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Os Normais

Dos criadores Jorge Furtado, Alexandre Machado e Fernanda Young, Os normais é uma série brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão. No ar por três temporadas, a sitcom estreou em 1º de junho de 2001, e trazia nas noites de sexta-feira o cotidiano de Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres), um casal de noivos que há cinco anos vivia uma vida “normal”, com mal-entendidos, brigas, confusões e reviravoltas, como todo casal da vida real. Com a direção geral de José Alvarenga Jr., Os Normais exibiu 71 episódios e ficou no ar até 3 de outubro de 2003. Três anos mais tarde foi lançada na mesma emissora de TV a série Minha Nada Mole Vida, com os mesmos criadores, diretores, formato e ator principal, que também abordava o cotidiano dos personagens, mas agora o de Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) com a ex-mulher e o filho.

Aparentando ser um típico casal de classe média, na faixa dos 30 anos de idade, Rui e Vani são, na verdade, cheios de manias, preconceitos, paranoias, superstições e falhas de caráter, características que colocam em cheque a ideia de casal perfeito e pessoas normais.  O programa usa frequentemente a metalinguagem e os protagonistas falam direto com o espectador, interferindo no episódio e pedindo a aparição de “mini-flashbacks”.

No Plano da Expressão, os aspectos destaques são a vinheta do programa, a linguagem e o cenário. Na abertura do seriado, a canção de fundo “Doida Demais”, interpretada por Lindomar Castilho, compõe uma sequência de fotos aleatórias de rostos de pessoas desconhecidas, dos atores Fernanda e Luiz Fernando, de uma criança e um cachorro. Fazendo careta, sorrindo ou com expressão séria, o objetivo das fotos é fazer jus ao nome do programa, já que essas são pessoas normais, de todas as cores e idades, que faziam parte da equipe de produção da sitcom. A trilha de fundo constitui-se apenas por um único refrão da música, o trecho “você é doida demais”, que contrapõe o título do programa, já anunciando para o espectador o que se pode esperar: a personificação de pessoas normais, porém, loucas, pois aos olhos do outro, todo normal é um pouco descontrolado.

Quanto ao vocabulário adotado, o programa apresenta uma linguagem coloquial, cotidiana e cheia de palavrões, como caralho, merda, puta que pariu, xoxotas e paus, como acontece no dia a dia de muito casal “normal”. Os cenários utilizados não são variados, com a residência de cores saturadas e contrastantes de Rui sendo o principal local de gravação dos atores. Esses três elementos (vinheta, vocabulário e cenário) se complementam de modo que o espectador se identifique com o programa e se aproxime do mesmo, pois ver na televisão algo que também acontece na sua vida, de maneira tão espontânea e credível, instiga e gera curiosidade no espectador.

Além do formato em comum, equipe de criação, direção, e ator principal, outra característica vista também no seriado Minha Nada Mole Vida (lançado cinco anos após a estreia de Os Normais) é a da câmera em contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima), apontando normalmente para o prédio em que Rui mora, com o intuito de situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade tem avaliação razoável em todas as emissões analisadas devido ao fato de, assim como em Minha Nada Mole Vida, abarcar assuntos cotidianos da vida dos personagens, incluindo problemas, questionamentos e prazeres da vida a dois, e não necessariamente assuntos da agenda midiática.

O indicador ampliação do horizonte do público não é muito observado no decorrer dos episódios, sendo quatro deles considerados razoáveis e um bom. Na emissão do dia 6 de junho de 2003, por exemplo, a boa avaliação é justificada pela abordagem mais longa da depressão, uma doença muito comum nos dias de hoje que necessita de atenção para que haja sempre informação sobre os sintomas e prejuízos ao paciente. Nas outras emissões, o estímulo do público ao pensamento e ao debate de ideias se dá pela inserção de reflexões a cerca de valores morais, como mentira, traição, felicidade, relacionamentos, sexo e amizade, porém de forma rápida e sem muita intensidade.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados não foi muito bem avaliado. Apesar de abordar assuntos bem diversos, as pessoas representadas na série não são muito diferentes umas das outras: todas são jovens na faixa dos 30 anos de idade, de pele branca e de classe média. Negros e crianças não aparecem em nenhum momento dos episódios e o que mais se diversificou quanto a esse indicador foi na emissão do dia 29 de junho de 2001, em que, brevemente, aparecem representantes de Nova Iorque, Tóquio e Berlim das filiais da empresa em que Rui trabalha.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, desconstrução de estereótipos, foi observado que a série faz constante uso do estereótipo para provocar o riso. Em duas das cinco emissões o estereótipo está muito presente e um pouco menos em outras três. A sitcom aborda a normalidade de duas pessoas através do uso de estereótipos, alguns sendo reforçados e outros questionados, para deixar que o telespectador tire suas próprias conclusões. No episódio exibido no dia 15 de junho de 2001, por exemplo, aos 7 minutos e 17 segundos, Rui começa a categorizar meninas de programa de acordo com o anúncio delas no jornal, baseando-se, portanto, em alguns estereótipos para afirmar o que acha:

Susi: ‘Mulherão dominadora’. Bom, ‘mulherão’ significa que já passou dos 35, né, e ‘dominadora’ significa que vai dar uns tapas na tua cara. Não… Vivian: ‘Morena, mignon, completa’. ‘Mignon’ quer dizer que tem um metro e meio, né? E ‘completa’ que tá desesperada e vai roubar teu aparelho de som.

(Os Normais – episódio Brigar é normal 15/06/2001).

Abaixo, a qualidade do plano do conteúdo, com a avaliação de cada indicador:

N1

Na Mensagem Audiovisual, Os Normais é razoável no indicador de qualidade originalidade/criatividade. Essa avaliação se deve, principalmente, ao uso da metalinguagem, comprovada quando na trama os protagonistas falam do próprio programa. Um exemplo disso está no episódio Um dia normal, exibido no dia 29 de junho de 2001, que traz Rui e Vani sentados no sofá da sala jogando dama, enquanto os bastidores arrumam o cenário. No momento em que Rui e Vani começam a interagir com o espectador que está do outro lado da tela, antes mesmo da vinheta de abertura, mostra-se um profissional do programa segurando o cartaz com as falas que serão ditas, e os atores (que se confundem com seus próprios personagens) olham para a câmera como se estivessem falando com o público.

RUI: Oi gente, é pra gente voltar com o programa agora…

VANI: …Mas a gente pediu pra passar mais uns comerciais.

RUI: É, porque nós estamos numa disputa importante.

VANI: É, se eu ganhar o Rui vai ter que lavar toda a louça da casa.

RUI: Não, mas ela não vai ganhar não.

VANI: E, não vou ganhar o quê, ó.

RUI: Pera aí, você roubou.

VANI: Ahh, roubei nada.

RUI: Você roubou enquanto eu estava falando com eles.

(Os Normais – episódio Um dia normal 29/06/2001)

Além da metalinguagem, outro momento criativo do programa que ajuda a incrementar o indicador originalidade/criatividade é na propaganda de um produto, em que Os Normais faz uso do humor sobre a própria situação do merchandising para divulgar uma marca.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, todas as emissões são boas, pois é comum vermos nos episódios ao menos uma menção a outra plataforma, programa ou personalidade. No exibido no dia 2 de maio de 2003, por exemplo, Rui questiona Vani sobre ela não dar mais atenção a ele por causa da novela, quando Vani o interrompe:

VANI: Peraí, que vai começar.

RUI: Pô, ainda tá no Jornal Nacional, cara.

VANI: Não, mas agora é assim, eles colam o início da novela no fim do Jornal Nacional. Se você bobeia, você perde o início do capítulo, entendeu?

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Após dialogar com um programa real (Jornal Nacional), a história continua e Vani mais uma vez menciona outro conteúdo que não é da trama, dessa vez com personalidades: “É, por exemplo, hoje, a Christiane Torloni e o José Mayer, antes mesmo da abertura da novela, eles vão transar, brigar e transar de novo”. Ainda na sequência, Vani novamente cita pessoas reais, o que mais uma vez justifica a avaliação boa que o indicador diálogo com/entre plataformas recebeu: “Peraí, peraí, que a Fátima Bernardes e o William Bonner já estão dando aquela notícia divertida do fim do Jornal Nacional”.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito bem avaliado em todas as emissões e é um dos indicadores de maior destaque no programa, tanto da mensagem audiovisual quanto do plano do conteúdo, e também pode ser exemplificado com o episódio mostrado acima. Na sequência da trama, ainda na discussão da novela, Rui conversa com Vani sobre saber antecipadamente o que vai acontecer nas novelas e no episódio que estão fazendo:

RUI: Por isso que eu não acompanho novela. Todo mundo já sabe o que vai acontecer, caramba.

VANI: Todo mundo já sabe que a gente vai passar o episódio discutindo, e nem por isso as pessoas param de assistir.

RUI: É, todo mundo já sabe que a gente vai ficar junto no final. Estão assistindo por causa de quê?

VANI: Não, não faz essa pergunta se não as pessoas trocam. Não! Não troca de canal.

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Além de usar a metalinguagem para falar do próprio programa, os personagens utilizam também esse recurso para falar do público e com ele. Como mostrado acima, nas duas últimas falas de Rui e Vani, há uma mescla de receptores da comunicação estabelecida: ora os personagens falam um com o outro, e ora voltam-se para o espectador. Em seguida à última fala de Vani, o programa faz uso de efeitos especiais para simular a troca de canal do espectador e na tela é mostrada uma cena de tiroteio em que várias pessoas estão sendo mortas. Novamente o efeito especial é utilizado para simular que o espectador voltou para o canal do programa e Rui vai ao banheiro sozinho para conversar com o público. Olhar e falar para a câmera, como se estivesse olhando para os olhos do espectador e esperando dele uma resposta, faz dessa técnica, portanto, mais um instrumento de identificação e aproximação de público e programa.

O indicador de qualidade clareza da proposta é, como o indicador anterior, igualmente bem avaliado. Toda essa intensa metalinguagem utilizada, juntamente com a atuação dos personagens e o formato bem definidos, são essenciais para a clareza e objetivo do programa. No exibido dia 15 de junho, por exemplo, a história já se inicia com os dois protagonistas em cenários diferentes e queixando-se um do outro, o que deixa evidente que os assuntos abordados no episódio serão os problemas que o casal tem entre si e as consequências do desejo de vingança que cada um sustenta consigo após os vários insultos mútuos. Observe, a seguir, a avaliação de cada indicador da mensagem audiovisual:

N2

Levando em consideração os episódios aqui analisados, que representam apenas uma pequena parcela de Os Normais e não necessariamente a sua totalidade, podemos afirmar que a série apresenta poucas características de qualidade. Por mais objetiva, curiosa e instigante que tenha sido (experimentação), as emissões analisadas não prezam pela diversidade cultural, faz constante uso do estereótipo de afirmação para gerar o riso e não aprofunda em temas importantes devido ao pouco tempo que dedica a eles (representação), por mais que tais temas tenham sido levantados.

Por Luma Perobeli

O Não Famoso

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Criado por Daniel Santos, o canal O Não Famoso, em maio de 2016, contava com cerca de 280.000 inscritos e 232 vídeos. Na descrição do canal, Santos se apresenta como “cantor, compositor e produtor musical”, o que justifica o grande número de paródias dentre os vídeos. Em geral, também há vídeos sobre temas diversos, às vezes com convidados ou perguntas dos internautas.

Na esfera do Plano da Expressão, se destaca a linguagem utilizada por Daniel Santos – sempre informal e com expressões populares, como “bagaça” ou “vai plantar batata”, o que permite uma aproximação do público. Já o cenário e o figurino não possuem grande destaque. Os vídeos são gravados em um estúdio musical, com paredes de isolamento acústico e um computador ao fundo. O cenário, geralmente, só muda nas paródias, quando é utilizado o chromakey para colocar certas imagens como fundo.

