Arquivo da categoria: Documentários

Afetos presentes: dos loucos e das rosas

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Barbacena é um município mineiro situado a 169 quilômetros de Belo Horizonte, capital do estado. A partir do século XX, a cidade tornou-se conhecida no Brasil e no exterior como “Cidade das Rosas”. A alcunha se popularizou devido ao grande núcleo de cultivo, produção e importação destas flores. Em meados dos anos 1970, a produção e plantio era organizado pela Associação Barbacenense dos Produtores de Rosas e Flores (ABARFLORES) e contava com 97 produtores.

De maneira concomitante, um outro nome foi dado à cidade que ainda carrega ambos os apelidos: a “Cidade dos Loucos”. A denominação se deve ao histórico do município e sua consequente relevância no cenário psiquiátrico brasileiro como o maior polo manicomial de Minas Gerais. A exclusão dos loucos do convívio social foi uma prática comumente realizada no Brasil a partir do modelo de tratamento de transtornos mentais popularizado na Europa a partir do século XVII. Segundo Passos (2007), os loucos eram vistos como o resíduo da sociedade e passaram a ser excluídos do convívio social, juntamente com os ladrões, as prostitutas e demais marginalizados sociais.

Neste contexto, Andreia Pinto resgata a memória afetiva dos profissionais e pacientes do que restou do Hospital Colônia para apresentar as novas realidades sob as quais estão inseridos os tratamentos ao portador de transtornos mentais. O programa, publicado pela TVNBR em 2011, apresenta as dissonâncias entre como podem ser consideradas a cidade dos loucos e a cidade das rosas.

A partir da perspectiva dos moradores de Barbacena, um som em off introduz as opiniões públicas acerca do apelido. No filme, é possível compreender que, para a maioria dos entrevistados, a questão manicomial é enxergada com cunho cômico – a partir dos estereótipos do “louco”, e da negação ao enxergar a cidade como “cidade dos loucos”, mas sim a cidade que recebe os loucos.

O filme buscou compreender de que maneira o resgate das memórias afetivas do hospital puderam ser incorporadas à investigação jornalística do atual panorama das casas terapêuticas – residências psiquiátricas que funcionam, hoje, como modelo sucessor ao manicomial em Barbacena –.

O trabalho de memória é realizado por artistas plásticos e historiadores locais, enquanto o trabalho de elucidação acerca dos tratamentos atuais fica a cargo de psicólogos e psiquiatras envolvidos com os personagens que outrora estiveram internados na sede do manicômio.

No filme, transborda a necessidade de enxergar o portador de transtorno mental enquanto sujeito afetivo, dotado de paixões, necessidades e capacidade técnica de exercer trabalhos. A reforma psiquiátrica é aludida, na obra, como principal fator capaz de promulgar melhores condições humanas aos que, por muitos anos, foram impedidos de enxergar as rosas.

Assista ao documentário em: https://www.youtube.com/watch?v=dQMIUqj6tPw

Por Iago Rezende

Suicídio no Brasil: precisamos falar sobre, e os documentários brasileiros também

Realizado em 2012 pelo Grupo de Pesquisa de Prevenção de Suicídio da Fiocruz, em parceria com a VideoSaúde Distribuidora, o filme “Suicídio no Brasil” é uma das poucas produções documentárias que buscam alertar sobre o suicídio, tema ainda tabu na sociedade. Segundo o portal “setembroamarelo.org.br”, de conscientização para prevenção do suicídio, 32 pessoas se suicidam a cada dia no Brasil, taxa superior às vítimas da AIDS e da maioria dos tipos de câncer que existem. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que nove em cada dez casos poderiam ser prevenidos caso houvesse conscientização sobre a importância de se falar sobre o assunto.

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Abrindo o vídeo com um fade in (efeito de aparecimento gradual da imagem na tela), nove personagens populares opinam sobre o suicídio através do formato “povo fala”,  revelando o que se pretende mostrar sobre a representação dessa palavra para o senso comum: “A loucura. Simplesmente a loucura! Porque naturalmente quando uma pessoa suicida, ele já está fora do normal de um ser humano”, como disse um senhor passados pouco mais de 7 minutos de vídeo.

As intervenções da entrevistadora parecem conduzir a narrativa proposta para minar antigos conceitos ou explicar questões que precisam sair da voz do personagem popular para ser mais aprofundada por um especialista, na tentativa de elucidar o tema e informar a população espectadora.

É o que acontece, por exemplo, aos 4:27 minutos de vídeo, quando a entrevistadora indaga aos personagens se eles já conheceram alguém que se suicidou ou que ao menos teve a vontade de se matar. Na terceira resposta, um homem conta que já havia vendido um livro que falava sobre as diferentes formas de se suicidar. A entrevistadora, então, conduz o fio narrativo com perguntas que instigam o homem a falar sobre tais formas, anunciando o que imediatamente depois explicaria o Dr. Neury Botega, professor da Faculdade de  Medicina da Unicamp.

Aos 7:52 minutos de filme, o documentário desvia da mescla das vozes dos personagens populares e do especialista para ilustrar suicídas das instituições psiquiátricas e prisionais, que conhecemos tão pouco. Através do relato da roteirista e diretora Debora Diniz sobre as gravações do documentário “A Casa dos Mortos”,  que abordou, em 2009, essa realidade dos manicômios judiciários, “Suicídio no Brasil” leva o espectador a questionar a eficácia desse tipo de instituição a partir da reflexão da forma como entendem a loucura em seus pacientes.

“O que se pode fazer por uma pessoa que está pensando em se matar?”, pergunta a entrevistadora. Os personagens respondem e, depois, novamente a figura do especialista vem para elucidar essa questão e trazer o primeiro passo para a solução do problema: quebrar o tabu do suicídio.

