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Porta dos Fundos

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“O Porta dos Fundos é um coletivo brasileiro de humor criado por cinco amigos que, insatisfeitos com a falta de liberdade criativa da TV brasileira, decidiram montar um canal de esquetes de humor no YouTube”. Assim o Porta dos Fundos se define em seu próprio site, que acumula o sucesso de mais de quatro anos de atuação nas redes, a marca de 2 bilhões de visualizações e mais de 12 milhões de assinantes, tornando-se o maior fenômeno da internet brasileira e um dos maiores canais existentes até hoje, já que é considerado o 5º maior canal de entretenimento do mundo, segundo o site Think With Google.

Os vídeos do Porta dos Fundos seguem a demanda da internet: são curtos, duram entre 2 e 3 minutos, e prendem a atenção da audiência até o fim, pois sempre há uma esquete adicional à história principal com um toque a mais de humor, obtendo “uma retenção média de 70% nos vídeos no canal, taxa considerada bastante alta dentro da plataforma”¹. No geral, os temas variam e não há uma continuidade de assuntos. O canal foi criado em 11 de março de 2012 e lança vídeos novos todas as segundas, quintas e sábados, às 11h.

Atualmente com 593 vídeos publicados, o coletivo hoje é protagonizado por nove humoristas: Antonio Tabet, Fabio Porchat, Gabriel Totoro, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Karina Ramil, Luis Lobianco, Rafael Portugal e Thati Lopes. Para este estudo, foram selecionados seis esquetes do canal, todos veiculados na segunda quinzena de setembro de 2015. Tais emissões são: Letra, Não olha agora, Discurso, Como foi?, RH bom e RH mau, e Desvio.

No plano da expressão, observamos que câmera, cenário, figurino e maquiagem, atuação do elenco, iluminação e qualidade técnica da imagem têm a mesma qualidade apresentada na televisão. A forma de apresentação estética é tradicional, executada de forma crível, e agradável em planos e enquadramentos, o que torna tais elementos passíveis da observação detalhada dos espectadores devido à boa qualidade técnica.

O ritmo dos vídeos é ideal para prender a atenção do público jovem, com edição rápida e dinâmica. Na vinheta, o áudio é de uma música animada. O quesito grafismo também se destaca, pois o nome de cada vídeo é escrito de forma personalizada, fazendo com que seja facilmente identificado pelo público e referenciado como sendo do coletivo.

O Porta dos Fundos apresenta características da televisão e da internet. Da televisão adaptou o formato de esquete, diminuindo o tempo, diversificando os conteúdos, mas utilizando da TV os planos, os enquadramentos, a estética, a qualidade técnica do som e da imagem, a alta periodicidade e os mesmos horários de postagem para os vídeos novos. Em geral, o recurso da verossimilhança, desde sempre muito utilizado, é visto nos pontos básicos de uma produção audiovisual, como atores, cenário e figurino.

Já da internet, aproveitou a liberdade para explorar questões tabus, inserir críticas a marcas e políticos, e usar uma linguagem mais jovem. A web possibilitou, também, que o grupo fosse mais dinâmico e apresentasse abordagens distintas das usuais, bem como o uso de novas estratégias de divulgação e manutenção do público (como o uso da cena extra e a criação de outros produtos, como, por exemplo, o Porta Afora).

O canal criou um modelo próprio para seus vídeos. Os esquetes têm inícios sem marcas que apontam um princípio da história, que é apresentada de forma natural para que o espectador se sinta mais próximo dela. Isso fica evidente nos esquetes Discurso, Letra e Não olhe agora. O primeiro é uma coletiva de imprensa que começa no meio da fala de uma presidenta, não evidenciando, portanto, maiores informações sobre a trama como, por exemplo, há quanto tempo a coletiva começou. Além da ausência de marcas, os vídeos apresentam as histórias rapidamente, porém concluindo-as e gerando reflexões acerca das críticas ali presentes. Na sequência de cada um deles aparece a vinheta e ao final a cena extra com os créditos e hiperlinks para outros vídeos e inscrição no canal.

No plano do conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público se destaca, recebendo nota muito boa em cinco emissões e nota razoável em uma. Nota-se que o canal busca ampliar as visões de mundo dos seus espectadores, seja usando temas cotidianos ou considerados importantes para a sociedade como, por exemplo, igualdade de gênero, política e corrupção, visto nos vídeos Discurso e Desvio. O canal apresenta, na maioria das vezes, críticas sutis que dependem do repertório do espectador para serem bem compreendidas. Porém, ainda que sutis, são profundas e objetivam a reflexão do público sobre o tema, através da estratégia de diminuir e ridicularizar um assunto, comportamento ou pensamento.

Um exemplo é o vídeo Como foi?, em que duas amigas com experiências diferentes em Nova York se encontram em uma biblioteca e comparam as vivências que tiveram no exterior. É possível perceber a crítica ao fato de que cada vez mais as pessoas tentam se diferenciar e pertencer a um grupo seleto, e mostrar isso como vantagem aos outros.

LUISA: Você foi no Bellis, né?

CINTIA: Bellis?

LUISA: Você não foi no Bellis?

CINTIA: Não.

LUISA: Ahh Cintia, tô até duvidando que tu foi em Nova York.

(Porta dos Fundos - vídeo Como foi? – 24/09/2015)

É possível se atentar para a utilização da sátira para ridicularizar o comportamento de Luisa, representante do estilo hipster (grupo de classe média urbana que coexiste com a cultura mainstream), e assim inserir uma crítica aos costumes dessa tribo. No indicador de qualidade do conteúdo diversidade de sujeitos representados, três emissões receberam nota boa e três receberam nota razoável, mostrando, assim, que o canal tem uma considerável preocupação em representar diferentes sujeitos em um mesmo vídeo. Observando a amostra de seis vídeos, nota-se uma grande diversidade temática, que abarca desde tendências de comportamento e cotidiano, até valores. Além disso, diversos grupos foram representados por meio de personagens de distintas profissões. No entanto, devido ao tempo de exibição, não é possível a abordagem de muitos temas ou um grande número de pontos de vista em um mesmo vídeo, fato que difere os esquetes do YouTube das séries humorísticas da TV, que geralmente têm entre 20 e 40 min de duração.

Outro indicador destaque do plano do conteúdo foi a oportunidade, avaliado quatro vezes como muito bom, uma vez como bom, e uma vez como razoável (por tratar um tema atemporal). No geral, os assuntos abordados são relevantes para agregar algum tipo de valor ao público. Um exemplo que deixa evidente a atualidade e pertinência em abordar o tema é o vídeo Não olhe agora, em que dois homens estão numa boate e enquanto um vê e registra no celular todos os acontecimentos do local, o outro não consegue acompanhar o raciocínio do amigo. Nesse caso, é abordado o exagero do registro de momentos e as vivências que, para alguns, acabam sendo só pelas redes sociais.

O último indicador de qualidade do plano do conteúdo foi a desconstrução de estereótipos, que na amostra aqui analisada foi boa em todas as emissões por ser utilizada não para o reforço de estigmas já enraizados na sociedade, mas justamente o contrário: para fazer as pessoas pensarem e refletirem sobre tais aspectos. Diferente da maioria dos programas de humor que se apoiam e desenvolvem suas histórias a partir da afirmação de estereótipos, o canal busca ser diferente dos demais e explora outros pontos, como o abundante uso da sátira e da paródia para a ridicularização de uma situação, que faz com que as pessoas reflitam sobre o que estão vendo. A exemplo disso temos o vídeo Letra, que trata da caligrafia ilegível dos médicos, com o próprio médico comparando-a com o Código Morse (sistema de códigos composto por letras, números e sinais gráficos).

Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores de qualidade do plano do conteúdo com a avaliação obtida em cada um deles:

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Quanto à análise da mensagem audiovisual, os indicadores diálogo com/entre outras plataformas e solicitação da participação ativa do público se destacam. Ambos são vistos sempre da mesma forma em qualquer esquete. Já que o canal criou um modelo próprio, eles estão presentes no final por meio dos links para outros vídeos e para a inscrição no canal (às vezes, o link da loja do site e do Making Of também aparecem), apoiados pela estratégia da cena extra que prende a atenção do público. Além disso, a solicitação ocorre por meio da linguagem, que é simples, regada a palavrões e adequada ao público alvo do canal.

O indicador clareza da proposta foi avaliado como muito bom em todas as emissões, indicando ser um padrão do canal expor claramente seus objetivos, de modo que o espectador já saiba o que esperar, como a presença de críticas por meio da sátira e da paródia, esquetes curtas sobre diversos temas (sem fuga a assuntos tabus), e verossimilhança que torna a história crível e mais próxima do público. Além disso, o compromisso de lançar vídeos novos três vezes por semana também incrementa esse parâmetro de qualidade.

Outro indicador a ser ressaltado é a originalidade/criatividade, que também foi muito bem pontuada em todos os vídeos analisados. O canal já inovou com a criação do esquete adicional que complementa a história principal, mas foi possível observar que o Porta dos Fundos vai além disso. Devido à liberdade temática, o canal aborda os temas de forma nova e diferenciada, criando analogias não comumente pensadas como, por exemplo, a comparação de uma entrevista de emprego com um interrogatório policial mesclado com a abordagem cinematográfica em que há o policial bom e o mau, vista em RH bom e RH mau.

A seguir, a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual:

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Considerações finais

Partindo de uma amostra de seis vídeos aqui analisados, foi possível perceber que o humorístico Porta dos Fundos apresenta uma mistura de características da televisão com a internet, e que essa combinação permite o coletivo ser um produto diferenciado, com temáticas diversas e que dialogam com diferentes públicos.

O indicador de qualidade do plano do conteúdo ampliação do horizonte do público está bastante presente nos trabalhos do coletivo. O canal insere discussões a partir dos assuntos cotidianos, como ir ao médico, ou a uma festa, apontando comportamentos ou ações que prejudicam a sociedade de alguma forma. Porém, como não o faz de forma insistente ou repetitiva, mas com críticas sutis, gera assim a reflexão e o envolvimento do público, fazendo dessa uma característica marcante do Porta dos Fundos.

A criatividade nas escolhas dos temas, das abordagens, nos finais dos vídeos adicionais, e o uso da sátira e da paródia, dão dinamicidade aos vídeos e conferem qualidade ao produto final. A solicitação para a interação do público gera o engajamento dos espectadores, que têm a oportunidade de buscar mais informações sobre os temas atuais para se posicionarem em relação a eles.

Em vista do que foi observado, é possível concluir que o Porta dos Fundos trata de temas pertinentes e diversos, de forma criativa e original, sem a participação direta do público, porém, envolvendo-o por meio do riso ambíguo e apresentando propostas polêmicas e contraditórias, que estimulam o seu pensamento e contribuem para a sua ampliação da visão de mundo. O Porta dos Fundos apresenta, portanto, características de qualidade e pode assim ser considerado, majoritariamente.

