Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor

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  • Autoria: Maria Adelaide Amaral
  • Escrita por: Maria Adelaide Amaral, Geraldo Carneiro e Leticia Mey
  • Direção: Dennis Carvalho e Cristiano Marques
  • Direção-geral e de núcleo: Dennis Carvalho
  • Número de capítulos: 5
  • Período de exibição: 04/01/2010 – 08/01/2010
  • Horário: 22h

Baseada em uma minuciosa pesquisa bibliográfica e em arquivos históricos a minissérie Dalva e Herivelto: uma canção de amor, exibida pela Rede Globo entre os dias 4 e 8 de janeiro de 2010, conta a trajetória do casal de cantores Dalva de Oliveira e Herivelto Martins e sua ascensão junto ao “Trio de Ouro” ao sucesso na era do Rádio no Brasil. Paralelamente, a trama aborda a conturbada relação amorosa dos artistas e a sua repercussão na época, interferindo diretamente no destino dos protagonistas. A minissérie tem como pano de fundo o cenário do país e do mundo entre as décadas de 1930 e 1970, especialmente da era do rádio no Brasil que, entre 1930 e 1950, mobilizou multidões.

Além de abordar por temas como, por exemplo, paixão, traição, ciúmes e música, Dalva e Herivelto: uma canção de amor retrata a importância do rádio para a época, o veículo era principal o veículo de entretenimento. Através de cenas que mostravam a fama dos artistas e as multidões presentes nas gravações, o telespectador tinha a dimensão do fenômeno cultural que a minissérie retratava.

Outro aspecto importante retratado na trama é o modo como sociedade da época tratava os relacionamentos, nesse sentido questões como o machismo, o sexismo e o patriarquismo estão presentes tanto nas microestruturas (cenas e capítulos) quanto nas macroestruturas (arcos e temporada). Nesse contexto, as temáticas foram fundamentais desencadear os conflitos narrativos e, consequentemente o desenvolvimento da minissérie como, por exemplo, o sofrimento de Dalva de Oliveira ao longo dos capítulos, visto que ela era uma mulher que se mostrava a frente dos padrões impostos na época.

A presença de personagens como Emilinha Borba (Soraya Ravenle), Grande Otelo (Nando Cunha), Dercy Gonçalves (Fafy Siqueira), entre outros, foi importante para trazer uma verossimilhança para a narrativa, assim como uma maior veracidade situando o espectador na época em que se passava a minissérie.

Criada por Maria Adelaide Amaral, a minissérie Dalva e Herivelto: uma canção de amor foi protagonizada por Adriana Esteves (Dalva de Oliveira), Fábio Assunção (Herivelto Martins). O elenco também é formado por Maria Fernanda Cândido (Lurdes Torelly), Thiago Fragoso (Pery), Thiago Mendonça (Bily), Leona Cavalli (Margot), Pablo Belini (Rick Valdez), Leonardo Carvalho (Dorival), Fafy Siqueira (Dercy Gonçalves), Nando Cunha (Grande Otelo), Maurício Xavier (Nilo Chagas), entre outros.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Para as gravações de Dalva e Herivelto: uma canção de amor a Rede Globo reconstituiu em seu centro de produção (Projac) o auditório da Rádio Nacional. O espaço tinha as dimensões originais da época e réplicas de objetos como, por exemplo, microfones, exemplares de jornais, entre outros. A minissérie também foi gravada em locações na cidade do Rio de Janeiro e em Niterói, já os shows foram gravados no Palácio Quitandinha, em Petrópolis. Além dessas locações, foram utilizados para a ambientação da minissérie os teatros Carlos Gomes e João Caetano e o auditório da Rádio Mayrink Veiga.

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Nesse sentido, ambientação da minissérie contribuía para a verossimilhança e para a imersão dos telespectadores com o universo ficcional. Os teatros e auditórios cheios de pessoas (figurantes) também ajudavam a dar a dimensão do sucesso que os cantores de Rádio tinham na época. Já os outros cenários como, por exemplo, a casa de Dalva (Adriana Esteves) e Herivelto (Fábio Assunção), o bar, foram importantes para caracterizar o período histórico em que a minissérie se passava.

No indicador caracterização dos personagens é importante observar que o figurino dos personagens é baseado na estética das roupas das décadas de 1930 a 1970. A caracterização de Dalva (Adriana Esteves) se modifica de acordo com o seu momento da carreira. Isto é, na sua fase jovem e pobre, sua pele era mais morena, seus cabelos eram longos e suas roupas eram compostas por peças como, por exemplo, vestidos de tecidos. Já no seu auge como cantora, a personagem utilizava vestidos mais luxuosos, cabelo curto e maquiagem mais elaborada. Em contrapartida, no período que retrata a sua decadência o cabelo de Dalva (Adriana Esteves) era de coloração opaca, assim como sua pele e seu figurino era composto por peças pouco sofisticadas como, por exemplo, um roupão de banho, reafirmando seu declínio na carreira e seu estado abatido por conta de problemas na vida pessoal. Já o figurino de Herivelto (Fábio Assunção) não sofreu grandes alterações ao longo da minissérie. As peças eram compostas por roupas de linho, um tecido considerado informal, com a intenção de representar um homem que gostava dos encontros em bares e de compor com os amigos.