Senso comum: a loucura dos normais

Muitas vezes, o senso comum nos leva ao sentido mais pejorativo da palavra “loucura”, que traz com ela estigmas que nos fazem marginalizar quem pensa em suicídio. Silenciamos as dores dos suicidas, os excluímos do convívio social e os colocamos à margem da normalidade partindo do nosso juízo de valor como principal termômetro para se medir o que é ser normal.

Solidão, depressão, alcoolismo, outros problemas de saúde como HIV, câncer e bipolaridade, e questões conjugais e de relacionamento são problemas frequentes nos dias atuais e que podem ser motivos para o suicídio de uma pessoa que, diga-se de passagem, não quer terminar com a própria vida, e sim terminar com o sofrimento que a atinge por não mais enxergar solução para tal angústia. Marginalizar essa parcela da sociedade é, portanto, tapar os olhos para uma realidade cada vez mais comum e ignorar um pensamento que está suscetível a todos, até aos que mais o marginaliza.

Diante desse isolamento social ao qual submetemos essas pessoas, o que se vê é o silêncio da mídia, da literatura e das produções audiovisuais documentárias, que perdem a oportunidade de quebrar esse tabu e servir como instrumento de articulação política para gerar a reflexão sobre o problema de saúde pública, que atinge, principalmente, os idosos e os jovens da população, imersos numa sociedade um tanto quanto solitária, doente, ansiosa e cobrada.

Nesse sentido, o documentário, enquanto uma produção que, muitas vezes, provoca o espectador para tirá-lo da sua zona de conforto e fazê-lo pensar, pode ser uma potente ferramenta para a inscrição dessa nova percepção sobre o tema e então ressignificar as concepções mantidas até aqui.

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“Não falar sobre suicídio é colocar o problema embaixo do tapete e sermos surpreendidos de tempo em tempo por um suicídio que poderia ter sido evitado. Falar sobre suicídio com sensibilidade, com o auxílio de várias fontes de conhecimento, de várias visões sobre esse fenômeno tão complexo, é aumentar as chances de reflexão e aumentar a possibilidade de encontrar saídas para a angústia do homem que não sejam via suicídio.” – Dr. Neury Botega, prof. Medicina Unicamp.

Assista ao documentário: https://vimeo.com/36487179

Por Luma Perobeli

#SetembroAmarelo

Boca de Rua: vozes de uma gente invisível

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Os sujeitos marginalizados da sociedade costumam ter aparições na grande mídia que reforçam aspectos de miserabilismo, violência e, até mesmo, de uma dependência paternalista. Essas formas de apresentação de identidades colocam em xeque as possibilidades de quebra de estigmas e estereótipos, visto que esses grupos estão moldados ou como os “perversos” ou como os “coitados”, sem quaisquer perspectivas de mudanças. Teóricos do documentário, como o francês Jean Louis Comolli ou o brasileiro Fernão Ramos, costumam dizer que cabe a esse tipo de cinema a busca pelo novo olhar, pelo acolhimento da mise-en-scène do outro e pelo quebra de padrões.  E é exatamente isso que Marcelo Andrighetti, em seu documentário “Boca de rua: vozes de uma gente invisível” nos apresenta.

A obra, produzida em 2013, trata de um projeto desenvolvido em Porto Alegre com as pessoas que vivem nas ruas da capital gaúcha, uma proposta inovadora e que vem trazendo resultados impressionantes, a começar pelo resgate da autoestima desses sujeitos. Trata-se do jornal impresso “Boca de Rua”, produzido inteiramente pelos indivíduos que vivem nas ruas de Porto Alegre, desde a discussão de pautas, passando pela apuração e registro fotográfico até a redação do texto. O projeto, fundado e coordenado por Rosina Duarte, foi criado em 2001, sendo que 150 pessoas já haviam passado por ele (até a época das gravações) e 70 delas deixaram as ruas.

Andriguetti faz uma apresentação do Boca de Rua de maneira dinâmica e imprimindo um tom positivo, desde a sonoplastia de fundo, fotografia e até a montagem. No início do filme, há cenas da capital gaúcha e, ao fundo, uma voz que fala do jornalismo enquanto instrumento de transformação e da proposta de fuga das construções espetaculares. Em seguida, os integrantes do projeto passam a discursar, reforçando o quanto o Boca de Rua foi um divisor de águas em suas vidas. Alguns deles aprenderam a ler e a escrever somente após ingressarem no projeto, e hoje são os autores das reportagens que estampam as edições do jornal.

O documentarista não interfere diretamente nas gravações, não há voz over e os relatos se sucedem sendo algumas vezes intercalados com cenas dos sujeitos em ação, fotografando, entrevistando, em reuniões de pauta ou redigindo. Percebe-se que essa escolha de construção busca reforçar a liberdade e autonomia dos personagens, independência esta que o próprio projeto Boca de Rua lhes proporcionou. A forma de encadeamento das cenas, em um tom mais acelerado, lembra a dinâmica de trabalho do jornalista e de fechamento de uma edição de jornal. Parece que tudo foi pensado para levar o espectador a sentir as transformações que os sujeitos filmados experimentaram.

O final do filme também apresenta algo bastante curioso: várias pessoas aparecem mostrando seus documentos de identificação, e, entre elas, aparecem alguns repórteres do Boca de Rua apresentando os seus crachás. Eles agora saíram da invisibilidade a que são submetidos, algo que nos próprios relatos reconhecem: “eu comecei a ser visto pela sociedade, porque antes de eu entrar no Boca de Rua, eu era invisível”. Outro personagem comenta que o projeto existe para mostrar que ele e seus colegas que vivem nas ruas de Porto Alegre têm conhecimento. Já nos últimos minutos do documentário, há o texto: “no jornal, os integrantes aprendem a ler, a escrever e a sair da invisibilidade”. Assim, percebe-se que essa escolha de enquadrar pessoas com suas identificações é uma forma de remeter à sua autonomia e pertencimento social.

