Dupla Identidade

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  • Roteiro: Gloria Perez
  • Direção: Mauro Mendonça Filho e René Sampaio
  • Direção de núcleo: Mauro Mendonça Filho
  • Período de exibição: 19/09/2014 – 19/12/2014
  • Horário: 23h30
  • Número de episódios: 13

Dupla Identidade é uma série policial escrita por Glória Perez com direção de Mauro Mendonça Filho para o horário das 23h30 da Rede Globo. Exibida pelo canal aberto entre 19 de setembro e 19 de dezembro de 2014, a trama busca abordar o universo dos serial killer (assassino em série, em português). Este tipo de criminoso comete crimes com certa frequência e segue um modus operandi, muitas vezes deixando sua assinatura.

No caso de Dupla Identidade, acompanhamos Edu (Bruno Gagliasso), que é, aparentemente, um bom rapaz. Formado advogado, estudante de psicologia, voluntário em um grupo de atenção à vida e funcionário do senador Oto (Aderbal Freire-Filho), porém, sua face oculta é um assassino em série de mulheres. A onda de morte de mulheres assombra a cidade e uma equipe de força-tarefa é designada para trabalhar com o delegado Dias (Marcello Novaes) na resolução do caso que, pelas características, cogitam ser um assassino em série. A psicóloga forense Vera (Luana Piovani) então é convocada por conta de sua experiência no FBI e vasta literatura publicada sobre o tema. Enquanto desenrola-se a investigação, Ray (Débora Falabella), uma produtora de moda com transtorno de bordeline se apaixona pelo criminoso trazendo riscos para si e sua filha, ainda pequena.

O elenco da produção conta ainda com Marisa Orth, Bernardo Mendes, Mariana Nunes, Bárbara Paz, Luana Tanaka, Maria Eduarda Militante, Paulo Tiefenthaler, Felipe Hintze e Thiare Maia. Em 2017, os episódios da série foram condensados em formato de telefilme para a plataforma de vídeos sob demanda GloboPlay, do Grupo Globo.

Para a análise do Plano da Expressão, observamos os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Dupla Identidade é ambientada no Rio de Janeiro e isto fica claro desde o sotaque carregado dos personagens ao grande número de sequências externas da série gravadas em bairros conhecidos da cidade como Copacabana, Santa Teresa, Barra da Tijuca, Centro e Grajaú. Segundo o site Memória Globo, o cenário da Superintendência de Polícia foi construído em um prédio da Barra da Tijuca em três andares que comportaram sala de inteligência, salas com equipamentos técnicos de pesquisa e segurança, sala de interrogatório, laboratório de perícia, stand de tiros, sala do delegado e uma copa para café dos policiais. A escolha de filmagem de boa parte da série em externas noturnas e a construção de cenários que reproduzem fielmente um centro de investigações imprimem verossimilhança à narrativa e a composição do clima de mistério exigido pelo gênero.

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A caracterização dos personagens busca exacerbar aspectos emocionais dos personagens, como o vilão-protagonista, Edu. Narcisista e vaidoso, o personagem está sempre bem-vestido com roupas de grife, chiques e alinhadas. Também percebemos que o seu figurino se adapta conforme sua necessidade de conseguir algo, característica da psicopatia: uma das vítimas é abordada por ele trajando camiseta florida e boné.

dp3Ray, sua namorada, apesar de trabalhar com moda não se apresenta como uma fashionista. Suas roupas simples e em tons pastéis demonstram sua fragilidade emocional. Ao contrário da firmeza e sobriedade que Vera, a psicóloga forense, traduz com suas camisas de seda, blazers e calças. Por fim, os personagens do núcleo político, Oto e Sílvia, estão sempre alinhados com ternos e roupas sofisticadas, prontos para qualquer ocasião.

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A trilha sonora da série é composta por músicas instrumentais e heavy metal compostas por Iuri Cunha e Andreas Kisser. Todas tocadas pela banda Sepultura. Tais canções são reproduzidas em momentos específicos da série colaborando com a criação do clima macabro e de loucura que o criminoso Edu sente em suas ações que culminam na morte obtusa das vítimas.

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A atmosfera de tensão e mistério permeia todas as cenas de Dupla Identidade. Numa fotografia descolorida, soturna, percebemos uma luz escura que esconde o rosto das personagens. As nuances e a frieza com que são cometidos os crimes ficam aparentes assim como a melancolia de Ray e a imersão da Superintendência da Polícia no caso. Neste caso, a escolha da fotografia reforça o universo narrativo proposto pela série. Foi também a primeira produção seriada da Rede Globo a ser captada com tecnologia 4K.

A edição da série seguia apenas uma linearidade e buscava mostrar a vida de Edu e os avanços da investigação dos crimes de forma paralela. Foram usados também recursos visuais como legendas para diálogos em outras línguas e a inserção, entre a recapitulação da história e o início do episódio inédito, uma citação de algum serial killer. Por exemplo, no primeiro episódio temos a frase “Nós serial killers, somos seus filhos, nós somos seus maridos, nós estamos em toda a parte” de Ted Bundy, famoso assassino dos Estados Unidos que cometeu seus crimes entre os anos 60 e 70. Tal recurso serve para contextualizar a temática e instigar seus telespectadores a se aprofundarem conhecendo casos reais.

