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Amorteamo

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  • Criação: Cláudio Paiva, Guel Arraes e Newton Moreno
  • Roteiro: Claudia Gomes, Julia Spadaccini e Newton Moreno
  • Redação Final: Cláudio Paiva
  • Direção: Flávia Lacerda e Isabella Teixeira
  • Direção-geral: Flavia Lacerda
  • Período de exibição:08/05/2015 – 05/06/2015
  • Horário: 23h30
  • Nº de episódios: 5

Amorteamo é dirigida por Flávia Lacerda e Isabella Teixeira e gira em torno das relações amorosas envolvidas pela morte. Arlinda (Letícia Sabatella) é casada com Aragão (Jackson Antunes), mas se apaixona por Chico (Daniel de Oliveira), que se torna seu amante. Um dia, Aragão flagra o casal na cama e atira no seu rival, matando-o. O fruto dessa relação proibida é Gabriel (Johnny Massaro) que é apaixonado desde a infância por Lena (Arianne Botelho). Quando mais velho, por conta da saúde de sua mãe, Gabriel (Johnny Massaro) é obrigado a se casar com Malvina (Marina Ruy Barbosa). Porém, ele foge e abandona a noiva no altar por descobrir que Lena (Arianne Botelho) não era sua irmã, como disse seu pai, e então o jovem decide ficar com a amada. Desolada, Malvina (Marina Ruy Barbosa) comete suicídio, mas por algum motivo sobrenatural, ela volta do mundo dos mortos como uma noiva-cadáver, disposta a ficar ao lado de seu amado.

O elenco conta com nomes como Johnny Massaro, Marina Ruy Barbosa, Arianne Botelho, Daniel de Oliveira, Letícia Sabatella, Jackson Antunes, Tonico Pereira, César Cardadeiro, Bruno Garcia, Guta Stresser, Maria Luísa Mendonça, Aramis Trindade, entre outros.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Todos os cenários explorados na série foram construídos na cidade cenográfica da Rede Globo, o Projac. A ambientação trouxe verossimilhança para a série, contribuindo assim para a imersão do telespectador na trama. A fim de representar a época em que se passa a trama, ambientada no Recife do início do século XX, os espaços presentes na atração presentam uma estética envelhecida e a arquitetura que remete a época retratada. Amorteamo tem como principal ambiente o cemitério, o espaço palco das reviravoltas presentes na trama. O cenário tinha o céu formado por um painel de 360 graus pintado à mão em tons de preto, cinza e branco. Além disso, o espaço, de 1000 m², possuía 15 esculturas em isopor, árvores cenográficas, areia lavada misturada com pó xadrez.

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A caracterização ressaltava a origem social dos personagens. Por exemplo, quando financeiramente abastada, Arlinda (Leticia Sabatella) usava peças de veludo. Já Cândida (Guta Stresser), representante da classe média que trabalhava em um bar, usou tecidos rústicos. E Dora (Maria Luisa Mendonça), dona do bordel da cidade, vestia trajes inspirados no século XVIII, como espartilhos. Outro papel do figurino foi o de representar a passagem do tempo de 18 anos na trama. Arlinda (Leticia Sabatella) começou a série usando peças em tons de bege e, posteriormente, adotou roupas mais escuras. Com Aragão (Jackson Antunes) aconteceu o oposto, suas roupas ficaram desgastadas e envelhecidas representando o seu estado, já decadente. Com a função de marcar outra fase da Malvina (Marina Ruy Barbosa) como noiva cadáver, o figurino também foi fundamental. A personagem aparece com o vestido sujo, maquiagem borrada e dentes e unhas pintados com efeito de descascado e sujeira.

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Desenvolvida por João Falcão e Juliano Holanda a trilha sonora de Amorteamo foi composta somente por artistas pernambucanos, entre eles Juliano Holanda e Laila Garin. As músicas tocadas na série possuíam função narrativa, uma vez que a letra dialogava com a situação do plot em que a canção se fazia presente. Por exemplo, a música Já era tarde de Juliano Holanda, cuja a letra dizia: Quando eu cheguei já era tarde eu sei / Pra te encontrar, pra te dizer o que você queria ouvir / Quando eu cheguei o sol não tava mais / Nem por aqui nem por nós dois. A canção foi executada no momento em que Gabriel (Johnny Massaro) vai se desculpar com Malvina (Marina Ruy Barbosa), porém nesse instante a personagem já se encontrava morta.

A fotografia de Amorteamo era bem demarcada a partir do uso de tons escuros, trazendo um clima fúnebre e sombrio para a trama. Outro recurso utilizado foi jogos de luz e sombra nas cenas. Em cenários internos a iluminação era à luz de velas, proporcionando um ambiente intimista e contribuindo para a imersão do telespectador, uma vez que traz verossimilhança com a época retratada. Apesar da fotografia ser elaborada, ela não possui nenhum tipo de influência ditera narrativa na trama, o recurso apenas reforça o universo ficcional.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

A série não apresenta referências externas ao universo ficcional. Portanto, o indicador intertextualidade não foi observado na narrativa.

Amorteamo apresenta setas chamativas em momentos pontuais, como, por exemplo no terceiro episódio quando a morte de Malvina (Marina Ruy Barbosa) é repetida diversas vezes, quando cada personagem da série recebe a notícia. Porém, em cenas como a volta de Chico (Daniel de Oliveira) como morto-vivo, não houve um indicio que pudesse reapresentar o personagem para o público. Levando em conta que Chico (Daniel de Oliveira) não esteve na trama nos dois episódios anteriores, a seta seria utilizada para situar o telespectador, no entanto, optou-se por não utilizar o recurso. Além disso, considerando a exibição semanal, o que demandaria um esforço maior em retomar os acontecimentos anteriores para situar o público na trama, a atração estimula a cognição do telespectador, uma vez que não explora de recursos como recapitular o episódio anterior ou usar muitas setas chamativas. Neste sentido, o indicador escassez de setas chamativas foi observado em Amorteamo.

Os efeitos especiais narrativos, não foram explorados em Amorteamo. A principal reviravolta acontece quando os mortos saem de seus túmulos para resolverem situações anteriores ao momento da morte e começam a criar conflitos com os outros personagens. Apesar de provocar a surpresa e curiosidade no telespectador, este acontecimento não é significativo a ponto de fazer o público reconsiderar toda a trama até este momento.

Os recursos de storytelling também não integraram o desenvolvimento dos arcos narrativos deAmorteamo. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

Amorteamo apresentou duas estratégias transmídia. A websérie Causos do Zé Coveiro expandiu a narrativa central por meio de um personagem secundário na série da TV. O spin off, disponível no portal Gshow apresentou, em quatro websódios de aproximadamente 3 minutos. A história gira em torno de quatro defuntos enterrados no cemitério da trama de Amorteamo, sendo o último deles a história de amor do próprio Zé Coveiro. A websérie dialoga com Amorteamo, uma vez que também se passa no mesmo universo ficcional da série. Além disso, Causos do Zé Coveiro traz aprofundamento para o personagem que não foi muito explorado em Amorteamo, apesar da sua grande relevância na série.

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Outra proposta transmídia foi a criação de um novo desfecho para a trama de Amorteamo, durante a exibição doscapítulos finais da série na TV. A proposta possuía o seguinte enunciado:“Não é o fim! Participe e crie novos desfechos para a trama de ‘Amorteamo’. Promovida pelo Portal GShow, a ação permitia que o telespectador pudesse escrever como seria o seu desfecho da série através da criação de novos finais para os personagens da série.

Neste contexto o indicador transmedia literacy foi observado em ambas as estratégias adotadas. Em Causos do Zé Coveiro, o telespectador é estimulado a realizar correlações entre a websérie e a série principal, o que exige um entendimento crítico do público de forma a associar ambas as narrativas a um mesmo universo.

Na ação do portal Gshow: “Não é o fim! Participe e crie novos desfechos para a trama de ‘Amorteamo’”, podemos traçar uma comparação com as fan fictions, já que a estratégia oferece margem para a livre criação do telespectador a partir da trama original. Sendo assim, o indicador transmidia literacy se fez presente na ação ao exigir esforço cognitivo do telespectador e ao mesmo tempo estimular a leitura crítica e criativa da série.

Por Mariana Meyer

Sensacionalista

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Sensacionalista foi um programa de humor exibido pela Multishow de 2011 a 2014. Inspirado no site norte-americano The Onion (“A Cebola”, em tradução livre), o projeto foi criado em 2009, por Nelito Fernandes, e permaneceu na TV por cinco temporadas, sendo transmitido toda segunda-feira, às 21h30, no canal fechado. Com um formato que se assemelha a um telejornal, o programa cria notícias fictícias com tom de verdade. Os âncoras, interpretados por Betina Kopp, Cristiane Pinto, Larissa Câmara, Tatá Lopes, Marcio Machado e Anderson Freitas, informam notícias que parecem reais, mas que não passam de grandes absurdos.

