Falcão: a voz dos meninos do tráfico e a antítese de MV Bill

32578524_10212015060116135_3650747421647962112_nOs anos 1990 e 2000 marcaram uma série de acontecimentos no país que tiraram os problemas da periferia da invisibilidade e os levaram até a mídia. Nos jornais, notícias de chacinas cujas suspeitas centrais eram direcionadas a policiais ou milícias. O tráfico de drogas e as ocorrências nas favelas, antes restritos às vielas das comunidades afastadas, começam a ser levados para as telas, seja nos novos modelos de programas de notícias vespertinos, como o Aqui e Agora, exibido no SBT a partir de 1991, ou através de filmes e documentários. Entre esse grupo de produções ficcionais e não ficcionais está o documentário Falcão – meninos do tráfico (2006), o qual traz em si uma série de elementos diferenciais que merecem ser analisados.

A produção, de cerca de 58 minutos, ganhou destaque maior por ter sido exibida na íntegra no programa Fantástico, da Rede Globo, no dia 19 de março de 2006, marcando um fato inédito na história da emissora e também representando uma conquista para o documentário nacional, cuja trajetória é marcada por dificuldades de distribuição e de inserção na TV aberta. Além disso, Falcão tem ainda outro diferencial: foi produzido pelo rapper MV Bill e seu empresário Celso Athayde, ambos negros e oriundos da comunidade Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, o que proporcionou uma proximidade maior com o tema e com os entrevistados e um paralelismo interessante, o qual será mencionado posteriormente.

Tema e montagem

 

O documentário trata da vida de crianças e adolescentes envolvidos no tráfico de drogas, residentes em diversos estados e regiões do país. Embora não seja possível identificar o lugar de fala dos personagens, na divulgação do filme MV Bill relata que as gravações foram feitas após a realização dos seus shows de divulgação do CD “Traficando Informação” (1999), em várias cidades do Brasil. Além disso, o sotaque dos personagens demostra a pluralidade de origens. O filme, gravado quase que inteiramente à noite e de madrugada, é marcado por cortes bruscos, montagem acelerada, planos fechados e embaçados e com pouca profundidade de campo, o que, por si só, já nos insere no contexto vivido por esses jovens: ilegalidade, restrição da liberdade de circulação, agitação interna… O sentimento é quase de uma claustrofobia, de um tipo diferente de prisão: não com 4 paredes, mas um aprisionamento no local onde “trabalham” e circulam, como também de sua vida e destino.

O filme é divido em blocos temáticos, como a explicação dos papéis de cada um na “firma” (falcão, nome que intitula a obra, refere-se aos meninos que passam a noite vigiando a comunidade, anunciando através de foguetes e rádios de comunicação a chegada da polícia), a relação com a polícia, a iniciação no crime, a relação com a comunidade e os “X-9” (denunciantes), os históricos familiares ou a morte precoce. Percebe-se que as entrevistas foram desmembradas e montadas de acordo com cada tema, de modo a apresentar um cenário mais geral da situação, assumido pelo próprio rapper MV Bill no início do filme, quando ele aparece dentro de um carro em uma estrada de Goiânia, com uma expressão fugidia dizendo: “Eu acho que tô tentando mostrar o problema, e sendo problema precisa ser mostrado (…). Se ficar escondido como sempre ficou, as pessoas vão ficar ignorando…”. Seu objetivo, portanto, era organizar uma narrativa que revelasse um contexto até então invisível para que as pessoas pudessem refletir.

Personagens e relação com o diretor

 

Como a fisionomia dos personagens aparece sempre encoberta, seja pelas tarjas pretas, efeitos vaselina na edição, uso de camisetas sobre o rosto ou filmagem pelas costas, observa-se que o filme não quer falar de particularidades deste ou daquele personagem, mas apresentar o que há em comum naquelas vidas e em seus destinos. A grande maioria diz ter ingressado no tráfico depois de alguma revolta ou problema familiar, e o mais contundente vem no dia da exibição do documentário, quando MV Bill revela em entrevista ao Fantástico que, dos dezessete entrevistados, dezesseis haviam morrido. Ali, e também na própria obra, que termina com o depoimento de um ex-traficante que está em cadeira de rodas, revelando o quanto a vida no crime é “ingrata”, MV Bill e Athayde acabam assumindo a angústia da falta de solução para o problema. O tom das falas dos entrevistados, sempre carregado de desânimo e cansaço, ainda que os discursos tentem demonstrar força, mostra que é um caminho sem volta, iniciado muitas vezes não por vontade própria, mas oriundo de uma condição de vida que não dá muitas opções.

Por dar a oportunidade a esses jovens de se expressarem, ainda que sua identidade seja preservada, pode-se dizer que se trata de uma obra “não-hegemônica”, mas é importante pensar no lugar reservado a esses sujeitos: eles continuam na ilegalidade, no mundo obscuro (reforçado pelas imagens) e no destino infeliz. Ainda que o realismo dos discursos e que os relatos demonstrem a urgência em se encarar o problema, pode-se cair no perigo da estetização da criminalidade nas comunidades e da generalização. Além disso, em poucos momentos é possível haver uma identificação ou projeção com os personagens, pois eles vivem em um universo distante, com gírias e leis próprias. Somente quando três mulheres discursam, uma mãe de um jovem assassinado e duas esposas de traficantes também mortos, todas não envolvidas com o tráfico, é que há uma abertura para que essa projeção aconteça, com o apelo aos afetos no espectador.  Outro momento de maior impacto é quando o risco acontece e o real penetra a cena: enquanto crianças são filmadas brincando de serem traficantes e matando um X-9, são ouvidos tiros de verdade e MV Bill relata que naquele momento um delator estava sendo assassinado.

Voz do documentário

 

MV Bill assume protagonismo paralelo com os meninos ao aparecer algumas vezes no filme e também por estar sempre fazendo perguntas inquietantes aos mesmos (“Então os cana não são tão ruins assim?”; “Pra quem vende a desgraça você não acha pouco ajudarem as famílias a comprarem um gás?”; “Se você tiver filhos, como vai fazer para evitar que a droga chegue nas mãos deles?”; “Teu fiel é bandido? Você gosta de andar com bandido?”; “Como você sente vendendo o mal para as pessoas?”).

 

Com essas perguntas e também com os comentários que faz quando aparece no documentário, MV Bill, também oriundo de uma comunidade, mas com um destino diferente, consegue se firmar como a antítese daquela vida e destino dos meninos que estão no tráfico. A ele, foi dada uma oportunidade que lhe permitiu estar ali como um questionador, fazendo perguntas que muitos de nós gostaria. Mas é ele também que, por conhecer a realidade de perto, divide com os espectadores a preocupação com o problema, trazendo um olhar novo e que chama a atenção. Ao término do filme, MV Bill desabafa: “Ou a gente tem um Brasil só ou tem dois Brasis. E parece que estão cuidando mais de um e esquecendo do outro. Só que o outro tá crescendo e se transformando num monstro. Onde nós já perdemos o controle. Tá engolindo todo mundo.”

O realizador, deixa, assim, um convite à reflexão e uma inquietação no espectador, ainda que juntamente com isso venha a sensação de estar vencido por esse “monstro”. É na figura do rapper que pode estar o caminho para repensar as oportunidades a esses jovens meninos, a maioria deles com um destino trágico, o qual poderia ser mudado tirando-lhes de um ciclo vicioso que só lhes dá a chance de “vencer” (ainda que temporariamente) pelo tráfico.

Por Tatiana Vieira

Assista ao documentário: https://www.youtube.com/watch?v=B-s2SDi3rkY

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