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No Plano do Conteúdo, destacamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

O primeiro indicador, a intertextualidade, está presente no uso de citações de serial killers famosos em no início de cada episódio inédito, como citado anteriormente, fazendo uma ligação entre o universo da série e casos reais. Também podemos perceber este indicador quanto ao comportamento de Edu ao posicionar suas vítimas em posições similares a quadros impressionistas.

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Tratando de um gênero ainda pouco explorado no Brasil, a série é carregada de setas chamativas tanto nas falas da psicóloga forense Vera quanto nos flashbacks transmitidos ao longo da atração, conforme podemos conferir na crítica de Fernando Oliveira do portal R7, não satisfazendo assim o indicador de escassez.

“[...] A julgar pelo primeiro episódio, “Dupla Identidade” peca por certo didatismo nos diálogos. Tudo é explicadinho, racionalizado, para não sobrar dúvidas no espectador. Talvez seja costume vindo das muitas novelas que a autora escreveu, mas num gênero como seriado, a pressuposição às vezes funciona melhor.” (OLIVEIRA, 2014, Online)

Também não explorado pela trama são os efeitos especiais narrativos. A história transcorre em uma linearidade de acontecimentos e em nenhum momento o telespectador é obrigado a reconsiderar o que já lhe foi transmitido.

Os recursos de storytelling não são contemplados. Existem sequências fantasiosas onde Edu demonstra seu desejo de matar, vislumbrando a vítima amordaçada e presa em cima de uma banheira onde o mesmo se banha de forma calma contudo existem setas chamativas, como efeitos visuais de transição que demarcam claramente a fantasia do personagem. Os flashbacks na trama que são usados para relembrar os crimes e o andamento da investigação até o momento, de forma didática a minimizar o esforço analítico do telespectador em compreender a razão das atitudes policiais.

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Por fim, Dupla Identidade foi consta por várias estratégias transmídia. Por parte da emissora, encontramos no site oficial da atração no Gshow, portal de entretenimento do Grupo Globo, a seção “Extras” que concentraram as ações da que expandem e aprofunda no universo ficcional.

Na área de Extras, antes da estreia da série na TV, foi possível acessar um infográfico com os perfis dos personagens. O recurso ajudava o público a se familiarizar com a narrativa. Ao longo da exibição, também foram liberadas entrevistas com o criador da abertura, detalhando o processo de criação e finalização da vinheta. Outro conteúdo presente nesta seção são Fotos de Bastidores como, por exemplo, a da cena final onde Edu é executado. Incitando a participação do telespectador interagente, três enquetes foram realizadas pedindo a opinião do público sobre o primeiro episódio, quais comportamentos de um serial killer lhe pareciam mais perturbador e se um serial killer seria capaz de amar.

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Contudo, destacamos como principal estratégia da emissora a criação do webdocumentário Dupla.Identidade.DOC. Em sete episódios de, em média, cinco minutos foram apresentadas entrevistas com a autora Gloria Perez, o diretor Mauro Mendonça, o ator Bruno Gagliasso e também a criminóloga e escritora Ilana Casoy, a psiquiatra Dra. Ana Beatriz Barbosa, o pesquisador de neurociência do IDOR  Dr. Ricardo de Oliveira, e a perita do Instituto de Criminalística Rosângela Monteiro.

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A construção do webdocumentário buscava traçar um perfil de assassinos em série, relacionando as falas dos entrevistados a casos famosos e a cenas da própria série. Nesse âmbito, podemos identificar, diferente das outras ações realizadas pela emissora, o indicador transmidia literacy, já que o telespectador ao consumir esse conteúdo em outra plataforma expande sua compreensão sobre as temáticas abordadas na série realizando correlações entre o perfil do protagonista Edu com as características citadas pelos entrevistados na atração.

Uma ação transmídia não-oficial, porém relacionada ao cânone foi realizada pela autora Glória Perez em seu site De tudo um pouco. A autora criou a seção Dupla Identidade no mesmo e passou a disponibilizar sua pesquisa para construção da série, postando os casos em que se inspirou na criação dos personagens e conflitos além de informações sobre o transtorno de bordeline vivido pela personagem Ray.

sqlNeste sentido, as ações transmídia de Dupla Identidade propiciam uma visão ampliada e crítica do conceito de serial killer, das práticas de investigação e dos temas abordados pela série em geral e do processo criativo da autora. Concluímos assim que tanto o webdocumentário quanto o site mantido pela autora são exemplos de transmidia literacy porque proporcionam aos telespectador novas possibilidades interpretativas. Isto é, as ações estimulam o público a correlacionar as informações díspares com a série de TV.

Por Léo Lima

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