No Plano da Expressão, observamos que os apresentadores do humorístico se posicionam do mesmo modo que os apresentadores de qualquer outro telejornal verídico: apresentam a mesma entonação de voz, e as imagens são editadas da mesma forma, intercalando informação no estúdio e reportagem nas ruas. Nas externas, o jornalista faz uma pergunta séria, que é respondida também de forma séria pelo entrevistado, e a reportagem é toda construída de forma linear e bem editada, o que comprova a verossimilhança do programa ao seguir fielmente a estética de um telejornal. O cenário também se assemelha ao dos noticiários brasileiros: cores neutras, computadores e uma bancada, bastidores do jornal mostrado ao fundo, e os figurinos dos apresentadores constituem a paródia feita pelo Sensacionalista aos telejornais diários.

Os temas, que são completamente banalizados e inúteis, no sentido em que não acrescentam nenhuma informação à vida das pessoas, fazem parte das pautas dos jornais convencionais, sendo escolhidos, portanto, a partir de assuntos que estavam na agenda midiática. Mesmo não acrescentando informações úteis aos espectadores, o uso de estereótipos e o inusitado das notícias os levavam à reflexão sobre o sensacionalismo presente no jornalismo atual, ampliando, assim, o horizonte e o repertório cultural do público, fazendo-o pensar sobre novas problemáticas e pontos de vista.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade que se destaca é o diversidade de sujeitos representados, devido ao fato de os assuntos tratados serem variados e exigirem personagens diferentes nas interpretações. No caso específico do Sensacionalista, o personagem grotesco não só faz parte, como completa a narrativa já absurda e improvável do programa.

No entanto, esses personagens influenciam diretamente o indicador desconstrução de estereótipos, já que esta não é a proposta do programa, que “noticia” muitas vezes, por exemplo, o estereótipo do homem adúltero, um dos mais observados no segundo episódio da temporada dois. Dentre treze manchetes no Jornal Sensacionalista, três eram sobre o assunto:

“O Sindicato dos Dentistas se reuniram para pedir que as pessoas parem de falar que foram aos seus consultórios. Os dentistas se cansaram de ser usados como desculpa para adúlteros”;

“Camisinha com GPS. A mulher substitui a camisinha do marido por essa e, com isso, vigia o marido”;

“Em São Paulo, um empresário está ganhando muito dinheiro ajudando as pessoas a cometerem adultério. Ele inventou um spray que tonaliza a pele e disfarça a marca da aliança”.

No indicador de qualidade ampliação do horizonte do público, o Sensacionalista obteve maior destaque, porque apesar de tratar temas corriqueiros, os aborda de forma irônica, enfatizando o absurdo das situações, o que pode gerar no espectador uma nova forma de pensar sobre os assuntos discutidos. Veja, abaixo, exemplos sobre divórcio e a banalidade com a qual o assunto é tratado em noticiários, principalmente quando envolve celebridades:

“Uma bibliotecária faz book sensual para o marido, mas quando recebeu o resultado não se reconheceu e pediu o divórcio, pois acredita que é uma amante”;

“Um estranho pedido de divórcio chamou a atenção da vara da família. O marido estava arrumando a casa, fazendo comida, levando os filhos na escola e isso a incomodava”;

“Um outro motivo curioso de divórcio foi no Paraná. Uma produtora de eventos pediu a separação porque ao longo de um dia inteiro o marido não avisou a ela que ela estava com uma alface no dente”.

Já com o indicador oportunidade acontece o oposto: justamente por tratar temas banais, mesmo que estes gerem identificação no espectador por serem cotidianos e comuns, o programa deixa de falar sobre algo de interesse público ou que seja pertinente por meio do humor.

Abaixo, o gráfico com os indicadores de qualidade do plano do conteúdo.

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Na análise da Mensagem Audiovisual, ressalta-se a originalidade/criatividade do programa, que copia o formato de um telejornal em toda a sua composição estética, alterando justamente o conteúdo e trazendo assim novas camadas de significação ao produto final, fato que lhe atribui nota máxima nesse indicador.

Além disso, este formato apresenta clareza da proposta, pois é perceptível a intenção de satirizar a banalização da informação em noticiários e, sem dúvidas, gera a curiosidade do público, que fica atento à próxima informação, improvável de ser real, mas que foi estruturada de acordo com os critérios da narrativa jornalística, o que configura a solicitação de participação ativa do público, outro indicador de destaque no programa, característica que também é observada na interação direta dos atores com a câmera.

O indicador de qualidade diálogo com/entre outras plataformas se mostra no Sensacionalista por meio da citação de locais públicos reais, mesmo considerando que as notícias são simuladas, nas quais aparecem bairros, cidades e vias públicas conhecidas. Ademais, os episódios analisados apresentam o quadro Caravana Sensacionalista, que faz referência irônica a lugares já conhecidos, como no terceiro episódio da segunda temporada, em que a caravana vai à Nossa Senhora das Graças, cidade do Sul do Brasil, “onde ninguém acha graça de nada”, fazendo tanto um trocadilho com o nome, quanto às velhas piadas sobre gaúchos, que é sobre o que trata a “reportagem”.

Veja, abaixo, cada um dos indicadores do plano da mensagem audiovisual:

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Após esta análise, é possível concluir que o programa Sensacionalista possui diversas características que configuram um programa de qualidade, como originalidade e criatividade no formato, clareza da proposta, além dos modos de representação, que se referem à criação dos personagens e, logo, à diversidade de sujeitos representados. Além destes, a ampliação do horizonte do público por meio da ironia e do absurdo também é uma das características muito bem construídas do humorístico.

Entretanto, alguns indicadores como desconstrução de estereótipos e oportunidade deixam a desejar no que diz respeito à experimentação, pois, junto aos outros poderiam agregar à construção da narrativa se explorados, bem como a solicitação da participação ativa do público, que em um programa como esse, no qual é possível se identificar com diversas situações do dia a dia, poderia ser muito melhor desenvolvido.

Por Lilian Delfino

Aline

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  • Baseado em: Aline (Adão Iturrusgarai)
  • Roteiro: Mauro Wilson com colaboração de Mauro Wilson, Cláudio Lisboa, Péricles Barros, Tatiane Bernardi, Manuela Dias, Zé Dassilva e Gabriela Amaral.
  • Elenco: Maria Flor; Pedro Neschling; Bernardo Marinho
  • Período de exibição: 01/10/2009 a 03/03/2011
  • Horário: 23h
  • Nº de episódios: 13
  • Diretores: Maurício Farias; Mauro Farias

Inspirada nos quadrinhos de Adão Iturrusgarai a série Aline conta a história das descobertas e percalços de uma jovem paulistana. Como nas tiras do cartunista, a protagonista (Maria Flor) tem dois namorados, Otto (Bernardo Marinho) e Pedro (Pedro Neschling), com os quais divide um apartamento no centro da cidade de São Paulo. Aline (Maria Flor) só quer curtir a vida com os dois, mesmo com alguns empecilhos, como a Dona Rosa (Camila Amado), síndica do prédio onde os três moram e seu filho, Wallace (Fernando Caruso), que é obcecado pela jovem. A personagem (Maria Flor) trabalha na loja de discos de Pipo (Gilberto Gawronski). A trama também apresenta os pais de Aline (Maria Flor) Estevan e Dolores, interpretados por Daniel Dantas e Malu Galli.

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Apesar de ter como base o universo criado por Adão Iturrusgarai, na adaptação televisiva, a história virou uma comédia romântica, cujo ponto de partida era o ousado amor de uma mulher por dois homens. A abordagem apresentava um humor mais ‘delicado’ do que nas tiras, embora Aline dividisse a cama com os dois namorados, não havia cenas de nudez e sexo, que estão muito presentes nos quadrinhos estrelados pela personagem. A protagonista também era tão libertina quanto nas tiras, na série televisiva Aline (Maria Flor) aparece, no máximo, de calcinha e sutiã.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Logo nos primeiros episódios da série é possível observar que a personalidade forte e moderna de Aline (Maria Flor) estabelece um diálogo com a cidade de São Paulo. O ritmo agitado da fala da personagem acompanha o caos da metrópole. Para reforçar essa correlação entre a personalidade da protagonista e a atmosfera da capital, muitas cenas da trama foram gravadas em lugares emblemáticos de São Paulo. Como, por exemplo, o parque do Ibirapuera; a rua Augusta, o elevado Costa e Silva (Minhocão), os bairros de Vila Madalena, Liberdade e Lapa, entre outros. A loja de disco onde Aline (Maria Flor) trabalha também se passa em um ponto popular da cidade, a Galeria do Rock, no Centro.

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A cidade de São Paulo inspirou a estética da série televisiva, segundo o produtor de arte Guga Feijó os grafismos e gravuras espalhados pelas ruas da capital serviram de base para o desenvolvimento do figurino e dos cenários.

No indicador caracterização dos personagens podemos destacar a constante referência de Aline (Maria Flor) ao rock e às pin ups. Mesmo sendo inspirada na obra de Adão Iturrusgarai a protagonista apresenta algumas diferenças em relação à personagem dos quadrinhos. O cabelo preto e a mistura de peças modernas com roupas de brechós se distanciam da figura criada por Iturrusgarai com cabelo rosa e pouca roupa. Entretanto, a emblemática saia minissaia de caveira foi incorporada a personagem de Maria Flor na TV. A atriz também fez duas falsas tatuagens, um coração espetado por várias flechas no braço esquerdo e um gatinho no peito do pé direito.

