Observatório da Qualidade no Audiovisual

Projetos

Os projetos de pesquisa e extensão estão embasados, de modo geral, nos conceitos de cultura participativa, qualidade audiovisual e literacia midiática.

Jenkins (2008) define a cultura participativa como um fenômeno que se desenvolve com a convergência de mídias, que promove não apenas a possibilidade de várias mídias se comunicarem, mas também aproxima as pessoas que estão espalhadas em diversas partes do mundo, abrindo a possibilidade de elas estarem em contato para trocar informação e produzir conteúdo. Neste sentido, o estudo sobre a cultura participativa requer o entendimento sobre as várias produções, ações e atividades que estão em operação na cultura digital.

Nossa discussão se dá pelo viés dos estudos sobre a qualidade no audiovisual e a literacia midiática, que no nosso entender são conceitos que se apresentam de modo imbricado na cultura participativa. Entendemos que o debate sobre a qualidade pode nos ajudar a promover o desenvolvimento da literacia midiática. Em resumo, os valores qualitativos agregados a um produto cultural o diferencia dos demais, promove a melhoria da oferta de conteúdos e da própria literacia midiática, que está intrinsecamente ligada à produção e ao consumo de conteúdo. Com isso, não nos referimos apenas ao consumo, mas também à capacidade crítica de acessar e de criar conteúdo, que vem se tornando cada dia mais frequente nos meios digitais.

A qualidade no audiovisual é debatida e faz parte da agenda cultural e acadêmica desde os anos 1980. Apesar da controvérsia que o conceito gera e da argumentação corrente de que a qualidade está relacionada com critérios de gosto, que são muito subjetivos e que, portanto, desqualificam a discussão no âmbito acadêmico e científico, além de ser entendido algumas vezes a fim de atender interesses específicos, o foco da discussão sobre a qualidade ganhou um novo espaço de atuação com o desenvolvimento da tecnologia digital e a consequente convergência dos meios. Adquire especial relevância porque estamos expostos a uma infinidade de conteúdos audiovisuais produzidos por qualquer indivíduo em qualquer parte do mundo, sendo que, muitas vezes, estes conteúdos propagam ideias discriminatórias, xenófobas, racistas, entre outros atributos perniciosos.

Temos desenvolvido vários estudos que discutem a questão da qualidade na televisão e no audiovisual e uma das conclusões a que chegamos é que pode ser bastante produtivo pensar na definição de parâmetros de qualidade que possam ser discutidos em relação à produção, análise e consumo de conteúdos produzidos e veiculados pela televisão e outras plataformas de convergência (BORGES, 2007a, 2007b, 2008, 2009, 2011a, 2011b, 2014).

Em linhas gerais, os parâmetros de qualidade com os quais temos trabalhado contemplam os seguintes aspectos: a importância do papel desempenhado pela televisão enquanto um serviço público, que reflete e tem reflexos na vida das pessoas, cria laços sociais e tem a capacidade de desenvolver a consciência crítica na formação cultural e política dos cidadãos. Além do seu papel na produção de valores agregados, na formação de mentalidade e no estímulo ao exercício da cidadania. O segundo aspecto considera o que Mepham (1990, p. 57) se refere como a veiculação de narrativas úteis, que originam questionamentos, debates de idéias e diferenças de opiniões. O terceiro aspecto contempla as propostas estéticas dos conteúdos audiovisuais e discute o experimentalismo e a originalidade no uso da tecnologia digital. O quarto aspecto considera a literacia midiática e as formas com que o público interage com as narrativas audiovisuais a partir de seu repertório e de diferentes entendimentos, centrando-se nas atuações da cultura participativa.

No contexto de convergência, presenciamos a complexificação da produção televisiva, em que novos produtos híbridos e transmidiáticos têm sido produzidos para formatos multiplataformas e o crescimento dos estudos sobre o consumo midiático. Percebemos que, para compreender os fenômenos da cultura participativa, não é suficiente analisarmos apenas a produção audiovisual, pois esta está intrinsecamente ligada ao consumo e à produção por parte de consumidores e, principalmente, pelos fãs de conteúdos midiáticos.

Sendo assim, nossas pesquisas têm o intuito de entender como são construídas as narrativas, como elas colaboram para a formação do repertório cultural e se contribuem para o desenvolvimento de senso crítico e da atuação cidadã. Além disso, consideramos importante compreender as formas de engajamento e os modos de expressão dos telespectadores, que se tornaram interagentes, a fim de discutir aspectos como o direito à comunicação e à informação constitucionalmente garantidos, entre outros. Neste contexto, torna-se indispensável o entendimento das competências midiáticas que são acionadas pelo público para se engajar e produzir sentido a partir das narrativas. Não podemos mais analisar os processos de produção midiática e, principalmente, audiovisual, sem levar em conta os processos de interação do público, que não apenas assiste, mas também produz conteúdo midiático concomitantemente ao processo de visionamento. É neste sentido que a literacia midiática contribui para este debate, porque promove a autonomia e o desenvolvimento da capacidade crítica dos cidadãos, estando presente nos três momentos do processo comunicativo: produção, circulação e consumo.

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