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O engajamento dos telespectadores interagentes nas Olimpíadas

Exibida da última sexta-feira (05), a cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016 gerou 390 milhões de impressões no Twitter. A métrica indica o número de vezes que os tuítes foram visualizados na timeline da rede social. De acordo com o Kantar Twitter TV Ratings (KTTR) e Nielsen Twitter TV Ratings, enquanto a cerimônia estava sendo transmitida foram postados no Brasil 395 mil tuítes, já nos Estados Unidos a abertura gerou apenas 1.307 publicações.

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Para engajar o público do Twitter, foram criados três perfil oficiais do evento, o @jogosolimpicos, o @chamaolimpica e o @Rio2016. Além de divulgarem as principais informações sobre as Olimpíadas, as páginas também indicam as indexações e ações exclusivas das competições. Para estimular o buzz e unificar os comentários postados no Twitter durante a cerimônia de abertura os perfis criaram a hashtag #cerimoniadeabertura. A ação foi bem recebida pelo público e compôs 65% das postagens sobre o evento.

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De acordo com o relatório divulgado pelo Kantar Twitter TV Ratings (KTTR) dos 395 mil tuítes publicados durante a cerimônia de abertura, 27% das menções eram positivas e 3% eram negativas.

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A análise de sentimento também indicou que para demonstrar admiração a maioria dos telespectadores interagentes usou a palavra ‘lindo’. Segundo o KTTR as cinco emoções mais presentes no backchannel foram a admiração, a alegria, a expectativa, a risada e a crítica.

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Já os momentos que mais geraram comentários durante a exibição da cerimônia de abertura, isto é o TPM (tuítes por minutos), foi quando as arvores formaram os arcos olímpicos, quando Vanderlei Cordeiro de Lima acendeu a pira olímpica e, por fim, quando o Michel Temer foi vaiado ao abrir oficialmente os jogos.

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As ações de social TV direcionadas para as Olimpíadas também contam com hashflags exclusivas. Ao tuitar as iniciais de um dos 207 países que estão participando do evento, o telespectador interagente irá desbloquear um emoji. As 50 modalidades esportivas também ganharam suas representações gráficas.

Por Daiana Sigiliano

Xafurdaria

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 O canal Xafurdaria, criado por Kaio Oliveira em dezembro de 2012, apresenta vídeos de comédia “quase toda segunda, quinta e sábado”, segundo a descrição do canal. Em setembro de 2015 contava com 1.506.751 inscritos e cerca de 237 vídeos. Além do YouTube, o Xafurdaria apresenta outras redes sociais, como Facebook, Instagram e Snapchat.

Em relação ao plano da expressão, o canal se destacou na linguagem utilizada nos vídeos, sempre informal e com expressões populares que aproximam os conteúdos do cotidiano do público. Kaio Oliveira comumente usa o termo “papoca esse like” para pedir que a audiência curta os vídeos. A frase, inclusive, é estampa de alguns produtos vendidos na loja virtual do canal, como camisetas e relógios.

Em relação ao plano do conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público não se mostrou relevante nas emissões analisadas, tendo recebido avaliação fraca. Tal avaliação se deve à falta de temas pertinentes que possam estimular o público à reflexão e ao debate de ideias.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, quatro emissões receberam avaliação fraca, uma vez que não trazem pluralidade de gênero, orientações sexuais ou pontos de vista, por exemplo. O vídeo Tipos de Atletas, no entanto, recebeu avaliação razoável, pois, como o nome sugere, representa alguns tipos de esportistas, apresentando certa diversidade de sujeitos. Como exemplo, tem-se o atleta humilde, como Kaio Oliveira apresenta: “Ao contrário dos atletas que se acham, tem os atletas humildes”. No vídeo, o atleta diz: “Vim do interior né, nasci bem pobre”, o que sugere certa diversidade socioeconômica e geográfica dentre os sujeitos representados no vídeo.

Esse mesmo vídeo recebeu avaliação boa no indicador oportunidade, já que faz parte de uma campanha das Olimpíadas no Brasil – assunto em constante abordagem pela mídia – e, durante as representações dos tipos de atletas, simula coletivas de imprensa, as quais são frequentemente apresentadas em programas esportivos e jornais, por exemplo. As outras emissões, por sua vez, não se pautaram em temas atuais ou relevantes que fazem partes das agendas do público ou da mídia, recebendo, portanto, avaliação fraca nesse indicador.

A desconstrução de estereótipos, contudo, não foi observada nas emissões analisadas do canal. Alguns vídeos, inclusive, reafirmam alguns tipos de generalizações e representações, como é o caso do Como Identificar Se Você Tá Apaixonado. Em tal vídeo, Kaio Oliveira mostra como seriam as reações de homens e mulheres ao perceberem que estão apaixonados. Ao representar esses sujeitos, porém, faz uso de conceitos pré-estabelecidos a respeito desses grupos, como quando simula mulheres e homens contando para os amigos que estão apaixonados. As mulheres ficariam felizes, como Kaio afirma: “As amigas são as primeiras pessoas a apoiarem a paixão da amiga, elas adoram paixão. Para a mulher a paixão é um negócio tão mágico que ela fica feliz pela amiga dela que está apaixonada.”. Já os homens teriam a reação inversa, pois, como dito por Kaio, “Simplesmente ele vai perder um guerreiro na balada, ele vai perder mais um solteiro”. Além desse tipo de generalização, Kaio utiliza palavras como “veado” de forma pejorativa, como no vídeo Quando Eu Jogava Bola Na Rua, no qual diz: “Deixa de ser veado, rapaz, antes tu jogava no calçamento…”. Veja, abaixo, a avaliação recebida por cada indicador no plano do conteúdo:

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No que diz respeito à mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta recebeu avaliação muito boa em todas as emissões analisadas, já que o objetivo dos vídeos é nítido, sem deixar dúvidas. No vídeo Como Identificar Se Você Tá Apaixonado, por exemplo, Kaio explica: “Hoje eu vou iniciar uma série aqui no Xafurdaria diferenciando diversos comportamentos de homens e mulheres e eu resolvi iniciar com esse; qual é a diferença do homem e da mulher quando os mesmos estão apaixonados.”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do público recebeu avaliação muito boa. Kaio, em grande parte das vezes, se dirige diretamente aos internautas, sendo que os vídeos têm início com ele dizendo: “Fala galera, meu nome é Kaio Oliveira e tá começando mais um Xafurdaria aqui no YouTube”. Além disso, ao final dos vídeos, é comum Kaio pedir para o público se inscrever no canal, dar “like” no vídeo ou clicar em algum link disponibilizado por ele.

