Mídia Ninja

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O coletivo Mídia Ninja é conhecido por cobrir atos e protestos de movimentos sociais de todo o país através de fotos, vídeos e transmissões ao vivo, posicionando-se politicamente, ao encontro dos ideais da esquerda. Além das coberturas, aposta nos mais de 70 colunistas que pautam, através de vídeos e textos, as lutas que julgam necessárias para o cenário político do Brasil. Também faz parte do seu conteúdo diário do Facebook a publicação de charges, a divulgação de atos públicos, o compartilhamento de matérias de outros veículos de comunicação independentes, e o fortalecimento de grupos e coletivos menores que tocam pautas específicas do Brasil profundo (fora do eixo Rio-São Paulo). Ancorada pelo Fora do Eixo, não só cobre eventos, como também faz parte da produção de muitos deles. Além disso apresenta como característica o apoio aberto a movimentos sociais e a políticos de vários partidos que dialogam com os direitos humanos.

Objetivando perceber se este portal apresenta uma produção de qualidade e promove a literacia midiática por meio do estímulo à reflexão do público, selecionamos os cinco vídeos mais vistos no canal do YouTube, excluindo-se as transmissões ao vivo. Foram analisados, portanto, os seguintes: Perfil VQQ | Marielle Franco – PSol, O SONHO NÃO ACABOU PORRA NENHUMA – Delírios Utópicos de Claudio Prado, Delírios conversa com Pedro Cardoso, ator, humorista e.. escritor! FliAraxá 2017, Delírios Utópicos de Claudio Prado – Guerra as Drogas, Cogumelo Cristão e Panteras Negras, Ridículo Político – Imbecilizador Profissional.

Publicado em 24 de setembro de 2016, o vídeo Perfil VQQ | Marielle Franco – PSol dedica-se a apresentar a vereadora Marielle Franco. O primeiro corte apresenta Marielle em plano médio, de costas, caminhando pela favela, com narração em off. Logo após é exibida a vinheta do especial Vereadores Que Queremos composta de fundo listrado colorido, remetendo à bandeira símbolo do movimento LGTQ+, e vários ícones representando as pautas defendidas pelo coletivo como cultura, lazer (ícones das máscaras do teatro grego e bicicleta), igualdade e representatividade (ícones do punho fechado e do megafone). Na sequência intercalam-se os planos entre o close, o plano médio e planos subjetivos com voz off. Na segunda parte do vídeo, o foco se altera da vida pessoal para as pautas políticas do mandato, demarcados pela inserção de textos na tela que informam ao espectador a formação de Marielle e o cargo ocupado por ele naquele momento.

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Fonte: Canal Mídia Ninja, YouTube.

Em Ridículo Político – Imbecilizador Profissional, a filósofa Marcia Tiburi discorre sobre influenciadores que corroboram pensamentos equivocados e promovem a desinformação. Com formatação simples, apresenta a personagem filmada de frente, com cortes que se alteram entre o close e o plano médio. São inseridas na tela as palavras chave de cada momento do discurso a fim delimitar os pontos relevantes em cada frase. A vinheta também é simples, apresenta o nome da personagem e em seguida o nome do programa, com fundo cinza e fonte em amarelo e rosa.

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Fonte: Canal Mídia Ninja, YouTube.

Os vídeos são ambos apresentados por mulheres, sendo o primeiro por uma mulher pobre e negra e o outro por uma mulher branca. A criação de um especial para apresentar os vereadores que estão de acordo com as pautas defendidas pelo coletivo demonstram o engajamento político-social e a responsabilidade assumida ao informar quanto suas propostas políticas. Tiburi apresenta conceitos como a metarreflexão – ou o ato de refletir sobre si mesmo – ampliando o conhecimento do espectador e promovendo a reflexão sobre o que se consome e de que forma se consome, promovendo, assim, o pensamento crítico.

Os outros três vídeos que compõem o escopo de análise são apresentados por Cláudio Prado, sociólogo componente dos movimentos contraculturais da década de 1970 e criador de kits multimídia para promoção da alfabetização digital e da ONG Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. Delírios conversa com Pedro Cardoso, ator, humorista e.. escritor! FliAraxá 2017 é gravado com câmara solta, em close, realizando movimentos para alteração dos personagens em cena sem a presença de cortes.

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Os seguintes são do âmbito da coluna audiovisual Delírios Utópicos de Cláudio Prado, portanto tem construções estéticas semelhantes. Prado se localiza a frente de uma estante e entre pilhas de livros, tornando o cenário muito colorido. O enquadramento se altera entre os cortes entre o plano geral, o plano médio e o close, com a inserção de caracteres demarcando as palavras chaves do discurso. Também são inseridas na tela fotos dos personagens históricos citados pelo colunista, com a indicação do nome e biografia resumida. Além disso, são utilizadas muitas imagens e vídeos de arquivo para referenciar, por exemplo, o movimento hippie, com narração em off e letreiros coloridos. A trilha sonora aliada a fala ajuda a construir o ritmo na montagem, dando ênfase a determinados momentos. A vinheta exibe o apresentador em várias cores, assim como os letreiros, de acordo com a proposta extrovertida da produção.

Todos os vídeos ampliam o horizonte do público assim como descontroem estereótipos perpetuados pelos veículos tradicionais. Em Delírios Utópicos de Claudio Prado – Guerra as Drogas, Cogumelo Cristão e Panteras Negras, o colunista se utiliza de referências histórias para discutir a criminalização das drogas como relação moderna de poder apresentando desde pesquisas sobre o uso de cogumelos alucinógenos por Jesus Cristo, possivelmente substituídos posteriormente pela figura da hóstia até a relação do uso de maconha com os movimentos contraculturais e negros nos Estados Unidos nas décadas de 1960-70. Com Pedro Cardoso, discute vários âmbitos da sociedade como, por exemplo, a plutocracia – o governo para poucos – instaurada em todo mundo e a ampliação do número de discursos preconceituosos e totalitários explicitados por políticos e pessoas públicas.

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No recorte analisado, o Mídia Ninja abrange uma ampla camada de sentidos e aspectos, apresentando informações diferentes e ampliadas em relação à grande mídia. Além de promover a reflexão sobre importantes temáticas, o canal consegue hibridizar linguagens a fim de atender vários públicos e permitir sua participação da produção. São tratados os mais diferentes assuntos entre a descriminalização das drogas, a representação feminina e negra na política, a possível alienação a se está sujeito em uma sociedade submersa em conteúdos diversos e as novas formas de fascismo. Em poucos vídeos pudemos perceber a diversidade de sujeitos representados e o respeito às idiossincrasias, dando voz e espaço para minorias falarem por si mesmas. Extremamente plural e bem construídos esteticamente, os vídeos do canal suscitam discussões importantes e incitam o espectador a procurar saber mais sobre.

Por Vinícius Guida

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