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As Canalhas

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As Canalhas é uma série de televisão brasileira exibida pela GNT desde 6 de maio de 2013. Inspirada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, conta com a direção geral de Vicente Amorim e a produção da Migdal Filmes. As emissões, que terminaram em junho de 2015, trouxeram, em cada temporada, 13 mulheres, uma para cada episódio, contando suas “maldades” contra suas vítimas em um salão de beleza. Exibido todas as terças-feiras às 22h30, o programa durava de 20 a 25 minutos e contava com poucas personagens fixas, sendo Marilyn (Zezeh Barbosa), a dona do salão em que cada história se inicia, uma das poucas.

Na série, cada episódio mostra uma mulher relatando friamente a algum profissional do salão de beleza suas maldades contra maridos, filhos, patrões ou namorados, enquanto se cuida. Além da sua intrínseca relação com as redes sociais, a temática da série já se anuncia também logo no início, ainda na vinheta de abertura e na música que a compõe. Nesse começo, são mostradas fotos frontais e da lateral direita do corpo de todas as protagonistas da série, em preto e branco, e em plano médio, segurando uma placa com seus nomes, cidades e alguns números, o que nos remete às fotos de identificação tiradas nas cadeias. A música de abertura que acompanha as imagens, uma produção musical do estúdio Maravilha 8, também nos ajuda a entender que o objetivo do programa é subverter o comum e mostrar o outro lado das mulheres,um lado pouco mostrado: “Eu te quero sim. Ao mesmo tempo eu me pergunto: o que vai ser de mim agora? Nessa hora, a encruzilhada, quando aparece na tua frente aquela fera tão querida, na valha no olho do furacão. Pedrada amorosa no coração. Canalhinha, canalhosa, canalhuda, canalhante, canalhianque, fêmea, canalha”.

Além da vinheta de abertura, outros elementos também são destaques, como a narração em off, que ocorre a todo momento, quando a personagem principal narra um fato e na tela aparece a situação relatada; a caracterização da protagonista no começo de cada episódio, como no exibido no dia 3 de junho, com a descrição “INGRID 29 ANOS, LOIRA EM ASCENSÃO”, ou no do dia 8 de junho, com a descrição “ISABELA 15 ANOS, ESTUDANTE”; e a pronúncia de ao menos uma vez no episódio da palavra canalha. No exibido do dia 10 de junho, por exemplo, na caracterização da história, aos 18 minutos e 40 segundos, a personagem Meg indaga ao personagem Jandir: “Quem é? Quem é a canalha? Pelo menos me diz: quem é a canalha?”. 35 segundos depois, aos 19 minutos e 15 segundos, o personagem Geraldo pronuncia quase a mesma coisa à esposa: “Quem é o canalha? Pelo menos me diz: quem é o canalha?” Como vemos, além de canalha ter sido falada mais de uma vez na emissão, foi proferida duas vezes por cada personagem em cenas seguidas uma da outra, como se a trama e o roteiro pretendessem, de certa forma, justificar o nome da série.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi pouco observado em todos os episódios. Apesar de apostar na subversão dos gêneros (pois “cafajestagens” como as retratadas são características, estigmatizadas e comumente vistas em personagens masculinos) e de a atuação das protagonistas ser ideal e passar total credibilidade para quem assiste (desconstruindo a ideia de que somente os homens são canalhas), o programa também faz uso de estereótipos de afirmação. O episódio exibido no dia 3 de junho de 2013 é um exemplo desse uso, pois aborda mulheres que ascendem socialmente de forma aparentemente inexplicável.

No decorrer do episódio, são mostradas quatro cenas em que a personagem principal Ingrid mantém relações sexuais com três homens e uma mulher. Ao final das cenas com os homens, depois do ato sexual, cada um deles falou que Ingrid tinha muito talento, o que fez sentido no final do episódio, aos 21 minutos e 43 segundos, quando na sua última fala a personagem principal disse: “Tudo que eu quis na minha vida, eu consegui com o meu trabalho, fruto do meu talento”. Nesse episódio, por exemplo, o programa estereotipou mulheres de sucesso ao deixar subentendido que elas só conseguiram alavancar a sua carreira tendo relações amorosas e sexuais com pessoas influentes do mundo artístico, como produtores de elenco, diretores, atores e empresários, do mesmo sexo ou não, ajudando a confirmar essa concepção do senso comum.

O indicador de qualidade oportunidade foi razoável nas emissões, pois estas não se pautam na agenda midiática para a escolha dos seus temas, mas nas abordagens recorrentes da vida social, que abarcam problemáticas e situações passíveis do dia-a-dia de qualquer pessoa. Outro indicador do plano do conteúdo, o diversidade de sujeitos representados apresentou valores significativos. O episódio em que esse indicador mais foi observado foi o do dia 27 de junho, em que trouxe na trama pessoas de diferentes cores, classes e orientações sexuais, representados pela protagonista da história, a acompanhante de idosos de pele branca, o namorado, o porteiro de pele negra, o filho gay, o idoso homofóbico e preconceituoso, e a senhora empregada doméstica.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, a ampliação do horizonte do público, duas emissões analisadas mostraram-se razoáveis e três boas. No episódio do dia 13 de maio, por exemplo, a personagem principal Carol faz uma declaração pertinente e relevante para os dias atuais que pode contribuir para que os telespectadores reflitam sobre o assunto. Aos 8 minutos e 52 segundos, durante o seu relato, ela diz: “Além do mais, eu pensei: ‘poxa, se ele quer tanto ter um filho, ele com certeza vai assumir várias responsabilidades em relação a essa criança, vai ajudar a cuidar, botar pra dormir, lavar fralda, trocar fralda, enfim, essas coisas, né, que pai ajuda a fazer’”. Ao afirmar que os pais ajudam na realização dessas tarefas, é possível que reflexões tenham sido despertadas em alguns pais ausentes que assistiam ao programa no momento.

Outro exemplo em que a abordagem de temas polêmicos e contraditórios foi utilizada está na emissão do dia 27 de maio. Antes do diálogo que se inicia, Gisleine e Agenor estão andando na rua, quando um menino passa vendendo bala:

GISLEINE: O que quê foi, seu Agenor?
AGENOR: Ahh, na minha época não tinha isso aqui não…
GISLEINE: Isso aqui o quê?
AGENOR: Criolo vendo balinha na rua. Não sabe o que foi o regime militar. Era aquela disciplina, ordem na rua.
GISLEINE: Racismo é crime, viu, seu Agenor. E é pecado também.

Após esse diálogo, que faz parte da história narrada pela protagonista, a cena é cortada para o salão de beleza, e Gisleine continua o seu relato: “Ainda bem que eu não peguei essa ditadura aí, viu. Já imaginou: um bando de velho feito o seu Agenor, comandando tudo aqui no Brasil? Deus me livre e guarde”.Essa sequência de falas, portanto, aborda temas relevantes para a sociedade e possuem elementos essenciais para contribuir com a ampliação do horizonte do público, enriquecendo a visão de mundo do telespectador interagente, apresentando outros pontos de vista e estimulando o pensamento e o debate de ideias. Abaixo podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Analisando a série à luz dos aspectos que compõe a Mensagem Audiovisual, identificamos que o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas. Isso se deve, principalmente, a dois fatores: à maneira com que a série é referida nas redes sociais, e à vinheta de abertura, pertencente ao plano da expressão. Como já adianta o próprio site do programa, “a série mostra que os homens podem ser mais canalhas em quantidade, mas que as mulheres sabem ser com muito mais qualidade”, ou seja, o programa objetiva mostrar o grau de canalhice que algumas mulheres têm, que muitas vezes ultrapassa o nível pré-estabelecido para o homem, normalmente subjugado como o gênero mais cafajeste.

Quanto ao indicador originalidade/criatividade, o programa também foi muito bem pontuado em todas as cinco emissões analisadas. Apesar de parecer mais uma série televisiva que traz protagonistas e vilões, conflitos e reviravoltas, o programa inova ao colocar mulheres interpretando papéis que geralmente são destinados aos homens.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi notado de forma considerável nas emissões, pois estas se desenvolvem sempre no mesmo formato:mesclando o depoimento da personagem principal com a história que está sendo contada. Na confissão, as protagonistas interagem, falam e olham para a câmera, com entonação e perguntas, como se estivessem conversando pessoalmente com quem está do outro lado da lente, numa tentativa de gerar intimidade e identificação com o público, o aproximar da trama e prender a sua atenção. Um exemplo disso pode ser identificado no episódio Carolina, da 1ª temporada, em que no primeiro minuto e 39 segundos a protagonista Carol se deita na cama de massagem e sua filha, que não está aparecendo em cena, começa a chorar. Após ouvir o choro, Carol lamenta: “Ai, gente, acabou meu sossego. Por favor, Marilyn, você pode ir lá calar a boca dessa criança?”. Neste momento, a massagista sai de cena e a personagem retorna a falar, olhando pra câmera e sem ninguém a sua volta, como se estivesse se comunicando com o público.