Por Monalisa Lima

 

Põe na roda

Pedro-HMC

Põe na Roda é um canal de humor do YouTube criado em 26 de janeiro de 2014 por três amigos que sentiam falta de conteúdos feitos pelo público gay e para o público gay. Com o compromisso de apresentar vídeos novos toda quarta-feira, o canal às vezes também exibe conteúdos aos domingos ou até mais de um no dia, porém sempre às 11h24 (já anunciando seu caráter irreverente, já que 24 é um número estigmatizado como o de gay). Criado e inteiramente produzido por Pedro HMC, Nelson Sheep e Felipe Abe, a escolha dos assuntos que serão tratados no canal não se limita à homossexualidade, pois diversifica bastante ao abordar tudo que é relacionado à diversidade sexual e de gênero, à homofobia e a todo e qualquer tipo de preconceito.

Contando em setembro de 2015 com 299.899 inscritos e 115 vídeos, Põe na Roda traz em seus vídeos não só personagens gays, como também transexuais, lésbicas e vários outros públicos que a sigla LGBT não atinge. Dos nove vídeos publicados no mês de setembro de 2015, cinco foram gravados em estúdio, dois em ambiente externo e dois mesclaram gravações de estúdio e fora dele. O tempo dos conteúdos varia bastante, mas com uma ocorrência maior de vídeos que duram de 6 a 8 minutos, em média. Além da aba “discussão”, o canal apresenta outras plataformas de interação com o visitante, como Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter e e-mail, sendo este último o principal meio utilizado pelos idealizadores do canal para atender a pautas, acatar sugestões e responder a perguntas dos espectadores. A maioria das publicações do canal tem excelência em qualidade artística, e o cuidado de sinalizar já no título de determinados vídeos que aquele conteúdo só é recomendado para maiores de 18 anos.

No plano da expressão, é destaque do Põe na Roda a vinheta final, a composição gráfica, os cenários e a linguagem. Na vinheta final, todos os vídeos seguem mais ou menos o mesmo padrão, com um fundo preto sob o logo do canal no centro (em letras de neon rosa e azul) ou o logo na parte de cima da tela e abaixo os créditos em letra branca, ou, ainda, o logo no centro com as opções de clique para outros conteúdos nas laterais. Na composição gráfica, chama atenção as cores contrastantes utilizadas nas publicações, que são claramente identificadas quando na aba “vídeos” aparece, em tamanho menor, a imagem de vários conteúdos e conseguimos visualizar a variedade de cores e as letras estilizadas.

Quanto aos cenários, dos cinco vídeos gravados em estúdio, três deles são da mesma situação, e apresentam, portanto, o mesmo cenário, recorrente e próprio do Põe na Roda, que é o de uma sala com duas poltronas pretas na frente de uma parede branca, e um sofá branco na frente de uma parece azul com prateleiras brancas que sustentam livros, CD’s, porta retratos e enfeites. Quanto ao vocabulário adotado, o canal apresenta uma linguagem informal com gírias e palavrões que, junto com a estética colorida, o cenário descolado e a periodicidade definida, constituem elementos estratégicos para gerar a identificação do público com o canal e sua consequente fidelização.

Ainda na composição gráfica, alguns detalhes padrões caracterizam e dão identidade ao canal, como o logo no canto inferior direito da tela, que está presente em todos os vídeos, as músicas de fundo também comumente ouvidas e a constante inserção de caricaturas, fotos de personalidades, emoticons, toques característicos das redes sociais, e rápidos vídeos de personalidades fazendo algo engraçado ou falando um bordão em qualquer momento do vídeo.

No plano do conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público é o segundo mais notório, ficando atrás apenas do critério oportunidade, que teve oito emissões com avaliação muito boa; e uma fraca. Para esse indicador, tomemos como exemplo o vídeo publicado no dia 2 de setembro de 2015, chamado Religiosos x LGBT – ensino de gênero, que além de ampliar o horizonte do público aborda um assunto que estava presente na agenda midiática de todo o país e sendo debatido naquele dia: o da inclusão do debate de gênero no Plano de Educação da cidade de São Paulo que, pelo momento da sua abordagem, portanto, tornou-se muito oportuno.

O segundo indicador mais notório, o ampliação do horizonte do público faz-se muito presente em sete dos nove vídeos analisados pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual. A mesma publicação que não utiliza muito o recurso da criatividade não pretende também promover o debate de ideias ou ampliar o horizonte do seu público, mas apenas informar um fato, ou provocar no mesmo o riso despreocupado diante de abordagens rasas e sem profundidade (Bastidores e erros de gravação 16 – Põe na Roda – 13/09/2015, por exemplo). Um dos sete vídeos muito bem avaliados nesse indicador foi publicado dia 25 de setembro, intitulado Namoro gay dura menos?, que objetiva desmitificar a visão que muitas pessoas têm sobre relacionamentos gays, como com relação ao tempo de duração, se realmente é menor e por quê, e se tem diferença entre relacionamentos héteros e homossexuais.

O quesito diversidade de sujeitos representados também foi bastante pontuado, com duas emissões consideradas muito boas; cinco boas; e duas razoáveis. Um dos vídeos avaliado como muito bom para esse indicador, exibido no dia 2 de setembro, é o mesmo que recebeu boa avaliação também no indicador oportunidade, e que anteriormente foi aqui mencionado, intitulado Religiosos x LGBT – ensino de gênero, que traz opiniões divergentes a cerca do ensino de gênero nas escolas de São Paulo, de pessoas de diferentes gêneros, orientações sexuais, posicionamento político, religiões, cores e idades. Outra emissão que recebe destaque é publicada dia 30 de setembro, chamada (+18) Maior feira de fetiche do mundo: Folsom Street, que além de ter diversificado na questão do gênero dos entrevistados, variou também ao ouvir pessoas de diferentes fetiches, países e idades, mostrando um apanhado geral do que foi a feira Folsom Street, de São Francisco: um lugar bem diverso com pessoas de diferentes culturas e pensamentos.

O último indicador de qualidade do plano do conteúdo, desconstrução de estereótipos, não está presente em todas as produções do canal Põe na Roda. Somente em dois episódios ele foi muito identificado: nos exibidos no dia 30 e 09 de setembro. No primeiro, que traz a feira Folsom Street, de São Francisco, o canal mostra as práticas sexuais mais estranhas e diferentes, com o intuito de desconstruir os estigmas e preconceitos que cercam as pessoas que têm fetiches não tão “normais” e desmitificar um pouco essa prática, mostrando que isso pode ser mais comum do que se pensa. No episódio Afeminado (Paródia: Exagerado de Cazuza) – Põe na Roda, o estereótipo esteve presente para desconstruir o lado negativo que muitos homossexuais fazem dos gays afeminados. A todo o momento reafirmando a postura e o modo de ser dos gays afeminados, tão julgado pelos gays “machos”, o vídeo mostra que o jeito de um afeminado é normal e que ele deve ser respeitado da mesma maneira que qualquer outro homossexual, independente da sua postura feminilizada ou não, de modo que jamais se torne motivo de chacota para os machistas e homofóbicos. Confira a tabela com os indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito identificado em todas as emissões analisadas, devido ao caráter claro e objetivo que o canal assume desde que foi criado: ser um canal feito por gays, para gays, e para todas as outras orientações sexuais e identidades de gênero que a sigla LGBT não comporta. O episódio do dia 6 de setembro, por exemplo, traz a artista transexual Nany People para responder às perguntas propostas pelo canal, e logo no primeiro momento do vídeo ela já deixa isso bem claro: “Alô Planeta Terra, eu sou Nany People. Estou aqui para responder 24 perguntas dos meus queridos do Põe na Roda. Pode por que eu estou preparada”.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, apenas quatro emissões são muito bem avaliadas, duas consideradas fracas, e nas outras três esse indicador não foi identificado, apesar de trazerem na descrição a menção a outras plataformas e conteúdos do próprio canal. Um dos quatro vídeos muito bem avaliados nesse indicador é o exibido no dia 16 de setembro, intitulado Piores chats no Grindr #3, em que o Põe na Roda, em parceria com a comunidade GayTroller, do Facebook, traz prints de conversas constrangedoras reais que já aconteceram nesses “aplicativos de pegação”, como Grindr, Hornet, Scruff ou Jack’d. Outro exemplo em que o indicador diálogo com/entre plataformas foi identificado está nos vídeos em que o conteúdo é o quadro Ajuda, põe na roda, que aborda temas enviados pelos espectadores através do e-mail do canal.

Tratando-se de originalidade/criatividade, Põe na Roda é um canal destaque. Apenas uma publicação não utiliza o recurso da criatividade, pois quer apenas provocar o riso despreocupado nos espectadores com os bastidores e erros de gravação de exibições anteriores (Bastidores e erros de gravação 16 – Põe na Roda – 13/09/2015). Uma das duas emissões que teve avaliação muito boa é a intitulada Afeminado (Paródia: Exagerado de Cazuza) – Põe na Roda, exibida dia 9 de setembro, que traz uma produção bem feita com ótima participação dos atores, a encenação da paródia de Exagerado, música do cantor Cazuza. Com muita criatividade, a letra original, escrita por Pedro HMC, um dos criadores do canal, é extremamente oportuna e relevante, visto que o preconceito com gays afeminados dentro da comunidade LGBT ainda é algo muito recorrente.

Ainda na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade solicitação da participação ativa do púbico é identificado em seis das nove emissões: quatro com avaliação muito boa e uma com avaliação razoável. Das quatro emissões avaliadas como muito boas para esse indicador, três são pelo mesmo motivo: o quadro Ajuda, põe na roda, que em cada vídeo traz as respostas para as dúvidas de um espectador que mandou e-mail para o canal. Primeiramente, com a conversa entre os três convidados e o mediador, que contam suas experiências e opiniões, num momento posterior é ouvida a opinião de um especialista em comportamento humano e sexualidade, o Dr. Cláudio Picazio, que traz a visão médica e científica da situação relatada. Abordando, portanto, um tema inteiramente sugerido pelo espectador, esses vídeos duram em torno de oito minutos e o tempo inteiro se dedicam a solucionar o problema que está em pauta. Abaixo, podemos conferir a tabela com os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual, e a avaliação de cada um deles:

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Diante da análise dos parâmetros abordados, entendemos que Põe na Roda é mais um canal com características de humor de qualidade do Brasil. Os modos de representação dos personagens e a experimentação identificada na criatividade com que os temas são abordados contribuem para essa percepção, que se consolida na forma clara e objetiva com que o canal prioriza o pluralismo, a diversidade e a desconstrução de estigmas, tornando possível o debate de ideias e a ampliação do horizonte do público.

 Por Luma Perobeli

Parafernalha

 ParafernalhaParafernalha é um canal de humor do YouTube, criado em 13 de maio de 2011. Com o compromisso de apresentar vídeos às quartas e sábados, o elenco produz esquetes de ficção com duração média de quatro minutos. As emissões são gravadas pela produtora Paramaker Network, fundada em 2010, e focada em produção para a internet.

