolvem sempre no mesmo formato:mesclando o depoimento da personagem principal com a história que está sendo contada. Na confissão, as protagonistas interagem, falam e olham para a câmera, com entonação e perguntas, como se estivessem conversando pessoalmente com quem está do outro lado da lente, numa tentativa de gerar intimidade e identificação com o público, o aproximar da trama e prender a sua atenção. Um exemplo disso pode ser identificado no episódio Carolina, da 1ª temporada, em que no primeiro minuto e 39 segundos a protagonista Carol se deita na cama de massagem e sua filha, que não está aparecendo em cena, começa a chorar. Após ouvir o choro, Carol lamenta: “Ai, gente, acabou meu sossego. Por favor, Marilyn, você pode ir lá calar a boca dessa criança?”. Neste momento, a massagista sai de cena e a personagem retorna a falar, olhando pra câmera e sem ninguém a sua volta, como se estivesse se comunicando com o público.

Último indicador da mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas não foi muito identificado no programa. Sua baixa avaliação somente se deve ao fato de a história se adaptar à convergência midiática, pois foi inicialmente contada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, e depois transformada em um produto audiovisual, portanto, uma outra plataforma. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador teve na mensagem audiovisual:

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À luz dos modos de representação adotados pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual, As Canalhas se destacou na atuação verossímil dos personagens e nas construções das cenas. A subversão de gênero, bem como a abordagem de temas comuns da vida social, causam não só uma identificação com o púbico, que quer ver nas telinhas o que acontece na vida real, mas também a curiosidade de ver como essa nova trama se desenvolverá, se será criativa e credível ao ponto de se assemelhar à realidade e fazê-lo acreditar no que vê.Nos modos de experimentação, ouso dos recursos técnico-expressivos de apostar numa interação com o públicoatravés da linguagem e da função da câmera, que serve como um canal entre o personagem e o espectador, também foi de certa forma inovador, pois prende a atenção do público e assim contribui para uma possível reflexão e debate sobre o que está sendo falado.

Por Luma Perobeli

Suicídio no Brasil: precisamos falar sobre, e os documentários brasileiros também

Realizado em 2012 pelo Grupo de Pesquisa de Prevenção de Suicídio da Fiocruz, em parceria com a VideoSaúde Distribuidora, o filme “Suicídio no Brasil” é uma das poucas produções documentárias que buscam alertar sobre o suicídio, tema ainda tabu na sociedade. Segundo o portal “setembroamarelo.org.br”, de conscientização para prevenção do suicídio, 32 pessoas se suicidam a cada dia no Brasil, taxa superior às vítimas da AIDS e da maioria dos tipos de câncer que existem. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos caso houvesse conscientização sobre a importância de se falar sobre o assunto.

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Abrindo o vídeo com um fade in (efeito de aparecimento gradual da imagem na tela), nove personagens populares opinam sobre o suicídio através do formato “povo fala”,  revelando o que se pretende mostrar sobre a representação dessa palavra para o senso comum: “A loucura. Simplesmente a loucura! Porque naturalmente quando uma pessoa suicida, ele já está fora do normal de um ser humano”, como disse um senhor passados pouco mais de 7 minutos de vídeo.

As intervenções da entrevistadora parecem conduzir a narrativa proposta para minar antigos conceitos ou explicar questões que precisam sair da voz do personagem popular para ser mais aprofundada por um especialista, na tentativa de elucidar o tema e informar a população espectadora.

É o que acontece, por exemplo, aos 4:27 minutos de vídeo, quando a entrevistadora indaga aos personagens se eles já conheceram alguém que se suicidou ou que ao menos teve a vontade de se matar. Na terceira resposta, um homem conta que já havia vendido um livro que falava sobre as diferentes formas de se suicidar. A entrevistadora, então, conduz o fio narrativo com perguntas que instigam o homem a falar sobre tais formas, anunciando o que imediatamente depois explicaria o Dr. Neury Botega, professor da Faculdade de  Medicina da Unicamp.

Aos 7:52 minutos de filme, o documentário desvia da mescla das vozes dos personagens populares e do especialista para ilustrar suicídas das instituições psiquiátricas e prisionais, que conhecemos tão pouco. Através do relato da roteirista e diretora Debora Diniz sobre as gravações do documentário “A Casa dos Mortos”,  que abordou, em 2009, essa realidade dos manicômios judiciários, “Suicídio no Brasil” leva o espectador a questionar a eficácia desse tipo de instituição a partir da reflexão da forma como entendem a loucura em seus pacientes.

“O que se pode fazer por uma pessoa que está pensando em se matar?”, pergunta a entrevistadora. Os personagens respondem e, depois, novamente a figura do especialista vem para elucidar essa questão e trazer o primeiro passo para a solução do problema: quebrar o tabu do suicídio.

