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Protagonistas: os agentes da mudança social

prtoEm 2001, entrava em vigor a lei de n. 10.216, de assistência ao portador de transtornos mentais. No texto, dizia da finalidade do tratamento a incumbência em reinserir, socialmente, o paciente em seu meio. Neste contexto, o destino dos internos que, até então, era dado aos cuidados das instalações psiquiátricas de ordem manicomial, passava a ser os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial.

O Ministério da Saúde conferiu aos CAPS a característica aberta e comunitária. Os centros, já espalhados pelo país, reúnem psicólogos, médicos, assistentes sociais e outros profissionais na tentativa de lutar em prol da luta antimanicomial e procurar cuidar de pacientes com transtornos ou sofrimentos mentais – incluindo também as vítimas de vício em entorpecentes e abusos de álcool e drogas.

Na tentativa de levar ao público o cotidiano de uma dessas unidades, a inserção da câmera cinematográfica encontrou, na região metropolitana de São Paulo, novos lugares para exercer diálogos. Por meio de entrevistas com usuários, familiares e trabalhadores da saúde, o documentário Protagonistas – Tratamento Antimanicomial teve como intuito principal fazer um retrato do panorama atual do atendimento dos CAPS no estado.

A narrativa é conduzida, na maior parte da duração do filme, por Diná Freire, mãe de um usuário do sistema. A câmera a acompanha no trajeto da unidade de saúde até a sua casa e o seu depoimento faz alusão à progressiva desconstrução e quebra de preconceitos realizada por ela e pelo espectador. Diná conta como o tratamento do filho, dependente de entorpecentes químicos, a fez compreender como o olhar empático às pessoas que sofrem de transtornos mentais é necessário.

No filme, a personagem diz que, antes, possuía vergonha em dizer da condição do filho e escondeu da família. Através do CAPS, Diná demonstra ter se construído mais forte ao conhecer casos similares – ou até mais difíceis – que o dela.

Sob os estudos do filósofo Jacques Rancière, é possível dizer que a produção artística pode ser compreendida enquanto potência para intervir no mundo. O filme documental, como exemplo, é dotado de uma sensibilidade configurada a ele e o contato do espectador com a obra pode tanto reafirmar preceitos quanto interferir nos sistemas de poder, para poder construir novas realidades.

No encerramento do filme, a voz do personagem que representa a luta antimanicomial adquire a perspectiva crítica ao elencar as dificuldades que ainda são colocadas na atenção básica das unidades do CAPS. Dentre os clamores, a necessidade de se acabar com os leitos em hospitais psiquiátricos e o financiamento das ações de economia solidária e de cooperativismo foram abordados.

É possível, a partir da criação de um senso crítico adquirido pelo contato com obras documentais e audiovisuais, desenvolver competência crítica para agir em prol de uma manifestação ideológica. Se conseguíssemos, assim como a personagem Diná, mudar os preconceitos latentes que ainda vigoram com os pacientes mentais, o filme pode tornar os portadores de transtornos protagonistas na dignidade que lhes é de direito.

Por Iago Rezende

Chamado Central

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  • Roteiro: Daniel Nascimento e Adonis Comelato
  • Elenco: Rafinha Bastos, Evandro Rodrigues, Marco Zenni, Victor Bitow, Pablo Rodrigues, Cintia Portella
  • Período de exibição: 25/07/2016 – 12/05/2017
  • Horário: 23h30
  • Nº de episódios: 40

Chamado Central é uma série de comédia exibida, durante duas temporadas, pelo canal pago Multishow. O programa é uma sátira a reality shows policiais, como Polícia 24h, da rede Bandeirantes, e conta com nomes como Rafinha Bastos (Tenente Sérgio Marcos), Evandro Rodrigues (Cabo Saulo), Marco Zenni (Delegado Antunes), Victor Bitow (Perito Cezinha), Pablo Rodrigues (Policial Andrade) e Cintia Portella (Policial Machado).

A série acompanha o Tenente Sérgio Marcos (Rafinha Bastos) e o Cabo Saulo (Evandro Rodrigues) durante o expediente na polícia, no qual atendem chamados pela cidade de São Paulo. Tais chamados apresentam situações improváveis e cômicas, que não se assemelham àquelas atendidas realmente pela polícia. Como, por exemplo, a invasão dos dois personagens à casa de uma idosa no primeiro episódio da primeira temporada, intitulado “Sai Zica”. Eles procuram um suspeito que, na verdade, são mosquitos Aedes aegypti, transmissores de diversas doenças. O programa é filmado no estilo falso-documentário e apresenta as situações cômicas como se fossem sérias.

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O estilo falso-documentário de Chamado Central corrobora o formato episódico do programa, uma vez que cada episódio acompanha um dia diferente na vida dos policiais e são apresentadas situações diversas que não requerem conhecimento prévio do espectador a respeito da trama. Nesse sentido, os episódios seguem uma estrutura norteada por arcos narrativos unitários.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A série se passa na cidade de São Paulo e a maioria das cenas acontece na delegacia de polícia ou nas ruas da metrópole. Nesse contexto, os ambientes são verossímeis e totalmente condizentes com a proposta do programa, o que é essencial para o tipo de paródia que a série busca fazer. Nesta questão também é importante destacar a caracterização dos personagens, que também é condizente com o que a série propõe. Além do figurino, se destaca a linguagem utilizada pelos personagens, que imita expressões comumente usadas pela polícia, como “meliante”. Desta forma, os indicadores reforçam o universo ficcional proposto por Chamado Central.

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A trilha sonora é composta por músicas instrumentais que dão ritmo de tensão em certas cenas e imitam as trilhas utilizadas nos programas de reality policial. Além de reforçar a comparação com tais programas, a utilização desse tipo de música em situações risíveis enfatiza o tom cômico da série e reforça a paródia.

A fotografia segue um estilo naturalista, o que é condizente com a proposta de falso-reality do seriado. A verossimilhança alcançada através da fotografia, caracterização dos personagens e ambientação se contrapõe às situações inverossímeis nas quais os policiais se envolvem. Se, por um lado, a verossimilhança se faz importante para a aproximação do programa com os reality shows, por outro, a inverossimilhança das situações é o que gera a quebra de expectativa e o riso do telespectador.

A edição segue um padrão linear, que combina com o formato episódico de Chamado Central. Além disso, a edição insere diversas artes que imitam aquelas utilizadas nos programas policiais, como em Polícia 24h.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, além de fazer referências indiretas aos programas que parodia, Chamado Central se passa na cidade de São Paulo e as ocorrências acontecem, na série, em bairros reais da cidade. Isso reforça a paródia e aproxima o seriado tanto dos reality shows policiais quanto do público.

