Sempre viva: pelo direito de permanecer onde estão e continuar sendo quem são

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Uma produção da Articulação Nacional de Agroecologia e Curta Agroecologia, em parceria com a VideoSaúde Distribuidora e o Canal Saúde, o documentário “Sempre Viva” traz asserções sobre o mundo das comunidades quilombolas apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais.

Com direção, roteiro e pesquisa de Tiago Carvalho, os 23 minutos de filme tentam resgatar a territorialidade de um povo, a identificação com o território que permeia o habitat que fundamenta o exercício de vida de uma comunidade, trazendo consigo a sua ancestralidade e o seu pertencimento ao lugar.

Essa territorialidade, enquanto esforço coletivo de um grupo social para ocupar, desfrutar, controlar e se identificar com um território, espaço em que as relações sociais, econômicas, ecológicas e culturais de um povo se manifestam, vem tendo o seu sentido podado pelo surgimento de parques de “conservação” e reservas, onde comunidades tradicionais há séculos colhem as suas flores e criam o seu gado.

Tal resgate, entretanto, é fruto dos vários olhares envolvidos na produção de “Sempre Viva”: o do cineasta, o dos personagens e o do espectador. E, com eles, uma encenação presente a todo o momento, afinal, “a cada presença para nós, tentamos interpretar a nós mesmos para outrem, e não seria diferente para a câmera” (RAMOS, 2013, p. 48).

A verdade e a encenação no documentário

Para além dos olhares dos personagens, a veracidade de suas falas, suas encenações e intenções gerais pretendidas por um documentário, que podem ser discutidos ou questionados, é preciso entender que “Sempre Viva” pode não ser uma narrativa que estabelece asserções sobre o mundo com as quais o espectador concorda, mas é uma narrativa com imagens-câmera feita sob um ângulo diferente daquele comumente abordado pela grande mídia, e que por isso o provoca e o instiga a lançar novos olhares para os povos tradicionais.

Resgatando não a luta pelo direito desses povos de ir e vir, mas a luta pelo direito de permanecer onde estão e ser quem são, “Sempre Viva” coloca no cerne da disputa territorial os protagonistas desse embate, segundo às suas asserções de mundo: de um lado, a versão dos agricultores e apanhadores de flores sempre-vivas; e, de outro, também.

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“Na época, a gente tirava era na base de 15, 20 mil quilos de flor que saía aqui da chapada. Hoje, se você tirar aí uns 2 mil quilos de flor, você tá tirando demais. Nós não temos a liberdade de apanhar onde nós apanhávamos. Porque o forte da flor mesmo, eles ficaram com tudo pra eles. E, na verdade, tá perdendo, porque eles não apanham e nem deixam os outros apanhar. Fica lá perdendo à toa no mato lá” – Lorico Loreto, agricultor e apanhador de flor.

Apesar dos vários desejos dos remanescentes quilombolas por uma vida melhor, no começo do filme, sob a paisagem da serra do Espinhaço em Minas Gerais, a voz-off de alguns personagens situa o espectador e anuncia a principal luta desse povo: a luta pela territorialidade de seus ancestrais. Após, a narrativa se dá pelos depoimentos dos trabalhadores prejudicados pelos parques, e pelas encenações feitas ao longo dos 23 minutos de história, procedimento considerado antigo e corriqueiro em tomadas de filmes documentários.

Sujeitos do real que encenam a realidade

A encenação-atitude (ou encen-ação), destacada em “Sempre Viva”, é aquela em que “os comportamentos detonados pela presença da câmera são os próprios comportamentos habituais e cotidianos, com alguma flexibilização provocada, justamente, pela presença da câmera e sua equipe” (RAMOS, 2013, p. 45). Diferentemente das encenações construída e locação, a encen-ação não envolve procedimentos que isolam por completo a ação do sujeito na tomada de seu transcorrer cotidiano, exatamente por não considerar esse sujeito um ser livre de encenações.

A partir de nove minutos e meio de filme, por exemplo, até pouco mais do 13º minuto, a colheita das flores é feita normalmente, mas com uma clara encenação de um dos personagens. “Aqui já começa umas florzinha. Vamos catando. Vamos embora”, disse Lorico Loreto à sua companheira de lida na roça, como se informasse a alguém que desconhecesse aquelas terras.

Enquanto os personagens do documentário protagonizam suas causas, sendo os sujeitos do real que também encenam a realidade, a vida segue com pessoas sendo marginalizadas porque estão apanhando flores, e o documentário segue nos mostrando a perversidade do mundo, afagada pela grande mídia que, ao contrário, propaga essa perversidade de uma forma que (quase) nos convence e (quase) nos faz compactuar com o mundo narrado por ela.

As verdades das diferentes mídias estão sendo construídas. Cabe a nós, os espectadores, escolher em qual acreditar.

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“Eles querem uma comunidade é desunida e quieta. O mundo tem que saber disso aqui, pra tentar reverter isso aí numa reserva de extrativismo, pra gente tentar voltar ao que era”  – Normandes de Jesus, agricultor e apanhador de flor.

Por Luma Perobeli

Assista ao documentário: https://www.youtube.com/watch?v=quD0HPYOxRo

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