Quanto ao Plano do Conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados recebeu avaliação fraca em todas as emissões analisadas, já que, na maioria dos vídeos, tem-se apenas Daniel Santos, ou ele e mais um convidado, geralmente homem. Desse modo, há também pouca diversidade de opiniões e pontos de vista.

A desconstrução de estereótipos foi percebida em apenas uma emissão, a do dia 10 de setembro, no vídeo com a participação de Wilson Neto, mas mesmo assim de forma bem discreta e superficial. Nele, Daniel pergunta:

DANIEL: E se a gente tivesse um olho só?
WILSON: A gente não podia cagar né… A mulher nunca, não ia ser permitido que mulher tirasse carteira de motorista, jamais. Se dois olhos ela…
DANIEL: Não, não. Aí pegou no pé das mulheres que assistem os meus vídeos, agora não. Castigo, vai ter castigo.

O indicador oportunidade, por sua vez, recebeu avaliação fraca em três emissões, por não haver nelas temas relevantes ou atuais, presentes constantemente nas agendas do público e da mídia. Já a paródia da música Suíte 14 recebeu avaliação razoável no indicador, uma vez que se refere a uma canção atual e muito tocada em festas, por exemplo. Desse modo, a música se faz presente no cotidiano de grande parte do público.

O vídeo Adaptando Filosofias, do dia 17 de setembro, e Falsetes da Melody, do dia 08, receberam avaliação boa nesse indicador. O primeiro traz citações de pensadores antigos, como Platão e Aristóteles, para os dias atuais, numa readaptação. Sendo assim, várias situações cotidianas e muito comuns são representadas. No vídeo, Daniel readapta, por exemplo, a frase “Tente mover o mundo, o primeiro passo é mover a si mesmo” para “Tente mover a si mesmo, o primeiro passo será sair do WhatsApp”. Modificou ainda a frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” para “Não sabendo que era impossível, foi lá e clicou para mudar a cor do Facebook”.

Já em Falsetes da Melody, Daniel discorre sobre os vídeos da MC Melody, muito compartilhados nas redes sociais, motivos de debates e de alguns memes. O pai da menina, inclusive, foi acusado de hipersexualizar a filha nos seus shows, assunto que estava em pauta na época. Dessa forma, os falsetes da MC Melody compunham temas recorrentes na agendas do público e de algumas mídias.

A ampliação do horizonte do público foi avaliada de modo fraco em três das emissões analisadas, as quais não apresentavam temas relevantes que pudessem estimular o debate ou o pensamento. Já os vídeos Adaptando Filosofias e Paródia Suíte 14 receberam avaliação razoável. O primeiro, ao trazer frases de filósofos para os dias atuais utilizando, na maioria das vezes, hábitos comuns na era da internet, pode levar a uma reflexão a cerca desses hábitos, muitas vezes questionáveis. Já a paródia discorre sobre coisas comuns da infância nos anos 90 e 2000, como assistir desenhos ou brincar na rua. Resgatar tais elementos pode fazer com que o público reflita sobre as mudanças que ocorreram e como as crianças se divertem hoje em dia.

O vídeo Falsetes da Melody, por sua vez, traz uma discussão sobre o modo como o MC Belinho, pai da MC Melody, trata a exposição da filha. Daniel comenta no vídeo: “Na real, eu sinto pena dela, porque, na verdade, ela está sendo usada como um produto do próprio pai.”. E ainda complementa: “Não é difícil perceber que ele está explorando a imagem dela de todas as formas possíveis, expondo ela ao ridículo.”. A partir do vídeo é possível levantar questões sobre exposição infantil e paternidade, por exemplo. A seguir, o gráfico que mostra os indicadores e as avaliações de cada emissão no plano do conteúdo:

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Em relação à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. Normalmente a estrutura dos vídeos se repete, mas quando há um formato diferente do usual, como a gravação de uma tag, a proposta é explicada no início do vídeo. Na emissão do dia 10 de setembro de 2015, E Se (ft. Wilson Neto), Daniel explica: “A gente vai gravar um vídeo um pouco diferente (…) Então, a gente vai fazer uma tagque a gente inventou que se chama E Se”. Já no vídeo Nudes, do dia 22, Daniel explica a dinâmica do AskSnap, novo quadro do canal: “No caso, vai ser um quadro que eu vou abrir o meu snap pra galera mandar vídeos, fazendo perguntas”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do públicorecebeu avaliação muito boa. Comumente Daniel cumprimenta sua audiência com a frase “fala galerinha não famosa”, além de, em quase todas as emissões, pedir para o público deixar likesnos vídeos e seguir o canal em outras redes sociais. Expressões como “vocês” também são utilizadas, ao mesmo tempo em que Daniel olha, a quase todo momento, diretamente para a câmera. Ao final dos vídeos também há dois links: um que leva a outro vídeo do canal, com a frase “veja também”, e outro que leva à página do canal, com a frase “me aperta vai”.

A solicitação da participação do público também pode ser percebida em alguns quadros do canal. No quadro AskSnap, como citado anteriormente, os internautas enviam perguntas para Daniel por vídeos feitos através do Snapchat. O quadro Não Famoso Responde se assemelha a ele, mas as perguntas são feitas através de comentários nas redes sociais.

O diálogo com/entre plataformas também recebeu avaliação muito boa em todas as emissões. Nos quadros citados, por exemplo, as perguntas dos internautas são feitas em outras mídias, como o Snapchat, e respondidas através dos vídeos do YouTube feitos pelo canal. Além disso, em todos os vídeos são mostradas as outras redes sociais do canal, como Instagram ou Facebook. Frequentemente também há parcerias com outros canais, sendo os vídeos feitos com a participação de convidados, como a paródia de Suíte 14, da dupla Henrique e Diego, ou a tagE Se. Na paródia de Suíte 14, por exemplo, percebe-se também a presença de elementos externos à internet, como no trecho: “É que eu estudava vendo/ Dragon Ball e Pokémon”. Ou ainda: “Vê/ que Merthiolate arde pra desgraça”.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável na maioria das emissões, já que não há grande inovação no formato ou no conteúdo do canal. A única emissão que recebeu avaliação boa nesse indicador foi a do dia 15/09/2015 – Paródia Suíte 14 (ft. Caio Romano) – pois transforma totalmente uma música já existente, utilizando outro tema como base. Abaixo, o gráfico da mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se concluir que o canal O Não Famoso, nas emissões estudadas, não se destaca em aspectos importantes do humor de qualidade, explicitados em indicadores como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos, nos quais o canal não obteve avaliações relevantes. Já no plano da mensagem audiovisual, puderam-se ver alguns elementos de destaque, como diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Entretanto, tais elementos são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um grande diferencial do canal.

Por Júlia Garcia

O Que Tem Pra Hoje

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 O canal O Que Tem Pra Hoje, criado em agosto de 2011 é, segundo as descrições dos vídeos, “um canal de esquetes (vídeos engraçados, de humor), independente.”. Em maio de 2016 contava com cerca de 130.000 inscritos, 92 vídeos e mais de 20.000.000 visualizações.Entretanto, as emissões analisadas do canal – todas de setembro de 2015 – fazem parte de uma websérie produzida pela Toca dos Filmes: Os Britos Também Amam. Nela, é apresentado Rafael Brito, um homem de 32 anos que leva uma vida semelhante à de um adolescente, juntamente com seus dois amigos, Chelo e Rico. Brito é procurado por Kelly, sua ex-namorada de 15 anos atrás, que revela que ele tem uma filha adolescente chamada Raquel. Ele, então, passa a ter novas responsabilidades que o levam ao temido amadurecimento.

No plano da expressão se destaca a produção do programa, de alta qualidade. O cenário, por exemplo, é bem montado e o figurino bem planejado.  Os equipamentos utilizados para filmagem e iluminação também conferem destaque à produção, dando qualidade à série. Tais características fazem lembrar as produções televisivas. O projeto foi financiado através do Catarse, uma plataforma online de financiamento coletivo, que permitiu a realização da série com tal qualidade.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados foi pontuado de forma razoável em todas as emissões. Há certa diversidade de gênero e pontos de vista, visto que se tem a representação de uma mulher séria e correta, uma adolescente e um homem despreocupado e sem responsabilidades, por exemplo. Entretanto, faltam personagens que deem diversidade socioeconômica, cultural, étnica, dentre outros. Não há grande pluralidade dentre os sujeitos representados, motivo pelo qual o indicador foi considerado razoável na análise.

O indicador oportunidade foi igualmente avaliado. O tema tratado pela websérie – a descoberta da paternidade, o amadurecimento e o cuidado com os filhos – pode ser encontrado comumente em outras séries ou novelas, por exemplo. Essa situação também faz parte do cotidiano de algumas famílias, estando, portanto, presente nas agendas da mídia e do público, em maior ou menor quantidade. Contudo, esse tema não é pauta constante ou rotineira nessas agendas, motivo pelo qual a avaliação não foi maior.

Em relação à ampliação do horizonte do público, o episódio 13 da websérie recebeu avaliação razoável, já que, assim como todos os capítulos em geral, trata da figura do pai, em especial da descoberta da paternidade, questão pertinente e que pode levar os espectadores à reflexão sobre o tema. Tem-se como exemplo o diálogo entre Brito e Raquel:

RAQUEL: Não, por que você tá defendendo a minha mãe?
BRITO: Eu não tô defendendo a sua mãe.
RAQUEL: Ela é uma pentelha!
BRITO: Para de falar, boca suja.
RAQUEL: Eu falo como eu quiser, quem é você pra mandar em mim?
BRITO: Eu… Eu sou seu pai.
(Os Britos Também Amam – Episódio 13)

Já os episódios 12(01/09/2015) e 14 (08/09/2015)receberam avaliação boa. O primeiro, por tratar, além do assunto geral da série, da gravidez na adolescência e dos papéis conjuntos da mãe e do pai. O diálogo entre Kelly e Brito exemplifica isso:

KELLY: Eu te falei pra não deixar aquele moleque dormir aqui!
BRITO: Kelly, eu fiquei fora do esquema por 15 anos, me deixa sair como o pai gente fina, vai.
KELLY: E eu como a mãe megera.
BRITO: Que bom, achei que você não ia topar!
KELLY: Não vou!
(Os Britos Também Amam – Episódio 12)

Já o episódio 14 recebeu tal avaliação por enfatizar a importância do papel paterno, como visto no diálogo entre Brito e seus vizinhos Rico e Chelo, os quais questionavam se Brito seria realmente o pai de Raquel. Brito responde: “Vocês dois são uns imbecis. Eu sou o pai dela. Por bem ou por mal, se eu peguei no meio do caminho, dane-se. A partir de agora eu vou fazer de tudo pra ser uma boa pessoa pra ela. Vocês entenderam?”. Essas questões abordadas durante as emissões são férteis e têm a capacidade de promover o debate de ideias, incrementando o indicador.

No episódio 12, o diálogo entre Brito e Kelly, que aborda o papel do pai “gente fina” e da mãe “megera”, foi o motivo pelo qual tal emissão recebeu avaliação fraca no indicador desconstrução de estereótipos. O diálogo aborda os estereótipos representados por esses papeis sem, contudo, desconstruí-los, o que justifica a avaliação fraca no indicador.

