Dercy de verdade

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  • Autoria: Maria Adelaide Amaral, baseada no livro Dercy de cabo a rabo, da mesma autora
  • Colaboração: Leticia Mey
  • Direção-geral: Jorge Fernando
  • Direção de Núcleo: Jorge Fernando
  • N° de capítulos: 4
  • Período de exibição: 10/01/2012 – 13/01/2012
  • Horário: 23h

Dercy de verdade é uma minissérie brasileira de quatro capítulos exibida, entre 10 e 13 de janeiro de 2012, pela Rede Globo. Escrita por Maria Adelaide Amaral, a trama é baseada na biografia Dercy de cabo a rabo, também de sua autoria, inspirada na vida atriz e comediante Dercy Gonçalves.

Reconhecida pelo Guinness World Record® como atriz com carreira mais longa no mundo, a história de Dercy de verdade conta a trajetória dos 101 anos de vida pessoal e 86 de profissão de Dolores Gonçalves Costa. A protagonista foi interpretada por Luiza Périssé, Heloísa Périssé e Fafy Siqueira, indo da infância até a velhice. O abandono pela mãe, a relação difícil com o pai (Walter Breda), a expulsão da Igreja e sua fuga da cidade de Santa Maria Madalena com a Companhia de Teatro Maria Castro ilustram a juventude de Dolores na primeira fase da minissérie. Após, o casamento com Pascoal (Fernando Eiras), os primeiros trabalhos, a mudança de nome de Dolores para Dercy, a ida para São Paulo, a ajuda de Valdemar (Cássio Gabus Mendes), o nascimento de Decimar (Bruna Botelho/Samara Felippo), o trabalho com Walter Pinto (Eduardo Galvão), a parceria com Augusto (Tuca Andrada) e a popularização do nome Dercy Gonçalves e negócios são os fatos marcantes no amadurecimento da atriz. Ao se alçar como estrela do teatro de revista e comédias, Dercy trabalha com nomes importantes à época como Chico Anísio (Nizo Neto), Oscarito (Carlos Loffler), assim como Carlos Manga (Danton Mello), diretor da TV Excelsior, e Boni (Bruno Boni), diretor da TV Rio e posteriormente da TV Globo. A protagonista, então, ultrapassa os palcos e marca presença no cinema e na televisão, espaços onde ocupou até o fim de seus dias.

A produção de Dercy de verdade convidou filhos, netos e bisnetos para interpretarem seus pais e avós como Nizo Neto que interpreta o pai Chico Anísio, Bruno Boni como o pai Boni, Carlos Loffler como avô Oscarito e Vanessa Goulart como a bisavó Eleonor Bruno. A trama ainda conta em seu elenco com Rosi Campos (Bita), Armando Babaioff (Homero), Drica Moraes (Clô Prado), Ricardo Tozzi (Vito), Paula Burlamaqui (Isabel), Daniel Boaventura (Simão) e Bruna Spínola (Ana Luiza).

Dercy de verdade foi transformada em formato de telefilme em 2015 para o festival Luz, câmera, 50 anos e para a plataforma sob demanda GloboPlay.

No Plano da Expressão, analisamos os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Dercy de verdade teve grande parte de suas cenas gravadas em externas. As locações abrangeram o município de Santa Maria Madalena, a casa onde a atriz nasceu e viveu sua infância, a cidade de Tiradentes (para filmagem das cenas em locomotiva) e o Rio de Janeiro (para recriação dos teatros da época). Os cenários utilizados buscaram ser fiéis tanto ao início como ao final do século XX além de acompanhar a ascensão da comediante. Nesse sentido, a ambientação tem a função de retratar um período histórico trazendo verossimilhança a minissérie.

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Quanto à caracterização dos personagens, destacamos que a própria Dercy participa da minissérie em fotos e vídeos de arquivo, a imagem dela também é incluída na abertura. Luiza Périssé, filha de Heloísa Périssé, interpreta Dolores adolescente insubmissa que se maquia escondida do pai. Como não havia registros, o figurino deste período foi pensado pela equipe a partir do imaginário da época. Heloísa Périssé, por sua vez, interpreta a personagem em sua juventude, onde os figurinos utilizados expressam sua rebeldia em tons ocre, terra, café com leite e laranja. Ainda com representação de Heloísa, os figurinos de palco e o estilo dos anos 30 dialogam com a maturidade e a urbanidade advinda da ida de Dercy para os grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Com a fama, a atriz passa a usar joias, casacos coloridos e perucas incomuns. Fafy Siqueira, que já havia vivido o mesmo papel na minissérie Dalva e Herivelto, assume esta etapa e revive os últimos anos da atriz. Das roupas simples, cabelo eriçado na juventude às joias e perucas da fase adulta, os figurinos e maquiagens buscam além de representar a ascensão pessoal e financeira da personagem, reforçar seu caráter cômico e extravagante.