Em relação à escassez de setas chamativas, como a série acompanha o cotidiano dos policiais fictícios e parodia programas que acompanham a vida real, o seriado não apresenta uma narrativa que segue o formato tradicional, com surgimento de conflito, clímax, reviravolta e resolução. Desse modo, não há dificuldades para o telespectador acompanhar o seriado e não há a necessidade da utilização de setas chamativas, as quais não se encaixam no tipo de formato apresentado pelo programa.

Já quanto aos efeitos especiais narrativos, há apenas pequenos momentos de clímax e reviravolta durante os chamados atendidos pelos policiais, momentos esses utilizados para quebrar a expectativa e gerar humor, mas que não levam o público a reconsiderar o que viu até então. Também não há mudança no estilo narrativo do programa.

Por fim, a série não utilizou recursos de storytelling, como analepses ou sequências fantasiosas. Desse modo, não foi observada a presença do indicador dentro dos episódios analisados de Chamado Central.

Por Júlia Garcia

Sempre viva: pelo direito de permanecer onde estão e continuar sendo quem são

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Uma produção da Articulação Nacional de Agroecologia e Curta Agroecologia, em parceria com a VideoSaúde Distribuidora e o Canal Saúde, o documentário “Sempre Viva” traz asserções sobre o mundo das comunidades quilombolas apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais.

Com direção, roteiro e pesquisa de Tiago Carvalho, os 23 minutos de filme tentam resgatar a territorialidade de um povo, a identificação com o território que permeia o habitat que fundamenta o exercício de vida de uma comunidade, trazendo consigo a sua ancestralidade e o seu pertencimento ao lugar.

Essa territorialidade, enquanto esforço coletivo de um grupo social para ocupar, desfrutar, controlar e se identificar com um território, espaço em que as relações sociais, econômicas, ecológicas e culturais de um povo se manifestam, vem tendo o seu sentido podado pelo surgimento de parques de “conservação” e reservas, onde comunidades tradicionais há séculos colhem as suas flores e criam o seu gado.

Tal resgate, entretanto, é fruto dos vários olhares envolvidos na produção de “Sempre Viva”: o do cineasta, o dos personagens e o do espectador. E, com eles, uma encenação presente a todo o momento, afinal, “a cada presença para nós, tentamos interpretar a nós mesmos para outrem, e não seria diferente para a câmera” (RAMOS, 2013, p. 48).

A verdade e a encenação no documentário

Para além dos olhares dos personagens, a veracidade de suas falas, suas encenações e intenções gerais pretendidas por um documentário, que podem ser discutidos ou questionados, é preciso entender que “Sempre Viva” pode não ser uma narrativa que estabelece asserções sobre o mundo com as quais o espectador concorda, mas é uma narrativa com imagens-câmera feita sob um ângulo diferente daquele comumente abordado pela grande mídia, e que por isso o provoca e o instiga a lançar novos olhares para os povos tradicionais.

Resgatando não a luta pelo direito desses povos de ir e vir, mas a luta pelo direito de permanecer onde estão e ser quem são, “Sempre Viva” coloca no cerne da disputa territorial os protagonistas desse embate, segundo às suas asserções de mundo: de um lado, a versão dos agricultores e apanhadores de flores sempre-vivas; e, de outro, também.

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“Na época, a gente tirava era na base de 15, 20 mil quilos de flor que saía aqui da chapada. Hoje, se você tirar aí uns 2 mil quilos de flor, você tá tirando demais. Nós não temos a liberdade de apanhar onde nós apanhávamos. Porque o forte da flor mesmo, eles ficaram com tudo pra eles. E, na verdade, tá perdendo, porque eles não apanham e nem deixam os outros apanhar. Fica lá perdendo à toa no mato lá” – Lorico Loreto, agricultor e apanhador de flor.

Apesar dos vários desejos dos remanescentes quilombolas por uma vida melhor, no começo do filme, sob a paisagem da serra do Espinhaço em Minas Gerais, a voz-off de alguns personagens situa o espectador e anuncia a principal luta desse povo: a luta pela territorialidade de seus ancestrais. Após, a narrativa se dá pelos depoimentos dos trabalhadores prejudicados pelos parques, e pelas encenações feitas ao longo dos 23 minutos de história, procedimento considerado antigo e corriqueiro em tomadas de filmes documentários.

Sujeitos do real que encenam a realidade

A encenação-atitude (ou encen-ação), destacada em “Sempre Viva”, é aquela em que “os comportamentos detonados pela presença da câmera são os próprios comportamentos habituais e cotidianos, com alguma flexibilização provocada, justamente, pela presença da câmera e sua equipe” (RAMOS, 2013, p. 45). Diferentemente das encenações construída e locação, a encen-ação não envolve procedimentos que isolam por completo a ação do sujeito na tomada de seu transcorrer cotidiano, exatamente por não considerar esse sujeito um ser livre de encenações.

A partir de nove minutos e meio de filme, por exemplo, até pouco mais do 13º minuto, a colheita das flores é feita normalmente, mas com uma clara encenação de um dos personagens. “Aqui já começa umas florzinha. Vamos catando. Vamos embora”, disse Lorico Loreto à sua companheira de lida na roça, como se informasse a alguém que desconhecesse aquelas terras.

Enquanto os personagens do documentário protagonizam suas causas, sendo os sujeitos do real que também encenam a realidade, a vida segue com pessoas sendo marginalizadas porque estão apanhando flores, e o documentário segue nos mostrando a perversidade do mundo, afagada pela grande mídia que, ao contrário, propaga essa perversidade de uma forma que (quase) nos convence e (quase) nos faz compactuar com o mundo narrado por ela.

As verdades das diferentes mídias estão sendo construídas. Cabe a nós, os espectadores, escolher em qual acreditar.

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“Eles querem uma comunidade é desunida e quieta. O mundo tem que saber disso aqui, pra tentar reverter isso aí numa reserva de extrativismo, pra gente tentar voltar ao que era”  – Normandes de Jesus, agricultor e apanhador de flor.