O que transborda, na visão do espectador/crítico:

Marcelo Andrighetti poderia ter feito mais um filme que reforça a condição de miserabilidade a que as pessoas em situação de rua se encontram, com denúncias e apelo de auxílio. Mas ele encontrou uma nova forma de despertar o espectador, quebrando preconceitos e estereótipos vigentes. O documentarista buscou, com sua obra, o que Jaques Rancière chama de política da transformação, aquela que inverte posições na sociedade, que quebra os ditames da ordem policialesca, colocando o espectador em um local desconfortável exatamente por não ter aquilo que está acostumado a ver. Os personagens apresentados são fortes, demonstram estar imbuídos da consciência cidadã e de seu papel transformador. Assim, o cineasta aponta, como o próprio projeto que tematiza, para uma nova perspectiva, caminhos que podem ser buscados para oferecer dignidade e recuperar a autoestima daqueles que a mídia “dá a voz”, mas ao mesmo tempo ignora.

Em  “Boca de rua: vozes de uma gente invisível”, os personagens têm voz e com ela constroem uma narrativa forte e que nos comove exatamente por sua eficácia. É um filme que mostra que nem tudo está perdido e que as mudanças começam quando acolhemos outras versões, diferentes histórias e novos olhares.

Assista ao filme aqui: https://www.youtube.com/watch?v=5TtoMSiRn0w

Conheça o blog (https://jornalbocaderua.wordpress.com)  e fanpage do Jornal Boca de Rua (https://www.facebook.com/jornalbocaderua/)

Por Tatiana Vieira

A arte de ouvir: a saúde mental em “Vozes da Voz”

das-doida1O documentário Vozes da Voz propõe a detenção do olhar do espectador para a realidade das CAPS, serviço comunitário criado para cuidar de pessoas em estado de sofrimento psíquico. Nestes centros de atenção psicossocial, os ingressos são tratados como usuários do serviço, e não como pacientes, o que os confere o direito de decisão e de autonomia, como exemplo.

Em 35 minutos, o filme realiza um resgate histórico de algumas instituições psiquiátricas e aborda a luta antimanicomial, importada pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia em 1979, que instaurou serviços alheios aos realizados pela lógica manicomial.

A apresentação dos psicólogos, psiquiatras e líderes sociais são justapostas às dos usuários do sistema público de tratamento mental. O filme, então, se desenvolve apresentando depoimentos de profissionais do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha e de envolvidos com o CAPS Itapeva (SP).

De acordo com o diretor Valnei Nunes, o filme foi realizado a partir de 3 anos de pesquisa e registro do tratamento da saúde mental em detrimento da luta antimanicomial e dos direitos humanos. Os depoimentos presentes na película exploram os novos tratamentos utilizados nas CAPS filmadas e revelam a necessidade do tratamento humanizado do portador de sofrimentos mentais.

Não obstante, a necessidade de se discutir a questão psicossocial é investida como tema de relevância não somente para aqueles que estão inseridos no processo da Reforma Psiquiátrica. Também é necessário que haja um debate para que a sociedade obtenha esclarecimentos sobre métodos de tratamento, reinserção social e arte-terapia. A loucura, que segue carregada de estigmas, é apresentada no filme como identidade que deve ser ouvida e respeitada.

De acordo com Comolli (2001), crítico e ensaísta francês, o cinema documentário possui a capacidade de se ocupar de todas as fissuras do real. A filmagem dos excluídos, que escapam das normas majoritárias, entregam novos desvios do olhar para os espectadores que, juntamente dos especialistas em um assunto específico, podem debandar em juízo novas formas de atender, ouvir e solucionar problemas de ordem social.

Assim, é possível conjurar, através da manifestação das imagens do filme, questionamentos que tem como objetivo principal o fim do estigma do louco, a relação da sociedade com o portador de transtornos e a necessidade de amparo familiar e social para aqueles que precisam do sistema. Nas palavras de Ismail Xavier (2010): “As pessoas são mais interessantes quando se libertam do estereótipo”.

Assista ao filme: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/vozes-da-voz/

Por Iago Rezende

Nós: um documentário sobre eles, eu e vocês

20632409_10210023079237858_1132771128_nUm dos grande diferenciais do documentário é a palavra. Trata-se de um cinema, segundo Jean-Louis Comolli, que investe na potência dos afetos e na duração da fala, um cinema que dá espaço para aquilo que a ficção ignora. É explorando toda a riqueza de depoimentos, histórias e sentimentos de pessoas que estiveram em situação de rua que Juliana Amoreira Terra constrói o documentário “Nós”.

O filme, de 2011, foi gravado no Arsenal da Esperança, um abrigo de homens que acolhe, diariamente, 1.150 indivíduos em situação de rua. Seis deles são chamados a compartilhar suas histórias de vida, os motivos que os levaram a sair de casa, as experiências durante o período de rualização e suas expectativas para os próximos anos.

Logo que o filme começa, com cenas de pessoas em situação de rua, a voz de um dois entrevistados assumem o pano de fundo das imagens: “o simples cotidiano da rua já é terrível, né…” “É uma situação triste, vergonhosa e dolorosa…”. Quem discursa por último é um ex-músico que chegou a gravar 3 CDs e viajou pelo mundo em turnê. Durante algum tempo, ele fala em inglês no depoimento, relata que aprendeu a língua sozinho, mostra recortes de jornal com reportagens antigas sobre a sua carreira musical e toca violão.

Em seguida, outros sujeitos assumem a voz, dentre eles um ex-funcionário público, um ex-empresário de sucesso e um ex-enfermeiro. Os motivos que os levaram para as ruas divergem: desemprego, perda de um ente familiar e descontrole emocional, divórcio e consumo de drogas. Nos depoimentos, fala-se sobre o  sentimento de abandono, o sofrimento diante da fome e do frio, e o arrependimento pelo envolvimento com o crime.

