No meu palanque: o olhar que se faz sentir e ouvir

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O que será que aqueles que, quase nunca têm a oportunidade de se dirigir a nós, nos dizem sobre o que sentem? E afinal, o que passa na mente de crianças que estão fora de casa, sem o suporte e o amparo dos pais, tendo que enfrentar situações que exigem de si maturidade e capacidade de resolução de todos os problemas?

O documentário “No meu palanque” (2009), de Victor Carrera, nos revela esses sentimentos que dois meninos em situação de rua, Marcelo e Jackson, guardam em si e que não podem expressar em seu cotidiano. Nas ruas de Quito, capital do Equador, eles buscam a sobrevivência diária, passando pelas dificuldades de conseguir um alimento para comer, um lugar seguro para dormir, um meio de se aquecer nos dias frios, e a coragem e força para lidar com o medo e a solidão.

A fotografia do documentário, toda em preto e branco, já traz em si um pouco da sensibilidade que ele quer passar: o olhar de quem tem uma vida dura, fria, sem cores. É esse olhar, o dos próprios personagens, que ganha destaque durante todo o filme. A voz do documentarista não aparece. Quem tece a narrativa são os meninos, que, pouco a pouco, descortinam para o espectador as nuances nada fáceis da vida nas ruas, uma vivência, no caso de Jackson, escolhida como fuga da convivência difícil em casa, com o pai alcoólatra.

O outro personagem central, Marcelo, diz que era tratado mal em casa e continua sob o mesmo tipo de tratamento nas ruas e que isso nunca o deixa seguir adiante, virar a página. Ele expressa esse sentimento de inferioridade relatando as abordagens de policiais, quando as pessoas, no sinal onde faz malabares lhes ignoram ou quando se sente só e com medo na noite. Sua esperança é uma: “que as pessoas o tratem bem”.

Ao falar sobre os malabares, percebe-se que os meninos encaram a atividade como um trabalho – outra questão a que crianças e adolescentes em situação de rua estão, muitas vezes, sujeitas: o trabalho infantil. Observa-se que eles não notam a gravidade no fato de serem crianças e trabalharem. A vulnerabilidade em que estão imersos exige deles a maturidade de adultos. Marcelo aponta mais uma questão: as pessoas não dão dinheiro a Jackson pelo fato de ele ser negro e ser julgado como um ladrão, e diz que o amigo fica triste por não receber um “trocado” pelos malabares que faz. Jackson diz: “eu não me sinto motivado, porque eles não me dão nada”. Afinal, até onde pode ir a consternação do sentimento de exclusão ou de invisibilidade?

Os meninos falam de Elvis, um amigo que teve sua perna queimada nas ruas e está no hospital. Elvis assume o discurso e conta que, quando estava em casa, não gostava de brigar e de roubar as coisas de outras pessoas e que diziam que ele não fazia nada. O problema das drogas também é citado, quando Marcelo passa por um avião abandonado no Parque La Carolina e diz que alguns dormem por ali. Maurício, um jovem que também vive nas ruas, relata que já viu os mais velhos abusarem dos mais novos. Ele ainda afirma que as pessoas pensam que a situação de rua é imutável, que todos que vivem nas ruas estão condenados a permanecerem lá.

É nesse momento que Victor Carrera dá um corte no filme para trazer um pouco de esperança. Ele insere a fala de Elvis, que diz sonhar ser médico para cuidar das pessoas, ou bombeiro, porque “a profissão é excitante”. Mas logo a cena é interrompida pelo registro de Marcelo fazendo malabares nas ruas e juntando um a um os centavos que ganha. Quando percebe que só conseguiu nove centavos, diz: “nada demais, exceto que eu vou dormir na arquibancada”. E assim o filme se encerra.

Como muitas outras produções que tratam de temáticas semelhantes, a forma como o filme termina é um modo de dizer que nada muda, que tudo termina como está, ou seja, o documentário não é capaz de operar transformações. Mas ele pode despertar as pessoas para que elas mudem a si e ao seu redor, embora não se possa dizer que o documentário tem uma missão transformadora declarada. Ao dar a voz aos meninos, que quase nunca têm a chance de se expressar, Victor abre uma possibilidade de escuta, especialmente porque o olhar que impera no filme é o dos meninos. Eles olham para as ruas e para si mesmos, desabafando sobre os momentos em que se sentem inferiorizados em suas rotinas de sobrevivência. É um olhar dói em quem assiste, que se faz a partir do “sentir o outro”, “sentir a dor do outro”.

O que transborda

Tratar de temas marginais não é uma tarefa fácil, pois corre-se o risco de reforçar a condição de quem está naquela situação. Contudo, observa-se algumas escolhas de Victor que buscam minar formas de controle e poder sobre os personagens, como a própria pergunta, a entrevista. Como a voz dele não aparece e os meninos que discursam, como se eles mesmos fossem os donos da narrativa, de certo modo, há uma quebra do jogo de poderes. O destaque à figura humana, através do privilégio maior aos relatos, pode ser uma forma de realçar os afetos e a potência transformadora deles.

“No meu palanque” é um filme da palavra, em que ela assume o protagonismo, pois quase nunca pode se expressar no dia-a-dia daqueles meninos. O que se nota, como diz Comolli (2008) é que o filme busca, ao invés do “tudo ver”, típico do espetáculo, o “melhor ver” – melhor ver, sentir e, sobretudo, ouvir.

Assista ao documentário aqui: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/palanque/

Por Tatiana Vieira

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