Último indicador da mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas não foi muito identificado no programa. Sua baixa avaliação somente se deve ao fato de a história se adaptar à convergência midiática, pois foi inicialmente contada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, e depois transformada em um produto audiovisual, portanto, uma outra plataforma. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador teve na mensagem audiovisual:

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À luz dos modos de representação adotados pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual, As Canalhas se destacou na atuação verossímil dos personagens e nas construções das cenas. A subversão de gênero, bem como a abordagem de temas comuns da vida social, causam não só uma identificação com o púbico, que quer ver nas telinhas o que acontece na vida real, mas também a curiosidade de ver como essa nova trama se desenvolverá, se será criativa e credível ao ponto de se assemelhar à realidade e fazê-lo acreditar no que vê.Nos modos de experimentação, ouso dos recursos técnico-expressivos de apostar numa interação com o públicoatravés da linguagem e da função da câmera, que serve como um canal entre o personagem e o espectador, também foi de certa forma inovador, pois prende a atenção do público e assim contribui para uma possível reflexão e debate sobre o que está sendo falado.

Por Luma Perobeli

A Qualidade Na Ficção Seriada Brasileira: Uma Análise Da Minissérie Presença De Anita

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Leony Lima
Mariana Meyer
Gabriela Borges

Resumo

Este artigo aborda a questão da qualidade na ficção seriada brasileira, utilizando conceitos desenvolvidos pelo projeto “Observatório da Qualidade no Audiovisual”, da UFJF. Apoiada na metodologia semiótica dos planos da expressão e conteúdo foi realizada a análise da minissérie Presença de Anita, exibida pela Rede Globo em 2001. Sendo assim, pretende-se avaliar se o uso de recursos técnicos e de linguagem foram capazes de aprofundar a experiência e engajamento dos telespectadores na atração.

Palavras-chave: Presença de Anita, ficção; qualidade; minissérie.

Leia o artigo na íntegra: https://goo.gl/ShStzD

Zona do Agrião

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Zona do Agrião foi um programa que buscava parodiar as mesas redondas esportivas, testado pelo canal Multishow, na Copa do Mundo de 2010, com apresentação de Bruno Mazzeo. Inicialmente o formato era de pílulas de 3 minutos que apareciam durante a programação e contava com a participação dos personagens Yatta Fonseca, Manzana Zil e Caio Lúcio. Em Julho de 2012 o canal estreou um novo formato, desta vez com a apresentação do humorista Marco Bianchi. Diferente da primeira temporada, os episódios teriam sempre a participação de um convidado. Os personagens foram conservados; Gillray Coutinho permaneceu representando o comentarista Yatta Fonseca e Rodrigo Candelot, o repórter Caio Lúcio. Mariana Gouveia entrou como a assistente de palco Manzana Zil e o ex-jogador de futebol Odvan, no papel de correspondente internacional do programa. A segunda temporada, trabalho da jovem produtora audiovisual 2 Moleques, contou com 13 episódios, que iam ao ar toda terça-feira às 23h. Eram trazidos debates e comentários inusitados sobre diversas modalidades esportivas.

Uma curiosidade é que a Rede Globo já havia exibido um programa esportivo chamado Na Zona do Agrião, que começou em 1966 e durou um ano. Foi o primeiro programa na emissora com comentários sobre futebol, apresentado por João Saldanha – criador dessa gíria futebolística. O programa ia ao ar de segunda a sábado, às 19h35. “Na zona do agrião” é uma expressão do futebol, que se refere à grande área onde todas as jogadas são de grande importância, tanto para quem ataca, como para quem se defende. O significado do termo está relacionado ao cultivo do agrião, uma vez que a hortaliça deve ser plantada num terreno que retém uma grande quantidade de água e no qual as pessoas precisam se mover com cuidado.

No Plano da Expressão alguns detalhes se destacam no programa. Nota-se principalmente a linguagem e o estilo de fala do apresentador, que se parece muito com o jeito comum entre narradores e comentaristas esportivos. Manzana Zil também tem uma maneira própria de falar, gesticulando muito e com um tom chamativo. Marco Bianchi repete a expressão “nesta jornada querida” no início dos episódios, o que estimula uma memória no espectador. A apresentação inicial dos personagens do estúdio também é feita sempre, com Manzana sendo caracterizada como “internauta e banhista” e Yatta como o “ex vice campeão carioca de pebolim”. Quando o apresentador anuncia o convidado, geralmente fala seu nome inteiro, depois revela o nome artístico. Na chegada ele o cumprimenta e faz perguntas, numa demonstração de intimidade.

A abertura é bem rápida e tem desenhos animados que mencionam vários esportes num cenário de campo de futebol à noite; a vinheta remete ao ruído de torcida. Outro destaque é o cenário que imita o padrão observado em programas esportivos e abusa dos tons de verde, roxo e laranja; o piso lembra o gramado de um campo.

Nos momentos finais do programa, há a transmissão do correspondente Odvan. O repórter sempre está sem retorno de som, e são feitas perguntas a ele – que tem fones na orelha – mas ele fica só olhando para frente ou para o ambiente em que está, uma vez que não ouve o apresentador. Existe uma inscrição na tela dividida com a marca “satélite zoneado” e Odvan nunca fala nada. Esse quadro pode ser interpretado como uma paródia dos telejornais , quando comumente ocorre um delay, ou seja, um atraso de som nas transmissões via satélite.

Todos os episódios apresentam alguns momentos fixos, como o sorteio de algum prêmio aos telespectadores, o “Baú do Yatta”, o correspondente Odvan e o “pingue-pongue” com o entrevistado, o que cria um costume em quem assiste.

Na análise do Plano do Conteúdo, quanto à ampliação do horizonte do público, todas as notas foram fracas. Isso se deve à carência de assuntos que levassem o espectador à reflexão. O programa investia em piadas costumeiras, como no episódio do dia 24 de julho, em que Bianchi brinca com o tamanho de Yatta dizendo: “A primeira vista pode parecer baixinho, mas pessoalmente ele é ainda mais tampinha”, e Yatta responde: “Tampinha não, compacto”.  Ou no episódio do dia 24 de julho quando Yatta diz ao convidado Biro Biro que ainda não almoçou, coloca um guardanapo na blusa e pega um prato de macarrão instantâneo. Bianchi comenta sobre a semelhança da comida com o cabelo do convidado.

Também é visto uma falta de aproveitamento dos temas, que sempre são tratados de maneira superficial. No episódio de 14 de agosto, por exemplo, no quadro “Baú do Yatta”, o personagem diz que sente saudade dos anos 70, quando as mulheres saíam para “queimar os sutiãs”. De acordo com ele, o fato além de ter gerado a emancipação das mulheres, permitiu que os homens tivessem acesso ao “farol aceso”. Essa referência, correspondente às manifestações feministas da época, poderia ter servido para levar o espectador a uma reflexão, porém foi colocada de maneira extremamente machista e rasa.

No quesito diversidade de sujeitos representados, as notas variaram entre fraco e razoável. O critério utilizado foi o convidado do dia, uma vez que dentre os personagens fixos não é observada uma multiplicidade de sujeitos, sendo que quatro são homens e só há uma mulher, que quase não participa ativamente. Portanto, quando a convidada do dia era uma mulher foi dada a nota razoável; quando o convidado era homem, a nota foi fraca.

Neste plano, indicador que mais chama a atenção no programa é a desconstrução de estereótipos: todas as emissões obtiveram nota mínima, ou seja, esse indicador não constou. Uma das justificativas é a presença da mulher atraente no palco; Manzana Zil tem a única função de ler uma mensagem no início do programa – que sempre tem uma tendência cômica – e comunicar o sorteio do dia; depois não tem mais participação, o que faz supor que ela está ali somente para atrair o olhar do espectador. Às vezes a câmera passa rapidamente por ela, que aparece mexendo no celular.

Outro motivo observado foi o modo como estereótipos femininos são reforçados, como no quadro “Baú do Yatta” em que ele se refere à sua esposa como “Dona Encrenca”. Outro exemplo pode ser visto no episódio do dia 24 de julho, quando é exibido um VT com os “carrinhos” de Biro Biro e o ex jogador é mostrado em vários automóveis; são feitos comentários como “porta loira clássico” e “motor para sete cavalas”, sugerindo o interesse das mulheres em carros.

O indicador oportunidade foi avaliado como fraco em todas as emissões, uma vez que o apresentador muitas vezes trazia temas irrelevantes na vivência do entrevistado. No episódio do dia 14 de agosto, por exemplo, em mais uma das perguntas que pretendiam fugir ao lugar comum dos debates esportivos, a esportista Jaqueline Silva responde: “Sei lá, o que isso tem a ver com voleibol?”, deixando o apresentador sem graça. Nessa hora aparece o efeito de uma bola quebrando vidro na cara de Bianchi. As perguntas e temas também não eram necessariamente atuais.