O ex-funcionário público diz que a vida nas ruas o ensinou que “as pessoas hoje têm um valor simbólico”, remetendo ao fato de ter sido abandonado por amigos e pessoas próximas quando perdeu tudo. Para ele, há um padrão social que exige que todos sejam vencedores na vida e isso nem sempre acontece. O ex-enfermeiro, que foi para as ruas depois de se revoltar com a morte do pai e se envolver com drogas, conta a sua experiência dolorosa na cadeia e a sensação de vazio quando alcançou a liberdade: “o que fazer?”. Outro entrevistado, que começou a consumir drogas ainda jovem, diz que perdeu muita coisa em sua vida. Um deles, preso duas vezes, relata que “não deseja o que passou para ser humano nenhum”.

Na primeira parte do filme, predominam as reflexões sobre o que experimentaram quando estavam nas ruas, com um forte apelo para o lado perverso da rualização. Em seguida, há um corte no documentário com cenas do albergue à noite e o despertar. Nos relatos seguintes, são destacados os sonhos de recomeçar e ter um novo lar, terminando com a frase de um dos entrevistados: “hoje eu sou um cidadão” e o convite entusiasmado de um dos moradores do albergue convocando os colegas: “vamos trabalhar!”.

No fundo da imagem de homens caminhando até a saída do abrigo, é inserida a canção de autoria  do personagem músico, “Brasil da Floresta”, que exalta as riquezas naturais e humanas do país. O filme, então, finaliza com o close no sujeito, segurando o violão dizendo “Esse é o nosso Brasil”.

Além das aparências

Na obra de Juliana, observa-se que, diferentemente de documentários apontados por Ramos (2008) que exploram a criminalidade e o miserabilismo, o foco é a figura humana. Cada depoimento desconstrói uma série de estigmas e estereótipos acerca da população em situação de rua. O que se vê são personagens complexos, com conhecimento e bagagem cultural. Aqueles que discursam poderiam ser qualquer um dos espectadores.

O “Nós” de Juliana envolve eles, eu e vocês. Somos todos humanos. Acertamos, erramos, vencemos e perdemos. Nada deveria nos tornar “invisíveis”, como é o que acontece com tantos que estão hoje nas ruas. E ao “dar a voz” de maneira delicada, sem explorar imagens da miséria e do horror que aquelas vidas experienciaram, a cineasta abre uma perspectiva para a superação e o reforço na humanidade que reside nos personagens e em nós, possibilitando-nos uma rápida identificação.

Nós é um documentário que busca, desde o seu título, envolver o espectador. Os sujeitos da fala são despidos dos estigmas que carregam para revelar quem são e para nos inquietar quando ignoramos muitos outros que estiveram ou estão nas ruas. Um filme humano para humanos. Sobre a vida e suas intempéries. Sobre aprender a ver além das aparências e ter empatia. Um convite à reflexão e a um novo olhar.

Assista ao filme aqui: http://curtadoc.tv/curta/comportamento/nos/

Por Tatiana Vieira

Autismos Entreditos: O que dizem os calados?

austismosDe acordo com o Manual de Saúde Mental – DSM-5, o Autismo e outros distúrbios similares – como o transtorno autista, o transtorno desintegrativo da infância, o transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado e a Síndrome de Asperger – são comumente agrupados em um único diagnóstico conhecido como Transtornos do Espectro Autista.

Tais transtornos indicam condições gerais para um coletivo de desordens do desenvolvimento cerebral antes do nascimento ou na primeira fase de vida da criança. Os distúrbios refletem, na maioria das vezes, na dificuldade de comunicação social do portador e em comportamentos repetitivos, além de outras características específicas da ordem de cada transtorno, intensidade e espectro do autismo.

No ano de 2015, com o intuito de esclarecer e discutir a questão que envolve os limiares do tratamento, o preconceito no entorno do paciente autista e nas possíveis formas de cuidado e afeto, a diretora Pâmela Perez desenvolveu, junto do CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) o curta metragem “Autismos Entreditos”.

O filme aborda, em aproximadamente 25 minutos, a realidade social dos portadores de diferentes espectros do autismo e teve como objetivo principal promover a reflexão e discussão sobre a vida e o cotidiano de pessoas que convivem com o Autismo na fase adulta, de modo a perceber como são seus desafios, suas rotinas e como o tratamento e o cuidado é desenvolvido no Caps.

Através de entrevistas com mães de pacientes, funcionários do hospital e dos próprios usuários do sistema, a diretora propõe um documentário, que se aproxima de uma reportagem audiovisual. Um dos objetivos centrais da obra parece ser o de esclarecer a população em geral que, embora as dificuldades de sociabilização e de interação dos portadores dos Transtornos do Espectro Autista sejam grandes, o tratamento que envolve afeto, diversão e humanização dos processos médicos são saídas efetivas para o encargo terapêutico.

O filme parece se desenvolver a partir de um estudo de caso específico: as famílias, os funcionários e os pacientes do CAPs foram convidados para um passeio no Piscinão de Ramos, piscina artificial de água salgada no Rio de Janeiro, e os depoimentos foram colhidos durante e depois da viagem. A oficina criada, inédita no CAPs Fernando Diniz, para tratamento de autistas adultos.

Ambos os pacientes e familiares retificaram a necessidade do tratamento humanizado e afetivo aos portadores de transtornos mentais – características observáveis após as lutas antimanicomiais, que marcaram o dever da aplicação dos Direitos Humanos no tratamento e no cuidado. Como alguns pais observaram, os tratamentos antigos, que prendiam os pacientes de quadros graves, os sinais aparentes eram de revolta e nunca de melhora.

