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Sensacionalista

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Sensacionalista foi um programa de humor exibido pela Multishow de 2011 a 2014. Inspirado no site norte-americano The Onion (“A Cebola”, em tradução livre), o projeto foi criado em 2009, por Nelito Fernandes, e permaneceu na TV por cinco temporadas, sendo transmitido toda segunda-feira, às 21h30, no canal fechado. Com um formato que se assemelha a um telejornal, o programa cria notícias fictícias com tom de verdade. Os âncoras, interpretados por Betina Kopp, Cristiane Pinto, Larissa Câmara, Tatá Lopes, Marcio Machado e Anderson Freitas, informam notícias que parecem reais, mas que não passam de grandes absurdos.

No Plano da Expressão, observamos que os apresentadores do humorístico se posicionam do mesmo modo que os apresentadores de qualquer outro telejornal verídico: apresentam a mesma entonação de voz, e as imagens são editadas da mesma forma, intercalando informação no estúdio e reportagem nas ruas. Nas externas, o jornalista faz uma pergunta séria, que é respondida também de forma séria pelo entrevistado, e a reportagem é toda construída de forma linear e bem editada, o que comprova a verossimilhança do programa ao seguir fielmente a estética de um telejornal. O cenário também se assemelha ao dos noticiários brasileiros: cores neutras, computadores e uma bancada, bastidores do jornal mostrado ao fundo, e os figurinos dos apresentadores constituem a paródia feita pelo Sensacionalista aos telejornais diários.

Os temas, que são completamente banalizados e inúteis, no sentido em que não acrescentam nenhuma informação à vida das pessoas, fazem parte das pautas dos jornais convencionais, sendo escolhidos, portanto, a partir de assuntos que estavam na agenda midiática. Mesmo não acrescentando informações úteis aos espectadores, o uso de estereótipos e o inusitado das notícias os levavam à reflexão sobre o sensacionalismo presente no jornalismo atual, ampliando, assim, o horizonte e o repertório cultural do público, fazendo-o pensar sobre novas problemáticas e pontos de vista.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade que se destaca é o diversidade de sujeitos representados, devido ao fato de os assuntos tratados serem variados e exigirem personagens diferentes nas interpretações. No caso específico do Sensacionalista, o personagem grotesco não só faz parte, como completa a narrativa já absurda e improvável do programa.

No entanto, esses personagens influenciam diretamente o indicador desconstrução de estereótipos, já que esta não é a proposta do programa, que “noticia” muitas vezes, por exemplo, o estereótipo do homem adúltero, um dos mais observados no segundo episódio da temporada dois. Dentre treze manchetes no Jornal Sensacionalista, três eram sobre o assunto:

“O Sindicato dos Dentistas se reuniram para pedir que as pessoas parem de falar que foram aos seus consultórios. Os dentistas se cansaram de ser usados como desculpa para adúlteros”;

“Camisinha com GPS. A mulher substitui a camisinha do marido por essa e, com isso, vigia o marido”;

“Em São Paulo, um empresário está ganhando muito dinheiro ajudando as pessoas a cometerem adultério. Ele inventou um spray que tonaliza a pele e disfarça a marca da aliança”.

No indicador de qualidade ampliação do horizonte do público, o Sensacionalista obteve maior destaque, porque apesar de tratar temas corriqueiros, os aborda de forma irônica, enfatizando o absurdo das situações, o que pode gerar no espectador uma nova forma de pensar sobre os assuntos discutidos. Veja, abaixo, exemplos sobre divórcio e a banalidade com a qual o assunto é tratado em noticiários, principalmente quando envolve celebridades:

“Uma bibliotecária faz book sensual para o marido, mas quando recebeu o resultado não se reconheceu e pediu o divórcio, pois acredita que é uma amante”;

“Um estranho pedido de divórcio chamou a atenção da vara da família. O marido estava arrumando a casa, fazendo comida, levando os filhos na escola e isso a incomodava”;

“Um outro motivo curioso de divórcio foi no Paraná. Uma produtora de eventos pediu a separação porque ao longo de um dia inteiro o marido não avisou a ela que ela estava com uma alface no dente”.

Já com o indicador oportunidade acontece o oposto: justamente por tratar temas banais, mesmo que estes gerem identificação no espectador por serem cotidianos e comuns, o programa deixa de falar sobre algo de interesse público ou que seja pertinente por meio do humor.

Abaixo, o gráfico com os indicadores de qualidade do plano do conteúdo.

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Na análise da Mensagem Audiovisual, ressalta-se a originalidade/criatividade do programa, que copia o formato de um telejornal em toda a sua composição estética, alterando justamente o conteúdo e trazendo assim novas camadas de significação ao produto final, fato que lhe atribui nota máxima nesse indicador.

Além disso, este formato apresenta clareza da proposta, pois é perceptível a intenção de satirizar a banalização da informação em noticiários e, sem dúvidas, gera a curiosidade do público, que fica atento à próxima informação, improvável de ser real, mas que foi estruturada de acordo com os critérios da narrativa jornalística, o que configura a solicitação de participação ativa do público, outro indicador de destaque no programa, característica que também é observada na interação direta dos atores com a câmera.

O indicador de qualidade diálogo com/entre outras plataformas se mostra no Sensacionalista por meio da citação de locais públicos reais, mesmo considerando que as notícias são simuladas, nas quais aparecem bairros, cidades e vias públicas conhecidas. Ademais, os episódios analisados apresentam o quadro Caravana Sensacionalista, que faz referência irônica a lugares já conhecidos, como no terceiro episódio da segunda temporada, em que a caravana vai à Nossa Senhora das Graças, cidade do Sul do Brasil, “onde ninguém acha graça de nada”, fazendo tanto um trocadilho com o nome, quanto às velhas piadas sobre gaúchos, que é sobre o que trata a “reportagem”.

Veja, abaixo, cada um dos indicadores do plano da mensagem audiovisual:

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Após esta análise, é possível concluir que o programa Sensacionalista possui diversas características que configuram um programa de qualidade, como originalidade e criatividade no formato, clareza da proposta, além dos modos de representação, que se referem à criação dos personagens e, logo, à diversidade de sujeitos representados. Além destes, a ampliação do horizonte do público por meio da ironia e do absurdo também é uma das características muito bem construídas do humorístico.

Entretanto, alguns indicadores como desconstrução de estereótipos e oportunidade deixam a desejar no que diz respeito à experimentação, pois, junto aos outros poderiam agregar à construção da narrativa se explorados, bem como a solicitação da participação ativa do público, que em um programa como esse, no qual é possível se identificar com diversas situações do dia a dia, poderia ser muito melhor desenvolvido.

Por Lilian Delfino

Tapas & Beijos

Leia a análise dos indicadores de qualidade de Tapas & Beijos

Tapas & Beijos é uma série de televisão brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão entre 5 de abril de 2011 e 15 de setembro de 2015. Protagonizada pelas atrizes Fernanda Torres e Andréa Beltrão, a comédia romântica tem a direção de Maurício Farias, produção de Cláudio Paiva, e nomes como Vladimir Brichta, Fábio Assunção, Otávio Müller, Natália Lage e Daniel Boaventura no elenco. Com uma duração média de 45 minutos cada emissão, a série exibiu 169 episódios e foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Prêmio Extra de Televisão, o Troféu APCA, o Troféu Imprensa e o Arte Qualidade Brasil Televisão.

A série conta as peripécias do dia a dia de duas amigas de mais ou menos 40 anos de idade, trabalhadoras, independentes e francas, que vivem cercadas por confusões em suas vidas amorosas, mas que ainda assim tentam ser felizes e sonham com seus príncipes encantados. Ao longo das cinco temporadas em que esteve no ar, a série passou por muitas mudanças. Num primeiro momento, por exemplo, Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andréa Beltrão) são solteiras, dividem apartamento no Méier e trabalham na Djalma Noivas, uma loja de Capacabana que aluga vestidos e artigos para cerimônias de casamento; posteriormente, as amigas se interessam por Armane (casado) e Jorge (dono de uma boate de strip-tease), respectivamente, e acabam casando com eles; na quarta temporada, Fátima e Sueli percebem que seus casamentos estão desgastados e põem fim às suas relações, tentando seguir a vida a diante, mas tendo diversas recaídas com os ex; e no último ano em que foi exibido, em 2015, as protagonistas pedem demissão da “Djalma Noivas”, após 15 anos, para abrirem o seu próprio negócio: um brechó chique.

No Plano da Expressão, muitos aspectos se destacam. A vinheta de abertura, por exemplo, traz em todas as temporadas uma animação em que noivos no topo de um bolo aparecem em situações de conflito, e no final a cabeça do homem desmonta de seu corpo e cai sobre o bolo. Na vinheta final, os créditos em cor branca sobem na tela enquanto são mostradas as últimas imagens do episódio, que diminuem de tamanho e ficam de lado. Quanto aos efeitos sonoros, a série traz barulhos de carros e buzinas quando os personagens estão na rua, barulhos característicos de cada cenário e músicas de fundo que condizem com a temática da obra.

Os cenários que compõem a trama são bem diversos, como o apartamento de Sueli, o apartamento de Fátima, a boate La Conga, a loja Djalma Noivas, a loja de importados do Armane, e o restaurante do seu Chalita. Sobre a linguagem, a série adota um vocabulário informal, com palavras como sacanagem, cassete, cafajeste, piranha, gostosa, baranga, cretino, pilantra e bunda, além de expressões metafóricas e cotidianas, como a proferida por Fátima no episódio do dia 10 de junho de 2014: “minha relação é tão quente, mas é tão quente, que ela até piora o efeito estufa”.

No decorrer de alguns episódios analisados, verifica-se que mershandising não é uma prática incomum. Marcas como Fiat, Citroën e Kia são identificadas na trama, às vezes até não exclusivas no mesmo episódio, e sempre compondo o cenário, ao fundo das personagens. Outros tipos de propagandas também são feitas, como a do filme S.O.S Mulheres ao Mar, que naquele momento estava passando nas salas de cinema do Brasil. Quanto à composição gráfica, chama atenção as passagens de uma cena para outra, em que muitas vezes transitam na tela figuras geométricas mais transparentes que caracterizam o Rio de Janeiro, como as famosas paisagens ou formatos de calçadas.

No Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público deixou a desejar. Somente os episódios da primeira e da última temporada são considerados razoáveis e, os demais, fracos. Isso se deve ao tipo de tema abordado pela trama, que é preferencialmente o desenrolar do dia a dia de uma pessoa que acorda cedo todos os dias, pega condução lotada, trabalha longe de casa, e tem que enfrentar os percalços da rotina. O episódio da última temporada, por exemplo, é razoável nesse indicador porque trata de temas relevantes de forma razoavelmente eficaz, como o suborno de representantes da lei, o exercício ilegal de uma profissão, e o racismo intrínseco nas pessoas.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, vemos novamente um destaque para o episódio de 2015, que usou diferentes tipos de personagens para a encenação dos temas mecionados acima, como um fiscal do comércio, um dentista, um advogado, duas senhoras idosas, duas mulheres de meia idade, cinco crianças, um bebê de colo, um vendedor ambulante, patrões e empregados. Das emissões analisadas, quatro são razoáveis nesse indicador, e apenas essa é considerada boa.

