Ônibus 174: retorno ao passado que nos convida a repensar estigmas sociais

174

12 de junho de 2000: na Zona Sul do Rio de Janeiro, um dia que poderia ser como outro qualquer é marcado por um fato que muda toda a rotina da região nobre da capital carioca. O ônibus da linha 174 Gávea-Central do Brasil é parado por um jovem armado, que faz todos os passageiros seus reféns. Em pouco tempo de ocorrência, toda a imprensa já rodeava o local, na ânsia por captar os movimentos do sequestrador e ganhar uma audiência ávida por suspense. Tudo foi transmitido ao vivo. Por trás da arma, estava Sandro Barbosa do Nascimento, 21 anos, nascido em São Gonçalo. A ocorrência, que durou quase 5 horas, teve um final trágico: a refém Geísa Firmo Gonçalves morreu baleada pelo assaltante e Sandro também faleceu, morto asfixiado dentro de um carro da Polícia Militar.

Muito se falou durante e após o sequestro, mas as informações transmitidas pela imprensa basicamente se limitavam ao fato em si. Assim, aproveitando-se da potência inerente ao documentário, que investe na duração da fala (COMOLLI, 2008), o cineasta José Padilha produziu a obra Ônibus 174 (2000), buscando percorrer toda a trajetória de Sandro com o suporte de imagens de arquivo, documentos e depoimentos de várias pessoas que estiveram ligadas a ele em alguma fase de sua vida (como meninos em situação de rua, policiais, reféns, profissionais envolvidos, jornalistas e especialistas). O que se descobre é uma história repleta de traumas, perdas e violências.

Aos seis anos de idade, Sandro assistiu o assassinato de sua mãe (que estava grávida), morta a facadas. Pouco depois, o menino foge de casa e passa a viver nas ruas, quando presencia, em 1993, o episódio que ficou conhecido como a “Chacina da Candelária”, em que oito crianças em situação de rua são assassinadas por policiais. Sandro continua nas ruas, fazendo pequenos furtos para sobreviver e consumir drogas, mas sempre alimentando o sonho de ser um artista. Ao trazer os vários relatos e tecer a sua narrativa, José Padilha deixa suspensa a ideia de que o sequestro, com cobertura em tempo real pela mídia, deu ao sequestrador a chance de se fazer existir, alimentando os seus sonhos mais recônditos.

Tema e montagem

Ao longo dos 150 minutos de filme, Padilha traça uma narrativa que não segue uma ordem cronológica, mas temática. O filme divide-se em blocos que tratam da ocorrência no dia 12 de junho de 2000: Chacina da Candelária, histórico policial de Sandro, morte da mãe, ação da polícia no sequestro, reféns e cerco policial final. Para tecer a narrativa, Padilha utiliza-se de câmeras lentas e imagens aéreas, além de registrar algumas cenas tratadas nos discursos, como a vida nas ruas, a internação nas instituições para menores infratores, dentre outras.

A voz do cineasta aparece em alguns momentos, em off, lendo documentos como boletins de ocorrência, sentença, situação de internação ou trechos de notícias. Os entrevistados por vezes aparecem falando diante da câmera e em outros casos, tecem a cobertura off de imagens. Somando-se a tudo isso, é utilizada uma sonoplastia carregada de um tom de angústia, convidando o espectador a adentrar no mundo de afetos que a obra propõe, onde sobressaem a culpa (por ser membro de uma sociedade que invisibiliza pessoas como Sandro) aliada ao sentimento de impotência diante da omissão do Estado em oferecer um suporte para meninos em situação de vulnerabilidade e também do despreparo da polícia na condução da ocorrência.

Quanto à relação dos personagens com o diretor, ela nos parece um pouco distante, pois a maioria dos relatos são colhidos seguindo o modo jornalístico da TV, em que o entrevistador não aparece e nem a sua fala. Contudo, há uma relação interessante que pode ser observada: Padilha tentou inserir vozes múltiplas, apresentando uma teia complexa de depoimentos que, juntos, reconstituem a vida de Sandro. Nesse sentido, há abertura para que os espectadores se identifiquem com algum dos personagens: seja a refém, a tia de Sandro, seus amigos, profissionais que com ele conviveram, dentre outros. A frustração que muitos demonstram em suas falas é compartilhada com quem assiste ao documentário, assim como a crítica à atuação da mídia, que transformou a tragédia em espetáculo, e aos policiais que demonstraram despreparo ao lidar com aquela situação.

Voz do documentário

Sabe-se que Padilha quer reconstruir a história de Sandro com o máximo de veracidade, mas ainda sim, é importante observar que há um olhar por detrás do filme e mais do que isso – um condutor da narrativa que a escreve com um recorte específico: mostrar o que a mídia tradicional não revelou. Conforme o próprio cineasta declarou em uma entrevista para o Jornal Gazeta Mercantil, sua composição fílmica teve um sentido ideológico:

Por que, então, só peguei a história dele? Porque ela é capaz de gerar lições sobre o Estado brasileiro, coisa que a história da minha vida, da vida da Geísa, de outras pessoas, não faz. Sandro é um menino de rua no limite da miséria, e a história de uma pessoa na condição dele fala sobre como o Estado lida com o problema. (…) Ao documentar uma pessoa, documento um processo. (José Padilha).

Assim, embora muitas vozes sejam ouvidas no filme, há uma que fala mais alto: a voz do documentarista, que sabia exatamente o que queria extrair do fato e os impactos que desejava provocar no espectador.  O documentário de Padilha, através de suas escolhas de enunciação e enquadramento, acaba por trazer à tona a incapacidade do poder público em lidar com os problemas sociais e as vulnerabilidades a que muitos cidadãos estão sujeitos. Esse tom de denúncia faz o espectador questionar aspectos que vão além da segurança pública, abarcando também a assistência social e os direitos humanos. E mais do que isso: é um convite à auto reflexão, incitando-o a repensar os estigmas que perpetua, os olhares preconceituosos que espalha pelas ruas e a sua omissão quando o problema está longe de sua realidade.

Por Tatiana Vieira

Assista ao filme:

https://www.youtube.com/playlist?list=PLCp1shaOHTmyoGO56lqlVq76TXOgt0vH2

Referências:

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

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