Por Luma Perobeli

Assista ao documentário: https://www.youtube.com/watch?v=quD0HPYOxRo

Aí eu vi vantagem

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Direção: Pedro Antonio Paes
Roteiro: Fil Braz
Elenco: Samantha Schmütz, Luciana Paes, Oscar Filho, Stepan Nercessian, Edmilson Filho , Fafy Siqueira ,Carmem Verônica  e Sheila Friedhofer
Período de exibição: 07/08/2015 – 11/09/2015
Horário: 22:30h
Nº de episódios: 16 episódios

Protagonizada por Samantha Schmütz, a série Aí eu vi vantagem, exibida no canal pago Multishow em 2015, é um spin off de Vai que cola (Multishow, 2013-presente). Na trama, roteirizada por Fil Braz, Jéssica (Samantha Schmütz) vai visitar a amiga Katarina (Luciana Paes) e sua familia, os Barroso de Barros, no centro do Rio de Janeiro. Lá a a promoter descobre que  Barroso de Barros são donos de um cabaré, porém o lugar está quase falindo. Em busca do sucesso e de realizar seu sonho de ser famosa Jéssica (Samantha Schmütz) decide ajudar Katarina (Luciana Paes) com o cabaré e a cada semana propõe novas atrações e eventos para o lugar.

Por ser uma série episódica, as tramas são unitárias e de fácil compreensão. Nesse sentido, mesmo sendo protagonizado por uma personagem que integra o universo ficcional de Vai que cola o spin off  apresenta várias setas chamativas que ajudam o telespectador no desdobramento dos arcos narrativos.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Apesar da ambientação de eu vi vantagem ser fundamental para o desenvolvimento dos plots e sub plots, os elementos cênicos apresentam pouca verossimilhança com o contexto retratado. Isto é, na trama tanto a casa da família Barroso de Barros quanto o cabaré contribuem para as ações dos personagens, porém os cenários não se aproximam da realidade. Apesar de se tratar de uma série de comédia, que de certa forma permite que o cenário seja mais lúdico, os elementos (móveis, eletrodomésticos, papéis de parede, objetos de decoração, etc)  não reproduzem, em nenhum momento, uma casa do centro do cidade, mas um cenário fictício de um programa televisivo.

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O mesmo acontece no indicador caracterização dos personagens , os figurinos reforçam os arquétipos de cada personagem, facilitando o entendimento do telespectador, entretanto as roupas são caricatas. Como, por exemplo, o personagem Oswaldo (Stepan Nercessian), que é descrito na abertura da série como um botafoguense fanático e em todas as cenas dos episódios de eu vi vantagem usa uma camisa do Botafogo. Nesse sentido, a identidade e o perfil dos personagens é constante reforçada pelo figurino, porém de uma maneira didática e de distante da realidade.

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Os figurinos de Katarina (Luciana Paes), que é descrita como uma jovem tímida também refletem de modo caricato a sua personalidade. Um ponto que chama a atenção neste indicador é o sotaque dos personagens, apesar de se passar no centro do Rio de Janeiro e retratar uma família tradicional do lugar, somente Jéssica (Samantha Schmütz) adota a prosódia do estado. Os outros personagens têm sotaque paulista e mineiro, se distanciando do ‘s’ puxado dos fluminenses. Também não são adotadas, de modo geral, gírias e expressões mais usadas na região. O aspecto tira a verossimilhança de todo o universo ficcional, distanciando a trama da ambientação.

Apesar de ter um cabaré como ponto central dos acontecimentos narrativos, a trilha sonora de eu vi vantagem é composta, em sua maioria, por músicas instrumentais. Os efeitos sonoros são usados para contextualizar as situações da história como, por exemplo, as brigas entre os personagens, os momentos de suspense, etc. Em alguns episódios, principalmente nas sequências do cabaré, são usadas músicas populares dos anos 1980 e 1990, mas nada que contribuía diretamente para o desdobramento da trama.

A fotografia da trama do canal pago Multishow é naturalista. Nesse sentido, a iluminação das sequências não apresenta nenhuma variação e/ou influencia no desenvolvimento dos arcos narrativos da atração.

Por se tramar de uma série episódica os acontecimentos narrativos de eu vi vantagem seguem uma estrutura dividida em cinco atos: equilíbrio, interrupção, clímax, resolução de conflitos e retorno do equilíbrio. Desta forma, o programa apresenta uma edição linear, norteada por apenas uma temporalidade, seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

No indicador da intertextualidade, é importante ressaltar as constantes referências a artistas e grupos musicais da cultura pop. Em várias sequências a personagem Jéssica (Samantha Schmütz) faz alusão a cantoras como Lady Gaga, Rihanna, etc.Nesse sentido, apesar de não ser fundamental para a compreensão da trama as referências aprofundam o universo ficcional, enriquecendo a contextualização do programa.

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O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em eu vi vantagem. A trama do Multishow é norteada por cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. O recurso está presente não só nas cenas e diálogos dos personagens, mas na abertura da atração. Além do nome dos personagens serem acompanhados de definições que resumem sua personalidade, a sequências de abertura é narrada pela voz em off de Jéssica (Samantha Schmütz). A protagonista explica, didaticamente ao telespectador, não só o perfil dos integrantes da família Barroso de Barros, mas contextualiza os arcos narrativos centrais da história.

Obs

Os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram observados na série episódica.Apesar de ter clímax e reviravoltas, em nenhum momento o telespectador é obrigado a reconsiderar tudo o que viu até então.

Por Daiana Sigiliano

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Acredita na peruca

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  • Direção: Charles Moeller e Claudio Botelho
  • Elenco: Luis Fernando Guimarães, Miá Mello, Cláudia Missura, Fernanda Nobre, Gottsha, Beto Carramanhos, Eucir de Souza e João Gabriel Vasconcelos.
  • Período de exibição: 18-05-2015 – 12-06-2015
  • Horário: 22:30h
  • Nº de episódios: 20

Dirigida por Charles Moeller e Claudio Botelho, a série de humor Acredita na peruca foi exibida pelo canal pago Multishow em 2015. Acredita na Peruca se passa no “Impecável Beauty Salão and Spa” construído por Eleonora (Luiz Fernando Guimarães). De acordo com os pressupostos de uma série episódica, os arcos narrativos são isolados e independentes, ou seja, cada episódio possui uma micronarrativa própria que se fecha no mesmo episódio. Assim, cada episódio se inicia com alguma situação nova relacionada ao salão e após um conflito, logo é solucionado e culmina no fim do capítulo que sempre utiliza um show musical como desfecho.