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A trilha sonora de Dalva e Herivelto: uma canção de amor foi de fundamental, em vários aspectos, para o desenvolvimento da trama. Constituída, em sua maioria, de músicas populares na era do Rádio tais como A vitória é nossa. As músicas também foram responsáveis por momentos importantes da narrativa como, por exemplo, quando Herivelto (Fábio Assunção) compõe a canção Praça Onze que veio a se tornar um grande sucesso na época e hoje é um clássico quando se pensa na Era do Rádio. Outro momento muito significativo foi quando o casal está em fase de separação e as músicas, tanto as que Herivelto (Fábio Assunção) compõe quanto as que Dalva (Adriana Esteves) interpreta, refletem os sentimentos de ambos em relação a este momento e acabam se tornando uma forma de ataque entre eles. As músicas ofensivas e as notícias nos jornais fizeram com que o público acabasse por escolher um lado nessa briga, o que fez com que Dalva (Adriana Esteves) fosse aclamada, uma vez que as pessoas optaram por ficar do seu lado e contra Herivelto (Fábio Assunção). E, por último, quando Dalva (Adriana Esteves) está com sua carreira em crise, por conta do declínio do Rádio e seu vício em álcool, recebe a proposta de interpretar a música Bandeira Branca que faz com que ela volte ao sucesso.

A minissérie possui a fotografia bem marcada durante toda a narrativa. Quando está sendo contada a história do casal, a carreira e o auge do sucesso na música como intérpretes, a fotografia é composta de cores quentes, tons vivos com enquadramentos em planos abertos. Já no momento em que retorna para o presente e mostra Dalva (Adriana Esteves) no hospital, é usado tons frios e enquadramentos em close, ou plano médio. Os recursos demonstram o abatimento e tristeza da personagem por conta de sua doença e sua decepção com Herivelto (Fábio Assunção).

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A edição foi fundamental para o desenrolar dos arcos narrativos minissérie. Partindo de uma edição não- linear, Dalva e Herivelto: uma canção de amor possui duas temporalidades que pretendem contar a trajetória do casal. Uma é a do presente, em que Dalva se encontra doente em um leito de hospital rodeada por seus filhos Bily (Thiago Mendonça) e Pery (Thiago Fragoso). A outra é a do passado, na qual conta a história de amor dos cantores, o sucesso nos palcos em retrospectiva a situação do presente. Nas transições entre as temporalidades existem indicativos claros de que esta irá mudar, há indícios principalmente na fotografia que no presente da trama é composta de tons azulados e frios e quando muda para o passado se torna de tons quentes e cores como o laranja e amarelo.

No Plano de Conteúdo iremos destacar os indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. A minissérie Dalva e Herivelto: uma canção de amor não apresenta elementos intertextuais. Isto é, ao longo da trama não foram identificados referências externas ao universo ficcional criado por Maria Adelaide Amaral. No indicador setas chamativas, podemos perceber que há uma constante utilização desse recurso em certos pontos da trama. Como, por exemplo, mas cenas do presente, em Dalva está no hospital, e há a necessidade de fazer a transição para as cenas do passado. Nesse sentido são usados cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Esse recurso pode ser observado no tempo verbal usado nos diálogos dos personagens, que faz referência ao passado.

Podemos perceber a presença de efeitos especiais narrativos em Dalva e Herivelto: uma canção de amor. Uma reviravolta significativa na trama acontece quando Herivelto (Fábio Assunção) se envolve seriamente com Lurdes (Maria Fernanda Cândido), diferente das outras mulheres com as quais teve um caso extraconjugal de forma superficial. Este fato culmina no clímax da narrativa que é a separação do casal de cantores, já que Herivelto (Fábio Assunção) decide se separar definitivamente de Dalva (Adriana Esteves) para viver com Lurdes (Maria Fernanda Cândido). Esta reviravolta é muito importante para o desenvolvimento da narrativa, porém não de forma que faça o espectador reconsiderar toda a trama até então.

Não há sequência fantasiosa na minissérie, porém existe uma cena em que Dalva (Adriana Esteves) se encontra no leito de hospital e tem um devaneio, de que Herivelto (Fábio Assunção) a visita e se declara, dizendo que sempre a amou. Inicialmente, para o telespectador não fica claro se foi um sonho ou um delírio da personagem. Mas, logo na sequência, a personagem abre os olhos indicando que se trata de um devaneio.  A cena não se caracteriza como fantasiosa pois logo depois há a presença de uma seta chamativa, representada pelo abrir dos olhos de Dalva, indicando ao espectador que se tratava de um acontecimento fora da realidade.

Por fim, no indicador recursos de storytelling temos como principal exemplo as analepses, que é adotada em toda a narrativa para contar a história do casal de intérpretes em retrospectiva. Nesse contexto, o flashback tem a função narrativa de traçar um retrospecto da vida dos protagonistas, mostrando como eles chegaram à situação atual.

Por Mariana Meyer

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

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