O canal aborda assuntos variados, como amizade, relacionamento e trabalho. Alguns desses são problematizados e outros têm a única intenção de causar riso no público. Por ter essa temática diversificada, o Parafernalha possui 17 playlists, algumas feitas pelo próprio elenco. Além disso, é vinculado a outros canais de sucesso do YouTube, como o 5incominutos, Felipe Neto e Gustavo Mendes. O canal também apresenta outros meios de interação, principalmente o Facebook, para o qual fazem vídeos ao vivo e especiais.

No Plano da Expressão, pode-se perceber a preocupação estética do canal, pois cenários e figurinos são verossimilhantes, a iluminação e áudio são profissionais, além do roteiro seguir uma narrativa linear e os diálogos serem bem construídos, dando sentido ao enredo desenvolvido. O Parafernalha também expandiu seus horizontes audiovisuais ao produzir vídeos com cenas externas; dentre os nove analisados, um deles foi gravado todo em um bar, e os outros alternam ambientes fechados, estúdio e externas, o que confere ao canal certa inovação estética se comparado a outros do YouTube que se atêm a estúdios.

Outra característica do canal é o fato de ele explorar grafismos em seus vídeos, seja para o nome da emissão ou para introduzir pequenas cenas, como acontece em Atendentes de Telemarketing, postado no dia 5 de setembro de 2015, e Fases de um Relacionamento, publicado em 19 de setembro do mesmo ano. Além disso, o canal também produz uma série especial, chamada Ponto de Vista, inspirada em uma imagem viral da internet, que expõe diferentes pontos de vista a respeito de um mesmo assunto; os enfoques mais comuns são o de quem vivencia determinada situação, da mãe desse indivíduo, dos amigos dele e como a situação realmente é, o que já determina ao canal um diálogo com outra plataforma senão o YouTube.

A linguagem do canal é descontraída e informal, incluindo o uso de gírias e palavrões, o que somado à escolha de temas cotidianos, causa identificação e aproximação com o público.

No que diz respeito ao Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público obteve nota boa em dois dos nove vídeos de setembro de 2015: na emissão Ele, do dia 9 de setembro, devido à discussão sobre a dependência que as pessoas têm desenvolvido por seus celulares e como isso afeta os relacionamentos reais; e também no vídeo Filho Superstar, publicado em 23 de setembro, que faz uma crítica à sexualização precoce de crianças, com consentimento e apoio dos pais, e como isso tem se tornado parte da cultura brasileira, principalmente quando se envolve a fama infantil – a crítica é direcionada e inspirada claramente no caso da Mc Melody. As outras sete emissões receberam notas fracas, pois seus enredos não despertam nenhum tipo de discussão acerca dos assuntos que abordaram.

No indicador oportunidade, novamente os vídeos Ele e Filho Superstar se destacaram, devido à escolha dos temas sobre os quais trataram e sua abordagem. Receberam notas razoáveis os vídeos Até amanhã, do dia 2 de setembro de 2015, que trata sobre a dificuldade de um homossexual em assumir sua sexualidade e a paixão por um amigo, e o vídeo Vendedor de Amendoim, que mostra o preconceito com vendedores ambulantes. Esses dois, apesar da escolha, tiveram os temas pouco explorados ou um conflito secundário que atrapalhou que eles ficassem explícitos, além da abordagem estereotipada, o que impediu que fossem melhor classificados. Os demais vídeos foram considerados fracos na questão de escolha dos temas, pois esses não são relevantes para o público.

A diversidade de sujeitos representados nos vídeos é bem restrita, por isso, fraca em todos os episódios. Há personagens de ambos os gêneros, mas a maioria tem aproximadamente a mesma idade, pele clara, cabelos castanhos e são de classe média ou média-alta. A única variação acontece com um casal de idosos no vídeo Segredo dos Pais e em Vendedor de amendoim, no qual a personagem que dá nome ao vídeo foi caracterizada para se parecer com um nordestino.

Por fim, a desconstrução de estereótipos também deixou a desejar, sendo consideradas fracas sete das nove emissões, principalmente nos vídeos que tratam de relacionamento, como o Fases de um Relacionamento, publicado em 19 de setembro de 2015, e Quando a ex pede para conversar, do dia 26 de setembro de 2015, nos quais vários clichês são reforçados, além de abordagens machistas e homofóbicas.

No gráfico abaixo, as notas de cada um dos vídeos nos indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

para1No plano da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve nota boa em todas as emissões, pois o canal é claro e objetivo na intenção de fazer humor. Alguns vídeos como o Até Amanhã e Ele não deixam sua proposta muito clara no nome ou no início do vídeo, mas sim no decorrer dele e com o complemento da descrição do YouTube.

O indicador originalidade/criatividade foi bastante inconstante, mas o formato de esquetes do canal não é inovador no âmbito do YouTube e faz lembrar, por exemplo, o canal Porta dos Fundos, no que tange à construção estética das cenas e proposta geral do canal. No entanto, no caso da série Ponto de Vista, que consta em demostrar vários pontos de vista sobre um mesmo assunto, em alusão a uma imagem viral das redes sociais (meme), é explícita a vontade do Parafernalha em fazer algo novo no humor, unindo meme e vídeo.

No que diz respeito à solicitação de participação ativa do público, todas as nove emissões foram consideradas fracas, pois não há interação direta, nem indireta, com o público, e mesmo o apelo para que os espectadores se inscrevam no canal aparece apenas nos créditos, por escrito.

O diálogo com/entre outras plataformas obteve classificações variadas, sendo a maior nota para os vídeos Ele, que além de ser inspirado no filme Her, são citadas várias redes sociais, empresas de tecnologia e as cenas acontecem em locais reais, como parques e restaurantes, e o vídeo Segredo dos Pais, em que são citados a festa tradicional de Santa Gervásia, os times cariocas Flamengo e Vasco, e o Japão, fatos e características que conferem maior verossimilhança às narrativas. Os vídeos Vendedor de Amendoim, Fases de um relacionamento e Filho Superstar foram considerados razoáveis nesse quesito: o Vendedor de Amendoim, por ter sido gravado em um bar na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro; o Filho Superstar, com menção implícita à Mc Melody e ao Faustão; e o Fases de um relacionamento, com cenas externas em locais reais. Os outros quatro vídeos analisados foram considerados fracos por não terem demonstrado conexões que os tornassem factíveis.

Abaixo, o gráfico com as notas de cada emissão nos indicadores de qualidade da mensagem audiovisual:

para2Com base nas características analisadas, é possível concluir que o canal Parafernalha, apesar de apresentar características de qualidade em algumas das emissões analisadas, tem um formato “reciclado” de outros humorísticos, e os temas escolhidos estimulam pouco a formação de novos conceitos, ideias ou pontos de vista.  Os assuntos abordados na maioria dos vídeos são escolhidos com a intenção de causar riso quando tratado de forma irônica ou ridícula.

Ademais, o canal tem pouca interação direta com os inscritos e indiretamente apenas por meio da linguagem escrita nos créditos e informações dos vídeos. A maioria das personagens é estereotipada, às vezes grotesca, e acaba por contribuir para a afirmação de clichês, com intenção mínima de desconstruí-lo, tendo com única exceção nesse quesito o vídeo Ele, publicado em 9 de setembro de 2015.

Por Lilian Delfino

Furo MTV

Furo MTV 2O programa Furo MTV foi criado pela MTV Brasil em 2009, inspirado em um quadro do The Daily Show, com apresentação de Dani Calabresa e Bento Ribeiro, direção de Lilian Amarante e redação de Bruno Motta, Álvaro Campos e Flávia Boggio. Inicialmente teve duração de 15 minutos, mas depois passou a ser exibido por 30 minutos de segunda à sexta-feira, às 22h15. O programa é compreendido como um produto de humor que se apropria de elementos do jornalismo para desconstruí-los e, assim, formar o seu estilo.

O Furo MTV sofreu diversas oscilações ao longo de suas cinco temporadas, sendo marcado por três momentos-chave: o primeiro, que compreendeu os anos de 2009 e 2010 e que representou um período de experimentação do formato; o segundo, que durou de 2011 a 2012 e que foi seu auge e consolidação perante o público jovem, podendo ser considerado o melhor momento; e o terceiro, em 2013, que foi resultado da necessidade do programa de se reinventar devido à saída da apresentadora Dani Calabresa e da saturação do seu estilo.

O programa, que inicialmente tinha 15 minutos, alcançou grande audiência na grade da MTV e, no ano seguinte, em 2010, modificou seu tempo de duração, passando a ter 30 minutos diários. Com relação ao figurino dos apresentadores, o Furo MTV inova: Bento adota terno, gravata, bermuda e chinelo (porém estes apareceram raras vezes), enquanto Dani veste terninhos ou blusas modernas com saia e sapatilha. As externas ganharam maior espaço no último ano de programa. O novo formato, além da modificação do cenário e da abertura, alterou também os personagens principais, pois não contava mais com Dani Calabresa na bancada e passou a ser apresentado por Bento Ribeiro, Daniel Furlan, Paulinho Serra, Bruno Sutter, Pathy Dejesus e Siqueirinha, com Bento fixo na bancada, e os demais ora na bancada ora nas reportagens externas.

Para esta análise foram selecionados oito episódios que abrangessem a linha de transformação da atração. Tais emissões correspondem às seguintes datas: 2 de março de 2009 (o primeiro programa), 5 de março de 2009, 8 de abril de 2010, 20 de julho de 2010, 5 e 9 de julho de 2012, 2 de maio de 2013 e 11 de novembro de 2013.

No Plano da Expressão, observamos a semelhança do formato com os telejornais. A câmera é fixa, a visão é frontal e o enquadramento é o tradicional plano médio, porém, com modificação para desconstruir o modelo consolidado do telejornalismo. No cenário, uma bancada, um labirinto multicolorido atrás, e televisores nas laterais que mostram o tema das notícias e os nomes dos quadros. No geral, é composto por cores quentes e vibrantes, como laranja, azul e vermelho.

As falas dos apresentadores, comumente diretas com as câmeras para a transmissão da informação, são interrompidas por diálogos entre Bento e Dani e por comentários e piadas sobre os programas e artistas das outras emissoras e da própria MTV. Além disso, é frequentemente usado o recurso dos efeitos sonoros para a mudança de temas abordados.

As vinhetas do programa apresentam de forma metafórica o tema, introduzindo uma crítica. Elas mudaram de acordo com a fase do programa: em 2009, ano de estreia, a vinheta de abertura do programa era uma animação que fazia referência à disputa dos jornalistas em conseguir de forma mais rápida as melhores notícias; em 2011, era mais literal, passando a ser uma animação que trazia na tela as expressões “extra!”, “inédito”, “nooossa”, “bomba!”, “ao vivo” “nem morto”, “bizolhinha”, “excelente”, “em cores!”, “ah lá!”, “exclusivo”, “Jesus Cristo!” e “pqp!”; em 2013, seu último ano, foi uma animação que trazia uma mosca percorrendo um caminho cheio de fezes demarcadas por círculos, que levava a um globo terrestre em formato de bola plástica (nesse momento da vinheta eram mostradas quatro moscas sobrevoando o globo enquanto que outras três se encontravam caídas no chão, e em background o som da sirene de uma polícia se juntava aos zunidos dos insetos).

No Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público apontou pouca contribuição para a ampliação do repertório cultural do público. Das oito emissões analisadas, apenas duas foram boas nesse quesito, cinco foram fracas e uma foi razoável. Notou-se que os pontos de vista não eram variados, apenas tinha-se a posição de Bento e Dani, os envolvidos nas notícias nunca eram ouvidos, as externas eram não eram frequentes, e os temas levantados pouco estimulavam o pensamento e o debate de ideias relevantes, pois sempre havia um gancho com celebridades (Ronaldo pular a mureta, Lady Kate é rebaixada, As alfinetadas do Ronaldo Ésper), e temas que não contribuem para a sociedade.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados o programa não se destacou muito, pois não trazia diferentes grupos sociais, nem apresentava pontos de vista diferentes dos apresentadores a respeito de um tema. Na maioria das vezes a pauta ficava no eixo Rio-São Paulo. Além disso, o programa não apresentava diversidade de gênero mesmo tendo uma apresentadora mulher. Em uma das emissões do programa, no dia 8 de abril de 2010, por exemplo, é possível ver como o Furo MTV desprestigiava mulheres. No quadro Quanto Ganha, apresentado por Bruno Motta, o repórter conversa com três comediantes, sendo uma delas mulher, e quase não dá oportunidade para ela falar, além de a ignorar. Contudo, as temáticas eram diversas e abordavam política frequentemente.

O indicador desconstrução de estereótipos não foi muito bem avaliado no programa. As representações adotadas para ridicularizar acabavam reafirmando generalizações. O programa do dia 2 de maio do último ano, por exemplo, recebeu nota mínima porque dedicou boa parte do seu tempo a ridicularizar atitudes pré-concebidas como típicas de um homossexual. Além disso, na emissão de 2 de março de 2009, ao falar de um aumento de salário dos políticos, proposto pelo então senador José Sarney, os apresentadores brincam e fazem generalizações acerca da ética dos políticos.

O indicador oportunidade foi bem pontuado por se tratar de um programa de “telejornal” e que, portanto, traz temas atuais e pertinentes no cenário nacional ou internacional como, por exemplo, as eleições de 2010. Contudo, devido à crítica aos critérios de noticiabilidade, às vezes temas sem relevância para a sociedade eram pautados e discutidos por Bento e Calabresa, como na notícia de uma jovem que forjou o próprio sequestro para não entregar o trabalho de conclusão de curso da data correta. Abaixo, o gráfico do plano do conteúdo:

furo1Quanto à análise da Mensagem Audiovisual, no indicador diálogo com/entre plataformas podemos afirmar que o Furo tem pouca interação com outros segmentos de informação. O programa não se expandiu para as redes como vemos acontecer atualmente. Apenas durante uma temporadas eram exibidos os twitters dos apresentadores. A convergência se dava quanto aos assuntos, que eram os mesmos que em outros veículos, como jornais, telejornais e web.

Os indicadores originalidade/criatividade e clareza da proposta foram destaque. A atração ousou na abordagem e escolha dos temas, ridicularizando-os, usando bastante da paródia para isso, e apresentando notícias de um modo diferente. Era nítida a proposta de inovar, imitando, para desconstruir valores, forma e o modo de se fazer jornalismo. O programa usava os elementos do jornalismo tradicional e os modificava de modo a surpreender o espectador, como o dia em que Bento mostrou estar de camisa e samba canção, diminuindo assim a tão prezada credibilidade do jornalismo tradicional.

Na solicitação da participação ativa do público observou-se que o público tinha poucas chances de interagir nas primeiras fases do programa. O estímulo ao espectador ocorria por meio da linguagem jovem e informal adotada pelos apresentadores, ponto comum a todas as temporadas. Esse recurso gerava certa ligação entre eles já que Bento e Calabresa davam suas opiniões e contavam um sobre o outro, pareciam falar para cada telespectador. Na ultima temporada, as mudanças do programa possibilitaram maior interação do público. Foi criado um quadro para responder aos fãs do Furo e outro para que mandassem sugestões de legendas. Acredita-se que o formato de telejornal, ainda que distante do tradicional, era o que limitava a proximidade de contato. Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual, com suas respectivas avaliações:

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Compreendendo o Furo MTV como um produto humorístico que se apropria de elementos do jornalismo para desconstruí-los, a ficha de análise apresentou diversos aspectos que aproximam e distanciam o Furo do jornalismo moderno. Os elementos que os aproximam são: posicionamento e dinâmica dos apresentadores; iluminação do cenário; e ponto de vista, movimentação, ângulo e enquadramento de câmera. Os elementos que desconstroem o jornalismo tradicional são o figurino jovem e moderno dos apresentadores; a linguagem informal próxima do espectador; as vinhetas de animação; as artes descontraídas e irônicas que ilustram os quadros; a composição multicolorida do cenário; os efeitos sonoros, os grafismos incomuns; e o caráter opinativo dos apresentadores, que ridicularizam a imparcialidade necessária dos jornalistas.

Em vista do papel desempenhado pelo programa, é possível afirmar que ele se utiliza do estereótipo para gerar reflexão (ainda que pouca). A crítica social é quase inexistente, e a crítica política é tão ridicularizada que perde a chance de inserir nos espectadores um raciocínio que amplie o seu horizonte. Além disso, devido ao uso constante de notícias ligadas a celebridades, o programa fica sem muito espaço para abordar temas mais relevantes. Assim, podemos afirmar que o Furo MTV não é um programa majoritariamente de qualidade, mas assim pode ser considerado em algumas emissões.

Por Monalisa Lima

Felipe Neto

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O sucesso do youtuber Felipe Neto veio com a série de vídeos Não Faz Sentido, na qual criticava personalidades e comportamentos através de uma linguagem agressiva e provocante.

A linguagem, aliás, foi, na análise, um ponto de destaque do canal em relação ao Plano da Expressão. Em todos os vídeos, Felipe Neto utiliza uma linguagem informal, carregada de expressões populares, principalmente palavrões. Essa escolha permite uma aproximação por parte do público do conteúdo disseminado nos vídeos. Assuntos polêmicos e muitas vezes considerados complexos, como a situação política do país, tratada no vídeo “Não Faz Sentido – Dilma e o PT”, podem ser melhor trabalhados através de uma linguagem próxima do público, como ocorre nesse vídeo.

Outro destaque do Plano da Expressão foi o cenário utilizado nos vídeos do Não Faz Sentido. Assim como o cenário dos primeiros vídeos desse quadro, lançados há cerca de seis anos, o cenário atual mantém as famosas placas e molduras dispostas em uma parede branca. São utilizadas placas de trânsito, por exemplo, como Pare ou Proibido. Além disso, Felipe Neto, ao fazer o Não Faz Sentido, sempre usa óculos escuros, o que diferencia o personagem do quadro, sempre agressivo e incisivo, do Felipe Neto que aparece nos outros vídeos. Mesmo em vídeos que não pertencem a essa série, Felipe Neto também utiliza os óculos escuros quando vai falar agressivamente sobre algo, em referência ao personagem do Não Faz Sentido.

Já em relação ao Plano do Conteúdo, o canal obteve destaque no indicador oportunidade, no qual recebeu avaliação muito boa em quatro emissões e avaliação boa em outras duas. Assuntos cotidianos, presentes tanto na agenda da mídia quanto do público, são frequentemente abordados nos vídeos do canal. Tem-se como exemplo o vídeo “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha”, cujo tema é o Video Music Awards, grande premiação da música americana feita pelo canal televisivo MTV. À época do vídeo, a premiação havia ocorrido recentemente, sendo ainda pauta no cotidiano da mídia e do público.

Outro vídeo que recebeu avaliação muito boa nesse indicador foi o “Não Faz Sentido – Dilma e o PT”, que trata da situação política do país. O vídeo “Soco na Cara e Haters”, que traz Lucas Salles como convidado, foi igualmente avaliado, uma vez que tem como tema o soco que o ator levou durante uma entrevista, à época recente, que fazia para o programa CQC, do canal Bandeirantes. Na entrevista, Lucas Salles questionava um homem sobre a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”.

Tais vídeos também receberam avaliação muito boa no indicador ampliação do horizonte do público, pois tratam de temas relevantes socialmente e que estimulam o pensamento do público e o debate de ideias. Entretanto, o canal não obteve destaque nesse indicador, sendo que a maioria dos vídeos analisados recebeu avaliação fraca nesse quesito.

O indicador diversidade de sujeitos representados também não obteve destaque nas emissões analisadas, uma vez que, em tal indicador, a maioria dos vídeos recebeu avaliação fraca. Apenas os vídeos “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha” e “Desafio da MC Melody – Felipe Neto Responde” receberam avaliação razoável por citarem ou falarem sobre diferentes personalidades da mídia.

O indicador desconstrução de estereótipos foi, por sua vez, percebido em apenas cinco emissões, sendo três fracas, uma razoável e uma boa. O vídeo “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha” recebeu avaliação fraca no indicador, pois Felipe Neto desconstrói o que ele chama de “gourmetização” da maconha – pessoas que sentem orgulho de usar a substância – e também do Rivotril. Entretanto, durante o vídeo há diversas afirmações de estereótipos, o que justifica o desempenho fraco no indicador. Outro vídeo que obteve tal desempenho foi o “SDV Troco Like – Felipe Neto Responde”, no qual Felipe Neto desconstrói a ideia de que homens não choram ao responder que ele chorava com livros e filmes.

Já no vídeo “Crush no Youtube – Felipe Neto Responde”, que recebeu avaliação razoável no indicador, uma fã pergunta: “Quero ir na sua peça, mas meu noivo descobriu que sou apaixonada por você e não quer deixar eu ir. O que eu faço?”. Felipe Neto responde: “Seu noivo diz o que você deve ou não deve fazer? Você faz o que você quiser da sua vida e foda-se o seu noivo.” Desse modo, desconstrói-se a ideia da submissão feminina, por exemplo.

O único vídeo que recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos foi o “Soco na Cara e Haters”, que trata da questão da criminalidade e da afirmação de que “bandido bom é bandido morto”. Durante o vídeo desconstrói-se tal afirmação, ao passo que assuntos como violência e justiça são discutidos.

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Já na esfera da Mensagem Audiovisual, os indicadores diálogo com/entre plataformas, clareza da proposta e solicitação da participação ativa do público obtiveram avaliação muito boa em todas as emissões analisadas do canal.

Em todos os vídeos Felipe Neto disponibiliza suas redes sociais, como Instagram ou Snapchat. Links para outros vídeos do canal também são disponibilizados para o público. Além disso, em alguns vídeos tem-se a participação de convidados, como no vídeo “Soco na Cara e Haters”, que conta com a presença de Lucas Salles, então repórter do programa CQC. Elementos da realidade, externos à internet, também são frequentemente citados durante os vídeos, como a premiação VMA, no caso do vídeo do dia 01/09/2015, ou a MC Melody, no caso do vídeo do dia 14/09/2015, incrementando o indicador diálogo com/entre plataformas.

