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A arte de ouvir: a saúde mental em “Vozes da Voz”

das-doida1O documentário Vozes da Voz propõe a detenção do olhar do espectador para a realidade das CAPS, serviço comunitário criado para cuidar de pessoas em estado de sofrimento psíquico. Nestes centros de atenção psicossocial, os ingressos são tratados como usuários do serviço, e não como pacientes, o que os confere o direito de decisão e de autonomia, como exemplo.

Em 35 minutos, o filme realiza um resgate histórico de algumas instituições psiquiátricas e aborda a luta antimanicomial, importada pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia em 1979, que instaurou serviços alheios aos realizados pela lógica manicomial.

A apresentação dos psicólogos, psiquiatras e líderes sociais são justapostas às dos usuários do sistema público de tratamento mental. O filme, então, se desenvolve apresentando depoimentos de profissionais do Manicômio Judiciário de Franco da Rocha e de envolvidos com o CAPS Itapeva (SP).

De acordo com o diretor Valnei Nunes, o filme foi realizado a partir de 3 anos de pesquisa e registro do tratamento da saúde mental em detrimento da luta antimanicomial e dos direitos humanos. Os depoimentos presentes na película exploram os novos tratamentos utilizados nas CAPS filmadas e revelam a necessidade do tratamento humanizado do portador de sofrimentos mentais.

Não obstante, a necessidade de se discutir a questão psicossocial é investida como tema de relevância não somente para aqueles que estão inseridos no processo da Reforma Psiquiátrica. Também é necessário que haja um debate para que a sociedade obtenha esclarecimentos sobre métodos de tratamento, reinserção social e arte-terapia. A loucura, que segue carregada de estigmas, é apresentada no filme como identidade que deve ser ouvida e respeitada.

De acordo com Comolli (2001), crítico e ensaísta francês, o cinema documentário possui a capacidade de se ocupar de todas as fissuras do real. A filmagem dos excluídos, que escapam das normas majoritárias, entregam novos desvios do olhar para os espectadores que, juntamente dos especialistas em um assunto específico, podem debandar em juízo novas formas de atender, ouvir e solucionar problemas de ordem social.

Assim, é possível conjurar, através da manifestação das imagens do filme, questionamentos que tem como objetivo principal o fim do estigma do louco, a relação da sociedade com o portador de transtornos e a necessidade de amparo familiar e social para aqueles que precisam do sistema. Nas palavras de Ismail Xavier (2010): “As pessoas são mais interessantes quando se libertam do estereótipo”.

Assista ao filme: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/vozes-da-voz/

Por Iago Rezende

Ligações Perigosas

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  • Autoria: Manuela Dias
  • Supervisão de texto: Duca Rachid
  • Direção-geral: Vinícius Coimbra
  • Direção de núcleo: Denise Saraceni
  • Período de exibição: 04/01/2016 – 15/01/2016
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 10

Exibida pela Rede Globo entre os dias 4 e 15 de janeiro de 2016, a minissérie Ligações Perigosas é inspirada no clássico da literatura francesa Les liaisons dangereuses(As Ligações Perigosas) de Choderlos de Laclos. A obra literária retrata as relações de um grupo de aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente anterior à Revolução Francesa, que dedicam-se a destruir as reputações de seus pares.

Ambientada na década de 1920, a minissérie tem como arco narrativo central os jogos de sedução que são arquitetados pelos amantes Isabel (Patrícia Pillar), uma viúva rica e atraente e Augusto (Selton Mello), um libertino frequentador de bordéis. Uma das pessoas envolvidas pelos planos do casal é o ex-amante de Isabel (Patrícia Pillar), Heitor Damasceno (Leopoldo Pacheco). Após descobrir o desejo dele de se casar com Cecília (Alice Wegmann), filha de sua prima Iolanda (Lavínia Pannunzio), a marquesa decide se vingar e pede para Augusto (Selton Mello) tirar a virgindade da jovem antes do casamento.

O elenco conta com nomes comoSelton Mello (Augusto de Valmont),Marjorie Estiano (Mariana de Santanna),Alice Wegmann (Cecília Mata Medeiros), Jesuíta Barbosa (Felipe Labarte),Leopoldo Pacheco (Heitor Damasceno), Lavínia Pannunzio (Iolanda Mata Medeiros),Danilo Grangheia (Otávio Lemos), Aracy Balabanian (Consuelo),Renato Góes (Vicente),Yanna Lavigne (Júlia).

No Plano da Expressão iremos destacar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A minissérie Ligações Perigosas, que se passa em 1928 na cidade fictícia Vila Nova, exibe cenários imponentes, como a casa de Isabel (Patrícia Pillar) que possui 310 metros quadrados e 5,6 metros de pé-direito e janelas de grandes dimensões. Outro ponto importante no indicador é a Quinta de Consuelo (Aracy Balabanian), com várias acomodações e ambientes externos. A decoração dos espaços trouxe elementos característicos da década de 1920 contribuindo diretamente para a verossimilhança da trama,como, por exemplo, sofás, biombos, mesas art déco e objetos art nouveau.

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Entre as locações presentes na história estão o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Teatro Municipal de Niterói, o Palácio São Clemente, Fortaleza de Santa Cruz da Barra. Além destas também se destacam as sequências externas como, por exemplo,as gravadas no Palácio Santa Candida, em Concepción del Uruguay e no litoral de Puerto Madryn, na Patagônia, Argentina.

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No que se refere à caracterização dos personagens, todos se vestem com roupas características da época e apresentam variações de acordo com a personalidade. Esse aspecto pode ser observado na marquesa Isabel (Patrícia Pillar). A personagem, interpretada por Patrícia Pillar,usava vestidos com babados, vestes feitas de pele de animal e colares representando a sua posição de integrante da alta sociedade. De acordo com a figurinista Marília Carneiro, a composição do figurino de Isabel (Patrícia Pillar) teve inspiração na figura da Coco Chanel, uma vez que suas roupas eram luxuosas e vanguardistas. Já Augusto (Selton Mello), usava peças despojadas como sobretudos, lenços e óculos escuros contribuindo para a figura charmosa e sedutora que ressaltada nos desdobramentos narrativos.

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A caracterização de Cecília (Alice Wegmann) passa por várias mudanças ao longo da trama. No início da história, a personagem usa cabelos longos, roupas compridas e fechadas representando assim a menina inocente recém-saída do internato. Da metade para o final da minissérie, por influência e sugestão da tia Isabel (Patrícia Pillar), Cecília (Alice Wegmann) corta os cabelos e começa a usar roupas mais ousadas, mudanças que acompanham a transformação de postura e comportamento da personagem em Ligações Perigosas.

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O indicador trilha sonora, é em sua maior parte inserido quando há a presença de música no ambiente em que se passa a cena.  Por exemplo, na sequência em que Isabel (Patrícia Pillar) liga sua vitrola e dança em seu quarto ou como nas cenas em que havia festas, espetáculos em teatros, etc. Além disso, o indicadoresteve presente nas aulas de música de Isabel (Patrícia Pillar) e de Cecília (Alice Wegmann), a partir de canções clássicas como “A Sagração da Primavera”, de Ígor Stravinsky, e “Petite Suite”, de Claude Debussy.

A fotografia de Ligações Perigosas é norteada pelas cores predominantes nos ambientes onde se passam as sequências. Nesse sentido, observamos tons de branco, bege, azul, amarelo, etc. Os planos mais explorados foram o plano médio, close plano grande e a iluminação em cenas de ambientes internos e noturnos era caracterizada por ser a luz de velas. Porém, apesar da minissérie se preocupar com a fotografia, ela não influencia em termos semânticos nos arcos narrativos.

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No início da narrativa, a trama apresenta um flashback de Isabel (Patrícia Pillar). A personagem relembra de sua juventude de quando estudava em um internato e quando conheceu Augusto (Selton Mello). Entretanto, como analepse é feita de forma pontual, não altera a linearidade da narrativa. Desta forma, a edição se caracteriza como linear, pois a trama não possui outra linha cronológica além da do tempo presente.

No Plano de Conteúdo iremos abordar os indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

A intertextualidade aparece em Ligações Perigosas nos momentos finais do último capítulo da trama. Quando Consuelo (Aracy) faz uma reflexão de toda a história e no final faz uma alusão ao título da minissérie. Nesse contexto, a referência reforça o universo ficcional, enriquecendo a experiência do telespectador.