O indicador diálogo com/entre plataformas também foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas, uma vez que as redes sociais de Kaio Oliveira sempre são disponibilizadas durante os vídeos, além de links que direcionam o espectador, por exemplo, à loja virtual do Xafurdaria ou a outras emissões do canal. Tem-se como exemplo o vídeo Tipos de Atletas, que faz parte da campanha olímpica O Brasil Inteiro Joga, da qual outros youtubers também fazem parte. Ao final do vídeo, Kaio disponibiliza links que levam às playlists dos canais Niina Secrets e Manual do Mundo, com vídeos também integrantes da campanha.

Além disso, como é comum no YouTube, no vídeo Pepeca Depilada ft. Julio Cocielo há um crossover entre o Xafurdaria e o Canal Canalha, comprovando o diálogo entre os canais. Ainda em relação ao indicador, no vídeo Como Identificar Se Você Tá Apaixonado Kaio comenta: “Eu poderia começar esse vídeo estilo a MC Melody” – em referência a uma personalidade real.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável em todas as emissões, já que o canal não apresenta um formato diferenciado que se destaque em relação a outros já apresentados no YouTube. O conteúdo dos vídeos, por sua vez, também não é trabalhado com grandes inovações. A seguir, as avaliações da mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se observar que o canal Xafurdaria obteve destaque em indicadores da mensagem audiovisual, como no diálogo com/entre plataformas, já que outras redes sociais do canal, como Facebook, Instagram e Snapchat, eram divulgadas em todos os vídeos. Além disso, eram comuns menções a elementos da realidade, além de crossovers com outros canais.

A solicitação da participação ativa do público foi outro indicador de destaque, uma vez que Kaio, em todos os vídeos analisados, se dirigia diretamente ao espectador, solicitando que clicasse em links ou se inscrevesse no canal, por exemplo. O uso de expressões populares, que aproximassem a linguagem ao cotidiano do público, é um outro aspecto que pode ser pontuado nesse indicador. Entretanto, tais indicadores são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um elemento de destaque do canal.

Por sua vez, indicadores importantes ao humor de qualidade – considerado aquele que traz problemáticas relevantes e pertinentes, capazes de levar o público à reflexão – não foram observados com realce nas emissões analisadas do canal. O indicador ampliação do horizonte do público, por exemplo, foi pouco observado nos vídeos analisados, já que os temas abordados não tinham grande pertinência ou importância perante a conjuntura social.

Já a desconstrução de estereótipos não foi observada em nenhuma emissão, sendo que, em alguns vídeos, generalizações e conceitos pré-estabelecidos em relação a algum grupo social eram reafirmados, ainda que não fosse de modo malicioso. Desse modo, características essenciais ao humor de qualidade não foram observadas com relevância no canal Xafurdaria.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

O que tem pra hoje

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O canal O Que Tem Pra Hoje, criado em agosto de 2011 é, segundo as descrições dos vídeos, “um canal de esquetes (vídeos engraçados, de humor), independente.”. Em maio de 2016 contava com cerca de 130.000 inscritos, 92 vídeos e mais de 20.000.000 visualizações.Entretanto, as emissões analisadas do canal – todas de setembro de 2015 – fazem parte de uma websérie produzida pela Toca dos Filmes: Os Britos Também Amam. Nela, é apresentado Rafael Brito, um homem de 32 anos que leva uma vida semelhante à de um adolescente, juntamente com seus dois amigos, Chelo e Rico. Brito é procurado por Kelly, sua ex-namorada de 15 anos atrás, que revela que ele tem uma filha adolescente chamada Raquel. Ele, então, passa a ter novas responsabilidades que o levam ao temido amadurecimento.

No plano da expressão se destaca a produção do programa, de alta qualidade. O cenário, por exemplo, é bem montado e o figurino bem planejado.  Os equipamentos utilizados para filmagem e iluminação também conferem destaque à produção, dando qualidade à série. Tais características fazem lembrar as produções televisivas. O projeto foi financiado através do Catarse, uma plataforma online de financiamento coletivo, que permitiu a realização da série com tal qualidade.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados foi pontuado de forma razoável em todas as emissões. Há certa diversidade de gênero e pontos de vista, visto que se tem a representação de uma mulher séria e correta, uma adolescente e um homem despreocupado e sem responsabilidades, por exemplo. Entretanto, faltam personagens que deem diversidade socioeconômica, cultural, étnica, dentre outros. Não há grande pluralidade dentre os sujeitos representados, motivo pelo qual o indicador foi considerado razoável na análise.

O indicador oportunidade foi igualmente avaliado. O tema tratado pela websérie – a descoberta da paternidade, o amadurecimento e o cuidado com os filhos – pode ser encontrado comumente em outras séries ou novelas, por exemplo. Essa situação também faz parte do cotidiano de algumas famílias, estando, portanto, presente nas agendas da mídia e do público, em maior ou menor quantidade. Contudo, esse tema não é pauta constante ou rotineira nessas agendas, motivo pelo qual a avaliação não foi maior.

Em relação à ampliação do horizonte do público, o episódio 13 da websérie recebeu avaliação razoável, já que, assim como todos os capítulos em geral, trata da figura do pai, em especial da descoberta da paternidade, questão pertinente e que pode levar os espectadores à reflexão sobre o tema. Tem-se como exemplo o diálogo entre Brito e Raquel:

 RAQUEL: Não, por que você tá defendendo a minha mãe?

BRITO: Eu não tô defendendo a sua mãe.

RAQUEL: Ela é uma pentelha!

BRITO: Para de falar, boca suja.

RAQUEL: Eu falo como eu quiser, quem é você pra mandar em mim?

BRITO: Eu… Eu sou seu pai.