Um ponto importante na construção narrativa de Acredita na Peruca é o local em que o programa foi gravado, um teatro, mais especificamente no Teatro Adolpho Bloch, na Glória, Rio de Janeiro. Essa questão dialoga com a própria estrutura episódica da série, possuindo arcos narrativos isolados e independentes permite a adaptação para o teatro. De acordo com SILVA (2015), “o teleteatro influenciou os novos seriados que introduziram de modo determinante a serialização, compondo universos narrativos em torno dos quais se desenvolviam histórias, com estrutura mais ou menos fixa, da caráter unitário, porém acerca dos mesmos personagens  e  situações  possíveis”.

O elenco conta com os nomes: Luiz Fernando Guimarães, Miá Mello, Cláudia Missura, Fernanda Nobre, Gottsha, Beto Carramanhos, Eucir de Souza e João Gabriel Vasconcelos. Nos minutos iniciais do programa o telespectador já é capaz de entender as histórias e personalidades de cada personagem, o que auxilia no processo de compreensão da dinâmica da narrativa, bem como dos papéis de cada um na trama.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A ambientação de Acredita na Peruca é fundamental para o desdobramento narrativo da trama. A série se passa no salão de beleza de Eleonora (Luiz Fernando Guimarães), chamado Impecável Beauty Salão and Spa. O salão não só é o principal cenário da série, mas também é causa da maioria dos conflitos. No décimo episódio, intitulado “Lembra do meu nome”, por exemplo, o conflito se instaura por conta do show de inauguração do espaço de beleza. Por ser gravada em um teatro, é importante destacar que por conta das limitações do espaço, o cenário se mantém o mesmo durante todos os episódios, com acréscimo de alguns adereços quando necessário.

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A caracterização dos personagens reflete os estereótipos criados para cada um. Eleonora (Luiz Fernando Guimarães) é uma mulher de meia-idade que perdeu todo seu dinheiro, mas mantém sua vaidade. Dessa forma, suas roupas são compostas de muito brilho e sapatos de salto alto. Já Stephanie (Miá Mello), é uma ex-atriz de filme pornô e se veste com peças ousadas e chamativas. Lucy in the Sky (Beto Carramanhos), como uma drag queen e cabeleireira, usa vestimentas chamativas, com brilho e explora de adereços e perucas na sua caracterização. O gogo boy e empreiteiro Carlão (João Gabriel Vasconcellos), sempre se apresenta com roupas curtas e sem camisa. Por fim, Maria Eduarda (Fernanda Nobre), se veste com blusas de seda, utiliza o cabelo de forma mais trabalhada, condizente com a postura arrogante da sua personalidade. Nesse sentido, a caracterização auxilia na identificação do personagem, uma vez que pelo figurino já se é capaz de compreender as características e personalidades de cada um.ap4

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No indicador trilha sonora podemos ressaltar a música usada na abertura “Cabelo”, de Gal Costa. A canção, que faz uma alusão direta ao salão de beleza, é o tema central de Acredita na Peruca. Entretanto,durante os episódios do programa, a trilha não é presente de nenhuma forma, apenas há a presença de recursos sonoros para expressar determinadas emoções dos personagens.A trilha sonora somente é utilizada no momento final, na apresentação musical. Assim, foram apresentadas músicas como: I will survive de Gloria Gaynor, Remember my name de Fame Musical, entre outras.

A fotografia da série é naturalista. As sequências são norteadas por uma iluminação que ressalta o contraste entre as cores do cenário e do figurino. Porém, o indicador não interfere e/ou reflete no desdobramento dos episódios da atração.

Por último, a edição da série se apresenta de forma linear. Por se tratar de uma série episódica, a trama segue a ordem cronológica dos acontecimentos. Dessa forma,as histórias não são pautadas poroutras temporalidades e analepses.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

No que se refere à intertextualidade, a série apresenta diversas referências externas ao universo ficcional de Acredita na Peruca. O recurso é usado, na maioria das vezes, para ironizar e satirizar alguma situação. No primeiro episódio intitulado “Sobreviver, quando Eleonora (Luiz Fernando Guimarães) diz que está com a aparência de 50 anos de idade, Lucy andthe Sky (Beto Carramanhos)rebate dizendo: “50 anos a senhora tinha na inauguração das Pirâmides do Egito”.  Ou quando Eleonora (Luiz Fernando Guimarães) se compara a raça de cachorro SharPei referindo a aparência do rosto que ficaria “cheia de rugas como a do cachorro”. No décimo episódio “Lembra meu nome”, Eleonora (Luis Fernando Guimarães) diz que vai fazer contato com a personagem Wanda (Totia Meirelles) para levar Susy Diamonds (Malu Rodrigues) para a Turquia, uma clara referência a novela da Rede Globo Salve Jorge (Globo, 2012) que abordou a temática do tráfico internacional de pessoas.

Já o indicador escassez de setas chamativas, não foi identificado. Por se tratar de uma série episódica e, possuir arcos narrativos independentes em cada episódio, a trama utiliza de elementos indicativos em determinados momentosNo décimo episódio “Sobreviver”, o mordomo Sebastian (Eucir de Souza) explica para Stephanie (Miá Mello) o sentido da palavra “montada” que Eleonora (Luiz Fernando Guimarães) utiliza para se referir a Lucy andthe Sky (Beto Carramanhos), que quer dizer “montada em relação ao figurino”. Desta forma, os cartazes narrativos são colocados a fim de situar o telespectador na trama, diminuindo assim o esforço cognitivo do público na compreensão da sequência.

Os efeitos especiais narrativos aparecem na trama de forma a contribuir para o desenvolvimento da narrativa. Como os episódios funcionam de forma isolada, o conflito se faz presente em todo eles e no mesmo episódio são solucionados, fechando o arco narrativo criado. Apesar de ser algo já esperado pelo telespectador, o clímax não deixa de cumprir seu papel de representar uma quebra na narrativa. As reviravoltas são importantes para a trama, porém não tão significativas a ponto de fazer o espectador reconsiderar todas a história até então.

Por último, os recursos de storytelling não são explorados em Acredita na Peruca. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

Por Mariana Meyer

Eu existo: um documentário de palavras e afetos

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Como dar visibilidade àqueles que a sociedade e as instituições rotineiramente relegam, deixando para eles apenas o lugar do grito que não é ouvido? Este é o desafio encarado pelos alunos do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, e que é apresentado através do documentário “Eu existo”, uma produção de 2012, em 16 minutos que convidam o espectador a pensar a vida nas ruas para além dos seus estigmas.

O curta coloca os personagens como agentes políticos capazes de debater seus problemas e de, a partir das verdades reveladas, sugerir mudanças – tanto em relação ao olhar da sociedade sobre eles quanto da postura das instituições que dizem protegê-los.

