Sob Nova Direção

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Sob Nova Direção é uma série brasileira que apareceu na Rede Globo de Televisão em 28 de dezembro de 2003 como um especial de fim de ano. Menos de quatro meses depois, em 18 de abril de 2004, passou a compor a grade da emissora nas noites de domingo, ficando até 8 de agosto de 2007. Durante as quatro temporadas em que esteve no ar, contou com a direção de Roberto Farias e Mauro Farias, e redação final de Paulo Cursino. Segundo consta no site Memória Globo, da própria emissora, Sob Nova Direção é um programa que “mostrava as confusões das amigas Belinha (Heloisa Périssé) e Pit (Ingrid Guimarães) no gerenciamento de um bar no subúrbio do Rio”. Além das protagonistas, faziam parte do elenco os atores Otavio Muler, Luiz Carlos Tourinho, Luis Miranda e outros atores convidados.

No plano da expressão, alguns aspectos são destaques, como a vinheta do programa, o ritmo e a atuação do elenco. A vinheta da série, inexistente no começo (já que o programa se inicia com a primeira cena da trama em quatro das cinco emissões aqui analisadas), acompanha o nome do episódio daquele dia e aparece na tela na metade da narrativa, antes dos intervalos comerciais, quando os conflitos já foram estabelecidos e os personagens já apresentados ao espectador. Das cinco emissões analisadas, três são da segunda temporada e, segundo o site da emissora, as maiores mudanças ocorreram a partir da terceira, por isso poucas modificações no plano da expressão foram identificadas. O formato permaneceu o mesmo, e as únicas mudanças aparentes foram nos códigos visuais e gráficos, mais especificamente na cor dos cenários e na vinheta.

Com a forma de desenho, as duas vinhetas aqui identificadas mostram uma curta narrativa entre Pit e Belinha e terminam com o foco na fachada do bar das meninas, o Espaço Pit-Bela, um dos principais cenários do programa e que permeia muitos dos conflitos estabelecidos. Quanto ao ritmo da série, foi observado que em todas as emissões o conflito é apresentado logo na primeira cena, e o seu desfecho mostrado na última. Também é uma característica do programa, em momentos de tensão entre dois personagens, a câmera assumir um ponto de vista subjetivo de quem está ouvindo, ao focar no rosto do emissor e este falar para o outro olhando para a câmera, enfatizando a situação mais tensa com os tremidos da câmera na mão e pelo grande plano utilizado.

Do roteiro e da atuação do elenco, destacam-se o desenrolar da narrtaiva, que geralmente conta com um conflito principal, protagonizado por Belinha (Heloisa Périssé) e Pit (Ingrid Guimarães), e um conflito secundário, construído por Horácio (Otavio Muler), o cliente do bar, e os funcionários do local, Franco (Luiz Carlos Tourinho) e Moreno (Luis Miranda). Observa-se também que a série não se preocupa totalmente com a verossimilhança dos fatos, pois, apesar de na maior parte do tempo fazer uso desse artifício, em alguns momentos ele não está presente, o que pode causar no espectador um estranhamento sobre o que ele está vendo e um possível desagrado,

pois, nesse formato da série, o que o público espera é que ele se veja, se reconheça e se projete no que está sendo narrado.

No plano do conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público não obteve sucesso. Das cinco emissões analisadas, somente uma recebeu avaliação considerável, sendo as outras quatro consideradas fracas ou razoáveis. Uma dessas emissões que pouco procurou ampliar o pensamento do espectador é a exibida no dia 8 de agosto, intitulada Duas perdidas numa noite louca. Na trama, Belinha tem que pegar a tia do seu chefe na rodoviária muito cedo (conflito do episódio, que é apresentado logo na primeira cena), por isso tem que ter uma boa noite de sono para não perder a hora. Porém, Pit havia marcado uma festa no apartamento das duas para o mesmo dia, e então Belinha passa o episódio inteiro tentando, incessantemente, diminuir o barulho da festa para ela poder dormir. Esse tema, nada relevante para a sociedade, apenas retratou mais um fato do cotidiano das meninas, e que em quase nada pode contribuir para a reflexão.