No indicador desconstrução de estereótipos, as notas também não são muito altas. Entretanto, apesar de não desconstruir estigmas, Tapas & Beijos não os reafirma constantemente. No episódio do dia 12 de novembro de 2013, intitulado Lembranças do passado geram brigas no presente, porém, é uma exceção. Aos 7 minutos e 50 segundos acontece o seguinte diálogo entre Sueli e Jurandir:

JURANDIR: Oi Sueli. A gente precisa levar um papo sério.

SUELI: Tem que ser agora?

JURANDIR: É. A Bia me falou sobre o lance de você ter iniciado o pequeno PC.

SUELI: Poe que, eu também fui a sua primeira vez?

JURANDIR: Que… você foi a segunda.

SUELI: Que desculpa de mulherzinha. Vai, desembucha Jurandir, que eu tô ocupada.

(Tapas & Beijos – episódio Lembranças do passado geram brigas no presente 12/11/2013)

Com essa última fala de Sueli, vemos a inferiorização da mulher: o uso da palavra “mulherzinha”, uma tentaiva do diminuivo de “mulher”, associado a uma atitude errada (inventar motivos para algo), deixa claro o pressuposto de que mulheres mentem e agem de forma indevida.

E no último indicador de qualidade do plano do conteúdo, oportunidade, vemos uma variedade na avaliação: das cinco emissões, duas são fracas nesse indicador; duas, razoáveis; e uma, boa. Sobre as fracas, a justificativa é por abordar temas que ocorrem no dia a dia das pessoas, mas não estão na agenda midiática. E sobre a boa, a jusificativa é por abordar temas recorrentes na sociedade, que constantemente são vistos também nas mídias informacionais a que temos acesso, como, por exemplo, o racismo, que ainda é uma questão a ser vencida e veio na trama representada pela dificuldade que as pessoas têm para agirem de forma natural diante de um pai negro com um filho branco. Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo, com suas respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas obteve avaliação razoável em todos os cinco episódios analisados devido à pouca interação do programa com os diferentes tipos de plataformas e conteúdos. Na série, o que constantemene acontece é o diálogo implícito com filmes que estão no cinema da vida real, a menção a bairros reais do Rio de Janeiro, e um dos sites da Rede Globo, que aparece no final dos créditos de cada episódio.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi fraco em todas as emissões. Isso se deve, principalmente, ao formato do programa, que não é aberto à opinião do público e conta com uma equipe de roteiristas já formada. Na série, um dos únicos exemplos de interação direta entre personagem e público está aos 28 minutos do episódio do dia 10 de junho de 2014, intitulado Sueli é acolhida por Fátima e Armane, quando Sueli, sozinha na cena, olha para a câmera, aperta os olhos e morde a boca, como se estivesse mostrando ao público como ela está feliz com a situação de amor entre Fátima e Armane, que incluiu naquele momento gritos, tapas e gemidos.

No quesito originalidade/criatividade a série foi razoável em todas as emissões analisadas. Contudo, extrapolando o campo de visão dessas emissões, percebe-se que a série em geral é importante para a ampliação do horizonte do público quando aborda na trama as questões LGBT, até então original por trazer, a partir da terceira temporada, a personagem Stephanie, interpretada por Rafael Primot, que é uma travesti ingênua que se relaciona com Tijolo (Orã Figueiredo), o sócio de Jorge (Fábio Assunção) na boate.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, ao contrário dos anteriores, foi muito bem pontuado. Clareza da proposta foi assim avaliado devido à transparência dos seus objetivos e à explicitação do formato com o qual o programa trabalha. A linguagem coloquial, por exemplo, e o fato de o episódio sempre começar mostrando as ruas da cidade do Rio de Janeiro, as pessoas passando, trabalhando ou conversando na calçada, a frente de algumas lojas e os carros passando na rua geram uma identificação do público com o programa, que já no início se situa e entende sobre onde a narrativa se passará.

A primeira canção que é apresentada também contribui para essa clareza, já que a letra geralmente dialoga com a temática que será abordada em seguida. No episódio exibido no dia 10 de junho de 2014, por exemplo, o trecho “ele já não gosta mais de mim, mas eu gosto dele mesmo assim, que pena, que pena…” da música Que Pena, de Marisa Monte, introduz a história em que Sueli, separada de Jorge, tenta se recuperar com outros homens e vê o ex se relacionando com Flavinha, uma narrativa, portanto, que se relaciona com o trecho da música cantado no início. Abaixo, a avaliação recebida por cada indicador de qualidade da mensagem audiovisual.

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Por levantar questões importantes sem explorá-las de forma aprofundada e abrangente, podemos afirmar que Tapas & Beijos é uma série que apresenta características de qualidade em algumas emissões, mas que não pode ser assim considerada majoritariamente. Entretanto, é inegável a identificação e aproximação que o público teve com a série, fazendo com que ele se visse e se inspirasse nas personagens, espelhando-se nos seus desejos e objetivos.

Por Luma Perobeli

Quinta Categoria

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Quinta Categoria foi um programa exibido pela MTV Brasil pela primeira vez em 13 de março de 2008. Dirigido e escrito por Ivan VonSimson, consistia na apresentação de jogos improvisados a partir de temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa. Durante as quatro temporadas em que foi transmitido, o game-show foi ao ar todos os sábados, às 20h, com duração média de 45 minutos, e destinava-se ao público jovem, de 15 a 30 anos de idade, das classes A, B e C. Os jogos são elaborados pelo grupo Desnecessários (Paulo Serra, Rodrigo Capella e Tatá Werneck), e conta também com a participação de um artista convidado. Tendo as mesmas características do programa Whose Line Is It Anyway?, criado em 1988 na rádio BBC, no Reino Unido, o formato do Quinta Categoria se instalou nas telinhas do Brasil após o sucesso da Cia. Barbixas de Humor no teatro, que já adotava o gênero.

No Plano da Expressão, são destaques os códigos visuais e gráficos, referentes ao cenário e à vinheta de abertura, respectivamente. O amplo palco de apresentação dos artistas, composto por paredes de tijolos, vigas de ferro, grandes janelas ao fundo, placas de trânsito, um telão à esquerda do plano, uma caixa de energia à direita do plano, e caixas de madeira posicionadas ao lado das cadeiras que ficam alinhadas ao fundo, conferem ao programa um ambiente moderno e descontraído, despreocupado com a beleza artística do cenário. E a vinheta de abertura, trazendo um robô vestido com roupa amarela e azul, que participa de uma série de situações engraçadas e absurdas de maneira tosca, já anuncia ao espectador o estilo do programa, que utiliza o grotesco e o caricato para gerar o riso. A composição gráfica também chama a atenção, pois o logotipo e as letras dos grafismos de rodapé dialogam com o mesmo aspecto geométrico e despojado do cenário e da vinheta de abertura, sendo vistos, portanto, como um conjunto de elementos do plano da expressão essenciais para a identificação do público jovem com o programa.

No Plano do Conteúdo, os indicadores de qualidade oportunidade e desconstrução de estereótipos foram pontuados. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o Quinta Categoria um programa atual porque utiliza as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um. Analisando o estereótipo, podemos considerar que o programa utiliza esse recurso para a desconstrução, afirmação ou para uma mistura das duas formas. No episódio do dia 5 de novembro de 2011, por exemplo, quando aos 18 minutos e 25 segundos Rodrigo Capella anuncia o jogo da cena em funk, ele estereotipa as pessoas que escutam o estilo musical funk (“Ahh, é o jogo da cena em funk, pra você que é carioca, ou você que tem uma gangue, ou você que faz parte de uma facção criminosa”) e depois, ao perceber a asneira que falou, tenta desconversar o que havia dito (“Não tem nada a ver com isso rapaz, que aqui é só um funk, é só uma brincadeira”), fazendo, portanto, a afirmação e a desconstrução do estereótipo na mesma frase.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados obteve bons resultados, pois, como já falamos anteriormente, o programa é inteiramente elaborado por temas sugeridos pelo público, pertencente às diferentes classes da sociedade. Apesar de a plateia ser constituída na sua maioria por jovens e brancos, há pessoas de todas as idades, cores e estilos, que são selecionadas pelos artistas e têm voz no programa. Porém, no indicador ampliação do horizonte do público, ao contrário do anterior, os números já não existem, pois as propostas sugeridas pela plateia (e até mesmo as selecionadas do site), não são polêmicas, contraditórias ou férteis, no sentido que podem fazer os telespectadores refletirem ou debaterem ideias relevantes que contribuirão para ampliar o seu repertório cultural ou sua visão de mundo. Confira, abaixo, a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito identificado em todos os episódios. Isso se deve, além da comunicação coloquial estabelecida entre os artistas e a plateia, ao formato do programa de se constituir inteiramente pelos jogos de improviso com temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa, que interage virtualmente. No episódio exibido no dia 21 de junho de 2011, aos 12 minutos e 44 segundos, por exemplo, Rodrigo Capella vai até a plateia para pegar um tema:

RODRIGO: Vou pegar um tema ali com o meu amigo aqui… Pô, vai ser difícil de passar, mas não problema. Como é teu nome?

ESPECTADOR: Lucas.

RODRIGO: Você me chamou até aqui, se você não tiver um tema bom, você tá ferrado, hein. Ô Lucas, fala pra mim uma briga entre duas pessoas, porque que tava rolando essa briga, e essas pessoas, fala aí quê que você veio pensando de casa.

ESPECTADOR: Ahh, um índio assim todo barrigudo…

RODRIGO: Um índio?

ESPECTADOR: Todo barrigudo.

RODRIGO: Um índio barrigudo tá brigando por quê?

ESPECTADOR: Porque ele queria os pataxó todo em volta da fogueira.

RODRIGO: Cara, um índio barrigudo brigou por que queria os pataxó em volta da fogueira. Aí você vê… mas foi bom. Como é teu nome? Lucas, né? Eu falo, não usa droga, galera, mas vocês insitem… Valeu, valeu.

(Quinta Categoria – episódio 21/06/2011)

Para a participação do público de casa, o jogo das frases exemplifica bem essa solicitação, pois nele os jogadores têm que improvisar algo relacionado a uma frase enviada pelo espectador para o site do programa. Abaixo, aos 9 minutos e 36 segundos do mesmo episódio, a fala de Paulinho Serra para explicar o jogo:

Muito bem, então se você é do Quinta Categoria e tá aqui sempre, você sabe que quem manda são vocês as frases agora no nosso programa. Então entra no site, manda a sua frase por que ela vai ser selecionada, ou não [...]. então vamos ver qual é a frase e quem mandou: ‘Maneiras de quinta para contar para seu pai que você está grávida’. Foi a Laura Juliani, que tá grávida, daqui de São Paulo. (Quinta Categoria – episódio 21/06/2011).