O indicador escassez de setas chamativas não foi identificado. Uma vez que a minissérie explora muito este recurso a fim de situar o espectador na trama.  Os cartazes narrativos estão presentes na repetição de fatos já ocorridos. Por exemplo, quando Augusto (Selton Mello) e Mariana (Marjorie Estiano) tiveram sua primeira noite juntos e na cena posterior o personagem conta com detalhes para sua amante Isabel (Patrícia Pillar). Outro modo de utilizar estes indicativos aparece quando nos últimos episódios é feito questionamentos, a partir de diálogos dos personagens, sobre a morte de Augusto (Selton Mello) a fim de reafirmar este acontecimento da trama.

Ao observarmos os recursos de storytelling, podemos perceber a presença de analepses principalmente no início da trama. Como, por exemplo, quando Isabel (Patrícia Pillar) relembra seu passado, na época em que estudava em um internato, quando Mariana (Marjorie Estiano) pouco antes de falecer recorda seus bons momentos ao lado de Augusto (Selton Mello). Nesse sentido, os flashbacks possuem indicações de que não se tratam de uma cena do tempo real, de forma a orientar o telespectador. Por exemplo, na cena em que Isabel (Patrícia Pillar) está no velório de seu falecido marido, há uma transição das cenas da personagem no passado para a personagem no presente, demonstrando que se trata da mesma pessoa, porém em uma cronologia diferente. Os outros flashbacks não possuem indicativos claros, como a mudança de fotografia, mas a partir do contexto da cena é perfeitamente possível fazer a distinção das temporalidades.

Já os efeitos especiais narrativos, são explorados para desenvolver os arcos narrativos de Ligações Perigosas. Como, por exemplo, quando Heitor (Leopoldo Pacheco) decide casar com Cecília (Alice Wegmann) ou quando a jovem descobre que está grávida. Porém, estes acontecimentos não são significativos a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a trama até este momento.

Por Mariana Meyer

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Pé na cova

Pe na CovaO seriado Pé na Cova estreou em 24 de janeiro de 2013 e foi exibido pela Rede Globo de Televisão até 07 de abril de 2016. O elenco contava com nomes como Miguel Falabella, Marília Pêra, Daniel Torres e Luma Costa. A direção geral foi de Cininha de Paula.

O enredo se baseava na história de Ruço (Miguel Falabella), dono de uma funerária no Irajá e namorado de Abigail (Lorena Comparato), 30 anos mais nova. Sua ex-mulher, Darlene (Marília Pêra), trabalha como maquiadora de defuntos e vive na mesma casa que o ex-marido. Os dois tiveram dois filhos, Odete Roitman (Luma Costa), que trabalha fazendo strip-tease na internet, e Alessanderson (Daniel Torres), que almeja uma carreira política.

No plano da expressão se destacaram elementos como a vinheta de abertura, que traz várias caveiras – feitas por computação gráfica – dançando, se divertindo e realizando atividades rotineiras, como andar de ônibus ou fazer um churrasco. Essa vinheta dá uma ideia geral do conceito do programa, o qual trata da morte de maneira leve e divertida. Além disso, os cenários e o figurino cumprem a proposta de representar uma família de classe média baixa do Irajá, como a família de Ruço, o que confere certa verossimilhança ao seriado. O enredo, por sua vez, traz situações muitas vezes absurdas e improváveis, além de os personagens serem compostos de maneira excêntrica, o que corrobora a proposta do seriado – tratar da morte – que é, por si só, singular.

Já em relação ao plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados foi o de maior destaque, obtendo avaliação muito boa em todas as emissões analisadas. Podem-se encontrar os mais diversos tipos de personagens, dentre lésbicas, travestis e negros. Tais representações são raramente retratadas em outros seriados de televisão; ainda menos todas essas representações juntas.

A ampliação do horizonte do público também obteve destaque dentro da produção, com três emissões boas e duas muito boas em relação ao indicador. Em todos os episódios é possível perceber uma reflexão – muitas vezes profunda – acerca de assuntos rotineiros e questões pertinentes, em maior ou menor grau. No episódio A Surpresa do Inesperado, Juscelino, empregado da funerária e amigo da família, dispara após uma reflexão: “O foco não está no caminho, está no caminhar”. Ao final dos episódios também é comum uma conversa, geralmente entre Ruço e Darlene, que sintetize uma reflexão a respeito das dificuldades e das situações que os personagens passaram durante o episódio. Críticas sutis também podem ser percebidas, como no episódio Seria Cômico Se Não Fosse Sério, quando Darlene diz a Alessanderson: “Ela vai te jogar no mundo do crime!”. O menino responde: “Pra uma carreira política isso conta como especialização”.

O episódio A Virgem do Irajá, que recebeu avaliação boa no indicador, trata, principalmente, do preconceito. Ruço diz sobre a relação de Odete Roitman com Tamanco, noiva de Odete: “Eu não aceito, no fundo eu não aceito. Fingi que aceito (…)”. Alessanderson ainda complementa: “O preconceito é a gasolina do mundo, infelizmente”. A atitude de Ruço perante o noivado da filha é contestada por todos, que o incentivam a aceitá-lo.

O episódio Quero Morrer no Carnaval, que recebeu avaliação muito boa, também trata do preconceito, mas com um enfoque um pouco diferente. Ruço recebe o corpo de uma travesti para enterrar e decide enterrá-la como homem, despindo-a. A mãe dela, ao encontrá-la como homem, indaga Ruço o motivo de ele ter feito aquilo e, por fim, diz: “Ele não se via como homem, não se gostava como homem. Então eu entendi e aceitei”. Preta Gil, que interpreta ela mesma no episódio, concorda com a mulher e complementa: “Se a sua filha era Gisele no plano físico, então ela também vai ser Gisele no plano astral. Diversidade até na morte!”.

Entretanto, o indicador desconstrução de estereótipos não obteve o mesmo destaque, recebendo avaliação fraca em todas as emissões. Os personagens, embora diversos, são representados, em grande parte das vezes, de forma caricatural ou exagerada. É o caso de Tamanco, a mecânica lésbica e masculinizada.

O indicador oportunidade teve avaliação razoável em quatro emissões analisadas devido ao fato de abarcar assuntos passíveis à vida de qualquer pessoa (ainda que a temática central seja a morte), incluindo problemas e questionamentos cotidianos que não estão necessariamente na agenda midiática. A exceção foi o episódio Quero Morrer no Carnaval, ambientado durante o carnaval e exibido em fevereiro – justamente a época da festividade, a qual era pauta tanto da agenda do público quanto da agenda da mídia.

Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo para cada episódio:

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Já quanto à mensagem audiovisual, o indicador diálogo com/entre plataformas obteve avaliação boa em quatro emissões e muito boa em uma. É recorrente nos episódios a menção a lugares reais, como Ceará, Bolívia e o próprio Irajá. A menção a programas, personalidades e situações reais também é comum. No episódio Seria Cômico Se Não Fosse Sério, Ruço, em referência à novela Salve Jorge, que passava à época da transmissão, diz: “Ainda mais agora com essa história da Cláudia Raia levar essas mulheres pra… Onde mesmo? Qual é o nome do lugar?”. Já no episódio O Morto de Chinó, Ruço responde a Luz Divina: “Sabe o que tu vai receber? Nada, nada, nada, nada.”, em referência a uma música que viralizou no YouTube na época.

O episódio A Surpresa do Inesperado recebeu avaliação muito boa no indicador porque, além de referências a elementos da realidade, faz uma espécie de releitura de cenas do filme Psicose, de Alfred Hitchcock. Ruço tem pesadelos e encontra Luz Divina no porão, de costas e sentada em uma cadeira. Ao virá-la, descobre que ela é um esqueleto e, nesse momento, Floriano aparece vestido de mulher e tenta matar Ruço a facadas, mas Juscelino o impede. Esse pesadelo é uma releitura da cena de Psicose onde Lila Crane descobre o esqueleto de Norma Bates sentado em uma cadeira no porão e Norman Bates, com as vestes de sua mãe, tenta matá-la, mas é impedido por Sam Loomis.

O indicador clareza da proposta, por sua vez, recebeu avaliação muito boa em todas as emissões, já que o formato do programa é nítido e não deixa dúvidas ao espectador. Do mesmo modo, a proposta do seriado também se faz clara ao público. Já em relação ao indicador originalidade/criatividade, Pé na Cova recebeu avaliação boa em todas as emissões. O diferencial do programa é a sua proposta inovadora de apresentar como tema a morte, mas de uma forma leve e descontraída.

