É pó, é pedra, é o vício no meio do caminho

23660025_1957326210950208_1799782868_oEntre março e julho de 2010, sete meninos adolescentes participaram de uma oficina realizada no Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) de Goiânia, realizada pelo Movimento do Vídeo Popular. Com a intenção de fazer com que os jovens aprendessem técnicas audiovisuais, um dos resultados foi a produção do documentário É pó, é pedra, é o vício no meio do caminho, protagonizado, gravado, dirigido e montado pelos meninos (sob o acompanhamento da equipe que realizou a oficina), que imprimem no vídeo seu envolvimento com as drogas e o crime, no meio das suas diferentes trajetórias de vida.

- “Minha mãe mesmo, nunca morei com ela e nunca vou morar, porque ela não tem amor por mim. [...] O único amor que eu tinha era da minha avó, quando eu era menino”.

Com pouco mais de 15 minutos, o curta traz depoimentos dos internos, que são indagados por quem está atrás das câmeras. Só na metade do filme percebemos que o olhar de quem registra as imagens é o mesmo que o daquele que fala diante da câmera, e também é o mesmo que o de quem faz a montagem final: o olhar de jovens que se encontram numa mesma situação. Tal percepção se dá aos 8min e 23seg, quando o menino que fala aponta o dedo para a câmera e adverte o amigo que grava para que ele faça um depoimento, já que também “é um usuário de crack”.

As falas em off, que pouco aparecem no vídeo, são suficientes para que o espectador perceba a importância das intervenções e da montagem do filme para que a condução da narrativa seja a pretendida pelos idealizadores. No desenrolar do tempo, as perguntas e intervenções direcionam os internos para que eles falem o que os diretores (e também a equipe do Movimento do Vídeo Popular) querem ouvir, e o olhar dos montadores prevalece para fazer com que as imagens e depoimentos, após edição, se correlacionem e façam sentido.

- “Se eu roubar de uma pessoa, todo mundo vai ficar sabendo e eu vou ser chamado como ladrão na sociedade. Mas não é por mim, é pelo vício da droga que faz eu fazer isso”.

Pensar no julgamento feito pelas pessoas e na ociosidade que precede o início do uso das drogas é o que pretendem os sete jovens e os realizadores da oficina, que lapidaram o material bruto gravado e protagonizado pelos meninos. As primeiras falas já explicitam esses objetivos, como a proferida aos 29 segundos, que denuncia a discriminação social sofrida por eles: “Eu andava nas ruas, as pessoas já ficavam me olhando, fui desgostando. [...] Eu saía numa terça, ficava uma semana sem voltar em casa. Quando voltava os vizinhos estavam tudo com o olho desse tamanho me olhando”.

Sobre a ociosidade que permeia a vida desses adolescentes, resultado de uma estrutura familiar calcada na pouca atenção dos pais dedicada aos filhos devido às tensões familiares ou à necessidade de se trabalharem e não ter com quem deixá-los, um dos meninos é enfático: “Minha irmã é mais nova que eu. Minha mãe trabalha a maioria do tempo. Trabalha em três serviços. Passa a maioria do tempo fora de casa trabalhando, e eu fico sozinho a maioria do tempo”.

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Anunciada a linha narrativa do que vai se seguir, o curta imprime as histórias e os olhares dos internos, mas também o olhar dos idealizadores do projeto Movimento do Vídeo Popular, que ensinou, guiou e acompanhou os meninos em todos os processos de produção da obra, deixando refletir, portanto, também as suas concepções acerca do que seria interessante mostrar.

O curta não deixa claro até que ponto os jovens tiveram autonomia e/ou exclusividade para imprimirem as suas asserções de mundo, por isso, perceber que a abordagem selecionada é também fruto de um recorte feito por quem está fora dos muros do CASE, é imprescindível para que o espectador entenda que o vídeo não é a realidade, mas a representação de uma das inúmeras possíveis realidades que permeiam o assunto.