Já em relação ao indicador solicitação da participação ativa do público, a avaliação muito boa se deve ao fato de Felipe Neto, além de sempre se dirigir ao público olhando diretamente para a câmera, solicitar que o internauta clique em links para se inscrever no canal ou para assistir outros vídeos. Em várias emissões Felipe Neto também solicita que o público entre no site da sua peça e compre os ingressos.

As propostas e objetivos dos vídeos, por sua vez, são nítidos e não deixam dúvidas aos internautas, o que justifica a avaliação muito boa do canal no indicador clareza da proposta. Quando algum formato novo é estreado nos vídeos, Felipe Neto explica a dinâmica da proposta, como no vídeo “Minha Vida Não Faz Sentido – Primeiro Ensaio”, em que diz: “Olá, seja bem-vindo para algo diferente aqui no canal agora”. Felipe Neto explica, então, que o vídeo vai acompanhar os bastidores dos ensaios da peça Minha Vida Não Faz Sentido.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável nas emissões analisadas, pois o formato dos vídeos apresentados pelo canal não é inovador ou muito diferente de outros formatos utilizados por outros canais do YouTube.

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A partir da análise, pôde-se perceber que o canal Felipe Neto se destacou em elementos da Mensagem Audiovisual, como no diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Contudo, tais indicadores são bem trabalhados de um modo geral no YouTube, não constituindo, portanto, um diferencial do canal.

Em algumas emissões, porém, o canal apresentou conteúdo com características do humor de qualidade, se destacando no indicador oportunidade, por exemplo. Alguns vídeos também obtiveram avaliação razoável no indicador ampliação do horizonte do público, essencial por fomentar o pensamento e o debate de ideias.

Entretanto, a maioria dos vídeos traz temáticas cotidianas que não possuem grande relevância social, além de reafirmarem algum tipo de estereótipo, motivo pelo qual o indicador desconstrução de estereótipos foi percebido em poucas emissões. Sendo assim, de um modo geral, o canal Felipe Neto não obteve grande destaque em indicadores essenciais ao humor de qualidade, considerado aquele que traz discussões férteis e relevantes, capazes de estimular o público ao debate.

Por Júlia Garcia

Sensacionalista

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Sensacionalista foi um programa de humor exibido pela Multishow de 2011 a 2014. Inspirado no site norte-americano The Onion (“A Cebola”, em tradução livre), o projeto foi criado em 2009, por Nelito Fernandes, e permaneceu na TV por cinco temporadas, sendo transmitido toda segunda-feira, às 21h30, no canal fechado. Com um formato que se assemelha a um telejornal, o programa cria notícias fictícias com tom de verdade. Os âncoras, interpretados por Betina Kopp, Cristiane Pinto, Larissa Câmara, Tatá Lopes, Marcio Machado e Anderson Freitas, informam notícias que parecem reais, mas que não passam de grandes absurdos.

No Plano da Expressão, observamos que os apresentadores do humorístico se posicionam do mesmo modo que os apresentadores de qualquer outro telejornal verídico: apresentam a mesma entonação de voz, e as imagens são editadas da mesma forma, intercalando informação no estúdio e reportagem nas ruas. Nas externas, o jornalista faz uma pergunta séria, que é respondida também de forma séria pelo entrevistado, e a reportagem é toda construída de forma linear e bem editada, o que comprova a verossimilhança do programa ao seguir fielmente a estética de um telejornal. O cenário também se assemelha ao dos noticiários brasileiros: cores neutras, computadores e uma bancada, bastidores do jornal mostrado ao fundo, e os figurinos dos apresentadores constituem a paródia feita pelo Sensacionalista aos telejornais diários.

Os temas, que são completamente banalizados e inúteis, no sentido em que não acrescentam nenhuma informação à vida das pessoas, fazem parte das pautas dos jornais convencionais, sendo escolhidos, portanto, a partir de assuntos que estavam na agenda midiática. Mesmo não acrescentando informações úteis aos espectadores, o uso de estereótipos e o inusitado das notícias os levavam à reflexão sobre o sensacionalismo presente no jornalismo atual, ampliando, assim, o horizonte e o repertório cultural do público, fazendo-o pensar sobre novas problemáticas e pontos de vista.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade que se destaca é o diversidade de sujeitos representados, devido ao fato de os assuntos tratados serem variados e exigirem personagens diferentes nas interpretações. No caso específico do Sensacionalista, o personagem grotesco não só faz parte, como completa a narrativa já absurda e improvável do programa.

No entanto, esses personagens influenciam diretamente o indicador desconstrução de estereótipos, já que esta não é a proposta do programa, que “noticia” muitas vezes, por exemplo, o estereótipo do homem adúltero, um dos mais observados no segundo episódio da temporada dois. Dentre treze manchetes no Jornal Sensacionalista, três eram sobre o assunto:

“O Sindicato dos Dentistas se reuniram para pedir que as pessoas parem de falar que foram aos seus consultórios. Os dentistas se cansaram de ser usados como desculpa para adúlteros”;

“Camisinha com GPS. A mulher substitui a camisinha do marido por essa e, com isso, vigia o marido”;

“Em São Paulo, um empresário está ganhando muito dinheiro ajudando as pessoas a cometerem adultério. Ele inventou um spray que tonaliza a pele e disfarça a marca da aliança”.

No indicador de qualidade ampliação do horizonte do público, o Sensacionalista obteve maior destaque, porque apesar de tratar temas corriqueiros, os aborda de forma irônica, enfatizando o absurdo das situações, o que pode gerar no espectador uma nova forma de pensar sobre os assuntos discutidos. Veja, abaixo, exemplos sobre divórcio e a banalidade com a qual o assunto é tratado em noticiários, principalmente quando envolve celebridades:

“Uma bibliotecária faz book sensual para o marido, mas quando recebeu o resultado não se reconheceu e pediu o divórcio, pois acredita que é uma amante”;

“Um estranho pedido de divórcio chamou a atenção da vara da família. O marido estava arrumando a casa, fazendo comida, levando os filhos na escola e isso a incomodava”;

“Um outro motivo curioso de divórcio foi no Paraná. Uma produtora de eventos pediu a separação porque ao longo de um dia inteiro o marido não avisou a ela que ela estava com uma alface no dente”.

Já com o indicador oportunidade acontece o oposto: justamente por tratar temas banais, mesmo que estes gerem identificação no espectador por serem cotidianos e comuns, o programa deixa de falar sobre algo de interesse público ou que seja pertinente por meio do humor.

Abaixo, o gráfico com os indicadores de qualidade do plano do conteúdo.

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Na análise da Mensagem Audiovisual, ressalta-se a originalidade/criatividade do programa, que copia o formato de um telejornal em toda a sua composição estética, alterando justamente o conteúdo e trazendo assim novas camadas de significação ao produto final, fato que lhe atribui nota máxima nesse indicador.

Além disso, este formato apresenta clareza da proposta, pois é perceptível a intenção de satirizar a banalização da informação em noticiários e, sem dúvidas, gera a curiosidade do público, que fica atento à próxima informação, improvável de ser real, mas que foi estruturada de acordo com os critérios da narrativa jornalística, o que configura a solicitação de participação ativa do público, outro indicador de destaque no programa, característica que também é observada na interação direta dos atores com a câmera.

O indicador de qualidade diálogo com/entre outras plataformas se mostra no Sensacionalista por meio da citação de locais públicos reais, mesmo considerando que as notícias são simuladas, nas quais aparecem bairros, cidades e vias públicas conhecidas. Ademais, os episódios analisados apresentam o quadro Caravana Sensacionalista, que faz referência irônica a lugares já conhecidos, como no terceiro episódio da segunda temporada, em que a caravana vai à Nossa Senhora das Graças, cidade do Sul do Brasil, “onde ninguém acha graça de nada”, fazendo tanto um trocadilho com o nome, quanto às velhas piadas sobre gaúchos, que é sobre o que trata a “reportagem”.

Veja, abaixo, cada um dos indicadores do plano da mensagem audiovisual:

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Após esta análise, é possível concluir que o programa Sensacionalista possui diversas características que configuram um programa de qualidade, como originalidade e criatividade no formato, clareza da proposta, além dos modos de representação, que se referem à criação dos personagens e, logo, à diversidade de sujeitos representados. Além destes, a ampliação do horizonte do público por meio da ironia e do absurdo também é uma das características muito bem construídas do humorístico.

Entretanto, alguns indicadores como desconstrução de estereótipos e oportunidade deixam a desejar no que diz respeito à experimentação, pois, junto aos outros poderiam agregar à construção da narrativa se explorados, bem como a solicitação da participação ativa do público, que em um programa como esse, no qual é possível se identificar com diversas situações do dia a dia, poderia ser muito melhor desenvolvido.

Por Lilian Delfino

Tapas & Beijos

Leia a análise dos indicadores de qualidade de Tapas & Beijos

Tapas & Beijos é uma série de televisão brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão entre 5 de abril de 2011 e 15 de setembro de 2015. Protagonizada pelas atrizes Fernanda Torres e Andréa Beltrão, a comédia romântica tem a direção de Maurício Farias, produção de Cláudio Paiva, e nomes como Vladimir Brichta, Fábio Assunção, Otávio Müller, Natália Lage e Daniel Boaventura no elenco. Com uma duração média de 45 minutos cada emissão, a série exibiu 169 episódios e foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Prêmio Extra de Televisão, o Troféu APCA, o Troféu Imprensa e o Arte Qualidade Brasil Televisão.

A série conta as peripécias do dia a dia de duas amigas de mais ou menos 40 anos de idade, trabalhadoras, independentes e francas, que vivem cercadas por confusões em suas vidas amorosas, mas que ainda assim tentam ser felizes e sonham com seus príncipes encantados. Ao longo das cinco temporadas em que esteve no ar, a série passou por muitas mudanças. Num primeiro momento, por exemplo, Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andréa Beltrão) são solteiras, dividem apartamento no Méier e trabalham na Djalma Noivas, uma loja de Capacabana que aluga vestidos e artigos para cerimônias de casamento; posteriormente, as amigas se interessam por Armane (casado) e Jorge (dono de uma boate de strip-tease), respectivamente, e acabam casando com eles; na quarta temporada, Fátima e Sueli percebem que seus casamentos estão desgastados e põem fim às suas relações, tentando seguir a vida a diante, mas tendo diversas recaídas com os ex; e no último ano em que foi exibido, em 2015, as protagonistas pedem demissão da “Djalma Noivas”, após 15 anos, para abrirem o seu próprio negócio: um brechó chique.

No Plano da Expressão, muitos aspectos se destacam. A vinheta de abertura, por exemplo, traz em todas as temporadas uma animação em que noivos no topo de um bolo aparecem em situações de conflito, e no final a cabeça do homem desmonta de seu corpo e cai sobre o bolo. Na vinheta final, os créditos em cor branca sobem na tela enquanto são mostradas as últimas imagens do episódio, que diminuem de tamanho e ficam de lado. Quanto aos efeitos sonoros, a série traz barulhos de carros e buzinas quando os personagens estão na rua, barulhos característicos de cada cenário e músicas de fundo que condizem com a temática da obra.