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De modo geral o figurino de Aline reforça a estética da série e contribui para a construção da trama. Isto é, em momento algum o objetivo da caracterização é reproduzir de modo fiel os elementos dos quadrinhos, mas integrar o mesmo universo ficcional. Já os figurinos de Otto (Bernardo Marinho), Pedro (Pedro Neschling), Pipo (Gilberto Gawronski) e Wallace (Fernando Caruso), por exemplo, são compostos por peças que ajudam, diretamente, na construção dos perfis dos personagens. Ou seja, apresentam poucas referências externas e elementos elaborados.

Com a direção musical de Branco Mello (Titãs) e Emerson Villani, a trilha sonora de Aline é norteada por uma variedade de estilos musicais. As sequências da série são embaladas pelo rock da década de 1970, MBP, ópera e música eletrônica.

O último episódios da segunda temporada, intitulado O Musical, exibido em março de 2011, os personagens Wallace (Fernando Caruso), Kelly (Bianca Comparato), Yuri (Isio Ghelman), Otto (Bernardo Marinho), Pedro (Pedro Neschling) e Aline (Maria Flor) interpretaram músicas como Olhar 43, do RPM, De Repente, Califórnia, de Lulu Santos, Inútil, do Ultraje a Rigor e São Paulo, São Paulo, do grupo Premeditando o Breque (Premê). Nesse sentido, a música tem um papel fundamental na trama contribuindo para os desdobramentos dos arcos narrativos.

A fotografia da série Aline segue, em sua grande parte, o estilo naturalista. A variação de iluminação e uso de filtros acontece em momentos pontuais na trama. Como, por exemplo, durante as sequências me que a protagonista cria situações fantasiosas em sua cabeça e nas analepses. Desta forma, a alteração na fotografia também é usada como sete chamativa, como iremos discutir mais adiante.

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Os episódios de Aline são estruturados a partir de uma edição não-linear. Isto é, as temporalidades exploradas pelos roteiristas variam entre o passado e presente, além das sequências fantasiosas imaginadas por Aline (Maria Flor). No primeiro episódio da série, por exemplo, intitulado Diário de Aline, vemos Estevan (Daniel Dantas) e Dolores (Malu Galli) durante a gestação da protagonista e, posteriormente, a personagem já adulta.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

Os episódios de Aline são permeados por referências externas ao universo ficcional. A intertextualidade abrange os quadrinhos de Adão Iturrusgarai e elementos da cultura pop. Como discutimos anteriormente, apesar reproduzir integralmente a história da HQ na televisão, as sequências da série estabelecem um paralelo com a trama de Iturrusgarai, seja através do figurino e/ou do cenário a atração mantém a estética dos quadrinhos, exploram cores vivas e fortes.

Ao longo dos episódios também é possível observar várias intextualidades como, por exemplo, a cena final que integra o especial de fim de ano que deu origem a série. Gravada no terraço do edifício Planalto, no Centro de São Paulo, a cena Aline (Maria Flor), Otto (Bernardo Marinho) e Pedro (Pedro Neschling) fazem coreografia mesma coreografia dos personagens do filme Bande à Part (1964), de Jean-Luc Godard. Filmes como Uma Mulher É uma Mulher (1961), de Godard, Jules e Jim (1962), de François Truffaut e Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, também são referenciados na trama televisiva.

Apesar de ter uma narrativa ágil e com muitas intervenções gráficas, os plots e sub plots são construídos a partir de várias setas chamativas. O recurso é usado de maneira pontual nos diálogos dos personagens – na contextualização dos desdobramentos dos episódios – e nas mudanças na fotografia. As variações na iluminação das cenas indica que a sequência em questão é uma analepse. Ou seja, a mudança de temporalidade é sinalizada ao telespectador através de filtros mais escuros, inserção de elementos gráficos, etc. Dessa forma, esses cartazes narrativos ajudam o público a compreender a trama.

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O indicador efeitos especiais narrativos não está presente em Aline, apesar da história ser composta por clímax e reviravoltas, em nenhum momento o telespectador é obrigado e reconsiderar tudo o que viu até então.

Já os recursos de storytelling integram vários episódios da série, em muitos momentos os desdobramentos narrativos são conduzidos a partir de flashbacks e sequências fantasiosas. Porém, é importante ressaltar que todos os recursos são didaticamente sinalizados para o telespectador.

Durante a exibição de Aline a Rede Globo lançou um site com informações gerais sobre a trama e um jogo. Intitulado ‘Equilibre Aline’ o game em flash mostrava a protagonista da série em uma gangorra entre Otto (Bernardo Marinho) e Pedro (Pedro Neschling).

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O objetivo era não deixa Aline pender um lado, no final o público podia compartilhar sua pontuação nas redes sociais. Entretanto, apesar de expandir o universo ficcional o jogo não estimulava diretamente a produção e a multilateralidade do telespectador interagente. Nesse sentido, o indicador transmedia literacy não foi observado na estratégia da Globo.

Por Daiana Sigiliano

A Teia

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  • Série escrita por: Carolina Kotscho e Bráulio Mantovani
  • Direção: Pedro Vasconcelos
  • Direção-geral e de núcleo: Rogério Gomes ‘Papinha’
  • Período de exibição:28/01/2014 – 01/04/2014
  • Horário: 23h30
  • Nº de episódios: 10

A Teia foi uma série exibida pela Rede Globo entre janeiro e abril de 2014. Baseada em casos do arquivo pessoal do delegado aposentado da Polícia Federal, Antonio Celso dos Santos, a produção contou com nomes como João Miguel (Jorge Macedo), Paulo Vilhena (Marco Aurélio Baroni), Andreia Horta (Celeste) e Júlio Andrade (Charles).

A história acompanha o delegado Macedo (João Miguel), que tenta desvendar um roubo de 60kg de ouro no aeroporto de Brasília. O personagem reúne pistas que levam à quadrilha do criminoso Baroni (Paulo Vilhena), a qual é, aos poucos, desmantelada pelo delegado.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Em relação à ambientação, a maior parte da série se passa entre as cidades de Brasília e Curitiba, com muitas cenas externas, as quais não foram gravadas em estúdio. O fato de utilizarem cenários reais contribui para a verossimilhança da trama, assim como a caracterização dos personagens, que se faz de acordo com o estilo e a ocupação de cada um. O bandido Baroni (Paulo Vilhena), por exemplo, usa muitas roupas escuras.

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A trilha sonora é um elemento de destaque, uma vez que as músicas utilizadas, em grande parte não-instrumentais, são marcantes. A música tema da série é “Come as you are”, do Nirvana, e tocada, principalmente, em momentos tensos, como o roubo do avião, dando um tom de rebeldia e agitação às cenas. Charles (Júlio Andrade), por exemplo, tem uma relação especial com o rock, sendo que várias cenas do personagem são marcadas por trilhas diegéticas, ou seja, aquelas que fazem parte do universo dos personagens.

A fotografia segue um estilo naturalista, o que reforça a verossimilhança da trama. Entretanto, as cenas externas noturnas são marcadas, muitas vezes, por tons quentes, o que destaca o cenário, que é real, e não reproduzido em estúdio.

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A edição, por sua vez, segue, majoritariamente, o padrão linear. Contudo, no início de cada episódio é mostrado um acontecimento do passado que ajuda na compreensão da narrativa presente, além da utilização de flashbacks funcionais em alguns pontos da trama.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy. A intertextualidade está presente nas diversas menções a locais reais, como Brasília, Curitiba, Paraguai e Chapada dos Guimarães, nos quais se passam parte da trama. A utilização de tais locais como pano de fundo da narrativa aproxima a trama da realidade, fazendo-a parecer passível de acontecer realmente.

Durante o desenvolvimento da narrativa foi observada a presença de algumas setas chamativas, que facilitam a compreensão do telespectador. No início de cada episódio, quando eram mostrados acontecimentos passados, havia a indicação de temporalidade, que deixava claro que o que era mostrado não se passava no presente. Alguns flashbacks se apresentavam em preto e branco, o que também ajuda o público a diferenciar a temporalidade. Além disso, quando no oitavo episódio o delegado Macedo (João Miguel) desvenda a maior parte da “teia” que envolvia o assalto ao aeroporto e o bando de Baroni (Paulo Vilhena), ele explica didaticamente o que descobriu aos seus companheiros da polícia, o que também esclarece o espectador. Portanto, o indicador escassez de setas chamativas não se faz um elemento de destaque na análise da série.

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Em relação aos efeitos especiais narrativos, há clímax e reviravoltas durante os episódios, o que faz a trama se desenvolver. Entretanto, em nenhum momento o espectador tem que reconsiderar tudo o que viu até então ou há mudança no estilo narrativo do programa.

Já quanto aos recursos de storytelling, há alterações cronológicas durante os episódios, os quais sempre começam com algo que aconteceu no passado e que ajuda a compreender a trama do presente. Há também a presença de flashbacks, como quando alguém está reconstituindo uma história ao delegado Macedo (João Miguel) ou quando o próprio delegado está reconstituindo uma história. Porém, todos esses elementos são norteados por setas chamativas dispostas estrategicamente para reduzir o esforço analítico do telespectador.