Deste modo, as falas potentes e emocionadas dos envolvidos no processo fílmico alertam para os olhares mais sensíveis em relação ao autismo. Em ambientes onde o preconceito pode ser angustiante, a liberdade é ofertada como método de tratamento. Assim, os Autismos Entreditos procuram no carinho a maneira de clamar por ajuda.

Assista a íntegra do documentário: https://www.youtube.com/watch?v=oS4pC-cfjGM

Por Iago Rezende

Atrás da Pedra: o retrato da luta indígena no Brasil

apedProduzido em 2015 e com duração de pouco mais de 30 minutos, o documentário “Atrás da Pedra – Resistência Tekoa Guarani” retrata uma luta produzida em qualquer tempo, e que já dura mais de seis séculos. Os idealizadores Taís Oliveira, Thiago Carvalho e Guilherme Queiroz abordaram a luta e resistência dos índios da etnia Guarani Mbyá pela demarcação de terras das três aldeias do bairro Jaraguá, zona norte de São Paulo, que faz divisa com Osasco.

Embora as aldeias Tekoa Itakupe, Tekoa Pyau e Tekoa Ytu sejam terras reconhecidas por estudos técnicos antropológicos aprovados pela Fundação Nacional do Índio (Funai), apenas a Tekoa Ytu é regularizada, com 1,7 hectare demarcado. Os outros 532 hectares que compreendem as aldeias já foram autorizados para a demarcação, mas esperam, desde 2015, a homologação do Governo Federal, que não parece estar interessado em defender os direitos das comunidades tradicionais.

De um lado, lideranças indígenas, antropólogos, representantes da Funai e de organizações pró-indigenistas constroem uma narrativa em defesa dos povos originários. De outro, Antônio Tito Costa, advogado, ex-vereador, ex-prefeito e ex-deputado federal (PMDB-SP), reivindica parte dessas terras, alegando pertencer à sua esposa, já falecida, 72 hectares desse terreno, localizados justamente dentro da Tekoa Itakupe, aldeia que em português significa “Atrás da Pedra” e que dá nome ao documentário.

Nós, os Juruás

Para Comolli, a contradição fragiliza a cena e, por isso, aviva o interesse do espectador, que a todo o momento se vê induzido a mudar de posição. “Aquilo que faz vacilar as referências, aquilo que mina as certezas, incluindo aquelas marcadas no instante anterior, só se faz para trazer novamente à tona a crença – imputando-lhe todas as dúvidas.” (COMOLLI, 2008, p. 95)

Como no jogo das cadeiras, movimentar o espectador é o que pretende um filme documental, e o que “Atrás da Pedra – Resistência Tekoa Guarani” conseguiu concretizar. “Trata-se de ao mesmo tempo suspender e reativar este sonho contraditório que liga o espectador ao filme. Acreditar, não acreditar mais, voltar a acreditar. Mais uma vez, a figura maior do vai-e-vem.” (COMOLLI, 2008, p. 94)

pedra2Os argumentos de Tito Costa, somados ao pensamento do “homem branco”, certamente podem parecer contundentes o bastante para ganhar nossa opinião. Entretanto, as falas favoráveis à demarcação novamente nos inquieta, nos faz pesquisar e refletir sobre a atual situação indígena no Brasil, e nos incita a ir além do pensamento comum da sociedade em que vivemos, organizada tal como ela é.

“Tem deslocamentos. Não dá para você ficar no mesmo lugar quando você está sendo pressionado. É como lá em Rondônia e no Mato Grosso, quando foram passando aqueles militares com seus tratores. A hora que eles chegaram na aldeia, não tinha mais ninguém dentro dela. Claro! Eles iam ficar lá esperando ser esmagados? Não!”, explica a antropóloga Lucia Rangel, aos 10 minutos de vídeo.

“Esse vai-e-vem, de sair e voltar, é uma constante na vida dos indígenas. Porque pra eles, essa saída não é um abandono da propriedade. Eles não têm propriedade. A propriedade privada é uma instituição da nossa sociedade”, completou a estudiosa, na tentativa de fazer com que os espectadores entendam que uma sociedade indígena se organiza de modo diferente dos Juruás, os não-índios.

Eles, os ruralistas

O próximo dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas certamente não será comemorado. Ontem (19), o presidente Michel Temer assinou um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que incorpora elementos da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso da Terra Indígena (TI) de Raposa-Serra do Sol (RR), de 2009, ameaçando a demarcação de terras indígenas em todo o país.

Entre outros pontos, o parecer proíbe a ampliação de TIs e estabelece que todos os órgãos federais, incluindo a Funai, devem considerar que só têm direito à terra as comunidades indígenas que estavam dentro do território no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Brasileira, ou seja, desconsiderando os deslocamentos culturais e os forçados, resultados de anos de massacres sofridos pelas comunidades indígenas, como explicou a antropóloga Lucia Rangel.

“Nos anos 50, o líder André Samuel se estabeleceu na região do Jaraguá. Na década de 60, Joaquim Martim chegou ao Jaraguá e chefiou a aldeia Tekoa Ytu. Já nos anos 70, a terra ocupada pela família de Joaquim Martim sofreu com a construção da Rodovia dos Bandeirantes, que fragmentou o território e destruiu parte da área”, relatou o documentário nos primeiros segundos de filme.

A assinatura deste parecer, somado à PEC 215 que deu para o Legislativo o poder de demarcação das terras indígenas, representam a clara intenção dessas pessoas em ditar regras de convivência em sociedade para uma sociedade que eles sempre quiseram combater. Eles, no caso, os políticos que buscam atender aos interesses dos ruralistas brasileiros, e que, não por coincidência, são eles próprios, amigos ou familiares.

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“Pra mim, um sonho, é que um dia a gente consiga conviver junto com a diferença. Que a sociedade brasileira entenda que o país realmente só vai ser uma nação, quando a gente conseguir respeitar a diferença de cada um” – David Karai Popygua.