Os cenários que compõem a trama são bem diversos, como o apartamento de Sueli, o apartamento de Fátima, a boate La Conga, a loja Djalma Noivas, a loja de importados do Armane, e o restaurante do seu Chalita. Sobre a linguagem, a série adota um vocabulário informal, com palavras como sacanagem, cassete, cafajeste, piranha, gostosa, baranga, cretino, pilantra e bunda, além de expressões metafóricas e cotidianas, como a proferida por Fátima no episódio do dia 10 de junho de 2014: “minha relação é tão quente, mas é tão quente, que ela até piora o efeito estufa”.

No decorrer de alguns episódios analisados, verifica-se que mershandising não é uma prática incomum. Marcas como Fiat, Citroën e Kia são identificadas na trama, às vezes até não exclusivas no mesmo episódio, e sempre compondo o cenário, ao fundo das personagens. Outros tipos de propagandas também são feitas, como a do filme S.O.S Mulheres ao Mar, que naquele momento estava passando nas salas de cinema do Brasil. Quanto à composição gráfica, chama atenção as passagens de uma cena para outra, em que muitas vezes transitam na tela figuras geométricas mais transparentes que caracterizam o Rio de Janeiro, como as famosas paisagens ou formatos de calçadas.

No Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público deixou a desejar. Somente os episódios da primeira e da última temporada são considerados razoáveis e, os demais, fracos. Isso se deve ao tipo de tema abordado pela trama, que é preferencialmente o desenrolar do dia a dia de uma pessoa que acorda cedo todos os dias, pega condução lotada, trabalha longe de casa, e tem que enfrentar os percalços da rotina. O episódio da última temporada, por exemplo, é razoável nesse indicador porque trata de temas relevantes de forma razoavelmente eficaz, como o suborno de representantes da lei, o exercício ilegal de uma profissão, e o racismo intrínseco nas pessoas.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, vemos novamente um destaque para o episódio de 2015, que usou diferentes tipos de personagens para a encenação dos temas mecionados acima, como um fiscal do comércio, um dentista, um advogado, duas senhoras idosas, duas mulheres de meia idade, cinco crianças, um bebê de colo, um vendedor ambulante, patrões e empregados. Das emissões analisadas, quatro são razoáveis nesse indicador, e apenas essa é considerada boa.

No indicador desconstrução de estereótipos, as notas também não são muito altas. Entretanto, apesar de não desconstruir estigmas, Tapas & Beijos não os reafirma constantemente. No episódio do dia 12 de novembro de 2013, intitulado Lembranças do passado geram brigas no presente, porém, é uma exceção. Aos 7 minutos e 50 segundos acontece o seguinte diálogo entre Sueli e Jurandir:

JURANDIR: Oi Sueli. A gente precisa levar um papo sério.

SUELI: Tem que ser agora?

JURANDIR: É. A Bia me falou sobre o lance de você ter iniciado o pequeno PC.

SUELI: Poe que, eu também fui a sua primeira vez?

JURANDIR: Que… você foi a segunda.

SUELI: Que desculpa de mulherzinha. Vai, desembucha Jurandir, que eu tô ocupada.

(Tapas & Beijos – episódio Lembranças do passado geram brigas no presente 12/11/2013)

Com essa última fala de Sueli, vemos a inferiorização da mulher: o uso da palavra “mulherzinha”, uma tentaiva do diminuivo de “mulher”, associado a uma atitude errada (inventar motivos para algo), deixa claro o pressuposto de que mulheres mentem e agem de forma indevida.

E no último indicador de qualidade do plano do conteúdo, oportunidade, vemos uma variedade na avaliação: das cinco emissões, duas são fracas nesse indicador; duas, razoáveis; e uma, boa. Sobre as fracas, a justificativa é por abordar temas que ocorrem no dia a dia das pessoas, mas não estão na agenda midiática. E sobre a boa, a jusificativa é por abordar temas recorrentes na sociedade, que constantemente são vistos também nas mídias informacionais a que temos acesso, como, por exemplo, o racismo, que ainda é uma questão a ser vencida e veio na trama representada pela dificuldade que as pessoas têm para agirem de forma natural diante de um pai negro com um filho branco. Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo, com suas respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas obteve avaliação razoável em todos os cinco episódios analisados devido à pouca interação do programa com os diferentes tipos de plataformas e conteúdos. Na série, o que constantemene acontece é o diálogo implícito com filmes que estão no cinema da vida real, a menção a bairros reais do Rio de Janeiro, e um dos sites da Rede Globo, que aparece no final dos créditos de cada episódio.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi fraco em todas as emissões. Isso se deve, principalmente, ao formato do programa, que não é aberto à opinião do público e conta com uma equipe de roteiristas já formada. Na série, um dos únicos exemplos de interação direta entre personagem e público está aos 28 minutos do episódio do dia 10 de junho de 2014, intitulado Sueli é acolhida por Fátima e Armane, quando Sueli, sozinha na cena, olha para a câmera, aperta os olhos e morde a boca, como se estivesse mostrando ao público como ela está feliz com a situação de amor entre Fátima e Armane, que incluiu naquele momento gritos, tapas e gemidos.

No quesito originalidade/criatividade a série foi razoável em todas as emissões analisadas. Contudo, extrapolando o campo de visão dessas emissões, percebe-se que a série em geral é importante para a ampliação do horizonte do público quando aborda na trama as questões LGBT, até então original por trazer, a partir da terceira temporada, a personagem Stephanie, interpretada por Rafael Primot, que é uma travesti ingênua que se relaciona com Tijolo (Orã Figueiredo), o sócio de Jorge (Fábio Assunção) na boate.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, ao contrário dos anteriores, foi muito bem pontuado. Clareza da proposta foi assim avaliado devido à transparência dos seus objetivos e à explicitação do formato com o qual o programa trabalha. A linguagem coloquial, por exemplo, e o fato de o episódio sempre começar mostrando as ruas da cidade do Rio de Janeiro, as pessoas passando, trabalhando ou conversando na calçada, a frente de algumas lojas e os carros passando na rua geram uma identificação do público com o programa, que já no início se situa e entende sobre onde a narrativa se passará.

A primeira canção que é apresentada também contribui para essa clareza, já que a letra geralmente dialoga com a temática que será abordada em seguida. No episódio exibido no dia 10 de junho de 2014, por exemplo, o trecho “ele já não gosta mais de mim, mas eu gosto dele mesmo assim, que pena, que pena…” da música Que Pena, de Marisa Monte, introduz a história em que Sueli, separada de Jorge, tenta se recuperar com outros homens e vê o ex se relacionando com Flavinha, uma narrativa, portanto, que se relaciona com o trecho da música cantado no início. Abaixo, a avaliação recebida por cada indicador de qualidade da mensagem audiovisual.

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Por levantar questões importantes sem explorá-las de forma aprofundada e abrangente, podemos afirmar que Tapas & Beijos é uma série que apresenta características de qualidade em algumas emissões, mas que não pode ser assim considerada majoritariamente. Entretanto, é inegável a identificação e aproximação que o público teve com a série, fazendo com que ele se visse e se inspirasse nas personagens, espelhando-se nos seus desejos e objetivos.

Por Luma Perobeli

Quinta Categoria

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Quinta Categoria foi um programa exibido pela MTV Brasil pela primeira vez em 13 de março de 2008. Dirigido e escrito por Ivan VonSimson, consistia na apresentação de jogos improvisados a partir de temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa. Durante as quatro temporadas em que foi transmitido, o game-show foi ao ar todos os sábados, às 20h, com duração média de 45 minutos, e destinava-se ao público jovem, de 15 a 30 anos de idade, das classes A, B e C. Os jogos são elaborados pelo grupo Desnecessários (Paulo Serra, Rodrigo Capella e Tatá Werneck), e conta também com a participação de um artista convidado. Tendo as mesmas características do programa Whose Line Is It Anyway?, criado em 1988 na rádio BBC, no Reino Unido, o formato do Quinta Categoria se instalou nas telinhas do Brasil após o sucesso da Cia. Barbixas de Humor no teatro, que já adotava o gênero.

No Plano da Expressão, são destaques os códigos visuais e gráficos, referentes ao cenário e à vinheta de abertura, respectivamente. O amplo palco de apresentação dos artistas, composto por paredes de tijolos, vigas de ferro, grandes janelas ao fundo, placas de trânsito, um telão à esquerda do plano, uma caixa de energia à direita do plano, e caixas de madeira posicionadas ao lado das cadeiras que ficam alinhadas ao fundo, conferem ao programa um ambiente moderno e descontraído, despreocupado com a beleza artística do cenário. E a vinheta de abertura, trazendo um robô vestido com roupa amarela e azul, que participa de uma série de situações engraçadas e absurdas de maneira tosca, já anuncia ao espectador o estilo do programa, que utiliza o grotesco e o caricato para gerar o riso. A composição gráfica também chama a atenção, pois o logotipo e as letras dos grafismos de rodapé dialogam com o mesmo aspecto geométrico e despojado do cenário e da vinheta de abertura, sendo vistos, portanto, como um conjunto de elementos do plano da expressão essenciais para a identificação do público jovem com o programa.

No Plano do Conteúdo, os indicadores de qualidade oportunidade e desconstrução de estereótipos foram pontuados. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o Quinta Categoria um programa atual porque utiliza as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um. Analisando o estereótipo, podemos considerar que o programa utiliza esse recurso para a desconstrução, afirmação ou para uma mistura das duas formas. No episódio do dia 5 de novembro de 2011, por exemplo, quando aos 18 minutos e 25 segundos Rodrigo Capella anuncia o jogo da cena em funk, ele estereotipa as pessoas que escutam o estilo musical funk (“Ahh, é o jogo da cena em funk, pra você que é carioca, ou você que tem uma gangue, ou você que faz parte de uma facção criminosa”) e depois, ao perceber a asneira que falou, tenta desconversar o que havia dito (“Não tem nada a ver com isso rapaz, que aqui é só um funk, é só uma brincadeira”), fazendo, portanto, a afirmação e a desconstrução do estereótipo na mesma frase.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados obteve bons resultados, pois, como já falamos anteriormente, o programa é inteiramente elaborado por temas sugeridos pelo público, pertencente às diferentes classes da sociedade. Apesar de a plateia ser constituída na sua maioria por jovens e brancos, há pessoas de todas as idades, cores e estilos, que são selecionadas pelos artistas e têm voz no programa. Porém, no indicador ampliação do horizonte do público, ao contrário do anterior, os números já não existem, pois as propostas sugeridas pela plateia (e até mesmo as selecionadas do site), não são polêmicas, contraditórias ou férteis, no sentido que podem fazer os telespectadores refletirem ou debaterem ideias relevantes que contribuirão para ampliar o seu repertório cultural ou sua visão de mundo. Confira, abaixo, a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito identificado em todos os episódios. Isso se deve, além da comunicação coloquial estabelecida entre os artistas e a plateia, ao formato do programa de se constituir inteiramente pelos jogos de improviso com temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa, que interage virtualmente. No episódio exibido no dia 21 de junho de 2011, aos 12 minutos e 44 segundos, por exemplo, Rodrigo Capella vai até a plateia para pegar um tema:

RODRIGO: Vou pegar um tema ali com o meu amigo aqui… Pô, vai ser difícil de passar, mas não problema. Como é teu nome?