Ao longo do filme, pessoas em situação de rua da cidade de São Paulo e especialistas discursam sobre questões relacionadas à rualização, como as precárias condições dos abrigos, a violência dos agentes da guarda civil metropolitana, o descaso manifestado pelos que transitam nas ruas, a dor da solidão e o sentimento de impotência. Tais questões, tratadas há cinco anos e tão prementes nos dias atuais, revelam que a vulnerabilidade e as agressões variadas a que esses indivíduos estão submetidos não é um problema de hoje – é uma questão que perdura ao longo dos anos, e que tem a sua continuidade em grande parte pelo fato de que lhes é negado o direito de manifestar, de serem ouvidos em suas demandas e necessidades.

Os relatos são intercalados com cenas da Praça da Sé, onde os indivíduos que ali vivem participam de uma intervenção artística, pintando em uma grande faixa frases que remetem aos seus sonhos e opiniões, dentre elas, “o amor é importante”, “porque eu existo”, “sua vida vale muito mais que o mundo” e “é muita violência na cidade”. Essas cenas mostram pessoas que ali transitam parando para ler os dizeres – a arte funciona como uma forma de fazer com que sua voz seja ouvida.

Os especialistas que discursam, como defensores públicos e coordenadores de movimentos em prol da população de rua, reforçam os problemas dos albergues, que possuem poucas vagas, muitas vezes estão distantes do local onde os sujeitos mais se identificam na cidade, ou estão em condições insalubres. Também destacam os abusos de autoridade por parte dos agentes da guarda civil metropolitana, que muitas vezes usam de violência injustificada e lhes toma o pouco que têm. Um deles, Anderson Miranda, Coordenador do Movimento Nacional da População de Rua, fala sobre a questão das drogas, na maioria das vezes utilizadas “para suportar a vida nas ruas” e da urgência em tratar o usuário com saúde e não com violência. Um dos personagens relata que procurou ajuda em vários centros de reabilitação e nunca fora atendido, o que demonstra a fragilidade das instituições que dizem proteger e auxiliar essa população.

Observa-se, ao longo do filme, a busca por um viés diferenciado, reforçando não o paternalismo ou o miserabilismo, bastante comum em documentários nacionais que tratam de temáticas de grupos marginalizados, mas a necessidade de que esses públicos sejam efetivamente ouvidos e tratados como cidadãos e seres humanos. Jaques Rancière diz que a partilha do sensível acontece quando aqueles que não participam ganham visibilidade, e que a política está em mostrar o potencial de um novo modo de vida, em causar um dissenso entre as lógicas presentes no mundo. Nesse sentido, é possível constatar em “Eu existo” uma partilha e uma política rancerianas, pois os personagens são chamados não somente a discursar como a expor verdades sobre as falhas no sistema atual, propondo ao espectador uma nova visão tanto deles quanto das instituições que deveriam garantir os seus direitos e que não o cumprem. Ao denunciar as violações diversas, há uma provocação ao espectador para que o mesmo pense sobre os jogos de poder presentes na sociedade, quebrando antigas concepções e estigmas.

O filme termina com um texto que convida o espectador a adentrar na realidade de quem experimenta a vida nas ruas, com palavras que evocam o afeto e a identificação com sentimentos humanos. Para Comolli (2008), o documentário é a arte da palavra e, nesse sentido, “Eu existo” conseguiu fazer bom uso dela para cumprir seu desafio. No final do filme, uma das diretoras questiona o personagem Castor: “qual foi a experiência que mais te marcou?”, e a resposta vem em voz-off cobrindo imagens de todos os personagens e sua identificação por nomes:

“Acredito que a solidão, a dor sem remédio, o afeto não correspondido, a lágrima da madrugada, a solidão de quem não ter ninguém que toque, não ter uma pele que afague, não ter ninguém que diga pra ele: ‘que bom que você veio, estava com saudades de você’, a roupa que nunca é escolhida, o sapato que sempre é dado – aquele que ninguém mais quer… A impossibilidade de escolher, a negação do sonho, da sexualidade, do afeto… A impossibilidade de transitar no mundo, de entrar no lugar que quer e de escolher a comida que gostaria de comer – sempre tem que comer aquilo que dão… A amargura de esperar as horas passarem, a chuva que molha, o sol que queima, a ausência de uma fé e de alguém que diga: ‘eu também amo você’”

A existência, portanto, se faz em palavras e afetos que geram identificação e reflexão.

Assista ao filme aqui: https://www.youtube.com/watch?v=dW_SGHrlIjc

Por Tatiana Vieira

Acerto de Contas

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  • Roteiro: Leonardo Gudel
  • Elenco: Silvio Guindane, Ângelo Paes Leme, Aline Fanju, Stephan Nercessian, Antônio Pitanga e Rafael Logan.
  • Período de exibição: 02/04/2014 – 18/04/2014
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 13

Feita em parceria com a RioFilme e a Morena Filmes, a série Acerto de contas foi a primeira produção ficcional policial do canal Multishow. Exibida diariamente entre 2  e 18 de abril de 2012, o seriado foi idealizado por Silvio Guindane, que também interpreta o protagonista Dante. A direção dos 13 episódios roteirizados por Leonardo Gudel ficou a cargo de José Joffilly.

Acompanhando a história de Dante (Silvio Guindane), filho adotivo de Nicolau (Stephan Nercessian), a trama se desenrola no incômodo de Quinho (Ângelo Paes Leme), filho biológico, quanto ao fato do irmão ser o predileto do pai. Quinho então arma um falso sequestro e Dante, inocente, tentar salvá-lo e acaba preso por sete anos. Deixando a prisão, o protagonista quer se vingar dos responsáveis por sua prisão, contudo se depara com uma realidade diferente: o pai perdeu dinheiro e a influência no desmanche de carros, seu irmão Quinho se tornou vereador da cidade e a ex-namorada, Luana (Aline Fanju) se torna esposa do político. Ainda que busque vingança, a lealdade de Dante a família faz com que ele, durante os episódios, seja ludibriado de diversas formas.

Embora se trate de um formato episódico, em todos os episódios acompanhamos o desenvolvimento da macro-narrativa familiar de Nicolau e seus filhos. Contudo, em todas as exibições são promovidas recapitulações da história, dos episódios anteriores e spoilers do próximo episódio, facilitando a compreensão dos arcos que permeiam a série.