(Os Britos Também Amam – Episódio 13)

 Já os episódios 12(01/09/2015) e 14 (08/09/2015)receberam avaliação boa. O primeiro, por tratar, além do assunto geral da série, da gravidez na adolescência e dos papéis conjuntos da mãe e do pai. O diálogo entre Kelly e Brito exemplifica isso:

 KELLY: Eu te falei pra não deixar aquele moleque dormir aqui!

BRITO: Kelly, eu fiquei fora do esquema por 15 anos, me deixa sair como o pai gente fina, vai.

KELLY: E eu como a mãe megera.

BRITO: Que bom, achei que você não ia topar!

KELLY: Não vou!

(Os Britos Também Amam – Episódio 12)

 Já o episódio 14 recebeu tal avaliação por enfatizar a importância do papel paterno, como visto no diálogo entre Brito e seus vizinhos Rico e Chelo, os quais questionavam se Brito seria realmente o pai de Raquel. Brito responde: “Vocês dois são uns imbecis. Eu sou o pai dela. Por bem ou por mal, se eu peguei no meio do caminho, dane-se. A partir de agora eu vou fazer de tudo pra ser uma boa pessoa pra ela. Vocês entenderam?”. Essas questões abordadas durante as emissões são férteis e têm a capacidade de promover o debate de ideias, incrementando o indicador.

No episódio 12, o diálogo entre Brito e Kelly, que aborda o papel do pai “gente fina” e da mãe “megera”, foi o motivo pelo qual tal emissão recebeu avaliação fraca no indicador desconstrução de estereótipos. O diálogo aborda os estereótipos representados por esses papeis sem, contudo, desconstruí-los, o que justifica a avaliação fraca no indicador.

O episódio 14, por sua vez, é construído sobre a dúvida a respeito da paternidade de Brito, uma vez que Chelo e Rico, ao descobrirem que o amigo não se lembra da “concepção” da filha, questionam se ele é realmente pai de Raquel. Brito, ao contrário do que é esperado, não leva o questionamento adiante, mesmo sendo incentivado pelos amigos. Chelo chega a pegar a garrafa de água de Raquel e a entrega para Brito fazer um teste de DNA, mas Brito joga a garrafa fora. Ao

contrário do que comumente se espera de um homem sem responsabilidades e imaturo como Brito, ele assume a paternidade sem questionamentos e tenta ser um bom pai, como exemplificado anteriormente durante o diálogo dele com seus vizinhos. Por esse motivo, o episódio 14 recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos. Abaixo, as avaliações de cada emissão:

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No que diz respeito à mensagem audiovisual, o indicador clareza da propostafoi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas, pois o objetivo da série não deixa dúvidas e o que foi proposto é apresentado de forma clara.

Quanto à originalidade/criatividade, a websérie recebeu avaliação razoável, pois não traz grandes inovações. O conflito principal proposto não se diferencia muito de temáticas já expostas em outras produções, assim como não há grande experimentação na forma dos vídeos.

O diálogo com/entre plataformas não teve destaque nas avaliações, sendo pontuado de forma razoável. O que incrementou o indicador foram as semelhanças com as produçõestelevisivas e a posterior transformação da websérie em DVD pela Toca dos Filmes.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público tambémnão foi destaque. Poucos recursos são utilizados para uma comunicação mais estreita com a audiência ou para estimular dela uma participação ativa. A linguagem é um ponto que aproxima os personagens do público, uma vez que se assemelha muito àquela utilizada no dia-a-dia. Como exemplo, tem-se o episódio 13 da websérie (04/09/2015), no qual Chelo conversa com Brito:

 BRITO: Chelo, alguma vez eu falei mal da Kelly?

CHELO: Tirando ontem à noite?

BRITO: Eu não falei nada ontem à noite.

CHELO: Disse que ela era uma megera e que merecia levar uma surra de jabá.

(Os Britos Também Amam – Episódio 1304/09/2015)

  Há também um link no início do vídeo, escrito “pular abertura”, que leva ao final da vinheta inicial e representa uma solicitação da participação do público. Porém, esses são uns dos poucos recursos que incrementam o indicador e não possuem destaque na produção. Veja, abaixo, os indicadores de qualidade de cada episódio e as suas respectivas avaliações na mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se verificar que o canal O Que Tem Pra Hoje, a partir das emissões estudadas da websérieOs Britos Também Amam, obteve avaliações consideráveis em indicadores essenciais à qualidade do humor, como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos. Sendo assim, podem-se observar certas características de qualidade na websérie, entretanto tais características não possuem, geralmente, muito destaque dentro da produção.

 Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

Vai Que Cola

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Vai que Cola é um programa de humor produzido e exibido pelo canal Multishow, com a direção de César Rodrigues e João Fonseca. O primeiro episódio estreou dia 08 de julho de 2013, sendo a primeira temporada exibida até 30 de agosto do mesmo ano. A sitcom conta com três temporadas já encerradas e com a quarta já confirmada. As gravações da próxima temporada têm previsão de início em maio de 2016, mas devem ser interrompidas de julho a setembro devido às Olimpíadas sediadas no Rio.

A série conta a história de Valdomiro Lacerda, que foge da Polícia Federal após um grande golpe financeiro na empresa em que trabalhava. Assim, Valdo vai se refugiar no Méier e fica hospedado na pensão de Dona Jô, onde tem que conviver com os diferentes personagens que formam o cotidiano do bairro. Fazem parte do elenco principal Paulo Gustavo, Cacau Protásio, Samanta Schmutz, Marcus Majella, Fernando Caruso, Emiliano D’Ávila, Fiorella Mattheis e Catarina Abdala.

 O programa teve suas duas primeiras temporadas filmadas na HSBC Arena e a terceira no Riocentro, nos quais se montava um palco giratório que permitia a visão da plateia de todos os cômodos da casa, à medida que o palco girava. Esse cenário é um dos pontos de destaque do plano da expressão, já que dinamiza o ambiente e permite, inclusive, que situações cômicas sejam construídas a partir do funcionamento de tal cenário. Tem-se como exemplo o episódio Dotadão do Méier, no qual o personagem Wilson transita pela pensão enquanto faz um monólogo, passando com facilidade pelos cômodos, de um modo que não seria possível em uma casa real. Ao chegar ao quarto de Dona Jô ele dispara: “Como é que eu vim parar aqui? O que tá acontecendo, meu deus?”.