O episódio 14, por sua vez, é construído sobre a dúvida a respeito da paternidade de Brito, uma vez que Chelo e Rico, ao descobrirem que o amigo não se lembra da “concepção” da filha, questionam se ele é realmente pai de Raquel. Brito, ao contrário do que é esperado, não leva o questionamento adiante, mesmo sendo incentivado pelos amigos. Chelo chega a pegar a garrafa de água de Raquel e a entrega para Brito fazer um teste de DNA, mas Brito joga a garrafa fora. Ao contrário do que comumente se espera de um homem sem responsabilidades e imaturo como Brito, ele assume a paternidade sem questionamentos e tenta ser um bom pai, como exemplificado anteriormente durante o diálogo dele com seus vizinhos. Por esse motivo, o episódio 14 recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos. Abaixo, as avaliações de cada emissão:

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No que diz respeito à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas, pois o objetivo da série não deixa dúvidas e o que foi proposto é apresentado de forma clara.

Quanto à originalidade/criatividade, a websérie recebeu avaliação razoável, pois não traz grandes inovações. O conflito principal proposto não se diferencia muito de temáticas já expostas em outras produções, assim como não há grande experimentação na forma dos vídeos.

O não teve destaque nas avaliações, sendo pontuado de forma razoável. O que incrementou o indicador foram as semelhanças com as produções televisivas e a posterior transformação da websérie em DVD pela Toca dos Filmes.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público também não foi destaque. Poucos recursos são utilizados para uma comunicação mais estreita com a audiência ou para estimular dela uma participação ativa. A linguagem é um ponto que aproxima os personagens do público, uma vez que se assemelha muito àquela utilizada no dia-a-dia. Como exemplo, tem-se o episódio 13 da websérie (04/09/2015), no qual Chelo conversa com Brito:

BRITO: Chelo, alguma vez eu falei mal da Kelly?
CHELO: Tirando ontem à noite?
BRITO: Eu não falei nada ontem à noite.
CHELO: Disse que ela era uma megera e que merecia levar uma surra de jabá.
(Os Britos Também Amam – Episódio 1304/09/2015)

Há também um link no início do vídeo, escrito “pular abertura”, que leva ao final da vinheta inicial e representa uma solicitação da participação do público. Porém, esses são uns dos poucos recursos que incrementam o indicador e não possuem destaque na produção. Veja, abaixo, os indicadores de qualidade de cada episódio e as suas respectivas avaliações na mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se verificar que o canal O Que Tem Pra Hoje, a partir das emissões estudadas da websérie, obteve avaliações consideráveis em indicadores essenciais à qualidade do humor, como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos. Sendo assim, podem-se observar certas características de qualidade na websérie, entretanto tais características não possuem, geralmente, muito destaque dentro da produção.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

Estranha Mente

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Estranha Mente é um seriado de televisão que estreou no canal Multishow em 3 de outubro de 2012. Cada uma das três temporadas exibidas até o final de 2014 contém 13 episódios. As cinco emissões analisadas neste estudo foram escritas por Fernando Caruso, Jaiê, Luiza Yabrudi e Eduardo Rios, que apostam em esquetes baseadas em situações reais “e às vezes surreais” da mente de Fernando, como o próprio programa define. Protagonizado por Caruso, o elenco ainda conta com Hamilton Dias, Mari Cabral, Márcio Lima, Roberta Brisson, Paulo Dodô, Ricardo Rossini, Diogo Costa, Raphael Logam e Alexandre Régis.

No plano da expressão, um dos aspectos que chama a atenção do espectador é a vinheta de abertura do programa, que traz a voz de Fernando Caruso explicando a quinta dimensão não conhecida pelo homem: a imaginação dele. Durante a narração, apenas círculos verdes aparecem na tela, e logo depois o seu rosto é colocado em diferentes contextos do dia-a-dia. Cada episódio tem entre sete e 11 esquetes que se misturam ao longo da narrativa e trazem Fernando Caruso interpretando diferentes personagens ou até ele próprio.

O tom descontraído do programa se dá pelo seu fechamento, que mostra os créditos dentro de uma nuvem branca e verde na parte de baixo do plano enquanto os erros de gravação vão sendo mostrados na tela, com gírias e palavrões sendo falados, como “porra”, “cretino”, “merda”, “sacanagem” e “caralho”. Além disso, os episódios exibem frequentemente vinhetas toscas em determinados esquetes e efeitos especiais mal elaborados, deixando claro que o objetivo do programa não é ser verossímil, mas despertar o riso pelo grotesco.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados obteve avaliação razoável. O episódio que mais se destacou foi o exibido no dia 19 de junho de 2013, cuja análise foi considerável quanto à representação de grupos sociais no esquete das dúvidas sobre a Tuberculose. A partir dos 13 minutos e 36 segundos, uma agente de saúde em uma sala com cartazes ao fundo, livros e jarra de suco de frutas na mesa, tenta informar às pessoas e tirar as suas dúvidas sobre o assunto. Após um breve panorama sobre a doença, quatro personagens homens em lugares diferentes, com vestimentas de estilos distintos e realizando ações também diferentes, começam a aparecer na tela com perguntas, o que deixa claro o objetivo do programa em simular a diversidade buscada pelas entrevistas que consultam o público na rua.

Porém, mais do que simular, Estranha Mente satiriza essa tentativa da diversidade ao trazer personagens de diferentes classes sociais fazendo perguntas repetidas, ou sem sentido, e mostrando as respostas da agente de saúde, que progressivamente vai ficando irritada: “por quê que vocês estão fazendo isso comigo?”, dramatiza ela. Em seguida, Fernando Caruso aparece na tela falando sobre a ignorância como uma doença, referência clara aos quatro personagens mostrados anteriormente, que muitas vezes representam o público da vida real mostrado nas entrevistas, que não faz perguntas relevantes ou realmente pertinentes sobre o assunto.

O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos não foi muito identificado no programa. Nas cinco emissões analisadas de Estranha Mente, este recurso é usado para afirmar estigmas e pré-conceitos já existentes na sociedade atual, como o de que toda mulher é interesseira ou o de que “advogado fala, fala, e não diz nada”. No episódio exibido no dia 3 de outubro de 2012, por exemplo, aos 14 minutos e 16 segundos se inicia um esquete em que dois amigos estão no bar de uma boate e um deles tenta paquerar a funcionária do local. Vendo que a menina reage de maneira arrogante, o rapaz decide apelar para a frase “eu tenho um programa no Multishow” e consegue o que quer: um beijo da garota. Essa cena, apesar de curta, reforçou o estereótipo de que existem mulheres que só se relacionam com outra pessoa por causa do status que sua profissão tem na sociedade.

No quinto episódio aqui analisado, exibido no dia 19 de junho de 2013, outra situação em que há a afirmação do estereótipo, está no esquete do tribunal do júri, em que Fernando Caruso interpreta um advogado de defesa que, apesar de falar muito, só diz coisas sem sentido. O senso comum de que “advogado fala, fala, e não diz nada”, que vale para muitos profissionais da área jurídica, é reafirmado nesse esquete pelo exagero das falas do advogado e pelas reações dos demais personagens, que, diante das falas confusas, tentam compreender minimamente o advogado.

Ainda sobre utilizar a ferramenta do estereótipo para afirmar paradigmas sociais, no episódio do dia 3 de outubro de 2012 o programa conseguiu, sem nenhuma fala, apenas com uma música de fundo, reforçar a ideia de que a banda Calypso não é boa ao mostrar a frase “Dançar Calypso na festa da firma é crime. Tudo bem, não é. Mas deveria”, após sucessivas fotos de pessoas supostamente presas.

O indicador de qualidade oportunidade foi identificado de forma razoável nas emissões analisadas, pois, apesar de não tratar de assuntos presentes na agenda midiática, traz para o público temas do dia-a-dia de qualquer pessoa, sendo esse tema relevante ou não. No quadro Cinemón, do episódio exibido no dia 24 de abril de 2013, por exemplo, ao invés de Fernando Caruso satirizar os especialistas de cinema fazendo referência a filmes atuais, foi usado como objeto o filme Karate Kid, que, apesar de ser um clássico, foi lançado em 1994.

No último indicador de qualidade do plano do conteúdo, ampliação do horizonte do público, percebe-se que o programa fracassou. Foram poucos os momentos em que foi possível estimular o pensamento e o debate no espectador e, mesmo nos esquetes em que isso foi feito, o programa pecou com o excesso da piada e acabou por reforçar algum estereótipo. Isso é o que ocorre no primeiro episódio do seriado, exibido no dia 3 de outubro de 2012, no esquete em que uma cena de crime está sendo gravada. Após o “corta” falado em off, o esquete continua com os personagens incorporando suas próprias personalidades. Na sequência da identificação dos atores, a partir dos 17 minutos, Rafael Logan e Fernando Caruso iniciam um diálogo em que Rafael questiona Caruso sobre os papeis que sempre são destinados a ele, de assaltante ou sequestrador, insinuando que seja devido à cor da sua pele, que é negra.

Esse contexto permite que o público reflita sobre a real situação de atrizes e atores negros na televisão brasileira, que comumente são vistos como domésticas, seguranças, faxineiros, babás, motoristas, caseiros, vigias, ou qualquer qualificação que permeia o crime. Entretanto, apesar disso, Estranha Mente acaba mais uma vez afirmando estereótipos, por querer fazer piada de tudo, inclusive de uma discussão séria como essa. No esquete acima citado, Fernando Caruso se compromete a ajudar Rafael Logan para reparar o seu erro e, então, o coloca para interpretar uma Branca de Neve, personagem desejada por Logan, o que é irônico, já que uma Branca de Neve dificilmente seria interpretada por um homem negro. Na sequência, um ator anão também questiona Caruso sobre os seus repetidos papeis, e mais uma vez o suposto diretor da cena ajuda o colega: Fernando coloca o anão para interpretar um jogador de basquete que faz muitas cestas e que é melhor que todos os outros jogadores, de estatura mediana.

Entretanto, o que é comum às duas subversões de papeis é que ambos os personagens saem prejudicados (a Branca de Neve é abandonada sozinha na cena e o jogador de basquete fica preso na cesta), o que invalida totalmente a necessidade de se diversificar os papeis sociais dos atores, diminuindo a importância da causa.

Abaixo, as avaliações dos indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão – como a vinheta de abertura descontraída, a linguagem informal e a repetição do primeiro esquete, que é comum a todos os episódios – conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos. “Agora o comediante vai contar uma piada sem ofender ninguém” é a frase comum a todos os episódios e precede o esquete que traz Fernando Caruso interpretando um comediante que fracassa ao tentar fazer piadas sendo politicamente correto. Presentes nesse início, é possível perceber que a ironia e a afirmação de conceitos podem ser ferramentas constantes no programa.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas teve uma avaliação considerável, visto que em vários momentos há a interação com diferentes tipos de conteúdos e menções a lugares e filmes existentes fora da ficção, como no quadro Cinemón, em que Fernando Caruso interpreta um crítico de cinema e cita filmes reais, como Robocop 3 e Karate Kid 4, e faz referência, de forma satírica, aos verdadeiros programas que se dedicam às análises de filmes. Além disso, o programa também menciona lugares como Casaquistão, Afeganistão e Argentina, e traz Fernando Caruso dialogando com a plataforma da internet ao pedir, aos 15 min e 40 segundos do episódio do dia 15 de maio de 2013, por exemplo, que o telespectador entre no site do Multishow para interagir com o programa e escolher o novo personagem que ele quer ver nos esquetes.

O indicador solicitação da participação ativa do público teve uma avaliação razoável nas emissões aqui analisadas. Isso se deve, principalmente, à linguagem informal utilizada, como já falado, e à interação personagem-público estabelecida quando os personagens olham para a câmera como se conversassem com o espectador. No quadro Dr. Toko, por exemplo, Fernando Caruso interpreta um médico especialista em desvendar os sentimentos de um homem rejeitado por uma mulher, olhando para a câmera como na intenção de ensinar ao público como essa rejeição é sentida pelo homem. Usando palavras como “vocês” e fazendo perguntas como “viu?” quando somente Caruso está em cena, fica claro que o programa deseja interagir com o público e fazê-lo permanecer no canal.