Senso comum: a loucura dos normais

Muitas vezes, o senso comum nos leva ao sentido mais pejorativo da palavra “loucura”, que traz com ela estigmas que nos fazem marginalizar quem pensa em suicídio. Silenciamos as dores dos suicidas, os excluímos do convívio social e os colocamos à margem da normalidade partindo do nosso juízo de valor como principal termômetro para se medir o que é ser normal.

Solidão, depressão, alcoolismo, outros problemas de saúde como HIV, câncer e bipolaridade, e questões conjugais e de relacionamento são problemas frequentes nos dias atuais e que podem ser motivos para o suicídio de uma pessoa que, diga-se de passagem, não quer terminar com a própria vida, e sim terminar com o sofrimento que a atinge por não mais enxergar solução para tal angústia. Marginalizar essa parcela da sociedade é, portanto, tapar os olhos para uma realidade cada vez mais comum e ignorar um pensamento que está suscetível a todos, até aos que mais o marginaliza.

Diante desse isolamento social ao qual submetemos essas pessoas, o que se vê é o silêncio da mídia, da literatura e das produções audiovisuais documentárias, que perdem a oportunidade de quebrar esse tabu e servir como instrumento de articulação política para gerar a reflexão sobre o problema de saúde pública, que atinge, principalmente, os idosos e os jovens da população, imersos numa sociedade um tanto quanto solitária, doente, ansiosa e cobrada.

Nesse sentido, o documentário, enquanto uma produção que, muitas vezes, provoca o espectador para tirá-lo da sua zona de conforto e fazê-lo pensar, pode ser uma potente ferramenta para a inscrição dessa nova percepção sobre o tema e então ressignificar as concepções mantidas até aqui.

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“Não falar sobre suicídio é colocar o problema embaixo do tapete e sermos surpreendidos de tempo em tempo por um suicídio que poderia ter sido evitado. Falar sobre suicídio com sensibilidade, com o auxílio de várias fontes de conhecimento, de várias visões sobre esse fenômeno tão complexo, é aumentar as chances de reflexão e aumentar a possibilidade de encontrar saídas para a angústia do homem que não sejam via suicídio.” – Dr. Neury Botega, prof. Medicina Unicamp.

Assista ao documentário: https://vimeo.com/36487179

Por Luma Perobeli

#SetembroAmarelo

A invenção do Brasil

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  • Autoria: Guel Arraes e Jorge Furtado
  • Direção: Guel Arraes
  • Direção de núcleo: Guel Arraes
  • Número de capítulos: 3
  • Período de exibição: 19/04/2000 – 21/04/2000
  • Horário: 23h

Em 2000, como comemoração aos 500 anos de Descobrimento do Brasil, a Rede Globo lançou, em parceria com a Globo Filmes e a produtora Lereby, a minissérie A invenção do Brasil. Exibida em três capítulos, entre os dias 19 e 21 de abril de 2000, baseava-se na história de Diogo Álvares relatada no poema Caramuru do Frei Santa Rita Durão.

A “documédia” de autoria de Guel Arraes e Jorge Furtado mesclava realidade e ficção ao contar a vida de Diogo Álvares (Selton Mello), pintor português vítima de armação do comandante Vasco de Athayde (Luís Mello) e da sedução da francesa Isabelle de Avezac (Débora Bloch). Acusado de furto de um mapa da Cartografia Real, o jovem é degredado numa embarcação com destino às Índias. Um naufrágio o faz parar às costas brasileiras e ser recebido pelos índios Tupinambás. Receoso pela selvageria dos índios, dispara um tiro de sua espingarda, tal fato faz os nativos o considerarem uma espécie de divindade, o Caramuru. O nome Caramuru significa “filho do trovão” e também é relacionado a denominação indígena de uma espécie de enguia elétrica.

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Com seu estabelecimento na tribo, Diogo acaba se apaixonando pelas irmãs Paraguaçú (Camila Pitanga) e Moema (Deborah Secco), filhas de Itaparica (Tonico Pereira), cacique da tribo. Este poliamor entre os três personagens é, então, ameaçado com a volta de Vasco e a proposta de casamento de Isabelle para Diogo. Ainda que apaixonado pelas índias, o português decide embarcar para a Europa a fim de casar-se com a francesa. No dia da partida Paraguaçú e Moema vão atrás da caravela mas apenas Paraguaçú consegue ser resgatada e levada ao continente europeu.

Em Portugal, Isabelle planeja seu casamento para tirar proveito da condição de soberano dos Tupinambás de Diogo, mas é vítima da própria ganância ao confrontar-se com Paraguaçú. Ao fim, Diogo se casa com a índia e retorna ao Brasil tornando-se líder da tribo dos Tupinambás.

