O Tempo e o Vento

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  • Roteiro: Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas
  • Colaboração: Marcelo Pires
  • Direção: Jayme Monjardim
  • Período de exibição: 01/01/2014 – 03/01/2014
  • Nº de episódios: 3
  • Horário: 22h30

Exibida pela Rede Globo no início de 2014, a minissérie O Tempo e o Vento é uma versão televisiva do filme homônimo dirigido por Jayme Monjardim, que também assina a direção do folhetim. A obra é inspirada no livro O Tempo e o Vento, do escritor brasileiro Érico Veríssimo, e conta a história de várias gerações da família Terra-Cambará, bem como sua rivalidade com os Amaral. Como pano de fundo, tem-se a história da formação do Rio Grande do Sul e as diversas disputas que permearam tal parte do país.

A trama é narrada por Bibiana (Fernanda Montenegro/Marjorie Estiano/Janaína Kremer), que, já envelhecida, relembra a história da família com o falecido Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). O elenco ainda conta com Cléo Pires (Ana Terra), José de Abreu (Ricardo Amaral), Leonardo Medeiros (Bento Amaral), Igor Rickli (Bolívar), Mayana Moura (Luzia Silva), Matheus Costa (jovem Pedro), Martín Rodriguez (Pedro adulto), entre outros.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e ediçãoEm relação ao indicador ambientação, as filmagens iniciais da minissérie ocorreram em Pelotas, em um casarão do século XIX. Já a cidade cenográfica de Santa Fé, onde se passa a maior parte da trama, foi construída em Bagé, também no Rio Grande do Sul. Como a trama tem como pano de fundo a formação do Rio Grande do Sul, onde se passa a história de Veríssimo, os locais das filmagens tornam as paisagens da série totalmente condizentes com o livro que a inspira.

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Do mesmo modo, o figurino acompanha o período histórico de cada geração da família Terra-Cambará, assim como a origem de cada personagem. Tem-se como exemplo Ana Terra (Cléo Pires), que, morando no campo, apresentava roupas simples e neutras. Já Luzia (Mayana Moura), pertencente a outro período histórico e classe social, usava roupas mais sofisticadas e bem elaboradas. As roupas escuras da personagem, somadas à maquiagem mais pesada, também endossam a personalidade da moça, considerada agressiva, louca, quase mórbida. Peças gaúchas típicas, como ponchos, também se mostraram presentes na minissérie, ajudando na ambientação. Além disso, os personagens possuíam sotaque de acordo com sua origem e utilizavam expressões características da época, como “vosmicê”, conferindo verossimilhança à história.

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A trilha sonora não teve grande destaque, uma vez que era utilizada, principalmente, para reforçar o caráter emocional de algumas cenas, como episódios de tensão ou romance. As músicas eram predominantemente instrumentais. Entretanto, nos momentos em que Pedro(Martín Rodriguez) tocava flauta, a trilha sonora ocupava um espaço narrativo relevante, uma vez que o instrumento remontava as origens do personagem e foi um ponto memorável na relação entre Pedro (Martín Rodriguez) e Ana Terra (Cléo Pires).

 A fotografia, no entanto, se destaca por colaborar na ambientação da minissérie. Nas cenas filmadas nos casarões, há a presença de muitas sombras. Já as cenas filmadas externamente são muito iluminadas. As cenas internas noturnas contam com a presença de muitas velas, características da época. Além disso, em certos momentos, a fotografia reforça sentidos, como na cena em que Pedro (Matheus Costa)está cantando em uma celebração católica. Em tal momento, as crianças que cantam recebem uma iluminação azul, que remete a algo celestial. Dessa forma, a fotografia passa de tons quentes a tons frios dependendo do ambiente e do contexto de cada cena.

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Em relação à edição, a minissérie apresenta uma cronologia não-linear, uma vez que Bibiana (Fernanda Montenegro), já idosa, recorda a história da família, contada em flashbacks. Desse modo, a narrativa transita entre passado e presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. A intertextualidade está presente apenas nas referências a locais como o Rio Grande do Sul e a episódios históricos como a Farroupilha. A referência a tais elementos ajuda o espectador a se situar historicamente e geograficamente dentro da narrativa. Como a minissérie, assim como o livro, aborda a formação do Rio Grande do Sul, as referências ao estado e a conflitos históricos se fazem importantes para a compreensão da trama, além de conferirem verossimilhança à história.

Já as setas chamativas foram observadas em alguns momentos, facilitando a interpretação do telespectador. Tem-se como exemplo o início do primeiro episódio, que traz explicações sobre a situação do país no período histórico em que se passa a trama. Ainda no mesmo episódio, quando Capitão Rodrigo sobe ao quarto da idosa Bibiana(Fernanda Montenegro), ela o indaga sobre como conseguiu entrar no casarão. Ele responde: “A bala que me procurava já me alcançou há mais de 50 anos”, dando índicos de que já está morto. Dessa forma, procura-se dar explicações ao telespectador, embora não fique claro como o encontro entre Bibiana (Fernanda Montenegro) e Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) se faz possível.

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Em relação aos efeitos especiais narrativos, há clímax e reviravoltas nos plotsde cada geração da família Terra-Cambará, os quais desenvolvem a narrativa. Entretanto, em nenhum momento o telespectador reconsidera tudo visto até então ou há mudanças significativas no estilo narrativo.

Por fim, no que se refere aos recursos de storytelling, há a utilização de alterações cronológicas, marcadas por flashbacks que surgem ao longo da narração de Bibiana (Fernanda Montenegro). Dessa forma, a narrativa transita entre passado e presente. Além disso, há a presença de sequências fantasiosas, uma vez que o já falecido Capitão Rodrigo(Thiago Lacerda) vai ao encontro da idosa Bibiana (Fernanda Montenegro), momento a partir do qual começa a minissérie. Os diálogos e interações dos dois não são explicados didaticamente, cabendo ao espectador interpretar a situação de acordo com o contexto. A última cena acompanha a centenária, agora jovem novamente, indo ao encontro do Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) para, juntos, irem embora. Nesse momento, o bisneto do casal os vê e se despede com um aceno. Mais uma vez, cabe ao telespectador interpretar a cena e completar o sentido da narrativa.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

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