Veja a seguir as avaliações segundo os indicadores do Plano do Conteúdo:

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Na análise da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve avaliação muito boa em todas as emissões, uma vez que pelo formato do programa ser fixo, leva a uma melhor assimilação pelo espectador. O programa é realmente muito parecido com os exemplares de jornalismo esportivos, sendo que no inicio é feito um resumo com os destaques do programa; há matérias externas com um repórter de rua e há entrevista no estúdio. Além disso, toda a trilha musical e o cenário são comuns aos programas desse ramo.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como bom, uma vez que por ser uma paródia de outros programas, é vista uma relação. Outra menção observada foi a citação “Pois bem, amigos do Multishow”, com a qual Bianchi iniciava as transmissões, e que lembra a famosa frase do narrador Galvão Bueno “Bem amigos da Rede Globo”, dita em inícios de jogos, o que foi interpretado como um diálogo com outro produto audiovisual.

O indicador solicitação da participação ativa do público, assim como o anterior obteve notas fracas. O motivo foi que a solicitação só existia de forma fictícia a cada começo de programa, quando Manzana Zil convidava os espectadores a mandarem e-mails para participação nas promoções.

No quesito originalidade/criatividade as emissões foram classificadas como razoáveis, uma vez que é um formato de programa já bastante conhecido, porém com a proposta cômica e que investe no riso fácil. Um exemplo é a atuação de Gillray Coutinho, que no início do episódio do dia 07 de julho de 2012, aparece fazendo abdominais deitado no chão e com os pés na cadeira enquanto fala. O personagem também é visto fazendo graça com caretas e caindo em cena em algumas emissões.

Outro exemplo é no momento depois que o convidado chega. O apresentador mostra seu “fã clube”, que é montado com a pequena equipe de produção e filmagem e sempre serve como um tipo de provocação ao entrevistado. Como no episódio do dia 4 de setembro de 2012 em que o fã clube de Sandra de Sá tem homens que usam roupas e tem bandeiras vascaínas, isso porque a cantora torce pelo Flamengo. Confira o gráfico:

zona2Observando os modos de representação, a criação e atuação dos personagens se dava de forma caricata, de modo a reafirmar alguns estereótipos, como o da mulher bonita e fútil. O programa não demonstrou nenhuma preocupação com críticas sociais ou representação de diversidade, sendo que os temas tratados não contribuíam para a mínima reflexão do espectador.

O uso dos recursos da linguagem audiovisual eram reciclagem de programas já existentes e com formato consolidado. A proposta era favorável para promover o debate de ideias e de pontos de vista, porém isso não acontecia. O público também não possuía nenhum tipo de participação. Além disso, o programa não apresentou nenhuma característica marcante que o fizesse ser lembrado, como bordões ou marcas específicas.

Por Letícia Silva

Justiça

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Autora: Manuela Dias
Colaboração: Mariana Mesquita, Lucas Paraizo e Roberto Vitorino
Direção artística: José Luiz Villamarim
Direção: Luisa Lima, Walter Carvalho, Marcus Figueiredo e Isabella Teixeira
Período de exibição:22/08/2016 – 23/09/2016
Horário: 22h30
Nº de episódios: 20

Justiça foi uma minissérie exibida e produzida pela Rede Globo entre agosto e setembro de 2016. A autora Manuela Dias se inspirou em uma história real de um homem que foi preso por matar um cão para escrever a minissérie e abordar temas como justiça e moral. O elenco contou com nomes como Adriana Esteves (Fátima do Nascimento), Antônio Calloni (Antenor Ferraz), Camila Mardila (Regina),Cauã Reymond (Maurício), Débora Bloch (Elisa), Jéssica Ellen (Rose Silva), Jesuíta Barbosa (Vicente), Julio Andrade (Firmino), Leandra Leal (Kellen), Luísa Arraes (Débora), Vladimir Brichta (Celso), dentre outros.

A trama acompanha quatro histórias diferentes que se cruzam e se imbricam a todo momento.  Dessa forma, todos os personagens se conectam em maior ou menor grau. A minissérie foi ao ar de segunda a sexta-feira, com exceção das quartas. A cada dia específico da semana, a trama focava em um núcleo de personagens. O primeiro núcleo era composto por Elisa (Débora Bloch), que viu sua filha ser assassinada pelo então namorado Vicente (Jesuíta Barbosa) após pegá-la com outro homem.  Outro núcleo era composto por Fátima (Adriana Esteves), que matou o cachorro do vizinho Douglas (Enrique Diaz). Já Rose (Jéssica Ellen), amiga de Débora (Luísa Arraes), foi pega com drogas em uma festa na praia, sendo presa como traficante. Por fim, Maurício (Cauã Reymond) foi preso por fazer a eutanásia na esposa, a bailarina Beatriz (Marjorie Estiano), que foi atropelada por Antenor (Antônio Calloni) e ficou tetraplégica. Vicente (Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauã Reymond) são presos na mesma noite e todos saem da prisão sete anos depois.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A trama se passa no Recife, onde também foi gravada a minissérie. Locais característicos da capital pernambucana são utilizados como pano de fundo da história, tais como a praia de Boa Viagem, o edifício Holiday e o mercado São José. Isso contribui para a ambientação da minissérie e a verossimilhança da trama. Da mesma forma contribui a caracterização dos personagens. Além do sotaque nordestino, o figurino se mostra adequado à personalidade e ocupação de cada personagem. Enquanto Elisa (Débora Bloch), professora de Direito, utiliza roupas sérias e mais sofisticadas, Fátima (Adriana Esteves), que trabalha vendendo marmitas e fazendo faxinas, usa roupas simples e comportadas, que também exprimem a personalidade da moça. Já, por exemplo, Mayara (Julia Dalavia), garota de programa, se veste com roupas curtas e extravagantes e possui os cabelos tingidos.

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Em relação à trilha sonora, várias músicas marcam a minissérie. Em geral, no final dos episódios é tocada a música Hallelujah, interpretada por Rufus Wainwright e composta por Leonard Cohen. A música tem como tema a fé, que dialoga com a minissérie não no sentido religioso, mas no sentido mais amplo, que abrange a busca por justiça. Além disso, cada núcleo tem uma música tema que acompanha os personagens em certos momentos. A música Dona da Minha Cabeça, de Geraldo Azevedo, acompanha o romance de Fátima (Adriana Esteves) e Firmino (Julio Andrade). Já a música Revelação, do cantor Fagner, marca o personagem Vicente (Jesuíta Barbosa).  Todas as músicas se relacionam com o momento vivido pelos personagens.


A fotografia segue o estilo naturalista, mas se mostra mais escura em diversos momentos. A casa de Elisa, por exemplo, não possui grande iluminação e é marcada por tons escuros, mesmo na cenografia. Essa escolha reforça o caráter sério, e até sombrio, das discussões levantadas pela minissérie. Dentre tais discussões estão o perdão, os limites entre vingança e justiça, o racismo, o machismo e a corrupção de diversos setores.

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Por fim, a edição segue o padrão não-linear. Há a utilização de muitos flashbacks e a minissérie vaga, diversas vezes, entre passado e presente. Além disso, um acontecimento mostrado em um episódio focado em determinado núcleo é mostrado novamente, de outro ponto de vista, quando o episódio acompanha outro núcleo. Portanto, a passagem de um episódio a outro não segue a cronologia linear, embora não haja grande variação da temporalidade entre os episódios seguidos.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, a minissérie traz, além de referências a lugares como o Recife, menções à cantora Beyoncé e ao clube pernambucano Náutico, por exemplo. Houve também a utilização da expressão “panelaço”, associada ao personagem Antenor Ferraz (Antônio Calloni), que estava se candidatando a governador de Pernambuco. Tal expressão se relaciona estreitamente ao momento político vivido pelo país na época da minissérie, o qual também estava sendo palco de diversos “panelaços” em protesto a questões políticas. Tais elementos ajudam a inserir o espectador na minissérie e conferir verossimilhança à trama.

A escassez das setas chamativas foi observada com frequência na minissérie. Os flashbacks, por exemplo, não eram marcados por nenhuma indicação estética como mudança de fotografia ou fades. Entretanto, nos capítulos iniciais de Justiça, houve a inserção “sete anos antes” e “Recife, 2016” para marcar a temporalidade da minissérie e localizar o espectador. Contudo, diversos acontecimentos não são explicados à primeira vista, deixando o espectador confuso momentaneamente. As explicações de tais acontecimentos, muitas vezes, só ficam claras nos próximos episódios da minissérie, com as conexões que são feitas entre os núcleos.

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Já em relação aos efeitos especiais narrativos, a história apresentou clímax e reviravoltas que desenvolvem a narrativa e dão sequência à trama, mas em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que foi visto até então. O estilo narrativo do programa também se manteve constante durante todos os episódios.