Além da solicitação da participação ativa do público através de temas dados por eles, pessoal ou virtualmente, outro método bastante usado pelo programa é o da participação do espectador na própria cena, como acontece no jogo da foto e no jogo serenata de quinta.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, os resultados também foram bastante satisfatórios. Além de aparecer na tela a referência do Twitter de cada humorista na sua primeira fala, menções a outras plataformas ao longo do episódio também são comuns, como ocorre no início do episódio do dia 2 de julho de 2011, com a fala de Paulinho Serra: “Hoje, está de arrepiar os culhões. Então, vamos colocando aí no Twitter ‘#QUINTACATEGORIA’. Vamos bombar de palmas também a presença dos Desnecessários”.

Ainda na mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todos os episódios da amostra. Uma das formas utilizadas para deixar claro o objetivo do programa de fazer o público rir com os jogos de improviso, é pela apresentação de Paulinho Serra logo no início de cada episódio, quando ele profere frases como “embarque no mundo do improviso” ou “o programa mais improvisado da televisão brasileira” (falada em três das cinco emissões analisadas). Além dessa, a outra forma de esclarecer para o público o tipo de conteúdo que está assistindo é explicando as regras de cada jogo antes de começá-lo. Com o nome e o funcionamento do jogo aparecendo no telão do palco, um humorista fixo do programa explica para o público como se dará a brincadeira, para que este tome nota de como serão os próximos minutos e julgue se acha interessante assistir ou não.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Quinta Categoria também se destaca em todas as emissões analisadas. Em nível mundial, não podemos dizer que o programa foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado no Reino Unido e Estados Unidos. Porém, por se tratar de um programa nacionalmente novo, nunca antes visto nas telinhas brasileiras, e de formato pouco conhecido pelo espectador, é considerado um programa original, criativo e experimental, pois, além das adaptações que sofreu para cair no gosto popular, conta ainda com o talento de quatro comediantes que, na sua maioria, já tinham experiência com o teatro e com a arte do improviso, o que fomenta a criação dos jogos e enriquece a qualidade artística do programa. Observe, a seguir, a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual: q2

Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no programa Quinta Categoria. Quanto ao modo de experimentação, vimos que o programa foi inovador porque ajudou a popularizar os jogos de improviso no Brasil, e se mostrou original e criativo ao levar o riso ao público de maneira irreverente, nova e até então incomum. Entretanto, não foi possível unir esse formato ao humorismo (modo de representação), uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Apesar de levar o riso, o programa não adota temas relevantes para a sociedade ou não apresenta ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias. Além disso, o uso do estereótipo muitas vezes é para reafirmar preconceitos já consolidados na nossa sociedade e, por mais que tenha em alguns momentos desconstruído paradigmas, isso não foi uma preocupação constante do programa.

Por Luma Perobeli

Comédia MTV

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O programa Comédia MTV estreou na MTV Brasil no dia 3 de março de 2010 e foi veiculado até março de 2012, quando mudou seu formato e passou a ser chamado de Comédia MTV Ao Vivo.Criado por Lilian Amarante, Gabriel Muller e Álvaro Campos, a apresentação ficava por conta de Marcelo Adnet, que contava no elenco com Rafael Queiroga, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Talita Werneck, Paulo Serra, Rodrigo Capella, Guilherme Santana e Fabio Rabin. Com duração de 1 hora e 45 minutos, o programa era composto por esquetes que faziam paródias de temas ou conteúdos da época.

Apesar de rotulado pela própria emissora como um programa de humor, o Comédia MTV era mesmo um programa de comédia, como sugere o próprio nome, que se baseava no riso fácil diante do “anormal”, daquilo que fugia do padrão. Dos cinco elementos que compõe o Plano da Expressão, ao menos um aspecto de três deles é destaque. Nos códigos visuais,cenário e atuação do elenco chamam atenção por atribuírem ao programa uma característica despojada e descontraída, que não preza pela verossimilhança, ou seja, a preocupação de passar realismo às cenas ao ponto de torná-las credíveis ao espectador. No episódio do dia 3 de maio de 2011, por exemplo, aos 7 minutos e 4 segundos, Bento Ribeiro protagoniza um esquete em que interpreta um homem prestando serviço comunitário a crianças por não pagar pensão alimentícia aos filhos. Na ocasião, o homem veste roupa da Branca de Neve e chega para contar histórias para as crianças, que são interpretadas por outros sete humoristas do programa, adultos, portanto, mas que devidamente caracterizados com roupa e penteado se comportam e falam como crianças. Também no cenário, a descontração está na diversidade de lugares apresentados, sem muitos detalhes e cuidados artísticos. Com uma ausência de padrão ou ordem na execução e/ou transmissão das cenas, o único momento que se repete em todas as emissões analisadas é quando aparecem os clipes musicais, que se passam num quadrado no centro da tela, sobre uma arte de muro de tijolos com quatro setas de luzes de neon piscando e apontando para o mesmo.

Nos códigos sintáticos, o destaque está na edição, que muito se faz presente no programa. Movimentos abruptos de câmera, efeitos sonoros, o uso do zoom in (que acontece para dar destaque para trechos da fala do emissor), do zoom out (para revelar a reação dos outros personagens diante do que é falado) e a presença dos cortes secos (cortes sem transição que têm a finalidade de aproximar a câmera e dar destaque ao rosto dos atores) são aspectos constantemente vistos no programa, que chamam a atenção do espectador e o faz por isso, talvez, pensar no conteúdo que é mostrado. Nos códigos gráficos, o aspecto que se destaca é a vinheta, tanto de abertura quanto de finalização, que é adequada ao estilo do programa no que se refere às cores, cenário, roteiro, falas e atuação.

Na abertura, a vinheta traz figuras que se formam em luzes de neon coloridas. Na primeira cena um homem corre na esteira, atrás dele vários chapéus passam voando e um deles o atinge; logo após, uma mulher pula num trampolim. Na terceira cena, uma mulher dança em frente a um homem de terno e gravata; ao fundo algumas bailarinas dançam e um laser vermelho sai do homem de terno e corta a cabeça da dançarina. Na segunda cena,uma garçonete segura uma bandeja e, ao fundo, um guitarrista sem cabeça toca. Na sequência, a cabeça da dançarina surge na bandeja da garçonete e, ao final, surge o nome do programa, também em letras de neon. Uma abertura, portanto, bastante irreverente.

No Plano do Conteúdo, o indicador desconstrução de estereótipos foi pouco identificado no programa. Apesar do posicionamento progressista da MTV de se mostrar a favor da diversidade sexual, a representação dos homossexuais ainda é carregada de estereótipos, o que acarreta uma visão distorcida dessa minoria. No quadro Nunca vai passar de novo, por exemplo, o objetivo é parodiar o quadro da Rede Globo Vale a pena ver de novo, que reprisa novelas antigas de sucesso. No Comédia MTV, a  paródia se dá pela representação de situações ruins, homofóbicas, machistas e absurdas, de novelas escritas por autores homossexuais. A título de exemplo, a frase proferida aos 5 minutos e 36 segundos do episódio do dia 19 de abril reforça ainda mais esse estigma de que escritores gays só fazem novelas ruins, com temática homossexual, situações absurdas e incapazes de serem reprisadas: “De um autor homossexual:Pais e Filhos. Mais uma novela que nunca vai passar de novo”.

Tendo em vista a diversidade presente dentro do grupo de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais, entre outros, é inegável a complexidade de se fazer uma boa representação dos mesmos, mas é inegável também a possibilidade de assim fazê-la. Se a proposta é de um humor inteligente, a opção mais razoável é tentar fugir dos estereótipos. E então, nesses casos, a opção por fazer piada do opressor é mais viável e, falemos a verdade, muito mais engraçada. Entretanto, não foi essa a postura adotada pelo Comédia MTV.

O indicador de qualidade oportunidade não foi muito pontuado. A avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato deo Comédia MTV produzir esquetes que fazem referência a assuntos de conhecimento do público, mas que não necessariamente estão na agenda midiática. Paródia de outros programas, como o feito em Big Brother Afeganistão, Nunca vai passar de novo, Desgraça Urgente, Domingúo e Plantão, ou de personalidades, como mostrado em HebeCam e Pormeliê, são a base do programa e por isso comumente vistos nas emissões.

A diversidade de sujeitos representados foi razoável nas emissões analisadas. A única melhor avaliada é a do dia 3 de maio de 2011, que se destaca pela grande variedade de tipos que mostrou, principalmente no quadro que abordava a religião Normal. Cariocas, paulistanos, lésbicas, negros, brancos, presos, consumistas, gordos,magros, estrangeiros, crianças, jovens, idosos, pais, mães,jornalistas, psicólogos, atrizes e cantores são alguns dos tipos representados pela emissão, seja por muito tempo ou não.

Ampliação do horizonte do público e estímulo ao pensamento e ao debate de ideias não são recorrentes ao longo das emissões aqui analisadas. A avaliação fraca recebida por esse indicador de qualidade em todas as emissões se justifica pela forma escrachada e estereotipada com que o programa faz referência aos outros conteúdo se pela escolha por temas rasos e quase que insignificantes que pouco objetivam a transformação sócio-político-cultural dos espectadores. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta está muito presente em todas as emissões analisadas. O objetivo do programa é bem apresentado ao espectador porque é constante o uso da paródia, da ironia ou da sátira para criticar padrões e provocar o riso. Como exemplo, temos o primeiro esquete do dia 29 de março de 2011, que traz Dani Calabresa e Tatá Werneck conversando sobre uma possível cena entre elas e outro humorista, que interpretaria um pai. No diálogo, que tem intercalado cenas dos humoristas fazendo o clipe de uma música, vemos que todos os personagens fazem papel de si mesmos, estando cada um o seu próprio nome artístico, o que deixa evidente se tratar de uma sátira à ausência das pessoas aos seus compromissos.

No indicador diálogo com/entre plataformas, todos os episódios foram bem avaliados, pois a relação da TV com as outras plataformas é vista em alguns esquetes do programa e na vinheta final de cada emissão, quando aparece nos créditos a frase: “mas quem faz o Comédia?! equipe completa no site!!!”. Abaixo dessa frase, que dialoga muito bem com o estilo descontraído do programa ao usar as letras minúsculas no início das frases e os excessos de pontuação, tem o endereço do site e do Twitter do programa. Além disso, a esse indicador também compete a menção a outros conteúdos televisivos, que é comumente visto no Comédia MTV através das inúmeras referências a músicas, artistas e outros programas da TV.

