Sensacionalista

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Sensacionalista foi um programa de humor exibido pela Multishow de 2011 a 2014. Inspirado no site norte-americano The Onion (“A Cebola”, em tradução livre), o projeto foi criado em 2009, por Nelito Fernandes, e permaneceu na TV por cinco temporadas, sendo transmitido toda segunda-feira, às 21h30, no canal fechado. Com um formato que se assemelha a um telejornal, o programa cria notícias fictícias com tom de verdade. Os âncoras, interpretados por Betina Kopp, Cristiane Pinto, Larissa Câmara, Tatá Lopes, Marcio Machado e Anderson Freitas, informam notícias que parecem reais, mas que não passam de grandes absurdos.

No Plano da Expressão, observamos que os apresentadores do humorístico se posicionam do mesmo modo que os apresentadores de qualquer outro telejornal verídico: apresentam a mesma entonação de voz, e as imagens são editadas da mesma forma, intercalando informação no estúdio e reportagem nas ruas. Nas externas, o jornalista faz uma pergunta séria, que é respondida também de forma séria pelo entrevistado, e a reportagem é toda construída de forma linear e bem editada, o que comprova a verossimilhança do programa ao seguir fielmente a estética de um telejornal. O cenário também se assemelha ao dos noticiários brasileiros: cores neutras, computadores e uma bancada, bastidores do jornal mostrado ao fundo, e os figurinos dos apresentadores constituem a paródia feita pelo Sensacionalista aos telejornais diários.

Os temas, que são completamente banalizados e inúteis, no sentido em que não acrescentam nenhuma informação à vida das pessoas, fazem parte das pautas dos jornais convencionais, sendo escolhidos, portanto, a partir de assuntos que estavam na agenda midiática. Mesmo não acrescentando informações úteis aos espectadores, o uso de estereótipos e o inusitado das notícias os levavam à reflexão sobre o sensacionalismo presente no jornalismo atual, ampliando, assim, o horizonte e o repertório cultural do público, fazendo-o pensar sobre novas problemáticas e pontos de vista.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade que se destaca é o diversidade de sujeitos representados, devido ao fato de os assuntos tratados serem variados e exigirem personagens diferentes nas interpretações. No caso específico do Sensacionalista, o personagem grotesco não só faz parte, como completa a narrativa já absurda e improvável do programa.

No entanto, esses personagens influenciam diretamente o indicador desconstrução de estereótipos, já que esta não é a proposta do programa, que “noticia” muitas vezes, por exemplo, o estereótipo do homem adúltero, um dos mais observados no segundo episódio da temporada dois. Dentre treze manchetes no Jornal Sensacionalista, três eram sobre o assunto:

“O Sindicato dos Dentistas se reuniram para pedir que as pessoas parem de falar que foram aos seus consultórios. Os dentistas se cansaram de ser usados como desculpa para adúlteros”;

“Camisinha com GPS. A mulher substitui a camisinha do marido por essa e, com isso, vigia o marido”;

“Em São Paulo, um empresário está ganhando muito dinheiro ajudando as pessoas a cometerem adultério. Ele inventou um spray que tonaliza a pele e disfarça a marca da aliança”.

No indicador de qualidade ampliação do horizonte do público, o Sensacionalista obteve maior destaque, porque apesar de tratar temas corriqueiros, os aborda de forma irônica, enfatizando o absurdo das situações, o que pode gerar no espectador uma nova forma de pensar sobre os assuntos discutidos. Veja, abaixo, exemplos sobre divórcio e a banalidade com a qual o assunto é tratado em noticiários, principalmente quando envolve celebridades:

“Uma bibliotecária faz book sensual para o marido, mas quando recebeu o resultado não se reconheceu e pediu o divórcio, pois acredita que é uma amante”;

“Um estranho pedido de divórcio chamou a atenção da vara da família. O marido estava arrumando a casa, fazendo comida, levando os filhos na escola e isso a incomodava”;

“Um outro motivo curioso de divórcio foi no Paraná. Uma produtora de eventos pediu a separação porque ao longo de um dia inteiro o marido não avisou a ela que ela estava com uma alface no dente”.

Já com o indicador oportunidade acontece o oposto: justamente por tratar temas banais, mesmo que estes gerem identificação no espectador por serem cotidianos e comuns, o programa deixa de falar sobre algo de interesse público ou que seja pertinente por meio do humor.

Abaixo, o gráfico com os indicadores de qualidade do plano do conteúdo.

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Na análise da Mensagem Audiovisual, ressalta-se a originalidade/criatividade do programa, que copia o formato de um telejornal em toda a sua composição estética, alterando justamente o conteúdo e trazendo assim novas camadas de significação ao produto final, fato que lhe atribui nota máxima nesse indicador.

Além disso, este formato apresenta clareza da proposta, pois é perceptível a intenção de satirizar a banalização da informação em noticiários e, sem dúvidas, gera a curiosidade do público, que fica atento à próxima informação, improvável de ser real, mas que foi estruturada de acordo com os critérios da narrativa jornalística, o que configura a solicitação de participação ativa do público, outro indicador de destaque no programa, característica que também é observada na interação direta dos atores com a câmera.

O indicador de qualidade diálogo com/entre outras plataformas se mostra no Sensacionalista por meio da citação de locais públicos reais, mesmo considerando que as notícias são simuladas, nas quais aparecem bairros, cidades e vias públicas conhecidas. Ademais, os episódios analisados apresentam o quadro Caravana Sensacionalista, que faz referência irônica a lugares já conhecidos, como no terceiro episódio da segunda temporada, em que a caravana vai à Nossa Senhora das Graças, cidade do Sul do Brasil, “onde ninguém acha graça de nada”, fazendo tanto um trocadilho com o nome, quanto às velhas piadas sobre gaúchos, que é sobre o que trata a “reportagem”.

Veja, abaixo, cada um dos indicadores do plano da mensagem audiovisual:

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Após esta análise, é possível concluir que o programa Sensacionalista possui diversas características que configuram um programa de qualidade, como originalidade e criatividade no formato, clareza da proposta, além dos modos de representação, que se referem à criação dos personagens e, logo, à diversidade de sujeitos representados. Além destes, a ampliação do horizonte do público por meio da ironia e do absurdo também é uma das características muito bem construídas do humorístico.

Entretanto, alguns indicadores como desconstrução de estereótipos e oportunidade deixam a desejar no que diz respeito à experimentação, pois, junto aos outros poderiam agregar à construção da narrativa se explorados, bem como a solicitação da participação ativa do público, que em um programa como esse, no qual é possível se identificar com diversas situações do dia a dia, poderia ser muito melhor desenvolvido.

Por Lilian Delfino

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