Por fim, os recursos de storytelling tiveram grande destaque na minissérie. Além de não seguir uma cronologia linear e transitar entre passado e presente por meio de flashbacks que permeiam toda a narrativa, Justiça apresenta múltiplas perspectivas sobre certos acontecimentos. As histórias dos personagens, ainda que separadas por núcleos, se misturam e se cruzam durante toda a minissérie. Desse modo, uma história que antes parecia paralela se revela conectada, em maior ou menor grau, com a história de outro núcleo. Além disso, personagens centrais de um núcleo se mostram personagens secundários de outros, como é o caso de Fátima (Adriana Esteves), que protagoniza um núcleo, mas que, na história de Elisa (Débora Bloch) e Vicente (Jesuíta Barbosa), não tem grande papel, sendo a faxineira da casa da professora. Tais conexões permitem que um mesmo acontecimento seja visto da perspectiva de diversos personagens. Como, por exemplo, o episódio em que Fátima (Adriana Esteves) encontra uma caixa no quarto da falecida Isabela (Marina Ruy Barbosa). O primeiro episódio que mostra esse acontecimento é focado na história de Elisa (Débora Bloch) e Vicente (Jesuíta Barbosa), então vemos, portanto, a descoberta da caixa do ponto de vista da professora. O episódio seguinte é focado em Fátima (Adriana Esteves) e, ao perpassar por tal acontecimento novamente, o vemos da perspectiva da faxineira. Tais recursos de storytelling incrementam a complexidade narrativa de Justiça.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Doce de Mãe

600doce_de_maeDoce de Mãe foi uma telessérie exibida entre 30 de janeiro de 2014 e 08 de maio de 2014 pela Rede Globo de Televisão. A narrativa conta a história de Dona Picucha (Fernanda Montenegro), uma senhora de 85 anos irreverente e ativa que coloca os seus quatro filhos, Silvio (Marco Ricca), Elaine (Louise Cardoso), Fernando (Matheus Nachtergaele) e Suzana (Mariana Lima), em situações, muitas vezes, complicadas. Criada por Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, a série ganhou o prêmio Emmy Internacional 2015 como melhor comédia.

Em relação ao plano da expressão, se destacam a vinheta de abertura e as atuações. A vinheta é composta por diversos doces feitos por computação gráfica, os quais vão surgindo enquanto os nomes dos atores em letras brancas aparecem. O fundo é composto por papéis de parede estampados, semelhantes àqueles encontrados nas paredes de casas antigas. Os doces dialogam tanto com a ideia de que avós cozinham quitutes deliciosos, quanto com o nome da série, Doce de Mãe, que surge, ao final da vinheta, escrito a partir de doces que funcionam como letras.

As atuações, por sua vez, dão verossimilhança às situações enfrentadas pelos personagens, ainda que sejam inusitadas. O destaque vai para Fernanda Montenegro, indicada ao Emmy Internacional 2015 como melhor atriz. O prêmio, entretanto, foi para a atriz norueguesa Anneke von der Lippe, que atuou no thriller Øyevitne.

Em relação ao plano do conteúdo, Doce de Mãe obteve boas avaliações em indicadores importantes ao humor de qualidade. Uma emissão recebeu avaliação muito boa e duas emissões receberam avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos, enquanto outras duas receberam avaliação razoável. Já no primeiro episódio da telessérie, Fernando, personagem de Matheus Nachtergaele, questiona durante uma conversa com seus irmãos sobre um advogado argentino que procurou Dona Picucha: “Só heterossexuais que não podem gostar de advogado?”. E ainda complementa: “Que preconceito é esse? Quer dizer que gay não pode gostar de argentino?”.

Contudo, é essencial ressaltar que a conversa é feita em tom de brincadeira e que os irmãos de Fernando não apresentam atitudes ou falas preconceituosas. A sexualidade do personagem não é discutida ou colocada em evidência. Na verdade, acontece o contrário: a sexualidade de Fernando é apresentada como algo natural, evidenciando que o que deveria ser considerado anormal é o preconceito que ronda a comunidade LGBTTI.

Além disso, ainda no primeiro episódio, é possível ver o personagem de Daniel Oliveira, Jesus, a todo momento cuidando da filha Isaurinha, enquanto a mãe, Suzana, conversa com os irmãos sobre o futuro de Dona Picucha e trata de outros assuntos, como o terreno que seu falecido pai deixou para a família. O papel da mãe como única responsável pelo cuidado com os filhos e com a casa é contestado.

Outro ponto que incrementa o indicador é o fato de Dona Picucha não representar a típica vovó simpática que cozinha para os seus filhos e netos e faz tricô. Dona Picucha é uma mulher ativa e esperta. No primeiro episódio, “Vamos Chamar o Vento”, pode-se ver a senhora palpitando sobre futebol: “Messi, que Messi? Messi não é nada sem o Xavi”. Desse modo, desconstrói-se não somente a ideia da vovó típica, mas também a ideia de que mulher não entende de futebol. Em outros episódios pode-se ver, também, Dona Picucha transformando a casa geriátrica em um lugar de jogatina, incentivando um protesto contra uma publicidade e falando de sexo com sua neta.

Já o indicador ampliação do horizonte do público obteve três avaliações boas e duas razoáveis. No episódio “Picucha Online!”, por exemplo, pode-se observar o questionamento sobre as redes sociais e a vida online. Picucha, ao chegar à casa de Elaine, só quer saber se seu quarto tem wi-fi. Além disso, na mesma casa, mas em quartos diferentes, Picucha e sua neta conversam pela internet. Elaine chega ao ponto de desligar o wi-fi durante o jantar e propõe que todos conversem, mas Picucha e seus netos só conversam sobre joguinhos da rede. Desse modo, o episódio mostra que, ao mesmo tempo em que a internet pode afastar as pessoas, que ficam absortas na rede, ela também pode aproximar, uma vez que Picucha e seus netos encontram assuntos em comum.

Já o episódio “Oração ao Tempo” exemplifica como a família é importante na vida dos idosos. Nesse episódio, Dona Picucha se muda para uma casa geriátrica e bagunça a rotina dos moradores, realizando jogos de pôquer e de azar na casa. A direção do lugar, contudo, proíbe os jogos, já que os idosos estavam apostando não só dinheiro, mas remédios, perucas e fraudas. Sem muito o que fazer para passar o tempo, Dona Picucha se sente sozinha e tenta ligar para o filhos, que estão ocupados e não podem visitá-la. Ao final da emissão, Dona Picucha resolve sair da casa geriátrica e revela aos filhos: “Quando eu fico longe de vocês eu me sinto muito mais velha”. Assim, os filhos jogam pôquer para decidir em qual casa Dona Picucha ficará. Silvio acaba trapaceando para ficar com a mãe.

Já o indicador oportunidade recebeu avaliação fraca em quatro emissões, já que elas não apresentavam temas atuais ou recorrentes presentes nas agendas da mídia e do público. Apenas o episódio “Pichucha Online!” recebeu avaliação boa no indicador, já que trata da internet e das redes sociais, tema muito presente no cotidiano de grande parte do público.

O indicador diversidade de sujeitos representados recebeu, por sua vez, quatro avaliações razoáveis e uma boa. O episódio “Picucha Online!” recebeu avaliação boa por representar as três gerações de uma família em convivência: os avós, os pais e os netos. Os demais episódios receberam avaliação razoável por apresentarem Picucha, uma idosa de 85 anos, como personagem principal. Não é recorrente a representação destacada desse grupo na televisão brasileira.

No gráfico a seguir, os indicadores de qualidade do plano de conteúdo com as respectivas avaliações para cada episódio:

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A apresentação de uma senhora de 85 anos como personagem principal da série também levou Doce de Mãe a receber avaliação muito boa no indicador originalidade/criatividade. A série dá destaque a um grupo que, normalmente, possui pouca ênfase nos programas, funcionando apenas como coadjuvante. O indicador clareza da proposta também obteve avaliação muito boa em todas as emissões, já que o objetivo do programa é nítido e seu formato é claro.

A solicitação da participação ativa do público, entretanto, recebeu avaliação fraca nas emissões analisadas, uma vez que não são utilizados muitos recursos para propiciar um envolvimento mais estreito e ativo do público que acompanha o programa. Apenas a linguagem simples e fácil, que pode aproximar o espectador do programa, foi observada como um ponto de enriquecimento do indicador.

Por fim, o diálogo com/entre plataformas recebeu avaliação boa em três emissões e fraca em outras duas. As emissões que receberam boas avaliações continham referências a lugares, programas ou personalidades reais, que existem fora do ambiente do programa. No episódio “Vamos Chamar o Vento”, são citados, por exemplo, os jogadores Messi, Cristiano Ronaldo e Xavi, além do filme Noviça Rebelde e do prêmio Oscar. Já no episódio “Picucha Online!” há diálogos sobre Cleópatra e o Egito, além de Picucha citar o personagem Lineu, de A Grande Família, e o filme E.T – O Extraterrestre.

A seguir, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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A partir da análise, pôde-se observar que Doce de Mãe apresenta diversas características do humor de qualidade, considerado aquele que instiga o público à reflexão e ao debate de ideias, através da apresentação de temas férteis e da desconstrução de estereótipos já estabelecidos socialmente.

O indicador desconstrução de estereótipos foi o de maior destaque do programa, uma vez que não apenas uma, mas diversas generalizações e representações foram questionadas durante as emissões. O questionamento, contudo, é feito de forma leve e sutil, o que é promissor à medida que naturaliza representações opostas àquelas já enraizadas socialmente.

Temas férteis e relevantes também são trabalhados nas emissões, enriquecendo o indicador ampliação do horizonte do público. O episódio “Laranja Madura”, por exemplo, traz a problemática da publicidade e da poluição visual. Desse modo, o programa pode levar às agendas do público temas capazes de gerar o pensamento e o debate de ideias por parte dos espectadores.