Quanto aos efeitos sonoros, muitas vezes eles contribuem para construir a atmosfera da qual a cena necessita, como quando há músicas de suspense nos momentos de tensão, o que também constrói certo humor. Além disso, sempre que um personagem entra em cena pela primeira vez há uma música específica para ele, o que permite um primeiro contato do personagem com o público, que facilmente o identifica pela música. Há também, ainda nesse plano, a linguagem, que é utilizada de forma coloquial, com a inclusão de expressões populares e até palavrões, o que aproxima o programa da sua audiência.

Já no plano do conteúdo, todas as emissões receberam avaliação fraca no indicador desconstrução de estereótipos, pois os personagens geralmente se baseiam na afirmação desse tipo de generalização. Como exemplo tem-se Ferdinando, gay que é retratado de um modo exagerado, sempre com roupas extravagantes, além de “amar” Bárbara Streisand. Entretanto, esse tipo de representação exagerada pode levar o público a questionar sua validade. Um momento interessante a ser considerado nesse indicador é a conversa entre Velna e Wilson no episódio Dotadão do Méier:

VELNA: Tá bom, gente. Mas você só me trata como objeto. Eu queria ser alguma coisa a mais, assim, uma coisa além, sabe?

WILSON: Tipo o que?

VELNA: Tipo deixar de ser uma loira gostosa que eu sou e ser uma loira, gostosa, inteligente.

WILSON (rindo): Ai, desculpa, você tava falando sério?

(Vai que Cola – episódio Dotadão do Méier 07/10/2015)

A conversa caminha a uma desconstrução do estereótipo da loira gostosa e burra, mas a reação de Wilson só reafirma a generalização. Desse modo, o público pode refletir sobre os estereótipos que contém no programa, mas a desconstrução deles é feita de modo fraco.

No indicador oportunidade, por sua vez, quatro emissões receberam avaliação razoável, já que fazem uso de assuntos presentes no cotidiano do público e na agenda da mídia, como as dietas detox, no caso do episódio Quem mexeu no meu pudim (22/10/2014), ou as redes sociais e a internet, abordadas na maioria dos episódios. Apenas a transmissão do dia 07 de outubro de 2014, O Dotadão do Méier, recebeu avaliação fraca no indicador, pois não aborda temas atuais e relevantes que constam nas agendas do público e da mídia.

Já em relação à diversidade de sujeitos representados, todas as emissões foram bem avaliadas, pois os personagens retratados são distintos, havendo tanto diversidade cultural e econômica, quanto diversidade de gênero e pontos de vista. Tem-se, por exemplo, Valdomiro Lacerda, antes rico e morador de bairro nobre do Rio de Janeiro, convivendo com Jéssica, funkeira do Méier, e Velna, loira que se passa por gringa.

A ampliação do horizonte do público recebeu avaliação razoável em três das emissões analisadas, por tratarem de assuntos que incrementam o debate e a formação de ideias, tendo a capacidade de fazer a audiência refletir sobre o que está assistindo. No episódio Nega Maluca, por exemplo, Jéssica se mostra alegre e feliz nas suas redes sociais, mas a realidade não é condizente com o que ela mostra. O episódio Mulher Feia também trata da questão da internet, além de abordar o tema ciúmes e o controle que as pessoas podem ter sobre seus parceiros por meio das redes sociais. Já os episódios Quem mexeu no meu pudim e Dotadão do Méier não trouxeram grande debate a respeito de temas relevantes e férteis, sendo fracamente pontuados. Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Em relação à mensagem audiovisual, todas as emissões analisadas receberam uma avaliação muito boa quanto ao indicador clareza da proposta, uma vez que o formato do programa é nítido. A própria vinheta de abertura já dá ao espectador uma ideia de como é cada personagem, bem como alguns conflitos que podem ser vistos na sitcom. Na vinheta, tem-se, por exemplo, Jéssica usando o celular e brigando com Máicol, o que é recorrente nos episódios.

A solicitação da participação ativa do público é igualmente muito bem avaliada, pois há uma plateia que assiste cada gravação, aplaudindo e dando risadas. Os personagens, assim que entram em cena pela primeira vez, são ovacionados pelo público e dirigem-se a ele com acenos e sorrisos. Além disso, na maioria das vezes em que um personagem fica em cena sozinho ele fala em direção à plateia, como se falasse com ela. Como exemplo dessa participação tem-se o episódio Dotadão do Méier (07/10/2014), no qual, com a entrada de Sanderson, algumas pessoas da plateia começam a cantar “Aqui tem um bando de louco, loucos por ti Corinthians”, em referência ao time do personagem, o qual também interage com a situação.

Já no episódio Toma que o filho é teu (16/10/2014), no momento em que Dona Jô está contando sobre a infância de Jéssica e quando a levou ao Maracanã em um jogo do Flamengo, a plateia reage positivamente e Dona Jô complementa para o público: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. A presença de uma plateia ainda abre espaço para o improviso, consideravelmente presente no programa. Sendo assim, o público pode ser considerado, também, parte da sitcom.

A mescla de televisão e teatro contribuiu, ainda, para incrementar o indicador diálogo com/entre plataformas. A presença de uma plateia, bem como de características como erros e improviso, remete ao teatro, ainda que o programa seja televisivo. Há também, durante os episódios, algumas referências a personalidades e programas reais, como em Toma que o filho é teu, no qual Jéssica diz a sua mãe: “Porque eu vi aquele filme, Lagoa Azul, que passa mil vezes na Sessão da Tarde”. Já no episódio Nega Maluca (20/10/2015), Wilson conversa com Dona Jô:

WILSON: Então, eu queria conversar sobre o seguinte, hum, então… No Star Wars, quando a Princesa Leia quis dizer que amava o Han Solo é a cena mais romântica do filme né…

DONA JÔ: Star Wars, claro.

WILSON: Então, o que acontece, era pra Princesa Leia falar ‘eu te amo’ pro Han Solo e o Han Solo responder ‘eu também’, só que o Harrison Ford tava de bode no dia, aí ao invés de ele falar ‘eu também’, ele falou ‘eu sei’.

DONA JÔ: Sei, Harrison Ford, ai eu adoro ele.

