Lembrar para não esquecer: o choque de uma realidade distante, mas ainda presente

Madrugada de 23 de agosto de 1993. Um grupo de quase cinquenta homens encapuzados entra na comunidade Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e mata 21 pessoas. A ação durou pouco menos de uma hora. O primeiro a perder a vida foi um trabalhador que caminhava na rua, o segundo, um homem que segurava a marmita para levar ao trabalho. Em seguida, sete homens foram mortos em um bar. Parte do bando adentrou uma casa de uma família evangélica e assassinou oito pessoas, entre homens e mulheres, jovens e adultos. Nesta residência, uma menina de quinze anos foi estuprada antes de ser alvejada. Somente as crianças foram poupadas. Em outro canto da comunidade, mais quatro trabalhadores foram mortos. Poucas horas depois da ocorrência, o fato já era noticiado na mídia como a Chacina de Vigário Geral. Também foi divulgado que se tratava de uma ação de um bando de policiais em represália à morte de quatro PMs.

Lembrar para não esquecer é o título do documentário de Milton Alencar Jr. que retoma a história da chacina. O nome do filme não foi escolhido ao acaso: produzido 17 anos após o fato, em 2011, em um momento em que nenhum dos 33 acusados estava na prisão, a obra revela, de modo contundente, um cenário de revolta e desesperança. Justiça falha, comunidades esquecidas, violência que continua a fazer vítimas inocentes, Estado ineficiente. Na época em que foi gravado, tudo continuava como antes, assim como nos dias atuais: os números de assassinatos, a impunidade, a corrupção, a criminalidade e a falta de esperança crescendo em proporções exponenciais. Por isso, a iniciativa do documentarista de retomar o que rapidamente cai na estatística para mostrar que vidas importam, que a tristeza provocada lá atrás ainda dói.

Tema e montagem

O documentário começa com uma série de depoimentos, apresentados como se fizessem parte de um grande mosaico, sem a identificação, em legendas, do nome de quem fala. “A chacina foi transformadora para muitas pessoas”; “Eu ia acabar com essa polícia”; “Só morreram inocentes”; “Não tinha comando (…), virou um rolo compressor”; “Não foi feita investigação alguma. Foi feita uma grande armação, uma trapaça para apresentar uma rápida solução para a chacina de Vigário”; “Foi uma coisa terrível”; “Eu acho que estão querendo calar a gente”, disseram alguns entrevistados. Não se sabe quem são, mas o conteúdo das falas recortadas e montadas dá um panorama do que aconteceu. Corte para um cenário escuro, com uma mesa e uma cadeira de escritório e um homem negro. É o ator Antônio Pompeu. Ele passa a guiar toda a narrativa do filme, tecendo comentários como se estivesse recontando a história em meio aos depoimentos.

“Existem memórias antigas que ficam muito mais perto do que outras bem recentes. E existem fatos recentes que ficam muito mais longe do que outros bem antigos”, diz o narrador. Sua fala é acompanhada, por vezes, de imagens de arquivo e panorâmicas da cidade do Rio de Janeiro e da comunidade Vigário Geral. A maior parte dessas imagens aparece em preto e branco, reforçando o aspecto memorialístico do documentário, a retomada de um passado que precisa ser discutido naquele momento.

Pompeu fala de um Rio de Janeiro dividido em “duas cidades”, incluindo um “submundo oficial, atuante e lamentavelmente competente”, diz. Cita também a guerra entre policiais e quadrilheiros armados na última década do século XX. Parece um passado distante, mas aquele contexto continuava vigente no tempo da gravação. Na sequência, aparece a imagem da sombra de um homem identificado como “X-9”. Ele é um ex-policial que já havia cumprido sua pena e relata as truculências cometidas pelos PMs na época, incluindo a extorsão constante de traficantes. Posteriormente, falam pessoas de segmentos distintos: Sérgio Cerqueira Borges, ex-policial militar acusado de envolvimento na chacina e que conseguiu a sua liberdade e de outros ex-PMs após gravar trechos de conversas na cadeia, Vera Lucia Silva dos Santos, moradora da comunidade, o desembargador José Muiños Piñeiro, além de pessoas que presenciaram a chacina, como um sobrevivente dos tiros no bar e uma sobrevivente dos assassinatos na casa de família, familiares das vítimas e outros militares.