Por Luma Perobeli

Assista ao documentário: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/atras-da-pedra-resistencia-tekoa-guarani/

No meu palanque: o olhar que se faz sentir e ouvir

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O que será que aqueles que, quase nunca têm a oportunidade de se dirigir a nós, nos dizem sobre o que sentem? E afinal, o que passa na mente de crianças que estão fora de casa, sem o suporte e o amparo dos pais, tendo que enfrentar situações que exigem de si maturidade e capacidade de resolução de todos os problemas?

O documentário “No meu palanque” (2009), de Victor Carrera, nos revela esses sentimentos que dois meninos em situação de rua, Marcelo e Jackson, guardam em si e que não podem expressar em seu cotidiano. Nas ruas de Quito, capital do Equador, eles buscam a sobrevivência diária, passando pelas dificuldades de conseguir um alimento para comer, um lugar seguro para dormir, um meio de se aquecer nos dias frios, e a coragem e força para lidar com o medo e a solidão.

A fotografia do documentário, toda em preto e branco, já traz em si um pouco da sensibilidade que ele quer passar: o olhar de quem tem uma vida dura, fria, sem cores. É esse olhar, o dos próprios personagens, que ganha destaque durante todo o filme. A voz do documentarista não aparece. Quem tece a narrativa são os meninos, que, pouco a pouco, descortinam para o espectador as nuances nada fáceis da vida nas ruas, uma vivência, no caso de Jackson, escolhida como fuga da convivência difícil em casa, com o pai alcoólatra.

O outro personagem central, Marcelo, diz que era tratado mal em casa e continua sob o mesmo tipo de tratamento nas ruas e que isso nunca o deixa seguir adiante, virar a página. Ele expressa esse sentimento de inferioridade relatando as abordagens de policiais, quando as pessoas, no sinal onde faz malabares lhes ignoram ou quando se sente só e com medo na noite. Sua esperança é uma: “que as pessoas o tratem bem”.

Ao falar sobre os malabares, percebe-se que os meninos encaram a atividade como um trabalho – outra questão a que crianças e adolescentes em situação de rua estão, muitas vezes, sujeitas: o trabalho infantil. Observa-se que eles não notam a gravidade no fato de serem crianças e trabalharem. A vulnerabilidade em que estão imersos exige deles a maturidade de adultos. Marcelo aponta mais uma questão: as pessoas não dão dinheiro a Jackson pelo fato de ele ser negro e ser julgado como um ladrão, e diz que o amigo fica triste por não receber um “trocado” pelos malabares que faz. Jackson diz: “eu não me sinto motivado, porque eles não me dão nada”. Afinal, até onde pode ir a consternação do sentimento de exclusão ou de invisibilidade?

Os meninos falam de Elvis, um amigo que teve sua perna queimada nas ruas e está no hospital. Elvis assume o discurso e conta que, quando estava em casa, não gostava de brigar e de roubar as coisas de outras pessoas e que diziam que ele não fazia nada. O problema das drogas também é citado, quando Marcelo passa por um avião abandonado no Parque La Carolina e diz que alguns dormem por ali. Maurício, um jovem que também vive nas ruas, relata que já viu os mais velhos abusarem dos mais novos. Ele ainda afirma que as pessoas pensam que a situação de rua é imutável, que todos que vivem nas ruas estão condenados a permanecerem lá.

É nesse momento que Victor Carrera dá um corte no filme para trazer um pouco de esperança. Ele insere a fala de Elvis, que diz sonhar ser médico para cuidar das pessoas, ou bombeiro, porque “a profissão é excitante”. Mas logo a cena é interrompida pelo registro de Marcelo fazendo malabares nas ruas e juntando um a um os centavos que ganha. Quando percebe que só conseguiu nove centavos, diz: “nada demais, exceto que eu vou dormir na arquibancada”. E assim o filme se encerra.

Como muitas outras produções que tratam de temáticas semelhantes, a forma como o filme termina é um modo de dizer que nada muda, que tudo termina como está, ou seja, o documentário não é capaz de operar transformações. Mas ele pode despertar as pessoas para que elas mudem a si e ao seu redor, embora não se possa dizer que o documentário tem uma missão transformadora declarada. Ao dar a voz aos meninos, que quase nunca têm a chance de se expressar, Victor abre uma possibilidade de escuta, especialmente porque o olhar que impera no filme é o dos meninos. Eles olham para as ruas e para si mesmos, desabafando sobre os momentos em que se sentem inferiorizados em suas rotinas de sobrevivência. É um olhar dói em quem assiste, que se faz a partir do “sentir o outro”, “sentir a dor do outro”.

O que transborda

Tratar de temas marginais não é uma tarefa fácil, pois corre-se o risco de reforçar a condição de quem está naquela situação. Contudo, observa-se algumas escolhas de Victor que buscam minar formas de controle e poder sobre os personagens, como a própria pergunta, a entrevista. Como a voz dele não aparece e os meninos que discursam, como se eles mesmos fossem os donos da narrativa, de certo modo, há uma quebra do jogo de poderes. O destaque à figura humana, através do privilégio maior aos relatos, pode ser uma forma de realçar os afetos e a potência transformadora deles.

“No meu palanque” é um filme da palavra, em que ela assume o protagonismo, pois quase nunca pode se expressar no dia-a-dia daqueles meninos. O que se nota, como diz Comolli (2008) é que o filme busca, ao invés do “tudo ver”, típico do espetáculo, o “melhor ver” – melhor ver, sentir e, sobretudo, ouvir.

