Número Zero: um documentário de relações

19398929_10209659129499342_1074816101_nA situação de rua de crianças e adolescentes não é uma questão restrita aos dias atuais. Já na década de 1990, quando o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) entrava em vigor, muitos meninos e meninas viviam nas ruas das grandes cidades, cada um com sua história, motivações peculiares para sair de casa e para permanecer nas ruas.

Foi nessa época que Cláudia Nunes realizou um workshop onde ela conheceu de perto a realidade desse grupo na cidade de Goiânia. Sua proposta não se limitou apenas a filmá-los. A jornalista e documentarista quis compartilhar o próprio ato de filmar com eles. O resultado foi o curta Número Zero, montado e lançado apenas 20 anos depois, e com uma proposta diferente da que havia motivado as gravações: tornar pública a produção na tentativa de localizar aquelas crianças e adolescentes que apareceram diante da câmera e, assim, conhecer o destino de suas vidas.

A produção, em preto e branco, é marcada a todo tempo pelas frases: “filma aqui!”, “filmando!”, “deixa eu filmar um pouquinho!”. Quando a câmera é manuseada pelos personagens do filme, ela é tratada como algo fantástico, quase sobrenatural, capaz de revelar suas imagens de uma forma nova. Em vários momentos, eles encenam diante dela, fingem lutar entre si, beijam-se, dançam e aproximam-se dela com o intuito de desvendá-la. Parece um corpo estranho, mas que dá a eles o status de heróis pela visibilidade perdida nas ruas. Em um dos momentos, questionada por Claudia qual seria o seu sonho, uma menina responde: “ser artista de televisão”. É a força do espetáculo que impera tanto naquele momento da filmagem – quando eles se vêem ludibriados por estar diante da câmera – quanto em seu próprio mundo imaginário, de sonhos e aspirações.

Dentre as cenas gravadas pelos personagens, há abordagens violentas de policiais, consumo de drogas e o funeral de uma criança – o lado perverso da vida nas ruas. Ao mesmo tempo, são mostradas cenas de brincadeiras e amizade entre eles – a força da infância que a rua não consegue apagar. Quando Claudia intervém com perguntas, mesmo sem aparecer no filme, são questões relacionadas aos motivos de estarem nas ruas, situações vivenciadas (como a exploração sexual por policiais), se desejam permanecer nesta condição e quais os seus ideais. Uma das personagens diz que iria voltar para casa porque já tinha realizado seus dois sonhos: “ser presa e ser menina de rua”. E justifica o segundo desejo: “porque meninos de rua têm liberdade. A gente não precisa trabalhar. A gente tem amigos”.

Mais do que denunciar esta questão social, Claudia constrói uma narrativa pautada essencialmente nas relações: entre ela e os meninos, entre os meninos e a câmera, e entre eles próprios. Para Comolli (2008), é nisso que reside a essência do documentário: na relação – laço, afeto, dependência – da palavra e do corpo. Filmar o documentário é uma forma de ressignificar o mundo, fazendo-o existir para nós, ou seja, “organizar para o homem um lugar humano” (COMOLLI, 2008, 117). E não há nada mais humano que as próprias relações e os sentimentos que dela advém: partilha de afetos que leva nós, espectadores, a um estado de suspensão.

Assim, mesmo que tenha sido gravado há mais de 20 anos, conseguimos nos atualizar em cada cena, perceber o presente de cada encontro e fabular o futuro dos personagens, hoje, adultos. Esta procura é a mesma de Cláudia, ao decidir compartilhar a sua experiência tanto tempo depois. E como Di Tella (2005, p. 72) reforça: “todo documentário do passado nos fala, acima de tudo, do presente”.

O que transborda:

A vida nas ruas para crianças e adolescentes é dura. Talvez os force a amadurecer mais cedo, dadas as circunstâncias que lhes são impostas. Mas isso não lhes tira sua essência humana e pueril. É essa essência que Número Zero nos revela ao dar destaque às relações e aos encontros. Sua política não reside na denúncia, mas no convite a um novo olhar, a participar das relações que ali se estabelecem, de modo a ocupar um lugar no filme que nos permita conhecer cada personagem e enxergar além do estereótipo de “menino de rua”.

Assista ao curta aqui: http://curtadoc.tv/curta/comportamento/numero-zero/

Por Tatiana Vieira

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