Como afirma Comolli (2008, p. 80), “longe de filmar a-realidade-tal-como-ela-se-dá, o cinema só pode apreendê-la como acumulação de relações” e, dessas relações, além do objetivo de ensinar técnicas audiovisuais para os jovens do CASE, trazer à tona as questões que cercam os jovens envolvidos com drogas, através de suas próprias falas, é também um meio de provocar neles a reflexão sobre o que fizeram.

Apesar das encenações inerentes a qualquer personagem que está sendo filmado, tais reflexões podem se mostrar, por vezes, confusas, porém, reais. Junto a esses pensamentos, os cortes se mostram poderosos quando a intenção é passar uma determinada ideia, dando pouca abertura para contestações.

Aos 7min e 44seg, por exemplo, um dos meninos manifesta sua vontade em parar de fumar crack e cometer crimes: “Sair dessa vida, que eu não dou conta mais não. Tô cansado de apanhar, cansado de ficar preso, enjaulado. Vou sair dessa vida”. Após, uma voz ao fundo se faz audível e diz “você acha que você vai…”. Um corte é feito e na sequência o garoto continua: “Sair pra estudar, né, porque eu não gosto de estudar não, falar pra você. Quando eu vejo um caderno, eu vou falar pra você, dá vontade de sumir”.

Enquanto na primeira fala o menino se mostra otimista quanto às mudanças, na fala imediatamente posterior ao corte o tom é pessimista e desanima o espectador, que talvez tenha dificuldades em depositar nele esperança com relação à sua melhora. Por mais que digam querer sair “dessa vida”, parece que eles mesmos não “botam fé” no que dizem (vide o fato de estarem em um centro socioeducativo, local para jovens reincidentes no crime).

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Esse mecanismo do corte seco no meio da fala, que imprime no espectador um tom pessimista para o futuro do adolescente, de certa forma reforça o estereótipo de que esses jovens “não têm mais jeito”, que estão “perdidos na vida”, e que “não têm mais volta”. Não explicitar até que ponto os jovens tiveram autonomia e/ou exclusividade na produção do filme é o que deixa margem para o espectador pensar que essas impressões talvez sejam fruto das intervenções de quem está fora dos muros do CASE, e não de quem está dentro.

O documentário, ao usar do dispositivo de ceder a câmera e a montagem aos meninos, consegue ser político não por quebrar estigmas e padrões, mas por abordar as duas temáticas centrais que, de certa forma, colocam o espectador num lugar de desconforto ao fazê-lo sentir-se culpado (ou, ao menos, sensível) diante da situação dos meninos, que pouco indica um futuro diferente. Dessa forma, uma brecha para a reflexão espectadora talvez seja, assim, possível e instigada.

E por mais que essas percepções infelizes sejam o estereótipo do que se esperar dos jovens que se envolvem com drogas, o fato desse estereótipo ser comum é o que nos faz refletir que a sociedade que julga e discrimina, é também a sociedade que condena; que segregar e não dar oportunidades só reproduz a lógica escravocrata que determina o lugar e o destino de cada um; que lutar para permanecer livre é a solução encontrada, e que subsistir na rua talvez seja o plano de fuga mais viável para essa condenação.

“A sociedade me influenciou por causa disso. Por causa da falta de oportunidade. Porque eles pensam que a gente faz os erros uma ou duas vezes, a gente não pode mudar de vida, que vai ser sempre aquilo”, disse um dos meninos aos 7min e 30seg. Pelas histórias, percebe-se que o tempo desses jovens não caminha com o relógio, mas com a vontade de viver intensamente o pouco tempo que ainda lhes restam, a pouca parte que lhes cabem desta sociedade que já os condenou.

Assista ao documentário: http://curtadoc.tv/curta/comportamento/e-po-e-pedra-e-o-vicio-no-meio-do-caminho/

Por Luma Perobeli

 

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