Contudo, o indicador solicitação da participação ativa do público obteve avaliação fraca em todas as emissões, uma vez que poucos recursos são utilizados para estimular o espectador a participar de forma mais ativa do programa. A linguagem simples e informal, entendida facilmente, é um dos poucos fatores que aproximam o seriado do espectador. As menções a elementos da cultura popular, as quais também incrementam o diálogo com/entre plataformas, podem ser consideradas outro fator de aproximação. A seguir, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual, com as suas respectivas avaliações:

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A partir da análise, pôde-se observar que Pé na Cova apresenta características do humor de qualidade, considerado aquele capaz de levar o público à reflexão e ao debate de ideias, trazendo temas férteis e relevantes à pauta do espectador. Dentro dessa análise, foram essenciais as boas avaliações no indicador ampliação do horizonte do público, marcado pelas reflexões e questionamentos das personagens a respeito da vida e de assuntos rotineiros, tratados através de situações improváveis e de personagens excêntricos.

O programa também se destaca pela temática que traz – a morte – de forma leve e descontraída, sendo capaz de trabalhar com reflexões pertinentes sem que o espectador sinta o “peso” dos assuntos tratados. Entretanto, não somente a reflexão sobre a morte é trabalhada, mas também sobre diversos outros assuntos relevantes.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

Amores Roubados

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  • Desenvolvida por: George Moura, Sérgio Goldenberg, Flávio Araújo e Teresa Frota
  • Supervisão de texto: Maria Adelaide Amaral
  • Direção-geral: José Luiz Villamarim
  • Direção de núcleo: Ricardo Waddington
  • Período de exibição: 06/01/2014 – 17/01/2014
  • Nº de episódios: 10
  • Horário: 23h

Amores Roubados foi uma minissérie inspirada no romance A Emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela. Exibida pela Rede Globo, em janeiro de 2014, a produção contou com nomes como Cauã Reymond (Leandro Dantas), Isis Valverde (Antônia Favais), Patrícia Pillar (Isabel Favais), Dira Paes (Celeste), Murilo Benício (Jaime Favais), Osmar Prado (Roberto Cavalcanti), Irandhir Santos (João), Jesuíta Barbosa (Fortunato), dentre outros.

A trama gira em torno de Leandro (Cauã Reymond), um rapaz galanteador que trabalha na vinícola do poderoso Jaime Favais (Murilo Benício). O jovem acaba se envolvendo com Celeste (Dira Paes) e Isabel (Patrícia Pillar), mulher de seu patrão. A história se complica quando Leandro se apaixona por Antônia (Isis Valverde), filha de Jaime (Murilo Benício) e Isabel (Patrícia Pillar).

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Amores Roubados se passa no sertão nordestino, às margens do rio São Francisco, e as gravações foram feitas, em sua maioria, nas cidades de Petrolina e Paulo Afonso, em Pernambuco e na Bahia, respectivamente. Dessa forma, as locações garantem a verossimilhança da história, que se passa, justamente, em tal região do Brasil.

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O sotaque dos personagens, adequado à região, também confere verossimilhança. Da mesma forma contribui o figurino, que contrasta a riqueza de uma parte do sertão, personificada pelas famílias Favais e Cavalcanti, com a realidade do sertanejo.

O contraste de figurino também se fez presente entre as mulheres conquistadas por Leandro (Cauã Reymond). Enquanto Celeste (Dira Paes) apresentava um visual elegante, fino e, ao mesmo tempo, provocante, Antônia (Isis Valverde) utilizava roupas soltas e joviais. Já Isabel (Patrícia Pillar) usava roupas simples, mas com certo requinte devido à sua posição social. Nesse contexto, o figurino acompanhava a personalidade dos personagens de Amores Roubados.

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A trilha sonora utilizada foi predominantemente instrumental e marcava momentos relevantes, como momentos de tensão. A exceção foi a música tema de Leandro (Cauã Reymond) e Antônia (Isis Valverde), que continha trechos de voz. A utilização de tal música, além de enfatizar o clima de romance entre os dois, destacava o relacionamento dos jovens, que era diferente dos relacionamentos que Leandro (Cauã Reymond) tinha com as outras mulheres.

A fotografia, por sua vez, seguiu um estilo naturalista, comum às novelas da emissora. Entretanto, em algumas cenas noturnas na parte rural do sertão, a iluminação utilizada era mais fraca, tornando a imagem mais escura. Desse modo, tais sequências  remontavam a iluminação do sertão.

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Apesar de seguir uma estrutura não-linear, a edição não confunde o telespectador, pois apenas no primeiro capítulo há a inversão da cronologia. Isto é, no início do primeiro capítulo há uma cena de perseguição e, depois, aparece a inserção “Quatro meses antes”. A partir de então, a minissérie segue a ordem cronológica até o fim.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, há menções a lugares como Itália e São Paulo, além do poeta pernambucano Joaquim Cardoso ser assunto de uma conversa entre Leandro (Cauã Reymond) e Isabel (Patrícia Pillar). Ademais, a música É o amor, da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, é cantada por Fortunato (Jesuíta Barbosa). Tais conexões com o mundo exterior fazem com que o telespectador se relacione mais estreitamente com a trama.

As setas chamativas, por sua vez, foram observadas em alguns momentos, de modo a não deixar o telespectador confuso. Além da inserção “Quatro meses antes”, utilizada no primeiro capítulo para deixar clara a cronologia da minissérie, alguns diálogos facilitam a interpretação do telespectador. Como exemplo tem-se o diálogo entre João (Irandhir Santos) e Bigode de Arame (César Ferrario) no sétimo capítulo. Bigode diz a João: “Bem que tu disse, viu? Que teu patrão é uma potência”. João responde: “Isso tudo ele já tinha resolvido lá trás, quando colocou Oscar dentro do avião como se fosse Leandro”. João continua: “Aí quando o corpo apareceu ele pensou: bom, se era Leandro que tava dentro do avião, quem é que tava no carro todo queimado?”. Bigode complementa: “Oscar!”. Tal diálogo não tem função narrativa e apenas deixa explícito ao telespectador o que aconteceu, facilitando sua interpretação, sendo que o ocorrido já havia sido mostrado em outras cenas.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, Amores Roubados apresentou clímax e reviravolta, mas, em momento algum, o telespectador é levado a reconsiderar tudo o que viu até então. O estilo narrativo da minissérie também não se altera ao longo dos episódios.

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Por fim, no que se refere aos recursos de storytelling, foi observada em alguns momentos a utilização de sequências fantasiosas. No segundo episódio da produção, Isabel (Patrícia Pillar) está deitada em sua cama quando Leandro (Cauã Reymond) chega e começa a tocá-la. A câmera se desvia dos dois e, quando retorna, vemos apenas Isabel na cama. Outro exemplo acontece no quinto episódio quando Jaime (Murilo Benício) atira em Isabel (Patrícia Pillar), que está adormecida. A câmera passa de Isabel a Jaime e, ao retornar, vemos que não houve nenhum tiro. Apesar da utilização de sequências fantasiosas, o espectador não se confunde quanto à veracidade de tais sequências, ficando claro que, na verdade, não são reais.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Nós: um documentário sobre eles, eu e vocês

20632409_10210023079237858_1132771128_nUm dos grande diferenciais do documentário é a palavra. Trata-se de um cinema, segundo Jean-Louis Comolli, que investe na potência dos afetos e na duração da fala, um cinema que dá espaço para aquilo que a ficção ignora. É explorando toda a riqueza de depoimentos, histórias e sentimentos de pessoas que estiveram em situação de rua que Juliana Amoreira Terra constrói o documentário “Nós”.

O filme, de 2011, foi gravado no Arsenal da Esperança, um abrigo de homens que acolhe, diariamente, 1.150 indivíduos em situação de rua. Seis deles são chamados a compartilhar suas histórias de vida, os motivos que os levaram a sair de casa, as experiências durante o período de rualização e suas expectativas para os próximos anos.

Logo que o filme começa, com cenas de pessoas em situação de rua, a voz de um dois entrevistados assumem o pano de fundo das imagens: “o simples cotidiano da rua já é terrível, né…” “É uma situação triste, vergonhosa e dolorosa…”. Quem discursa por último é um ex-músico que chegou a gravar 3 CDs e viajou pelo mundo em turnê. Durante algum tempo, ele fala em inglês no depoimento, relata que aprendeu a língua sozinho, mostra recortes de jornal com reportagens antigas sobre a sua carreira musical e toca violão.

Em seguida, outros sujeitos assumem a voz, dentre eles um ex-funcionário público, um ex-empresário de sucesso e um ex-enfermeiro. Os motivos que os levaram para as ruas divergem: desemprego, perda de um ente familiar e descontrole emocional, divórcio e consumo de drogas. Nos depoimentos, fala-se sobre o  sentimento de abandono, o sofrimento diante da fome e do frio, e o arrependimento pelo envolvimento com o crime.