Em alguns esquetes do programa esse diálogo com outras plataformas também é visto quando vídeos feitos pelos espectadores são mostrados, o que incrementa também o indicador solicitação da participação ativa do público. Sendo considerável em todas as emissões, a avaliação desse indicador se justifica não pelo Comédia MTV solicitar diretamente a participação do espectador, mas por dar a ele oportunidade de aparecer na emissão. No final do episódio do dia 29 de março de 2011, por exemplo, o clipe que aparece é o enviado pelo espectador Bruno Costta, que mostra um homem vestido de passarinho azul dançando ao lado de duas meninas a música de fundo, que faz referência ao Twitter. Outro exemplo está no clipe exibido no final do episódio do dia 17 de maio do mesmo ano, enviado pelo Twitter @rodrigoguth1, em que um rapaz faz paródia da música New York, de Alicia Keys.

Último indicador da mensagem audiovisual, originalidade/criatividade, foi razoável em todas as emissões. Por ser de um formato já conhecido pelo público, inovação e experimentação não são destaques no programa, mas originalidade e criatividade pode-se dizer que sim, pois parodiava programas, personalidades, músicas e temas conhecidos da massa de forma escrachada, exagerada e engraçada. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Como vimos,aspectos característicos do programa, como o próprio nome diz, apenas geram a comédia, o riso fácil, imediato e despreocupado diante do diferente. Segundo os modos de representação e experimentação, a atuação dos personagens é satírica e grotesca e, por isso, acarreta uma visão distorcida das minorias, principalmente da comunidade LGBTTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais). Estigmas sociais foram reforçados, e a banalização do audiovisual reiterada incessantemente na maioria dos produtos da televisão não deixou de ser assim tratada no Comédia MTV, o que dificultou o envolvimento de uma comunidade e a sua categorização como humor de qualidade, já que nem ao humor o programa pertence.

Por Luma Perobeli

A Grande Família

a-grande-familiaA Grande Família foi uma série produzida por Guel Arraes, que estreou em 2001 no canal Globo e foi exibida até setembro de 2014. O programa foi uma releitura da versão dos anos 1970, idealizada por Max Nunes e Marcos Freire e escrita por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. O seriado, que ia ao ar toda quinta-feira às 23h, retrata o cotidiano da família Silva, que vive no subúrbio carioca e luta para se manter unida apesar de conflitos nas relações familiares e dificuldades diversas.

O elenco contava com atores fixos, dentre eles, Marco Nanini (Lineu), Marieta Severo (Dona Nenê), Lúcio Mauro Filho (Tuco), Guta Stresser (Bebel) e Pedro Cardoso (Agostinho). Rogério Cardoso interpretou Floriano, pai de Nenê, na série até 2003 quando faleceu; depois disso não houve substituição para o personagem.

No que diz respeito ao Plano da Expressão no programa, alguns aspectos são chamativos. A música tema é marcante e tem uma letra que explica bem a proposta da série: “Esta família é muito unida/E também muito ouriçada/Brigam por qualquer razão/Mas acabam pedindo perdão…/Pirraça pai!/Pirraça mãe!/Pirraça filha!/Eu também sou da família/Eu também quero pirraçar…”. Essa vinheta toca tanto no início quanto no fim do programa, sendo que na abertura ela acompanha a exibição de um antigo álbum de fotografias que mostra fotos de pessoas “comuns” se transformando nos rostos dos personagens. No fim, os créditos sobem na tela enquanto a música está em BG.

Um ponto notório de A Grande Família são os cenários, figurinos e linguagem, que, por serem simples, geram uma identificação popular com o programa e maior aceitação do público.

Outro detalhe percebido foi que o nome de todos os episódios aparece quase na metade do programa, sempre com uma formatação característica do tema do dia.

Em relação ao Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público foi tido como bom em duas emissões. Na emissão do dia 15 de maio de 2001, notou-se uma forte presença do tema machismo, tratado de maneira a levar o público a refletir sobre as opressões que em geral são normalizadas na sociedade. Outro exemplo foi no episódio do dia 17 de abril de 2008, quando Agostinho faz um escândalo no salão onde Bebel trabalha porque o filho deles, um bebê, não parava de chorar. Esse episódio enfatiza o debate sobre o papel do pai no cuidado com o filho e a ideia de que não só a mãe é responsável pela criança; uma vez que Bebel precisava voltar a trabalhar após o fim de sua licença maternidade. O mesmo episódio também faz uma rápida citação ao Bolsa Família, programa do governo federal.

Todos os episódios analisados tiveram classificação razoável no que diz respeito à diversidade de sujeitos representados, isso se deve à multiplicidade de tipos de pessoas observada nas emissões. No episódio do dia 17 de abril de 2008, por exemplo, são vistos personagens jovens, amigos de Tuco; pessoas mais maduras, no baile da Terceira Idade; diferentes profissionais na delegacia. Além disso, é possível observar diversos pontos de vista sobre o tema central, que é a volta de Bebel ao trabalho após ela ter um filho. Porém, em nenhuma das emissões analisadas foi percebida uma grande pluralidade no que diz respeito à questão racial e sexual.

O indicador de destaque no plano de conteúdo foi desconstrução de estereótipos, sendo que dois episódios foram avaliados como bons e três como fracos. Os episódios que foram bem avaliados focaram em assuntos que estão presentes em pautas feministas. A emissão do dia 15 de maio de 2001 focou no machismo dos personagens da família Silva. Agostinho tenta impedir Bebel de sair com um vestido curto, justo e transparente e chega a dizer que “Nem madrinha de bateria de escola de samba usa um negócio desse”, valendo-se da imagem estereotipada da mulher no carnaval. Além disso, é consenso entre os homens da família que uma roupa daquela causaria assédios. Bebel se posiciona em favor da sua liberdade e diz: “Quer dizer então que esses animais não sabem se conter e eu é que tenho que me reprimir? Eles que aprendam a se controlar!” e a mãe a apoia. Bebel considera os homens da família retrógrados e repressores. Quando ela se arruma com um vestido mais longo, sem transparência e decotes, este é visto como “vestido de evangélica”.

O episódio do dia 17 de abril de 2008 também foi bem avaliado graças à temática feminista, em que Bebel descontrói a visão de Agostinho de que a mulher deve cuidar da casa e do filho e o homem trabalhar fora, ser o provedor da família.

Já o episódio do dia 27 de julho de 2006 foi considerado fraco nesse quesito porque reforçava alguns estereótipos, como quando Paulão repreende Marilda por ter ido ao “Baile das cachorras” dizendo: “Você que não devia estar aqui. Isso aqui não é lugar pra mulher decente.” E quando mostra uma briga no mesmo ambiente, reafirmando a visão de que baile funk é um lugar violento.

O indicador oportunidade obteve baixas avaliações, sendo considerado duas vezes como razoável e duas vezes como fraco. O episódio do dia 14 de abril de 2008, por exemplo, foi tomado como razoável, pela atualidade do tema da bebida combinada com direção. Esse episódio mostra que enquanto Lineu estava bêbado em um clube noturno que tinha ido com Nenê, Tuco, que estava na função de levar os pais para casa, preferiu não beber álcool, justamente para a segurança deles. Uma forma de conscientização popular no mesmo ano em que a Lei Seca foi promulgada no Brasil.

Veja a seguir as avaliações referentes aos indicadores do plano do conteúdo:

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Observando a Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões. Isso se deve ao formato narrativo do programa, que sempre apresenta desentendimentos e suas respectivas soluções. Porém, no final há sempre um conflito, mesmo que pequeno, que é deixado em aberto. Além disso, as personalidades são bem definidas e as personagens têm atitudes previsíveis; por exemplo, Lineu geralmente é estressado e tem muitas preocupações, já Agostinho sempre tenta se beneficiar de alguma situação. A música tema, como dito anteriormente, também já deixa clara a ideia do programa.

O critério diálogo com/entre outras plataformas teve três avaliações fracas e uma razoável. Isso justifica-se pelo pouco contato com outras mídias, sendo que somente em alguns episódios analisados houve esta relação, com citações a outros produtos audiovisuais da própria emissora. O episódio do dia 31 de Julho de 2008 foi o único razoável, por fazer citações a uma telenovela, ao reality show da emissora, “Big Brother Brasil”, e uma pequena divulgação do projeto Criança Esperança.

Com relação à solicitação da participação ativa do público, esta não foi muito observada, sendo percebida somente na linguagem, sempre popular e jovem. Por este motivo todas as emissões foram avaliadas como fracas.

Na análise sobre originalidade/criatividade, todos os episódios foram razoáveis, uma vez que o programa faz uma abordagem diferenciada de alguns temas que não são tratados na mídia, inserindo-os dentro do cotidiano. Porém não é completamente inovador, justamente por se tratar de um sitcom passado num ambiente familiar.

Confira os indicadores de qualidade referentes à mensagem audiovisual:

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Pode-se dizer que os episódios ficaram divididos em relação ao seu potencial de levar o espectador à reflexão. Falando sobre reforço de estereótipos, percebeu-se que alguns promoviam um debate sobre assuntos relevantes socialmente – como o papel da mulher – outros evidenciavam comportamentos e opiniões já convencionadas.

Não foi percebida uma experimentação técnico-expressiva considerável no programa, que se utilizava de um roteiro sem grandes novidades para um sitcom. A atuação dos personagens contribuiu para a característica mais importante do programa: identificação popular pela familiaridade. À medida que situações cotidianas de um núcleo familiar se repetem nos episódios, o espectador se sente mais próximo da história. Além disso, não há uma participação do público na construção da narrativa, porém os episódios analisados deixam claros a diversidade de opiniões das personagens – muitas vezes divergências que se tornam brigas – o que pode enriquecer a reflexão do espectador.

Por Letícia Silva

Os Normais

Dos criadores Jorge Furtado, Alexandre Machado e Fernanda Young, Os normais é uma série brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão. No ar por três temporadas, a sitcom estreou em 1º de junho de 2001, e trazia nas noites de sexta-feira o cotidiano de Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres), um casal de noivos que há cinco anos vivia uma vida “normal”, com mal-entendidos, brigas, confusões e reviravoltas, como todo casal da vida real. Com a direção geral de José Alvarenga Jr., Os Normais exibiu 71 episódios e ficou no ar até 3 de outubro de 2003. Três anos mais tarde foi lançada na mesma emissora de TV a série Minha Nada Mole Vida, com os mesmos criadores, diretores, formato e ator principal, que também abordava o cotidiano dos personagens, mas agora o de Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) com a ex-mulher e o filho.

Aparentando ser um típico casal de classe média, na faixa dos 30 anos de idade, Rui e Vani são, na verdade, cheios de manias, preconceitos, paranoias, superstições e falhas de caráter, características que colocam em cheque a ideia de casal perfeito e pessoas normais.  O programa usa frequentemente a metalinguagem e os protagonistas falam direto com o espectador, interferindo no episódio e pedindo a aparição de “mini-flashbacks”.

