Narrativas Humorísticas

O que é?

O projeto Humor e Qualidade no Audiovisual Brasileiro é parte das atividades do Observatório da Qualidade no Audiovisual, que tem como objetivo operar como um espaço de diálogo e discussão sobre a produção audiovisual contemporânea. Com foco na curadoria de conteúdos audiovisuais brasileiros, propomos uma metodologia de análise semiótica de produtos humorísticos veiculados na televisão aberta e por assinatura no período de 1960 a 2014, e nos canais de humor do YouTube em atividade em setembro de 2015. Criado em 2013 e financiado pela FAPEMIG e pela UFJF, esperamos contribuir com a formação crítica de alunos de graduação e pós-graduação, bem como a discussão e análise de propostas estéticas que possam servir como referência cultural, artística e comunicativa para alunos, pesquisadores e público em geral.

Humor x Comédia

Luigi Pirandello, em sua obra O Humorismo (1996), ressalta uma clara diferença entre humor e comédia. Para o autor, a comédia gera o riso fácil, imediato e despreocupado diante do diferente, enquanto o humor se configura pelo riso ambíguo que antecede uma reflexão e é gerada por uma quebra da expectativa. Para Pirandello, o humorismo é um processo psicológico que tende a provocar um estado de espírito característico e particular de reflexão.

“A reflexão não se esconde, não permanece invisível, isto é, não permanece quase uma forma do sentimento, quase um espelho no qual o sentimento se mira; mas se lhe põe diante, como um juiz; analisa-o, desligando-se dele; descompõe a sua imagem; desta análise, desta decomposição, porém, surge e emana outro sentimento: aquele que poderia, chamar-se, e que eu de fato chamo, o sentimento do contrário” (PIRANDELLO, 1996, p.132).

Enquanto o cômico é uma simples percepção de algo, a reflexão humorística conduz o espectador além dessa primeira advertência, até o sentimento do contrário, ponto em que de fato ele refletirá sobre o que está a sua frente. Em sua obra, Pirandello metaforiza o riso comparando a comédia com o corpo, e o humor com o corpo e sua sombra: “o artista comum cuida do corpo somente: o humorista cuida do corpo e da sombra, e às vezes mais da sombra do que do corpo” (Pirandello, 1996, p. 170). Sendo esse “artista” um comediante qualquer, a preocupação está no riso (corpo), e sua única intenção é fazer o público rir; já o humorista, além de focar nesse riso do espectador, foca também na sua reflexão pós-riso (sombra), que por vezes fica mais evidente que a própria graça (corpo), isto é: o mais importante aqui é instigar o pensamento e gerar a reflexão, e não somente o riso despreocupado diante do diferente.

Humor de Qualidade

O humor de qualidade é aquele que provoca o riso ambíguo que antecede uma reflexão gerada por uma quebra de expectativa, e que está relacionado a uma produção de sentido que estimula o pluralismo e a diversidade cultural. A qualidade de um produto audiovisual está ligada à sua capacidade de promover o envolvimento de um grupo a partir do estímulo ao pensamento e ao debate de ideias, permitindo que os espectadores enriqueçam e aprimorem suas experiências.

Metodologia

Para definir a amostra e operacionalizar a análise, categorizamos o gênero humorístico na televisão em humor-jornalismo e humor-ficção.

O Humor-jornalismo se caracteriza pela reprodução de fatos reais e de interesse público de forma bem humorada (se valendo de traços do humor, como a ironia, o grotesco ou a sátira); pela apropriação da estética jornalística, seja com o intuito de desconstruir o discurso jornalístico ou de aproveitar a forma de levar “fatos reais” culturalmente conhecidos pela sociedade para mostrar suas idiossincrasias através de relatos fictícios.

O Humor-ficção requer a criação de situações ou cenas ficcionais. São programas que possuem um enredo com um conjunto de personagens principais que têm um desenvolvimento ao longo da trama.São normalmente programas verossímeis, como os sitcons, com situações bem humoradas do dia-a-dia. Essas situações podem tanto ser de comédia quanto de humor, uma vez que podem provocar o riso imediato e despreocupado (uma queda, algum ocorrido inusitado), ou podem apresentar caricaturas e paródias, gerando um riso ambíguo e a reflexão sobre a realidade.

Sendo assim, foram criados parâmetros de qualidade para a análise dos programas humorísticos da televisão aberta e por assinatura. Estes parâmetros estão articulados a partir de dois conceitos, os modos de representação e experimentação, que permitiram a sequência das avaliações dos programas da TV e serviram como ponto de partida para aos estudos dos conteúdos da internet.

Em ambas as plataformas, a análise é realizada a partir da avaliação dos Planos da Expressão, do Plano do Conteúdo, e da Mensagem Audiovisual. Para o Plano do Conteúdo e a Mensagem Audiovisual foram criados indicadores de qualidade para sistematizar a análise, que é feita a partir da seguinte escala: (0) não consta, (1) fraco/pouco, (2) razoável, (3) bom/considerável, (4) muito/muito bom.

Representação

Os modos de representação estão relacionados à criação e desenvolvimento dos personagens, na medida em que estes podem ser tanto caricatos, grotescos ou satíricos. Estão ligados à reflexão sobre o papel desempenhado pelos personagens humorísticos na nossa sociedade, isto é, indagamos se reafirmam estereótipos e lugares-comuns; se criam bordões que se perpetuam; se criticam os costumes e/ou fazem algum tipo de crítica social; enfim, se contribuem para quebrar tabus e promover a diversidade em suas diversas acepções. Nosso interesse é perceber se a criação dos personagens humorísticos contribui de alguma forma para pautar temas relevantes socialmente e para deslocar a atenção da banalização social que a televisão reitera incessantemente na maioria dos seus programas.