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A estrutura da narrativa de A invenção do Brasil é permeada por intervenções do narrador Marco Nanini em cenas de chroma-key, animações, simulações de propagandas, programas culinários e esportivos. Utilizando-se destas estratégias a atração buscou situar e dar referências ao telespectador sobre o momento histórico tratado.

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A minissérie foi transformada em filme, lançado em 9 de novembro de 2001 pela Globo Filmes e Columbia Pictures mantendo apenas o romance principal. No mesmo ano foi lançada a trilha sonora em CD e um livro com os roteiros de filmagem. A produção ainda foi reapresentada na íntegra pelo canal Multishow em 2005.

No Plano da Expressão desta análise, destacamos os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Para corroborar a verossimilhança na minissérie, Brasil e Portugal serviram como ambientação para A Invenção do Brasil.

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No Brasil, foi rodada no Rio de Janeiro, em Picinguaba e no litoral paulista. A extensão e a desertidão das praias escolhidas permitiu à produção remontar uma tribo indígena com ocas e totens. A praia e o mar disponíveis foram ocupados por caravelas numa busca pela construção do universo imaginário da época das Grandes Navegações.

As gravações em Portugal aconteceram no Palácio de Queluz, em Lisboa, no centro histórico da cidade de Leiria e no Mosteiro da Batalha, monumento gótico. Os prédios escolhidos por sua importância histórica proporcionam a imersão do telespectador na Europa imponente e abastada de riquezas do século XIV.

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A narrativa bem como a caracterização dos personagens buscou referências nas obras de Mario de Andrade e José de Alencar. O cacique Itaparica e seus trejeitos preguiçosos foram inspirados em Macunaíma de Mário de Andrade, parte do movimento Antropofágico brasileiro.

Exóticas, as irmãs Paraguaçú e Moema tinham inspiração nos romances O guarani e Iracema e utilizavam em seu vestuário materiais como folhas secas, cascas de coco, palha, cordas, escamas de peixes e penas além de brincos confeccionados com besouros secos. Tais elementos, uma concepção do figurinista Cao Albuquerque, simbolizam a naturalidade e liberdade indígena.

Para os personagens europeus, Cao imprime um tom mais conservador e caricato da época. Diogo, o Caramuru, usa calções bufantes, chapins e uma boina. Já em Vasco, percebemos um o rufo e o gibão de placas utilizados pela nobreza do Renascimento; o personagem também carrega uma mão de gancho, em alusão ao Capitão Gancho da história de Peter Pan. Isabelle, a vilã, tem seu figurino carregado por quatro camadas de roupas de cores vermelhas ou pretas e decotes: sua imagem evoca as mulheres ruivas e exuberantes de shows burlescos.

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A trilha sonora, a cargo de Lenini, trouxe algumas músicas compostas por ele especialmente para a atração como O último pôr do sol, que compôs com Lula Queiroga, Tubi tupy, composta em parceria com Carlos Rennó, e Miragem do porto, que compôs junto a Bráulio Tavares. Além destas, Rap do real de Pedro Luis e a Parede e Manguetown de Chico Science, com críticas sociais em suas letras, conferem a atmosfera de brasilidade e ironia também presentes no texto escrito por Guel e Furtado. Um exemplo deste aspecto é a reprodução de Rap do real na cena onde Itaparica aparece como ambulante vendendo artesanatos aos estrangeiros, numa clara analogia aos ambulantes das praias atuais do país.

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Primeira minissérie filmada totalmente no formato HDTV e aspecto cinematográfico, A invenção do Brasil teve direção de fotografia de Félix Monti. O diretor usou o recurso para evidenciar o contraste entre imponência e o requinte da Europa, nas cenas rodadas nos palácios e ruas portuguesas, e a simplicidade e naturalidade do Brasil com cenas de paisagens naturais. Outro ponto a se destacar é a grande presença de noturnas nos cenários europeus enquanto as cenas na tribo são rodadas na luz do dia. A luz das velas dialoga diretamente com a disparidade de progresso entre os dois continentes.

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A edição televisiva da minissérie conta, além do romance, com intervenções do narrador Marco Nanini. Enquanto as aventuras de Diogo ocorrem no eixo Brasil-Portugal, explicações sobre o contexto histórico, referências de textos da época são proporcionados ao telespectador em tom humorado. As esquetes exploram linguagens híbridas e recursos visuais como animações, recortes de pinturas, recitação de poemas e trechos de documentos, utilização de imagens de documentários, montagens do narrador em cenários virtuais e posicionamento de conteúdos em simulações de propagandas ou esportes.

No romance, a edição usa o formato linear. Contando com ajuda do narrador, a história relata desde a degredação de Diogo a sua ascensão como chefe da tribo Tupinambá. Em relação a parte ficcional, os recursos visuais são utilizados apenas nas cenas finais para construção de um epílogo dos personagens.