No Plano da Expressão, os aspectos destaques são a vinheta do programa, a linguagem e o cenário. Na abertura do seriado, a canção de fundo “Doida Demais”, interpretada por Lindomar Castilho, compõe uma sequência de fotos aleatórias de rostos de pessoas desconhecidas, dos atores Fernanda e Luiz Fernando, de uma criança e um cachorro. Fazendo careta, sorrindo ou com expressão séria, o objetivo das fotos é fazer jus ao nome do programa, já que essas são pessoas normais, de todas as cores e idades, que faziam parte da equipe de produção da sitcom. A trilha de fundo constitui-se apenas por um único refrão da música, o trecho “você é doida demais”, que contrapõe o título do programa, já anunciando para o espectador o que se pode esperar: a personificação de pessoas normais, porém, loucas, pois aos olhos do outro, todo normal é um pouco descontrolado.

Quanto ao vocabulário adotado, o programa apresenta uma linguagem coloquial, cotidiana e cheia de palavrões, como caralho, merda, puta que pariu, xoxotas e paus, como acontece no dia a dia de muito casal “normal”. Os cenários utilizados não são variados, com a residência de cores saturadas e contrastantes de Rui sendo o principal local de gravação dos atores. Esses três elementos (vinheta, vocabulário e cenário) se complementam de modo que o espectador se identifique com o programa e se aproxime do mesmo, pois ver na televisão algo que também acontece na sua vida, de maneira tão espontânea e credível, instiga e gera curiosidade no espectador.

Além do formato em comum, equipe de criação, direção, e ator principal, outra característica vista também no seriado Minha Nada Mole Vida (lançado cinco anos após a estreia de Os Normais) é a da câmera em contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima), apontando normalmente para o prédio em que Rui mora, com o intuito de situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade oportunidade tem avaliação razoável em todas as emissões analisadas devido ao fato de, assim como em Minha Nada Mole Vida, abarcar assuntos cotidianos da vida dos personagens, incluindo problemas, questionamentos e prazeres da vida a dois, e não necessariamente assuntos da agenda midiática.

O indicador ampliação do horizonte do público não é muito observado no decorrer dos episódios, sendo quatro deles considerados razoáveis e um bom. Na emissão do dia 6 de junho de 2003, por exemplo, a boa avaliação é justificada pela abordagem mais longa da depressão, uma doença muito comum nos dias de hoje que necessita de atenção para que haja sempre informação sobre os sintomas e prejuízos ao paciente. Nas outras emissões, o estímulo do público ao pensamento e ao debate de ideias se dá pela inserção de reflexões a cerca de valores morais, como mentira, traição, felicidade, relacionamentos, sexo e amizade, porém de forma rápida e sem muita intensidade.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados não foi muito bem avaliado. Apesar de abordar assuntos bem diversos, as pessoas representadas na série não são muito diferentes umas das outras: todas são jovens na faixa dos 30 anos de idade, de pele branca e de classe média. Negros e crianças não aparecem em nenhum momento dos episódios e o que mais se diversificou quanto a esse indicador foi na emissão do dia 29 de junho de 2001, em que, brevemente, aparecem representantes de Nova Iorque, Tóquio e Berlim das filiais da empresa em que Rui trabalha.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, desconstrução de estereótipos, foi observado que a série faz constante uso do estereótipo para provocar o riso. Em duas das cinco emissões o estereótipo está muito presente e um pouco menos em outras três. A sitcom aborda a normalidade de duas pessoas através do uso de estereótipos, alguns sendo reforçados e outros questionados, para deixar que o telespectador tire suas próprias conclusões. No episódio exibido no dia 15 de junho de 2001, por exemplo, aos 7 minutos e 17 segundos, Rui começa a categorizar meninas de programa de acordo com o anúncio delas no jornal, baseando-se, portanto, em alguns estereótipos para afirmar o que acha:

Susi: ‘Mulherão dominadora’. Bom, ‘mulherão’ significa que já passou dos 35, né, e ‘dominadora’ significa que vai dar uns tapas na tua cara. Não… Vivian: ‘Morena, mignon, completa’. ‘Mignon’ quer dizer que tem um metro e meio, né? E ‘completa’ que tá desesperada e vai roubar teu aparelho de som.

(Os Normais – episódio Brigar é normal 15/06/2001).

Abaixo, a qualidade do plano do conteúdo, com a avaliação de cada indicador:

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Na Mensagem Audiovisual, Os Normais é razoável no indicador de qualidade originalidade/criatividade. Essa avaliação se deve, principalmente, ao uso da metalinguagem, comprovada quando na trama os protagonistas falam do próprio programa. Um exemplo disso está no episódio Um dia normal, exibido no dia 29 de junho de 2001, que traz Rui e Vani sentados no sofá da sala jogando dama, enquanto os bastidores arrumam o cenário. No momento em que Rui e Vani começam a interagir com o espectador que está do outro lado da tela, antes mesmo da vinheta de abertura, mostra-se um profissional do programa segurando o cartaz com as falas que serão ditas, e os atores (que se confundem com seus próprios personagens) olham para a câmera como se estivessem falando com o público.

RUI: Oi gente, é pra gente voltar com o programa agora…

VANI: …Mas a gente pediu pra passar mais uns comerciais.

RUI: É, porque nós estamos numa disputa importante.

VANI: É, se eu ganhar o Rui vai ter que lavar toda a louça da casa.

RUI: Não, mas ela não vai ganhar não.

VANI: E, não vou ganhar o quê, ó.

RUI: Pera aí, você roubou.

VANI: Ahh, roubei nada.

RUI: Você roubou enquanto eu estava falando com eles.

(Os Normais – episódio Um dia normal 29/06/2001)

Além da metalinguagem, outro momento criativo do programa que ajuda a incrementar o indicador originalidade/criatividade é na propaganda de um produto, em que Os Normais faz uso do humor sobre a própria situação do merchandising para divulgar uma marca.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, todas as emissões são boas, pois é comum vermos nos episódios ao menos uma menção a outra plataforma, programa ou personalidade. No exibido no dia 2 de maio de 2003, por exemplo, Rui questiona Vani sobre ela não dar mais atenção a ele por causa da novela, quando Vani o interrompe:

VANI: Peraí, que vai começar.

RUI: Pô, ainda tá no Jornal Nacional, cara.

VANI: Não, mas agora é assim, eles colam o início da novela no fim do Jornal Nacional. Se você bobeia, você perde o início do capítulo, entendeu?

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Após dialogar com um programa real (Jornal Nacional), a história continua e Vani mais uma vez menciona outro conteúdo que não é da trama, dessa vez com personalidades: “É, por exemplo, hoje, a Christiane Torloni e o José Mayer, antes mesmo da abertura da novela, eles vão transar, brigar e transar de novo”. Ainda na sequência, Vani novamente cita pessoas reais, o que mais uma vez justifica a avaliação boa que o indicador diálogo com/entre plataformas recebeu: “Peraí, peraí, que a Fátima Bernardes e o William Bonner já estão dando aquela notícia divertida do fim do Jornal Nacional”.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito bem avaliado em todas as emissões e é um dos indicadores de maior destaque no programa, tanto da mensagem audiovisual quanto do plano do conteúdo, e também pode ser exemplificado com o episódio mostrado acima. Na sequência da trama, ainda na discussão da novela, Rui conversa com Vani sobre saber antecipadamente o que vai acontecer nas novelas e no episódio que estão fazendo:

RUI: Por isso que eu não acompanho novela. Todo mundo já sabe o que vai acontecer, caramba.

VANI: Todo mundo já sabe que a gente vai passar o episódio discutindo, e nem por isso as pessoas param de assistir.

RUI: É, todo mundo já sabe que a gente vai ficar junto no final. Estão assistindo por causa de quê?

VANI: Não, não faz essa pergunta se não as pessoas trocam. Não! Não troca de canal.

(Os Normais – episódio Casal que vive brigando não tem crise 02/05/2003)

Além de usar a metalinguagem para falar do próprio programa, os personagens utilizam também esse recurso para falar do público e com ele. Como mostrado acima, nas duas últimas falas de Rui e Vani, há uma mescla de receptores da comunicação estabelecida: ora os personagens falam um com o outro, e ora voltam-se para o espectador. Em seguida à última fala de Vani, o programa faz uso de efeitos especiais para simular a troca de canal do espectador e na tela é mostrada uma cena de tiroteio em que várias pessoas estão sendo mortas. Novamente o efeito especial é utilizado para simular que o espectador voltou para o canal do programa e Rui vai ao banheiro sozinho para conversar com o público. Olhar e falar para a câmera, como se estivesse olhando para os olhos do espectador e esperando dele uma resposta, faz dessa técnica, portanto, mais um instrumento de identificação e aproximação de público e programa.

O indicador de qualidade clareza da proposta é, como o indicador anterior, igualmente bem avaliado. Toda essa intensa metalinguagem utilizada, juntamente com a atuação dos personagens e o formato bem definidos, são essenciais para a clareza e objetivo do programa. No exibido dia 15 de junho, por exemplo, a história já se inicia com os dois protagonistas em cenários diferentes e queixando-se um do outro, o que deixa evidente que os assuntos abordados no episódio serão os problemas que o casal tem entre si e as consequências do desejo de vingança que cada um sustenta consigo após os vários insultos mútuos. Observe, a seguir, a avaliação de cada indicador da mensagem audiovisual:

N2

Levando em consideração os episódios aqui analisados, que representam apenas uma pequena parcela de Os Normais e não necessariamente a sua totalidade, podemos afirmar que a série apresenta poucas características de qualidade. Por mais objetiva, curiosa e instigante que tenha sido (experimentação), as emissões analisadas não prezam pela diversidade cultural, faz constante uso do estereótipo de afirmação para gerar o riso e não aprofunda em temas importantes devido ao pouco tempo que dedica a eles (representação), por mais que tais temas tenham sido levantados.

Por Luma Perobeli

O Não Famoso

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Criado por Daniel Santos, o canal O Não Famoso, em maio de 2016, contava com cerca de 280.000 inscritos e 232 vídeos. Na descrição do canal, Santos se apresenta como “cantor, compositor e produtor musical”, o que justifica o grande número de paródias dentre os vídeos. Em geral, também há vídeos sobre temas diversos, às vezes com convidados ou perguntas dos internautas.

Na esfera do Plano da Expressão, se destaca a linguagem utilizada por Daniel Santos – sempre informal e com expressões populares, como “bagaça” ou “vai plantar batata”, o que permite uma aproximação do público. Já o cenário e o figurino não possuem grande destaque. Os vídeos são gravados em um estúdio musical, com paredes de isolamento acústico e um computador ao fundo. O cenário, geralmente, só muda nas paródias, quando é utilizado o chromakey para colocar certas imagens como fundo.

Quanto ao Plano do Conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados recebeu avaliação fraca em todas as emissões analisadas, já que, na maioria dos vídeos, tem-se apenas Daniel Santos, ou ele e mais um convidado, geralmente homem. Desse modo, há também pouca diversidade de opiniões e pontos de vista.

