Minha Nada Mole Vida

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Dos criadores Luiz Fernando Guimarães, Alexandre Machado e Fernanda Young, Minha Nada Mole Vida é um seriado de televisão que estreou na Rede Globo em 7 de abril de 2006, com direção de José Alvarenga Jr e produção de Daniel Vincent. No ar em 2006 e 2007, o programa conta com 23 episódios de 30 minutos cada, divididos em três temporadas, exibidos todas as sextas-feiras, às 23h. Protagonizado por Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) e Silvana (Maria Clara Gueiros), o seriado traz o dia a dia de Jorge Horácio com o filho Hélio (David Lucas) e a ex-mulher Silvana, que o obriga judicialmente a ficar mais tempo com o filho.

Fazendo uma sátira aos programas que se dedicam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., Jorge Horácio é um jornalista que comanda o programa Jorge Horácio By Night, atração comumente vista por Silvana, a ex-mulher, que torce para que o ex cometa gafes ao vivo. Paralela à sua vida de apresentador de TV, a trama mostra a guerra travada entre os adultos por causa de Hélio, o filho do casal, de apenas 10 anos, que vive no meio das brigas, discussões e implicâncias dos pais.

No Plano da Expressão, alguns aspectos chamam a atenção do espectador, como a vinheta do programa, o ritmo, a linguagem e o cenário. Na abertura, pai e filho fazem uma dança sincronizada da música de fundo Não é Mole Não, do grupo carioca Funk n’ Lata, que dialoga não só com o nome do humorístico, mas também com o seu conteúdo, composto por situações embaraçosas, complicadas e cheias de confusões que provam que a vida do protagonista Jorge Horácio não é fácil. Para o fechamento do programa não há vinheta final, pois os créditos aparecem em letras brancas, na parte de baixo do plano, enquanto os últimos segundos do episódio passam na tela.

Com relação ao código sintático, o ritmo do programa nem sempre é linear, como no episódio do dia 12 de maio de 2006, quando no primeiro minuto, após uma cena entre uma mulher desconhecida e Hélio, aparece na tela a frase “Poucos dias antes…” em letras brancas e fundo preto, deixando evidente que o que será mostrado a seguir já aconteceu em momento anterior. Somente no último bloco do programa, com a frase “Naquela noite, então…”, também em letras brancas e fundo preto, é que o tempo linear da trama é retomado, com parte da cena anteriormente mostrada sendo passada de novo.

Quanto à linguagem utilizada pelo programa, a tentativa é de aproximação com o público jovem, já que aposta num roteiro coloquial, com expressões e gírias comumente faladas por esse tipo de espectador. Palavras de baixo calão também se incluem nas falas dos personagens, como cagando, cassete, vagabunda, cagada, imbecil e otário. Além dos termos chulos, frases de duplos sentidos também são muito proferidas, como no diálogo a seguir, exibido no mesmo episódio citado anteriormente, em que uma conversa sobre profissões se inicia na mesa de jantar, e o foco do assunto é a garota de programa Sônia:

JORGE HORÁCIO: A Bia Sônia faz parte de uma geração de mulheres que optou por ralar, e muito.
SÔNIA: É verdade, eu sempre ralei muito.
JORGE HORÁCIO: Ela rala demais.
SILVANA: Olha, que interessante. Você tá ralando com o que agora?
JORGE HORÁCIO: Computação. A Bia Sônia acabou de criar uma internet que vai substituir essa nossa internet. Ela vai ficar rica. Muito rica.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

Quanto ao cenário, o seriado se desenvolve em dois lugares principais: o apart-hotel em que Jorge Horácio vive (um ambiente pequeno, mas confortável e arrumado) e as festas que o personagem cobre (geralmente com fundo escuro, com convidados e garçons passando). Também é característico do programa mostrar a frente do prédio do apart-hotel de Jorge Horácio, em câmera contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima) com leve aproximação, antes de mostrar uma cena no referido apartamento. Situações como essa também acontecem no início ou no meio do episódio em outros lugares, como no condomínio de Silvana, para situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará. No dia 4 de maio, por exemplo, no episódio intitulado “Noite de queijos e vinhos”, a história se inicia mostrando a imagem de um prédio de dois andares, de cor marrom e janelas abertas, com barulhos e vozes de crianças ao fundo. Com isso, entendemos que a trama começará num colégio, o que fica comprovado quando na cena seguinte pai, mãe e filho estão sentados numa mesa olhando para uma senhora que fala sobre as notas de Hélio.