ESPECTADOR: Lucas.

RODRIGO: Você me chamou até aqui, se você não tiver um tema bom, você tá ferrado, hein. Ô Lucas, fala pra mim uma briga entre duas pessoas, porque que tava rolando essa briga, e essas pessoas, fala aí quê que você veio pensando de casa.

ESPECTADOR: Ahh, um índio assim todo barrigudo…

RODRIGO: Um índio?

ESPECTADOR: Todo barrigudo.

RODRIGO: Um índio barrigudo tá brigando por quê?

ESPECTADOR: Porque ele queria os pataxó todo em volta da fogueira.

RODRIGO: Cara, um índio barrigudo brigou por que queria os pataxó em volta da fogueira. Aí você vê… mas foi bom. Como é teu nome? Lucas, né? Eu falo, não usa droga, galera, mas vocês insitem… Valeu, valeu.

(Quinta Categoria – episódio 21/06/2011)

Para a participação do público de casa, o jogo das frases exemplifica bem essa solicitação, pois nele os jogadores têm que improvisar algo relacionado a uma frase enviada pelo espectador para o site do programa. Abaixo, aos 9 minutos e 36 segundos do mesmo episódio, a fala de Paulinho Serra para explicar o jogo:

Muito bem, então se você é do Quinta Categoria e tá aqui sempre, você sabe que quem manda são vocês as frases agora no nosso programa. Então entra no site, manda a sua frase por que ela vai ser selecionada, ou não [...]. então vamos ver qual é a frase e quem mandou: ‘Maneiras de quinta para contar para seu pai que você está grávida’. Foi a Laura Juliani, que tá grávida, daqui de São Paulo. (Quinta Categoria – episódio 21/06/2011).

Além da solicitação da participação ativa do público através de temas dados por eles, pessoal ou virtualmente, outro método bastante usado pelo programa é o da participação do espectador na própria cena, como acontece no jogo da foto e no jogo serenata de quinta.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, os resultados também foram bastante satisfatórios. Além de aparecer na tela a referência do Twitter de cada humorista na sua primeira fala, menções a outras plataformas ao longo do episódio também são comuns, como ocorre no início do episódio do dia 2 de julho de 2011, com a fala de Paulinho Serra: “Hoje, está de arrepiar os culhões. Então, vamos colocando aí no Twitter ‘#QUINTACATEGORIA’. Vamos bombar de palmas também a presença dos Desnecessários”.

Ainda na mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todos os episódios da amostra. Uma das formas utilizadas para deixar claro o objetivo do programa de fazer o público rir com os jogos de improviso, é pela apresentação de Paulinho Serra logo no início de cada episódio, quando ele profere frases como “embarque no mundo do improviso” ou “o programa mais improvisado da televisão brasileira” (falada em três das cinco emissões analisadas). Além dessa, a outra forma de esclarecer para o público o tipo de conteúdo que está assistindo é explicando as regras de cada jogo antes de começá-lo. Com o nome e o funcionamento do jogo aparecendo no telão do palco, um humorista fixo do programa explica para o público como se dará a brincadeira, para que este tome nota de como serão os próximos minutos e julgue se acha interessante assistir ou não.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Quinta Categoria também se destaca em todas as emissões analisadas. Em nível mundial, não podemos dizer que o programa foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado no Reino Unido e Estados Unidos. Porém, por se tratar de um programa nacionalmente novo, nunca antes visto nas telinhas brasileiras, e de formato pouco conhecido pelo espectador, é considerado um programa original, criativo e experimental, pois, além das adaptações que sofreu para cair no gosto popular, conta ainda com o talento de quatro comediantes que, na sua maioria, já tinham experiência com o teatro e com a arte do improviso, o que fomenta a criação dos jogos e enriquece a qualidade artística do programa. Observe, a seguir, a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual: q2

Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no programa Quinta Categoria. Quanto ao modo de experimentação, vimos que o programa foi inovador porque ajudou a popularizar os jogos de improviso no Brasil, e se mostrou original e criativo ao levar o riso ao público de maneira irreverente, nova e até então incomum. Entretanto, não foi possível unir esse formato ao humorismo (modo de representação), uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Apesar de levar o riso, o programa não adota temas relevantes para a sociedade ou não apresenta ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias. Além disso, o uso do estereótipo muitas vezes é para reafirmar preconceitos já consolidados na nossa sociedade e, por mais que tenha em alguns momentos desconstruído paradigmas, isso não foi uma preocupação constante do programa.

Por Luma Perobeli

Comédia MTV

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O programa Comédia MTV estreou na MTV Brasil no dia 3 de março de 2010 e foi veiculado até março de 2012, quando mudou seu formato e passou a ser chamado de Comédia MTV Ao Vivo.Criado por Lilian Amarante, Gabriel Muller e Álvaro Campos, a apresentação ficava por conta de Marcelo Adnet, que contava no elenco com Rafael Queiroga, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Talita Werneck, Paulo Serra, Rodrigo Capella, Guilherme Santana e Fabio Rabin. Com duração de 1 hora e 45 minutos, o programa era composto por esquetes que faziam paródias de temas ou conteúdos da época.

Apesar de rotulado pela própria emissora como um programa de humor, o Comédia MTV era mesmo um programa de comédia, como sugere o próprio nome, que se baseava no riso fácil diante do “anormal”, daquilo que fugia do padrão. Dos cinco elementos que compõe o Plano da Expressão, ao menos um aspecto de três deles é destaque. Nos códigos visuais,cenário e atuação do elenco chamam atenção por atribuírem ao programa uma característica despojada e descontraída, que não preza pela verossimilhança, ou seja, a preocupação de passar realismo às cenas ao ponto de torná-las credíveis ao espectador. No episódio do dia 3 de maio de 2011, por exemplo, aos 7 minutos e 4 segundos, Bento Ribeiro protagoniza um esquete em que interpreta um homem prestando serviço comunitário a crianças por não pagar pensão alimentícia aos filhos. Na ocasião, o homem veste roupa da Branca de Neve e chega para contar histórias para as crianças, que são interpretadas por outros sete humoristas do programa, adultos, portanto, mas que devidamente caracterizados com roupa e penteado se comportam e falam como crianças. Também no cenário, a descontração está na diversidade de lugares apresentados, sem muitos detalhes e cuidados artísticos. Com uma ausência de padrão ou ordem na execução e/ou transmissão das cenas, o único momento que se repete em todas as emissões analisadas é quando aparecem os clipes musicais, que se passam num quadrado no centro da tela, sobre uma arte de muro de tijolos com quatro setas de luzes de neon piscando e apontando para o mesmo.

Nos códigos sintáticos, o destaque está na edição, que muito se faz presente no programa. Movimentos abruptos de câmera, efeitos sonoros, o uso do zoom in (que acontece para dar destaque para trechos da fala do emissor), do zoom out (para revelar a reação dos outros personagens diante do que é falado) e a presença dos cortes secos (cortes sem transição que têm a finalidade de aproximar a câmera e dar destaque ao rosto dos atores) são aspectos constantemente vistos no programa, que chamam a atenção do espectador e o faz por isso, talvez, pensar no conteúdo que é mostrado. Nos códigos gráficos, o aspecto que se destaca é a vinheta, tanto de abertura quanto de finalização, que é adequada ao estilo do programa no que se refere às cores, cenário, roteiro, falas e atuação.

Na abertura, a vinheta traz figuras que se formam em luzes de neon coloridas. Na primeira cena um homem corre na esteira, atrás dele vários chapéus passam voando e um deles o atinge; logo após, uma mulher pula num trampolim. Na terceira cena, uma mulher dança em frente a um homem de terno e gravata; ao fundo algumas bailarinas dançam e um laser vermelho sai do homem de terno e corta a cabeça da dançarina. Na segunda cena,uma garçonete segura uma bandeja e, ao fundo, um guitarrista sem cabeça toca. Na sequência, a cabeça da dançarina surge na bandeja da garçonete e, ao final, surge o nome do programa, também em letras de neon. Uma abertura, portanto, bastante irreverente.

No Plano do Conteúdo, o indicador desconstrução de estereótipos foi pouco identificado no programa. Apesar do posicionamento progressista da MTV de se mostrar a favor da diversidade sexual, a representação dos homossexuais ainda é carregada de estereótipos, o que acarreta uma visão distorcida dessa minoria. No quadro Nunca vai passar de novo, por exemplo, o objetivo é parodiar o quadro da Rede Globo Vale a pena ver de novo, que reprisa novelas antigas de sucesso. No Comédia MTV, a  paródia se dá pela representação de situações ruins, homofóbicas, machistas e absurdas, de novelas escritas por autores homossexuais. A título de exemplo, a frase proferida aos 5 minutos e 36 segundos do episódio do dia 19 de abril reforça ainda mais esse estigma de que escritores gays só fazem novelas ruins, com temática homossexual, situações absurdas e incapazes de serem reprisadas: “De um autor homossexual:Pais e Filhos. Mais uma novela que nunca vai passar de novo”.

Tendo em vista a diversidade presente dentro do grupo de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais, entre outros, é inegável a complexidade de se fazer uma boa representação dos mesmos, mas é inegável também a possibilidade de assim fazê-la. Se a proposta é de um humor inteligente, a opção mais razoável é tentar fugir dos estereótipos. E então, nesses casos, a opção por fazer piada do opressor é mais viável e, falemos a verdade, muito mais engraçada. Entretanto, não foi essa a postura adotada pelo Comédia MTV.

O indicador de qualidade oportunidade não foi muito pontuado. A avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato deo Comédia MTV produzir esquetes que fazem referência a assuntos de conhecimento do público, mas que não necessariamente estão na agenda midiática. Paródia de outros programas, como o feito em Big Brother Afeganistão, Nunca vai passar de novo, Desgraça Urgente, Domingúo e Plantão, ou de personalidades, como mostrado em HebeCam e Pormeliê, são a base do programa e por isso comumente vistos nas emissões.

A diversidade de sujeitos representados foi razoável nas emissões analisadas. A única melhor avaliada é a do dia 3 de maio de 2011, que se destaca pela grande variedade de tipos que mostrou, principalmente no quadro que abordava a religião Normal. Cariocas, paulistanos, lésbicas, negros, brancos, presos, consumistas, gordos,magros, estrangeiros, crianças, jovens, idosos, pais, mães,jornalistas, psicólogos, atrizes e cantores são alguns dos tipos representados pela emissão, seja por muito tempo ou não.