A desconstrução de estereótipos foi percebida em apenas uma emissão, a do dia 10 de setembro, no vídeo com a participação de Wilson Neto, mas mesmo assim de forma bem discreta e superficial. Nele, Daniel pergunta:

DANIEL: E se a gente tivesse um olho só?
WILSON: A gente não podia cagar né… A mulher nunca, não ia ser permitido que mulher tirasse carteira de motorista, jamais. Se dois olhos ela…
DANIEL: Não, não. Aí pegou no pé das mulheres que assistem os meus vídeos, agora não. Castigo, vai ter castigo.

O indicador oportunidade, por sua vez, recebeu avaliação fraca em três emissões, por não haver nelas temas relevantes ou atuais, presentes constantemente nas agendas do público e da mídia. Já a paródia da música Suíte 14 recebeu avaliação razoável no indicador, uma vez que se refere a uma canção atual e muito tocada em festas, por exemplo. Desse modo, a música se faz presente no cotidiano de grande parte do público.

O vídeo Adaptando Filosofias, do dia 17 de setembro, e Falsetes da Melody, do dia 08, receberam avaliação boa nesse indicador. O primeiro traz citações de pensadores antigos, como Platão e Aristóteles, para os dias atuais, numa readaptação. Sendo assim, várias situações cotidianas e muito comuns são representadas. No vídeo, Daniel readapta, por exemplo, a frase “Tente mover o mundo, o primeiro passo é mover a si mesmo” para “Tente mover a si mesmo, o primeiro passo será sair do WhatsApp”. Modificou ainda a frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” para “Não sabendo que era impossível, foi lá e clicou para mudar a cor do Facebook”.

Já em Falsetes da Melody, Daniel discorre sobre os vídeos da MC Melody, muito compartilhados nas redes sociais, motivos de debates e de alguns memes. O pai da menina, inclusive, foi acusado de hipersexualizar a filha nos seus shows, assunto que estava em pauta na época. Dessa forma, os falsetes da MC Melody compunham temas recorrentes na agendas do público e de algumas mídias.

A ampliação do horizonte do público foi avaliada de modo fraco em três das emissões analisadas, as quais não apresentavam temas relevantes que pudessem estimular o debate ou o pensamento. Já os vídeos Adaptando Filosofias e Paródia Suíte 14 receberam avaliação razoável. O primeiro, ao trazer frases de filósofos para os dias atuais utilizando, na maioria das vezes, hábitos comuns na era da internet, pode levar a uma reflexão a cerca desses hábitos, muitas vezes questionáveis. Já a paródia discorre sobre coisas comuns da infância nos anos 90 e 2000, como assistir desenhos ou brincar na rua. Resgatar tais elementos pode fazer com que o público reflita sobre as mudanças que ocorreram e como as crianças se divertem hoje em dia.

O vídeo Falsetes da Melody, por sua vez, traz uma discussão sobre o modo como o MC Belinho, pai da MC Melody, trata a exposição da filha. Daniel comenta no vídeo: “Na real, eu sinto pena dela, porque, na verdade, ela está sendo usada como um produto do próprio pai.”. E ainda complementa: “Não é difícil perceber que ele está explorando a imagem dela de todas as formas possíveis, expondo ela ao ridículo.”. A partir do vídeo é possível levantar questões sobre exposição infantil e paternidade, por exemplo. A seguir, o gráfico que mostra os indicadores e as avaliações de cada emissão no plano do conteúdo:

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Em relação à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. Normalmente a estrutura dos vídeos se repete, mas quando há um formato diferente do usual, como a gravação de uma tag, a proposta é explicada no início do vídeo. Na emissão do dia 10 de setembro de 2015, E Se (ft. Wilson Neto), Daniel explica: “A gente vai gravar um vídeo um pouco diferente (…) Então, a gente vai fazer uma tagque a gente inventou que se chama E Se”. Já no vídeo Nudes, do dia 22, Daniel explica a dinâmica do AskSnap, novo quadro do canal: “No caso, vai ser um quadro que eu vou abrir o meu snap pra galera mandar vídeos, fazendo perguntas”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do públicorecebeu avaliação muito boa. Comumente Daniel cumprimenta sua audiência com a frase “fala galerinha não famosa”, além de, em quase todas as emissões, pedir para o público deixar likesnos vídeos e seguir o canal em outras redes sociais. Expressões como “vocês” também são utilizadas, ao mesmo tempo em que Daniel olha, a quase todo momento, diretamente para a câmera. Ao final dos vídeos também há dois links: um que leva a outro vídeo do canal, com a frase “veja também”, e outro que leva à página do canal, com a frase “me aperta vai”.

A solicitação da participação do público também pode ser percebida em alguns quadros do canal. No quadro AskSnap, como citado anteriormente, os internautas enviam perguntas para Daniel por vídeos feitos através do Snapchat. O quadro Não Famoso Responde se assemelha a ele, mas as perguntas são feitas através de comentários nas redes sociais.

O diálogo com/entre plataformas também recebeu avaliação muito boa em todas as emissões. Nos quadros citados, por exemplo, as perguntas dos internautas são feitas em outras mídias, como o Snapchat, e respondidas através dos vídeos do YouTube feitos pelo canal. Além disso, em todos os vídeos são mostradas as outras redes sociais do canal, como Instagram ou Facebook. Frequentemente também há parcerias com outros canais, sendo os vídeos feitos com a participação de convidados, como a paródia de Suíte 14, da dupla Henrique e Diego, ou a tagE Se. Na paródia de Suíte 14, por exemplo, percebe-se também a presença de elementos externos à internet, como no trecho: “É que eu estudava vendo/ Dragon Ball e Pokémon”. Ou ainda: “Vê/ que Merthiolate arde pra desgraça”.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável na maioria das emissões, já que não há grande inovação no formato ou no conteúdo do canal. A única emissão que recebeu avaliação boa nesse indicador foi a do dia 15/09/2015 – Paródia Suíte 14 (ft. Caio Romano) – pois transforma totalmente uma música já existente, utilizando outro tema como base. Abaixo, o gráfico da mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se concluir que o canal O Não Famoso, nas emissões estudadas, não se destaca em aspectos importantes do humor de qualidade, explicitados em indicadores como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos, nos quais o canal não obteve avaliações relevantes. Já no plano da mensagem audiovisual, puderam-se ver alguns elementos de destaque, como diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Entretanto, tais elementos são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um grande diferencial do canal.

Por Júlia Garcia

O Que Tem Pra Hoje

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 O canal O Que Tem Pra Hoje, criado em agosto de 2011 é, segundo as descrições dos vídeos, “um canal de esquetes (vídeos engraçados, de humor), independente.”. Em maio de 2016 contava com cerca de 130.000 inscritos, 92 vídeos e mais de 20.000.000 visualizações.Entretanto, as emissões analisadas do canal – todas de setembro de 2015 – fazem parte de uma websérie produzida pela Toca dos Filmes: Os Britos Também Amam. Nela, é apresentado Rafael Brito, um homem de 32 anos que leva uma vida semelhante à de um adolescente, juntamente com seus dois amigos, Chelo e Rico. Brito é procurado por Kelly, sua ex-namorada de 15 anos atrás, que revela que ele tem uma filha adolescente chamada Raquel. Ele, então, passa a ter novas responsabilidades que o levam ao temido amadurecimento.

No plano da expressão se destaca a produção do programa, de alta qualidade. O cenário, por exemplo, é bem montado e o figurino bem planejado.  Os equipamentos utilizados para filmagem e iluminação também conferem destaque à produção, dando qualidade à série. Tais características fazem lembrar as produções televisivas. O projeto foi financiado através do Catarse, uma plataforma online de financiamento coletivo, que permitiu a realização da série com tal qualidade.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados foi pontuado de forma razoável em todas as emissões. Há certa diversidade de gênero e pontos de vista, visto que se tem a representação de uma mulher séria e correta, uma adolescente e um homem despreocupado e sem responsabilidades, por exemplo. Entretanto, faltam personagens que deem diversidade socioeconômica, cultural, étnica, dentre outros. Não há grande pluralidade dentre os sujeitos representados, motivo pelo qual o indicador foi considerado razoável na análise.

O indicador oportunidade foi igualmente avaliado. O tema tratado pela websérie – a descoberta da paternidade, o amadurecimento e o cuidado com os filhos – pode ser encontrado comumente em outras séries ou novelas, por exemplo. Essa situação também faz parte do cotidiano de algumas famílias, estando, portanto, presente nas agendas da mídia e do público, em maior ou menor quantidade. Contudo, esse tema não é pauta constante ou rotineira nessas agendas, motivo pelo qual a avaliação não foi maior.

Em relação à ampliação do horizonte do público, o episódio 13 da websérie recebeu avaliação razoável, já que, assim como todos os capítulos em geral, trata da figura do pai, em especial da descoberta da paternidade, questão pertinente e que pode levar os espectadores à reflexão sobre o tema. Tem-se como exemplo o diálogo entre Brito e Raquel:

RAQUEL: Não, por que você tá defendendo a minha mãe?
BRITO: Eu não tô defendendo a sua mãe.
RAQUEL: Ela é uma pentelha!
BRITO: Para de falar, boca suja.
RAQUEL: Eu falo como eu quiser, quem é você pra mandar em mim?
BRITO: Eu… Eu sou seu pai.
(Os Britos Também Amam – Episódio 13)

Já os episódios 12(01/09/2015) e 14 (08/09/2015)receberam avaliação boa. O primeiro, por tratar, além do assunto geral da série, da gravidez na adolescência e dos papéis conjuntos da mãe e do pai. O diálogo entre Kelly e Brito exemplifica isso:

KELLY: Eu te falei pra não deixar aquele moleque dormir aqui!
BRITO: Kelly, eu fiquei fora do esquema por 15 anos, me deixa sair como o pai gente fina, vai.
KELLY: E eu como a mãe megera.
BRITO: Que bom, achei que você não ia topar!
KELLY: Não vou!
(Os Britos Também Amam – Episódio 12)

Já o episódio 14 recebeu tal avaliação por enfatizar a importância do papel paterno, como visto no diálogo entre Brito e seus vizinhos Rico e Chelo, os quais questionavam se Brito seria realmente o pai de Raquel. Brito responde: “Vocês dois são uns imbecis. Eu sou o pai dela. Por bem ou por mal, se eu peguei no meio do caminho, dane-se. A partir de agora eu vou fazer de tudo pra ser uma boa pessoa pra ela. Vocês entenderam?”. Essas questões abordadas durante as emissões são férteis e têm a capacidade de promover o debate de ideias, incrementando o indicador.

No episódio 12, o diálogo entre Brito e Kelly, que aborda o papel do pai “gente fina” e da mãe “megera”, foi o motivo pelo qual tal emissão recebeu avaliação fraca no indicador desconstrução de estereótipos. O diálogo aborda os estereótipos representados por esses papeis sem, contudo, desconstruí-los, o que justifica a avaliação fraca no indicador.