 Por Júlia Garcia Gouvêa Andrade

Ligações Perigosas

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  • Autoria: Manuela Dias
  • Supervisão de texto: Duca Rachid
  • Direção-geral: Vinícius Coimbra
  • Direção de núcleo: Denise Saraceni
  • Período de exibição: 04/01/2016 – 15/01/2016
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 10

Exibida pela Rede Globo entre os dias 4 e 15 de janeiro de 2016, a minissérie Ligações Perigosas é inspirada no clássico da literatura francesa Les liaisons dangereuses(As Ligações Perigosas) de Choderlos de Laclos. A obra literária retrata as relações de um grupo de aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente anterior à Revolução Francesa, que dedicam-se a destruir as reputações de seus pares.

Ambientada na década de 1920, a minissérie tem como arco narrativo central os jogos de sedução que são arquitetados pelos amantes Isabel (Patrícia Pillar), uma viúva rica e atraente e Augusto (Selton Mello), um libertino frequentador de bordéis. Uma das pessoas envolvidas pelos planos do casal é o ex-amante de Isabel (Patrícia Pillar), Heitor Damasceno (Leopoldo Pacheco). Após descobrir o desejo dele de se casar com Cecília (Alice Wegmann), filha de sua prima Iolanda (Lavínia Pannunzio), a marquesa decide se vingar e pede para Augusto (Selton Mello) tirar a virgindade da jovem antes do casamento.

O elenco conta com nomes comoSelton Mello (Augusto de Valmont),Marjorie Estiano (Mariana de Santanna),Alice Wegmann (Cecília Mata Medeiros), Jesuíta Barbosa (Felipe Labarte),Leopoldo Pacheco (Heitor Damasceno), Lavínia Pannunzio (Iolanda Mata Medeiros),Danilo Grangheia (Otávio Lemos), Aracy Balabanian (Consuelo),Renato Góes (Vicente),Yanna Lavigne (Júlia).

No Plano da Expressão iremos destacar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A minissérie Ligações Perigosas, que se passa em 1928 na cidade fictícia Vila Nova, exibe cenários imponentes, como a casa de Isabel (Patrícia Pillar) que possui 310 metros quadrados e 5,6 metros de pé-direito e janelas de grandes dimensões. Outro ponto importante no indicador é a Quinta de Consuelo (Aracy Balabanian), com várias acomodações e ambientes externos. A decoração dos espaços trouxe elementos característicos da década de 1920 contribuindo diretamente para a verossimilhança da trama,como, por exemplo, sofás, biombos, mesas art déco e objetos art nouveau.

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Entre as locações presentes na história estão o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Teatro Municipal de Niterói, o Palácio São Clemente, Fortaleza de Santa Cruz da Barra. Além destas também se destacam as sequências externas como, por exemplo,as gravadas no Palácio Santa Candida, em Concepción del Uruguay e no litoral de Puerto Madryn, na Patagônia, Argentina.

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No que se refere à caracterização dos personagens, todos se vestem com roupas características da época e apresentam variações de acordo com a personalidade. Esse aspecto pode ser observado na marquesa Isabel (Patrícia Pillar). A personagem, interpretada por Patrícia Pillar,usava vestidos com babados, vestes feitas de pele de animal e colares representando a sua posição de integrante da alta sociedade. De acordo com a figurinista Marília Carneiro, a composição do figurino de Isabel (Patrícia Pillar) teve inspiração na figura da Coco Chanel, uma vez que suas roupas eram luxuosas e vanguardistas. Já Augusto (Selton Mello), usava peças despojadas como sobretudos, lenços e óculos escuros contribuindo para a figura charmosa e sedutora que ressaltada nos desdobramentos narrativos.

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A caracterização de Cecília (Alice Wegmann) passa por várias mudanças ao longo da trama. No início da história, a personagem usa cabelos longos, roupas compridas e fechadas representando assim a menina inocente recém-saída do internato. Da metade para o final da minissérie, por influência e sugestão da tia Isabel (Patrícia Pillar), Cecília (Alice Wegmann) corta os cabelos e começa a usar roupas mais ousadas, mudanças que acompanham a transformação de postura e comportamento da personagem em Ligações Perigosas.

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O indicador trilha sonora, é em sua maior parte inserido quando há a presença de música no ambiente em que se passa a cena.  Por exemplo, na sequência em que Isabel (Patrícia Pillar) liga sua vitrola e dança em seu quarto ou como nas cenas em que havia festas, espetáculos em teatros, etc. Além disso, o indicadoresteve presente nas aulas de música de Isabel (Patrícia Pillar) e de Cecília (Alice Wegmann), a partir de canções clássicas como “A Sagração da Primavera”, de Ígor Stravinsky, e “Petite Suite”, de Claude Debussy.

A fotografia de Ligações Perigosas é norteada pelas cores predominantes nos ambientes onde se passam as sequências. Nesse sentido, observamos tons de branco, bege, azul, amarelo, etc. Os planos mais explorados foram o plano médio, close plano grande e a iluminação em cenas de ambientes internos e noturnos era caracterizada por ser a luz de velas. Porém, apesar da minissérie se preocupar com a fotografia, ela não influencia em termos semânticos nos arcos narrativos.

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No início da narrativa, a trama apresenta um flashback de Isabel (Patrícia Pillar). A personagem relembra de sua juventude de quando estudava em um internato e quando conheceu Augusto (Selton Mello). Entretanto, como analepse é feita de forma pontual, não altera a linearidade da narrativa. Desta forma, a edição se caracteriza como linear, pois a trama não possui outra linha cronológica além da do tempo presente.

No Plano de Conteúdo iremos abordar os indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

A intertextualidade aparece em Ligações Perigosas nos momentos finais do último capítulo da trama. Quando Consuelo (Aracy) faz uma reflexão de toda a história e no final faz uma alusão ao título da minissérie. Nesse contexto, a referência reforça o universo ficcional, enriquecendo a experiência do telespectador.

O indicador escassez de setas chamativas não foi identificado. Uma vez que a minissérie explora muito este recurso a fim de situar o espectador na trama.  Os cartazes narrativos estão presentes na repetição de fatos já ocorridos. Por exemplo, quando Augusto (Selton Mello) e Mariana (Marjorie Estiano) tiveram sua primeira noite juntos e na cena posterior o personagem conta com detalhes para sua amante Isabel (Patrícia Pillar). Outro modo de utilizar estes indicativos aparece quando nos últimos episódios é feito questionamentos, a partir de diálogos dos personagens, sobre a morte de Augusto (Selton Mello) a fim de reafirmar este acontecimento da trama.

Ao observarmos os recursos de storytelling, podemos perceber a presença de analepses principalmente no início da trama. Como, por exemplo, quando Isabel (Patrícia Pillar) relembra seu passado, na época em que estudava em um internato, quando Mariana (Marjorie Estiano) pouco antes de falecer recorda seus bons momentos ao lado de Augusto (Selton Mello). Nesse sentido, os flashbacks possuem indicações de que não se tratam de uma cena do tempo real, de forma a orientar o telespectador. Por exemplo, na cena em que Isabel (Patrícia Pillar) está no velório de seu falecido marido, há uma transição das cenas da personagem no passado para a personagem no presente, demonstrando que se trata da mesma pessoa, porém em uma cronologia diferente. Os outros flashbacks não possuem indicativos claros, como a mudança de fotografia, mas a partir do contexto da cena é perfeitamente possível fazer a distinção das temporalidades.

Já os efeitos especiais narrativos, são explorados para desenvolver os arcos narrativos de Ligações Perigosas. Como, por exemplo, quando Heitor (Leopoldo Pacheco) decide casar com Cecília (Alice Wegmann) ou quando a jovem descobre que está grávida. Porém, estes acontecimentos não são significativos a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a trama até este momento.

Por Mariana Meyer

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Amores Roubados

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  • Desenvolvida por: George Moura, Sérgio Goldenberg, Flávio Araújo e Teresa Frota
  • Supervisão de texto: Maria Adelaide Amaral
  • Direção-geral: José Luiz Villamarim
  • Direção de núcleo: Ricardo Waddington
  • Período de exibição: 06/01/2014 – 17/01/2014
  • Nº de episódios: 10
  • Horário: 23h

Amores Roubados foi uma minissérie inspirada no romance A Emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela. Exibida pela Rede Globo, em janeiro de 2014, a produção contou com nomes como Cauã Reymond (Leandro Dantas), Isis Valverde (Antônia Favais), Patrícia Pillar (Isabel Favais), Dira Paes (Celeste), Murilo Benício (Jaime Favais), Osmar Prado (Roberto Cavalcanti), Irandhir Santos (João), Jesuíta Barbosa (Fortunato), dentre outros.

A trama gira em torno de Leandro (Cauã Reymond), um rapaz galanteador que trabalha na vinícola do poderoso Jaime Favais (Murilo Benício). O jovem acaba se envolvendo com Celeste (Dira Paes) e Isabel (Patrícia Pillar), mulher de seu patrão. A história se complica quando Leandro se apaixona por Antônia (Isis Valverde), filha de Jaime (Murilo Benício) e Isabel (Patrícia Pillar).