Em relação ao indicador transmedia literacy, a ação transmídia feita pela Rede Globo foi a “Teia Virtual”, disponibilizada através do portal GShow. A “Teia Virtual” é um espaço interativo que simula a teia montada pelo delegado Macedo (João Miguel) com as pistas encontradas durante os episódios. Desse modo, o telespectador interagente pode tentar desvendar o caso juntamente com o delegado.

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Contudo, tudo o que é mostrado na “Teia Virtual” já foi exibido nos episódios da série, ou seja, o público não encontra nenhuma pista nova ou conteúdo novo que transcenda a narrativa. Portanto, não é exigida a participação ativa do telespectador interagente, uma vez que não é necessário completar a mensagem da “Teia Virtual”, tudo é dado pronto. Sendo assim, o indicador transmedia literacy não foi observado nas ações transmídia de A Teia.

 Por Júlia Garcia

9mm São Paulo

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  • Direção: Michael Ruman
  • Período de exibição:10/06/2008 – 26-07-2011
  • Duração: 50 minutos
  • Nº de episódios: 20 episódios

Dirigida por Michael Ruman, a série 9mm: São Paulo mostra o cotidiano de cinco policiais integrantes do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa da Polícia Civil), localizado na cidade de São Paulo. O enredo aborda questões como a influência da vida pessoal dos policiais no combate ao crime, o desvio de conduta e de caráter dos profissionais, bem como as dificuldades de trabalhar em uma das maiores cidades do mundo. A trama também explorar os dramas pessoais dos personagens como, por exemplo, Luiza (Clarissa Kiste) que desconta no trabalho os problemas com sua filha, e acaba complicando sua relação com Dani. 3P (Nicolas Trevijano), é o mais jovem da equipe e, por isso, acaba agindo sempre por impulso e causando problemas. Já Tavares (Marcos Cesana) possui forte personalidade e é orgulhoso. Horácio (Norival Rizzo), por ser o mais velho da equipe, acaba tendo seus métodos questionados pelos colegas além de também possuir problemas pessoais com sua esposa e seu filho usuário de drogas. Eduardo (Luciano Quirino), ocupa o posto de delegado por conta de seu sogro deputado e para evitar má impressão ele procura fazer seu trabalho da melhor forma.

O elenco conta com Norival Rizzo, Luciano Quirino, Clarissa Kiste, Marcos Cesana e Nicolas Trevijano nos papéis principais.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A delegacia é um dos cenários principais de 9mm: São Paulo. O ambiente é de onde partem as pesquisas e investigações. A série contou também com gravações em vários lugares de São Paulo como, por exemplo, as favelas do Moinho, de Paraisópolis e do Real Parque, a Estação da Luz e o Bairro de Santa Efigênia. Desta forma, a ambientação contribui para a verossimilhança da série, uma vez que retrata lugares típicos de São Paulo e representa o dia-a-dia de policias nas ruas e dentro da delegacia.

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A série tem como arco narrativo central a vida profissional dos protagonistas, assim a caracterização do elenco é um reflexo direto de suas profissões, neste caso, a de policiais. O figurino era composto de roupas sociais, algumas vezes adicionada de colete a prova de bala quando os personagens saiam às ruas para alguma operação.

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A trilha sonora de 9mm: São Paulo é composta por músicas instrumentais e se faz presente apenas em cenas de maior ação como, por exemplo, em momentos de perseguição.

A fotografia da série é marcada principalmente pelo uso de tons escuros e acinzentados. Apesar de estar presente, ela não possui nenhuma função narrativa na série, o indicador apenas reforça o gênero policial explorada na atração.

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A série se passa apenas no tempo presente e não possui mais de uma temporalidade. Portanto sua edição se caracteriza como linear, não explorando flashback, flashforward, etc.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmedia literacy.

A série apresentou intertextualidade no episódio “Nós é polícia” da primeira temporada. Neste capítulo, o delegado Eduardo (Luciano Quirino) recebe a notícia que terá apenas 24 horas para solucionar cada caso novo em sua delegacia. A partir disso o delegado Ricardo Pompeu (Douglas Simon) chama Eduardo (Luciano Quirino) de Jack Bauer em tom de ironia, se referindo ao seriado estadunidense 24 horas,protagonizada pelo ator Kiefer Sutherland. Nesse sentido, a série do canal Fox traça um paralelo com o tempo que Eduardo (Luciano Quirino) teria para resolver seus casos.

A trama de 9mm: São Paulo é norteada por setas chamativas, por se tratar de uma série de investigação o recurso é constantemente usado para facilitar o entendimento do telespectador. Como, por exemplo, no episódio “Eu não vivo disso” Eduardo (Luciano Quirino) recebe os arquivos de Tenente Emílio e o seu conteúdo é apresentado ao telespectador. Algumas cenas depois, o conteúdo dos arquivos é reforçado no momento em que Eduardo (Luciano Quirino) o descreve para o promotor Caio Graco (Alvaro Franco). Dessa forma, o indicador escassez de setas chamativas não foi observado na série.

9mm: São Paulo explora vários clímax em sua narrativa, dessa forma grande parte dos episódios apresenta mais de uma reviravolta. Como, por exemplo, no episódio”Limpeza” em que Tavares (Marcos Cesana) volta ao DHPP, Eduardo (Luciano Quirino) finalmente decide realizar uma visita ao seu pai e um inocente é dado como culpado pelo delegado Ricardo Pompeu (Douglas Simon).Apesar de possuir reviravoltas, a série não apresenta efeitos especiais narrativos, nesse sentido o uso do recurso não é significativo a ponto de fazer com que o espectador reconsidere tudo o que viu até então.

A série apresenta analepses como recursos de storytelling. No episódio “Eu não vivo disso” há uso de flashback quando Eduardo (Luciano Quirino) relembra o assassinato do Tenente Emílio enquanto estuda o caso com o promotor Caio Graco (Alvaro Franco). Outro exemplo é no episódio “Garoto problema” em que 3P (Nicolas Trevijano) relembra a conversa que teve com Felipe na noite de seu assassinato enquanto estava sendo interrogado sobre sua localização no momento da morte de Felipe. Os flashbacks não são acompanhados de indícios estéticos como mudança na fotografia ou mesmo modificações na narrativa.

A série apresentou duas estratégias transmídia, ambas promovidas para o seu lançamento. A primeira promovida pelo canal Fox, consistia em algemar 200 pessoas em postes, ponto de ônibus e placas de trânsito no centro de São Paulo, o que despertou a curiosidade das pessoas que passavam no local e da imprensa.

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A segunda foi realizada no momento em que a série retorna com novos episódios. Promovida pela agência Santa Clara Nitro, a ação tinha como intenção enfatizar o conceito de “A vida por um fio” apresentado pela série. Para isso, um equilibrista atravessou os 125 metros do Vale do Anhangabaú em uma bicicleta a 120 metros de altura. A ação, conseguiu mobilizar uma multidão e passar o conceito do programa de forma literal: a vida por um fio.

As ações dialogam com o conceito de “A vida por um fio”, amplamente abordado na série. Na primeira, o conceito foi abordado de forma mais simples com o intuito de chamar a atenção do público. Considerando que a ação foi realizada antes da série ir ao ar, as algemas e a camisa da série estimulam o telespectador a deduzir a temática policial da série.

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Na segunda estratégia, já no retorno da série, o conceito é expresso de forma literal com um ciclista andando em uma corda suspensa a 120 metros de altura. Ambas as ações apresentam o conceito da série, porém não trazem nenhum tipo de aprofundamento ou exploram algum aspecto novo da trama. Consequentemente, o telespectador não é incentivado a realizar correlações ou mesmo ter uma visão mais densa da série. Desta forma, o indicador transmedia literacy não foi identificado em nenhuma das ações de 9mm: São Paulo.

 Por Daiana Sigiliano

Alice

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  • Criador: Karim Aïnouz
  • Diretores: Karim Aïnouz e Sérgio Machado
  • Roteiristas: Sérgio Machado e Antônia Pellegrino
  • Elenco: Andréia Horta, Vinicíus Zinn, Regina Braga, Daniela Piepszyk, Carla Ribas, Marat Descartes, Denise Weinberg,Olga Machado, Walderez de Barros, entre outros.
  • Período de exibição: 21/09/2008 a 14/12/2008 – 26/11/2010 e 03/12/2010 (telefilmes)
  • Nº de episódios: 13 + 2 telefilmes

Produzida pela HBO Brasil a série Alice foi exibida entre 21 de setembro e 14 de dezembro de 2008. Posteriormente, a trama ganhou, em 2010, dois telefilmes com 90 minutos de duração. Protagonizada por Andréia Horta a atração retrata os encontros e desencontros de Alice na cidade de São Paulo. A personagem levava uma vida pacata na cidade de Palmas, no Tocantins, mas sua vida muda quando ela recebe a notícia da morte de seu pai. O que era para ser uma viagem de dias para cuidar do inventário dos bens deixado pelo pai se transforma em uma mudança permanente para São Paulo.