Um aspecto do plano da expressão que é marca do programa Jorge Horácio By Night e que se tornou marca também do Minha Nada Mole Vida, é a estrofe de sucesso Everybody dance now, do grupo C&C Music Factory, sucesso das pistas de dança dos anos 1990. Comumente cantada para Jorge Horário quando as pessoas o reconhecem, o trecho é uma marca do personagem porque é o refrão da música de abertura do seu programa, o Jorge Horácio By Night. E, apesar de na abertura do seriado Minha Nada Mole Vida a música ser outra, essa metalinguagem utilizada caiu no gosto popular e fez de Everybody dance now uma expressão muito conhecida e falada por diversos grupos de amigos da vida real.

Das emissões analisadas, três eram de 2006 e duas de 2007, e as únicas mudanças aparentes foram nas cores de fundo da abertura do programa, que antes eram brancas e em 2007 ficaram coloridas, com um mix de cor que acompanha o ritmo da música de fundo, e a troca do ator que interpreta o cinegrafista da trama, que antes era o Cabreira, personagem de Carlos Mariano, e que em 2007 passou a ser o Pascal, interpretado por Pedro Paulo Rangel.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público se deu de forma razoável em quatro episódios e de forma considerável em um. O programa aborda novos conceitos, opiniões e propostas para o público, mas não de uma forma que gere de fato a reflexão do seu telespectador. No episódio Procura-se uma namoradado, razoável para esse indicador, por exemplo, um diálogo entre pai e filho se inicia e levanta a possibilidade de reflexão (ainda que pouca, devido ao curto tempo) nos pais que não medem direito as palavras que falam para os filhos, que acabam assimilando e aprendendo os mesmos modos dos pais.

JORGE HORÁCIO: Então vamos jogar juntos, joga aqui comigo.
HÉLIO: Claro que não, você tá maluco?
JORGE HORÁCIO: Ué, por quê?
HÉLIO: Ué, porque você é ruim pra cassete.
JORGE HORÁCIO: Em primeiro lugar: falar “pra cassete” é feio, tá? Segundo lugar: ruim pra cassete é a vovozinha, por parte de mãe.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

No único episódio em que esse indicador está mais presente, intitulado Noite de queijos e vinhos, a reflexão é facilitada pelo diálogo da última cena, que traz uma representante do colégio questionando Hélio e seus pais sobre a sua nota máxima na prova de matemática.

SENHORA: Eu só gostaria de saber quem foi a pedagoga que fez com que o aluno que nunca tirou mais do que 5,5 em matemática, de repente tire um 10.
HÉLIO: Foi a arrumadeira. E ela não é pedagoga: ela é bissexual.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Noite de queijos e vinhos 04/05/2007).

Com todo o decorrer da trama dessa emissão, que aborda a diversidade sexual, mais a resposta de Hélio à senhora, o pensamento do público foi estimulado à reflexão de que a orientação sexual de uma pessoa nada interfere na sua inteligência ou sabedoria. Talvez o horizonte do público tenha sido incrementado ao ponto de fazê-lo ampliar o seu repertório cultural, enxergar novas formas de vida e quebrar paradigmas e preconceitos.

O seriado não faz o uso abusivo de estereótipos, como geralmente é visto nos programas de humor. O interesse em gerar o riso através da representação fiel e verossímil do cotidiano de pessoas comuns é maior que o de se fazer comédia pela representação deturpada, exagerada e distorcida de tipos já preconcebidos pela sociedade. O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi observado em todas as emissões analisadas, mas com avaliações razoáveis. As duas formas do uso do estereótipo (para afirmar e desconstruir) são identificadas, porém, observamos que no episódio anteriormente citado, o estereótipo de afirmação está presente em vários momentos no decorrer da trama, mas que a última fala proferida (descrita acima) vem para desconstruir esses estigmas e modificar as mentes preconceituosas.

Uma situação em que o estereótipo de afirmação está presente é na fala de Silvana, quando ela está no elevador ao lado de uma mulher quieta e desconhecida e começa a falar sobre a recepcionista Bianca, que é lésbica: “Hum. Pra aquela sapatinha da recepção não tá lá aposto que ela tá naquela bagunça, no apartamento do Jorge Horácio, né. Hum. Sapata é fogo, né. Impressionante. Como é que pode gostar de mulher, gente. Só de pensar nisso me dá uma angústia”. Ao associar a orientação sexual de Bianca com “bagunça”, vemos que a fala de Silvana reforça o estereótipo de que lésbicas se relacionam com várias pessoas ao mesmo tempo. A mesma coisa acontece na fala de Pascal, quando ele responde a Jorge Horácio que não vale a pena tentar conquistar Zenaide, que é bissexual: “Ahh não, pelo amor de Deus. Já namorei uma bissexual e não vale a pena. É o dobro de chance de você ser chifrado”. Com essa fala de Palcal, vemos que ele também reforça um estereótipo ao condicionar a traição de uma pessoa à sua orientação sexual e não ao seu caráter.