No Plano do Conteúdo, analisamos os indicadores de qualidade: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Nesta análise, pudemos perceber que a intertextualidade, até por ser inspirada em um fato verídico permeia toda a narrativa. O próprio título é uma alusão ao prefácio do livro A fundação do Brasil do antropólogo Darcy Ribeiro.

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Na trama, Diogo, ainda como pintor, utiliza-se como inspiração “O nascimento de Vênus”, quadro de Boticelli para representar Isabelle na ilustração do mapa das Índias. Ainda desempenhando a cartografia, o personagem faz referência a mitos e lendas da época como monstros do mar e sereias. Por fim, ver-se apaixonado por Paraguaçú recita “Amor é fogo que arde sem se ver”, poema de Camões.

O diálogo presente entre o personagem Itaparica de Tonico Pereira e o protagonista de Macunaíma ainda merece destaque já que o Movimento Antropofágico, escola de onde esta obra advém, tinha como proposta a combinação de valores primitivos com advindos de outras culturas, formando um amontoado de fragmentos culturais e chegando a aproximar-se do bizarro.

O indicador escassez de setas chamativas não foi contemplado pela atração já que as intervenções do narrador situa o público de forma didática na narrativa e no contexto histórico explorado. Fora a parte documental, mais precisamente no capítulo final do romance, é realizada uma retrospectiva da história de Caramuru de forma a auxiliar o telespectador que não acompanhou os dois outros capítulos entender o desenrolar da história.

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A história segue uma linearidade onde o clímax e desfecho são os esperados pelo público, não explorando efeitos especiais narrativos. Ainda que mesclando realidade e ficção, o não-uso destes recursos é justificado por se tratar de um fato histórico.

Os recursos de storytelling também não são utilizados pela trama, que conta apenas a perspectiva de Diogo sobre os possíveis fatos ocorridos.

Por Léo Lima

Zona do Agrião

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Zona do Agrião foi um programa que buscava parodiar as mesas redondas esportivas, testado pelo canal Multishow, na Copa do Mundo de 2010, com apresentação de Bruno Mazzeo. Inicialmente o formato era de pílulas de 3 minutos que apareciam durante a programação e contava com a participação dos personagens Yatta Fonseca, Manzana Zil e Caio Lúcio. Em Julho de 2012 o canal estreou um novo formato, desta vez com a apresentação do humorista Marco Bianchi. Diferente da primeira temporada, os episódios teriam sempre a participação de um convidado. Os personagens foram conservados; Gillray Coutinho permaneceu representando o comentarista Yatta Fonseca e Rodrigo Candelot, o repórter Caio Lúcio. Mariana Gouveia entrou como a assistente de palco Manzana Zil e o ex-jogador de futebol Odvan, no papel de correspondente internacional do programa. A segunda temporada, trabalho da jovem produtora audiovisual 2 Moleques, contou com 13 episódios, que iam ao ar toda terça-feira às 23h. Eram trazidos debates e comentários inusitados sobre diversas modalidades esportivas.

Uma curiosidade é que a Rede Globo já havia exibido um programa esportivo chamado Na Zona do Agrião, que começou em 1966 e durou um ano. Foi o primeiro programa na emissora com comentários sobre futebol, apresentado por João Saldanha – criador dessa gíria futebolística. O programa ia ao ar de segunda a sábado, às 19h35. “Na zona do agrião” é uma expressão do futebol, que se refere à grande área onde todas as jogadas são de grande importância, tanto para quem ataca, como para quem se defende. O significado do termo está relacionado ao cultivo do agrião, uma vez que a hortaliça deve ser plantada num terreno que retém uma grande quantidade de água e no qual as pessoas precisam se mover com cuidado.

No Plano da Expressão alguns detalhes se destacam no programa. Nota-se principalmente a linguagem e o estilo de fala do apresentador, que se parece muito com o jeito comum entre narradores e comentaristas esportivos. Manzana Zil também tem uma maneira própria de falar, gesticulando muito e com um tom chamativo. Marco Bianchi repete a expressão “nesta jornada querida” no início dos episódios, o que estimula uma memória no espectador. A apresentação inicial dos personagens do estúdio também é feita sempre, com Manzana sendo caracterizada como “internauta e banhista” e Yatta como o “ex vice campeão carioca de pebolim”. Quando o apresentador anuncia o convidado, geralmente fala seu nome inteiro, depois revela o nome artístico. Na chegada ele o cumprimenta e faz perguntas, numa demonstração de intimidade.

A abertura é bem rápida e tem desenhos animados que mencionam vários esportes num cenário de campo de futebol à noite; a vinheta remete ao ruído de torcida. Outro destaque é o cenário que imita o padrão observado em programas esportivos e abusa dos tons de verde, roxo e laranja; o piso lembra o gramado de um campo.