O ex-funcionário público diz que a vida nas ruas o ensinou que “as pessoas hoje têm um valor simbólico”, remetendo ao fato de ter sido abandonado por amigos e pessoas próximas quando perdeu tudo. Para ele, há um padrão social que exige que todos sejam vencedores na vida e isso nem sempre acontece. O ex-enfermeiro, que foi para as ruas depois de se revoltar com a morte do pai e se envolver com drogas, conta a sua experiência dolorosa na cadeia e a sensação de vazio quando alcançou a liberdade: “o que fazer?”. Outro entrevistado, que começou a consumir drogas ainda jovem, diz que perdeu muita coisa em sua vida. Um deles, preso duas vezes, relata que “não deseja o que passou para ser humano nenhum”.

Na primeira parte do filme, predominam as reflexões sobre o que experimentaram quando estavam nas ruas, com um forte apelo para o lado perverso da rualização. Em seguida, há um corte no documentário com cenas do albergue à noite e o despertar. Nos relatos seguintes, são destacados os sonhos de recomeçar e ter um novo lar, terminando com a frase de um dos entrevistados: “hoje eu sou um cidadão” e o convite entusiasmado de um dos moradores do albergue convocando os colegas: “vamos trabalhar!”.

No fundo da imagem de homens caminhando até a saída do abrigo, é inserida a canção de autoria  do personagem músico, “Brasil da Floresta”, que exalta as riquezas naturais e humanas do país. O filme, então, finaliza com o close no sujeito, segurando o violão dizendo “Esse é o nosso Brasil”.

Além das aparências

Na obra de Juliana, observa-se que, diferentemente de documentários apontados por Ramos (2008) que exploram a criminalidade e o miserabilismo, o foco é a figura humana. Cada depoimento desconstrói uma série de estigmas e estereótipos acerca da população em situação de rua. O que se vê são personagens complexos, com conhecimento e bagagem cultural. Aqueles que discursam poderiam ser qualquer um dos espectadores.

O “Nós” de Juliana envolve eles, eu e vocês. Somos todos humanos. Acertamos, erramos, vencemos e perdemos. Nada deveria nos tornar “invisíveis”, como é o que acontece com tantos que estão hoje nas ruas. E ao “dar a voz” de maneira delicada, sem explorar imagens da miséria e do horror que aquelas vidas experienciaram, a cineasta abre uma perspectiva para a superação e o reforço na humanidade que reside nos personagens e em nós, possibilitando-nos uma rápida identificação.

Nós é um documentário que busca, desde o seu título, envolver o espectador. Os sujeitos da fala são despidos dos estigmas que carregam para revelar quem são e para nos inquietar quando ignoramos muitos outros que estiveram ou estão nas ruas. Um filme humano para humanos. Sobre a vida e suas intempéries. Sobre aprender a ver além das aparências e ter empatia. Um convite à reflexão e a um novo olhar.

Assista ao filme aqui: http://curtadoc.tv/curta/comportamento/nos/

Por Tatiana Vieira

Castro Brothers

12596153_837754459670330_1486029547_nCastro Brothers é um canal do YouTube criado em 24 de fevereiro de 2006 por Marcos e Matheus Castro, dois irmãos que gostam de música, games e comédia. Com uma duração média de cinco minutos cada vídeo, o canal é geralmente protagonizado por Marcos Castro e um ou mais convidados, que se propõem a fazer algum tipo de conteúdo que gere o riso no espectador, como uma paródia, um jogo, uma canção, uma mix de cantadas ruins ou comentários sobre games.

Além da plataforma no YouTube, Castro Brothers mantém ainda outras formas de interação entre o canal e o visitante, como Twitter, Facebook, Instagram e iTunes. Na aba discussão, o canal não responde a comentários do público, mas, em alguns vídeos, vemos esse retorno acontecer esporadicamente. Na aba playlists, o canal se mostra bem diverso, pois apresenta as subdivisões Últimos vídeos, Ukulele News, Cantadas Ruins, Piadas Nerds, Um joystick – Um violão, A lenda do heróis, Traduzindo, Duelo de trocadilhos, Piadas ruins, Outros musicais, Joystick Tv, Game test, Animações em Pixel Art, Favoritos, Vídeos (quase) diários em julho, Bike ela aprende, Cantadas Nerds, Stand-up, Vlog, A saga de Dilma, Dingos e Vídeos marcados como “Gostei”.

Também observamos essa diversidade de conteúdos, pois quatro deles são de jogo de improviso com os artistas convidados (do canal Barbixas); três de notícias em forma de música (quadro Ukele News); três de diálogo entre duas pessoas (quadro Cantadas Ruins e projeto Idiotices); quatro de monólogos (com Marcos Castro falando sobre algo que o incomoda ou sobre 10 coisas que aprendeu com algum jogo); um de vídeo-propaganda em forma de música (Barbixas toda quarta em setembro); um de “entrevista” (Entrevistando um analista de sistemas); e um de música (Famosos cantam Chaves com Ed Gama).

No plano da expressão, são destaques o cenário, que permanece sempre o mesmo em todas as 17 emissões analisadas, com um fundo laranja com quadrados pretos; a linguagem informal, composta por frases como “quero que você se foda”, “quero que você enfia ela no cu”, “vai tomar no cu”,  “vai se fuder, porra”; e a edição, que é carregada de efeitos especiais, como no mostrado no dia 7, no vídeo que Marcos Castro fala dos atuais emojis das redes sociais, que são imagens que transmitem a ideia de palavras ou frases e que a todo o momento surgem na tela para exemplificar o que Marcos está falando.

Quanto às vinhetas, é destaque a de abertura do quadro Ukulele News, que traz um fundo amarelo com um dinossauro cinza vestido com saia de havaiana e o nome “Ukulele News” do lado, ao som da voz de um homem que fala: “Ukulele News, porque tudo fica melhor com Ukulele. Até as tragédias”. A vinheta final, que aparece em quase todas as emissões, é básica, com um fundo laranja com o logo do canal no meio e quadrados pretos alinhados nas partes de cima e de baixo da tela.

No plano do conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos obteve avaliações bastante variadas. Dos 17 vídeos, nove são pontuados porque reforçam estereótipos: dois usam muito; um, menos, e seis, pouco. Uma das emissões que utilizou muito desse artifício é a Queima a roda gigante do Rock in Rio – Ukulele News #8, exibida no dia 24, que traz Marcos Castro e Rafael Studart noticiando assuntos da semana em forma de música, ao som de um ukulele (instrumento musical de cordas).

MARCOS – O Rock in Rio levou pro Rio uma grande multidão. E agora eu vou explicar pra vocês como que funciona essa equação: Rio de Janeiro, mais multidão, é igual a arrastão. E pra continuar, o Dinho Ouro Preto vai cantar essa canção.

ED: Em Copa vão te roubar, levar teu celular. Não basta esfaquear, eles querem roubar, furtar, matar. Pedras de crack fumam.

Nesse trecho da canção, uma paródia da música Natasha, da banda Capital Inicial, vemos que o canal reforça o estereótipo de que o Rio de Janeiro é violento ao afirmar que visitantes na cidade sofrerão roubos, furtos, e até agressões físicas que resultarão em morte. Nessa mesma emissão, pode-se identificar outro indicador do plano do conteúdo, a oportunidade, que se faz presente quando na melodia os personagens utilizam paródias e rimas para construir o humor ao falar de assuntos atuais da agenda midiática, que aconteceram ou que estavam em evidência em setembro de 2015, como a alta do dólar, o polêmico pronunciamento da presidenta Dilma (em que ela saudou a mandioca), o Rock in Rio e a violência urbana do Rio de Janeiro. Nesse indicador, cinco emissões são consideradas muito boas; três boas; quatro razoáveis; três fracas; e em duas não é identificado.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados também não é muito pontuado: de todos os 17 vídeos analisados, três são consideráveis; seis razoáveis; quatro fracos; e em cinco não é identificado. Um dos exemplos avaliado como considerável para esse indicador é o vídeo do dia 28 de setembro, que traz Marcos Castro e Ed Gama cantando uma música que faz referência ao humorístico Chaves e a diversos artistas famosos, como Bruno Boncini, Shakira, Belo, Cazuza, Caetano Veloso, Silvio Luiz, Lucas Lucco, Xororó, Silvio Santos e Faustão. Com a caracterização de Ed Gama, que parodia essas personalidades na voz, no jeito e no contexto de suas vidas, observa-se claramente que o que o vídeo pretende é fazer comédia, sem qualquer preocupação com uma possível reflexão do público após o riso, que é gerado a partir da letra da música e da imitação dos artistas.