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A trilha sonora, assinada por Mariozinho Rocha, é, basicamente, composta por instrumentais dos gêneros polca e foxtrote, referenciando a época dos anos 20 e 30. Na abertura,a escolha de “A perereca da vizinha” (Dercy Gonçalves) em arranjo instrumental reafirma este como principal sucesso de Dercy. O instrumental “Chocolate com pimenta” (Mu Carvalho/Aldir Blanc), também tema da telenovela homônima de Walcyr Carrasco, é usado em diversos momentos cômicos ao longo da narrativa. O próprio elenco também interpreta canções e paródias durante os espetáculos representados como “O que é que a baiana tem?” (Dorival Caymmi) e “Pelo telefone” (Donga/Mauro de Almeida), sendo essas apresentações partes importantes na identificação da versatilidade da atriz.

Gravada em alta definição, a minissérie tem a fotografia dirigida por Paulo Brakars. Por ser um relato biográfico, Brakars optou por uma estética natural, propiciando a sensação de conformidade à realidade. Entretanto a trama apresenta um contraste visual entre as fases da vida de Dercy. Trazendo um stand-up de sua vida, o colorido, as luzes e o brilho da apresentação em um teatro de Dercy, já idosa, contrastam com os tons brancos e pastéis da infância e juventude rememoradas e apresentadas em retrospectiva. Os tons escolhidos na fotografia também evidenciam a falta ou a presença de luz elétrica nos lugares por onde a personagem passou. Para demarcar a época da brilhantina, na última fase, as cenas são compostas por bastante brilho. Tais diferenças de fotografia buscam situar simbolicamente a temporalidade da narrativa e as condições de vida da protagonista e sua família ao longo do tempo.

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A edição de Dercy de verdade é feita de forma não-linear, transcorrendo em duas temporalidades: a apresentação de Dercy (Fafy Siqueira) no teatro e as analepses de sua vida. A apresentação serve como pano de fundo para a protagonista rememorar os acontecimentos e fornecer suas impressões sobre os mesmos. Nesse âmbito, os tons de cores da fotografia adotada deixam claro esse contraste entre presente e passado. Além das sequências captadas em alta definição, encontramos, durante as passagens de tempo,cenas mudas e em preto-e-branco gravadas em Super8 como nos filmes de Chaplin. Há também a inserção de imagens de arquivo da própria Dercy contribuindo para a verossimilhança da trama.

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No Plano do Conteúdo, destacamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. A minissérie, por se tratar de uma biografia é permeada por intertextualidades. O indicador pode ser observador desde o título Dercy de verdade que foi nome de um programa de variedades, apresentado pela própria Dercy, na TV Globo entre 1967 e 1970. Além disto, encontramos citações apresentações inspiradas em Carmen Miranda e representações de peças como “A dama das camélias” de Alexandre Dumas. A metalinguagem também está presente, como, por exemplo, na primeira cena onde mostram os bastidores da própria minissérie e na representação da produção de espetáculos e programas representados por Dercy.

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O indicador escassez de setas chamativas não foi contemplado pela narrativa. Por buscar resumir a vida da comediante em quatro capítulos, Maria Adelaide Amaral opta pela narração compartilhada por Fafy Siqueira e a própria Dercy. O recurso situa, explica e ressalta as impressões sobre a trajetória de Dercy de forma didática e objetiva.

Também pelo caráter biográfico da produção, o indicador efeitos especiais narrativos não esteve presente. A minissérie é coerente a proposta e apresenta a cronologia da vida de Dercy, de forma que o desenvolvimento da narrativa é o esperado. Os momentos finais simbolizam a morte com a ida da atriz para a luz envolta de um vórtice de lembranças e o “fim” da história com a palavra exibida num filme antigo.

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Por último, os recursos de storytelling também não são explorados na trama. Apesar de se passar em duas temporalidades a narrativa não é complexa. Os contrastes de fotografia e caracterização demarcam de forma clara as mudanças entre as fases da vida da atriz e os avanços na linha do tempo, facilitando assim o entendimento do telespectador.

Por Léo Lima

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

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