Nos momentos finais do programa, há a transmissão do correspondente Odvan. O repórter sempre está sem retorno de som, e são feitas perguntas a ele – que tem fones na orelha – mas ele fica só olhando para frente ou para o ambiente em que está, uma vez que não ouve o apresentador. Existe uma inscrição na tela dividida com a marca “satélite zoneado” e Odvan nunca fala nada. Esse quadro pode ser interpretado como uma paródia dos telejornais , quando comumente ocorre um delay, ou seja, um atraso de som nas transmissões via satélite.

Todos os episódios apresentam alguns momentos fixos, como o sorteio de algum prêmio aos telespectadores, o “Baú do Yatta”, o correspondente Odvan e o “pingue-pongue” com o entrevistado, o que cria um costume em quem assiste.

Na análise do Plano do Conteúdo, quanto à ampliação do horizonte do público, todas as notas foram fracas. Isso se deve à carência de assuntos que levassem o espectador à reflexão. O programa investia em piadas costumeiras, como no episódio do dia 24 de julho, em que Bianchi brinca com o tamanho de Yatta dizendo: “A primeira vista pode parecer baixinho, mas pessoalmente ele é ainda mais tampinha”, e Yatta responde: “Tampinha não, compacto”.  Ou no episódio do dia 24 de julho quando Yatta diz ao convidado Biro Biro que ainda não almoçou, coloca um guardanapo na blusa e pega um prato de macarrão instantâneo. Bianchi comenta sobre a semelhança da comida com o cabelo do convidado.

Também é visto uma falta de aproveitamento dos temas, que sempre são tratados de maneira superficial. No episódio de 14 de agosto, por exemplo, no quadro “Baú do Yatta”, o personagem diz que sente saudade dos anos 70, quando as mulheres saíam para “queimar os sutiãs”. De acordo com ele, o fato além de ter gerado a emancipação das mulheres, permitiu que os homens tivessem acesso ao “farol aceso”. Essa referência, correspondente às manifestações feministas da época, poderia ter servido para levar o espectador a uma reflexão, porém foi colocada de maneira extremamente machista e rasa.

No quesito diversidade de sujeitos representados, as notas variaram entre fraco e razoável. O critério utilizado foi o convidado do dia, uma vez que dentre os personagens fixos não é observada uma multiplicidade de sujeitos, sendo que quatro são homens e só há uma mulher, que quase não participa ativamente. Portanto, quando a convidada do dia era uma mulher foi dada a nota razoável; quando o convidado era homem, a nota foi fraca.

Neste plano, indicador que mais chama a atenção no programa é a desconstrução de estereótipos: todas as emissões obtiveram nota mínima, ou seja, esse indicador não constou. Uma das justificativas é a presença da mulher atraente no palco; Manzana Zil tem a única função de ler uma mensagem no início do programa – que sempre tem uma tendência cômica – e comunicar o sorteio do dia; depois não tem mais participação, o que faz supor que ela está ali somente para atrair o olhar do espectador. Às vezes a câmera passa rapidamente por ela, que aparece mexendo no celular.

Outro motivo observado foi o modo como estereótipos femininos são reforçados, como no quadro “Baú do Yatta” em que ele se refere à sua esposa como “Dona Encrenca”. Outro exemplo pode ser visto no episódio do dia 24 de julho, quando é exibido um VT com os “carrinhos” de Biro Biro e o ex jogador é mostrado em vários automóveis; são feitos comentários como “porta loira clássico” e “motor para sete cavalas”, sugerindo o interesse das mulheres em carros.

O indicador oportunidade foi avaliado como fraco em todas as emissões, uma vez que o apresentador muitas vezes trazia temas irrelevantes na vivência do entrevistado. No episódio do dia 14 de agosto, por exemplo, em mais uma das perguntas que pretendiam fugir ao lugar comum dos debates esportivos, a esportista Jaqueline Silva responde: “Sei lá, o que isso tem a ver com voleibol?”, deixando o apresentador sem graça. Nessa hora aparece o efeito de uma bola quebrando vidro na cara de Bianchi. As perguntas e temas também não eram necessariamente atuais.

Veja a seguir as avaliações segundo os indicadores do Plano do Conteúdo:

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Na análise da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve avaliação muito boa em todas as emissões, uma vez que pelo formato do programa ser fixo, leva a uma melhor assimilação pelo espectador. O programa é realmente muito parecido com os exemplares de jornalismo esportivos, sendo que no inicio é feito um resumo com os destaques do programa; há matérias externas com um repórter de rua e há entrevista no estúdio. Além disso, toda a trilha musical e o cenário são comuns aos programas desse ramo.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como bom, uma vez que por ser uma paródia de outros programas, é vista uma relação. Outra menção observada foi a citação “Pois bem, amigos do Multishow”, com a qual Bianchi iniciava as transmissões, e que lembra a famosa frase do narrador Galvão Bueno “Bem amigos da Rede Globo”, dita em inícios de jogos, o que foi interpretado como um diálogo com outro produto audiovisual.

