Cilada

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Cilada é uma sitcom brasileira exibida pela Rede Globo, entre 2005 e 2009, primeiramente como um quadro do Fantástico e, posteriormente, como a primeira série nacional do canal Multishow, encerrando-se com seis temporadas e 53 episódios. Com aproximadamente 25 minutos de duração, o programa mostra situações corriqueiras que podem se transformar em problemas, ciladas.

Estrelado por Bruno Mazzeo, como o protagonista Bruno, o programa conta ainda com Renata Barbosa, namorada de Bruno na primeira e segunda temporadas, e Débora Lamm, que assume o papel da namorada a partir da terceira temporada. Além desses, outros personagens complementam as cenas, de acordo com o tema tratado no programa, porém, a maioria interpretado pelo próprio Mazzeo e, geralmente, são paródias de celebridades ou outros personagens famosos do audiovisual.

No Plano da Expressão, são características marcantes do programa a narração em off e também a introdução feita no início de três dos cinco episódios analisados, quando Bruno contextualiza o assunto, falando diretamente ao espectador, como em Supermercado, exibido em 20 de outubro de 2006, no qual a primeira fala de Bruno era: “Poluição sonora, poluição visual, filas enormes, tempo e dinheiro gastos três vezes mais que o esperado… Se você ainda não percebeu, isso aqui é uma lista de supermercado. Essa lista tem todos os ingredientes de uma receita perfeita de cilada. Quer dizer, todos não, né, porque em lista de supermercado a gente sempre esquece alguma coisa”.

A partir da sexta temporada, algumas mudanças ocorrem no programa, como a retirada da “Análise Cilada” e da introdução. No entanto, acrescenta-se a apresentação do episódio como “Cilada de hoje” e o respectivo nome da emissão, e a alusão de passagem do tempo com uma ilustração de dia e noite em time lapse.

A vinheta de abertura consegue caracterizar bem a proposta do programa: quando no Fantástico, a abertura exibia o próprio Bruno em “situações-cilada”, como ficar sem água durante o banho ou ser empurrado pela multidão para dentro do metrô quando se está tentando sair. Já no canal Multishow, a vinheta passa a ilustrar uma situação comum (pessoas andando pela rua), mas logo há mudança no clima (alusão de um céu claro se transformando em tempestade), confusão no trânsito, o som estridente de sirenes ao fundo e os pedestres correndo e se esbarrando, passando da calmaria e da mesmice para o caos. A música-tema, no entanto, interpretada por Gabriel, o Pensador, permanece a mesma em todas as temporadas e complementa a sugestão do que será exibido: “Parece que ‘tá’ tudo no esquema, mas ‘tô’ sentindo cheiro de problema/ Sempre tem alguma coisa errada/ Eu falei ‘pra’ você, só pode ser cilada/ Falei ‘pra’ você, mais uma vez, cilada”.

A caracterização dos cenários de cada episódio também marca o programa, como no episódio Supermercado, o qual é bastante fiel a um supermercado real, com corredores, caixas, produtos e outros elementos característicos de tal espaço.

No Plano do Conteúdo, o indicador que mais se destacou foi o de desconstrução de estereótipos, com nota mínima em todas as emissões, pois o programa utiliza exatamente os clichês da vida comum para causar o riso no telespectador. No episódio Nova Chefe, exibido em 17 de outubro de 2009, por exemplo, fica bem claro como vários chavões machistas são empregados nos trocadilhos e piadas de duplo sentido a respeito da nova chefe, e outros lugares-comuns como a “mulher mal comida”, como é dito por outro personagem, e o sentimento de inveja entre mulheres, exemplificado quando Soraya conta a Bruno sobre a nova chefe e logo a chama de “ridícula”, sem nenhum motivo aparente:

BRUNO: “É? Por que?”

SORAYA: “Ah, sem noção, sem critério, totalmente equivocada, Bruno.

BRUNO: “Que foi? Já chegou demitindo?”

SORAYA: “Não! Sombra, perfume, a essa hora da manhã, você acredita?!”

BRUNO: “Ué, mas tem problema isso?”

SORAYA: “Só porque é chefona, só porque é poderosa, se acha. Sem falar que é ‘uó’! Não é, Gerson?”

(Cilada – episódio Nova Chefe 17/10/2009)

Em outros episódios também são colocados em cena vários outros estereótipos, como a “mulher chiclete”, a “mulher feia” que é aquela que os homens só saem quando estão bêbados, e a “faladeira”. No episódio Mulher Chiclete, exibido em 10 de outubro de 2009, é possível perceber algumas tentativas de desconstrução (na primeira afirmação da frase), mas logo na mesma fala, outros clichês são reafirmados:

BRUNO: “Engraçado, muitas mulheres acham que têm que dar uma desculpa por terem transado na primeira noite, como se fosse um crime. Agora, ‘pra’ dizer que vão dormir na sua casa, não precisam de desculpa nenhuma, né! Aí é a coisa mais natural do mundo!”.