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. Amores Roubados se passa no sertão nordestino, às margens do rio São Francisco, e as gravações foram feitas, em sua maioria, nas cidades de Petrolina e Paulo Afonso, em Pernambuco e na Bahia, respectivamente. Dessa forma, as locações garantem a verossimilhança da história, que se passa, justamente, em tal região do Brasil.

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O sotaque dos personagens, adequado à região, também confere verossimilhança. Da mesma forma contribui o figurino, que contrasta a riqueza de uma parte do sertão, personificada pelas famílias Favais e Cavalcanti, com a realidade do sertanejo.

O contraste de figurino também se fez presente entre as mulheres conquistadas por Leandro (Cauã Reymond). Enquanto Celeste (Dira Paes) apresentava um visual elegante, fino e, ao mesmo tempo, provocante, Antônia (Isis Valverde) utilizava roupas soltas e joviais. Já Isabel (Patrícia Pillar) usava roupas simples, mas com certo requinte devido à sua posição social. Nesse contexto, o figurino acompanhava a personalidade dos personagens de Amores Roubados.

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A trilha sonora utilizada foi predominantemente instrumental e marcava momentos relevantes, como momentos de tensão. A exceção foi a música tema de Leandro (Cauã Reymond) e Antônia (Isis Valverde), que continha trechos de voz. A utilização de tal música, além de enfatizar o clima de romance entre os dois, destacava o relacionamento dos jovens, que era diferente dos relacionamentos que Leandro (Cauã Reymond) tinha com as outras mulheres.

A fotografia, por sua vez, seguiu um estilo naturalista, comum às novelas da emissora. Entretanto, em algumas cenas noturnas na parte rural do sertão, a iluminação utilizada era mais fraca, tornando a imagem mais escura. Desse modo, tais sequências  remontavam a iluminação do sertão.

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Apesar de seguir uma estrutura não-linear, a edição não confunde o telespectador, pois apenas no primeiro capítulo há a inversão da cronologia. Isto é, no início do primeiro capítulo há uma cena de perseguição e, depois, aparece a inserção “Quatro meses antes”. A partir de então, a minissérie segue a ordem cronológica até o fim.

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No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, há menções a lugares como Itália e São Paulo, além do poeta pernambucano Joaquim Cardoso ser assunto de uma conversa entre Leandro (Cauã Reymond) e Isabel (Patrícia Pillar). Ademais, a música É o amor, da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, é cantada por Fortunato (Jesuíta Barbosa). Tais conexões com o mundo exterior fazem com que o telespectador se relacione mais estreitamente com a trama.

As setas chamativas, por sua vez, foram observadas em alguns momentos, de modo a não deixar o telespectador confuso. Além da inserção “Quatro meses antes”, utilizada no primeiro capítulo para deixar clara a cronologia da minissérie, alguns diálogos facilitam a interpretação do telespectador. Como exemplo tem-se o diálogo entre João (Irandhir Santos) e Bigode de Arame (César Ferrario) no sétimo capítulo. Bigode diz a João: “Bem que tu disse, viu? Que teu patrão é uma potência”. João responde: “Isso tudo ele já tinha resolvido lá trás, quando colocou Oscar dentro do avião como se fosse Leandro”. João continua: “Aí quando o corpo apareceu ele pensou: bom, se era Leandro que tava dentro do avião, quem é que tava no carro todo queimado?”. Bigode complementa: “Oscar!”. Tal diálogo não tem função narrativa e apenas deixa explícito ao telespectador o que aconteceu, facilitando sua interpretação, sendo que o ocorrido já havia sido mostrado em outras cenas.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, Amores Roubados apresentou clímax e reviravolta, mas, em momento algum, o telespectador é levado a reconsiderar tudo o que viu até então. O estilo narrativo da minissérie também não se altera ao longo dos episódios.

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Por fim, no que se refere aos recursos de storytelling, foi observada em alguns momentos a utilização de sequências fantasiosas. No segundo episódio da produção, Isabel (Patrícia Pillar) está deitada em sua cama quando Leandro (Cauã Reymond) chega e começa a tocá-la. A câmera se desvia dos dois e, quando retorna, vemos apenas Isabel na cama. Outro exemplo acontece no quinto episódio quando Jaime (Murilo Benício) atira em Isabel (Patrícia Pillar), que está adormecida. A câmera passa de Isabel a Jaime e, ao retornar, vemos que não houve nenhum tiro. Apesar da utilização de sequências fantasiosas, o espectador não se confunde quanto à veracidade de tais sequências, ficando claro que, na verdade, não são reais.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Felizes para sempre?

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  • Escrita por: Euclydes Marinho
  • Direção: Luciano Moura, Rodrigo Meirelles e Paulo Morelli
  • Direção-geral: Fernando Meirelles
  • Período de exibição: 26/01/2015 – 06/02/2015
  • Horário: 23h
  • N° de capítulos: 10

A minissérie Felizes para sempre?, exibida pela Rede Globo entre os dias 26 de janeiro e 6 de fevereiro de 2015, é uma releitura de Quem ama não mata, exibida em 1982, também escrita por Euclydes Marinho. Felizes para sempre? retrata o drama dos relacionamentos amorosos a partir da perspectiva de cinco casais de uma mesma família. Os arcos narrativos exploram as nuances de distintas relações amorosas, envolvendo o desejo, a traição e o ódio.  A história tem como pano de fundo a cidade de Brasília e aborda a corrupção e a troca de favores entre os políticos da capital federal.

A trama tem como ponto de partida a comemoração de 46 anos de casado de Norma (Selma Egrei) e Dionísio (Perfeito Fortuna). Para celebrar a data, todos os membros da família Drummond se reúnem para relembrar momentos importantes da trajetória do casal.

Porém, o que parece ser uma família perfeita se desmorona com a chegada de da garota de programa Danny Bond (Paolla Oliveira). A partir daí, máscaras e mentiras começam a vir à tona e a possibilidade de um crime é iminente.

A minissérie é permeada por um clima de tensão, que se intensifica de acordo com os acontecimentos e relações amorosas que se tornam cada vez mais complicadas e perigosas. Desta forma, a trama cria um ambiente em que o telespectador espera que aconteça um crime a qualquer momento só restando à dúvida de qual personagem iria cometer o ato, já que todos os envolvidos teriam motivos que o justificariam.

O elenco conta com nomes como Maria Fernanda Cândido (Marília), Enrique Díaz (Cláudio), João Baldasserini (Joel), Caroline Abras (Susana), João Miguel (Hugo), Adriana Esteves (Tânia), Cássia Kis Magro (Olga), Perfeito Fortuna (Dionísio), Selma Egrei (Norma) e Paolla Oliveira (Danny Bond- Denise), entre outros.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Em entrevista ao Correio Braziliense , o responsável pela escolhados cenários Fernando Toledo disse que tentou apresentar aos telespectadores uma cidade diferente da apresentada nos telejornais, exaltando a beleza natural e sua arquitetura.

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Assim, a minissérie destaca emblemáticos locais de Brasília a partir dos passos de personagens, como Tânia (Adriana Esteves) praticando jogging pelas avenidas da capital, Cláudio (Enrique Díaz) fazendo remo pelo Lago Paranoá e também chegando na Esplanada dos Ministérios. As cenas eram filmadas sempre em planos abertos, zoom in e zoom out, imagens aéreas, agregando ressaltando a magnitude dos lugares.

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Outro ponto importante na ambientação Felizes para sempre? foi à manifestação popular apresentada nos primeiros capítulos da minissérie. A cena se passa no Eixo Monumental, e foi filmada com cerca de 200 figurantes, além dos atores Matheus Fagundes e Silvia Lourenço, que interpretam, respectivamente, Junior e Mayra. Já as cenas gravadas no estúdio se passaram, em sua maioria, na casa de Cláudio (Enrique Díaz) e Marília (Maria Fernanda Cândido) e no consultório de Tânia (Adriana Esteves).As sequências foram rodadas em São Paulo em uma mansão de 4.000 metros quadrados de área construída no Morumbi.

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No indicador da caracterização, pelo fato dos personagens pertencerem a uma classe alta de Brasília os figurinos eram compostos de roupas de grife e cortes de alfaiataria. Cláudio (Enrique Díaz), como um homem de negócios, preocupado com a aparência usa ternos slim, relógios e óculos escuros. Já Marília (Maria Fernanda Cândido), opta pela discrição, com um figurino minimalista com roupas de tons claros e tecidos leves, ressaltando sua elegância e sofisticação.

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Um ponto importante no indicadorda caracterização é o figurino de Danny Bond (Paolla Oliveira). A garota de programa vestia um figurino diferente para cada cliente, as roupas e os assessórios dos personagens criados por Bond (Paolla Oliveira) traduziam seus desejos e expectativas. As cenas em que atriz usava lingeries sensuais chamaram a atenção do público e contribuíram para a popularização da minissérie na época de sua exibição.