Apesar de esse ser um exemplo em que muitos sujeitos são mencionados, em quase nenhum dos 17 vídeos analisados essa diversidade é realmente diversa, com diferentes tipos de pessoas. A quase inexistente aparição ou menção a pessoas de outras cores, por exemplo, mostra que o programa não preza pela representação plural de seus personagens, e sim pela representação numerosa deles. O único em que outras etnias são citadas é no vídeo do dia 7 de setembro, intitulada A moda agora é emoji, em que Marcos Castro fala dos inúmeros emojis (imagens que transmitem a ideia de uma palavra ou uma frase completa) possibilitados pela internet hoje em dia.

No vídeo, Marcos está sozinho falando direto com a câmera, quando aos 3 minutos e 7 segundos ele dispara: “E olha que eles [os inventores dos emojis] pensaram bastante na questão da segregação, porque agora você tem várias etnias: tem o negro, tem o marrom, tem o branco, tem o muito branco, e tem o amarelo, que é pra você que é Simpson”.

O último indicador de qualidade do plano do conteúdo, a ampliação do horizonte do público, é quase que inexistente no canal Castro Brothers. Os três Ukulele News que aparecem na amostra analisada são muito bem avaliados, enquanto que apenas um vídeo dos outros 14 que restam recebe alguma consideração e, mesmo assim, fraca. Na emissão exibida no dia 3 de setembro, intitulada Sanduíche de Climão com Lula Inflável – Ukulele News #6, aos dois minutos Rafael Studart fala de um boneco inflável que apareceu em várias cidades do país e que representa o ex-presidente Lula.

STUDART: Ele é igual ao Lula, tem semelhanças demais. Eu só fico na dúvida qual dos dois viaja mais.

MARCOS: Esse é o Brasil, esse é o Brasil: pais que só pensa em jogar bola. E a verdade é que o boneco do Lua só não está mais inflado que o dólar.

STUDART: Tava no carro com a minha mina. Eu reclamando do dólar, e ela, da gasolina. Daí falei pra ela: calma! Não se mate. Espero que seja passageiro que nem o tomate. O pobre, tô pobre, a vida não tá dando mole. Esse dólar que só sobe, sobe, sobe, sobe… eu não quero saber o dia de amanhã. Quem será que vai segurar o tio Sam? Segura o tio Sam, amarra o tio Sam. Segura o Sam, amarra o Sam, segura o Sam, Sam, Sam, Sam, Sam…

Nesse vídeo, Marcos Castro e Rafael Studart criam uma canção falando de restaurantes fast foods, viagens excessivas do ex-presidente Lula, inflação, plano de saúde, tratado de paz, e alta do preço da gasolina, do tomate e do dólar. Entretanto, é o trecho acima que mais possibilita a reflexão e ampliação do horizonte do público quanto ao estado econômico do país, que se encontra em crise neste momento. Na fala de Marcos, em que ele compara o boneco inflável do Lula com o preço do dólar, que está muito caro, percebe-se uma associação que pode fazer o espectador culpabilizar a crise do país ao Partido dos Trabalhadores (PT), partido do ex-presidente. Na segunda fala de Stuart, a referência à alta do dólar e da gasolina, e à alta do tomate, que em determinado momento de 2015 estava com preços muito grandes, antecedem a referência à situação a que essas altos preços levaram os brasileiros, que agora está com menos dinheiro devido aos elevados gastos (“tô pobre, a vida não tá dando mole”). Na sequência, Marcos e Studart terminam a canção falando do tio Sam, figura americana utilizada como símbolo da expansão dos Estados Unidos e do nacionalismo, que na música é usada para retomar a indagação que Studart fez sobre quem pararia a alta do dólar, a moeda americana. Veja, abaixo, o gráfico do plano do conteúdo e as notas que cada vídeo recebeu:

castro2Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade originalidade/criatividade é bem pontuado: do total de emissões, sete são muito bem avaliadas, outras sete consideradas boas, e três razoáveis. No vídeo exibido no dia 14 de setembro de 2015, por exemplo, intitulado Entrevistando um Analista de Sistemas, o objetivo é brincar com palavras e trocadilhos que remetem à profissão Analista de Sistemas. Ao caracterizar esse profissional e fazer a ele algumas perguntas, todas as respostas obtidas têm algo que lembra o seu ambiente de trabalho ou os termos técnicos da sua profissão. Password, processador, servidor, programa, CD, minimizar, mouse, e-mail e desktop são algumas das palavras ditas, que exigem muita criatividade, originalidade e conhecimento sobre o assunto para serem inseridas de alguma forma no diálogo entre quem pergunta e quem responde, pois nem mesmo o espectador, que está recebendo todos os trocadilhos prontos, consegue entender todas as referências implícitas nas respostas do entrevistado.

Quanto à solicitação da participação ativa do público, esse indicador é muito bem pontuado. Das 17 emissões analisadas, uma é razoável, quinze boas, e uma muito boa. Tais avaliações positivas se devem ao fato de que em todas as emissões, em umas mais e em outras menos, os personagens interagem a todo o momento com o público, olhando pra câmera e falando “você”. Além disso, na maioria dos vídeos, depois da vinheta final, aparecem na tela espaços delimitados que se clicados dão acesso direto a outras publicações do canal. Também no tempo extra, os personagens conversam diretamente com os espectadores e pedem que deem like no vídeo e que se inscrevam no canal, como no final do Cantadas Ruins 16, exibido no dia 4 de setembro, em que Marcos e a convidada Luciana D’Aulizio dialogam entre si e com o espectador:

MARCOS: Muito obrigado a você que assistiu a mais um Cantadas Ruins, um show repleto de tapas, mas deixa aí um vídeo repleto de likes se você gostou. E muita gente pergunta, Luciana, quando é que vai ter cantadas ruins de novo.

LUCIANA: Quando, Marcos?

MARCOS: Agora eu posso deixar pra vocês aí uma notícia que é muito boa que é o quê: Cantadas Ruins quinzenalmente, às sextas-feiras. Sexta-feira por quê? Porque é pra você já ir pra balada pra você saber que você vai se dar mal.

O vídeo mais bem avaliado nesse indicador, o exibido no dia 30, é o único assim considerado porque traz Marcos e os integrantes do canal do YouTube Barbixas (Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento e Elidio Sanna) dialogando com o espectador logo no início do vídeo e mencionando supostos conteúdos e nomes de pessoas que comentariam naquele vídeo depois que o visse.

MARCOS: Estamos lendo os comentários aqui de vocês que viram vários vídeos da gente com os barbixas…

ELÍDIO: Esse aqui é o último…

MARCOS: Não, pode ter mais, por ter mais… Bom, depende muito do que vocês vão fazer aqui hoje.

DANIEL: Depende muito dos seus likes, dos seus views.

ELÍDIO: Então, gente, dê like, dê view.

MARCOS: Tem uns comentários ali. A Andressa, que tá falando… é like ou lixo?

DANIEL: Eu acho que é uma letra nova, que significa tanto “k” quanto “x” [...].

ANDERSON: Olha só, o João tá digitando nesse momento agora o comentário: onde eu consigo recuperar os três minutos que eu perdi da minha vida assistindo esse vídeo.

A maioria das emissões do canal Castro Brothers é muito clara na sua proposta. No indicador de qualidade clareza da proposta, 16 vídeos têm avaliação ótima, enquanto apenas um tem avaliação boa e, mesmo assim, porque não deixa explícito o seu objetivo logo no início do vídeo, mas sim no tempo extra. A emissão, exibida no dia 10 de setembro, traz Marcos Castro e Maurício Meirelles falando sobre assuntos aleatórios e aparentemente sem conexão, e que só após a vinheta final, com a fala de Maurício, é que entendemos o porquê:

Deixar claro aqui, antes de terminar esse vídeo: o projeto “Idiotices”, é falar algo sem roteiro, sem algo estabelecido. A gente vai falando, vai puxando, e quando vê a gente tá falando uma merda absurda. Você agora, Marcelinho Moreira, que faz Malhação, que é um puta babaca, deve tá comentando assim: “nossa, não achei graça nenhuma”. Por que a gente não tem que ter graça! A gente tá falando o que a gente pensa.