Assista ao documentário aqui: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/palanque/

Por Tatiana Vieira

O Veredicto da “Casa dos Mortos”

acasa

O documentário brasileiro “A Casa dos Mortos” relata cenas do Manicômio Judiciário de Salvador, na Bahia. Realizado pela antropóloga Débora Diniz, o filme perpassa os interiores da instituição e questiona os seus tratamentos e consequências. Os hospitais-presídios, instalações manicomiais que tem como premissas centrais a punição e exílio social do portador de transtornos mental e infrator, são, no filme, abordados pelos próprios detentos.

Bubu é um poeta com doze internações em manicômios judiciários. O poema “A Casa dos Mortos” foi escrito durante das filmagens do documentário e ambas as linguagens se intercambiaram no processo fílmico. Se tratam de, ao todo, três histórias em três atos de morte – as mortes desveladas de sentido e o suicídio; as overdoses usuais e ditas legais e a inexistência de possibilidade de uma vida no exterior dos muros –.

As histórias narram breves passagens de Jaime, Antônio e Almerindo, homens condenados à prisão – dentro dos moldes manicomiais – porque foram considerados perigosos para a vida real. O filme não procura extinguir dos pacientes qualquer tipo de culpa ou real periculosidade: a narrativa aborda, inclusive, os homicídios provocados por Jaime, drogadicto e portador de transtornos mentais, dentro e fora da instituição. No entanto, a proposta central é discutir quais são as principais consequências advindas dos modos atuais de internação.

A primeira história faz a trajetória de Jaime (“das mortes batidas sem sino”), internado por ter cometido um homicídio enquanto estava em surto. Após ter cumprido sua pena, deixou de tomar seus remédios e, sob efeito de drogas psicoativas, cometeu um novo homicídio. De volta ao manicômio e após ter matado um novo paciente da instituição, Jaime suicidou-se em sua cela.

A segunda história diz sobre Antônio, paciente com diversas passagens por manicômios. Ridicularizado pelas funcionarias, ele questiona porque não poderia usar batons, pintar as unhas ou ter seu cabelo grande. A passagem faz refletir sobre a perda da identidade e da gradual diminuição das escolhas individuais do paciente que é regido por uma instituição total.

Já a terceira cena retrata Almerindo, cujas histórias de sua internação se dirigem à uma suposta agressão à um menino na rua. O fato imputado ao paciente fora considerado lesões corporais e a pena, detenção. O caso, no entanto, ocorreu em 1981 e a sentença aplicada em 1982. Desde então, o paciente se encontra no mesmo local, sem familiares, amigos, visitas ou contatos próximos. Perguntam-no qual é seu nome e Almerindo prontamente responde: “É o seu” e logo depois: “Eu sou o governo dos Estados Unidos”. Quando a profissional volta a pergunta-lo pelo nome, a resposta elucida uma das realidades sociais destas pessoas: “Eu não tenho nome”; “Almerindo morreu”. O esquecimento e provoca as mortes das individualidades de quem lá se encontra.

A estética do documentário, em muito, é marcada pela hibridização entre filme e poesia, ambos contundentes para a transformação suscitada. Tal transformação seria, talvez, a reorganização do olhar do espectador entorno dos portadores de transtorno mental e como acontecem as medidas punitivas, até mesmo emocionalmente, no cotidiano dos pacientes. A documentarista e antropóloga Débora Diniz dá à Bubu –  personagem e autor da poesia que conduz a película – o papel de arauto dessas mudanças.

O documentário, em 24 minutos, é recitado pena voz de Bubu, o poeta da casa dos mortos. A realidade encontrada neste filme faz aparecer a ausência de cuidados paliativos, de tratamento digno e de respeito às identidades dos pacientes. Tais efeitos são também reflexos de uma sociedade e de um Estado que, ainda carregado por heranças eugênicas, não busca ouvir as angústias do transtorno. Neste contexto, há o senso de que a internação acontece por ser a única saída da loucura irreparável. No entanto, o Movimento da Luta Antimanicomial e os traços de realidade que perpassam as narrativas da poesia e do filme destacam uma outra preposição:

Existem outras saídas.

Leia o poema “A casa dos mortos”, de Bubu:

A casa dos mortos, de Bubu

A casa dos mortos
das mortes sem batidas de sino.
– Cena 1 deste filme-documentário
do mesmo destino de sempre;
é que aqui é a casa dos mortos!
***
A casa dos mortos
das overdoses usuais e ditas legais.
– Cena 2 deste filme-documentário
do mesmo destino de sempre;
é que aqui é a casa dos mortos!
***
A casa dos mortos
das vidas sem câmbios lá fora.
– Cena 3 deste filme-documentário
do mesmo destino de sempre;

é que aqui é a casa dos mortos!
***
Prá começo de conversa, são 3 cenas,
são 3 cenas anteriores e posteriores
às minhas 12 passagens
pelas casas dos mortos,
que são os manicômios;
– tenho – digamos assim ! –
surtos de loucura existencial brejinhótica,
relativos à minha cidade natal,
Oliveira dos Brejinhos – Bahia – Brasil;
voltando às cenas:
… cenas que, por si sós,
deveriam envergonhar os ditames legais
das processualísticas penais e manicomiais;
mas, aqui é a realidade manicomial!
***
Pois, bem: são 3 cenas,
são três cenas repetidas e repetitivas
de um ritual satânico-sacro
com poucos equivalentes comparados de terror,
cujo estoque self-made in world
é o medicamentoso entupir de remédios,

o qual se esquece de que
A Era Prozac
das pílulas da felicidade
não produz A Era da Felicidade
da nossa almática essência de liberdade;
mas, aqui é a realidade manicomial!