(Vai que Cola – episódio Nega Maluca 20/10/2015)

Além de tais elementos, a sitcom gerou dois spin-offs (programas derivados de obras já existentes): Ferdinando Show, com Marcus Majella, e Aí eu vi vantagem, com Samanta Schmut; um filme e dois vlogs – o Vlog do Ferdinando e o Vlog da Jéssica, com conteúdo exclusivo para internet. É comum Jéssica mencionar suas redes sociais nos episódios e, no site do canal Multishow, é possível acompanhar o vlog da personagem dando dicas sobre relacionamentos e comportamento, por exemplo. A partir dos vídeos mais recentes, o canal vem estimulando os espectadores a utilizarem as hashtags dos episódios de Vai que Cola para atingirem uma meta semanal e desbloquearem mais vídeos da personagem, divulgados pelo site e pelas redes sociais do Multishow.

No indicador originalidade/criatividade, o programa recebeu avaliação razoável nas emissões analisadas, pois seu formato não é totalmente inovador, já que tem como base o formato já consolidado de outros programas conhecidos do público, entre eles o Sai de Baixo. O que incrementa tal indicador é a metalinguagem quase sempre presente, à medida que os personagens se confundem com os atores e o programa com a vida real, sendo que elementos da própria construção do show, como o roteiro, são utilizados para o humor. No episódio Toma que o filho é teu, por exemplo, Valdo pergunta: “Você não é aquele garoto do comercial?”, se referindo ao ator convidado do episódio, o qual faz comerciais de telefonia.

No episódio Nega Maluca a metalinguagem é, especificamente nessa transmissão, mais utilizada do que o comum. Nesse episódio, Lacraia diz: “Ela namorou com nós dois, eu apenas deixei ela contigo um tempo porque eu tô fazendo novela, mas eu pedi uma liberação e eles deixaram eu fazer esse episódio”. Há ainda uma conversa entre os personagens enquanto o palco gira para mostrar os diversos cômodos da pensão:

WILSON: Peraí, já passou? Não, pô, volta! Que isso? Eu tô oito páginas sentado nesse banheiro e quando chega a minha vez vai passar direto? Não, volta!

LACRAIA: Ô, Caruso, que porra é essa? Ninguém nunca parou esse banheiro aqui em duas temporadas de programa!

WILSON: Ou, tu agora é participação, fica na tua!

(Vai que Cola – episódio Nega Maluca 20/10/2015)

 Abaixo, a avaliação de cada emissão na mensagem audiovisual:

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 A partir da análise, pôde-se observar que Vai Que Cola obteve destaque em elementos da mensagem audiovisual, como solicitação da participação ativa do público, uma vez que o programa é feito com a presença de uma plateia, com a qual, muitas vezes, os atores interagem. O indicador diálogo com/entre plataformas também é outro ponto de destaque, já que são comuns diversas menções a elementos da realidade, além de o programa possuir conteúdos exclusivos para internet e ter gerado dois spin-offs. Esses são elementos relevantes de Vai Que Cola, já que, em programas televisivos, não é muito comum haver tamanho destaque em tais indicadores.

 Entretanto, indicadores do plano do conteúdo, como ampliação do horizonte do público, não obtiveram tal desempenho. Em relação a esse indicador, o programa, em algumas emissões, trata de assuntos pertinentes, porém não com a relevância necessária para gerar uma reflexão aprofundada no público. Como citado anteriormente, no episódio Nega Maluca o programa aborda temas como as redes sociais, que, muitas vezes, não apresentam um cotidiano condizente com a realidade. Jéssica, no episódio, se mostrava feliz e alegre em suas redes sociais, mas, na realidade, não estava assim. O tempo destinado a esse tipo de tema, bem como a profundidade com que tais temas são tratados, dificulta, contudo, uma reflexão mais complexa a respeito do que está sendo abordado.

A desconstrução de estereótipos também não obteve destaque, sendo pouco verificada nas emissões analisadas. O programa, utilizando dos diversos personagens apresentados, teria estrutura para trabalhar com qualidade o indicador, mas, ao invés disso, aposta na afirmação de alguns tipos de generalização para criar o riso. Tem-se como exemplo, o diálogo citado anteriormente entre Velna e Wilson, que caminhava para uma desconstrução, mas que acabou reafirmando um estereótipo. O exagero das atuações e dessas representações pode levar o telespectador à reflexão, mas não com a qualidade e profundidade que se espera em relação ao indicador. Desse modo, não são observados com destaque elementos essenciais ao humor de qualidade, considerado aquele que traz discussões relevantes e pertinentes capazes de levar o público à reflexão e ao debate de ideias.

 Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

A importância da hashtag na Social TV

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A hashtag é um elemento fundamental no ecossistema da Social TV, seja para realizar a mineração dos dados ou para engajar os telespectadores interagentes durante a exibição da grade de programação. Entretanto, ao observarmos o backchannel das atrações televisivas estadunidenses iremos constatar que a indexação pode ser utilizada de várias formas. Segundo Aversa (2014) a hashtag tem cinco funções centrais no âmbito da Social TV. São elas: identificar o programa, estimular a discussão, incitar resposta emocional, promover eventos especiais e incentivar o engajamento contínuo.  A partir dos pontos destacados pela autora, iremos relacionar cada função com um estudo de caso de programas da TV estadunidense.

O Twitter possui um fluxo permanente de informação que está em constante movimento. Desta forma é fundamental que o público reconheça imediatamente o contexto em que a tag está inserida para que ele possa se engajar no backchannel. Por isso o programa precisa de uma indexação específica que identifique claramente ao que ela se refere. O canal estadunidense Fox foi o primeiro a estimular o backchannel através das hashtags. Desde o final de 2011 as narrativas ficcionais seriadas da emissora possuem uma indexação que é divulgada no canto da tela durante toda a sua exibição. Ao promover a hashtag oficial de forma continua, a emissora alcança os telespectadores interagentes e, principalmente, aumenta o fluxo de impressões sobre a série. Isto é,  o público não fragmenta o buzz com outros tagueamentos e passa a usar apenas o divulgado pelo canal, criando assim, um fluxo único no microblog. Essa estratégia  tem dado certo, segundo o site Fast Company, a Fox foi o canal que mais gerou comentários na Social TV em 2012, atingindo 16,8 milhões de tweets (FAST COMPANY, 2012).