Originalidade e criatividade não são elementos muito presentes em Estranha Mente. A nota fraca foi atribuída ao programa porque este não apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, apenas abordam os temas de forma exagerada, fazendo uso da sátira e da ironia para dar ênfase a assuntos muitas vezes irrelevantes que em nada têm para acrescentar à sociedade.

A seguir, podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Analisando os modos de representação dos personagens na construção das cenas e dos diálogos, e o uso dos recursos técnico-expressivos, que contribuem para a construção de uma narrativa que pode promover a reflexão e o debate de ideias, observamos que Estranha Mente explora pouco essas potencialidades. Como visto, temas relevantes para a sociedade até foram abordados, mas não com a complexidade que merecem, o que acaba fazendo do programa mais uma ferramenta de banalização da televisão e da questão em pauta.

Além de não trazer para o público nada de novo em relação ao formato adotado, o programa utiliza efeitos especiais e roteiro pouco verossímeis (como identificado nos disparos das armas de fogo que não ocasionam nenhum sangramento nas vítimas atingidas) que causam estranhamento no público. Na cena da gravação de um crime exibida dia 2 de outubro de 2012, como já mencionado anteriormente, a partir dos 8 minutos e 30 segundos, Rafael Logan, que interpreta um criminoso, pega nos braços a vítima que está aparentemente morta e começa a mexer seu queixo e lábios como se esta estivesse falando. Escondendo a sua cabeça atrás do corpo da menina, Logan afina a voz e dá início a um roteiro distante da realidade que banaliza a situação de um crime e põe em cheque a competência da classe policial. “Eu não tô morta não, foi tudo um grande mal entendido. Ó, é bom fazer tudo que ele tá mandando. Ele é bem mal”, mascara o criminoso.

A construção desta cena é um exemplo de como o programa banaliza situações sérias antes de chegarem no ponto principal da cena. Ainda assim, quando abordam o assunto chave também acabam banalizando a situação para gerar o riso, invalidando-a por se aproximar do grotesco. Dessa forma, torna-se inexistente na série aqui analisada um ponto de vista diferente em relação à maioria dos programas da televisão brasileira que geram o riso. Sem esse diferencial na experimentação e sem essa complexidade da representação, Estranha Mente se mostra mais um exemplo das tantas “reciclagens” da nossa programação televisual brasileira, visto que não apresenta recursos suficientes para levantar reflexões na sociedade.

Por Luma Perobeli

Canal Ironia

maxresdefaultO canal Ironia foi criado por Oney Araújo – que é quem faz os vídeos – em 16 de Outubro de 2012. De acordo com descrição do canal, há postagem de vídeo toda semana, porém isso não se comprovou. Foram analisadas duas emissões, resultado das postagens do mês de Setembro de 2015; ambas foram classificadas pelo próprio canal como comédia. Além disso, há a divulgação de uma loja online de suplementos no fim dos vídeos e na descrição; existem várias emissões com a temática de academia e estética corporal.

No Plano da Expressão não foi observada uma riqueza de elementos estéticos. Os dois vídeos foram gravados no mesmo formato: a câmera fixa e Oney falando diretamente para o público. Ele se portava de forma natural e falava em linguagem coloquial. A edição foi feita de maneira linear, o que trouxe uma fluidez no decorrer da emissão.

O vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresenta um off falando sobre o que será feito, enquanto Oney na tela, faz menções com a cabeça como se estivesse entendendo o que a voz diz. Já no vídeo “Pergunte ao frango”, havia uma vinheta que aparecia a cada troca de perguntas; a arte consistia em uma inscrição da “Fábrica de frango” e o nome de Oney Araújo abaixo, em um fundo preto. Além disso, as perguntas sempre apareciam em formato de print. O recurso sonoro utilizado foi o som de uma guitarra. No canto inferior direito da tela, sempre havia um ícone com uma pequena foto do criador do canal.

Avaliando o Plano do Conteúdo, os dois episódios apresentaram pouca ampliação do horizonte do público. Isso justifica-se pelo pouco engajamento do programa em assuntos de relevância social ou estímulo à reflexão. Um exemplo de situação em que o tema poderia ser aprofundado, foi no vídeo do dia 21 de Setembro de 2015, em que o apresentador lê uma pergunta que diz: “O que é maior, os músculos do Arnold Schwarzenegger ou os impostos da Dilma?”. A resposta tenta escapar de um debate mais aprofundado. Oney diz que Kai Greene (fisiculturista profissional americano) saiu porque a Dilma entrou em seu lugar e que ela é a nova campeã; a única capaz de enfrentar Phil Heath (um dos maiores fisiculturistas estadunidenses) no próximo campeonato.  Essas citações não apresentam uma ampliação do conhecimento do público que não conhece o universo do fisiculturismo, pois a menos que este faça uma pesquisa, o vídeo não se preocupa em explicar o que cada um dos nomes representa.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, esta não constou em nenhum vídeo, já que o único que aparece na tela e consequentemente tem o protagonismo na representação e nas ideias, é Oney Araújo, um homem jovem e branco. Não há uma pluralidade de pensamentos nem mesmo no vídeo “Pergunte ao frango”, em que há a participação de espectadores, pois foi feita uma seleção das questões que apareceriam, sendo escolhidas as mais descontraídas, de acordo com a proposta de Oney.

O indicador desconstrução de estereótipos foi pouco observado. O episódio do dia 9 de Setembro de 2015 foi avaliado como fraco, por ter apresentado um assunto sério sem aprofundamento.  O vídeo começa com o apresentador imitando Mc Melody, uma garota de 10 anos, cantora de funk. No momento da música em que ela daria um falsete – sua marca particular – aparece na tela um porco grunhindo. Oney é irônico ao falar que ela é uma cantora profissional e que tem um agente, ao contrário dele.

Depois de zombar do jeito da garota cantar e até do nome do pai dela – Belinho, seu agente – ele faz um apelo real para as pessoas pararem de “zoar” a Melody. Ele argumenta que ela é uma criança e não tem culpa e nem noção do que faz; mas o importante é que ela está conseguindo o que quer, que é ficar famosa. Oney fala que inclusive gostou muito de sua música nova e chega a cantar um trecho. Diz ainda que desde que o pai dela não a coloque dançando de maneira sensual na frente de “um monte de macho”, está tudo bem. O debate sobre sexualização da garota, assunto que foi pauta midiática e social no momento em que ela fazia sucesso, foi levantado de maneira superficial, por isso a classificação da desconstrução foi baixa.

Já o quesito oportunidade obteve avaliação fraca no episódio do dia 9 e não constou em 21 de Setembro. Pode-se justificar a diferença pelos temas abordados. No primeiro vídeo, em que o assunto era a Mc Melody havia uma atualidade, uma vez que sua imagem estava muito presente nas redes sociais naquele momento. O segundo vídeo, com temática sobre estética e academia, não era uma pauta social especificamente nova.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Falando da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve uma classificação razoável e uma muito boa. Isso justifica-se no primeiro caso (emissão do dia 21 de setembro de 2015) porque o modo como o vídeo foi conduzido tinha chances de confundir o espectador. No início parecia que seriam esclarecidas dúvidas reais do público sobre o mundo da academia, porém as perguntas demonstraram que ao contrário, o vídeo seria somente de comédia e não visava responder seriamente nenhuma questão. Já na emissão muito boa, o próprio nome do vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresentava o que seria feito; de fato Oney tinha a intenção de fazer um falsete, imitando a Mc Melody .

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como muito bom em ambas as emissões, uma vez que no início dos vídeos eram divulgadas as redes sociais do dono do canal. Além disso, existem citações ao longo dos vídeos sobre personagens de séries – power rangers –, fisiculturistas reconhecidos internacionalmente e até cantoras.

A solicitação da participação ativa do público obteve uma avaliação boa e uma muito boa, pois por se tratar de um programa do You Tube, já existe um estímulo que chama o espectador a interagir. No final dos vídeos, a tela se dividia e enquanto Oney continuava falando em uma divisão, nas outras telas apareciam links para outros vídeos e um link fixado para se inscrever no canal.  Também apareciam novamente suas redes sociais. Além disso, o público sempre é convidado a dar like no vídeo.

No dia 9 de Setembro, a emissão termina com o anúncio de uma promoção e uma propaganda de uma loja de suplementos que o patrocina – aparece o site na barra do vídeo. O canal possui um cupom de desconto para os espectadores, o que além de estimulá-lo a assistir os vídeos, estimula a compra.  O vídeo avaliado como muito bom foi o dia 21 de Setembro, onde todo o conteúdo foi baseado nas perguntas dos internautas, que concorreriam a uma camiseta através de um sorteio.

O indicador originalidade/criatividade obteve duas classificações razoáveis. No vídeo “Pergunte ao frango” isso se deu porque a proposta de responder perguntas dos internautas não é nova, porém Oney faz isso com o intuito principal de fazer rir e não de tirar as dúvidas das pessoas, que também não eram sérias. Já na emissão “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, a avaliação se justifica pela reciclagem da proposta de tentar reproduzir alguma ação famosa na internet, sendo assim não foi observada uma originalidade considerável.

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Falando sobre os modos de representação, a atuação de Oney diante da câmera se dava de forma natural, buscando deixar o espectador à vontade. Dentre as emissões, o tema com potencial para um debate de cunho social, não foi tratado de maneira aprofundada, o que reforçou a banalização que o audiovisual geralmente reafirma nesses casos. Também não foi observada uma diversidade de olhares sobre as questões.

No aspecto da experimentação também não houve novidade; os recursos técnico-expressivos utilizados já eram conhecidos no YouTube e as propostas não passavam de reciclagem de formatos já existentes. Existia a possibilidade da participação do público, de modo a tornar o programa mais rico em perspectivas, porém isso foi pouco empregado e a construção da narrativa ficou majoritariamente por conta do dono do canal, Oney Araújo.

Por Letícia Silva

 

Casseta & Planeta, Urgente!

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Casseta e Planeta Urgente! foi um programa exibido pela Rede Globo de Televisão por 18 anos, entre 1992 e 2010, primeiro mensalmente, em uma faixa da programação global chamada Terça Nobre e, em 1998, conquistando episódios semanais, com duração média de 25 minutos.

Redigido e estrelado por Hubert, Cláudio Manoel, Bussunda, Hélio de laPeña, Reinaldo, Marcelo Madureira e Beto Silva, os artistas já haviam participado de programas da Globo escrevendo esquetes para Fantástico, TV Pirata e Dóris para Maiores. Antes disso, comandavam a revista Casseta Popular e o jornal Planeta Diário, periódicos humorísticos com circulação nos anos 1980.

No Plano da Expressão, o programa sempre foi composto por esquetes, sendo característica fundamental as paródias de novelas do horário nobre da Globo. Alguns quadros se mantiveram fixos por mais tempo, como a expedição Casseta Brasil Adentro e o Plantão Urgente. Mas a maior parte dos assuntos abordados era dividida entre clichês da comédia, com piadas já conhecidas e exploradas, e assuntos da agenda midiática do país.

Apesar da sátira e da construção grotesca de alguns personagens e situações, o programa se preocupava com a verossimilhança, por isso, cenários e figurinos eram muito bem produzidos e realísticos, assim como o roteiro era seguido fielmente, não permitindo improviso ou mesmo mostrando erros de gravação, características bastante comuns a programas similares.

Alguns personagens em especial marcaram os espectadores e deixaram na memória seus bordões, como o presidente Folgado Henrique Cardoso, sempre indignado: “Assim não pode! Assim não dá!”, ou a dupla de marombeiros, Maçaranduba e Montanha, com a frase “Vou dar porrada!”, usada para qualquer um que duvidasse da masculinidade deles. Gavião Bueno e seu fanatismo pelo jogador Ronaldo, Marrentinho Carioca e Os Sambabacas também estão nessa lista.