O indicador solicitação da participação ativa do público, assim como o anterior obteve notas fracas. O motivo foi que a solicitação só existia de forma fictícia a cada começo de programa, quando Manzana Zil convidava os espectadores a mandarem e-mails para participação nas promoções.

No quesito originalidade/criatividade as emissões foram classificadas como razoáveis, uma vez que é um formato de programa já bastante conhecido, porém com a proposta cômica e que investe no riso fácil. Um exemplo é a atuação de Gillray Coutinho, que no início do episódio do dia 07 de julho de 2012, aparece fazendo abdominais deitado no chão e com os pés na cadeira enquanto fala. O personagem também é visto fazendo graça com caretas e caindo em cena em algumas emissões.

Outro exemplo é no momento depois que o convidado chega. O apresentador mostra seu “fã clube”, que é montado com a pequena equipe de produção e filmagem e sempre serve como um tipo de provocação ao entrevistado. Como no episódio do dia 4 de setembro de 2012 em que o fã clube de Sandra de Sá tem homens que usam roupas e tem bandeiras vascaínas, isso porque a cantora torce pelo Flamengo. Confira o gráfico:

zona2Observando os modos de representação, a criação e atuação dos personagens se dava de forma caricata, de modo a reafirmar alguns estereótipos, como o da mulher bonita e fútil. O programa não demonstrou nenhuma preocupação com críticas sociais ou representação de diversidade, sendo que os temas tratados não contribuíam para a mínima reflexão do espectador.

O uso dos recursos da linguagem audiovisual eram reciclagem de programas já existentes e com formato consolidado. A proposta era favorável para promover o debate de ideias e de pontos de vista, porém isso não acontecia. O público também não possuía nenhum tipo de participação. Além disso, o programa não apresentou nenhuma característica marcante que o fizesse ser lembrado, como bordões ou marcas específicas.

Por Letícia Silva

Boca de Rua: vozes de uma gente invisível

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Os sujeitos marginalizados da sociedade costumam ter aparições na grande mídia que reforçam aspectos de miserabilismo, violência e, até mesmo, de uma dependência paternalista. Essas formas de apresentação de identidades colocam em xeque as possibilidades de quebra de estigmas e estereótipos, visto que esses grupos estão moldados ou como os “perversos” ou como os “coitados”, sem quaisquer perspectivas de mudanças. Teóricos do documentário, como o francês Jean Louis Comolli ou o brasileiro Fernão Ramos, costumam dizer que cabe a esse tipo de cinema a busca pelo novo olhar, pelo acolhimento da mise-en-scène do outro e pelo quebra de padrões.  E é exatamente isso que Marcelo Andrighetti, em seu documentário “Boca de rua: vozes de uma gente invisível” nos apresenta.

A obra, produzida em 2013, trata de um projeto desenvolvido em Porto Alegre com as pessoas que vivem nas ruas da capital gaúcha, uma proposta inovadora e que vem trazendo resultados impressionantes, a começar pelo resgate da autoestima desses sujeitos. Trata-se do jornal impresso “Boca de Rua”, produzido inteiramente pelos indivíduos que vivem nas ruas de Porto Alegre, desde a discussão de pautas, passando pela apuração e registro fotográfico até a redação do texto. O projeto, fundado e coordenado por Rosina Duarte, foi criado em 2001, sendo que 150 pessoas já haviam passado por ele (até a época das gravações) e 70 delas deixaram as ruas.

Andriguetti faz uma apresentação do Boca de Rua de maneira dinâmica e imprimindo um tom positivo, desde a sonoplastia de fundo, fotografia e até a montagem. No início do filme, há cenas da capital gaúcha e, ao fundo, uma voz que fala do jornalismo enquanto instrumento de transformação e da proposta de fuga das construções espetaculares. Em seguida, os integrantes do projeto passam a discursar, reforçando o quanto o Boca de Rua foi um divisor de águas em suas vidas. Alguns deles aprenderam a ler e a escrever somente após ingressarem no projeto, e hoje são os autores das reportagens que estampam as edições do jornal.

O documentarista não interfere diretamente nas gravações, não há voz over e os relatos se sucedem sendo algumas vezes intercalados com cenas dos sujeitos em ação, fotografando, entrevistando, em reuniões de pauta ou redigindo. Percebe-se que essa escolha de construção busca reforçar a liberdade e autonomia dos personagens, independência esta que o próprio projeto Boca de Rua lhes proporcionou. A forma de encadeamento das cenas, em um tom mais acelerado, lembra a dinâmica de trabalho do jornalista e de fechamento de uma edição de jornal. Parece que tudo foi pensado para levar o espectador a sentir as transformações que os sujeitos filmados experimentaram.