O quarto episódio analisado por este estudo, chamado Meu ex-marido de batom, transmitido dia 23 de outubro de 2005, foi o episódio com mais audiência de toda a série Sob Nova Direção. A única avaliação considerável do indicador ampliação do horizonte do público foi dada a ele por trazer uma nova perspectiva sobre a relação da orientação sexual de alguém com a sua competência profissional. Na trama, Belinha procura por um novo cabeleireiro, e então resolve seguir a indicação de Pit, que garante que ninguém é mais habilidoso que Sebastian (Leonardo Bricio). Chegando no salão, para a sua surpresa, Belinha se deparara com o seu ex-marido, antes conhecido como Sebastião, e que ela não sabia que tinha se tornado cabeleireiro e nem que tinha se descoberto gay. Após essa primeira cena, o episódio segue a narrativa com uma “disputa” por Sebastian, pois Belinha que fazê-lo “voltar a ser” heterossexual, e Pit quer mantê-lo gay “para que ele não se torne um cabelereiro ruim”.

Para entendermos a ampliação do horizonte que é possibilitada no público por esse episódio, devemos considerar também o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos, que pouco se fez presente na trama e em todas as outras emissões aqui analisadas. Da forma como é utilizado o estereótipo, não podemos afirmar que há a desconstrução de estigmas e preconceitos existentes na sociedade, se analisarmos momentaneamente, no instante da representação feita. Porém, analisando o conjunto todo e, principalmente, as cenas finais do episódio, é possível afirmar que todas essas representações estereotipadas foram fundamentais para permitir uma ampliação de pensamento do público, pelo menos no que diz respeito à orientação sexual de alguém ter relação com a sua competência na profissão.

Na construção das cenas, foram usadas expressões como “só homem bofe de carteirinha coça o saco”, “você conhece algum cabelereiro macho, Belinha?”, “ele só vai virar homem [...]”, “vou pegar o cabelereiro gay da Pit, e transformar em um homem de novo”, como se gay não fosse homem; e “eu não quero ser uma ex-mulher que tem um ex-marido gay”, como se isso fosse absurdo ou motivo de decepção, o que reforça o estereótipo de que a homossexualidade é algo inferior e diminuído do ser humano. Entretanto, apesar de todos esses estereótipos de afirmação, as últimas falas de Sebastian desconstroem todas essas pronunciadas anteriormente: “Ai, chega gente! Chega! Chega gente! [...] A pessoas são muito mais complexas do que vocês pensam, sabiam? [...] Não é o fato de eu ser gay que me torna um bom cabelereiro. Eu sou um bom cabelereiro porque eu sou. E você, Isabelly, tira essa ideia idiota de querer fazer voltar a ser o que eu era. Não tem mais volta.”. Além disso, o detalhe da porta do banheiro do salão, que contém uma placa azul que identifica o banheiro unissex do local, é inovador e instigante para se pensar, visto que naquela época, em 2005, (e infelizmente ainda hoje), a homossexualidade era pouco naturalizada em muitos programas de humor da televisão brasileira.

Ainda na baixa avaliação recebida pelo indicador de qualidade desconstrução de estereótipos, o episódio Uma secretária sem futuro, exibido dia 26 de junho de 2005, também fez o contrário e afirmou paradigmas da sociedade ao trazer Pit lendo um livro intitulado Homens, logo na primeira cena do episódio, confirmando o estereótipo de que a mulher depois dos 30 anos de idade é desesperada para casar. Outro episódio destaque quanto a esse indicador é A noite das desesperadas, exibido dia 2 de julho de 2006, que não desconstruiu estereótipos, mas também não utilizou-o para gerar o riso.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, as emissões analisadas obtiveram pouca ou razoável avaliação. O destaque está para a presença de um personagem negro, interpretado por Luis Miranda, dentre os cinco personagens principais da trama. Ainda no plano do conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade também obteve avaliação razoável. O episódio em que mais se verificou o uso de temas atuais foi exibido dia 16 de outubro de 2005, intitulado A escola sem fim, em que Pit e Belinha fazem referência a Cléo Pires e Edson Celulari, que na mesma época interpretavam a Lurdinha e o Glauco da novela América, uma relação que começou pelas investidas que a jovem Lurdinha dava em Glauco, um homem mais velho, casado e pai da sua melhor amiga. Abaixo, o gráfico do plano do conteúdo com a avaliação de todos os indicadores:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi o indicador mais bem avaliado de todos os outros sete indicadores deste estudo. O recurso de já na primeira cena apresentar o conflito do episódio garante ao espectador a possibilidade de decidir assistir ou não às peripécias e reviravoltas da emissão a partir do julgamento que pode fazer do conflito previamente estabelecido, tornando o programa, portanto, um produtor de conteúdo claro e objetivo.