(Castro Brothers – episódio Explosões – Idiotices 10  10/09/2015)

No último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas, o canal não apresenta um padrão, pois é bem diverso: cinco emissões têm avaliação muito boa; sete boa; três razoável; e duas fraca. Três formas utilizadas pelo canal se destacam para fazer referência aos diferentes tipos de plataformas, programas e personalidades: crossovers, parcerias e menções. Comumente visto no YouTube, os crossovers (situações em que personagens de diferentes canais interagem em um mesmo ambiente) são presentes no Castro Brothers quando os meninos do canal Barbixas participam ao lado de Marcos Castro dos vídeos publicados nos dias 2, 9, 16, 23 e 30 de setembro, ainda que todos esses cinco vídeos tenham sido gravados no mesmo dia (fato evidenciado pela roupa dos quatro meninos, repetidas em todas as emissões).

A segunda forma utilizada pelo canal para dialogar com outras plataformas é através de parcerias, que estabelece com a página Jesus Manero nos vídeos publicados nos dias 11 e 25 de setembro: 10 lições que aprendi com Metal Gear e 10 lições que aprendi com Zelda, respectivamente. E a terceira forma de interação com/entre outras plataformas, programas e personalidades se dá pela menção direta desses conteúdos, como no episódio do dia 17, intitulado Final do Master Chef faz tremer – Ukulele News #7 ft. Jota Quest, em que o programa Master Chefe, a banda Jota Quest, a atriz e modelo Beth Lago, e o cantor e ator Dado Dolabella tiveram os nomes mencionados. Abaixo, o gráfico da mensagem audiovisual com todas as notas das emissões em cada indicador:

castro1A análise sob os modos de representação e experimentação dos personagens na construção dos vídeos e o uso dos recursos técnico-expressivos, que contribuem para a construção de uma narrativa que pode promover a reflexão e o debate de ideias, provou que Castro Brothers explora alguns elementos, mas pouco se preocupa com outros. Como mostrado, o canal não gosta de “humor, música e games”, como consta na sua descrição, mas “comédia, música e games”, pois preza, majoritariamente, pelo riso do espectador (o que faz muito bem, já que é claro na sua proposta e criativo no seu conteúdo), e os únicos momentos em que o programa buscou a reflexão do seu público foi nos quadros Ukulele News, que só aparecem em três das 17 emissões analisadas.

Por Luma Perobeli

Felizes para sempre?

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  • Escrita por: Euclydes Marinho
  • Direção: Luciano Moura, Rodrigo Meirelles e Paulo Morelli
  • Direção-geral: Fernando Meirelles
  • Período de exibição: 26/01/2015 – 06/02/2015
  • Horário: 23h
  • N° de capítulos: 10

A minissérie Felizes para sempre?, exibida pela Rede Globo entre os dias 26 de janeiro e 6 de fevereiro de 2015, é uma releitura de Quem ama não mata, exibida em 1982, também escrita por Euclydes Marinho. Felizes para sempre? retrata o drama dos relacionamentos amorosos a partir da perspectiva de cinco casais de uma mesma família. Os arcos narrativos exploram as nuances de distintas relações amorosas, envolvendo o desejo, a traição e o ódio.  A história tem como pano de fundo a cidade de Brasília e aborda a corrupção e a troca de favores entre os políticos da capital federal.

A trama tem como ponto de partida a comemoração de 46 anos de casado de Norma (Selma Egrei) e Dionísio (Perfeito Fortuna). Para celebrar a data, todos os membros da família Drummond se reúnem para relembrar momentos importantes da trajetória do casal.

Porém, o que parece ser uma família perfeita se desmorona com a chegada de da garota de programa Danny Bond (Paolla Oliveira). A partir daí, máscaras e mentiras começam a vir à tona e a possibilidade de um crime é iminente.

A minissérie é permeada por um clima de tensão, que se intensifica de acordo com os acontecimentos e relações amorosas que se tornam cada vez mais complicadas e perigosas. Desta forma, a trama cria um ambiente em que o telespectador espera que aconteça um crime a qualquer momento só restando à dúvida de qual personagem iria cometer o ato, já que todos os envolvidos teriam motivos que o justificariam.

O elenco conta com nomes como Maria Fernanda Cândido (Marília), Enrique Díaz (Cláudio), João Baldasserini (Joel), Caroline Abras (Susana), João Miguel (Hugo), Adriana Esteves (Tânia), Cássia Kis Magro (Olga), Perfeito Fortuna (Dionísio), Selma Egrei (Norma) e Paolla Oliveira (Danny Bond- Denise), entre outros.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Em entrevista ao Correio Braziliense , o responsável pela escolhados cenários Fernando Toledo disse que tentou apresentar aos telespectadores uma cidade diferente da apresentada nos telejornais, exaltando a beleza natural e sua arquitetura.

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Assim, a minissérie destaca emblemáticos locais de Brasília a partir dos passos de personagens, como Tânia (Adriana Esteves) praticando jogging pelas avenidas da capital, Cláudio (Enrique Díaz) fazendo remo pelo Lago Paranoá e também chegando na Esplanada dos Ministérios. As cenas eram filmadas sempre em planos abertos, zoom in e zoom out, imagens aéreas, agregando ressaltando a magnitude dos lugares.

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Outro ponto importante na ambientação Felizes para sempre? foi à manifestação popular apresentada nos primeiros capítulos da minissérie. A cena se passa no Eixo Monumental, e foi filmada com cerca de 200 figurantes, além dos atores Matheus Fagundes e Silvia Lourenço, que interpretam, respectivamente, Junior e Mayra. Já as cenas gravadas no estúdio se passaram, em sua maioria, na casa de Cláudio (Enrique Díaz) e Marília (Maria Fernanda Cândido) e no consultório de Tânia (Adriana Esteves).As sequências foram rodadas em São Paulo em uma mansão de 4.000 metros quadrados de área construída no Morumbi.

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No indicador da caracterização, pelo fato dos personagens pertencerem a uma classe alta de Brasília os figurinos eram compostos de roupas de grife e cortes de alfaiataria. Cláudio (Enrique Díaz), como um homem de negócios, preocupado com a aparência usa ternos slim, relógios e óculos escuros. Já Marília (Maria Fernanda Cândido), opta pela discrição, com um figurino minimalista com roupas de tons claros e tecidos leves, ressaltando sua elegância e sofisticação.

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Um ponto importante no indicadorda caracterização é o figurino de Danny Bond (Paolla Oliveira). A garota de programa vestia um figurino diferente para cada cliente, as roupas e os assessórios dos personagens criados por Bond (Paolla Oliveira) traduziam seus desejos e expectativas. As cenas em que atriz usava lingeries sensuais chamaram a atenção do público e contribuíram para a popularização da minissérie na época de sua exibição.

montagem

A trilha sonora era composta, em sua maioria, por músicas que estabeleciam uma correlação com a cena que estava no ar. Como, por exemplo, na sequência em que Danny Bond (Paolla Oliveira) chega pela primeira vez à casa de Cláudio e Marília a trilha é a canção May I come in?,de BlossomDearie, cuja letra dialoga com o momento: Por falar do diabo/ Bem, aqui estou eu/ Posso entrar?/ Feelin ‘como uma lâmpada perdido e solitário/ Posso entrar?

Além disso, a trilha sonora é especialmente enfatizada em um momento presente em alguns episódios em que é feito um panorama geral de cada personagem, enquanto a música toca ao fundo traçando um diálogo com o drama pessoal de cada um na trama. A música toca inteiramente neste momento, e muitas vezes também possuía relação com a narrativa do episódio, como a canção Ex mai love, de Gaby Amarantos, que faz paralelo aos vários tipos de desilusões amorosas sofridas pelos personagens ao longo do capítulo.

Apesar de em alguns momentos a fotografia dialogar com as cores frias presentes na ambientação da minissérie, o indicador não estabelece nenhum tipo de influência ou correlação com o desdobramento dos arcos narrativos.

Apesar de apresentar flashbacks, as analepses são utilizadas em momentos pontuais e não alteram a temporalidade da minissérie.Como por exemplo na cena em que Dionísio (Perfeito Fortuna) lembra de seu amor de juventude Olga (Cássia Kis Magro). Desta forma, a edição se caracteriza como linear, pois não possui mais de uma linha cronológica além da do tempo presente.

No Plano de Conteúdo iremos abordar os indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling

No que se refere à intertextualidade podemos perceber o indicador no segundo capítulo da minissérie, quando a garota de programa Denise (Paolla Oliveira) se apresenta para o casal Marília (Maria Fernanda Cândido) e Cláudio (Enrique Díaz) com o pseudônimo de Danny Bond. Porém, apesar de apresentar uma referência externo ao universo ficcional da trama, rapidamente a personagem esclarece que se trata de uma inspiração do personagem James Bond dos filmes da saga 007. Dessa forma, a própria atração explica para o telespectador a correlação entre o nome da garota de programa e a franquia de longas metragens.