Como iremos detalhar ao longo desta análise, o lançamento da série envolveu ações de engajamento até então inéditas no âmbito das narrativas ficcionais seriadas da TV paga brasileira. Para aproximar a protagonista Alice (Andréia Horta) do público, a emissora criou vários perfis em redes sociais. As postagens relatavam os contratempos da personagem na grande metrópole e aprofundavam o universo ficcional.

Alice foi a terceira produção original da HBO Brasil, após Mandrake (2005-2007) e Filhos do Carnaval (2006). Nesse sentido, a trama apresenta uma estética característica das atrações do canal. Com a direção de Karim Aïnouz e Sérgio Machado as sequências criam uma atmosfera única em que a trilha sonora, a fotografia e a atuação do elenco convergem para a criação do universo imersivo de Alice.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A ambientação de Alice contribui não só para a verossimilhança da série, já que o principal plot é a adaptação da protagonista na metrópole, mas como elemento narrativo. Isto é, muitos sub plots são desencadeados a partir do lugar onde se passa a trama. Como, por exemplo, no episódio Pela Toca do Coelho, exibido no dia 21 de setembro de 2008, a protagonista só conhece DJ (Peter Ketnath) e, consequentemente trai o noivo Henrique Teles (Marat Descartes), porque fica perdida na cidade. Nesse contexto, vários conflitos na história acontecem por conta o lugar onde Alice (Andréia Horta) está.

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A série é composta por diversas sequência externas em pontos turísticos e lugares conhecidos de São Paulo como, por exemplo, o bairro da Liberdade, a Avenida Paulista e o Edifício Copan. O mesmo pode ser observado nas cenas se que passam em Palmas, no Tocantins.  Locais como a Praça dos Girassóis e o Jalapão também integram a atração.

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Outro ponto importante na análise da ambientação de Alice é contraponto entre as cidades de Palmas e São Paulo e como esse aspecto se reflete nos perfis dos personagens. Ou seja, as características dos personagens vão ao encontro a atmosfera dos lugares. Dani (Luka Omoto) e Marcela (Gabrielle Lopez), por exemplo, refletem de maneira nítida a vida noturna e a diversidade da capital paulista. Em contrapartida Glícia (Walderez de Barros) e Henrique Teles (Marat Descartes) dialogam com a introspecção de Palmas.

alice4A caracterização dos personagens de Alice reforçam o desenvolvimento dos arcos narrativos de série.  Nesse sentido, o modo de se vestir dos personagens dialoga diretamente com suas características centrais. Se estabelecermos um paralelo entre os pares românticos da protagonista este aspecto fica claro. Enquanto as roupas usadas por Henrique Teles (Marat Descartes) são simples, com combinações monocromáticas, o figurino de Nicholas Araújo (Vinicíus Zinn) é mais ousado, misturando ternos de alta costura com camisas básicas.

Na trama, Henrique (Marat Descartes) representa a antiga e, pacata, vida de Alice (Andréia Horta) em Palmas. Onde todos se conheciam e tinham uma rotina bastante monótona. Já Nicholas (Vinicíus Zinn) representa o novo na história, o personagem está sempre nas melhores baladas da metrópole, conhece muita gente e não tem medo de se arriscar em novos projetos.

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A transição de Alice (Andréia Horta), que deixa Palmas e vai para São Paulo, também fica clara em sua caracterização. Além das mudanças na personalidade da personagem, que ganha mais auto estima e confiança, as roupas usadas por ela externalizam esse processo de amadurecimento. Nas primeiras sequências de série vemos a protagonista usando roupas básicas em tons claros, porém com o passar dos episódios Alice (Andréia Horta) muda o seu visual. As roupas, em que maioria na cor preta, apresentam muitos brilhos e decotes. Dessa forma, o indicador ajuda nos desdobramentos dos arcos narrativos ao acompanhar o perfil dos personagens.

A trilha sonora de Alice é composta por várias músicas de novos artistas brasileiros como, por exemplo, Instituto e Irina Gatsalova, Estela Cassilatti, Boss In Drama, 3 na massa, Curumin,entre outros. As canções reforçam os plots e sub plots da trama e também refletem a atmosfera criada por Karim Aïnouz. Desde a harmonia das baladas eletrônicas até as letras das musicas românticas dialogam com a trajetória da protagonista e a megalomania da metrópole.

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As sequências externas de Alice apresentam, em sua grande maioria, uma fotografia naturalista. Porém, as cenas em que a protagonista vai para a noite de São Paulo são pautadas por filtros que realçam o contraste dos elementos cênicos. O recurso também estabelece um diálogo com a abertura da série, que explora vários planos da capital paulistas com o efeito light painting.

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Composta por uma edição não linear, ou seja, que apresenta analepses, a série da HBO Brasil usa o indicador para ampliar o universo ficcional da protagonista. Nesse sentido, os flashbacks ajudam o telespectador a conhecer melhor a vida de Alice (Andréia Horta) e como esses acontecimentos contribuíram para a formação de sua personalidade e para as situações abordadas na atração.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos, recursos de storytelling e transmídia literacy.

Os episódios de Alice são permeados por referências externas ao universo ficcional da série. Durante as sequências da trama é possível identificar citações a livros, filmes e artistas contemporâneos. Porém, a intertextualidade mais presente na série é a obra de Lewis Carroll, o livro Alice no País das Maravilhas. As correlações entre a conhecida história infantil e a série da HBO são claras e abarcam o nome do programa, os desdobramentos narrativos, os figurinos e até os títulos dos episódios.

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Logo na sequência inicial da atração, na abertura, vemos a imbricação entre a Alice do País das Maravilhas e a Alice (Andréia Horta) de São Paulo. As imagens da metrópole paulistana são espelhadas, a protagonista aparece brincando com um coelho e as transições são marcadas por cartas de baralho. Nos episódios podemos identificar que assim como a protagonista de Lewis Carroll, a Alice (Andréia Horta) de Karim Aïnouz também está perdida em um mundo desconhecido que será fundamental para seu amadurecimento pessoal. Os elementos cênicos do programa reforçam a alusão feita pelos roteiristas como, por exemplo, na festa do primeiro episódio da série que toda a decoração é composta por coelhos. A correlação das obras também pode ser observada nos títulos de alguns episódios que apresentam referências a aspectos centrais da história de Carroll tais como, Pela Toca do Coelho, O Lado Escuro do Espelho e Wonderland.

As setas chamadas são usadas em vários pontos da trama, o recurso ajuda o telespectador a compreender as angustias e a trajetória da protagonista. Nesse sentido, durante os episódios Alice narra, em off, a sua percepção dos acontecimentos, deixando claro para o público o que está se passando naquele momento. Outro cartaz narrativo usado na atração são os resumos da história de vida da personagem, ao longo dos episódios é possível acompanhar, através de flashbacks, situações importantes que contribuíram, mesmo que indiretamente, para a construção da personalidade de Alice. Dessa forma, o indicador escassez de setas chamativas não foi identificado.

Apesar de ser composta por reviravoltas e clímax, a trama de Alice não obriga o telespectador a reconsiderar tudo o que lhe foi apresentado até então. Em outras palavras, episódios como, por exemplo, Pela Toca do Coelho e O Lado Escuro do Espelho apresentam mudanças consideráveis no roteiro quando a protagonista passa por transformações tais como ficar em São Paulo e terminar com Henrique (Marat Descartes), mas nenhum desses acontecimentos ressignifica o universo ficcional da série, por tanto o indicador efeitos especiais narrativos não foi observado.

Como ressaltamos anteriormente, a trama de Alice apresenta vários flashbacks. O recurso é usado para aprofundar a história da protagonista, fazendo com que o telespectador conheça pontos importantes da trajetória da personagem. No primeiro episódio da temporada, por exemplo, é possível observar momentos da infância de Alice (Andréia Horta), o suicídio de Ciro, como Alice (Andréia Horta) e Henrique (Marat Descartes) se conheceram, etc. Nesse sentido, o indicador recurso de storytelling contribui na densidade da história, explorando vários desdobramentos importantes na vida de Alice (Andréia Horta).

Seguindo o modelo de ações transmídia de outras tramas da HBO, as estratégias de engajamento de Alice são consideradas um marco no estudo do fenômeno no Brasil. Apesar de serem comuns para atrações internacionais da HBO, poucas produções nacionais tiveram seu universo ficcional expandido em múltiplas plataformas. Ao longo da primeira temporada foram desenvolvidas sete ações transmídia. Hospedado dentro da página do canal HBO, o site oficial de Alice reunia a maioria das estratégias da série. Através do menu da página era possível acessar os perfis fictícios da personagem nas redes sociais, fazer o cadastro do e-mail e/ou do telefone celular para receber informações da trama, além de conhecer outros desdobramentos da história, como iremos detalhar mais adiante.

alice9Para divulgar a série, a HBO deixou pen drives em várias festas de São Paulo. O dispositivo continha informações sobre a trama de Karim Aïnouz, tais como: clipes, fotos e wallpapers. Além de apresentar a atração ao público, o lugar onde os pen drives foram deixados dialogava diretamente com a proposta da série e o novo estilo de vida de Alice (Andréia Horta).

