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Boca de Rua: vozes de uma gente invisível

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Os sujeitos marginalizados da sociedade costumam ter aparições na grande mídia que reforçam aspectos de miserabilismo, violência e, até mesmo, de uma dependência paternalista. Essas formas de apresentação de identidades colocam em xeque as possibilidades de quebra de estigmas e estereótipos, visto que esses grupos estão moldados ou como os “perversos” ou como os “coitados”, sem quaisquer perspectivas de mudanças. Teóricos do documentário, como o francês Jean Louis Comolli ou o brasileiro Fernão Ramos, costumam dizer que cabe a esse tipo de cinema a busca pelo novo olhar, pelo acolhimento da mise-en-scène do outro e pelo quebra de padrões.  E é exatamente isso que Marcelo Andrighetti, em seu documentário “Boca de rua: vozes de uma gente invisível” nos apresenta.

A obra, produzida em 2013, trata de um projeto desenvolvido em Porto Alegre com as pessoas que vivem nas ruas da capital gaúcha, uma proposta inovadora e que vem trazendo resultados impressionantes, a começar pelo resgate da autoestima desses sujeitos. Trata-se do jornal impresso “Boca de Rua”, produzido inteiramente pelos indivíduos que vivem nas ruas de Porto Alegre, desde a discussão de pautas, passando pela apuração e registro fotográfico até a redação do texto. O projeto, fundado e coordenado por Rosina Duarte, foi criado em 2001, sendo que 150 pessoas já haviam passado por ele (até a época das gravações) e 70 delas deixaram as ruas.

Andriguetti faz uma apresentação do Boca de Rua de maneira dinâmica e imprimindo um tom positivo, desde a sonoplastia de fundo, fotografia e até a montagem. No início do filme, há cenas da capital gaúcha e, ao fundo, uma voz que fala do jornalismo enquanto instrumento de transformação e da proposta de fuga das construções espetaculares. Em seguida, os integrantes do projeto passam a discursar, reforçando o quanto o Boca de Rua foi um divisor de águas em suas vidas. Alguns deles aprenderam a ler e a escrever somente após ingressarem no projeto, e hoje são os autores das reportagens que estampam as edições do jornal.

O documentarista não interfere diretamente nas gravações, não há voz over e os relatos se sucedem sendo algumas vezes intercalados com cenas dos sujeitos em ação, fotografando, entrevistando, em reuniões de pauta ou redigindo. Percebe-se que essa escolha de construção busca reforçar a liberdade e autonomia dos personagens, independência esta que o próprio projeto Boca de Rua lhes proporcionou. A forma de encadeamento das cenas, em um tom mais acelerado, lembra a dinâmica de trabalho do jornalista e de fechamento de uma edição de jornal. Parece que tudo foi pensado para levar o espectador a sentir as transformações que os sujeitos filmados experimentaram.

O final do filme também apresenta algo bastante curioso: várias pessoas aparecem mostrando seus documentos de identificação, e, entre elas, aparecem alguns repórteres do Boca de Rua apresentando os seus crachás. Eles agora saíram da invisibilidade a que são submetidos, algo que nos próprios relatos reconhecem: “eu comecei a ser visto pela sociedade, porque antes de eu entrar no Boca de Rua, eu era invisível”. Outro personagem comenta que o projeto existe para mostrar que ele e seus colegas que vivem nas ruas de Porto Alegre têm conhecimento. Já nos últimos minutos do documentário, há o texto: “no jornal, os integrantes aprendem a ler, a escrever e a sair da invisibilidade”. Assim, percebe-se que essa escolha de enquadrar pessoas com suas identificações é uma forma de remeter à sua autonomia e pertencimento social.

O que transborda, na visão do espectador/crítico:

Marcelo Andrighetti poderia ter feito mais um filme que reforça a condição de miserabilidade a que as pessoas em situação de rua se encontram, com denúncias e apelo de auxílio. Mas ele encontrou uma nova forma de despertar o espectador, quebrando preconceitos e estereótipos vigentes. O documentarista buscou, com sua obra, o que Jaques Rancière chama de política da transformação, aquela que inverte posições na sociedade, que quebra os ditames da ordem policialesca, colocando o espectador em um local desconfortável exatamente por não ter aquilo que está acostumado a ver. Os personagens apresentados são fortes, demonstram estar imbuídos da consciência cidadã e de seu papel transformador. Assim, o cineasta aponta, como o próprio projeto que tematiza, para uma nova perspectiva, caminhos que podem ser buscados para oferecer dignidade e recuperar a autoestima daqueles que a mídia “dá a voz”, mas ao mesmo tempo ignora.