No Plano da Expressão desta análise iremos destacar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Ambientada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a série buscou retratar a periferia da cidade do ângulo do morador com a representação de casas com construção interrompida, da iluminação pública deficiente, além da presença de bares, mercearias de bairro e a promoção de “churrascos na laje”. A relação entre os cômodos pequenos, a mobília simples e amontoada e a família grande também são reforçam essa construção imagética.

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A caracterização dos personagens das tramas com formato episódico buscam seguir arquétipos e estereótipos de forma proposital, para que o público compreenda rapidamente seu propósito. Em Acerto de contas, este indicador colabora no contraste do cenário da periferia com zonas mais abastadas cidade, principalmente se analisarmos as diferenças de figurino e maquiagem antes e após a ascensão financeira de Quinho. Por exemplo, a personagem Luana no primeiro episódio tem suas roupas marcadas por decotes sensuais, estampas de animais, shorts curtos e brincos chamativos. Após casar e mudar-se da casa de Nicolau, assume um estilo mais sóbrio e executivo com roupas lisas, saltos, joias e cabelo cacheado, como a própria personagem classifica “uma mulher da Zona Sul”.

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Demarcando também diferenças de personalidade entre os personagens, demarcando estereótipos de mocinho e vilão, as roupas de Dante durante o primeiro episódio são velhas e simples assim como o seu semblante cansado enquanto Quinho energético e calculista usa camisas sociais e sapatos de couro.

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A trilha sonora, composta por músicas instrumentais, não tem outra função na narrativa senão demarcar a atmosfera nas cenas de ação e servir como background music para panorâmicas do Rio de Janeiro.

O indicador fotografia segue o estilo naturalista, sem interferência significativa nas cenas com exceção dos flashbacks que são sinalizados com um filtro amarelado, facilitando a assimilação do telespectador.

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A edição de Acerto de contas seguiu a linearidade da proposta do roteiro. Por abordar a temática policial, foram explorados os closes e a “câmera nervosa” para transmitir tensão. Nesse sentido, a perseguição do ator aliada à tremulação da imagem e os zooms rápidos nas faces dos personagens promovem um incômodo intencional no público contribuindo para o propósito de dinamismo e ação. Outro ponto importante são para as cenas em motos e veículos, onde são adotadas câmeras fixas no capacetes e para-brisas, bastante utilizadas para dar velocidade às sequências. Também foram captadas imagens aéreas da cidade do Rio de Janeiro com drones para situação do público nos cenários.

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No Plano do Conteúdo, analisamos os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Apesar de citar programas e artistas da Rede Globo, como o quadro Lata Velha do Caldeirão do Huck, a intertextualidade em Acerto de contas não contribui para expandir o universo ficcional da série.

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Pelo seu formato episódico, também mostra uma narrativa de fácil compreensão com diversas setas chamativas que explicam ao público didaticamente situações e perfis dos personagens. Como, por exemplo, a própria abertura onde Dante, o protagonista, narra todo o arco macro-narrativo de sua família e sua trajetória até ser recluso. Situando também no arco que permeia os 13 episódios, são feitos resumos dos episódios anteriores antes do início do exibido bem como procura instigar o telespectador durante a exibição dos créditos dividindo a tela com as próximas cenas.

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Neste sentido as setas chamativas são usadas constantemente na série, por exemplo, a cena do episódio 7 entre Luana e Velha Guarda, onde a vilã repassa toda a história do personagem e explica sua traição contra ela. O diálogo diminui o esforço analítico para entender já que na cenas posteriores ela afirma aos seus amigos que irá matá-lo.

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Os efeitos especiais narrativos também não foram identificados nesta produção. A trama define bem os estereótipos dos personagens e o clímax de cada episódio é sempre a ação entre Dante e Quinho, sendo assim, a trama segue linearmente, sem reviravoltas.

No indicador recursos de storytelling, observamos somente a presença de flashbacks na trama. Utilizados em momentos pontuais, boa parte destes flashbacks tem finalidade de rememorar o sequestro que levou Dante à prisão ou sua relação sempre difícil com o irmão. É importante ressaltar que estas analepses sempre são sinalizadas com um filtro amarelado, diferenciando-se do tempo presente da série.

Por Léo Lima

Afetos presentes: dos loucos e das rosas

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Barbacena é um município mineiro situado a 169 quilômetros de Belo Horizonte, capital do estado. A partir do século XX, a cidade tornou-se conhecida no Brasil e no exterior como “Cidade das Rosas”. A alcunha se popularizou devido ao grande núcleo de cultivo, produção e importação destas flores. Em meados dos anos 1970, a produção e plantio era organizado pela Associação Barbacenense dos Produtores de Rosas e Flores (ABARFLORES) e contava com 97 produtores.

De maneira concomitante, um outro nome foi dado à cidade que ainda carrega ambos os apelidos: a “Cidade dos Loucos”. A denominação se deve ao histórico do município e sua consequente relevância no cenário psiquiátrico brasileiro como o maior polo manicomial de Minas Gerais. A exclusão dos loucos do convívio social foi uma prática comumente realizada no Brasil a partir do modelo de tratamento de transtornos mentais popularizado na Europa a partir do século XVII. Segundo Passos (2007), os loucos eram vistos como o resíduo da sociedade e passaram a ser excluídos do convívio social, juntamente com os ladrões, as prostitutas e demais marginalizados sociais.

Neste contexto, Andreia Pinto resgata a memória afetiva dos profissionais e pacientes do que restou do Hospital Colônia para apresentar as novas realidades sob as quais estão inseridos os tratamentos ao portador de transtornos mentais. O programa, publicado pela TVNBR em 2011, apresenta as dissonâncias entre como podem ser consideradas a cidade dos loucos e a cidade das rosas.

A partir da perspectiva dos moradores de Barbacena, um som em off introduz as opiniões públicas acerca do apelido. No filme, é possível compreender que, para a maioria dos entrevistados, a questão manicomial é enxergada com cunho cômico – a partir dos estereótipos do “louco”, e da negação ao enxergar a cidade como “cidade dos loucos”, mas sim a cidade que recebe os loucos.

O filme buscou compreender de que maneira o resgate das memórias afetivas do hospital puderam ser incorporadas à investigação jornalística do atual panorama das casas terapêuticas – residências psiquiátricas que funcionam, hoje, como modelo sucessor ao manicomial em Barbacena –.

O trabalho de memória é realizado por artistas plásticos e historiadores locais, enquanto o trabalho de elucidação acerca dos tratamentos atuais fica a cargo de psicólogos e psiquiatras envolvidos com os personagens que outrora estiveram internados na sede do manicômio.