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Disponibilizadas em um blog e na plataforma LiveSpace, as publicações de Alice (Andréia Horta) relatavam a vida da protagonista antes de sua viagem para São Paulo, mostrada no primeiro episódio da série. Nesse sentido, o conteúdo representava o início da trajetória da personagem. Durante a exibição da trama, as plataformas eram atualizadas três vezes por semana com postagens que contribuíam para a expansão da narrativa. Ao acessar os conteúdos o público podia conhecer as percepções de Alice (Andréia Horta) sobre os acontecimentos que foram mostrados no episódio.

Com o objetivo de aproximar os telespectadores da protagonista da série da HBO, foi criado um bot no extinto MSN (originalmente The Microsoft Network). O robô respondia aos comandos pré programados que eram gerados a partir de palavras chave. Ao adicionar a personagem no MSN o telespectador poderia conhecer melhor o passado de Alice (Andréia Horta), suas expectativas para sua nova carreira profissional em São Paulo, entre outros conteúdos extras.

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Outra forma familiarizar o público com os personagens e trazer verossimilhança para a trama foi a criação de perfis da extinta rede social Orkut. Além de interagir com Alice (Andréia Horta), Teobaldo (Juliano Cazarre), Marcela (Gabrielle Lopez) e Nicholas (Vinícus Zinn) o telespectador ainda podia acompanhar as mensagens trocadas entre os personagens. O conteúdo reforçava e ampliava o universo ficcional da atração HBO. O mesmo aconteceu no Facebook, porém na rede social apenas a protagonista tinha um perfil. A página reunia relatos, fotos, vídeos, indicação de músicas e passeios em São Paulo. Os telespectadores também podiam fazer perguntas à protagonista.

As músicas que compunham a trilha sonora de Alice foram disponibilizadas pela HBO no Blip.fm. Ao acessar o perfil da série, também era possível escutar as playlists que Alice (Andréia Horta) criava para as suas festas.

alice12Após a exibição da temporada no canal pago HBO, a protagonista manteve seu perfil no Twitter ativo, inicialmente as postagens na rede social iam ao encontro dos conteúdos disponibilizados no Facebook. Porém, com o término da trama, o perfil deu continuidade ao universo ficcional. Os tuítes ressaltam o cotidiano e as angustias da protagonista.

Em 2010, a HBO lançou dois telefilmes de Alice intitulados O Primeiro Dia do Resto da Minha Vida e A Última Noite, respectivamente. Os episódios mostravam os novos desafios da vida de Alice (Andréia Horta), após a sua mudança definitiva para São Paulo. Entretanto, apesar integrarem o universo ficcional da série, os telefilmes podiam ser assistidos de forma isolada. Isto é, para compreender a trama não era necessário que o público tivesse assistido a primeira temporada.

As ações transmídia de Alice contribuem diretamente para o aprofundamento do universo ficcional da série. Ao acompanhar as estratégias o público conhecia novas perspectivas da história. Cada desdobramento da atração apresentava uma linguagem e um propósito diferente, nesse sentido o telespectador interagente tinha que interconectar as distintas estratégias. Dessa forma, o indicador transmedia literacy foi identificado atração da HBO, pois as ações estimulam o público a fazer uma leitura multilateral. Seja na interação com o bot, nas postagens nas mídias sociais ou nos conteúdos complementares os telespectadores tinham que interpretar variados contextos midiáticos e correlacionados a narrativa televisiva.

Por Mariana Meyer

Zé do Caixão

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  • Roteiro: André Barcinski, Ricardo Grynszpan, Vítor Mafra
  • Elenco: Matheus Nachtergaele, Maria Helena Chira, Bruno Autran, Anamaria Barreto, Walter Breda, Felipe Solari
  • Período de exibição: 13/11/2015 a 18/12/2015
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 6

Zé do Caixão foi uma produção do canal pago Space que retratou a vida do cineasta José Mojica Marins, mais conhecido por criar e interpretar o personagem Zé do Caixão. A série acompanha, sem compromisso documental, alguns anos da vida de Mojica e a produção de alguns de seus filmes, bem como a criação do icônico personagem. O elenco é composto por Matheus Nachtergaele (Mojica/Zé do Caixão), Maria Helena Chira (Dirce), Bruno Autran (Chico), Anamaria Barreto (Dona Carmen) entre outros.

A trama segue o formato episódico, ou seja, a maioria dos arcos narrativos tem início e fim no mesmo episódio. Cada capítulo mostra a produção de um filme de Mojica e, entre cada um, às vezes se passam anos. Tal escolha de formato permite, portanto, que o telespectador entenda a maior parte da trama sem precisar acompanhar todos os episódios.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A história tem início em São Paulo na década de 60 e tanto a ambientação quanto o figurino são montados de acordo com a época. Nesse sentido, o indicador não só interfere no desdobramento da trama como também contribuiu para a imersão do público.

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Um fator importante é a caracterização do personagem Zé do Caixão (Matheus Nachtergaele), que segue fielmente a estética do personagem original, interpretado pelo próprio Mojica. Isso se faz importante não apenas para a verossimilhança e aproximação com a história real, mas para o envolvimento do público com a trama.

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A trilha sonora é predominantemente instrumental e composta, principalmente, por músicas de suspense e terror, que ambientam os filmes rodados por Mojica (Matheus Nachtergaele) como Zé do Caixão. Entretanto, outros momentos fazem uso da trilha sonora para dar o tom da cena, como aqueles divididos por Mojica (Matheus Nachtergaele) e Dirce (Maria Helena Chira), nos quais, por vezes, há músicas românticas.

A fotografia, por sua vez, é composta, na maioria das vezes, por muitas sombras, contrastes e cores escuras, o que se adequa à figura do Zé do Caixão. Além disso, quando há cenas dos filmes que estão sendo rodados nos episódios, a imagem fica em preto e branco para simular o aspecto do filme real.

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Já a edição segue o padrão linear e não apresenta alterações cronológicas, deixando a narrativa clara ao telespectador, que não se confunde nas temporalidades exploradas na trama.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, a trama faz referência a lugares e pessoas reais, como São Paulo e Glauber Rocha, que tem a famosa frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” citada em um dos episódios da série. Isso contribui na ambientação da produção e na verossimilhança da trama, uma vez que traz elementos da realidade a uma série que trata de um personagem que realmente existiu – o cineasta Mojica(Matheus Nachtergaele).

Em relação à escassez de setas chamativas, foram observados alguns elementos que facilitam a compreensão do telespectador a cerca do que está ocorrendo na trama. Um exemplo ocorre no primeiro episódio, onde balas de festim são trocadas por balas reais pela mulher do delegado durante a produção do filme “A sina do aventureiro”, o que acaba ferindo a atriz principal. Antes de isso ocorrer, o público já pode imaginar o que acontecerá, já que a câmera foca, mais de uma vez, nas balas de festim ao lado das balas reais.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, a série apresenta pequenos clímax e reviravoltas em todos os episódios, mas em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que viu até então. O estilo narrativo do programa também se mantém constante ao longo dos episódios.

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Quanto aos recursos de storytelling, há, ao longo da série, algumas sequências fantasiosas, as quais são, em sua maioria, sonhos do protagonista. Isso se mostra claro, uma vez que tais sequências são em preto e branco e pode-se ver o personagem abrindo os olhos ao final dessas sequências, deixando evidente, portanto, que se tratam de sonhos. Dessa forma, pode-se perceber, também, a presença de setas chamativas.

Por Júlia Garcia

Os Normais

Dos criadores Jorge Furtado, Alexandre Machado e Fernanda Young, Os normais é uma série brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão. No ar por três temporadas, a sitcom estreou em 1º de junho de 2001, e trazia nas noites de sexta-feira o cotidiano de Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres), um casal de noivos que há cinco anos vivia uma vida “normal”, com mal-entendidos, brigas, confusões e reviravoltas, como todo casal da vida real. Com a direção geral de José Alvarenga Jr., Os Normais exibiu 71 episódios e ficou no ar até 3 de outubro de 2003. Três anos mais tarde foi lançada na mesma emissora de TV a série Minha Nada Mole Vida, com os mesmos criadores, diretores, formato e ator principal, que também abordava o cotidiano dos personagens, mas agora o de Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) com a ex-mulher e o filho.

Aparentando ser um típico casal de classe média, na faixa dos 30 anos de idade, Rui e Vani são, na verdade, cheios de manias, preconceitos, paranoias, superstições e falhas de caráter, características que colocam em cheque a ideia de casal perfeito e pessoas normais.  O programa usa frequentemente a metalinguagem e os protagonistas falam direto com o espectador, interferindo no episódio e pedindo a aparição de “mini-flashbacks”.