Mas em outro momento do episódio, quando Roberta (Juliana Baroni), a namorada, pergunta sobre impedimento no jogo de futebol, Bruno afirma: “Tem gente que acha que esse papo de mulher não entender muito de futebol é folclore. Mas quem acha isso não deve entender muito de mulher”.

No indicador oportunidade, as emissões também não tiveram boa nota, sendo avaliadas como fracas, porque tratam de temas comuns, sem uma abordagem diferenciada ou até mesmo ousada. Apesar de essa ser a proposta do programa, tais temas não despertam outro tipo de reflexão no público senão a que já é arraigada a respeito dos assuntos, o que interfere diretamente no indicador de ampliação do horizonte do público. Nesse aspecto Cilada deixa a desejar quando não aproveita os assuntos que provocam identificação no espectador, para trata-lo de forma diferenciada e agregar novos valores a respeito deles. Desse modo, os episódios também foram considerados fracos nesse quesito.

Sobre a diversidade de sujeitos representados, o programa foi avaliado como razoável, por representar pessoas de diferentes classes econômicas, tanto nos personagens principais, quanto nos secundários. Mas não há representatividade, por exemplo, da diversidade de gênero ou de raça, visto que todos os personagens nos episódios analisados são heterossexuais e brancos. Também não existe diversidade no ponto de vista, pois a maior parte da série é narrada pelo protagonista.

Abaixo é possível conferir o gráfico com as avaliações de qualidade do plano de conteúdo:

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De acordo com os critérios de análise da mensagem audiovisual, o primeiro indicador avaliado, clareza da proposta, recebeu muito boa, nas cinco emissões analisadas. Isso se deve ao formato facilmente repetível do programa, com elementos e personagens que são reconhecíveis ao longo das temporadas e que se adaptam a todos os episódios, independentemente do tema deste.

Já no solicitação da participação ativa do público, três episódios receberam nota boa devido à linguagem adotada pelo programa, de acordo com o público-alvo (jovens e adultos, entre 15 e 30 anos, das classes A, B e C) e pelo uso de expressões e gírias como “pô”, “cara”, “que saco!”, “seu”, em vez de “senhor”, e inclusive alguns palavrões. Também há comunicação direta com o espectador, principalmente por parte do protagonista, através das câmeras.

Alguns elementos gráficos como o “Comentário Cilada” – quando é introduzida uma explicação, ou mesmo um pensamento não dito de Bruno em um plano a parte, uma pequena televisão no canto inferior da tela – e a “Análise Cilada”, que interrompe a cena e insere um breve contexto histórico ou ponderações sobre o tema tratado no episódio, também ajudam nesse indicador por ter a intenção de clarificar o entendimento do leitor sobre a cilada daquele episódio. Os dois episódios que receberam nota 2 não utilizam mais esses elementos, fato que diminui a interação direta com o público.

No indicador originalidade e criatividade, todas as emissões receberam nota razoável, pois é possível perceber um formato diferenciado na sitcom, que opta, por exemplo, pela participação de personagens fora da cena principal, interpretados pelo mesmo ator, um complemento incomum nas séries nacionais. Além disso, o “Comentário Cilada” e o “Análise Cilada”, complementam a linguagem diferenciada característica do programa.

Sobre o diálogo com/entre plataformas, as emissões também foram consideradas razoáveis, pois percebe-se, por exemplo, a paródia e referência ao ator Alexandre Frota, no personagem Alexandre Focker, presente em todas as emissões avaliadas. Além disso, a história foi adaptada para os cinemas, no filme “Cilada.com”, em 2011, mantendo a maior parte do elenco, roteiristas e enredo, no entanto, vários personagens que existiam na série não fizeram parte do longa-metragem. O programa também cita lugares reais do Rio de Janeiro, como bairros e estabelecimentos.

A seguir, podemos observar a nota de cada episódio analisado de acordo com os critérios de qualidade da mensagem audiovisual:

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Considerando as avaliações, o programa Cilada está inserido no gênero comédia, mesmo possuindo algumas características satisfatórias do humor de qualidade, como originalidade/criatividade e solicitação de participação ativa do público.

A sitcom é assim considerada por ainda fazer uso, por exemplo, de vários clichês sociais, muitas vezes com cunho machista ou homofóbico, e por ainda construir personagens grotescos baseados em tais estereótipos, como no caso de Alexandre Focker.

No quesito experimentação visual, Cilada utiliza bem diversos recursos adicionais à cena normal, como “Análise   Cilada”, com animações gráficas que aumentam a interação direta com o público e demonstram preocupação em fazer o espectador entender, de fato, a narrativa do programa. No entanto, o fato de não explorar temas da agenda midiática (oportunidade) ou que estimulem uma discussão, levando a outros pontos de vista (ampliação do horizonte do público), faz com que a sitcom volte ao lugar-comum, sem trazer nenhum diferencial para o âmbito do audiovisual brasileiro.

Por Lilian Delfino

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