A hashtag também estimula a discussão em torno de um programa televisivo. De acordo com Primo (2010) o sinal ‘#’ é um convite para a busca de outros tweets com o mesmo contexto.  O recurso reúne em um só fluxo todos os comentários postados. Assim, “ocorre em um único tweet à penetração simultânea em múltiplos fluxos individuais e/ou coletivos em tempo real, caracterizando a interatividade pluridirecionada dessa micromídia móvel” (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p.109). Uma pesquisa apresentada pelo Twitter Advertising no Advertising Research Foundation em parceria com a Fox mostra que a indexação dos posts faz com que o buzz aumente 42%. Ao clicar na hashtag da atração, o público tem a oportunidade de acompanhar e participar da conversa, pois o recurso é capaz de reunir vários interagentes em torno de um mesmo tema. Conforme aponta Aversa (2014), “Hashtags eficazes aumentam o buzz e consequentemente motivam o público a participar da discussão e postaram impressões sobre a série”.

No ecossistema da Social TV, o fluxo indexado traz ao público um compromisso com a coletividade. Ao comentar sobre a programação no microblog, os telespectadores criam as chamadas comunidades de ocasião que são “autoconstruídas em torno de eventos, ídolos, pânicos ou modas” (BAUMAN, 2003, p.51). Desta forma, a hashtag é uma espécie de nó do laço afetivo criado entre os telespectadores durante o backchannel de um programa. Graças à indexação, o público consegue unificar o fluxo e, consequentemente, multiplicar as interações. De acordo com Santaella e Lemos (2010) “Outras comunidades, porém surgem e desaparecem a todo instante através do uso da #hashtags, que formam comunidades de usuários interessados no acompanhamento de um tema especifico” (p.113). Quando um canal de TV adota uma tag, cria uma sensação de pertencimento no telespectador interagente, mas esta, irá se dissolver naturalmente com a atualização do fluxo informacional do Twitter.

Aversa (2014) também pontua que as hashtags podem ser usadas para engajar o público a conduzir o backchannel, “Ao usar hashtags de como parte de uma estratégia de divulgação, os canais dão aos usuários um incentivo para conduzir o backchannel. Os fãs se sentem recompensados, e criam uma relação mais positiva com a série”. Essa aplicação da tag é muito usada pelos canais estadunidenses para promover as séries antes de suas estreias. Intitulada Maker’s Day a ação de lançamento da HBO para a quinta temporada de True Blood (2008) tinha como principal viés a mobilização dos fãs no Twitter. Anunciado no perfil da trama no Facebook, o Tweet To Unlock era espécie de termômetro digital que contabilizava o número de tweets publicados pelos fãs com #makersday. Quando o termômetro alcançasse a marca de 100 mil publicações a emissora liberaria o roteiro da season première. A ação foi um sucesso, demorou pouco mais de dois dias para que objetivo fosse alcançado. Esta forma de engajar os fãs no backchannel antes da estreia dos programas traz novas configurações na relação entre público e a marca. Ao ter sua dedicação recompensada pelo canal, o público se fideliza com o conteúdo, criando uma ligação ainda mais afetiva.

True-Blood-Makers-Day-Alcide-card

Também pautado na promoção de eventos pelas hashtags, a emissora estadunidense CBS usou o Twitter para mobilizar os telespectadores e gerar buzz antes da estreia de suas novas séries. Flock To Unlock permitia que os fandons trabalhassem em conjunto para desbloquear conteúdos exclusivos dos programas. Cada série tinha a sua meta de tweets, que quando atingida liberava cenas inéditas da trama. O interessante da ação é que o canal delega a reponsabilidade ao interagente. Se antes o público dependia da emissora para assistir uma prévia de sua atração favorita, a Flock To Unlock mostra que a liberação dos vídeos promocionais só depende do seu engajamento. Além de estimular a mobilização entre os fãs, esse tipo de estratégia gera buzz antes da estreia do programa, o que aumenta a expectativa em torno da grade de programação.

Flock To Unlock Series

O último ponto destacado por Aversa (2014) é o poder de encorajar o engajamento contínuo durante os períodos em que as séries estão fora do ar (mid-season e hiatos). As hashtags fazem com que o arco narrativo da trama continue sendo pauta dos comentários do Twitter. Programas como The Walking Dead (2010) e Hannibal (2013) usam indexações específicas nas mid-seasons para unificar o fluxo e mobilizar os fãs mesmo sem estarem no ar. A trama da AMC atingiu mais de 50 mil tweets com a #WalkerWithdrawals durante o seu perídio ocioso (AVERSA, 2014). Como defendem Quintas e González (2014) “Os usuários da rede social rompre a barreira temporal e criam uma presença continua que vai além do horário de exibição”.

No ambiente da Social TV as hashtags se tornam ferramentas vitais para o engajamento do público. Além de delimitar e diferenciar o conteúdo, a indexação assume novas configurações na experiência televisiva.  Entretanto, se não forem usadas da maneira correta elas podem dispersar o backchannel e atrapalhar a compreensão do público, tornando a postagem de comentários uma experiência esquizofrênica.

Referências

AVERSA, Staci. Social TV: 5 Keys To Successful Hashtags. Disponível em: <http://www.mediabistro.com/alltwitter/social-tv-hashtags_b53749>. Acesso em: 6 jan 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

Fox, Twitter and the advertising research foundation  find more than 90% of those who see tv show-related tweets have taken immediate action to watch, search for or share content . Fox Broadcasting Company And Twitter And The Advertising Research Foundation.  Disponível em: <http://www.foxflash.com/div.php/main/page?aID=1z2z1z25z1z8&ID=16327>. Acesso em:  6 jan. 2016.

PRIMO, Alex. As tags no Twitter como informação contextual de afeto. Disponível em: <http://alexprimo.com/2010/03/09/as_tags_no_twitter_como_informacao_conte/>. Acesso em: 6 jan. 2016.

QUINTAS,Natalia; GONZÁLEZ, Ana. Active Audiences: Social Audience Participation in Television. Disponível em: <http://goo.gl/cbdU0F>. Acesso em: 6 jan. 2016.

SANTAELLA, Lucia; LEMOS, Renata. Redes sociais digitais: a cognição conectiva do Twitter. São Paulo: Paulus, 2010.