Ampliação do horizonte do público e estímulo ao pensamento e ao debate de ideias não são recorrentes ao longo das emissões aqui analisadas. A avaliação fraca recebida por esse indicador de qualidade em todas as emissões se justifica pela forma escrachada e estereotipada com que o programa faz referência aos outros conteúdo se pela escolha por temas rasos e quase que insignificantes que pouco objetivam a transformação sócio-político-cultural dos espectadores. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta está muito presente em todas as emissões analisadas. O objetivo do programa é bem apresentado ao espectador porque é constante o uso da paródia, da ironia ou da sátira para criticar padrões e provocar o riso. Como exemplo, temos o primeiro esquete do dia 29 de março de 2011, que traz Dani Calabresa e Tatá Werneck conversando sobre uma possível cena entre elas e outro humorista, que interpretaria um pai. No diálogo, que tem intercalado cenas dos humoristas fazendo o clipe de uma música, vemos que todos os personagens fazem papel de si mesmos, estando cada um o seu próprio nome artístico, o que deixa evidente se tratar de uma sátira à ausência das pessoas aos seus compromissos.

No indicador diálogo com/entre plataformas, todos os episódios foram bem avaliados, pois a relação da TV com as outras plataformas é vista em alguns esquetes do programa e na vinheta final de cada emissão, quando aparece nos créditos a frase: “mas quem faz o Comédia?! equipe completa no site!!!”. Abaixo dessa frase, que dialoga muito bem com o estilo descontraído do programa ao usar as letras minúsculas no início das frases e os excessos de pontuação, tem o endereço do site e do Twitter do programa. Além disso, a esse indicador também compete a menção a outros conteúdos televisivos, que é comumente visto no Comédia MTV através das inúmeras referências a músicas, artistas e outros programas da TV.

Em alguns esquetes do programa esse diálogo com outras plataformas também é visto quando vídeos feitos pelos espectadores são mostrados, o que incrementa também o indicador solicitação da participação ativa do público. Sendo considerável em todas as emissões, a avaliação desse indicador se justifica não pelo Comédia MTV solicitar diretamente a participação do espectador, mas por dar a ele oportunidade de aparecer na emissão. No final do episódio do dia 29 de março de 2011, por exemplo, o clipe que aparece é o enviado pelo espectador Bruno Costta, que mostra um homem vestido de passarinho azul dançando ao lado de duas meninas a música de fundo, que faz referência ao Twitter. Outro exemplo está no clipe exibido no final do episódio do dia 17 de maio do mesmo ano, enviado pelo Twitter @rodrigoguth1, em que um rapaz faz paródia da música New York, de Alicia Keys.

Último indicador da mensagem audiovisual, originalidade/criatividade, foi razoável em todas as emissões. Por ser de um formato já conhecido pelo público, inovação e experimentação não são destaques no programa, mas originalidade e criatividade pode-se dizer que sim, pois parodiava programas, personalidades, músicas e temas conhecidos da massa de forma escrachada, exagerada e engraçada. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Como vimos,aspectos característicos do programa, como o próprio nome diz, apenas geram a comédia, o riso fácil, imediato e despreocupado diante do diferente. Segundo os modos de representação e experimentação, a atuação dos personagens é satírica e grotesca e, por isso, acarreta uma visão distorcida das minorias, principalmente da comunidade LGBTTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais). Estigmas sociais foram reforçados, e a banalização do audiovisual reiterada incessantemente na maioria dos produtos da televisão não deixou de ser assim tratada no Comédia MTV, o que dificultou o envolvimento de uma comunidade e a sua categorização como humor de qualidade, já que nem ao humor o programa pertence.

Por Luma Perobeli

A Grande Família

a-grande-familiaA Grande Família foi uma série produzida por Guel Arraes, que estreou em 2001 no canal Globo e foi exibida até setembro de 2014. O programa foi uma releitura da versão dos anos 1970, idealizada por Max Nunes e Marcos Freire e escrita por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. O seriado, que ia ao ar toda quinta-feira às 23h, retrata o cotidiano da família Silva, que vive no subúrbio carioca e luta para se manter unida apesar de conflitos nas relações familiares e dificuldades diversas.

O elenco contava com atores fixos, dentre eles, Marco Nanini (Lineu), Marieta Severo (Dona Nenê), Lúcio Mauro Filho (Tuco), Guta Stresser (Bebel) e Pedro Cardoso (Agostinho). Rogério Cardoso interpretou Floriano, pai de Nenê, na série até 2003 quando faleceu; depois disso não houve substituição para o personagem.

No que diz respeito ao Plano da Expressão no programa, alguns aspectos são chamativos. A música tema é marcante e tem uma letra que explica bem a proposta da série: “Esta família é muito unida/E também muito ouriçada/Brigam por qualquer razão/Mas acabam pedindo perdão…/Pirraça pai!/Pirraça mãe!/Pirraça filha!/Eu também sou da família/Eu também quero pirraçar…”. Essa vinheta toca tanto no início quanto no fim do programa, sendo que na abertura ela acompanha a exibição de um antigo álbum de fotografias que mostra fotos de pessoas “comuns” se transformando nos rostos dos personagens. No fim, os créditos sobem na tela enquanto a música está em BG.

Um ponto notório de A Grande Família são os cenários, figurinos e linguagem, que, por serem simples, geram uma identificação popular com o programa e maior aceitação do público.

Outro detalhe percebido foi que o nome de todos os episódios aparece quase na metade do programa, sempre com uma formatação característica do tema do dia.

Em relação ao Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público foi tido como bom em duas emissões. Na emissão do dia 15 de maio de 2001, notou-se uma forte presença do tema machismo, tratado de maneira a levar o público a refletir sobre as opressões que em geral são normalizadas na sociedade. Outro exemplo foi no episódio do dia 17 de abril de 2008, quando Agostinho faz um escândalo no salão onde Bebel trabalha porque o filho deles, um bebê, não parava de chorar. Esse episódio enfatiza o debate sobre o papel do pai no cuidado com o filho e a ideia de que não só a mãe é responsável pela criança; uma vez que Bebel precisava voltar a trabalhar após o fim de sua licença maternidade. O mesmo episódio também faz uma rápida citação ao Bolsa Família, programa do governo federal.

Todos os episódios analisados tiveram classificação razoável no que diz respeito à diversidade de sujeitos representados, isso se deve à multiplicidade de tipos de pessoas observada nas emissões. No episódio do dia 17 de abril de 2008, por exemplo, são vistos personagens jovens, amigos de Tuco; pessoas mais maduras, no baile da Terceira Idade; diferentes profissionais na delegacia. Além disso, é possível observar diversos pontos de vista sobre o tema central, que é a volta de Bebel ao trabalho após ela ter um filho. Porém, em nenhuma das emissões analisadas foi percebida uma grande pluralidade no que diz respeito à questão racial e sexual.

O indicador de destaque no plano de conteúdo foi desconstrução de estereótipos, sendo que dois episódios foram avaliados como bons e três como fracos. Os episódios que foram bem avaliados focaram em assuntos que estão presentes em pautas feministas. A emissão do dia 15 de maio de 2001 focou no machismo dos personagens da família Silva. Agostinho tenta impedir Bebel de sair com um vestido curto, justo e transparente e chega a dizer que “Nem madrinha de bateria de escola de samba usa um negócio desse”, valendo-se da imagem estereotipada da mulher no carnaval. Além disso, é consenso entre os homens da família que uma roupa daquela causaria assédios. Bebel se posiciona em favor da sua liberdade e diz: “Quer dizer então que esses animais não sabem se conter e eu é que tenho que me reprimir? Eles que aprendam a se controlar!” e a mãe a apoia. Bebel considera os homens da família retrógrados e repressores. Quando ela se arruma com um vestido mais longo, sem transparência e decotes, este é visto como “vestido de evangélica”.

O episódio do dia 17 de abril de 2008 também foi bem avaliado graças à temática feminista, em que Bebel descontrói a visão de Agostinho de que a mulher deve cuidar da casa e do filho e o homem trabalhar fora, ser o provedor da família.

Já o episódio do dia 27 de julho de 2006 foi considerado fraco nesse quesito porque reforçava alguns estereótipos, como quando Paulão repreende Marilda por ter ido ao “Baile das cachorras” dizendo: “Você que não devia estar aqui. Isso aqui não é lugar pra mulher decente.” E quando mostra uma briga no mesmo ambiente, reafirmando a visão de que baile funk é um lugar violento.

O indicador oportunidade obteve baixas avaliações, sendo considerado duas vezes como razoável e duas vezes como fraco. O episódio do dia 14 de abril de 2008, por exemplo, foi tomado como razoável, pela atualidade do tema da bebida combinada com direção. Esse episódio mostra que enquanto Lineu estava bêbado em um clube noturno que tinha ido com Nenê, Tuco, que estava na função de levar os pais para casa, preferiu não beber álcool, justamente para a segurança deles. Uma forma de conscientização popular no mesmo ano em que a Lei Seca foi promulgada no Brasil.

Veja a seguir as avaliações referentes aos indicadores do plano do conteúdo:

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Observando a Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões. Isso se deve ao formato narrativo do programa, que sempre apresenta desentendimentos e suas respectivas soluções. Porém, no final há sempre um conflito, mesmo que pequeno, que é deixado em aberto. Além disso, as personalidades são bem definidas e as personagens têm atitudes previsíveis; por exemplo, Lineu geralmente é estressado e tem muitas preocupações, já Agostinho sempre tenta se beneficiar de alguma situação. A música tema, como dito anteriormente, também já deixa clara a ideia do programa.

O critério diálogo com/entre outras plataformas teve três avaliações fracas e uma razoável. Isso justifica-se pelo pouco contato com outras mídias, sendo que somente em alguns episódios analisados houve esta relação, com citações a outros produtos audiovisuais da própria emissora. O episódio do dia 31 de Julho de 2008 foi o único razoável, por fazer citações a uma telenovela, ao reality show da emissora, “Big Brother Brasil”, e uma pequena divulgação do projeto Criança Esperança.

Com relação à solicitação da participação ativa do público, esta não foi muito observada, sendo percebida somente na linguagem, sempre popular e jovem. Por este motivo todas as emissões foram avaliadas como fracas.

Na análise sobre originalidade/criatividade, todos os episódios foram razoáveis, uma vez que o programa faz uma abordagem diferenciada de alguns temas que não são tratados na mídia, inserindo-os dentro do cotidiano. Porém não é completamente inovador, justamente por se tratar de um sitcom passado num ambiente familiar.

Confira os indicadores de qualidade referentes à mensagem audiovisual:

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Pode-se dizer que os episódios ficaram divididos em relação ao seu potencial de levar o espectador à reflexão. Falando sobre reforço de estereótipos, percebeu-se que alguns promoviam um debate sobre assuntos relevantes socialmente – como o papel da mulher – outros evidenciavam comportamentos e opiniões já convencionadas.

Não foi percebida uma experimentação técnico-expressiva considerável no programa, que se utilizava de um roteiro sem grandes novidades para um sitcom. A atuação dos personagens contribuiu para a característica mais importante do programa: identificação popular pela familiaridade. À medida que situações cotidianas de um núcleo familiar se repetem nos episódios, o espectador se sente mais próximo da história. Além disso, não há uma participação do público na construção da narrativa, porém os episódios analisados deixam claros a diversidade de opiniões das personagens – muitas vezes divergências que se tornam brigas – o que pode enriquecer a reflexão do espectador.

Por Letícia Silva