Além disso, o programa utilizava bastantes recursos gráficos inserindo animações em seus quadros, artes gráficas entre um esquete e outro ou até mesmo durante as cenas. A vinheta de abertura passou por várias modificações ao longo dos anos, mas sempre manteve a animação de uma cobra verde junto com o planeta Terra, que compunham o logotipo do programa.

No Plano do conteúdo, o indicador oportunidade foi bem avaliado devido à escolha de temas importantes abordados no programa, como violência, crise política, conflitos geopolíticos, Copa do Mundo, Pan Americano, Jogos Olímpicos, dentre outros acontecimentos paralelos às datas de exibição das emissões aqui avaliadas.

No entanto, o indicador ampliação de horizonte do público, muito dependente do anterior, não foi tão bem avaliado, pois as pautas citadas acima não são tratadas de maneira relevante, mas com ironia ou reafirmando clichês, como associar o Rio de Janeiro à violência, por exemplo. Além disso, o Casseta e Planeta, apesar das sátiras críticas, principalmente quando se trata de política, não deixa claro um posicionamento, transformando a abordagem em deboche.

O indicador desconstrução de estereótipos também não teve boa avaliação, já que o programa se baseia justamente no lugar-comum para fazer graça e utiliza comentários grotescos, trocadilhos vulgares e frases de duplo sentido em boa parte dos diálogos. Em 2003, por exemplo, o programa recebeu um manifesto do povo do Rio Grande do Sul que os acusava, entre outras coisas, de ser racista e ofensivo à honra e tradição do estado sulista. Os atores responderam que as considerações que faziam sobre gaúchos eram apenas brincadeiras e que nunca tiveram a intenção de ofender o povo daquele estado.

Já a diversidade de sujeitos representados foi considerada razoável, afinal, os personagens são de diversas etnias e gêneros, mesmo quando as mulheres são representadas por atores do sexo masculino. No entanto, a baixa classificação se deve à representação cênica de tais sujeitos, que reafirmam clichês e preconceitos.

O diálogo do quadro Plantão Urgente, do programa de 20 de junho de 2006, exemplifica bem os quatro indicadores acima citados. Na cena, um repórter vai falar sobre a polêmica do estado do Acre pertencer à Bolívia e não ao Brasil, e o fato dessa questão antiga atrapalhar assuntos políticos entre os dois países. No entanto, a oportunidade de discussão e debate se perde quando o presidente da Bolívia, descendente indígena, é representado grotescamente, além de falar em “portunhol” e ser debochado pelo repórter.

REPÓRTER: Na semana passada, o presidente da Bolívia, Pé Nuevo Morales, continuou enchendo o ‘tchaco’, radicalizou ainda mais e mandou o Brasil pra quele lugar que rima com o nome do nosso querido país. Não é mesmo, índio?
MORALES: É verdade. Nosotros somos unpuevo de los Andes, por isso estamos cagandes e andandes para el Brasil. E, no más, quiero de vueltael Acre!
REPÓRTER: Mas o senhor perdeu o lacre? Eu pensava que o sr. era espada!
MORALES:Soy espada e matador! Me refiro ao estado do Acre, que losbrasileños nos sacaram enla mano grande trocando por um cavalo. E tudo para plantar as seringueiras e depois los seringueiros, los chicos brasileños que passam lo dia inteiro sacando elleche de lo pau.
SERINGUEIRO: Não acredito que o sr. fez essa quizomba toda, arrumou essa presepada toda na geopolítica da América Latina só pra fazer, pela milionésima vez, essa piadinha de seringueiro tirando leite do pau! Ô, Lula, tu não vai fazer nada? Dá um pau nesse índio, rapá!
(Casseta e Planeta– episódio 20/06/2006).

Abaixo, o gráfico com a avaliação de cada emissão em relação ao plano do conteúdo:

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No plano da mensagem audiovisual, o Casseta e Planeta Urgente! foi muito bem avaliado no indicador clareza da proposta, considerado bom em dois episódios e muito bom nos outros três avaliados. Isso se deve à organização do programa, dividido em quadros e esquetes, à junção de todos os elementos do plano da expressão, e à fidelidade do programa ao seu lema “jornalismo-mentira e humor-verdade”, fatos que tornam claros a sua proposta.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas também obteve avaliação satisfatória em quatro dos episódios, pois o programa satiriza novelas e publicidades, além de falar de acontecimentos reais, como a Copa do Mundo, e terem participação e entrevistas com celebridades e personalidades conhecidas, trazendo verossimilhança ao programa. O que conferiu nota máxima ao episódio do dia primeiro de dezembro de 2009, nesse critério, foi, principalmente, o quadro Expedição Casseta Brasil Adentro, no qual a intenção do programa é viajar pelo Brasil mostrando as diferenças culturais que o país tem por meio de matérias especiais de comportamento e enquetes.

Já o episódio que recebeu nota razoável foi o de 20 de junho de 2006, um especial em homenagem a Bussunda, no qual não houve preocupação do programa em manter seu padrão, mas mostrar tudo o que o falecido humorista interpretou. Ademais, o Casseta e Planeta Urgente! tornou-se uma marca, com lançamento de dois filmes, oito livros, revistas e até CD’s.

Já a solicitação da participação ativa do público foi avaliada entre razoável e boa, pois há interação direta com o espectador e, em alguns episódios, um preview do próximo bloco antes do intervalo comercial. Além disso os produtos fictícios das Organizações Tabajara, além da sátira às publicidades televisivas, têm como objetivo entreter o espectador, como se fossem feitos para eles.

O indicador originalidade/criatividade não obteve notas tão relevantes quanto os outros indicadores da mensagem audiovisual, pois Casseta e Planeta Urgente! é uma reciclagem de outros programas que passaram pela Rede Globo, principalmente o TV Pirata, com suas paródias sobre a programação do canal, e o Dóris Para Maiores, do qual a principal influência foi a adoção de uma apresentadora.

Confira, abaixo, o gráfico referente a cada uma das emissões de acordo com os indicadores da mensagem audiovisual:

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Com base na análise feita é possível concluir que o Casseta e Planeta Urgente! trata-se de um programa de comédia, no qual não há preocupação com a desconstrução de conceitos arraigados.No modo de representação dos personagens e na construção de diálogos, o programa deixa a desejar quando se utiliza de tantos estereótipos, quando poderia, na verdade, desconstruí-los ou, no mínimo, amenizá-los em vez de reforça-los. Como visto, pautas atuais e relevantes foram abordadas, mas poderiam ter sido aprofundadas de forma a estimular o debate ou uma discussão sob novos pontos de vista.

Apesar de não trazer inovações quanto ao formato, o Casseta e Planeta explora muito bem os recursos audiovisuais, com roteiro bem estruturado e verossímil, e produção cênica bem elaborada. Assim como a interação com o público e a adaptação a outras plataformas, características muito claras no programa e que de certa forma trazem a ele um diferencial em relação a outras produções do gênero.

Por Lilian Delfino

Barbixas

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Barbixas é um canal do YouTube criado em 29 de dezembro de 2007, que conta com esquetes e jogos de improviso inspirados no programa americano Whose Line Is It Anyway?. Publicando vídeos novos todas as terças e quintas, seu conteúdo mescla esquetes de estúdio e apresentações que a Cia. Barbixas de Humor faz em todo o Brasil desde 2008. O espetáculo Improvável, idealizado pelos barbixas Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento, Elidio Sanna e um ator convidado, é um projeto baseado em jogos de improviso feitos ao vivo com a ajuda da plateia. O canal tem hoje a direção geral de Elidio Sanna, um dos integrantes da companhia, e a produção e captação de imagens da TJ Produções.

No Plano da Expressão, são destaques o cenário, a composição gráfica e a vinheta final de cada vídeo. Em todos os oito conteúdos publicados no mês de setembro de 2015, observamos uma padronização estética do canal, ainda que conteúdo e formato entre os vídeos de esquetes e os de improviso sejam diferentes. Nos vídeos de improviso gravados do espetáculo Improvável, o cenário é sempre o mesmo: o show é sempre em um teatro, com cortina azul escura ao fundo, cadeiras e caixas alinhadas também ao fundo, e iluminação focada nos atores. A composição gráfica, nos dois formatos, é sempre a mesma: nos primeiros segundos do vídeo aparece à direita da tela o logo do programa com um espaço amarelo contendo o endereço eletrônico do site dos barbixas, e a palavra “inscreva-se”. Até o final de todos os conteúdos permanece no lado direito inferior da tela o logo característico do canal: um rosto redondo e amarelo, de olhos pretos e sorriso grande, com pequenos pelos abaixo da linha que delineia o rosto, remetendo às barbas que os integrantes do elenco têm no queixo.

Quanto às vinhetas, o canal só preserva as finais, já que todos os vídeos analisados nos levam direto ao conteúdo. As publicações não têm uma média padrão de tempo, mas nota-se que há uma preferência por vídeos mais curtos, de três ou quatro minutos, embora tenha alguns com cinco, seis e até oito minutos. Todos os vídeos com o formato de esquete terminam com blocos retangulares nas cores amarelo, branco e preto subindo na tela em diagonal, e encerrando com o logo do canal no centro. E nos vídeos de improviso, anterior a essa parte da vinheta final, aparecem também vários blocos coloridos que sobem na tela e o nome “Improvável” acima da frase “um jogo provavelmente bom”, no centro.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade foi o melhor avaliado em todas as emissões. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o canal Barbixas um programa atual porque utiliza nos jogos de improviso as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um, e nos esquetes temas muitas vezes atuais e/ou pertinentes para a sociedade.

Para o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, somente o vídeo Trem se mostrou razoável. Os demais foram avaliados como “fracos”, pois, apesar de mencionar pessoas de algumas classes distintas da sociedade, fica claro que a preocupação do canal não está na diversidade dos sujeitos que serão representados, mas sim no roteiro que será falado (no caso dos esquetes). No caso dos vídeos de improviso, essa diversidade também não é muito identificada, pois como a plateia que dá o tema para jogos não aparece na tela em momento algum, não tem como saber se ela é diversa, constituída por pessoas de todas as cores, idades, estilos e classes sociais.

Ainda no plano do conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos recebeu avaliação fraca em todas as emissões, pois utilizou o estereótipo, nas poucas vezes que apareceu, para a afirmação, e não para a desconstrução. No último indicador de qualidade desse plano, o ampliação do horizonte do público, percebe-se que somente os vídeos do formato esquete foram avaliados, sendo dois deles razoáveis, um, fraco, e outro, muito bom. Em nenhuma das emissões de improviso podemos afirmar que há preocupação em fazer com que os espectadores interajam e reflitam sobre assuntos polêmicos ou contraditórios, pois os temas são pontuais, sugeridos pela plateia e sem maior significação social. A ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias só foi possível, portanto, nos vídeos de esquete, que reforçam a ideia de que com os vídeos de improviso o canal quer apenas que o espectador se divirta e dê risadas, e que com os esquetes o público reflita depois de rir. Veja, a seguir, o gráfico do plano do conteúdo:

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Quanto à estética, como já falado, o canal preserva elementos característicos e semelhantes para os dois formatos que apresenta, mas, com relação ao conteúdo e consequentemente às suas qualidades, as diferenças são evidentes. Na Mensagem Audiovisual, por exemplo, os indicadores de qualidade clareza da proposta e solicitação da participação ativa do público foram muito bem avaliados em todos os quatro vídeos de improviso do canal. Uma vez que esse formato só é desenvolvido pela constante participação do público e que um “mestre de cerimônias” explica todos os jogos antes de o mesmo ser iniciado, dá os desafios aos atores e seleciona as sugestões da plateia, a presença desses indicadores torna-se simultânea ao ato da cena. Um exemplo em que esses dois indicadores é identificado está na emissão publicada no dia 3 de setembro de 2015, intitulada Improvável – Frases #37:

MESTRE DE CERIMÔNIA: Dani e José Luiz vão jogar o jogo das frases. Nesse jogo eu vou pedir pra eles tirarem uma frase da caixinha laranja, que tem frases que vocês escreveram lá fora [olha para a plateia]. Cada um tira duas e coloca no bolso por favor. Eles vão improvisar uma cena e a qualquer momento eles vão tirar uma dessas frases, falar e ter que se virar pra fazer essa frase ter sentido na cena. Eu queria que essa galera daqui da direita falasse um objeto pra mim, um objeto comum, qualquer.