O episódio 14, por sua vez, é construído sobre a dúvida a respeito da paternidade de Brito, uma vez que Chelo e Rico, ao descobrirem que o amigo não se lembra da “concepção” da filha, questionam se ele é realmente pai de Raquel. Brito, ao contrário do que é esperado, não leva o questionamento adiante, mesmo sendo incentivado pelos amigos. Chelo chega a pegar a garrafa de água de Raquel e a entrega para Brito fazer um teste de DNA, mas Brito joga a garrafa fora. Ao contrário do que comumente se espera de um homem sem responsabilidades e imaturo como Brito, ele assume a paternidade sem questionamentos e tenta ser um bom pai, como exemplificado anteriormente durante o diálogo dele com seus vizinhos. Por esse motivo, o episódio 14 recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos. Abaixo, as avaliações de cada emissão:

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No que diz respeito à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas, pois o objetivo da série não deixa dúvidas e o que foi proposto é apresentado de forma clara.

Quanto à originalidade/criatividade, a websérie recebeu avaliação razoável, pois não traz grandes inovações. O conflito principal proposto não se diferencia muito de temáticas já expostas em outras produções, assim como não há grande experimentação na forma dos vídeos.

O não teve destaque nas avaliações, sendo pontuado de forma razoável. O que incrementou o indicador foram as semelhanças com as produções televisivas e a posterior transformação da websérie em DVD pela Toca dos Filmes.

O indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público também não foi destaque. Poucos recursos são utilizados para uma comunicação mais estreita com a audiência ou para estimular dela uma participação ativa. A linguagem é um ponto que aproxima os personagens do público, uma vez que se assemelha muito àquela utilizada no dia-a-dia. Como exemplo, tem-se o episódio 13 da websérie (04/09/2015), no qual Chelo conversa com Brito:

BRITO: Chelo, alguma vez eu falei mal da Kelly?
CHELO: Tirando ontem à noite?
BRITO: Eu não falei nada ontem à noite.
CHELO: Disse que ela era uma megera e que merecia levar uma surra de jabá.
(Os Britos Também Amam – Episódio 1304/09/2015)

Há também um link no início do vídeo, escrito “pular abertura”, que leva ao final da vinheta inicial e representa uma solicitação da participação do público. Porém, esses são uns dos poucos recursos que incrementam o indicador e não possuem destaque na produção. Veja, abaixo, os indicadores de qualidade de cada episódio e as suas respectivas avaliações na mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se verificar que o canal O Que Tem Pra Hoje, a partir das emissões estudadas da websérie, obteve avaliações consideráveis em indicadores essenciais à qualidade do humor, como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos. Sendo assim, podem-se observar certas características de qualidade na websérie, entretanto tais características não possuem, geralmente, muito destaque dentro da produção.

Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

Estranha Mente

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Estranha Mente é um seriado de televisão que estreou no canal Multishow em 3 de outubro de 2012. Cada uma das três temporadas exibidas até o final de 2014 contém 13 episódios. As cinco emissões analisadas neste estudo foram escritas por Fernando Caruso, Jaiê, Luiza Yabrudi e Eduardo Rios, que apostam em esquetes baseadas em situações reais “e às vezes surreais” da mente de Fernando, como o próprio programa define. Protagonizado por Caruso, o elenco ainda conta com Hamilton Dias, Mari Cabral, Márcio Lima, Roberta Brisson, Paulo Dodô, Ricardo Rossini, Diogo Costa, Raphael Logam e Alexandre Régis.

No plano da expressão, um dos aspectos que chama a atenção do espectador é a vinheta de abertura do programa, que traz a voz de Fernando Caruso explicando a quinta dimensão não conhecida pelo homem: a imaginação dele. Durante a narração, apenas círculos verdes aparecem na tela, e logo depois o seu rosto é colocado em diferentes contextos do dia-a-dia. Cada episódio tem entre sete e 11 esquetes que se misturam ao longo da narrativa e trazem Fernando Caruso interpretando diferentes personagens ou até ele próprio.

O tom descontraído do programa se dá pelo seu fechamento, que mostra os créditos dentro de uma nuvem branca e verde na parte de baixo do plano enquanto os erros de gravação vão sendo mostrados na tela, com gírias e palavrões sendo falados, como “porra”, “cretino”, “merda”, “sacanagem” e “caralho”. Além disso, os episódios exibem frequentemente vinhetas toscas em determinados esquetes e efeitos especiais mal elaborados, deixando claro que o objetivo do programa não é ser verossímil, mas despertar o riso pelo grotesco.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados obteve avaliação razoável. O episódio que mais se destacou foi o exibido no dia 19 de junho de 2013, cuja análise foi considerável quanto à representação de grupos sociais no esquete das dúvidas sobre a Tuberculose. A partir dos 13 minutos e 36 segundos, uma agente de saúde em uma sala com cartazes ao fundo, livros e jarra de suco de frutas na mesa, tenta informar às pessoas e tirar as suas dúvidas sobre o assunto. Após um breve panorama sobre a doença, quatro personagens homens em lugares diferentes, com vestimentas de estilos distintos e realizando ações também diferentes, começam a aparecer na tela com perguntas, o que deixa claro o objetivo do programa em simular a diversidade buscada pelas entrevistas que consultam o público na rua.

Porém, mais do que simular, Estranha Mente satiriza essa tentativa da diversidade ao trazer personagens de diferentes classes sociais fazendo perguntas repetidas, ou sem sentido, e mostrando as respostas da agente de saúde, que progressivamente vai ficando irritada: “por quê que vocês estão fazendo isso comigo?”, dramatiza ela. Em seguida, Fernando Caruso aparece na tela falando sobre a ignorância como uma doença, referência clara aos quatro personagens mostrados anteriormente, que muitas vezes representam o público da vida real mostrado nas entrevistas, que não faz perguntas relevantes ou realmente pertinentes sobre o assunto.

O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos não foi muito identificado no programa. Nas cinco emissões analisadas de Estranha Mente, este recurso é usado para afirmar estigmas e pré-conceitos já existentes na sociedade atual, como o de que toda mulher é interesseira ou o de que “advogado fala, fala, e não diz nada”. No episódio exibido no dia 3 de outubro de 2012, por exemplo, aos 14 minutos e 16 segundos se inicia um esquete em que dois amigos estão no bar de uma boate e um deles tenta paquerar a funcionária do local. Vendo que a menina reage de maneira arrogante, o rapaz decide apelar para a frase “eu tenho um programa no Multishow” e consegue o que quer: um beijo da garota. Essa cena, apesar de curta, reforçou o estereótipo de que existem mulheres que só se relacionam com outra pessoa por causa do status que sua profissão tem na sociedade.

No quinto episódio aqui analisado, exibido no dia 19 de junho de 2013, outra situação em que há a afirmação do estereótipo, está no esquete do tribunal do júri, em que Fernando Caruso interpreta um advogado de defesa que, apesar de falar muito, só diz coisas sem sentido. O senso comum de que “advogado fala, fala, e não diz nada”, que vale para muitos profissionais da área jurídica, é reafirmado nesse esquete pelo exagero das falas do advogado e pelas reações dos demais personagens, que, diante das falas confusas, tentam compreender minimamente o advogado.

Ainda sobre utilizar a ferramenta do estereótipo para afirmar paradigmas sociais, no episódio do dia 3 de outubro de 2012 o programa conseguiu, sem nenhuma fala, apenas com uma música de fundo, reforçar a ideia de que a banda Calypso não é boa ao mostrar a frase “Dançar Calypso na festa da firma é crime. Tudo bem, não é. Mas deveria”, após sucessivas fotos de pessoas supostamente presas.

O indicador de qualidade oportunidade foi identificado de forma razoável nas emissões analisadas, pois, apesar de não tratar de assuntos presentes na agenda midiática, traz para o público temas do dia-a-dia de qualquer pessoa, sendo esse tema relevante ou não. No quadro Cinemón, do episódio exibido no dia 24 de abril de 2013, por exemplo, ao invés de Fernando Caruso satirizar os especialistas de cinema fazendo referência a filmes atuais, foi usado como objeto o filme Karate Kid, que, apesar de ser um clássico, foi lançado em 1994.

No último indicador de qualidade do plano do conteúdo, ampliação do horizonte do público, percebe-se que o programa fracassou. Foram poucos os momentos em que foi possível estimular o pensamento e o debate no espectador e, mesmo nos esquetes em que isso foi feito, o programa pecou com o excesso da piada e acabou por reforçar algum estereótipo. Isso é o que ocorre no primeiro episódio do seriado, exibido no dia 3 de outubro de 2012, no esquete em que uma cena de crime está sendo gravada. Após o “corta” falado em off, o esquete continua com os personagens incorporando suas próprias personalidades. Na sequência da identificação dos atores, a partir dos 17 minutos, Rafael Logan e Fernando Caruso iniciam um diálogo em que Rafael questiona Caruso sobre os papeis que sempre são destinados a ele, de assaltante ou sequestrador, insinuando que seja devido à cor da sua pele, que é negra.

Esse contexto permite que o público reflita sobre a real situação de atrizes e atores negros na televisão brasileira, que comumente são vistos como domésticas, seguranças, faxineiros, babás, motoristas, caseiros, vigias, ou qualquer qualificação que permeia o crime. Entretanto, apesar disso, Estranha Mente acaba mais uma vez afirmando estereótipos, por querer fazer piada de tudo, inclusive de uma discussão séria como essa. No esquete acima citado, Fernando Caruso se compromete a ajudar Rafael Logan para reparar o seu erro e, então, o coloca para interpretar uma Branca de Neve, personagem desejada por Logan, o que é irônico, já que uma Branca de Neve dificilmente seria interpretada por um homem negro. Na sequência, um ator anão também questiona Caruso sobre os seus repetidos papeis, e mais uma vez o suposto diretor da cena ajuda o colega: Fernando coloca o anão para interpretar um jogador de basquete que faz muitas cestas e que é melhor que todos os outros jogadores, de estatura mediana.

Entretanto, o que é comum às duas subversões de papeis é que ambos os personagens saem prejudicados (a Branca de Neve é abandonada sozinha na cena e o jogador de basquete fica preso na cesta), o que invalida totalmente a necessidade de se diversificar os papeis sociais dos atores, diminuindo a importância da causa.

Abaixo, as avaliações dos indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão – como a vinheta de abertura descontraída, a linguagem informal e a repetição do primeiro esquete, que é comum a todos os episódios – conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos. “Agora o comediante vai contar uma piada sem ofender ninguém” é a frase comum a todos os episódios e precede o esquete que traz Fernando Caruso interpretando um comediante que fracassa ao tentar fazer piadas sendo politicamente correto. Presentes nesse início, é possível perceber que a ironia e a afirmação de conceitos podem ser ferramentas constantes no programa.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas teve uma avaliação considerável, visto que em vários momentos há a interação com diferentes tipos de conteúdos e menções a lugares e filmes existentes fora da ficção, como no quadro Cinemón, em que Fernando Caruso interpreta um crítico de cinema e cita filmes reais, como Robocop 3 e Karate Kid 4, e faz referência, de forma satírica, aos verdadeiros programas que se dedicam às análises de filmes. Além disso, o programa também menciona lugares como Casaquistão, Afeganistão e Argentina, e traz Fernando Caruso dialogando com a plataforma da internet ao pedir, aos 15 min e 40 segundos do episódio do dia 15 de maio de 2013, por exemplo, que o telespectador entre no site do Multishow para interagir com o programa e escolher o novo personagem que ele quer ver nos esquetes.