O diálogo com/entre outras plataformas não é prioridade para os produtores da série. Das cinco emissões, duas foram avaliadas como fracas; duas, como razoáveis; e apenas uma obteve avaliação boa. No episódio A escola sem fim, acima mencionado, a avaliação boa se deve às várias referências externas à ficção, e não necessariamente às referências a outras plataformas. Nesse episódio, o diálogo com o mundo real se deu através da menção à novela Malhação, à queda do muro de Berlim, à Europa, ao Rock in Rio, à banda Blitz, aos artistas Evandro Mesquita, Cléo Pires e Edson Celulari, e à alusão ao Espiritismo.

Quanto à solicitação da participação ativa do púbico, todas as emissões aqui analisadas foram bem avaliadas, pois a série adota uma linguagem coloquial que aproxima público e programa ao fazer uso de gírias e palavrões, como “idiota” e “cassete”. Outro exemplo dessa informalidade dos diálogos está no episódio Duas perdidas numa noite louca, exibido dia 8 de agosto de 2004, em que aos 4 minutos e 50 segundos o personagem Flávio (Marcello Novaes) encontra Pit e Belinha na porta do cinema e profere a frase “uns amigos meus iam vim”. Ao invés de dizer “vir”, como é o correto, o “vim” não soou estranho porque, apesar de estar gramaticalmente errado, é comumente pronunciado pela população brasileira na língua falada.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual foi razoável. Originalidade/criatividade não se destaca em Sob Nova Direção, já que este se apresenta ao público nos mesmos moldes de outras sitcons já conhecidas dos espectadores, como, por exemplo, A Grande Família, que desde os anos 1970 (e depois com a releitura dessa versão, em 2001), já trazia conflitos familiares ou pessoais, linguagem informal, contexto suburbano, núcleos menores, poucos cenários e o desejo incessante de solucionar os conflitos uma vez estabelecidos. Veja a seguir o gráfico da mensagem audiovisual:

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Analisando os modos de representação dos personagens e experimentação na construção das cenas e dos diálogos, em Sob Nova Direção observa-se situações um pouco distantes da realidade. No episódio A escola sem fim, de 16 de outubro de 2005, a verossimilhança é fragilizada quando Belinha está agachada no chão de um cinema procurando a chave do bar. Nessa situação, a personagem passa nas fileiras de assentos esbarrando nas pessoas, falando sozinha e incomodando a todos por onde passa. Uma cena, portanto, bem pouco provável de acontecer na vida real. Outro exemplo em que a verossimilhança não foi prioridade está no episódio A escola sem fim, do dia 16 de outubro de 2005, em que Belinha, uma mulher de 30 e poucos anos de idade, se veste com roupas mais infantis e tem comportamentos imaturos para simular uma jovem de 18 anos.

Entretanto, apesar desse distanciamento da realidade em alguns momentos, a série preza pela identificação do espectador com o programa ao mostrar os problemas cotidianos de duas mulheres trabalhadoras, que têm uma vida comum, suburbana, com conflitos passíveis a qualquer pessoa da vida real. Os recursos da vinheta, da atuação do elenco, do roteiro e da linguagem informal adotada, no geral contribuem para essa identificação com o formato, que é muito comum na televisão brasileira. Na trama, a desconstrução de estereótipos foi quase que inexistente, visto que o humorístico mais trouxe situações que reafirmam preconceitos sociais para gerar o riso do que situações que desconstroem tais paradigmas. A escolha por assuntos relevantes para a sociedade também foi fraca, o que não trouxe para o público novos pontos de vista e dificulta a discussão e a reflexão no espectador.

 Por Luma Perobeli

 

 

 

 

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