ESPECTADOR [grita do fundo]: Castiçal.

MESTRE DE CERIMÔNIA: Castiçal. Muito bem. Valendo!

(Barbixas – episódio Improvável – Frases #37 3/09/2015).

Nos esquetes, a presença do indicador solicitação da participação ativa do público também se faz presente, com boa avaliação em todas as emissões, mas de forma diferenciada. Por ser um formato que exige roteiro, produção e gravação prévios, a participação direta do público, como no improviso, torna-se impossível. No entanto, o indicador é observado na solicitação da participação indireta do público, pois com uma linguagem clara e apropriada ao tema proposto, o espectador se identifica e se aproxima do canal; através das diversas redes sociais a que o canal se dispõe, o público pode deixar comentários e sugestões; e ainda através dos links que aparecem ao final de cada vídeo, que solicita a sua participação e interação através do seu clique para outros conteúdos do canal. Na clareza da proposta, esse formato também foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas, pois o canal deixa bem claro o seu objetivo ao trabalhar um formato diferente do outro: no improviso, o canal quer apenas que o espectador ria, e nos esquetes, quer fazê-lo rir e pensar.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Barbixas também foi destaque. Como o programa de TV Quinta Categoria, em nível mundial não podemos dizer que o canal foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado, o programa americano Whose Line Is It Anyway?. Entretanto, a Cia. Barbixas de Humor foi inovadora no Brasil ao ajudar a popularizar esse formato através das apresentações que faziam nos teatros e da estreia do canal no YouTube, que mais tarde inspirou a criação do programa Quinta Categoria, exibido a partir de março de 2008 no canal MTV. Além de experimental, os Barbixas são também criativos e originais, pois os três comediantes são talentosos e experientes no que fazem, o que fomenta a criação dos jogos e dos esquetes e enriquece a qualidade artística do programa. A seguir, o gráfico da mensagem audiovisual:

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Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no canal do YouTube Barbixas. Quanto à experimentação, vimos que o programa foi inovador no Brasil porque ajudou a popularizar os jogos de improviso, formato que, entretanto, não foi possível se unir ao humorismo, uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Nos esquetes, porém, o humor é identificado por apresentar, nesse formato, ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias, que são requisitos básicos da representação. Um exemplo está no vídeo publicado no dia 15 de setembro de 2015, chamado Trem, que alerta para a importância de se discutir o pouco uso da malha ferroviária do Brasil e o intenso uso da malha rodoviária, que traz prejuízos imensamente maiores se comparado aos trazidos pela ferroviária.

Por Luma Perobeli

Cilada

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Cilada é uma sitcom brasileira exibida pela Rede Globo, entre 2005 e 2009, primeiramente como um quadro do Fantástico e, posteriormente, como a primeira série nacional do canal Multishow, encerrando-se com seis temporadas e 53 episódios. Com aproximadamente 25 minutos de duração, o programa mostra situações corriqueiras que podem se transformar em problemas, ciladas.

Estrelado por Bruno Mazzeo, como o protagonista Bruno, o programa conta ainda com Renata Barbosa, namorada de Bruno na primeira e segunda temporadas, e Débora Lamm, que assume o papel da namorada a partir da terceira temporada. Além desses, outros personagens complementam as cenas, de acordo com o tema tratado no programa, porém, a maioria interpretado pelo próprio Mazzeo e, geralmente, são paródias de celebridades ou outros personagens famosos do audiovisual.

No Plano da Expressão, são características marcantes do programa a narração em off e também a introdução feita no início de três dos cinco episódios analisados, quando Bruno contextualiza o assunto, falando diretamente ao espectador, como em Supermercado, exibido em 20 de outubro de 2006, no qual a primeira fala de Bruno era: “Poluição sonora, poluição visual, filas enormes, tempo e dinheiro gastos três vezes mais que o esperado… Se você ainda não percebeu, isso aqui é uma lista de supermercado. Essa lista tem todos os ingredientes de uma receita perfeita de cilada. Quer dizer, todos não, né, porque em lista de supermercado a gente sempre esquece alguma coisa”.

A partir da sexta temporada, algumas mudanças ocorrem no programa, como a retirada da “Análise Cilada” e da introdução. No entanto, acrescenta-se a apresentação do episódio como “Cilada de hoje” e o respectivo nome da emissão, e a alusão de passagem do tempo com uma ilustração de dia e noite em time lapse.

A vinheta de abertura consegue caracterizar bem a proposta do programa: quando no Fantástico, a abertura exibia o próprio Bruno em “situações-cilada”, como ficar sem água durante o banho ou ser empurrado pela multidão para dentro do metrô quando se está tentando sair. Já no canal Multishow, a vinheta passa a ilustrar uma situação comum (pessoas andando pela rua), mas logo há mudança no clima (alusão de um céu claro se transformando em tempestade), confusão no trânsito, o som estridente de sirenes ao fundo e os pedestres correndo e se esbarrando, passando da calmaria e da mesmice para o caos. A música-tema, no entanto, interpretada por Gabriel, o Pensador, permanece a mesma em todas as temporadas e complementa a sugestão do que será exibido: “Parece que ‘tá’ tudo no esquema, mas ‘tô’ sentindo cheiro de problema/ Sempre tem alguma coisa errada/ Eu falei ‘pra’ você, só pode ser cilada/ Falei ‘pra’ você, mais uma vez, cilada”.

A caracterização dos cenários de cada episódio também marca o programa, como no episódio Supermercado, o qual é bastante fiel a um supermercado real, com corredores, caixas, produtos e outros elementos característicos de tal espaço.

No Plano do Conteúdo, o indicador que mais se destacou foi o de desconstrução de estereótipos, com nota mínima em todas as emissões, pois o programa utiliza exatamente os clichês da vida comum para causar o riso no telespectador. No episódio Nova Chefe, exibido em 17 de outubro de 2009, por exemplo, fica bem claro como vários chavões machistas são empregados nos trocadilhos e piadas de duplo sentido a respeito da nova chefe, e outros lugares-comuns como a “mulher mal comida”, como é dito por outro personagem, e o sentimento de inveja entre mulheres, exemplificado quando Soraya conta a Bruno sobre a nova chefe e logo a chama de “ridícula”, sem nenhum motivo aparente:

BRUNO: “É? Por que?”

SORAYA: “Ah, sem noção, sem critério, totalmente equivocada, Bruno.

BRUNO: “Que foi? Já chegou demitindo?”

SORAYA: “Não! Sombra, perfume, a essa hora da manhã, você acredita?!”

BRUNO: “Ué, mas tem problema isso?”

SORAYA: “Só porque é chefona, só porque é poderosa, se acha. Sem falar que é ‘uó’! Não é, Gerson?”

(Cilada – episódio Nova Chefe 17/10/2009)

Em outros episódios também são colocados em cena vários outros estereótipos, como a “mulher chiclete”, a “mulher feia” que é aquela que os homens só saem quando estão bêbados, e a “faladeira”. No episódio Mulher Chiclete, exibido em 10 de outubro de 2009, é possível perceber algumas tentativas de desconstrução (na primeira afirmação da frase), mas logo na mesma fala, outros clichês são reafirmados:

BRUNO: “Engraçado, muitas mulheres acham que têm que dar uma desculpa por terem transado na primeira noite, como se fosse um crime. Agora, ‘pra’ dizer que vão dormir na sua casa, não precisam de desculpa nenhuma, né! Aí é a coisa mais natural do mundo!”.

Mas em outro momento do episódio, quando Roberta (Juliana Baroni), a namorada, pergunta sobre impedimento no jogo de futebol, Bruno afirma: “Tem gente que acha que esse papo de mulher não entender muito de futebol é folclore. Mas quem acha isso não deve entender muito de mulher”.

No indicador oportunidade, as emissões também não tiveram boa nota, sendo avaliadas como fracas, porque tratam de temas comuns, sem uma abordagem diferenciada ou até mesmo ousada. Apesar de essa ser a proposta do programa, tais temas não despertam outro tipo de reflexão no público senão a que já é arraigada a respeito dos assuntos, o que interfere diretamente no indicador de ampliação do horizonte do público. Nesse aspecto Cilada deixa a desejar quando não aproveita os assuntos que provocam identificação no espectador, para trata-lo de forma diferenciada e agregar novos valores a respeito deles. Desse modo, os episódios também foram considerados fracos nesse quesito.

Sobre a diversidade de sujeitos representados, o programa foi avaliado como razoável, por representar pessoas de diferentes classes econômicas, tanto nos personagens principais, quanto nos secundários. Mas não há representatividade, por exemplo, da diversidade de gênero ou de raça, visto que todos os personagens nos episódios analisados são heterossexuais e brancos. Também não existe diversidade no ponto de vista, pois a maior parte da série é narrada pelo protagonista.

Abaixo é possível conferir o gráfico com as avaliações de qualidade do plano de conteúdo:

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De acordo com os critérios de análise da mensagem audiovisual, o primeiro indicador avaliado, clareza da proposta, recebeu muito boa, nas cinco emissões analisadas. Isso se deve ao formato facilmente repetível do programa, com elementos e personagens que são reconhecíveis ao longo das temporadas e que se adaptam a todos os episódios, independentemente do tema deste.

Já no solicitação da participação ativa do público, três episódios receberam nota boa devido à linguagem adotada pelo programa, de acordo com o público-alvo (jovens e adultos, entre 15 e 30 anos, das classes A, B e C) e pelo uso de expressões e gírias como “pô”, “cara”, “que saco!”, “seu”, em vez de “senhor”, e inclusive alguns palavrões. Também há comunicação direta com o espectador, principalmente por parte do protagonista, através das câmeras.

Alguns elementos gráficos como o “Comentário Cilada” – quando é introduzida uma explicação, ou mesmo um pensamento não dito de Bruno em um plano a parte, uma pequena televisão no canto inferior da tela – e a “Análise Cilada”, que interrompe a cena e insere um breve contexto histórico ou ponderações sobre o tema tratado no episódio, também ajudam nesse indicador por ter a intenção de clarificar o entendimento do leitor sobre a cilada daquele episódio. Os dois episódios que receberam nota 2 não utilizam mais esses elementos, fato que diminui a interação direta com o público.

No indicador originalidade e criatividade, todas as emissões receberam nota razoável, pois é possível perceber um formato diferenciado na sitcom, que opta, por exemplo, pela participação de personagens fora da cena principal, interpretados pelo mesmo ator, um complemento incomum nas séries nacionais. Além disso, o “Comentário Cilada” e o “Análise Cilada”, complementam a linguagem diferenciada característica do programa.

Sobre o diálogo com/entre plataformas, as emissões também foram consideradas razoáveis, pois percebe-se, por exemplo, a paródia e referência ao ator Alexandre Frota, no personagem Alexandre Focker, presente em todas as emissões avaliadas. Além disso, a história foi adaptada para os cinemas, no filme “Cilada.com”, em 2011, mantendo a maior parte do elenco, roteiristas e enredo, no entanto, vários personagens que existiam na série não fizeram parte do longa-metragem. O programa também cita lugares reais do Rio de Janeiro, como bairros e estabelecimentos.

