Quando a casa é a rua: olhares e desconstruções

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Em 2011, o noticiário brasileiro foi tomado por uma informação alarmante, resultado de uma pesquisa inédita realizada pelo governo federal: quase 24 mil crianças e adolescentes tinham a rua como a sua residência ou passavam a maior parte do dia nela. Um ano depois, Thereza Jessouroun encontra-se com alguns daqueles que eram os números da pesquisa, em um documentário produzido pelo Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI), em parceria com o Coletivo para os Direitos das Crianças (CODENI), intitulado Quando a casa é a rua (2012).

A obra desafia não apenas o fato desses sujeitos serem costumeiramente vistos destituídos de sua humanidade; ela é sagaz quando busca estabelecer um paralelo entre a vida nas ruas do Rio de Janeiro e a vida nas ruas da Cidade do México, dando voz alguns personagens que nelas residem ou residiram. O que pode haver em comum entre dois países, além de sua condição socioeconômica ou localização geográfica? A dor de quem vive ou viveu na invisibilidade por muito tempo. Esse sentimento não se distingue de acordo com o espaço físico, a língua ou a cultura. É algo inerente ao ser. O que se vê, ao encontrar com os meninos e meninas que tecem a narrativa, é que há muito mais humanidade do que se imagina, muito mais enredo em suas vidas do que o perambular pelas ruas.

Uma tarefa que todo documentário se propõe é a de equacionar ou fundir os três olhares que nele perpassam: o do documentarista, o do sujeito filmado e o do espectador. Nesta obra, Thereza tenta uma solução para questão ao apresentar os personagens principais não em condições subumanas ou maltrapilhas, como eles geralmente são vistos ou se veem nas filmagens, sejam televisivas ou cinematográficas. Eles se apresentam como qualquer um de nós, desafiando o espectador a atentar-se não ao que representam, de acordo com a sua visão “policial” ou culturalmente formatada, mas sim à essência de seus relatos. Daí uma tentativa de exaltação da humanidade dos personagens centrais da obra, uma vez que o que nos faz humanos é o nosso “ser” e não o nosso “estar”. Com isso, o olhar do espectador é desafiado a arriscar-se.

O olhar da documentarista, por sua vez, ao pluralizar a questão dando vozes tanto a jovens que se encontram em situação de rua quanto aos que a superaram, busca uma forma de romper com os seus próprios estereótipos. Engana-se quem pensa que o documentário é ileso de subjetividade – por detrás da câmera há um ser social, alguém imerso no mesmo jogo de poder que o ser filmado e o espectador. A situação de rua passa, então, por um olhar que não a condiciona a um futuro vazio. Quem olha, vai além, ultrapassa as fronteiras do determinismo social e usa das arestas (no caso, os relatos de quem superou a rualização) para inserir, mais uma vez, o espectador no risco – o risco, segundo o qual Comolli (2012) diz ser a chave para que ele assuma uma dimensão crítica, na medida em que desafia suas crenças.

A narrativa

De um lado, o mexicano Javier e o brasileiro Fábio Mossca, donos da maior parte dos relatos, bem vestidos e com uma argumentação firme e incisiva – ambos que já superaram a vida nas ruas e os traumas dela advindos. De outro, os mexicanos Aidê, Jonathan, ainda em situação de rua. A família de Aidê também é chamada a discursar e relata que a jovem não quer sair daquela condição, considerada libertadora. Jonathan queixa-se do rolar-se em cacos de vidro para ganhar um trocado e sustentar-se. Seu sonho é dito em poucas palavras: “que me vejam como outra pessoa, não como alguém esquisito”.

Há, ainda, um quinto personagem, talvez o mais emblemático da obra: Vanderlei, o adolescente que é captado de maneira poética na obra – ele não discursa, apenas encena suas ações de dormir sobre o papelão na beira da praia, acordar e olhar para o horizonte, caminhar pelas ruas sem destino. Quem fala são os seus familiares, que assim, como os de Aidê, revelam que ele está nas ruas por uma decisão pessoal. Mais um risco: o de romper com a ideia de quem está nas ruas o está por falta de opção, miserabilidade ou ausência de suporte familiar. Por que não se pode viver onde se sente melhor, onde se consegue sentir verdadeiramente livre? Essa é uma pergunta que se expande na obra, que faz com que o espectador sinta o que Comolli (2012) classifica como o medo que é posterior à apreensão do filme pelo espectador.

Tais questões que revelam que mudar as peças do jogo social pode ser arriscado, mas é desse risco que o documentário se alimenta e faz dele um produto diferenciado dos outros dispositivos audiovisuais. Como ressalva Comolli (2008, p. 63), “o cinema mostrou que, de todas as artes, é a mais política”, porque somente ele consegue desafiar os poderes dominantes. Assim, mostrar a humanidade onde a sociedade não enxerga é mais que desafiar a narrativa – é um exercício libertador.

O que transborda, na visão do crítico/espectador

Assistir ao documentário não te deixará ileso de dúvidas. E é esse movimento que Comolli (2008) considera essencial: crer e deixar de crer, em um ciclo que vai além do instante de projeção do filme. Nesse sentido, o que transborda em Quando a casa é a rua é a certeza de que há vida dentro e fora da rualização, ou seja, para os que optam por viver nas ruas, por sentirem-se livres, pode ser simplesmente modo de vida, e para os que buscaram ajuda para livrar-se delas, há um horizonte novo e inteiro a percorrer. Nossos estereótipos de que a rua é o fim de toda uma possibilidade de futuro caem por terra. Nossas crenças são destruídas e é essa derrubada que nos faz ver além.

Conheça o documentário: https://www.youtube.com/watch?v=S4hYDRE-4qw

Por Tatiana Vieira

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