O final do filme também apresenta algo bastante curioso: várias pessoas aparecem mostrando seus documentos de identificação, e, entre elas, aparecem alguns repórteres do Boca de Rua apresentando os seus crachás. Eles agora saíram da invisibilidade a que são submetidos, algo que nos próprios relatos reconhecem: “eu comecei a ser visto pela sociedade, porque antes de eu entrar no Boca de Rua, eu era invisível”. Outro personagem comenta que o projeto existe para mostrar que ele e seus colegas que vivem nas ruas de Porto Alegre têm conhecimento. Já nos últimos minutos do documentário, há o texto: “no jornal, os integrantes aprendem a ler, a escrever e a sair da invisibilidade”. Assim, percebe-se que essa escolha de enquadrar pessoas com suas identificações é uma forma de remeter à sua autonomia e pertencimento social.

O que transborda, na visão do espectador/crítico:

Marcelo Andrighetti poderia ter feito mais um filme que reforça a condição de miserabilidade a que as pessoas em situação de rua se encontram, com denúncias e apelo de auxílio. Mas ele encontrou uma nova forma de despertar o espectador, quebrando preconceitos e estereótipos vigentes. O documentarista buscou, com sua obra, o que Jaques Rancière chama de política da transformação, aquela que inverte posições na sociedade, que quebra os ditames da ordem policialesca, colocando o espectador em um local desconfortável exatamente por não ter aquilo que está acostumado a ver. Os personagens apresentados são fortes, demonstram estar imbuídos da consciência cidadã e de seu papel transformador. Assim, o cineasta aponta, como o próprio projeto que tematiza, para uma nova perspectiva, caminhos que podem ser buscados para oferecer dignidade e recuperar a autoestima daqueles que a mídia “dá a voz”, mas ao mesmo tempo ignora.

Em  “Boca de rua: vozes de uma gente invisível”, os personagens têm voz e com ela constroem uma narrativa forte e que nos comove exatamente por sua eficácia. É um filme que mostra que nem tudo está perdido e que as mudanças começam quando acolhemos outras versões, diferentes histórias e novos olhares.

Assista ao filme aqui: https://www.youtube.com/watch?v=5TtoMSiRn0w

Conheça o blog (https://jornalbocaderua.wordpress.com)  e fanpage do Jornal Boca de Rua (https://www.facebook.com/jornalbocaderua/)

Por Tatiana Vieira

Xafurdaria

xafurdariaO canal Xafurdaria, criado por Kaio Oliveira em dezembro de 2012, apresenta vídeos de comédia “quase toda segunda, quinta e sábado”, segundo a descrição do canal. Além do YouTube, o Xafurdaria apresenta outras redes sociais, como Facebook, Instagram e Snapchat.

Em relação ao plano da expressão, o canal se destacou na linguagem utilizada nos vídeos, sempre informal e com expressões populares que aproximam os conteúdos do cotidiano do público. Kaio Oliveira comumente usa o termo “papoca esse like” para pedir que a audiência curta os vídeos. A frase, inclusive, é estampa de alguns produtos vendidos na loja virtual do canal, como camisetas e relógios.

Em relação ao plano do conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público não se mostrou relevante nas emissões analisadas, tendo recebido avaliação fraca. Tal avaliação se deve à falta de temas pertinentes que possam estimular o público à reflexão e ao debate de ideias.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, quatro emissões receberam avaliação fraca, uma vez que não trazem pluralidade de gênero, orientações sexuais ou pontos de vista, por exemplo. O vídeo Tipos de Atletas, no entanto, recebeu avaliação razoável, pois, como o nome sugere, representa alguns tipos de esportistas, apresentando certa diversidade de sujeitos. Como exemplo, tem-se o atleta humilde, como Kaio Oliveira apresenta: “Ao contrário dos atletas que se acham, tem os atletas humildes”. No vídeo, o atleta diz: “Vim do interior né, nasci bem pobre”, o que sugere certa diversidade socioeconômica e geográfica dentre os sujeitos representados no vídeo.

Esse mesmo vídeo recebeu avaliação boa no indicador oportunidade, já que faz parte de uma campanha das Olimpíadas no Brasil – assunto em constante abordagem pela mídia – e, durante as representações dos tipos de atletas, simula coletivas de imprensa, as quais são frequentemente apresentadas em programas esportivos e jornais, por exemplo. As outras emissões, por sua vez, não se pautaram em temas atuais ou relevantes que fazem partes das agendas do público ou da mídia, recebendo, portanto, avaliação fraca nesse indicador.

