“E a sociedade, está fazendo o quê?”

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Com direção de Roberto T. Oliveira e João Waine, e realização do Instituto Ruhka e Sindicato Paralelo Filmes, o documentário “A Ponte” (2006) imprime no espectador a temática da desigualdade social através da história da fundação da “Casa do Zezinho”, entidade da Zona Sul de São Paulo dirigida pela educadora Dagmar Garroux, a Tia Dag, que trabalha desde 1994 para o desenvolvimento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Com participações do rapper Mano Brown, do escritor Ferréz, do secretário de desenvolvimento social Floriano Pesaro, do atleta e educador voluntário Fabio Gurgel e do empresário João Batista Cardoso, dentre outros, a narrativa do documentário é construída à luz das vivências de cada uma dessas vozes que falam, e assume uma posição contra hegemônica em relação às construções midiáticas tradicionais, isto é, adota discursos contrários aos dos grandes meios de comunicação.

A obra começa ilustrando o tema abordado (desigualdade social) e situando o espectador sobre o lugar de fala do filme (periferia de São Paulo). Já na explicação da simbologia da ponte do Rio Pinheiros, percebe-se a inserção de um mecanismo de incerteza, aquele mecanismo que suscita o ser político do espectador: “A ponte do Rio Pinheiros é o muro de Berlim”, afirma Tia Dag; “O Rio pinheiros divide o pobre dos ricos”, complementa Mano Brown, provocando o espectador a fazer comparações e a pensar sob novas perspectivas, diferentes daquelas apresentadas pela grande mídia.

Parte do problema

Aos nove minutos, uma sequência dinâmica de afirmações e perguntas, mostrada em voz off de forma alternada pelas pessoas que falam no documentário, instiga o espectador a responder aos questionamentos e, consequentemente, a refletir sobre a sociedade desigual em que vive. Os questionamentos trazem desconforto, e é nesse desconforto que está o objetivo do documentário.

Muito frequente na construção da narrativa, o recurso da voz off faz com que as imagens que acompanham as falas tenham um papel não só de ilustrar o que é dito, mas de sensibilizar o espectador, chamar a sua atenção e trazê-lo para dentro da narrativa. “A Ponte”, em especial, utiliza muito esse recurso através das imagens aéreas que mostram o contraste rico versus pobre das duas margens da ponte do Rio Pinheiros, remetendo ao macro, ao geral, ao todo responsável pelo problema.

“A solução principalmente tá quando as pessoas acharem que é um problema delas também, não é um problema só da favela, só da periferia. É um problema de todo mundo. Todo mundo tem que estar envolvido, porque todo mundo também sofre a consequência”. Dita pelo escritor Ferréz aos 24min35, essa frase é um exemplo de como se constrói a narrativa de “A Ponte”, que tenta, a todo o momento, conscientizar o espectador de que ele é a parte ativa do problema, e não a que espera parada a solução do mesmo.

Aos 28min51, a fala de Tia Dag serve para validar a tentativa de tornar o espectador parte do problema. E fazê-lo se sentir culpado é uma estratégia para isso: “A violência é sustentada por quem tem dinheiro [...]. ‘É só uma macoinha, e tal’. Só que a tua macoinha, meu, tem um peso. Até chegar na tua mão, já morreu muita criança, já morreu muita mãe, muito pai de família”, desabafa Dagmar.

Risco do real

Sobre o risco do real, de Comolli, os diretores de “A Ponte” abrem-se ao acaso para que a voz do documentário, no momento do “real”, traga ponderações relevantes sob a ótica mais dinâmica, sombria e perigosa das ruas, cenário da tão questionada desigualdade. Entretanto, mais do que “correr o risco”, o documentário se revela nada imprevisível quando percebemos o “real” que a montagem decidiu que valia a pena deixar.

Aos 29min16, por exemplo, valia a pena deixar a cena do motoboy que, no trânsito, pergunta a Mano Brown sobre o trabalho que o MV Bill fazia. Para reforçar a narrativa construída até o momento, valia a pena mostrar que “as pessoas estão ligadas”, como nas palavras de Mano Brown, referindo-se à politização dos jovens, à consciência da realidade que os jovens da periferia têm.

Ao final do documentário, histórias de Zezinhos que escaparam da estatística da periferia são apresentadas com o intuito também de sensibilizar o espectador, evidenciando a transformação que um acompanhamento social é capaz de provocar na vida de uma criança. Após sensibilizar o espectador, o documentário termina instigando-nos a fazer algo.

“Essa dívida que a Casa do Zezinho tem, por exemplo, hoje, financeira, não é minha não. Nem da Casa do Zezinho. É da sociedade inteira, é do mundo, é do Brasil! Porque estamos fazendo um trabalho aqui. E a sociedade, está fazendo o quê?”. Mais do que sobre desigualdade, “A Ponte” é um documentário sobre a violência social sofrida pelas pessoas da periferia e corroborada pelas pessoas que nada fazem para solucionar o problema.

Por Luma Perobeli

Assista ao documentário: https://vimeo.com/14814248

Referências:

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

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