Justificando

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O portal Justificando foi fundado por três advogados com o intuito de ser um espaço de discussão da justiça no Brasil. Atualmente compõe-se de 40 colunistas, principalmente profissionais do Direito, mas também sociólogos, cientistas sociais e antropólogos. Na página de apresentação, definem-se como defensores da democracia, da igualdade sexual e racial, do pluralismo e contrários a quaisquer formas de opressão. Nas colunas textuais, encontramos discussões contra-hegemônicas relacionadas ao feminismo, a diversidade, as lutas pela liberdade e a questões institucionais e processuais.

Em relação a produção audiovisual, o portal possui cinco programas disponíveis. São eles: Drops (vídeos curtos, com um único personagem); Justificando Entrevista (programa de aproximadamente 50 minutos, com um entrevistado e repórter); Coisas que você precisa saber (conjunto de informações com linguagem semelhante ao modelo usual de canais no YouTube, sobre um determinado tema); Jogos de Poder (formato semelhante ao anterior, com foco na discussão de pautas políticas) e Explica Aí (vídeos de média duração – de 10 a 15 minutos) explorando temáticas complicadas com linguagem simples).

Objetivando perceber se este portal apresenta uma produção de qualidade e promove a literacia midiática por meio do estímulo à reflexão do público, selecionamos os cinco vídeos mais vistos no canal do YouTube. São eles: Reforma Trabalhosta – Coisas Que Você Precisa Saber #31, Gilmar, mano, sai daqui! – Coisas Que Você Precisa Saber #23, As “Desmedidas” Contra a Constituição – Coisas Que Você Precisa Saber #28,Como conversar com um fascista? | Justificando Entrevista Marcia Tiburi e O Caso Lula | Justificando Entrevista Geoffrey Robertson.

Os três primeiros discutem com linguagem simples, referências da cultura popular e exemplos claros a Reforma Trabalhista, a parcialidade de Gilmar Mendes, e as “Dez medidas contra a corrupção” do Ministério Público Federal. Apresentado por Igor Leone, um dos fundadores do portal, esses vídeos fazem parte do programa Coisas que Você Precisa Saber.

Nestes vídeos, o personagem atrás de uma bancada, com câmera fixa e enquadramento frontal, em plano médio. O cenário se aproxima de canais populares entre jovens no YouTube, com o chroma-key e imagens e memes adicionados conforme o apresentador faz referência a eles. A dinamicidade do produto audiovisual é permitida pelas inserções gráficas descritas, visto que a montagem é linear, quase sem cortes e sem alterações no enquadramento. Também não há inserção de áudios ou efeitos sonoros, apenas a fala do próprio apresentador. De maneira irônica, ele se veste com roupas sociais típicas dos telejornais tradicionais, embora a linguagem utilizada e outras marcas, como as tatuagens expostas, mostrem-se bastante casuais.

just2Fonte: Canal Justificando, YouTube.

Os outros dois vídeos são do âmbito do Justificando Entrevista e destinam-se a outros públicos, como profissionais do Direito. São entrevistados uma filósofa e um advogado coligado à Organização das Nações Unidas (ONU). A linguagem e os termos utilizados nos vídeos são mais complexos e demandam conhecimentos mais específicos para serem compreendidos. Os vídeos têm fundo neutro, em azul, e apresentam repórter e entrevistado no mesmo quadro, filmados lateralmente, em plano médio. Quando se altera para a fala do entrevistado, ocorre um zoom na imagem, mas mantém-se a visão lateral. As inserções gráficas limitam-se aos geradores de caracteres que informam os nomes dos participantes. A montagem é linear, com poucos cortes e muito próxima de um programa tradicional de entrevistas na televisão.

just3Fonte: Canal Justificando, YouTube.

Percebemos o engajamento político-social em quase todos os vídeos analisados como, por exemplo, no vídeo , Gilmar, mano, sai daqui! – Coisas Que Você Precisa Saber #23, em que o apresentador Igor Leone inicia supondo a existência de um ministro do Supremo Tribunal Federal evidentemente ligado à esquerda, dizendo “imagine que esse ministro saia para almoçar só com políticos do PT?”. Por fim, descobre-se que a ironia empregada e todas as suposições feitas são utilizadas a fim de apontar a parcialidade de Gilmar Mendes e a falta de notícias que discutam suas atitudes.

A possibilidade de ampliação do horizonte do público também está presente em todos os vídeos como, por exemplo, em Como conversar com um fascista? | Justificando Entrevista Marcia Tiburi em que a entrevista inicia discorrendo sobre a definição e como identificar o fascismo. A filósofa também discute disseminação de ódio por meios de comunicação e preconceitos, em perspectiva com movimentos totalitários históricos como o Nazismo e o Facismo Italiano. Esse conteúdo de maneira geral, discute não somente a temática-título, mas permite que o público reflita sobre vários âmbitos da sociedade e capte novas informações sobre o assunto, incluindo a discussão sobre a mídia como legitimadora e propagadora de problemáticas sociais.

No recorte analisado não encontramos diversidade de sujeitos, já que quatro dos vídeos mais vistos são estrelados por homens brancos e apenas um apresenta mulheres. Em relação ao estímulo da participação ativa do público, não percebemos solicitação de maneira explicita.

No entanto, alguns estereótipos e ideias perpetuados pela mídia tradicional são descontruídos, através de apontamentos recorrentes quanto a falta de espaço de determinados assuntos nos veículos da grande impressa como, por exemplo, as relações trabalhistas e o caso Lula e falhas na formulação de medidas contra a corrupção. O vídeo O Caso Lula | Justificando Entrevista Geoffrey Robertson é construído como uma contranarrativa em relação à grande mídia, escutando o advogado da ONU e do ex-presidente Lula, Geoffrey Robertson, nesse caso em específico. Também sempre apontando as lacunas da impressa, informam o público indicando outras perspectivas sobre as investigações, apontando violações em desacordo com os direitos humanos e a falta de consistência das evidências no processo.

just4Fonte: Canal Justificando, YouTube.

Desse modo, podemos perceber que o Justificando mantém um posicionamento crítico e promove a reflexão apresentando contrapontos aos veículos da impressa tradicional, além de investir na simplificação de temáticas complexas para a compreensão de um maior número de pessoas. A formatação plural dos programas do coletivo atende à diversas camadas do público já que estão disponíveis desde entrevistas em formatos tradicionais do jornalismo televisivo a vídeos que se aproximam dos vlogs, comuns no YouTube, em que um apresentador discorre sobre temas complicados de maneira simples, com uso de muitos grafismos e referências a cultura popular. Podem, portanto, buscar informações no portal tanto profissionais da justiça e economia quanto jovens em processo de formação identitária e política.

Por Vinícius Guida

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