No filme, transborda a necessidade de enxergar o portador de transtorno mental enquanto sujeito afetivo, dotado de paixões, necessidades e capacidade técnica de exercer trabalhos. A reforma psiquiátrica é aludida, na obra, como principal fator capaz de promulgar melhores condições humanas aos que, por muitos anos, foram impedidos de enxergar as rosas.

Assista ao documentário em: https://www.youtube.com/watch?v=dQMIUqj6tPw

Por Iago Rezende

A Segunda Vez

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  • Roteiro: Renato Fagundes
  • Elenco: Marcos Palmeira, Monique Alfradique, Michel Bercovitch, Marcelo Várzea, Priscila Sol, Letícia Persiles, Eline Porto, Nathalia Rodrigues e Camila Lucciola.
  • Período de exibição: 11/08/2014 – 29/08/2014
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 15

A Segunda Vez foi uma série exibida pelo canal Multishow em agosto de 2014. Inspirada no livro A Segunda Vez Que Te Conheci, de Marcelo Rubens Paiva, a produção contou com nomes como Marcos Palmeira (Raul), Monique Alfradique (Luiza), Letícia Persiles (Carla), Priscila Sol (Ariela), dentre outros.

A trama gira em torno de Raul (Marcos Palmeira), jornalista que, após uma confusão no trabalho, é demitido. Isso acontece no mesmo dia em que sua mulher Ariela (Priscila Sol) termina o relacionamento dos dois. Raul (Marcos Palmeira) vai morar em um apart-hotel e conhece Carla (Letícia Persiles), uma garota de programa que o leva a se tornar cafetão.

Embora seja uma trama episódica, a maioria dos arcos narrativos de A Segunda Vez não se encerra em apenas um episódio, tendo continuação ao longo da série. Por isso, no início dos episódios, é feita uma recapitulação do que aconteceu anteriormente, para situar o espectador. Entretanto, a narrativa não é complexa e pode ser entendida, no geral, também por quem não acompanhou os episódios anteriores.

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No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A trama se passa na cidade de São Paulo e dentre os cenários utilizados estão, principalmente, apartamentos, carros e ambientes fechados. Isso ajuda na ambientação da série, uma vez que reforça a atmosfera da cidade grande. A caracterização dos personagens também é um ponto importante nesse aspecto, já que as roupas utilizadas, por exemplo, se adequam ao estilo da grande capital, além de seguirem a personalidade de cada personagem. As garotas de programa utilizam roupas curtas e provocantes, mas Luiza (Monique Alfradique), por exemplo, quando não está trabalhando, usa um óculos, que pode ser relacionado ao desejo da moça de estudar.

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A trilha sonora não representa um ponto de destaque dentro da narrativa. Por vezes são utilizadas trilhas diegéticas, que são aquelas que fazem parte do universo e da cena dos personagens.  Um exemplo é no primeiro episódio, quando Raul (Marcos Palmeira) se acomoda no novo apartamento e coloca uma música enquanto assiste TV. Ainda no primeiro episódio, no apartamento de Carla (Letícia Persiles), enquanto Raul (Marcos Palmeira) a espera para sair, é possível ouvir a música Smells Like Teen Spirit, do Nirvana. Tal trilha sonora reforça a personalidade da moça e ajuda na caracterização do personagem.

A fotografia segue um estilo naturalista, que muda apenas quando o ambiente é a boate Press, onde a iluminação fica avermelhada devido às luzes da boate. Quando há um flashback do passado de Luiza (Monique Alfradique), por exemplo, a fotografia também se modifica, ficando mais neutra, esbranquiçada, e com tons mais claros que o natural. Isso reforça a mudança de temporalidade, deixando mais claro ao espectador que se trata de um flashback.

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A edição segue, majoritariamente, o padrão linear. O primeiro episódio se inicia com Raul (Marcos Palmeira) em um terraço com uma piscina cheia de mulheres. Após essa cena, a história volta alguns dias no passado e segue a cronologia linear normalmente, com exceção de flashbacks como o de Luiza (Monique Alfradique), já citado anteriormente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, são feitas referências à cidade de São Paulo e a filmes como Scarface, Os Bons Companheiros e O Poderoso Chefão, por exemplo. Além de aproximar a trama ao público com a utilização de elementos reais, no caso dos filmes também há a contextualização de uma situação vivida pelos personagens. Raul (Marcos Palmeira) deve dinheiro ao cafetão Aquiles Perrone (Roney Villela), um homem perigoso. Enquanto pensa nas soluções para quitar a dívida, Raul (Marcos Palmeira) se lembra de tais filmes, que tem como temática a máfia, realizando um paralelo entre as obras e sua própria situação.

A trama possui setas chamativas que impedem que o espectador complete o sentido da narrativa, uma vez que já entrega o conteúdo pronto a ele. Como exemplo de seta chamativa tem-se a mudança de fotografia no flashback do passado de Luiza (Monique Alfradique) ou o fato de Raul (Marcos Palmeira) ser também um narrador em voz over, que explicita os pensamentos do protagonista, apresenta personagens e contextualiza situações.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, a trama apresentou clímax e reviravoltas que nem sempre aconteciam em um único episódio, o que contraria, de certa forma, o formato episódico. Entretanto, em nenhum momento o espectador foi levado a reconsiderar tudo visto até então. Também não houve alteração no formato narrativo do programa.

Já no que se refere aos recursos de storytelling, a série apresentou pequenas alterações cronológicas e flashbacks, como já citado anteriormente. Há também uma sequência fantasiosa, no último episódio, quando Raul (Marcos Palmeira) vê Carla (Letícia Persiles), que está morta, dançando entre as outras meninas. Contudo, esse não é um indicador de destaque na trama.

Por Júlia Garcia

+1! Filmes

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O canal +1! Filmes, no ar desde 19 de junho de 2010, propõe “Filmes de humor (ou não!) baiano, toda segunda, às 10h30!”. É produzido pela produtora audiovisual baiana homônima.

Criado pelos produtores Deo (Uelter Ribeiro) e Moara Rocha e apresentado pelo ator Pisit Mota, os esquetes tratam de temas corriqueiros, com duração média de 4 minutos. Especificamente as emissões analisadas, todas de setembro de 2015, pertencem à série #3 dicas, com menos de 1 minuto de duração cada uma.