Total facebook and twitter comments about shows on the top 5 TV networks last season. Fast Company, 2012. Disponível em: <http://www.fastcompany.com/magazine/168/september-2012>. Acesso em: 6 jan. 2016.

Por Daiana Sigiliano

O universo ficcional de The Big Bang Theory na Social TV

O engajamento dos telespectadores interagentes no Twitter durante a exibição das narrativas ficcionais seriadas é permeado por nuances. Ao observarmos o backchannel das principais séries que integram a grade de programação dos Estados Unidos iremos constatar que cada programa possui uma estratégia de Social TV diferente. Apesar de todas estimularem o appointment television, cada trama explora um aspecto específico de seu universo ficcional.

Produzida pela emissora CBS, a série The Big Bang Theory (2007-presente) vem implantando ações no âmbito da Social TV que nos ajudam a refletir sobre as novas possibilidades de engajamento inauguradas pelo recente fenômeno. As postagens são feitas pelo perfil oficial da atração no Twitter (@BigBang_CBS) e abrangem desde memes até conteúdos complementares sobre a história.

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Exibido na última quinta-feira (17), o episódio The Opening Night Excitation gerou 16 mil comentários no Twitter. Para estimular o backchannel, a CBS usou três indexações diferentes: a hashtag geral #BigBangTheory, que uma referência ao nome do programa e duas hashtags específicas #Shamy e #StarWarsTheForceAwaken.

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Além de ser a junção dos nomes dos personagens Sheldon Cooper (Jim Parsons) e Amy Farrah Fowler (Mayim Bialik) a indexação específica #Shamy faz alusão ao plot central do episódio, que foi focado na reconciliação do casal. Já a segunda indexação específica usada pelo perfil da série no Twitter faz referência não só apenas ao sub plot da trama como também aproveita o buzz gerado das redes sociais entorno da estreia do sétimo filme da franquia Star Wars, o Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens). Ao utilizar a indexação oficial do longa, os tweets gerados durante a exibição de The Opening Night Excitation acabavam imbricando em distintos fluxos na rede social, aumentando o buzz sobre a série.

O conteúdo dos tweets postados pela CBS na segunda tela durante o episódio da última quinta-feira (17) destacavam momentos importantes da história. Através de memes, pequenos vídeos e GIFs as postagem ressaltavam as cenas mais cômicas do sitcom. No final de The Opening Night Excitation a emissora estadunidense convidou os telespectadores interagentes para participarem da ação #CBSHolidayCountdown. Ao tuitarem a hashtag da campanha de final de ano da CBS o público desbloqueava um vídeo exclusivo da série. O conteúdo, produzido especialmente para a segunda tela, é uma esquete de Sheldon Cooper (Jim Parsons) com o Papai Noel.

As ações de Social TV da série The Big Bang Theory nos ajudam a refletir sobre duas questões importantes sobre o engajamento do público na segunda tela. Por ser uma sitcom, o perfil da atração no Twitter tem apenas 20 minutos que estimular os comentários no backchannel. Desta forma, o canal utiliza conteúdos de fácil identificação na timeline, chamando rapidamente a atenção do público. Também  podemos observar que a emissora explora distintos recursos (memes, vídeos, GIFs, hashtags especiais, conteúdo complementar) e todos eles dialogam de alguma forma os arcos narrativos do episódio. Neste sentido, as telas que integram o ecossistema da Social TV não entram em conflito e propiciam ao telespectador interagente uma experiência apurada do universo ficcional de The Big Bang Theory.

Por Daiana Sigiliano

Casseta & Planeta, Urgente!

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Casseta e Planeta Urgente!foi um programa exibido pela Rede Globo de Televisão por 18 anos, entre 1992 e 2010, primeiro mensalmente, em uma faixa da programação global chamada Terça Nobre e, em 1998, conquistando episódios semanais, com duração média de 25 minutos.

Redigido e estrelado por Hubert, Cláudio Manoel, Bussunda, Hélio de laPeña, Reinaldo, Marcelo Madureira e Beto Silva, os artistas já haviam participado de programas da Globo escrevendo esquetes para Fantástico, TV Pirata e Dóris para Maiores. Antes disso, comandavam a revista Casseta Popular e o jornal Planeta Diário, periódicos humorísticos com circulação nos anos 1980.

No plano da expressão, o programa sempre foi composto por esquetes, sendo característica fundamental as paródias de novelas do horário nobre da Globo. Alguns quadros se mantiveram fixos por mais tempo, como a expedição Casseta Brasil Adentro e o Plantão Urgente. Mas a maior parte dos assuntos abordados era dividida entre clichês da comédia, com piadas já conhecidas e exploradas, e assuntos da agenda midiática do país.

Apesar da sátira e da construção grotesca de alguns personagens e situações, o programa se preocupava com a verossimilhança, por isso, cenários e figurinos eram muito bem produzidos e realísticos, assim como o roteiro era seguido fielmente, não permitindo improviso ou mesmo mostrando erros de gravação, características bastante comuns a programas similares.

Alguns personagens em especial marcaram os espectadores e deixaram na memória seus bordões, como o presidente Folgado Henrique Cardoso, sempre indignado: “Assim não pode! Assim não dá!”, ou a dupla de marombeiros, Maçaranduba e Montanha, com a frase “Vou dar porrada!”, usada para qualquer um que duvidasse da masculinidade deles. Gavião Bueno e seu fanatismo pelo jogador Ronaldo, Marrentinho Carioca e Os Sambabacas também estão nessa lista.

Além disso, o programa utilizava bastantes recursos gráficos inserindo animações em seus quadros, artes gráficas entre um esquete e outro ou até mesmo durante as cenas. A vinheta de abertura passou por várias modificações ao longo dos anos, mas sempre manteve a animação de uma cobra verde junto com o planeta Terra, que compunham o logotipo do programa.

No plano do conteúdo, o indicador oportunidade foi bem avaliado devido à escolha de temas importantes abordados no programa, como violência, crise política, conflitos geopolíticos, Copa do Mundo, Pan Americano, Jogos Olímpicos, dentre outros acontecimentos paralelos às datas de exibição das emissões aqui avaliadas.