***
E, ainda sobre as 3 cenas:
são 3 cenas de um mesmo filme-documentário:
Cena 1, das mortes sem batidas de sino;
Cena 2, das overdoses usuais e ditas legais;
Cena 3, das vidas sem câmbios lá fora
– que se reescrevam, então,
Os Infernos de Dante Alighieri;
mas, aqui é a realidade manicomial!
***

Reporto-me às palavras de um douto inconteste,
um doutor que rompeu o silêncio,
o jornalista Jânio de Freitas,
do jornal A Folha de São Paulo:
“A psiquiatria é a mais atrasada das ciências”
– Parafraseio Jânio de Freitas
porque a casa dos mortos,
que é a metáfora arquitetônica
pela qual designo a psiquiatria,
pede que se fale
contra si mesma!
***
E, por falar, também, em lucidez,
sou lúcido e translúcido:
a colunista-articulista Danuza Leão,
no jornal baiano A Tarde, explica:
“Lucidez é reconhecer
a sua própria realidade,
mesmo que isso lhe traga sofrimentos.”
Mas, qual, ó Bubu!:
isto aqui é a casa dos mortos,
e, na casa dos mortos,
quem tem um olho é rei,
porque esta é a máxima e a práxis
da casa dos mortos.
***
Hospital São Vicente de Paulo /
Taguatinga – Distrito Federal – Brasil, abril de 1995:
o laudo a meu respeito (eu Bubu)
é categórico e afirma sinteticamente:
“O senhor Bubu é perfeita e plenamente lúcido!”.
Mas, é que lá a psiquiatria é Psiquiatria Federal,
com P maiúsculo,
de propriedade patenteada
e de panteão da civilização;
enquanto que, aqui na Bahia,
a psiquiatria é psiquiatria estadual,
com p minúsculo,
de pôrra-louquice
e de prostíbulo do conceito clínico
(não custa nada afirmar:
eu Bubu fui absolvido
pela Psiquiatria Federal,
e eu Bubu fui condenado
pela psiquiatria estadual
– eis o mote da minha história!)
***
Isto é um veredicto!
– tomara que fosse um ultimatum
à casa dos mortos!

Confira a íntegra do documentário aqui: https://www.youtube.com/watch?v=noZXWFxdtNI

Por Iago Rezende

A Cracolândia e o Estado Higienista: uma história que se repete

craco1Em 2012, o programa que visava acabar com a Cracolândia em São Paulo foi tema do curta-metragem “A Cracolândia e o Estado Higienista – a violência legitimada”. Com direção, filmagem e edição de Fernanda Eda Paz, os 28 minutos de duração do curta mostraram o lado de quem conviveu na prática com esse programa, e não o lado de quem dizia extinguir o tráfico de drogas e “revitalizar” a área. No filme, um psicólogo, uma criminóloga, uma jornalista e uma psiquiatra embasam os depoimentos das pessoas em situação de rua e dos moradores do centro de São Paulo.

Vencedor do prêmio de melhor documentário no IV Festival de Vídeo de Maringá, a produção trata das ações higienistas do governo do estado de São Paulo na região da Cracolândia, caracterizadas pela intervenção violenta, abusiva, desrespeitosa e inconstitucional da Polícia. O crack, como um dispositivo para alavancar e legitimar as medidas de contenção social e truculência contra os pobres é, na verdade, uma farsa para o que está por trás desses projetos de limpeza urbana do centro de São Paulo: os interesses imobiliários das grandes corporações.

Melhorar a qualidade de vida de quem está na Cracolândia certamente não era o objetivo em 2012, e também não o é agora, cinco anos depois. A estrutura adequada para o tratamento dessas pessoas não inclui passar com viaturas por cima delas, destruir seus pertences, agredi-las, violentá-las sexualmente, ou conduzi-las a uma internação compulsória, como indica o documentário. Favorecer empresários e especuladores em detrimento da vida humana, só comprova o desinteresse dos governantes pela saúde mental da população dependente química, que formará novas Cracolândias em outros pontos de São Paulo a cada medida que não contribui para a sua melhora.

Gravar para não esquecer

Com a intenção histórica de representar o real, os documentários gravam para melhor conhecer uma situação, apreender dela a sua essência e, assim, talvez, suscitar mudanças. Incomodar, colocar o espectador em movimento. Fazê-lo pensar sobre o que está acontecendo à sua volta é o que pretendia o curta “A Cracolândia e o Estado Higienista – a violência legitimada” com os depoimentos das vítimas dos abusos policiais da limpeza humana da Cracolândia.

No espetáculo está o nosso desejo de tudo ver. No cinema, o desejo é o de melhor ver. Mas, na vida real, muitas vezes a nossa vontade é a de não ver. Para Comolli (2008, p. 141), “Não apenas não vejo tudo o que o quadro me mostra como visível, mas nesse não tudo há ainda aquilo que, mais ou menos inconscientemente, eu não quero ver. O espectador, e este é o seu lugar, talvez deseje ver tudo, e ainda mais, mas nesse desejo esconde-se um outro desejo, aquele de cegar-se a si mesmo e de não ver tudo”.

Dentro ou fora das salas de cinema, esse auto cegamento acontece o tempo inteiro, quando assistimos a um quadro ou quando somos espectadores da própria vida alheia. Estar numa zona de conforto não é tão trabalhoso quanto estar numa zona de indeterminação, uma zona de medo. E esse outro lado da história, o lado que no dia a dia nos limitamos a conhecer por não ser o mais reconfortante é, por isso, o mais afetado pelo recurso da auto fragmentação do olhar.

O “disk faxina”, acionado à época pela política higienista de Gilberto Kassab (PSD) e Geraldo Alckmin (PSDB), está se repetindo agora com João Doria (PSDB) na Prefeitura de São Paulo e, novamente, Alckmin está à frente do governo do estado. O filme se repete, e a história é a mesma. Os “buracos” de gente não vão ser substituídos por paredes de tratamento e reinserção social, mas esses documentos não nos deixam esquecer a história (por mais que tentemos fugir dela no presente), e eles sim podem mobilizar e conscientizar para tais construções.

Assista ao documentário: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/a-cracolandia-e-o-estado-higienista-a-violencia-legitimada/

Por Luma Perobeli