A montagem da obra se baseia na própria ordem dos fatos: antecedentes e motivações do crime, a noite da chacina, o dia seguinte, as investigações e as ações da Justiça, e os desdobramentos do fato, como as mortes de dez policiais acusados e o surgimento de ONGs e movimentos sociais em resposta à chacina. Milton Alencar Jr. utiliza a estética do fragmento, colocando recortes dos depoimentos um na sequência do outro. Por colher relatos de pessoas de grupos distintos, pode-se dizer que escolheu uma abordagem multiangular do fato, contudo, nas intervenções frequentes do ator Antônio Pompeu, contando a história, observa-se um posicionamento: as falas possuem adjetivos variados que demonstram a revolta com o desdobramento dos fatos, com a postura corrupta e perversa de alguns policiais, com a ineficiência da Justiça e com o próprio esquecimento da chacina. Antônio por vezes se mostra sarcástico e irônico, olha para a câmera, aponta para ela, como se estivesse bem próximo do espectador “abrindo as feridas” de uma situação que “continua a sangrar”.

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Personagens e voz do documentário

Não é só o ator que conta a história. Os personagens incrementam-na com os seus relatos, dando vários detalhes relacionados à chacina, seja da postura da polícia e do bando que se envolveu na chacina, de como as mortes ocorreram ou mesmo de como tudo se desdobrou depois. Alguns membros da polícia e da Justiça revelam suas revoltas com a impunidade, familiares desabafam sobre suas dores, sobreviventes falam de seus traumas. Certos depoimentos são apresentados em um fundo vermelho com duas telas: em uma os personagens falam, em outra, aparece um close de suas expressões faciais. Há também em alguns casos, o uso de imagens que ilustram o conteúdo dos depoimentos. Tal recurso, de fusão de expressões verbais e não verbais no mesmo quadro, de certo modo, reforça os afetos provocados pelas falas. Já uso de imagens fortes para cobrir alguns depoimentos, como as cenas dos corpos nos locais dos crimes e dos mortos reunidos em caixões do IML (imagem amplamente divulgada pelos noticiários da época), potencializam o choque provocado no espectador.

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A enunciação do documentário que, portanto, mescla várias vozes, pode ser considerada contra hegemônica tanto pelo fato de dar a voz aos familiares das vítimas, moradores e sobreviventes, personagens geralmente esquecidos pela mídia tradicional, como também pelo próprio posicionamento de denúncia que o narrador central, o ator Antônio Pompeu, assume. Ele não poupa críticas, sarcasmos e ironias à “cidade maravilhosa” e aos envolvidos no caso.

É interessante notar, ainda, que Milton Alencar Jr. também permite ao coronel Emir Laranjeiras que se posicione. Ele aparece desde o início da obra e somente ao final descobre-se que o mesmo foi acusado de chefiar uma parte dos policiais envolvidos na chacina, enquanto comandante do 9º batalhão da PM. Nesse sentido, o documentarista buscou dar voz aos vários envolvidos no caso, de modo a apresentar um panorama completo que permitisse ao espectador tirar as suas próprias conclusões. O coronel não foi indiciado pelo crime e nega qualquer envolvimento. Em sua última fala no documentário, diz, em referência à chacina: “eu não quero esquecer, mas também não tenho muito interesse em lembrar não”.

Mas não dá para esquecer, reforça Pompeu em sua fala final: “O Rio de Janeiro ainda é assim. As tragédias têm vários lados, a tristeza, uma só. Lembrar para não esquecer encerra este filme com a convicção de que o futuro é inexoravelmente escrito no presente. (…) Esta é a exortação aos que recusam o conformismo do destino e não desistem. As luzes vão se apagando. Cai o pano. A imensa maioria dos envolvidos com a chacina de Vigário Geral continua anônima, silenciosa, impune. O choque acabou com o silêncio dos oprimidos, mas não acabou com a promiscuidade entre polícia e bandidos (…). Nós não esqueceremos”, diz, olhando para a câmera, apontando o dedo. Em seguida, sai de cena.

No último quadro do filme, a imagem da sala escura onde estava Pompeo com a foto de uma jovem e os dizeres: “A juíza Patrícia Acioli, da 4ª vara criminal de São Gonçalo, RJ, foi assassinada com 21 tiros na madrugada de 12 de agosto de 2011, quando chegava em casa. 21 tiros na Justiça. 21 mortos em Vigário Geral”. A obra termina, assim, colocando o espectador no risco, na indeterminação não de ter uma solução pronta, mas de ter diante de si um grande problema que, direta ou indiretamente, afeta a sua vida e a de todos ao seu redor. Provocar um incômodo pode ter sido o seu objetivo, porque, como Comolli (2008) defende, é esse desconforto que consegue perfurar a consciência do espectador, permitindo-lhe que participe da obra, ou seja, que ligue o cinema à sua realidade.

Assista ao filme: https://www.youtube.com/watch?v=7JQLCtUpKrU

  

Referência: 

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

Por Tatiana Vieira

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