No Plano da Expressão, os aspectos destaques são a vinheta do programa, a linguagem e o cenário. Na abertura do seriado, a canção de fundo “Doida Demais”, interpretada por Lindomar Castilho, compõe uma sequência de fotos aleatórias de rostos de pessoas desconhecidas, dos atores Fernanda e Luiz Fernando, de uma criança e um cachorro. Fazendo careta, sorrindo ou com expressão séria, o objetivo das fotos é fazer jus ao nome do programa, já que essas são pessoas normais, de todas as cores e idades, que faziam parte da equipe de produção da sitcom. A trilha de fundo constitui-se apenas por um único refrão da música, o trecho “você é doida demais”, que contrapõe o título do programa, já anunciando para o espectador o que se pode esperar: a personificação de pessoas normais, porém, loucas, pois aos olhos do outro, todo normal é um pouco descontrolado.

Quanto ao vocabulário adotado, o programa apresenta uma linguagem coloquial, cotidiana e cheia de palavrões, como caralho, merda, puta que pariu, xoxotas e paus, como acontece no dia a dia de muito casal “normal”. Os cenários utilizados não são variados, com a residência de cores saturadas e contrastantes de Rui sendo o principal local de gravação dos atores. Esses três elementos (vinheta, vocabulário e cenário) se complementam de modo que o espectador se identifique com o programa e se aproxime do mesmo, pois ver na televisão algo que também acontece na sua vida, de maneira tão espontânea e credível, instiga e gera curiosidade no espectador.

Além do formato em comum, equipe de criação, direção, e ator principal, outra característica vista também no seriado Minha Nada Mole Vida (lançado cinco anos após a estreia de Os Normais) é a da câmera em contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima), apontando normalmente para o prédio em que Rui mora, com o intuito de situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade tem avaliação razoável em todas as emissões analisadas devido ao fato de, assim como em Minha Nada Mole Vida, abarcar assuntos cotidianos da vida dos personagens, incluindo problemas, questionamentos e prazeres da vida a dois, e não necessariamente assuntos da agenda midiática.

O indicador ampliação do horizonte do público não é muito observado no decorrer dos episódios, sendo quatro deles considerados razoáveis e um bom. Na emissão do dia 6 de junho de 2003, por exemplo, a boa avaliação é justificada pela abordagem mais longa da depressão, uma doença muito comum nos dias de hoje que necessita de atenção para que haja sempre informação sobre os sintomas e prejuízos ao paciente. Nas outras emissões, o estímulo do público ao pensamento e ao debate de ideias se dá pela inserção de reflexões a cerca de valores morais, como mentira, traição, felicidade, relacionamentos, sexo e amizade, porém de forma rápida e sem muita intensidade.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados não foi muito bem avaliado. Apesar de abordar assuntos bem diversos, as pessoas representadas na série não são muito diferentes umas das outras: todas são jovens na faixa dos 30 anos de idade, de pele branca e de classe média. Negros e crianças não aparecem em nenhum momento dos episódios e o que mais se diversificou quanto a esse indicador foi na emissão do dia 29 de junho de 2001, em que, brevemente, aparecem representantes de Nova Iorque, Tóquio e Berlim das filiais da empresa em que Rui trabalha.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, desconstrução de estereótipos, foi observado que a série faz constante uso do estereótipo para provocar o riso. Em duas das cinco emissões o estereótipo está muito presente e um pouco menos em outras três. A sitcom aborda a normalidade de duas pessoas através do uso de estereótipos, alguns sendo reforçados e outros questionados, para deixar que o telespectador tire suas próprias conclusões. No episódio exibido no dia 15 de junho de 2001, por exemplo, aos 7 minutos e 17 segundos, Rui começa a categorizar meninas de programa de acordo com o anúncio delas no jornal, baseando-se, portanto, em alguns estereótipos para afirmar o que acha:

Susi: ‘Mulherão dominadora’. Bom, ‘mulherão’ significa que já passou dos 35, né, e ‘dominadora’ significa que vai dar uns tapas na tua cara. Não… Vivian: ‘Morena, mignon, completa’. ‘Mignon’ quer dizer que tem um metro e meio, né? E ‘completa’ que tá desesperada e vai roubar teu aparelho de som.

(Os Normais – episódio Brigar é normal 15/06/2001).

Abaixo, a qualidade do plano do conteúdo, com a avaliação de cada indicador:

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Na Mensagem Audiovisual, Os Normais é razoável no indicador de qualidade originalidade/criatividade. Essa avaliação se deve, principalmente, ao uso da metalinguagem, comprovada quando na trama os protagonistas falam do próprio programa. Um exemplo disso está no episódio Um dia normal, exibido no dia 29 de junho de 2001, que traz Rui e Vani sentados no sofá da sala jogando dama, enquanto os bastidores arrumam o cenário. No momento em que Rui e Vani começam a interagir com o espectador que está do outro lado da tela, antes mesmo da vinheta de abertura, mostra-se um profissional do programa segurando o cartaz com as falas que serão ditas, e os atores (que se confundem com seus próprios personagens) olham para a câmera como se estivessem falando com o público.

RUI: Oi gente, é pra gente voltar com o programa agora…

VANI: …Mas a gente pediu pra passar mais uns comerciais.

RUI: É, porque nós estamos numa disputa importante.

VANI: É, se eu ganhar o Rui vai ter que lavar toda a louça da casa.

RUI: Não, mas ela não vai ganhar não.

VANI: E, não vou ganhar o quê, ó.

RUI: Pera aí, você roubou.

VANI: Ahh, roubei nada.

RUI: Você roubou enquanto eu estava falando com eles.

(Os Normais – episódio Um dia normal 29/06/2001)

Além da metalinguagem, outro momento criativo do programa que ajuda a incrementar o indicador originalidade/criatividade é na propaganda de um produto, em que Os Normais faz uso do humor sobre a própria situação do merchandising para divulgar uma marca.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, todas as emissões são boas, pois é comum vermos nos episódios ao menos uma menção a outra plataforma, programa ou personalidade. No exibido no dia 2 de maio de 2003, por exemplo, Rui questiona Vani sobre ela não dar mais atenção a ele por causa da novela, quando Vani o interrompe:

VANI: Peraí, que vai começar.

RUI: Pô, ainda tá no Jornal Nacional, cara.

VANI: Não, mas agora é assim, eles colam o início da novela no fim do Jornal Nacional. Se você bobeia, você perde o início do capítulo, entendeu?

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Após dialogar com um programa real (Jornal Nacional), a história continua e Vani mais uma vez menciona outro conteúdo que não é da trama, dessa vez com personalidades: “É, por exemplo, hoje, a Christiane Torloni e o José Mayer, antes mesmo da abertura da novela, eles vão transar, brigar e transar de novo”. Ainda na sequência, Vani novamente cita pessoas reais, o que mais uma vez justifica a avaliação boa que o indicador diálogo com/entre plataformas recebeu: “Peraí, peraí, que a Fátima Bernardes e o William Bonner já estão dando aquela notícia divertida do fim do Jornal Nacional”.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito bem avaliado em todas as emissões e é um dos indicadores de maior destaque no programa, tanto da mensagem audiovisual quanto do plano do conteúdo, e também pode ser exemplificado com o episódio mostrado acima. Na sequência da trama, ainda na discussão da novela, Rui conversa com Vani sobre saber antecipadamente o que vai acontecer nas novelas e no episódio que estão fazendo:

RUI: Por isso que eu não acompanho novela. Todo mundo já sabe o que vai acontecer, caramba.

VANI: Todo mundo já sabe que a gente vai passar o episódio discutindo, e nem por isso as pessoas param de assistir.

RUI: É, todo mundo já sabe que a gente vai ficar junto no final. Estão assistindo por causa de quê?

VANI: Não, não faz essa pergunta se não as pessoas trocam. Não! Não troca de canal.

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Além de usar a metalinguagem para falar do próprio programa, os personagens utilizam também esse recurso para falar do público e com ele. Como mostrado acima, nas duas últimas falas de Rui e Vani, há uma mescla de receptores da comunicação estabelecida: ora os personagens falam um com o outro, e ora voltam-se para o espectador. Em seguida à última fala de Vani, o programa faz uso de efeitos especiais para simular a troca de canal do espectador e na tela é mostrada uma cena de tiroteio em que várias pessoas estão sendo mortas. Novamente o efeito especial é utilizado para simular que o espectador voltou para o canal do programa e Rui vai ao banheiro sozinho para conversar com o público. Olhar e falar para a câmera, como se estivesse olhando para os olhos do espectador e esperando dele uma resposta, faz dessa técnica, portanto, mais um instrumento de identificação e aproximação de público e programa.

O indicador de qualidade clareza da proposta é, como o indicador anterior, igualmente bem avaliado. Toda essa intensa metalinguagem utilizada, juntamente com a atuação dos personagens e o formato bem definidos, são essenciais para a clareza e objetivo do programa. No exibido dia 15 de junho, por exemplo, a história já se inicia com os dois protagonistas em cenários diferentes e queixando-se um do outro, o que deixa evidente que os assuntos abordados no episódio serão os problemas que o casal tem entre si e as consequências do desejo de vingança que cada um sustenta consigo após os vários insultos mútuos. Observe, a seguir, a avaliação de cada indicador da mensagem audiovisual:

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Levando em consideração os episódios aqui analisados, que representam apenas uma pequena parcela de Os Normais e não necessariamente a sua totalidade, podemos afirmar que a série apresenta poucas características de qualidade. Por mais objetiva, curiosa e instigante que tenha sido (experimentação), as emissões analisadas não prezam pela diversidade cultural, faz constante uso do estereótipo de afirmação para gerar o riso e não aprofunda em temas importantes devido ao pouco tempo que dedica a eles (representação), por mais que tais temas tenham sido levantados.