A seguir, podemos observar a nota de cada episódio analisado de acordo com os critérios de qualidade da mensagem audiovisual:

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Considerando as avaliações, o programa Cilada está inserido no gênero comédia, mesmo possuindo algumas características satisfatórias do humor de qualidade, como originalidade/criatividade e solicitação de participação ativa do público.

A sitcom é assim considerada por ainda fazer uso, por exemplo, de vários clichês sociais, muitas vezes com cunho machista ou homofóbico, e por ainda construir personagens grotescos baseados em tais estereótipos, como no caso de Alexandre Focker.

No quesito experimentação visual, Cilada utiliza bem diversos recursos adicionais à cena normal, como “Análise   Cilada”, com animações gráficas que aumentam a interação direta com o público e demonstram preocupação em fazer o espectador entender, de fato, a narrativa do programa. No entanto, o fato de não explorar temas da agenda midiática (oportunidade) ou que estimulem uma discussão, levando a outros pontos de vista (ampliação do horizonte do público), faz com que a sitcom volte ao lugar-comum, sem trazer nenhum diferencial para o âmbito do audiovisual brasileiro.

Por Lilian Delfino

Amada Foca

foto-amada-foca-trailerAmada Foca é um canal de vídeos do YouTube, que se descreve como humorístico. Ele é composto por Bento Ribeiro, Bruno Sutter, Paulinho Serra, Daniel Furlan e Paulinha Vilhena e dirigido por Marcelo Botta e Gabriel Di Giacomo; foi criado em 29 de Maio de 2013. Os horários das postagens são sempre às 20h, sendo que no mês analisado, setembro, a programação se dividia entre o reality Casa da Foca às segundas e o programa Foca News às quintas.

No Plano da Expressão, um dos aspectos de destaque é a tela preta em que aparecem inscrições, como se alguém estivesse digitando informações como passagem de tempo ou explicações para o espectador. Além disso, todos os vídeos tem a marca do canal na parte inferior direita da tela. Uma característica marcante do reality Casa da Foca é a constante participação da produção e do operador de câmera do programa. O elenco interage com quem está nos bastidores, principalmente através de conversas.

Falando sobre o Plano do Conteúdo, o indicativo ampliação do horizonte do público não constou em seis dos sete episódios analisados. Isso acontece porque não são levantados temas de relevância para o espectador ou que trazem algum tipo de reflexão. O único vídeo tido como razoável foi o “Casa da Foca #01”, em que Bento Ribeiro expõe que tem síndrome do pânico. Mesmo sendo um assunto importante por poder contribuir para informar as pessoas, este não foi tratado de maneira aprofundada, talvez até pela proposta do canal de levar situações leves a quem assiste. Ele está triste com a possibilidade do canal acabar e diz que ultimamente sua síndrome do pânico está atacada: “A síndrome do pânico só para quando eu tenho que ‘comer mulher’. Mas agora responsabilidade, sair na rua pra pagar conta, trabalhar mesmo, aí a síndrome do pânico bate violenta, entendeu?”. A forma como é explorada a questão, não amplia consideravelmente a perspectiva do público.

O indicador diversidade de sujeitos representados obteve seis avaliações fracas e não constou em um episódio, devido à falta de pluralidade dos participantes. Eram em sua maioria homens, brancos, jovens e que tinham a personalidade parecida, o que não ampliava a diferença de perspectivas do programa.

Quanto à desconstrução de estereótipos, esta não constou em nenhuma das emissões. Em alguns vídeos ocorre o contrário: os participantes reforçam algum tipo de senso comum. No dia 23 de setembro de 2015, por exemplo, o programa usa como personagens dois velhinhos preconceituosos. A ideia que o episódio passa é de querer reforçar esses comportamentos a fim de fazer o espectador perceber que é prejudicial. Porém, isso é feito com tanta segurança que algumas pessoas podem entender como verdadeiro e acreditar. Este recurso de reforçar para tentar desconstruir não foi utilizado de maneira a ajudar o espectador a pensar, além de deixar confusa a proposta do programa.

O padre representado começa o assunto falando de “homossexualismo” e cita que isso e o food truck estão acabado com a juventude deste país. Seu convidado faz comentários como: “É tudo bicha”, “Isso aí é armação do PT”, “A Rede Globo quer trocar o sexo das nossas crianças”, trazendo opiniões reais, mas contribuindo para uma afirmação de que pessoas mais velhas tem esse tipo de pensamento. Também ridiculariza um antigo caso do jogador Ronaldo com uma travesti, brincando com a situação.

No dia 7 de setembro de 2015 também há outra demonstração de reafirmação de um tipo de preconceito. Bento “leva” o público para conhecer a Casa da Foca e aproveita para mostrar a decoração. Quando ele se depara com uma máscara de origem africana, diz: “Isso que é escroto, foi o Serra (Paulinho Serra) que trouxe. Essa máscara bizarra, uma merda.”. Em outros episódios, Bento também utiliza o termo “viado” como xingamento.

O indicador oportunidade não constou em várias emissões vistas e obteve somente uma avaliação boa. Esta foi no vídeo de 16 de setembro de 2015, um esquete com a temática Rock in Rio. O tema era atual, uma vez que o festival começaria no dia 18 do mesmo mês. No episódio de 23 de setembro de 2015 o assunto principal é o Snapchat, que segundo o personagem do vídeo, é um aplicativo que só serve pra tirar foto de pênis. Esse aplicativo estava sendo muito usado e comentado na época, o que indica a oportunidade. Os outros episódios utilizavam temas que não eram necessariamente pautas midiáticas ou sociais.

Confira os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi bem avaliado na maioria das emissões analisadas. A proposta é clara nos dois formatos, tanto os esquetes quanto os vídeos temáticos da Casa da Foca, têm a intenção de fazer rir mostrando situações cotidianas.  Os únicos vídeos com avaliação razoável foram os do dia 16 e 23 de setembro de 2015 (“Rock in Rio II” e “Juventude em debate”). A justificativa é que nos dois casos a forma narrativa utilizada dá a entender uma intenção de quebra de estereótipo, porém esta é explorada de maneira inversa, reafirmando por meio de falas e ações das personagens, o que pode confundir o espectador. A ironia também é utilizada, mas não a ponto de fazer as pessoas pensarem sobre o assunto.

Falando sobre diálogo com/entre outras plataformas, este foi muito bem avaliado. Pode-se observar que há em vários episódios citações sobre o canal MTV, uma vez que alguns dos integrantes já trabalharam na emissora. Também há em vários vídeos a aparição de bonecos que são personagens de filmes, os quais Bento Ribeiro coleciona. As duas emissões que tiveram maior demonstração desse diálogo foram as do dia 10 e 23 de setembro, que apresentavam paródias de programas televisivos. A primeira parodiava um programa policial, apresentando o fenômeno do Stand Up de maneira sensacionalista, enquanto a segunda buscou imitar o modelo de um programa religioso, que inclusive cita o aplicativo Snapchat.

Em relação à solicitação da participação ativa do público, esta obteve variações entre razoável e boa. Isso se justifica pelo próprio tipo de plataforma utilizada, o YouTube, que possibilita o público participar com comentários, curtidas e compartilhamentos. Além disso, ao final de cada vídeo é fixado um link na tela convidando as pessoas para se inscreverem e assistirem vídeos antigos do canal.  O critério utilizado na diferença das avaliações foi o tipo do vídeo analisado. Quando se tratava de vídeos do reality em que o elenco falava diretamente com a câmera, trazendo uma proximidade com o seu público e tinha a linguagem mais informal com gírias e palavrões, por exemplo, foi tido como bom; uma vez que esse era o diferencial. Nas outras emissões em que a solicitação foi razoável, a avaliação foi dada somente pelo olhar diretamente para a câmera.

O quesito originalidade/criatividade foi avaliado como considerável em quase todas as emissões, principalmente nos episódios de Casa da Foca. Observou-se uma pequena inovação no esquema de câmera, que ficava na mão e não fixa. Sempre mostravam a casa e a reação do participante de maneira natural, sem roteiro, o que ocasiona uma proximidade com o público. Geralmente eles agiam de maneira espontânea, como no episódio do dia 28 de Setembro de 2015, em que Paula Vilhena ao ser surpreendida com a nova casa, diz estar muito feliz, mas não consegue chorar por estar de ressaca

No gráfico abaixo encontram-se os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Observando o canal como um todo, nota-se que a representação utilizada não descontrói estereótipos, sendo que algumas vezes até reforça através das ações e falas de alguns participantes.  A atuação dos personagens nos esquetes geralmente eram satíricas e buscavam usar a ironia para representar as situações do cotidiano. Nos episódios analisados essa escolha não foi eficaz, uma vez que ao reafirmar os lugares-comuns, mesmo com a intenção de fazer o espectador pensar, isso poderia trazer a impressão contrária. De modo geral, não foram apresentados temas que davam atenção à diversidade, crítica social ou reflexão.

A experimentação no modo de filmagem nos episódios de Casa da Foca deixava evidente a personalidade dos participantes, uma vez que mostrava-os de maneira natural, sem filtros. Também foi utilizado o recurso da câmera subjetiva, como se fossem os olhos do personagem. As propostas observadas nos vídeos analisados são reciclagem de formatos que já existem. Nos episódios do reality show nota-se somente mudança da temática: a utilizada no canal é a mudança da casa que eles usavam para trabalhar. Já nos esquetes, não se nota nenhuma grande inovação, uma vez que pode-se comparar o que foi feito com esquetes de programas da MTV, por exemplo. Além disso, o público não era parte da construção da narrativa, mesmo que a plataforma seja propícia.

Por Letícia Silva

Minha Nada Mole Vida

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Dos criadores Luiz Fernando Guimarães, Alexandre Machado e Fernanda Young, Minha Nada Mole Vida é um seriado de televisão que estreou na Rede Globo em 7 de abril de 2006, com direção de José Alvarenga Jr e produção de Daniel Vincent. No ar em 2006 e 2007, o programa conta com 23 episódios de 30 minutos cada, divididos em três temporadas, exibidos todas as sextas-feiras, às 23h. Protagonizado por Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) e Silvana (Maria Clara Gueiros), o seriado traz o dia a dia de Jorge Horácio com o filho Hélio (David Lucas) e a ex-mulher Silvana, que o obriga judicialmente a ficar mais tempo com o filho.

Fazendo uma sátira aos programas que se dedicam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., Jorge Horácio é um jornalista que comanda o programa Jorge Horácio By Night, atração comumente vista por Silvana, a ex-mulher, que torce para que o ex cometa gafes ao vivo. Paralela à sua vida de apresentador de TV, a trama mostra a guerra travada entre os adultos por causa de Hélio, o filho do casal, de apenas 10 anos, que vive no meio das brigas, discussões e implicâncias dos pais.

No Plano da Expressão, alguns aspectos chamam a atenção do espectador, como a vinheta do programa, o ritmo, a linguagem e o cenário. Na abertura, pai e filho fazem uma dança sincronizada da música de fundo Não é Mole Não, do grupo carioca Funk n’ Lata, que dialoga não só com o nome do humorístico, mas também com o seu conteúdo, composto por situações embaraçosas, complicadas e cheias de confusões que provam que a vida do protagonista Jorge Horácio não é fácil. Para o fechamento do programa não há vinheta final, pois os créditos aparecem em letras brancas, na parte de baixo do plano, enquanto os últimos segundos do episódio passam na tela.

Com relação ao código sintático, o ritmo do programa nem sempre é linear, como no episódio do dia 12 de maio de 2006, quando no primeiro minuto, após uma cena entre uma mulher desconhecida e Hélio, aparece na tela a frase “Poucos dias antes…” em letras brancas e fundo preto, deixando evidente que o que será mostrado a seguir já aconteceu em momento anterior. Somente no último bloco do programa, com a frase “Naquela noite, então…”, também em letras brancas e fundo preto, é que o tempo linear da trama é retomado, com parte da cena anteriormente mostrada sendo passada de novo.