No indicador dassetas chamativas, podemos destacar o uso do cartaz narrativo na cena em que a cirurgiã plástica, Tânia (Adriana Esteves), está realizando um procedimento cirúrgico e suas mãos começam a tremer, sua expressão se torna distraída como se estivesse com alguma preocupação. Nesse momento, há a presença do áudio, em off, do acidente em que ela negou socorro à vítima. Dessa forma, o recurso é disposto convenientemente para mostrar ao telespectador o que a personagem estava pensando naquele momento. Isto, é o recurso do áudio, explica didaticamente os sentimentos de Tânia (Adriana Esteves), diminuindo o esforço analítico do público na compreensão da sequência.

O recurso também ganha destaca na cena em que Marília (Maria Fernanda Cândido) faz revelações sobre os esquemas de corrupção de Cláudio (Enrique Díaz). Neste momento, além de exibir a capa de uma revista com a manchete sobre a delação, o desdobramento narrativo é enfaticamente reforçado no diálogo de Cláudio (Enrique Díaz) com Joel (João Baldasserini).

Apesar de apresentarem reviravoltas e clímax como, por exemplo, quando Hugo (João Miguel) descobre que seu irmão Cláudio (Enrique Díaz) é o pai biológico de Júnior (Matheus Fagundes) e cena em que Marília (Maria Fernanda Cândido) descobre que Denise (Paolla Oliveira) mentiu sobre várias questões. A minissérie não apresenta efeitos especiais narrativos, nesse sentido reviravoltas não são significativas a ponto de fazer com que o espectador reconsidere toda a narrativa até então.

Por fim, no indicador recurso de storytelling podemos observar o uso de analepses. Por exemplo, quando Marília (Maria Fernanda Cândido) lembra da morte de seu filho e também na cena em que Dionísio (Perfeito Fortuna) recorda do seu amor de juventude. Todos os flahsbacks se caracterizavam pela imagem com a predominância da cor branca e o uso de muita luz de forma a indicar ao espectador que se trata de uma cena fora do tempo presente.

Por Mariana Meyer

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Autismos Entreditos: O que dizem os calados?

austismosDe acordo com o Manual de Saúde Mental – DSM-5, o Autismo e outros distúrbios similares – como o transtorno autista, o transtorno desintegrativo da infância, o transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado e a Síndrome de Asperger – são comumente agrupados em um único diagnóstico conhecido como Transtornos do Espectro Autista.

Tais transtornos indicam condições gerais para um coletivo de desordens do desenvolvimento cerebral antes do nascimento ou na primeira fase de vida da criança. Os distúrbios refletem, na maioria das vezes, na dificuldade de comunicação social do portador e em comportamentos repetitivos, além de outras características específicas da ordem de cada transtorno, intensidade e espectro do autismo.

No ano de 2015, com o intuito de esclarecer e discutir a questão que envolve os limiares do tratamento, o preconceito no entorno do paciente autista e nas possíveis formas de cuidado e afeto, a diretora Pâmela Perez desenvolveu, junto do CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) o curta metragem “Autismos Entreditos”.

O filme aborda, em aproximadamente 25 minutos, a realidade social dos portadores de diferentes espectros do autismo e teve como objetivo principal promover a reflexão e discussão sobre a vida e o cotidiano de pessoas que convivem com o Autismo na fase adulta, de modo a perceber como são seus desafios, suas rotinas e como o tratamento e o cuidado é desenvolvido no Caps.

Através de entrevistas com mães de pacientes, funcionários do hospital e dos próprios usuários do sistema, a diretora propõe um documentário, que se aproxima de uma reportagem audiovisual. Um dos objetivos centrais da obra parece ser o de esclarecer a população em geral que, embora as dificuldades de sociabilização e de interação dos portadores dos Transtornos do Espectro Autista sejam grandes, o tratamento que envolve afeto, diversão e humanização dos processos médicos são saídas efetivas para o encargo terapêutico.

O filme parece se desenvolver a partir de um estudo de caso específico: as famílias, os funcionários e os pacientes do CAPs foram convidados para um passeio no Piscinão de Ramos, piscina artificial de água salgada no Rio de Janeiro, e os depoimentos foram colhidos durante e depois da viagem. A oficina criada, inédita no CAPs Fernando Diniz, para tratamento de autistas adultos.

Ambos os pacientes e familiares retificaram a necessidade do tratamento humanizado e afetivo aos portadores de transtornos mentais – características observáveis após as lutas antimanicomiais, que marcaram o dever da aplicação dos Direitos Humanos no tratamento e no cuidado. Como alguns pais observaram, os tratamentos antigos, que prendiam os pacientes de quadros graves, os sinais aparentes eram de revolta e nunca de melhora.

Deste modo, as falas potentes e emocionadas dos envolvidos no processo fílmico alertam para os olhares mais sensíveis em relação ao autismo. Em ambientes onde o preconceito pode ser angustiante, a liberdade é ofertada como método de tratamento. Assim, os Autismos Entreditos procuram no carinho a maneira de clamar por ajuda.

Assista a íntegra do documentário: https://www.youtube.com/watch?v=oS4pC-cfjGM

Por Iago Rezende

O Tempo e o Vento

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  • Roteiro: Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas
  • Colaboração: Marcelo Pires
  • Direção: Jayme Monjardim
  • Período de exibição: 01/01/2014 – 03/01/2014
  • Nº de episódios: 3
  • Horário: 22h30

Exibida pela Rede Globo no início de 2014, a minissérie O Tempo e o Vento é uma versão televisiva do filme homônimo dirigido por Jayme Monjardim, que também assina a direção do folhetim. A obra é inspirada no livro O Tempo e o Vento, do escritor brasileiro Érico Veríssimo, e conta a história de várias gerações da família Terra-Cambará, bem como sua rivalidade com os Amaral. Como pano de fundo, tem-se a história da formação do Rio Grande do Sul e as diversas disputas que permearam tal parte do país.

A trama é narrada por Bibiana (Fernanda Montenegro/Marjorie Estiano/Janaína Kremer), que, já envelhecida, relembra a história da família com o falecido Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). O elenco ainda conta com Cléo Pires (Ana Terra), José de Abreu (Ricardo Amaral), Leonardo Medeiros (Bento Amaral), Igor Rickli (Bolívar), Mayana Moura (Luzia Silva), Matheus Costa (jovem Pedro), Martín Rodriguez (Pedro adulto), entre outros.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e ediçãoEm relação ao indicador ambientação, as filmagens iniciais da minissérie ocorreram em Pelotas, em um casarão do século XIX. Já a cidade cenográfica de Santa Fé, onde se passa a maior parte da trama, foi construída em Bagé, também no Rio Grande do Sul. Como a trama tem como pano de fundo a formação do Rio Grande do Sul, onde se passa a história de Veríssimo, os locais das filmagens tornam as paisagens da série totalmente condizentes com o livro que a inspira.

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Do mesmo modo, o figurino acompanha o período histórico de cada geração da família Terra-Cambará, assim como a origem de cada personagem. Tem-se como exemplo Ana Terra (Cléo Pires), que, morando no campo, apresentava roupas simples e neutras. Já Luzia (Mayana Moura), pertencente a outro período histórico e classe social, usava roupas mais sofisticadas e bem elaboradas. As roupas escuras da personagem, somadas à maquiagem mais pesada, também endossam a personalidade da moça, considerada agressiva, louca, quase mórbida. Peças gaúchas típicas, como ponchos, também se mostraram presentes na minissérie, ajudando na ambientação. Além disso, os personagens possuíam sotaque de acordo com sua origem e utilizavam expressões características da época, como “vosmicê”, conferindo verossimilhança à história.

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A trilha sonora não teve grande destaque, uma vez que era utilizada, principalmente, para reforçar o caráter emocional de algumas cenas, como episódios de tensão ou romance. As músicas eram predominantemente instrumentais. Entretanto, nos momentos em que Pedro(Martín Rodriguez) tocava flauta, a trilha sonora ocupava um espaço narrativo relevante, uma vez que o instrumento remontava as origens do personagem e foi um ponto memorável na relação entre Pedro (Martín Rodriguez) e Ana Terra (Cléo Pires).