Além do YouTube, o +1! possui aplicativo, site, página no Facebook, Twitter, perfil no Google + e Instagram e, fora do ambiente virtual, tem camisetas com frases, ditados populares e caricaturas dos personagens do canal. Não há interação com os inscritos na aba “Discussão”, no entanto, alguns comentários são respondidos em vídeos esporádicos. As playlists são divididas por temas, e uma delas, O Amor dos Outros, refere-se ao longa-metragem feito pela produtora +1!. O canal é vinculado a outro, o +1! Kids, com conteúdo destinado às crianças.

No Plano da Expressão, são destaque as vinhetas, o cenário e a linguagem utilizada por Pisit Mota. A vinheta de abertura mostra o logotipo do canal (+1!) sobre um fundo preto, enquanto a palavra “filmes” aparece logo abaixo, como se alguém a estivesse escrevendo, o que se pode deduzir pelo som de um lápis ou caneta deslizando sobre uma superfície. Também há uma música instrumental ao fundo e a marca, depois de escrita, parece ser descolada, como um adesivo. A vinheta dura cerca de 2 segundos, apenas. Em seguida, o apresentador faz uma pequena introdução sobre o vídeo, antes de dar as 3 dicas sobre o tema tratado.

O cenário é sempre o mesmo: Pisit Mota está sentado em uma mesa de vidro, com vários objetos pouco identificáveis, mas que se assemelham a materiais de escritório. O fundo da cena é composto por paredes brancas com apenas um cartaz (“Pisit Mota: Por umas e por outras – Ingressos Aqui”) que fica bem atrás do protagonista e, apesar de não poder ser lido completamente, refere-se a um stand up comedy estrelado pelo ator e também produzido pela +1! Filmes.

A linguagem do protagonista é completamente informal, marcada por palavrões e, principalmente, gírias e dialetos baianos, como “miséra” e “bagaça”. Além disso, entre uma dica e outra, Pisit introduz algumas frases, semelhantes a ditos populares, mas que são aleatórias e quase nunca têm relação com o tema do vídeo, como no #3 dicas – Como conseguir uma namorada bonita, do dia 8 de setembro de 2015, em que ele diz: “Sabido é o asfalto, que trabalha deitado para receber massagem de graça”, “Sabido é o grilo, que come a plantação e o gafanhoto leva a fama” e “Jegue suicida mora em BR”.

A vinheta de encerramento é composta por oito quadrados em um fundo estampado que se movem e alternam entre quadros coloridos que exibem os créditos e outros que mostram personagens dos demais vídeos do canal (e caricaturas destes), tocando a mesma música-tema da vinheta inicial.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos, obteve nota mínima em todas as emissões, pois são exatamente os clichês que compõem as falas e o roteiro da série #3 dicas, mesmo que estes sejam machistas e preconceituosos. Portanto, a intenção não é desconstrui-los, mas utilizá-los para fazer o público rir, como no episódio #3 dicas – Para não tomar corno, em que Pisit fala: “Terceira dica: cuidado com a roupa que você vai dar à sua mulher, porque roupa de malhar é igual caldo Knorr, deixa qualquer galinha gostosa”. Ou no vídeo do dia 28 de setembro de 2015, em que a proposta é dar dicas de como passar no ENEM, mas que, ironicamente, nenhuma delas serviriam para isso, o protagonista encerra o vídeo com a seguinte frase: “É por isso que eu digo, sociedade: ‘Viado’ sensível não come ovo frito”.

Já o indicador oportunidade só é observável no episódio citado anteriormente, considerando que foi emitido em setembro, um mês antes de o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) acontecer. No entanto, a nota para esse indicador é fraca, pois não agrega nenhum conhecimento ao público. Nos outros dois vídeos não constam assuntos atuais ou relevantes, o que também reflete diretamente no indicador ampliação do horizonte do público, no qual os três vídeos ficaram com a mesma avaliação anterior, por abordar temas corriqueiros e discuti-los de forma já conhecida, que em nada acrescentam no discernimento do espectador.

Sobre a diversidade de sujeitos representados, as três emissões foram consideráveis, pois o protagonista, apesar de ser nordestino e negro, características pouco observáveis em outros canais do YouTube, é o único que aparece nos vídeos.

Veja no gráfico as notas emitidas para cada vídeo:

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Na  Mensagem Audiovisual, o indicador originalidade/criatividade foi classificado como fraco em todas as emissões, pois o formato dos vídeos do canal não difere muito de outros do Youtube, que também exibem listas, dicas e/ou conselhos sobre um assunto comum. Além disso, a linguagem audiovisual do programa também não apresenta nenhum formato inovador ou diferenciado.

O diálogo com/entre outras plataformas também não obteve avaliação significativa, sendo considerado pouco relevante nas emissões, pois a produtora +1! Filmes tem inúmeras produções audiovisuais que poderiam convergir entre si, no entanto, apenas o stand up de Pisit é referenciado nos vídeos, e, mesmo assim, é difícil o reconhecimento do cartaz para alguém sem um pré-conhecimento do show. Ademais, apenas no vídeo #3 dicas – Para não tomar corno!, do dia 15 de setembro de 2015, são percebidas referências externas, como à Costa do Sauipe e Alagoinhas, na Bahia, e a marcas, como Danone e Chevrolet.

A solicitação da participação ativa do público também obteve avaliações baixas, pois tal característica só é percebida por causa da interação do apresentador com o público, explicitada pela relação direta dele com as câmeras e pela linguagem utilizada, como na expressão “você, aí, de casa”, por exemplo.

Já o indicador de qualidade clareza da proposta, em contraposição aos outros, ficou com ótima avaliação nas 3 emissões avaliadas, pois o canal se propõe a entreter o público e fazê-lo rir, cumprindo essa promessa. E, em especial nesses vídeos que compõem uma única série, apresenta um formato padrão e facilmente reconhecível em todas as emissões.

Confira no gráfico abaixo todas as notas de cada uma das emissões:

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Pode-se concluir, portanto, que o canal +1! Filmes não é um programa de humor, como afirmam em sua descrição, mas de comédia, de acordo com os critérios de representação e experimentação do Observatório, com o intuito de provocar o riso, sem necessariamente trazer alguma reflexão a respeito de um assunto. Isso é afirmável a partir das notas muito baixas que os vídeos receberam, em comparação a outros programas avaliados que tiveram notas maiores em indicadores importantes, como ampliação do horizonte do público, desconstrução de estereótipos e oportunidade. Vale ressaltar que os vídeos analisados constam de uma pequena amostra do conteúdo do canal e referem-se apenas às emissões de setembro de 2015.

Por Lílian Delfino