Em  “Boca de rua: vozes de uma gente invisível”, os personagens têm voz e com ela constroem uma narrativa forte e que nos comove exatamente por sua eficácia. É um filme que mostra que nem tudo está perdido e que as mudanças começam quando acolhemos outras versões, diferentes histórias e novos olhares.

Assista ao filme aqui: https://www.youtube.com/watch?v=5TtoMSiRn0w

Conheça o blog (https://jornalbocaderua.wordpress.com)  e fanpage do Jornal Boca de Rua (https://www.facebook.com/jornalbocaderua/)

Por Tatiana Vieira

Estamira e a loucura dos sábios

estamiraEstamira (2005) é um filme dirigido por Marcos Prado e produzido por José Padilha. O diretor buscava realizar um documentário sobre a transformação do lixão Jardim Gramacho, situado na região da Grande Rio, em um aterro sanitário. No entanto, dentre tantos resíduos rejeitados pela sociedade de consumo, Marcos Prado encontrou Estamira: uma senhora que vivia e trabalhava nas imediações do local e prometeu ao espectador a revelação da verdade. Assim, antes mesmo de ser filmado, o documentário teria como foco principal a vida e história desta mulher.

Estamira, já idosa, apresenta quadros crônicos comuns aos portadores de transtornos mentais – no filme, identificam-na como esquizofrênica –. Deste modo, as alucinações proféticas proferidas pela protagonista ao longo da obra remetem, concomitantemente, às verdades provenientes dos devaneios e à um surto psicótico genericamente comum ao portador de algum transtorno.

Durante seus acessos raivosos, Estamira blasfema Deus, a sociedade domada pelo controle social e governamental, pela medicação alienante e pelas tentativas de silencia-la. Fatídicos, seus discursos são, como ela fez questão de afirmar, portadores de uma verdade que teríamos, enfim, acesso.

Neste ímpeto, é possível compreender, ainda que de forma generalizante, o modo com o qual seu discurso se fortalece diante do espectador: sob as sombras da loucura, suas performances são capazes de confundir as fronteiras do real e do imaginário; do profético e da desrazão.

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Da Antiguidade à modernidade clássica, a loucura perpassou diversos discursos: o portador dos transtornos mentais, que por cerca 400 anos foi enquadrado como criminoso cujo destino central era sempre o cárcere, travestido de instituição psiquiátrica com modelo manicomial. No entanto, as aparições literárias da loucura – dos textos gregos à Shakespeare e Cervantes, referem-se à um outro tipo de louco: o profeta pouco ouvido, que não porta transtornos, mas devaneios que elucidam e, dubiamente, dão razão, eloquência e respiro ao mundo dos sãos.

É a partir desta particularidade, talvez, que o filme tenha ganhado prestígio: a possibilidade da contemplação pela sabedoria e pela sobriedade de sua fala ao invés da piedade trágica, como é comum nas demais produções (ficcionais ou não) que abordam as sociedades marginalizadas.

Sob o olhar de Prado, Estamira surge enquanto potência: a personagem parece dominar a câmera e a sucessão dos planos tende a dar voz às suas indignações. A surpresa à qual o realizador se propôs ao promover o encontro do espectador com a personagem parece difundir exatamente o que Estamira entregou à equipe de filmagem: um crer duvidoso que, naquele momento e naquele caso específico, pode ser capaz de romper ou senão alargar estereótipos que cercam a loucura e a exclusão dos sujeitos que se encontram nas bordas da sociedade.

A personagem, desta maneira, convida o espectador para um engajamento afetivo e reflexivo; permitindo o rompimento com tais tradicionais processos estéticos que categorizam as vítimas das câmeras filmográficas. Autora de sua própria história, Estamira faz um convite certeiro: o de conhecer a verdade.

“A minha missão, além de eu ser a Estamira, é revelar, é, a verdade, somente a verdade. Seja a mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem.”

Por Iago Rezende