A desconstrução de estereótipos, contudo, não foi observada nas emissões analisadas do canal. Alguns vídeos, inclusive, reafirmam alguns tipos de generalizações e representações, como é o caso do Como Identificar Se Você Tá Apaixonado. Em tal vídeo, Kaio Oliveira mostra como seriam as reações de homens e mulheres ao perceberem que estão apaixonados. Ao representar esses sujeitos, porém, faz uso de conceitos pré-estabelecidos a respeito desses grupos, como quando simula mulheres e homens contando para os amigos que estão apaixonados. As mulheres ficariam felizes, como Kaio afirma: “As amigas são as primeiras pessoas a apoiarem a paixão da amiga, elas adoram paixão. Para a mulher a paixão é um negócio tão mágico que ela fica feliz pela amiga dela que está apaixonada.”. Já os homens teriam a reação inversa, pois, como dito por Kaio, “Simplesmente ele vai perder um guerreiro na balada, ele vai perder mais um solteiro”. Além desse tipo de generalização, Kaio utiliza palavras como “veado” de forma pejorativa, como no vídeo Quando Eu Jogava Bola Na Rua, no qual diz: “Deixa de ser veado, rapaz, antes tu jogava no calçamento…”. Veja, abaixo, a avaliação recebida por cada indicador no plano do conteúdo:

Xafurdaria 1

No que diz respeito à mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta recebeu avaliação muito boa em todas as emissões analisadas, já que o objetivo dos vídeos é nítido, sem deixar dúvidas. No vídeo Como Identificar Se Você Tá Apaixonado, por exemplo, Kaio explica: “Hoje eu vou iniciar uma série aqui no Xafurdaria diferenciando diversos comportamentos de homens e mulheres e eu resolvi iniciar com esse; qual é a diferença do homem e da mulher quando os mesmos estão apaixonados.”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do público recebeu avaliação muito boa. Kaio, em grande parte das vezes, se dirige diretamente aos internautas, sendo que os vídeos têm início com ele dizendo: “Fala galera, meu nome é Kaio Oliveira e tá começando mais um Xafurdaria aqui no YouTube”. Além disso, ao final dos vídeos, é comum Kaio pedir para o público se inscrever no canal, dar “like” no vídeo ou clicar em algum link disponibilizado por ele.

O indicador diálogo com/entre plataformas também foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas, uma vez que as redes sociais de Kaio Oliveira sempre são disponibilizadas durante os vídeos, além de links que direcionam o espectador, por exemplo, à loja virtual do Xafurdaria ou a outras emissões do canal. Tem-se como exemplo o vídeo Tipos de Atletas, que faz parte da campanha olímpica O Brasil Inteiro Joga, da qual outros youtubers também fazem parte. Ao final do vídeo, Kaio disponibiliza links que levam às playlists dos canais Niina Secrets e Manual do Mundo, com vídeos também integrantes da campanha.

Além disso, como é comum no YouTube, no vídeo Pepeca Depilada ft. Julio Cocielo há um crossover entre o Xafurdaria e o Canal Canalha, comprovando o diálogo entre os canais. Ainda em relação ao indicador, no vídeo Como Identificar Se Você Tá Apaixonado Kaio comenta: “Eu poderia começar esse vídeo estilo a MC Melody” – em referência a uma personalidade real.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável em todas as emissões, já que o canal não apresenta um formato diferenciado que se destaque em relação a outros já apresentados no YouTube. O conteúdo dos vídeos, por sua vez, também não é trabalhado com grandes inovações. A seguir, as avaliações da mensagem audiovisual:

Xafurdaria 2

A partir da análise, pôde-se observar que o canal Xafurdaria obteve destaque em indicadores da mensagem audiovisual, como no diálogo com/entre plataformas, já que outras redes sociais do canal, como Facebook, Instagram e Snapchat, eram divulgadas em todos os vídeos. Além disso, eram comuns menções a elementos da realidade, além de crossovers com outros canais.

A solicitação da participação ativa do público foi outro indicador de destaque, uma vez que Kaio, em todos os vídeos analisados, se dirigia diretamente ao espectador, solicitando que clicasse em links ou se inscrevesse no canal, por exemplo. O uso de expressões populares, que aproximassem a linguagem ao cotidiano do público, é um outro aspecto que pode ser pontuado nesse indicador. Entretanto, tais indicadores são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um elemento de destaque do canal.

Por sua vez, indicadores importantes ao humor de qualidade – considerado aquele que traz problemáticas relevantes e pertinentes, capazes de levar o público à reflexão – não foram observados com realce nas emissões analisadas do canal. O indicador ampliação do horizonte do público, por exemplo, foi pouco observado nos vídeos analisados, já que os temas abordados não tinham grande pertinência ou importância perante a conjuntura social.

Já a desconstrução de estereótipos não foi observada em nenhuma emissão, sendo que, em alguns vídeos, generalizações e conceitos pré-estabelecidos em relação a algum grupo social eram reafirmados, ainda que não fosse de modo malicioso. Desse modo, características essenciais ao humor de qualidade não foram observadas com relevância no canal Xafurdaria.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade