Humor e Qualidade

Orientadora

Gabriela Borges

Bolsistas
Leandro Fialho
Luma Perobeli
Monalisa Lima
Raiza Campos

O tema da qualidade na televisão vem sendo debatido desde os anos 1980 por acadêmicos e críticos e vem sendo incorporado na legislação da mídia de diversos países, principalmente europeus. No que diz respeito à televisão brasileira, encontramos uma lacuna no estudo dos programas humorísticos sob a perspectiva das discussões sobre a qualidade. Este é um conceito controverso, porém defendemos que pode ser articulado metodologicamente, afim de contribuir com a reflexão sobre a análise de produções audiovisuais.

O projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual foi criado, portanto, com o intuito de servir como um espaço de diálogo e discussão sobre a produção audiovisual contemporânea veiculada na televisão e em outras plataformas de convergência. Desenvolvemos nossas ideias com o intuito de refletir, referenciar e construir um repertório de boas práticas no meio audiovisual, que discuta aspectos da qualidade fomentadores do debate sobre a importância do papel desempenhado per esses meios na vida cotidiana.

Com base nos conceitos de humor e comédia definidos por Luigi Pirandello, na definição do riso proposta por Henri Bergson e na teoria de John Mepham sobre a qualidade, o projeto se expandiu e criou subdivisões. Uma delas é o Narrativas humorísticas. Sua proposta é pensar o humor de qualidade como aquele que provoca o riso ambíguo que antecede uma reflexão gerada por uma quebra de expectativa, relacionado a uma produção de sentido que estimula o pluralismo e a diversidade cultural. A qualidade de um produto audiovisual está ligada à sua capacidade de promover o envolvimento de um grupo a partir da diversidade que apresenta, permitindo que os espectadores enriqueçam e aprimorem as suas experiências.

Para definir a amostra e operacionalizar a análise, categorizamos o gênero humorístico na televisão em humor-jornalismo e humor-ficção. O humor-jornalismo se caracteriza pela reprodução de fatos reais e de interesse público de forma bem humorada (se valendo de traços do humor, como a ironia, o grotesco ou a sátira); pela apropriação da estética jornalística, seja com o intuito de desconstruir o discurso jornalístico ou de aproveitar a forma de levar “fatos reais” culturalmente conhecidos pela sociedade para mostrar suas idiossincrasias através de relatos fictícios. O humor-ficção requer a criação de situações ou cenas ficcionais. São programas que possuem um enredo, com um conjunto de personagens principais com desenvolvimento ao longo da trama. São normalmente programas verossímeis, como os sitcons, com situações bem humoradas do dia a dia. Essas situações podem tanto ser de comédia, quanto de humor, uma vez que podem provocar o riso imediato e despreocupado (uma queda, algum ocorrido inusitado) ou podem apresentar caricaturas e paródias, gerando um riso ambíguo e a reflexão sobre a realidade.

Foram criados parâmetros de qualidade para a análise dos programas humorísticos da televisão aberta e por assinatura. Estes estão articulados a partir de dois conceitos: modos de representação e experimentação. Os modos de representação estão relacionados à criação e desenvolvimento dos personagens, na medida em que estes podem ser tanto caricatos, grotescos ou satíricos, independentemente das duas categorias estudadas. Há uma reflexão sobre o papel desempenhado pelos personagens humorísticos na nossa sociedade, isto é, indagamos se reafirmam estereótipos e lugares-comuns; se criam bordões que se perpetuam; se criticam os costumes e/ou fazem algum tipo de crítica social; em resumo, se contribuem para quebrar tabus e promover a diversidade em suas diversas acepções. Nosso interesse é perceber se a criação dos personagens humorísticos contribui de alguma forma para pautar temas relevantes socialmente e para deslocar a atenção da banalização social que a televisão reitera incessantemente na maioria dos seus programas.

A experimentação está relacionada com a utilização dos recursos técnico-expressivos, característicos da linguagem audiovisual, de forma inovadora e criativa. Ou seja: investigamos se os programas humorísticos criam propostas audiovisuais originais ou apenas reciclam formatos já existentes; se os recursos técnico-expressivos contribuem para a construção de narrativas que promovem a diversidade e o debate de ideias e de pontos de vista. Além disso, discutimos também a forma como o programa incentiva a participação do público e dialoga com outras plataformas, principalmente na internet.

Os programas foram analisados utilizando a metodologia semiótica por meio da reflexão sobre os planos da expressão e do conteúdo, e a mensagem audiovisual. Os aspectos considerados na análise do plano da expressão foram os seguintes: produção de sentido a partir dos elementos estéticos; uso dos recursos técnicos expressivos (áudio, vídeo, edição grafismo); e atuação dos pivôs, personagens, apresentadores, entrevistados, comentadores. Sendo assim, a análise caracterizou os elementos estéticos do programa nos seguintes códigos: visuais (câmera, iluminação, cenário, atuação do elenco, guarda-roupa e maquiagem, qualidade técnica da imagem); sonoros (tipos de áudio, qualidade técnica do áudio); sintáticos (edição, ritmo do programa) e gráficos (vinheta inicial, grafismos, rodapés, vinheta final).

No plano do conteúdo, foram primeiramente definidos 17 indicadores de qualidade, mas a análise foi feita com ênfase em apenas quatro: estereótipo, oportunidade, diversidade de sujeitos representados e ampliação do horizonte do público. Na análise da mensagem audiovisual, outros quatro indicadores foram aprofundados, num universo de oito estudados: originalidade/criatividade, diálogo com/entre plataformas, solicitação da participação ativa do público e clareza proposta.

Na TV, a amostra dos episódios dos programas se deu de forma aleatória de acordo com a disponibilidade do material audiovisual, enquanto na internet selecionamos todos os vídeos publicados pelo canal durante o mês de setembro de 2015. Os vídeos selecionados foram analisados de acordo com uma nota de 0 a 4: zero se o indicador não constar na emissão observada; um, se constar pouco; dois, se aparecer de forma razoável, três, se constar um pouco mais; e quatro, se aparecer intensamente.

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