Quanto à linguagem utilizada pelo programa, a tentativa é de aproximação com o público jovem, já que aposta num roteiro coloquial, com expressões e gírias comumente faladas por esse tipo de espectador. Palavras de baixo calão também se incluem nas falas dos personagens, como cagando, cassete, vagabunda, cagada, imbecil e otário. Além dos termos chulos, frases de duplos sentidos também são muito proferidas, como no diálogo a seguir, exibido no mesmo episódio citado anteriormente, em que uma conversa sobre profissões se inicia na mesa de jantar, e o foco do assunto é a garota de programa Sônia:

JORGE HORÁCIO: A Bia Sônia faz parte de uma geração de mulheres que optou por ralar, e muito.
SÔNIA: É verdade, eu sempre ralei muito.
JORGE HORÁCIO: Ela rala demais.
SILVANA: Olha, que interessante. Você tá ralando com o que agora?
JORGE HORÁCIO: Computação. A Bia Sônia acabou de criar uma internet que vai substituir essa nossa internet. Ela vai ficar rica. Muito rica.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

Quanto ao cenário, o seriado se desenvolve em dois lugares principais: o apart-hotel em que Jorge Horácio vive (um ambiente pequeno, mas confortável e arrumado) e as festas que o personagem cobre (geralmente com fundo escuro, com convidados e garçons passando). Também é característico do programa mostrar a frente do prédio do apart-hotel de Jorge Horácio, em câmera contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima) com leve aproximação, antes de mostrar uma cena no referido apartamento. Situações como essa também acontecem no início ou no meio do episódio em outros lugares, como no condomínio de Silvana, para situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará. No dia 4 de maio, por exemplo, no episódio intitulado “Noite de queijos e vinhos”, a história se inicia mostrando a imagem de um prédio de dois andares, de cor marrom e janelas abertas, com barulhos e vozes de crianças ao fundo. Com isso, entendemos que a trama começará num colégio, o que fica comprovado quando na cena seguinte pai, mãe e filho estão sentados numa mesa olhando para uma senhora que fala sobre as notas de Hélio.

Um aspecto do plano da expressão que é marca do programa Jorge Horácio By Night e que se tornou marca também do Minha Nada Mole Vida, é a estrofe de sucesso Everybody dance now, do grupo C&C Music Factory, sucesso das pistas de dança dos anos 1990. Comumente cantada para Jorge Horário quando as pessoas o reconhecem, o trecho é uma marca do personagem porque é o refrão da música de abertura do seu programa, o Jorge Horácio By Night. E, apesar de na abertura do seriado Minha Nada Mole Vida a música ser outra, essa metalinguagem utilizada caiu no gosto popular e fez de Everybody dance now uma expressão muito conhecida e falada por diversos grupos de amigos da vida real.

Das emissões analisadas, três eram de 2006 e duas de 2007, e as únicas mudanças aparentes foram nas cores de fundo da abertura do programa, que antes eram brancas e em 2007 ficaram coloridas, com um mix de cor que acompanha o ritmo da música de fundo, e a troca do ator que interpreta o cinegrafista da trama, que antes era o Cabreira, personagem de Carlos Mariano, e que em 2007 passou a ser o Pascal, interpretado por Pedro Paulo Rangel.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público se deu de forma razoável em quatro episódios e de forma considerável em um. O programa aborda novos conceitos, opiniões e propostas para o público, mas não de uma forma que gere de fato a reflexão do seu telespectador. No episódio Procura-se uma namoradado, razoável para esse indicador, por exemplo, um diálogo entre pai e filho se inicia e levanta a possibilidade de reflexão (ainda que pouca, devido ao curto tempo) nos pais que não medem direito as palavras que falam para os filhos, que acabam assimilando e aprendendo os mesmos modos dos pais.

JORGE HORÁCIO: Então vamos jogar juntos, joga aqui comigo.
HÉLIO: Claro que não, você tá maluco?
JORGE HORÁCIO: Ué, por quê?
HÉLIO: Ué, porque você é ruim pra cassete.
JORGE HORÁCIO: Em primeiro lugar: falar “pra cassete” é feio, tá? Segundo lugar: ruim pra cassete é a vovozinha, por parte de mãe.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

No único episódio em que esse indicador está mais presente, intitulado Noite de queijos e vinhos, a reflexão é facilitada pelo diálogo da última cena, que traz uma representante do colégio questionando Hélio e seus pais sobre a sua nota máxima na prova de matemática.

SENHORA: Eu só gostaria de saber quem foi a pedagoga que fez com que o aluno que nunca tirou mais do que 5,5 em matemática, de repente tire um 10.
HÉLIO: Foi a arrumadeira. E ela não é pedagoga: ela é bissexual.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Noite de queijos e vinhos 04/05/2007).

Com todo o decorrer da trama dessa emissão, que aborda a diversidade sexual, mais a resposta de Hélio à senhora, o pensamento do público foi estimulado à reflexão de que a orientação sexual de uma pessoa nada interfere na sua inteligência ou sabedoria. Talvez o horizonte do público tenha sido incrementado ao ponto de fazê-lo ampliar o seu repertório cultural, enxergar novas formas de vida e quebrar paradigmas e preconceitos.

O seriado não faz o uso abusivo de estereótipos, como geralmente é visto nos programas de humor. O interesse em gerar o riso através da representação fiel e verossímil do cotidiano de pessoas comuns é maior que o de se fazer comédia pela representação deturpada, exagerada e distorcida de tipos já preconcebidos pela sociedade. O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi observado em todas as emissões analisadas, mas com avaliações razoáveis. As duas formas do uso do estereótipo (para afirmar e desconstruir) são identificadas, porém, observamos que no episódio anteriormente citado, o estereótipo de afirmação está presente em vários momentos no decorrer da trama, mas que a última fala proferida (descrita acima) vem para desconstruir esses estigmas e modificar as mentes preconceituosas.

Uma situação em que o estereótipo de afirmação está presente é na fala de Silvana, quando ela está no elevador ao lado de uma mulher quieta e desconhecida e começa a falar sobre a recepcionista Bianca, que é lésbica: “Hum. Pra aquela sapatinha da recepção não tá lá aposto que ela tá naquela bagunça, no apartamento do Jorge Horácio, né. Hum. Sapata é fogo, né. Impressionante. Como é que pode gostar de mulher, gente. Só de pensar nisso me dá uma angústia”. Ao associar a orientação sexual de Bianca com “bagunça”, vemos que a fala de Silvana reforça o estereótipo de que lésbicas se relacionam com várias pessoas ao mesmo tempo. A mesma coisa acontece na fala de Pascal, quando ele responde a Jorge Horácio que não vale a pena tentar conquistar Zenaide, que é bissexual: “Ahh não, pelo amor de Deus. Já namorei uma bissexual e não vale a pena. É o dobro de chance de você ser chifrado”. Com essa fala de Palcal, vemos que ele também reforça um estereótipo ao condicionar a traição de uma pessoa à sua orientação sexual e não ao seu caráter.

Ainda no Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados foi bem variado, tendo se mostrado razoável em uma emissão; bom em três; e muito bom em uma. No geral, os episódios são bem heterogêneos quanto à representação dos diferentes grupos sociais, principalmente no que se refere à cultura, à sexualidade e aos pontos de vista. No episódio que mais se destaca no plano do conteúdo (exibido no dia 4 de maio de 2007), por exemplo, é possível identificar a presença desses três fatores: na cultura, a diversidade está no contraste entre os personagens fixos da trama, Jorge Horácio, Zenaide e Pascal, que fazem parte de uma equipe de televisão, e os personagens convidados, moradores do subúrbio que compõem a festa Noite de queijos e vinhos, e que não entendem as expressões usadas pela equipe de gravação; na sexualidade, a diversidade é trazida à tona com a atuação de Bianca e Zenaide, mulheres lésbicas e bissexuais, respectivamente; e nos pontos de vista a diversidade está nas diferentes opiniões emitidas sobre um determinado assunto, facilmente visualizados nas discussões e discordâncias de Jorge Horácio e Silvana.

Quanto ao indicador de qualidade oportunidade, a avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato de Minha Nada Mole Vida abarcar assuntos cotidianos da vida de uma pessoa, incluindo seus problemas, questionamentos e prazeres na vida social ou familiar. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão, como a vinheta de abertura descontraída, o figurino moderno e a linguagem informal, conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos, que se baseiam na comédia gerada pelo dia-a-dia de um atrapalhado apresentador de TV. No começo de todo episódio, por exemplo, na primeira cena sempre é apresentado ao público um problema da relação de Jorge Horácio com sua ex-mulher ou filho, ou um problema que envolve o seu trabalho. Basendo-se em uma dessas duas questões, portanto, o programa deixa sempre bem clara a sua proposta e já na primeira cena o espectador entende o que será tratado no decorrer do episódio.

Inovação e experimentação não são o carro-chefe do humorístico, já que tinha o mesmo formato de diversos outros programas já existentes e conhecidos do público, como Os Normais, da mesma emissora, que também era protagonizado por Luiz Fernando Guimarães e tinha a mesma equipe de roteiro e direção, além de também focar no dia a dia das pessoas, mais especificamente no de um casal de noivos. Entretanto, com relação à originalidade/criatividade, podemos dizer que Minha Nada Mole Vida foi razoável, pois o modo como é elaborada a história pode gerar curiosidade no público e o instigar a ver os acontecimentos e peripécias do desenrolar da trama.

Solicitação da participação ativa do público também foi razoavelmente identificada nas emissões. Isso se deve, principalmente, à linguagem coloquial utilizada e à estreita relação programa-espectador estabelecida quando a tela que o público vê é a mesma tela que o espectador do Jorge Horácio By Night vê. Esso mescla de ficção e realidade acontece para interagir o público, e fica evidente quando na tela Jorge Horácio é mostrado olhando para a câmera do seu cinegrafista, em plano médio ou plano americano, e posteriormente a sua imagem em grande plano, com o logo da emissora a que pertence o programa de Jorge Horácio no canto inferior direito da tela.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas não foi observado no decorrer dos episódios analisados, mas foi considerado “fraco” apenas pelo fato de o programa dialogar com a vida real e fazer referência implícita aos programas que se dedicavam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., que na época apresentava o Programa Amaury Jr. na RedeTV!, que tinha o mesmo formato que o Jorge Horácio By Night. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual:

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Como aqui procuramos demonstrar, no modo de representação a atuação dos personagens e a construção dos diálogos de Minha Nada Mole Vida geram o riso e reforçam estereótipos, mas deixa claro que de um modo geral o programa têm a intenção de levantar discussões e assuntos pertinentes da vida em sociedade. Entretanto, tais temas abordados, apesar de relevantes, podem não ter sido suficientes para conduzir o espectador a uma reflexão mais profunda, visto que acontecem em tempo curto ou apenas “jogam” a discussão para o público, sem se estender muito, deixando que ele mesmo tire suas próprias conclusões.

Quanto aos modos de experimentação, o uso dos recursos técnico-expressivos se dá de forma a aproximar o espectador. O refrão da música de abertura do programa Jorge Horácio By Nigh, que marcou o personagem de Luiz Fernando Guimarães na vida real, e a mescla de ficção e realidade comprovada quando a imagem vista pelo público de Minha Nada Mole Vida é a mesma que a vista pelo público do Jorge Horácio By Night, evidencia a tentativa de inserir o espectador no processo narrativo, para que assim as chances de envolvimento e reflexão do mesmo sejam aumentadas diante das discussões levantadas pelo programa.

Por Luma Perobeli