Justiça

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Autora: Manuela Dias
Colaboração: Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino
Direção artística: José Luiz Villamarim
Direção: Luisa Lima, Walter Carvalho, Marcus Figueiredo e Isabella Teixeira
Período de exibição:22/08/2016 – 23/09/2016
Horário: 22h30
Nº de episódios: 20

Justiça foi uma minissérie exibida e produzida pela Rede Globo entre agosto e setembro de 2016. A autora Manuela Dias se inspirou em uma história real de um homem que foi preso por matar um cão para escrever a minissérie e abordar temas como justiça e moral. O elenco contou com nomes como Adriana Esteves (Fátima do Nascimento), Antônio Calloni (Antenor Ferraz), Camila Mardila (Regina),Cauã Reymond (Maurício), Débora Bloch (Elisa), Jéssica Ellen (Rose Silva), Jesuíta Barbosa (Vicente), Julio Andrade (Firmino), Leandra Leal (Kellen), Luísa Arraes (Débora), Vladimir Brichta (Celso), dentre outros.

A trama acompanha quatro histórias diferentes que se cruzam e se imbricam a todo momento.  Dessa forma, todos os personagens se conectam em maior ou menor grau. A minissérie foi ao ar de segunda a sexta-feira, com exceção das quartas. A cada dia específico da semana, a trama focava em um núcleo de personagens. O primeiro núcleo era composto por Elisa (Débora Bloch), que viu sua filha ser assassinada pelo então namorado Vicente (Jesuíta Barbosa) após pegá-la com outro homem.  Outro núcleo era composto por Fátima (Adriana Esteves), que matou o cachorro do vizinho Douglas (Enrique Diaz). Já Rose (Jéssica Ellen), amiga de Débora (Luísa Arraes), foi pega com drogas em uma festa na praia, sendo presa como traficante. Por fim, Maurício (Cauã Reymond) foi preso por fazer a eutanásia na esposa, a bailarina Beatriz (Marjorie Estiano), que foi atropelada por Antenor (Antônio Calloni) e ficou tetraplégica. Vicente (Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauã Reymond) são presos na mesma noite e todos saem da prisão sete anos depois.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A trama se passa no Recife, onde também foi gravada a minissérie. Locais característicos da capital pernambucana são utilizados como pano de fundo da história, tais como a praia de Boa Viagem, o edifício Holiday e o mercado São José. Isso contribui para a ambientação da minissérie e a verossimilhança da trama. Da mesma forma contribui a caracterização dos personagens. Além do sotaque nordestino, o figurino se mostra adequado à personalidade e ocupação de cada personagem. Enquanto Elisa (Débora Bloch), professora de Direito, utiliza roupas sérias e mais sofisticadas, Fátima (Adriana Esteves), que trabalha vendendo marmitas e fazendo faxinas, usa roupas simples e comportadas, que também exprimem a personalidade da moça. Já, por exemplo, Mayara (Julia Dalavia), garota de programa, se veste com roupas curtas e extravagantes e possui os cabelos tingidos.

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Em relação à trilha sonora, várias músicas marcam a minissérie. Em geral, no final dos episódios é tocada a música Hallelujah, interpretada por Rufus Wainwright e composta por Leonard Cohen. A música tem como tema a fé, que dialoga com a minissérie não no sentido religioso, mas no sentido mais amplo, que abrange a busca por justiça. Além disso, cada núcleo tem uma música tema que acompanha os personagens em certos momentos. A música Dona da Minha Cabeça, de Geraldo Azevedo, acompanha o romance de Fátima (Adriana Esteves) e Firmino (Julio Andrade). Já a música Revelação, do cantor Fagner, marca o personagem Vicente (Jesuíta Barbosa).  Todas as músicas se relacionam com o momento vivido pelos personagens.


A fotografia segue o estilo naturalista, mas se mostra mais escura em diversos momentos. A casa de Elisa, por exemplo, não possui grande iluminação e é marcada por tons escuros, mesmo na cenografia. Essa escolha reforça o caráter sério, e até sombrio, das discussões levantadas pela minissérie. Dentre tais discussões estão o perdão, os limites entre vingança e justiça, o racismo, o machismo e a corrupção de diversos setores.

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Por fim, a edição segue o padrão não-linear. Há a utilização de muitos flashbacks e a minissérie vaga, diversas vezes, entre passado e presente. Além disso, um acontecimento mostrado em um episódio focado em determinado núcleo é mostrado novamente, de outro ponto de vista, quando o episódio acompanha outro núcleo. Portanto, a passagem de um episódio a outro não segue a cronologia linear, embora não haja grande variação da temporalidade entre os episódios seguidos.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, a minissérie traz, além de referências a lugares como o Recife, menções à cantora Beyoncé e ao clube pernambucano Náutico, por exemplo. Houve também a utilização da expressão “panelaço”, associada ao personagem Antenor Ferraz (Antônio Calloni), que estava se candidatando a governador de Pernambuco. Tal expressão se relaciona estreitamente ao momento político vivido pelo país na época da minissérie, o qual também estava sendo palco de diversos “panelaços” em protesto a questões políticas. Tais elementos ajudam a inserir o espectador na minissérie e conferir verossimilhança à trama.

A escassez das setas chamativas foi observada com frequência na minissérie. Os flashbacks, por exemplo, não eram marcados por nenhuma indicação estética como mudança de fotografia ou fades. Entretanto, nos capítulos iniciais de Justiça, houve a inserção “sete anos antes” e “Recife, 2016” para marcar a temporalidade da minissérie e localizar o espectador. Contudo, diversos acontecimentos não são explicados à primeira vista, deixando o espectador confuso momentaneamente. As explicações de tais acontecimentos, muitas vezes, só ficam claras nos próximos episódios da minissérie, com as conexões que são feitas entre os núcleos.

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Já em relação aos efeitos especiais narrativos, a história apresentou clímax e reviravoltas que desenvolvem a narrativa e dão sequência à trama, mas em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que foi visto até então. O estilo narrativo do programa também se manteve constante durante todos os episódios.

Por fim, os recursos de storytelling tiveram grande destaque na minissérie. Além de não seguir uma cronologia linear e transitar entre passado e presente por meio de flashbacks que permeiam toda a narrativa, Justiça apresenta múltiplas perspectivas sobre certos acontecimentos. As histórias dos personagens, ainda que separadas por núcleos, se misturam e se cruzam durante toda a minissérie. Desse modo, uma história que antes parecia paralela se revela conectada, em maior ou menor grau, com a história de outro núcleo. Além disso, personagens centrais de um núcleo se mostram personagens secundários de outros, como é o caso de Fátima (Adriana Esteves), que protagoniza um núcleo, mas que, na história de Elisa (Débora Bloch) e Vicente (Jesuíta Barbosa), não tem grande papel, sendo a faxineira da casa da professora. Tais conexões permitem que um mesmo acontecimento seja visto da perspectiva de diversos personagens. Como, por exemplo, o episódio em que Fátima (Adriana Esteves) encontra uma caixa no quarto da falecida Isabela (Marina Ruy Barbosa). O primeiro episódio que mostra esse acontecimento é focado na história de Elisa (Débora Bloch) e Vicente (Jesuíta Barbosa), então vemos, portanto, a descoberta da caixa do ponto de vista da professora. O episódio seguinte é focado em Fátima (Adriana Esteves) e, ao perpassar por tal acontecimento novamente, o vemos da perspectiva da faxineira. Tais recursos de storytelling incrementam a complexidade narrativa de Justiça.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

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