Experimentação

A experimentação está relacionada com a utilização dos recursos técnico-expressivos característicos da linguagem audiovisual de forma inovadora e criativa. Isto é, investigamos se os programas humorísticos criam propostas audiovisuais originais ou apenas reciclam formatos já existentes; se os recursos técnico-expressivos contribuem para a construção de narrativas que promovem a diversidade e o debate de ideias e de pontos de vista. Além disso, discutimos também a forma como o programa incentiva a participação do público e dialoga com outras plataformas, principalmente na internet.

Amostra

Os trabalhos do projeto Humor e Qualidade no Audiovisual Brasileiro se desenvolveram em duas fases: na primeira, fizemos a curadoria dos programas humorísticos da TV e da internet, e na segunda, a análise do conteúdo selecionado. Para a primeira etapa fizemos um levantamento de todos os programas de humor da televisão aberta e por assinatura desde 1960 até 2014, coletando 78 programas, e selecionando para análise 26, sendo 18 da TV aberta e oito da TV por assinatura. Da internet, selecionamos para análise 18 dos 47 canais do YouTube levantados, que tinham mais de 100.000 inscritos,periodicidade de publicação definida e que estavam em atividade durante o mês de setembro de 2015.Na TV, a amostra dos episódios dos programas se deu de forma aleatória, de acordo com a sua disponibilidade em sites e DVD’s.

Análise

A segunda fase do projeto realizou a análise propriamente dita dos conteúdos audiovisuais. Com base na metodologia semiótica doPlano da Expressão, do Plano do Conteúdo e daMensagem Audiovisual, definimos indicadores de qualidade.

Plano da Expressão

Os aspectos considerados na análise do Plano da Expressão levam em conta a produção de sentido a partir dos elementos estéticos; o uso dos recursos expressivos; a atuação dos personagens, apresentadores e entrevistados, e se organizam em quatro códigos: os códigos visuais (câmera, cenário, figurino, maquiagem, atuação do elenco, iluminação e qualidade técnica da imagem); sonoros (tipos e qualidade técnica do áudio); sintáticos (edição e ritmo do programa); e gráficos (vinhetas, legendas, grafismos e rodapés).

Plano do Conteúdo

No plano do conteúdo, foram definidos quatro indicadores de qualidade. São eles:

Oportunidade: Nesse indicador de qualidade leva-se em conta se o produto audiovisual se pauta na agenda midiática para escolher os seus temas, e se esses temas são relevantes e agregam valores para o público. Além disso, consideramos também a atualidade dos temas no sentido de estarem presentes no cotidiano e na vida das pessoas, não necessariamente tendo que estar na agenda midiática. Sendo assim, procura-se aferir a pertinência e a relevância dos temas abordados em relação a uma dada conjuntura social, cultural e política.

Ampliação do horizonte do público: procura aferir se as propostas são, por natureza, polêmicas, contraditórias e férteis, no sentido em que farão os telespectadores interagentes refletirem sobre aquilo que estão assistindo. Tais propostas devem contribuir para ampliar o repertório cultural do público, dando a conhecer novas problemáticas. Os temas levantados devem ter determinada relevância ao ponto de ampliar a “visão de mundo” do espectador, apresentar outros pontos de vista e estimular o pensamento e o debate de ideias.

Diversidade de sujeitos representados: refere-se à representação dos diferentes grupos sociais trazidos pelo programa/canal. Para esse indicador devemos levar em consideração os mais diversos fatores que caracterizam os diversos grupos sociais, como a diversidade temática, geográfica, política, socioeconômica, cultural, étnica, religiosa, de gênero e de pontos de vista.

Desconstrução de estereótipos: verifica se as formas de representação e experimentação adotadas pelo programa/canal estão desconstruindo estereótipos já arraigados na sociedade. Nesse caso, o objetivo é fazer com que os espectadores pensem sobre o que estão assistindo e reflitam sobre as generalizações que se consolidaram ao longo dos anos.

Mensagem Audiovisual

Na análise da mensagem audiovisual, outros quatro indicadores foram aprofundados:

Originalidade/Criatividade: procura aferir em que medida o produto audiovisual apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, e experimenta com a linguagem audiovisual tanto em termos da apresentação quanto da abordagem de temas.

Diálogo com/entre plataformas: verifica se o produto audiovisual tem capacidade para se adaptar à convergência midiática, possibilitando uma interação entre diferentes tipos de plataformas e conteúdos, não se esquecendo dos crossovers, no caso de vídeos do YouTube, e das menções às outros programas, personalidades, e lugares reais, comumente vistas na TV.

Solicitação da participação ativa do público: refere-se à adoção de mecanismos utilizados para estimular a participação ativa do público. Dentre as formas mais comuns estão a comunicação direta entre o emissor e o público; a citação do nome do espectador; o uso de gírias (para o público jovem) ou de expressões mais formais (para um público mais maduro) e a forma de se dirigir ao público através da câmera.

Clareza da proposta: Procura aferir se o produto tem uma estrutura bem organizada, com um formato bem delineado que se repete ao longo das emissões, permitindo assim que o público reconheça os códigos visuais, sonoros, gráficos e sintáticos do produto audiovisual.

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