Por Luma Perobeli

Treme, Treme

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  • Direção: Pedro Antonio Paes
  • Roteirista: Letícia Dornelles
  • Elenco: Gustavo Mendes, Fernando Caruso, Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna
  • Período de exibição: 01/11/2015 a 26/05/2016
  • Duração: 25 minutos
  • Nº de episódios: 50

Exibido pelo canal pago Multishow, o sitcom Treme, Treme é protagonizada por Gustavo Mendes e Fernando Caruso. Na trama os humoristas interpretam o zelador Belmiro e o porteiro Gilmar, respectivamente. Ao longo dos episódios da série os funcionários têm que lidar com os encontros inusitados e o cotidiano dos moradores na portaria de um prédio residencial e comercial Treme Treme, em São Paulo.

Além do elenco fixo composto por Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna, as esquetes contam com a participação dos competidores do Prêmio Multishow de Humor e de comediantes veteranos. A cada episódio os humoristas vão se revezando em diferentes papeis.

Fernando Caruso interpreta o porteiro Gilmar. O personagem é dedicado, está sempre atento a tudo, porém possui um lado ranzinza, que o torna antipático. Já o zelador Belmiro (Gustavo Mendes), assume a portaria quando Gilmar (Fernando Caruso) precisa se ausentar. O personagem é enrolado, muito desatento e adora aumentar o que ouve.

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Além dos protagonistas, a atração conta com mais de 30 personagens. Entre os tipos estão o faxineiro Gagoberto (Caíke Luna), o torcedor fanático Faisão (Felipe Ruggeri), o estranho garotinho Jaquisom David (Rafael Mazzi), o funkeiro Gigante Ostentação (Gigante Léo) e a dupla sertaneja Três Marias (Larissa Câmara e Bia Guedes). Entre as participações especiais estão nomes como Ary Toledo, Ceará, Dani Valente, Gorete Milagres, Marcelo Marrom, Nany People, Paulinho Serra, Pedro Bismarck, Samantha Schmütz, Sergio Mallandro e Tirullipa.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

As esquetes da série Treme Treme são ambientadas no prédio residencial e comercial que leva o nome do programa. Entretanto, o único ambiente explorado é a portaria do edifício.

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A cada episódio do telespectador acompanha a entrada e a saída dos moradores e funcionários do Treme Treme. Além da limitação do cenário, que retratada, em todos os 50 episódios o mesmo espaço, a ambientação da trama não apresenta verossimilhança. Os objetos cênicos se distanciam dos que integram, normalmente, um prédio residencial e comercial.

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Outro ponto que chama a atenção na ambientação da série é que apesar da portaria do edifício ser o principal cenário onde que desdobram todos os arcos narrativos da história, em momento algum o indicador contribui efetivamente para a atração. Isto é, a ambientação só serve como pano de fundo para as esquetes e não interfere do desenvolvimento do sitcom.

Por se tratar de uma série episódica a caracterização dos personagens de Treme Treme tem a função de passar uma mensagem instantânea para o telespectador. Em outras palavras, os personagens são construídos a partir de arquétipos nesse sentido as roupas e o gestual são facilmente compreendidos pelo público.

Alguns personagens vestem, praticamente, a mesma roupa durante vários episódios, como, por exemplo, a síndica (Márcia Cabrita). Muito rigorosa com as regras do edifício, um pouco louca e com um prazer imenso em mandar, a personagem está usando o mesmo figurino ao longo das temporadas, independente da situação.

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A trilha sonora de Treme Treme é composta por efeitos sonoros pontuais que marcam a transição das esquetes. Desta forma, os episódios não apresentam músicas e/ou faixas instrumentais.

A fotografia é norteada pelo estilo naturalista, a variação de iluminação e uso de filtros não esteve presente na análise das temporadas. Todos os episódios possuem o mesma tonalidade e o mesmo contraste.

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Por ser gravada em um teatro no Rio de Janeiro, a edição de Treme Treme é linear. As esquetes não exploram múltiplas temporalidades e se passam apenas no presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Por ser composta por várias esquetes e personagens a série apresenta várias intertextualidades, as referências externas ao universo ficcional da trama abrangem desde figuras conhecidos do cenário humorístico nacional como, Juninho Play, interpretado por Samantha Schmutz, até citações a Caio Ribeiro, Casagrande, Galvão Bueno, entre outras personalidades do âmbito televisivo.

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Apesar de não serem fundamentais para a compreensão das esquetes, ao reconhecer as intertextualidades os telespectadores têm uma experiência mais rica da trama, passando por várias camadas interpretativas.

O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em Treme Treme. Nesse sentido, vários elementos da trama apresentam cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Desde a abertura da atração até os diálogos encenados pelo elenco não exigem esforço analítico dos telespectadores, os desdobramentos narrativos são didaticamente pontuados.

Por fim, os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram identificados nas temporadas de Treme Treme. Os arcos narrativos não estimulam o telespectador a reconsiderar o paratexto e as histórias exploram a mesma temporalidade, estética e narratológica.

Por Daiana Sigiliano

Trair e coçar é só começar

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  • Escrita por: Marcos Caruso e Gisele JorasElenco: Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro.
  • Duração: 45 minutos
  • Período de exibição: 24/11/2014 a 31/08/2015
  • Nº de episódios: 26

Escrita por Marcos Caruso e Gisele Joras, a série Trair e coçar é só começar é protagonizada pela empregada doméstica Olímpia (Cacau Protásio). A personagem passa por conflitos relacionados à separação do seus dois patrões, Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). A partir de então Olímpia (Cacau Protásio) passa a se dividir entre os dois e decidida a unir o casal novamente apronta várias confusões com ajuda de Lígia (Dani Valente), Cristiano (Marcelo Flores), Zilda (Gorete Milagres) e Joel (Vinícius Marins).

O elenco conta com nomes como Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro. Os arcos narrativos giram em torno das tentativas de Olímpia (Cacau Protásio) de reatar o casamento de seus patrões Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). Por ser norteado pela estrutura episódica, cada episódio apresenta um arco narrativo isolado, sempre se iniciando com um equilíbrio, passando por conflito e culminando no equilíbrio novamente, no desfecho.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A série Trair e coçar é só começar é gravada em um teatro, sendo assim seu cenário é fixo e, neste caso, não apresenta nenhuma mudança durante a narrativa. Outro aspecto importante na análise do indicador é a composição do ambiente. A trama do canal pago Multishow apresenta um cenário com dois andares, o andar de baixo representa a casa de Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin) e o andar de cima é a cobertura, também de posse do casal. No episódio Separação a visualização simultânea dos dois ambientes por parte do telespectador era necessária para a compreensão da narrativa, uma vez que parte do humor e desenvolvimento da trama envolviam conflitos que aconteciam nos dois ambientes no mesmo momento.

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Considerando a personalidade plana dos personagens, ou seja, baseada em arquétipos, a caracterização é responsável por fazer o telespectador entender rapidamente o papel desempenhado por cada um na narrativa. Assim, Inês (Márcia Cabrita) compondo uma mulher rica e bem-sucedida veste peças de tecidos leves, calças de alfaiataria e sapato de salto e seu marido Eduardo (Cássio Scapin), um médico de sucesso, está sempre de roupa social.

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A série não apresenta trilha sonora ao longo dos episódios. Há apenas a presença de efeitos sonoros ressaltando encerramento de cada episódio. A fotografia de Trair e coçar é só começar é pautada pela iluminação característica de teatro onde a atração é gravada. Apesar disso, o indicador não influência no desdobramento dos arcos narrativos.

Por ser também uma peça de teatro, a edição da série se apresenta de forma linear, ou seja, não utiliza de outra cronologia além do presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Trair e coçar é só começar não apresenta nenhum tipo de intertextualidade no seu enredo, ou seja, não traz nenhuma referência externa ao universo ficcional da série.

A atração apresenta setas chamativas, em forma de repetição de acontecimentos. Por exemplo, no episódio Casamento de Neco, o personagem Túlio (Pedro Monteiro) reforça em forma de diálogo com Cristiano (Marcelo Flores) que acontecerá um casamento e outras informações que já foram apresentadas ao telespectador anteriormente. Desta forma, o indicador não foi observado no programa. Nesse sentido, o indicador escassez de setas chamativas não foi identificado.

Compondo a estrutura episódica, as reviravoltas são presentes em cada episódio e são solucionadas no mesmo episódio, fechando o arco narrativo. Apesar de ser esperado pelo telespectador, o clímax não deixa de cumprir seu papel de representar uma quebra na narrativa. As reviravoltas são importantes para a trama, porém não tão significativas a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a história até então, aspecto central dos efeitos especiais narrativos.

Por último, os recursos de storytelling não são explorados em Trair e coçar é só começar. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

 Por Mariana Meyer