Em Nome da Razão: um filme sobre os porões da loucura

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(Foto: Divulgação)

Durante grande parte do século XX, Barbacena foi nomeada popularmente como o centro do “Holocausto Brasileiro”. O nome foi dado em detrimento do Hospital Colônia, entidade psiquiátrica onde cerca de 60 mil pacientes morreram durante seus anos de funcionamento. Em 1979, foi organizado o III Congresso Mineiro de Psiquiatria, que teve como convidado principal o psiquiatra italiano Franco Basaglia. Basaglia era conhecido por sua grande contribuição pela reforma no sistema psiquiátrico italiano. O psiquiatra visitou o Hospital Colônia e associou as cenas que havia visto aos campos de concentração nazista. Lá dentro, boa parte dos internos havia falecido por razões como a cólera, diarreia, desnutrição ou desidratação.

A associação do psiquiatra germinou em um nome para as posteriores denúncias sobre tais barbaridades. O Hospital Colônia, que já era marco em precariedade na década de 70, foi aberto à visitação para psiquiatras em Minas Gerais. Junto dessas visitas, Helvécio Ratton acompanhava a situação do hospital enquanto cursava o quarto ano em psicologia.

A iniciativa de um projeto-denúncia foi dada por ele e encaminhada para a Associação Mineira de Saúde Mental em negociações junto da secretaria de saúde e o governo de Francelino Pereira (ARENA). Como fruto dessa parceria, a concepção de um curta metragem começou a ser realizado em 1979. O filme seria então dirigido por Helvécio Ratton, produzido por Tarcísio Vidigal, com a montagem de José Tavares de Barros, sonoplastia de Evandro Lemos, assistência de fotografia por Maria Amélia Palhares, assistência de montagem por João Fernando Motta, laboratório de imagem por LíderSom: Tecnison; estúdio Helio Barroso e produzido pela empresa “Grupo Novo de Cinema” juntamente da Associação Mineira de Saúde Mental.

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(Foto: Divulgação)

Nascia, portanto, a responsabilidade coletiva na divulgação do ocorrido. O resultado final foi o sensível Em Nome da Razão – Um filme sobre os porões da loucura, de 25 minutos. A obra nascia, então, da dor dos outros. O documentário foi filmado em quase toda sua totalidade dentro do manicômio barbacenense e foi a primeira vez em que uma câmera cinematográfica esteve dentro de um manicômio no país. Helvécio percorria todos os pavilhões e ambientes do hospital, cenário onde a única democracia era a pluralidade de seus internos: homens, mulheres, crianças, idosos, portadores de debilidades físicas e mentais compartilhavam o chão. O diretor ainda diria que o objetivo do hospital nunca foi a cura ou a recuperação, mas sim o controle.

O texto em off foi escrito e narrado pelo psiquiatra Antônio Simoni, que também estava envolvido na reforma da política de saúde mental, critica o sistema social em que se incluem os internos. O documentário pretendia, portanto, cumprir seu papel social, no qual denuncia tamanha subumanidade, além de problematizar a reflexão sobre a função que o manicômio possui e a respeito de sua serventia na sociedade atual.

O filme, cujo objetivo era denunciar, se transformou também em uma viagem dentro do espaço do local, suscitando a vontade, por parte social, de fazer diferença na realidade do Colônia. Ratton afirma que um filme não muda a realidade, mas ele orienta o espectador a demandar em juízo o sistema vigente. E as pessoas, sim, mudam a realidade.

Confira o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=FCaepWotmqw

Por Iago Rezende

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