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A trilha sonora era composta, em sua maioria, por músicas que estabeleciam uma correlação com a cena que estava no ar. Como, por exemplo, na sequência em que Danny Bond (Paolla Oliveira) chega pela primeira vez à casa de Cláudio e Marília a trilha é a canção May I come in?,de BlossomDearie, cuja letra dialoga com o momento: Por falar do diabo/ Bem, aqui estou eu/ Posso entrar?/ Feelin ‘como uma lâmpada perdido e solitário/ Posso entrar?

Além disso, a trilha sonora é especialmente enfatizada em um momento presente em alguns episódios em que é feito um panorama geral de cada personagem, enquanto a música toca ao fundo traçando um diálogo com o drama pessoal de cada um na trama. A música toca inteiramente neste momento, e muitas vezes também possuía relação com a narrativa do episódio, como a canção Ex mai love, de Gaby Amarantos, que faz paralelo aos vários tipos de desilusões amorosas sofridas pelos personagens ao longo do capítulo.

Apesar de em alguns momentos a fotografia dialogar com as cores frias presentes na ambientação da minissérie, o indicador não estabelece nenhum tipo de influência ou correlação com o desdobramento dos arcos narrativos.

Apesar de apresentar flashbacks, as analepses são utilizadas em momentos pontuais e não alteram a temporalidade da minissérie.Como por exemplo na cena em que Dionísio (Perfeito Fortuna) lembra de seu amor de juventude Olga (Cássia Kis Magro). Desta forma, a edição se caracteriza como linear, pois não possui mais de uma linha cronológica além da do tempo presente.

No Plano de Conteúdo iremos abordar os indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling

No que se refere à intertextualidade podemos perceber o indicador no segundo capítulo da minissérie, quando a garota de programa Denise (Paolla Oliveira) se apresenta para o casal Marília (Maria Fernanda Cândido) e Cláudio (Enrique Díaz) com o pseudônimo de Danny Bond. Porém, apesar de apresentar uma referência externo ao universo ficcional da trama, rapidamente a personagem esclarece que se trata de uma inspiração do personagem James Bond dos filmes da saga 007. Dessa forma, a própria atração explica para o telespectador a correlação entre o nome da garota de programa e a franquia de longas metragens.

No indicador dassetas chamativas, podemos destacar o uso do cartaz narrativo na cena em que a cirurgiã plástica, Tânia (Adriana Esteves), está realizando um procedimento cirúrgico e suas mãos começam a tremer, sua expressão se torna distraída como se estivesse com alguma preocupação. Nesse momento, há a presença do áudio, em off, do acidente em que ela negou socorro à vítima. Dessa forma, o recurso é disposto convenientemente para mostrar ao telespectador o que a personagem estava pensando naquele momento. Isto, é o recurso do áudio, explica didaticamente os sentimentos de Tânia (Adriana Esteves), diminuindo o esforço analítico do público na compreensão da sequência.

O recurso também ganha destaca na cena em que Marília (Maria Fernanda Cândido) faz revelações sobre os esquemas de corrupção de Cláudio (Enrique Díaz). Neste momento, além de exibir a capa de uma revista com a manchete sobre a delação, o desdobramento narrativo é enfaticamente reforçado no diálogo de Cláudio (Enrique Díaz) com Joel (João Baldasserini).

Apesar de apresentarem reviravoltas e clímax como, por exemplo, quando Hugo (João Miguel) descobre que seu irmão Cláudio (Enrique Díaz) é o pai biológico de Júnior (Matheus Fagundes) e cena em que Marília (Maria Fernanda Cândido) descobre que Denise (Paolla Oliveira) mentiu sobre várias questões. A minissérie não apresenta efeitos especiais narrativos, nesse sentido reviravoltas não são significativas a ponto de fazer com que o espectador reconsidere toda a narrativa até então.

Por fim, no indicador recurso de storytelling podemos observar o uso de analepses. Por exemplo, quando Marília (Maria Fernanda Cândido) lembra da morte de seu filho e também na cena em que Dionísio (Perfeito Fortuna) recorda do seu amor de juventude. Todos os flahsbacks se caracterizavam pela imagem com a predominância da cor branca e o uso de muita luz de forma a indicar ao espectador que se trata de uma cena fora do tempo presente.

Por Mariana Meyer

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

O Tempo e o Vento

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  • Roteiro: Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas
  • Colaboração: Marcelo Pires
  • Direção: Jayme Monjardim
  • Período de exibição: 01/01/2014 – 03/01/2014
  • Nº de episódios: 3
  • Horário: 22h30

Exibida pela Rede Globo no início de 2014, a minissérie O Tempo e o Vento é uma versão televisiva do filme homônimo dirigido por Jayme Monjardim, que também assina a direção do folhetim. A obra é inspirada no livro O Tempo e o Vento, do escritor brasileiro Érico Veríssimo, e conta a história de várias gerações da família Terra-Cambará, bem como sua rivalidade com os Amaral. Como pano de fundo, tem-se a história da formação do Rio Grande do Sul e as diversas disputas que permearam tal parte do país.

A trama é narrada por Bibiana (Fernanda Montenegro/Marjorie Estiano/Janaína Kremer), que, já envelhecida, relembra a história da família com o falecido Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). O elenco ainda conta com Cléo Pires (Ana Terra), José de Abreu (Ricardo Amaral), Leonardo Medeiros (Bento Amaral), Igor Rickli (Bolívar), Mayana Moura (Luzia Silva), Matheus Costa (jovem Pedro), Martín Rodriguez (Pedro adulto), entre outros.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e ediçãoEm relação ao indicador ambientação, as filmagens iniciais da minissérie ocorreram em Pelotas, em um casarão do século XIX. Já a cidade cenográfica de Santa Fé, onde se passa a maior parte da trama, foi construída em Bagé, também no Rio Grande do Sul. Como a trama tem como pano de fundo a formação do Rio Grande do Sul, onde se passa a história de Veríssimo, os locais das filmagens tornam as paisagens da série totalmente condizentes com o livro que a inspira.

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Do mesmo modo, o figurino acompanha o período histórico de cada geração da família Terra-Cambará, assim como a origem de cada personagem. Tem-se como exemplo Ana Terra (Cléo Pires), que, morando no campo, apresentava roupas simples e neutras. Já Luzia (Mayana Moura), pertencente a outro período histórico e classe social, usava roupas mais sofisticadas e bem elaboradas. As roupas escuras da personagem, somadas à maquiagem mais pesada, também endossam a personalidade da moça, considerada agressiva, louca, quase mórbida. Peças gaúchas típicas, como ponchos, também se mostraram presentes na minissérie, ajudando na ambientação. Além disso, os personagens possuíam sotaque de acordo com sua origem e utilizavam expressões características da época, como “vosmicê”, conferindo verossimilhança à história.

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A trilha sonora não teve grande destaque, uma vez que era utilizada, principalmente, para reforçar o caráter emocional de algumas cenas, como episódios de tensão ou romance. As músicas eram predominantemente instrumentais. Entretanto, nos momentos em que Pedro(Martín Rodriguez) tocava flauta, a trilha sonora ocupava um espaço narrativo relevante, uma vez que o instrumento remontava as origens do personagem e foi um ponto memorável na relação entre Pedro (Martín Rodriguez) e Ana Terra (Cléo Pires).

 A fotografia, no entanto, se destaca por colaborar na ambientação da minissérie. Nas cenas filmadas nos casarões, há a presença de muitas sombras. Já as cenas filmadas externamente são muito iluminadas. As cenas internas noturnas contam com a presença de muitas velas, características da época. Além disso, em certos momentos, a fotografia reforça sentidos, como na cena em que Pedro (Matheus Costa)está cantando em uma celebração católica. Em tal momento, as crianças que cantam recebem uma iluminação azul, que remete a algo celestial. Dessa forma, a fotografia passa de tons quentes a tons frios dependendo do ambiente e do contexto de cada cena.

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Em relação à edição, a minissérie apresenta uma cronologia não-linear, uma vez que Bibiana (Fernanda Montenegro), já idosa, recorda a história da família, contada em flashbacks. Desse modo, a narrativa transita entre passado e presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. A intertextualidade está presente apenas nas referências a locais como o Rio Grande do Sul e a episódios históricos como a Farroupilha. A referência a tais elementos ajuda o espectador a se situar historicamente e geograficamente dentro da narrativa. Como a minissérie, assim como o livro, aborda a formação do Rio Grande do Sul, as referências ao estado e a conflitos históricos se fazem importantes para a compreensão da trama, além de conferirem verossimilhança à história.

Já as setas chamativas foram observadas em alguns momentos, facilitando a interpretação do telespectador. Tem-se como exemplo o início do primeiro episódio, que traz explicações sobre a situação do país no período histórico em que se passa a trama. Ainda no mesmo episódio, quando Capitão Rodrigo sobe ao quarto da idosa Bibiana(Fernanda Montenegro), ela o indaga sobre como conseguiu entrar no casarão. Ele responde: “A bala que me procurava já me alcançou há mais de 50 anos”, dando índicos de que já está morto. Dessa forma, procura-se dar explicações ao telespectador, embora não fique claro como o encontro entre Bibiana (Fernanda Montenegro) e Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) se faz possível.