O indicador solicitação da participação ativa do público teve uma avaliação razoável nas emissões aqui analisadas. Isso se deve, principalmente, à linguagem informal utilizada, como já falado, e à interação personagem-público estabelecida quando os personagens olham para a câmera como se conversassem com o espectador. No quadro Dr. Toko, por exemplo, Fernando Caruso interpreta um médico especialista em desvendar os sentimentos de um homem rejeitado por uma mulher, olhando para a câmera como na intenção de ensinar ao público como essa rejeição é sentida pelo homem. Usando palavras como “vocês” e fazendo perguntas como “viu?” quando somente Caruso está em cena, fica claro que o programa deseja interagir com o público e fazê-lo permanecer no canal.

Originalidade e criatividade não são elementos muito presentes em Estranha Mente. A nota fraca foi atribuída ao programa porque este não apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, apenas abordam os temas de forma exagerada, fazendo uso da sátira e da ironia para dar ênfase a assuntos muitas vezes irrelevantes que em nada têm para acrescentar à sociedade.

A seguir, podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Analisando os modos de representação dos personagens na construção das cenas e dos diálogos, e o uso dos recursos técnico-expressivos, que contribuem para a construção de uma narrativa que pode promover a reflexão e o debate de ideias, observamos que Estranha Mente explora pouco essas potencialidades. Como visto, temas relevantes para a sociedade até foram abordados, mas não com a complexidade que merecem, o que acaba fazendo do programa mais uma ferramenta de banalização da televisão e da questão em pauta.

Além de não trazer para o público nada de novo em relação ao formato adotado, o programa utiliza efeitos especiais e roteiro pouco verossímeis (como identificado nos disparos das armas de fogo que não ocasionam nenhum sangramento nas vítimas atingidas) que causam estranhamento no público. Na cena da gravação de um crime exibida dia 2 de outubro de 2012, como já mencionado anteriormente, a partir dos 8 minutos e 30 segundos, Rafael Logan, que interpreta um criminoso, pega nos braços a vítima que está aparentemente morta e começa a mexer seu queixo e lábios como se esta estivesse falando. Escondendo a sua cabeça atrás do corpo da menina, Logan afina a voz e dá início a um roteiro distante da realidade que banaliza a situação de um crime e põe em cheque a competência da classe policial. “Eu não tô morta não, foi tudo um grande mal entendido. Ó, é bom fazer tudo que ele tá mandando. Ele é bem mal”, mascara o criminoso.

A construção desta cena é um exemplo de como o programa banaliza situações sérias antes de chegarem no ponto principal da cena. Ainda assim, quando abordam o assunto chave também acabam banalizando a situação para gerar o riso, invalidando-a por se aproximar do grotesco. Dessa forma, torna-se inexistente na série aqui analisada um ponto de vista diferente em relação à maioria dos programas da televisão brasileira que geram o riso. Sem esse diferencial na experimentação e sem essa complexidade da representação, Estranha Mente se mostra mais um exemplo das tantas “reciclagens” da nossa programação televisual brasileira, visto que não apresenta recursos suficientes para levantar reflexões na sociedade.

Por Luma Perobeli

Canal Ironia

maxresdefaultO canal Ironia foi criado por Oney Araújo – que é quem faz os vídeos – em 16 de Outubro de 2012. De acordo com descrição do canal, há postagem de vídeo toda semana, porém isso não se comprovou. Foram analisadas duas emissões, resultado das postagens do mês de Setembro de 2015; ambas foram classificadas pelo próprio canal como comédia. Além disso, há a divulgação de uma loja online de suplementos no fim dos vídeos e na descrição; existem várias emissões com a temática de academia e estética corporal.

No Plano da Expressão não foi observada uma riqueza de elementos estéticos. Os dois vídeos foram gravados no mesmo formato: a câmera fixa e Oney falando diretamente para o público. Ele se portava de forma natural e falava em linguagem coloquial. A edição foi feita de maneira linear, o que trouxe uma fluidez no decorrer da emissão.

O vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresenta um off falando sobre o que será feito, enquanto Oney na tela, faz menções com a cabeça como se estivesse entendendo o que a voz diz. Já no vídeo “Pergunte ao frango”, havia uma vinheta que aparecia a cada troca de perguntas; a arte consistia em uma inscrição da “Fábrica de frango” e o nome de Oney Araújo abaixo, em um fundo preto. Além disso, as perguntas sempre apareciam em formato de print. O recurso sonoro utilizado foi o som de uma guitarra. No canto inferior direito da tela, sempre havia um ícone com uma pequena foto do criador do canal.

Avaliando o Plano do Conteúdo, os dois episódios apresentaram pouca ampliação do horizonte do público. Isso justifica-se pelo pouco engajamento do programa em assuntos de relevância social ou estímulo à reflexão. Um exemplo de situação em que o tema poderia ser aprofundado, foi no vídeo do dia 21 de Setembro de 2015, em que o apresentador lê uma pergunta que diz: “O que é maior, os músculos do Arnold Schwarzenegger ou os impostos da Dilma?”. A resposta tenta escapar de um debate mais aprofundado. Oney diz que Kai Greene (fisiculturista profissional americano) saiu porque a Dilma entrou em seu lugar e que ela é a nova campeã; a única capaz de enfrentar Phil Heath (um dos maiores fisiculturistas estadunidenses) no próximo campeonato.  Essas citações não apresentam uma ampliação do conhecimento do público que não conhece o universo do fisiculturismo, pois a menos que este faça uma pesquisa, o vídeo não se preocupa em explicar o que cada um dos nomes representa.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, esta não constou em nenhum vídeo, já que o único que aparece na tela e consequentemente tem o protagonismo na representação e nas ideias, é Oney Araújo, um homem jovem e branco. Não há uma pluralidade de pensamentos nem mesmo no vídeo “Pergunte ao frango”, em que há a participação de espectadores, pois foi feita uma seleção das questões que apareceriam, sendo escolhidas as mais descontraídas, de acordo com a proposta de Oney.

O indicador desconstrução de estereótipos foi pouco observado. O episódio do dia 9 de Setembro de 2015 foi avaliado como fraco, por ter apresentado um assunto sério sem aprofundamento.  O vídeo começa com o apresentador imitando Mc Melody, uma garota de 10 anos, cantora de funk. No momento da música em que ela daria um falsete – sua marca particular – aparece na tela um porco grunhindo. Oney é irônico ao falar que ela é uma cantora profissional e que tem um agente, ao contrário dele.

Depois de zombar do jeito da garota cantar e até do nome do pai dela – Belinho, seu agente – ele faz um apelo real para as pessoas pararem de “zoar” a Melody. Ele argumenta que ela é uma criança e não tem culpa e nem noção do que faz; mas o importante é que ela está conseguindo o que quer, que é ficar famosa. Oney fala que inclusive gostou muito de sua música nova e chega a cantar um trecho. Diz ainda que desde que o pai dela não a coloque dançando de maneira sensual na frente de “um monte de macho”, está tudo bem. O debate sobre sexualização da garota, assunto que foi pauta midiática e social no momento em que ela fazia sucesso, foi levantado de maneira superficial, por isso a classificação da desconstrução foi baixa.

Já o quesito oportunidade obteve avaliação fraca no episódio do dia 9 e não constou em 21 de Setembro. Pode-se justificar a diferença pelos temas abordados. No primeiro vídeo, em que o assunto era a Mc Melody havia uma atualidade, uma vez que sua imagem estava muito presente nas redes sociais naquele momento. O segundo vídeo, com temática sobre estética e academia, não era uma pauta social especificamente nova.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Falando da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve uma classificação razoável e uma muito boa. Isso justifica-se no primeiro caso (emissão do dia 21 de setembro de 2015) porque o modo como o vídeo foi conduzido tinha chances de confundir o espectador. No início parecia que seriam esclarecidas dúvidas reais do público sobre o mundo da academia, porém as perguntas demonstraram que ao contrário, o vídeo seria somente de comédia e não visava responder seriamente nenhuma questão. Já na emissão muito boa, o próprio nome do vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresentava o que seria feito; de fato Oney tinha a intenção de fazer um falsete, imitando a Mc Melody .

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como muito bom em ambas as emissões, uma vez que no início dos vídeos eram divulgadas as redes sociais do dono do canal. Além disso, existem citações ao longo dos vídeos sobre personagens de séries – power rangers –, fisiculturistas reconhecidos internacionalmente e até cantoras.

A solicitação da participação ativa do público obteve uma avaliação boa e uma muito boa, pois por se tratar de um programa do You Tube, já existe um estímulo que chama o espectador a interagir. No final dos vídeos, a tela se dividia e enquanto Oney continuava falando em uma divisão, nas outras telas apareciam links para outros vídeos e um link fixado para se inscrever no canal.  Também apareciam novamente suas redes sociais. Além disso, o público sempre é convidado a dar like no vídeo.

No dia 9 de Setembro, a emissão termina com o anúncio de uma promoção e uma propaganda de uma loja de suplementos que o patrocina – aparece o site na barra do vídeo. O canal possui um cupom de desconto para os espectadores, o que além de estimulá-lo a assistir os vídeos, estimula a compra.  O vídeo avaliado como muito bom foi o dia 21 de Setembro, onde todo o conteúdo foi baseado nas perguntas dos internautas, que concorreriam a uma camiseta através de um sorteio.

O indicador originalidade/criatividade obteve duas classificações razoáveis. No vídeo “Pergunte ao frango” isso se deu porque a proposta de responder perguntas dos internautas não é nova, porém Oney faz isso com o intuito principal de fazer rir e não de tirar as dúvidas das pessoas, que também não eram sérias. Já na emissão “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, a avaliação se justifica pela reciclagem da proposta de tentar reproduzir alguma ação famosa na internet, sendo assim não foi observada uma originalidade considerável.

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Falando sobre os modos de representação, a atuação de Oney diante da câmera se dava de forma natural, buscando deixar o espectador à vontade. Dentre as emissões, o tema com potencial para um debate de cunho social, não foi tratado de maneira aprofundada, o que reforçou a banalização que o audiovisual geralmente reafirma nesses casos. Também não foi observada uma diversidade de olhares sobre as questões.

No aspecto da experimentação também não houve novidade; os recursos técnico-expressivos utilizados já eram conhecidos no YouTube e as propostas não passavam de reciclagem de formatos já existentes. Existia a possibilidade da participação do público, de modo a tornar o programa mais rico em perspectivas, porém isso foi pouco empregado e a construção da narrativa ficou majoritariamente por conta do dono do canal, Oney Araújo.

Por Letícia Silva