Ainda no Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados foi bem variado, tendo se mostrado razoável em uma emissão; bom em três; e muito bom em uma. No geral, os episódios são bem heterogêneos quanto à representação dos diferentes grupos sociais, principalmente no que se refere à cultura, à sexualidade e aos pontos de vista. No episódio que mais se destaca no plano do conteúdo (exibido no dia 4 de maio de 2007), por exemplo, é possível identificar a presença desses três fatores: na cultura, a diversidade está no contraste entre os personagens fixos da trama, Jorge Horácio, Zenaide e Pascal, que fazem parte de uma equipe de televisão, e os personagens convidados, moradores do subúrbio que compõem a festa Noite de queijos e vinhos, e que não entendem as expressões usadas pela equipe de gravação; na sexualidade, a diversidade é trazida à tona com a atuação de Bianca e Zenaide, mulheres lésbicas e bissexuais, respectivamente; e nos pontos de vista a diversidade está nas diferentes opiniões emitidas sobre um determinado assunto, facilmente visualizados nas discussões e discordâncias de Jorge Horácio e Silvana.

Quanto ao indicador de qualidade oportunidade, a avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato de Minha Nada Mole Vida abarcar assuntos cotidianos da vida de uma pessoa, incluindo seus problemas, questionamentos e prazeres na vida social ou familiar. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão, como a vinheta de abertura descontraída, o figurino moderno e a linguagem informal, conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos, que se baseiam na comédia gerada pelo dia-a-dia de um atrapalhado apresentador de TV. No começo de todo episódio, por exemplo, na primeira cena sempre é apresentado ao público um problema da relação de Jorge Horácio com sua ex-mulher ou filho, ou um problema que envolve o seu trabalho. Basendo-se em uma dessas duas questões, portanto, o programa deixa sempre bem clara a sua proposta e já na primeira cena o espectador entende o que será tratado no decorrer do episódio.

Inovação e experimentação não são o carro-chefe do humorístico, já que tinha o mesmo formato de diversos outros programas já existentes e conhecidos do público, como Os Normais, da mesma emissora, que também era protagonizado por Luiz Fernando Guimarães e tinha a mesma equipe de roteiro e direção, além de também focar no dia a dia das pessoas, mais especificamente no de um casal de noivos. Entretanto, com relação à originalidade/criatividade, podemos dizer que Minha Nada Mole Vida foi razoável, pois o modo como é elaborada a história pode gerar curiosidade no público e o instigar a ver os acontecimentos e peripécias do desenrolar da trama.

Solicitação da participação ativa do público também foi razoavelmente identificada nas emissões. Isso se deve, principalmente, à linguagem coloquial utilizada e à estreita relação programa-espectador estabelecida quando a tela que o público vê é a mesma tela que o espectador do Jorge Horácio By Night vê. Esso mescla de ficção e realidade acontece para interagir o público, e fica evidente quando na tela Jorge Horácio é mostrado olhando para a câmera do seu cinegrafista, em plano médio ou plano americano, e posteriormente a sua imagem em grande plano, com o logo da emissora a que pertence o programa de Jorge Horácio no canto inferior direito da tela.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas não foi observado no decorrer dos episódios analisados, mas foi considerado “fraco” apenas pelo fato de o programa dialogar com a vida real e fazer referência implícita aos programas que se dedicavam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., que na época apresentava o Programa Amaury Jr. na RedeTV!, que tinha o mesmo formato que o Jorge Horácio By Night. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual:

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Como aqui procuramos demonstrar, no modo de representação a atuação dos personagens e a construção dos diálogos de Minha Nada Mole Vida geram o riso e reforçam estereótipos, mas deixa claro que de um modo geral o programa têm a intenção de levantar discussões e assuntos pertinentes da vida em sociedade. Entretanto, tais temas abordados, apesar de relevantes, podem não ter sido suficientes para conduzir o espectador a uma reflexão mais profunda, visto que acontecem em tempo curto ou apenas “jogam” a discussão para o público, sem se estender muito, deixando que ele mesmo tire suas próprias conclusões.

Quanto aos modos de experimentação, o uso dos recursos técnico-expressivos se dá de forma a aproximar o espectador. O refrão da música de abertura do programa Jorge Horácio By Nigh, que marcou o personagem de Luiz Fernando Guimarães na vida real, e a mescla de ficção e realidade comprovada quando a imagem vista pelo público de Minha Nada Mole Vida é a mesma que a vista pelo público do Jorge Horácio By Night, evidencia a tentativa de inserir o espectador no processo narrativo, para que assim as chances de envolvimento e reflexão do mesmo sejam aumentadas diante das discussões levantadas pelo programa.

Por Luma Perobeli

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