 A fotografia, no entanto, se destaca por colaborar na ambientação da minissérie. Nas cenas filmadas nos casarões, há a presença de muitas sombras. Já as cenas filmadas externamente são muito iluminadas. As cenas internas noturnas contam com a presença de muitas velas, características da época. Além disso, em certos momentos, a fotografia reforça sentidos, como na cena em que Pedro (Matheus Costa)está cantando em uma celebração católica. Em tal momento, as crianças que cantam recebem uma iluminação azul, que remete a algo celestial. Dessa forma, a fotografia passa de tons quentes a tons frios dependendo do ambiente e do contexto de cada cena.

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Em relação à edição, a minissérie apresenta uma cronologia não-linear, uma vez que Bibiana (Fernanda Montenegro), já idosa, recorda a história da família, contada em flashbacks. Desse modo, a narrativa transita entre passado e presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. A intertextualidade está presente apenas nas referências a locais como o Rio Grande do Sul e a episódios históricos como a Farroupilha. A referência a tais elementos ajuda o espectador a se situar historicamente e geograficamente dentro da narrativa. Como a minissérie, assim como o livro, aborda a formação do Rio Grande do Sul, as referências ao estado e a conflitos históricos se fazem importantes para a compreensão da trama, além de conferirem verossimilhança à história.

Já as setas chamativas foram observadas em alguns momentos, facilitando a interpretação do telespectador. Tem-se como exemplo o início do primeiro episódio, que traz explicações sobre a situação do país no período histórico em que se passa a trama. Ainda no mesmo episódio, quando Capitão Rodrigo sobe ao quarto da idosa Bibiana(Fernanda Montenegro), ela o indaga sobre como conseguiu entrar no casarão. Ele responde: “A bala que me procurava já me alcançou há mais de 50 anos”, dando índicos de que já está morto. Dessa forma, procura-se dar explicações ao telespectador, embora não fique claro como o encontro entre Bibiana (Fernanda Montenegro) e Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) se faz possível.

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Em relação aos efeitos especiais narrativos, há clímax e reviravoltas nos plotsde cada geração da família Terra-Cambará, os quais desenvolvem a narrativa. Entretanto, em nenhum momento o telespectador reconsidera tudo visto até então ou há mudanças significativas no estilo narrativo.

Por fim, no que se refere aos recursos de storytelling, há a utilização de alterações cronológicas, marcadas por flashbacks que surgem ao longo da narração de Bibiana (Fernanda Montenegro). Dessa forma, a narrativa transita entre passado e presente. Além disso, há a presença de sequências fantasiosas, uma vez que o já falecido Capitão Rodrigo(Thiago Lacerda) vai ao encontro da idosa Bibiana (Fernanda Montenegro), momento a partir do qual começa a minissérie. Os diálogos e interações dos dois não são explicados didaticamente, cabendo ao espectador interpretar a situação de acordo com o contexto. A última cena acompanha a centenária, agora jovem novamente, indo ao encontro do Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) para, juntos, irem embora. Nesse momento, o bisneto do casal os vê e se despede com um aceno. Mais uma vez, cabe ao telespectador interpretar a cena e completar o sentido da narrativa.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Atrás da Pedra: o retrato da luta indígena no Brasil

apedProduzido em 2015 e com duração de pouco mais de 30 minutos, o documentário “Atrás da Pedra – Resistência Tekoa Guarani” retrata uma luta produzida em qualquer tempo, e que já dura mais de seis séculos. Os idealizadores Taís Oliveira, Thiago Carvalho e Guilherme Queiroz abordaram a luta e resistência dos índios da etnia Guarani Mbyá pela demarcação de terras das três aldeias do bairro Jaraguá, zona norte de São Paulo, que faz divisa com Osasco.

Embora as aldeias Tekoa Itakupe, Tekoa Pyau e Tekoa Ytu sejam terras reconhecidas por estudos técnicos antropológicos aprovados pela Fundação Nacional do Índio (Funai), apenas a Tekoa Ytu é regularizada, com 1,7 hectare demarcado. Os outros 532 hectares que compreendem as aldeias já foram autorizados para a demarcação, mas esperam, desde 2015, a homologação do Governo Federal, que não parece estar interessado em defender os direitos das comunidades tradicionais.

De um lado, lideranças indígenas, antropólogos, representantes da Funai e de organizações pró-indigenistas constroem uma narrativa em defesa dos povos originários. De outro, Antônio Tito Costa, advogado, ex-vereador, ex-prefeito e ex-deputado federal (PMDB-SP), reivindica parte dessas terras, alegando pertencer à sua esposa, já falecida, 72 hectares desse terreno, localizados justamente dentro da Tekoa Itakupe, aldeia que em português significa “Atrás da Pedra” e que dá nome ao documentário.

Nós, os Juruás

Para Comolli, a contradição fragiliza a cena e, por isso, aviva o interesse do espectador, que a todo o momento se vê induzido a mudar de posição. “Aquilo que faz vacilar as referências, aquilo que mina as certezas, incluindo aquelas marcadas no instante anterior, só se faz para trazer novamente à tona a crença – imputando-lhe todas as dúvidas.” (COMOLLI, 2008, p. 95)

Como no jogo das cadeiras, movimentar o espectador é o que pretende um filme documental, e o que “Atrás da Pedra – Resistência Tekoa Guarani” conseguiu concretizar. “Trata-se de ao mesmo tempo suspender e reativar este sonho contraditório que liga o espectador ao filme. Acreditar, não acreditar mais, voltar a acreditar. Mais uma vez, a figura maior do vai-e-vem.” (COMOLLI, 2008, p. 94)

pedra2Os argumentos de Tito Costa, somados ao pensamento do “homem branco”, certamente podem parecer contundentes o bastante para ganhar nossa opinião. Entretanto, as falas favoráveis à demarcação novamente nos inquieta, nos faz pesquisar e refletir sobre a atual situação indígena no Brasil, e nos incita a ir além do pensamento comum da sociedade em que vivemos, organizada tal como ela é.

“Tem deslocamentos. Não dá para você ficar no mesmo lugar quando você está sendo pressionado. É como lá em Rondônia e no Mato Grosso, quando foram passando aqueles militares com seus tratores. A hora que eles chegaram na aldeia, não tinha mais ninguém dentro dela. Claro! Eles iam ficar lá esperando ser esmagados? Não!”, explica a antropóloga Lucia Rangel, aos 10 minutos de vídeo.

“Esse vai-e-vem, de sair e voltar, é uma constante na vida dos indígenas. Porque pra eles, essa saída não é um abandono da propriedade. Eles não têm propriedade. A propriedade privada é uma instituição da nossa sociedade”, completou a estudiosa, na tentativa de fazer com que os espectadores entendam que uma sociedade indígena se organiza de modo diferente dos Juruás, os não-índios.

Eles, os ruralistas

O próximo dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas certamente não será comemorado. Ontem (19), o presidente Michel Temer assinou um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que incorpora elementos da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o caso da Terra Indígena (TI) de Raposa-Serra do Sol (RR), de 2009, ameaçando a demarcação de terras indígenas em todo o país.

Entre outros pontos, o parecer proíbe a ampliação de TIs e estabelece que todos os órgãos federais, incluindo a Funai, devem considerar que só têm direito à terra as comunidades indígenas que estavam dentro do território no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Brasileira, ou seja, desconsiderando os deslocamentos culturais e os forçados, resultados de anos de massacres sofridos pelas comunidades indígenas, como explicou a antropóloga Lucia Rangel.

“Nos anos 50, o líder André Samuel se estabeleceu na região do Jaraguá. Na década de 60, Joaquim Martim chegou ao Jaraguá e chefiou a aldeia Tekoa Ytu. Já nos anos 70, a terra ocupada pela família de Joaquim Martim sofreu com a construção da Rodovia dos Bandeirantes, que fragmentou o território e destruiu parte da área”, relatou o documentário nos primeiros segundos de filme.

A assinatura deste parecer, somado à PEC 215 que deu para o Legislativo o poder de demarcação das terras indígenas, representam a clara intenção dessas pessoas em ditar regras de convivência em sociedade para uma sociedade que eles sempre quiseram combater. Eles, no caso, os políticos que buscam atender aos interesses dos ruralistas brasileiros, e que, não por coincidência, são eles próprios, amigos ou familiares.

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“Pra mim, um sonho, é que um dia a gente consiga conviver junto com a diferença. Que a sociedade brasileira entenda que o país realmente só vai ser uma nação, quando a gente conseguir respeitar a diferença de cada um” – David Karai Popygua.

Por Luma Perobeli

Assista ao documentário: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/atras-da-pedra-resistencia-tekoa-guarani/