No entanto, o indicador ampliação de horizonte do público, muito dependente do anterior, não foi tão bem avaliado, pois as pautas citadas acima não são tratadas de maneira relevante, mas com ironia ou reafirmando clichês, como associar o Rio de Janeiro à violência, por exemplo. Além disso, o Casseta e Planeta, apesar das sátiras críticas, principalmente quando se trata de política, não deixa claro um posicionamento, transformando a abordagem em deboche.

O indicador desconstrução de estereótipos também não teve boa avaliação, já que o programa se baseia justamente no lugar-comum para fazer graça e utiliza comentários grotescos, trocadilhos vulgares e frases de duplo sentido em boa parte dos diálogos. Em 2003, por exemplo, o programa recebeu um manifesto do povo do Rio Grande do Sul que os acusava, entre outras coisas, de ser racista e ofensivo à honra e tradição do estado sulista. Os atores responderam que as considerações que faziam sobre gaúchos eram apenas brincadeiras e que nunca tiveram a intenção de ofender o povo daquele estado.

Já a diversidade de sujeitos representados foi considerada razoável, afinal, os personagens são de diversas etnias e gêneros, mesmo quando as mulheres são representadas por atores do sexo masculino. No entanto, a baixa classificação se deve à representação cênica de tais sujeitos, que reafirmam clichês e preconceitos.

O diálogo do quadro Plantão Urgente, do programa de 20 de junho de 2006, exemplifica bem os quatro indicadores acima citados. Na cena, um repórter vai falar sobre a polêmica do estado do Acre pertencer à Bolívia e não ao Brasil, e o fato dessa questão antiga atrapalhar assuntos políticos entre os dois países. No entanto, a oportunidade de discussão e debate se perde quando o presidente da Bolívia, descendente indígena, é representado grotescamente, além de falar em “portunhol” e ser debochado pelo repórter.

REPÓRTER: Na semana passada, o presidente da Bolívia, Pé Nuevo Morales, continuou enchendo o ‘tchaco’, radicalizou ainda mais e mandou o Brasil pra quele lugar que rima com o nome do nosso querido país. Não é mesmo, índio?
MORALES: É verdade. Nosotros somos unpuevo de los Andes, por isso estamos cagandes e andandes para el Brasil. E, no más, quiero de vueltael Acre!
REPÓRTER: Mas o senhor perdeu o lacre? Eu pensava que o sr. era espada!
MORALES:Soy espada e matador! Me refiro ao estado do Acre, que losbrasileños nos sacaram enla mano grande trocando por um cavalo. E tudo para plantar as seringueiras e depois los seringueiros, los chicos brasileños que passam lo dia inteiro sacando elleche de lo pau.
SERINGUEIRO: Não acredito que o sr. fez essa quizomba toda, arrumou essa presepada toda na geopolítica da América Latina só pra fazer, pela milionésima vez, essa piadinha de seringueiro tirando leite do pau! Ô, Lula, tu não vai fazer nada? Dá um pau nesse índio, rapá!
(Casseta e Planeta– episódio 20/06/2006).

Abaixo, o gráfico com a avaliação de cada emissão em relação ao plano do conteúdo:

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No plano da mensagem audiovisual, o Casseta e Planeta Urgente!foi muito bem avaliado no indicador clareza da proposta, considerado bom em dois episódios e muito bom nos outros três avaliados. Isso se deve à organização do programa, dividido em quadros e esquetes, à junção de todos os elementos do plano da expressão, e à fidelidade do programa ao seu lema “jornalismo-mentira e humor-verdade”, fatos que tornam claros a sua proposta.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas também obteve avaliação satisfatória em quatro dos episódios, pois o programa satiriza novelas e publicidades, além de falar de acontecimentos reais, como a Copa do Mundo, e terem participação e entrevistas com celebridades e personalidades conhecidas, trazendo verossimilhança ao programa. O que conferiu nota máxima ao episódio do dia primeiro de dezembro de 2009, nesse critério, foi, principalmente, o quadro Expedição Casseta Brasil Adentro, no qual a intenção do programa é viajar pelo Brasil mostrando as diferenças culturais que o país tem por meio de matérias especiais de comportamento e enquetes.

Já o episódio que recebeu nota razoável foi o de 20 de junho de 2006, um especial em homenagem a Bussunda, no qual não houve preocupação do programa em manter seu padrão, mas mostrar tudo o que o falecido humorista interpretou. Ademais, o Casseta e Planeta Urgente!tornou-se uma marca, com lançamento de dois filmes, oito livros, revistas e até CD’s.

Já a solicitação da participação ativa do público foi avaliada entre razoável e boa, pois há interação direta com o espectador e, em alguns episódios, um preview do próximo bloco antes do intervalo comercial. Além disso os produtos fictícios das Organizações Tabajara, além da sátira às publicidades televisivas, têm como objetivo entreter o espetador, como se fossem feitos para eles.

O indicador originalidade/criatividade não obteve notas tão relevantes quanto os outros indicadores da mensagem audiovisual, pois Casseta e Planeta Urgente!é uma reciclagem de outros programas que passaram pela Rede Globo, principalmente o TV Pirata, com suas paródias sobre a programação do canal, e o Dóris Para Maiores, do qual a principal influência foi a adoção de uma apresentadora.

Confira, abaixo, o gráfico referente a cada uma das emissões de acordo com os indicadores da mensagem audiovisual:

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Com base na análise feita é possível concluir que o Casseta e Planeta Urgente!trata-se de um programa de comédia, no qual não há preocupação com a desconstrução de conceitos arraigados.No modo de representação dos personagens e na construção de diálogos, o programa deixa a desejar quando se utiliza de tantos estereótipos, quando poderia, na verdade, desconstruí-los ou, no mínimo, amenizá-los em vez de reforça-los. Como visto, pautas atuais e relevantes foram abordadas, mas poderiam ter sido aprofundadas de forma a estimular o debate ou uma discussão sob novos pontos de vista.

Apesar de não trazer inovações quanto ao formato, o Casseta e Planeta explora muito bem os recursos audiovisuais, com roteiro bem estruturado e verossímil, e produção cênica bem elaborada. Assim como a interação com o público e a adaptação a outras plataformas, caraterísticas muito claras no programa e que de certa forma trazem a ele um diferencial em relação a outras produções do gênero.

Por Lilian Delfino