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Em relação aos efeitos especiais narrativos, há clímax e reviravoltas nos plotsde cada geração da família Terra-Cambará, os quais desenvolvem a narrativa. Entretanto, em nenhum momento o telespectador reconsidera tudo visto até então ou há mudanças significativas no estilo narrativo.

Por fim, no que se refere aos recursos de storytelling, há a utilização de alterações cronológicas, marcadas por flashbacks que surgem ao longo da narração de Bibiana (Fernanda Montenegro). Dessa forma, a narrativa transita entre passado e presente. Além disso, há a presença de sequências fantasiosas, uma vez que o já falecido Capitão Rodrigo(Thiago Lacerda) vai ao encontro da idosa Bibiana (Fernanda Montenegro), momento a partir do qual começa a minissérie. Os diálogos e interações dos dois não são explicados didaticamente, cabendo ao espectador interpretar a situação de acordo com o contexto. A última cena acompanha a centenária, agora jovem novamente, indo ao encontro do Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) para, juntos, irem embora. Nesse momento, o bisneto do casal os vê e se despede com um aceno. Mais uma vez, cabe ao telespectador interpretar a cena e completar o sentido da narrativa.

Por Júlia Garcia

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Tá no Ar: a TV na TV

10362179_1444555325800763_696950560_nO programa Tá no Ar: a TV na TV estreou nas noites da Rede Globo em 17 de abril de 2014. Exibido por temporadas, geralmente exibidas no mês de abril, o programa é semanal e os episódios têm duração média de 25 minutos, divididos em esquetes com tempo máximo de 6 minutos.

Escrita por Marcelo Adnet, Marcius Melhem e Maurício Farias, a série satiriza a programação da televisão brasileira, desde humorísticos a telejornais, comerciais e canais de venda da TV a cabo. Entre os diversos temas abordados estão os acontecimentos da atualidade e assuntos corriqueiros como saúde, economia, política, esporte e cultura.

No plano da expressão, Tá no Ar traz um formato diferenciado para o audiovisual brasileiro, utilizando esquetes e efeitos especiais para ilustrar alguém que zapeia os canais da televisão. Dessa forma, alguns quadros têm apenas alguns segundos de duração e, com um corte brusco, passa-se para outra cena (flashes). Outra característica visual que destaca essa proposta é a utilização de uma arte, na parte inferior da tela, simulando uma grade de programas, na qual é mostrado o canal, volume do áudio e tempo de exibição do suposto programa.

Devido ao formato adotado, há muitas mudanças de cenário e figurinos. De acordo com informações disponibilizadas via internet pela própria emissora, os atores interpretam cerca de 72 personagens por episódio e 28 esquetes. Dessa forma, é característica forte e fundamental do programa as cenas bem construídas e os figurinos bem montados, para que a essência da proposta seja mostrada, principalmente nos flashes, no qual em poucos segundos o espectador precisa notar e entender do que se trata.

A maior parte dos quadros do programa são paródias de outras atrações televisivas, como o Ostenta, paródia do Esquenta, apresentado por Regina Casé, na Globo; o Te Prendi na TV, releitura do Você na TV, do canal Rede TV; e Dr. SUS, uma sátira da série médica americana House M.D.. Além desses, há reproduções de programas de entrevistas e telejornais, como o Jardim Urgente e o Jornal Câmera de Segurança que utiliza um formato ainda mais inovador por utilizar câmeras em ângulo plongée e com a imagem granulada e pouco nítida, como são as filmagens obtidas de câmeras de segurança.

A vinheta de abertura mostra vários aparelhos de TV, mudando de cores e formas, enquanto os atores da série são apresentados. A música Televisão, interpretada pela banda de rock Titãs, canta que “A televisão me deixou burro, muito burro, demais / Agora todas as coisas que eu penso me parecem iguais” e complementa a proposta do programa de criticar o meio e sua programação.

No plano do conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público recebeu nota boa em todas as emissões, pois, além da abordagem diferenciada, trata de temas que, apesar de serem comuns, podem despertar outras opiniões do público, diferente daquela mostrada no programa. No entanto, apesar da proposta de crítica à programação televisiva, o fato de predominar a ironia na linguagem nem sempre deixa clara uma opinião diferenciada ou a crítica em si.

Como no último episódio da segunda temporada, exibido em 16 de abril de 2015, o programa homenageia os 50 anos da Globo com releituras dos grandes sucessos da emissora, em que a maior parte dos esquetes e flashes constroem uma linha do tempo do canal. Por conta disso, a qualidade do episódio decai, principalmente em relação à promoção de discussões. Porém, ao final do mesmo, em contradição a tudo que foi exposto anteriormente, o programa faz uma paródia da abertura da novela Vale Tudo e da música Brasil, interpretada originalmente por Gal Costa com a seguinte letra:

“Não nos colocaram no horário nobre

porque o nosso galã é o Adnet

Porque na TV

para dar ibope

tem que ser malhado e emagrecer

Tem de ter anões em programas bizarros

Ou virar herói reformando carros

Bota beijo gay e mulher pelada

Ou um pastor rezando um copo d’água

Brasil, a TV não para

até de madrugada

tirando o seu ‘dindim’

Brasil, fofoca dos famosos,

boatos duvidosos

sempre foi assim

Eu já vi jogarem bacalhau em pobre

e debate editado pra me convencer

Antes do HD, toda atriz era nova,

agora plástica dá pra perceber

Vi celebridade perder peso no Fantástico,

não me confinaram num reality sem fim

Vi TV nascer bancada por dízimo,

correndo atrás pra passar o plim-plim

Brasil, mais de cem canais,

e a gente ainda quer mais,

do bom e do ruim

Brasil,

a TV é um negócio que vive do teu ócio,

se liga em mim

Se liga em mim,

Brasil.”

(Tá no Ar: a TV na TV – episódio 16/04/2015)

No indicador diversidade de sujeitos representados, o programa também foi bem avaliado, tendo recebido nota razoável em quatro das emissões avaliadas, e considerável em uma. A série representa diversas classes sociais, etnias e temáticas. O episódio com maior nota foi exibido em 24 de abril de 2014, e foram mostradas, dentre outras, a diversidade religiosa, por exemplo, no quadro Faceburca, falando do islamismo; diversidade cultural, com personagens nordestinos; e diversidade de gêneros como no flash “Interrompemos nossa programação para mostrar ‘um’ travesti defendendo um pênalti”.

No entanto, tal indicador esbarra em outro, desconstrução de estereótipos, devido às abordagens feitas pelo programa em cada episódio. Nesse quesito, três emissões foram consideradas como boas e duas como fracas. Fica claro que a intenção do programa não é a desconstrução de clichês, no entanto, quando certos temas são abordados sarcasticamente, trazem ao espectador um ponto de vista diverso do que costuma ser apresentado. Como no quadro citado anteriormente, no qual apesar de haver inclusão de outras religiões no contexto, a abordagem é estereotipada, pois fala de uma questão cultural da religião (o uso de burcas pelas mulheres) de forma pejorativa, como já costuma ser tratada. No entanto, no esquete A Bíblia segundo Rogéria, a desconstrução consiste em uma travesti, indivíduo tão marginalizado pelo cristianismo, falando sobre ensinamentos cristãos e mesclando-os às gírias comuns da linguagem LGBTTI (Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e intersexuais). A única desconstrução de estereótipo explícita no programa são as citações externas a outros canais, a marcas e celebridades, que permeavam boatos de proibição por parte da Globo, que supostamente vetava qualquer tipo de referência a tais nomes.

Por último, o indicador oportunidade, que foi bem pontuado na avaliação com três episódios bons e dois muito bons. Tá no Ar, por abordar a televisão, acaba falando temas atuais e que, portanto, estão presentes no cotidiano do espectador, como política, violência, preconceito e desigualdade social. É bastante explícita a abordagem de um assunto oportuno – e polêmico – no esquete Jardim Urgente, que aparece em todos os episódios e trata sobre pequenos delitos infantis, como rabiscos nas paredes, troca de lanches por figurinhas e fuga da creche, como se fossem crimes hediondos, com uma cobertura jornalística bastante tendenciosa e duvidosa com relação à credibilidade. No quadro, fica clara a crítica do programa a respeito da redução da maioridade penal no Brasil e, por essa abordagem, faz pensar a respeito do julgamento sobre qual é a idade ideal pela qual deve-se responder por seus atos, mesmo sem explicitar a posição do programa a respeito de tal assunto.

Abaixo, podemos ver os indicadores de qualidade do plano do conteúdo para cada episódio:

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Assim, na mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta, recebeu nota máxima na avaliação de qualidade, pois a série possui um formato organizado, considerando que todos os episódios são diferentes e com muitos quadros a cada emissão, e mesmo assim são perfeitamente reconhecíveis as características principais do programa. Inclusive, é perceptível que alguns flashes entre um esquete e outro são quadros que foram exibidos na íntegra em outro episódio, como, por exemplo, o flash de Mozart com uma fã em um restaurante, exibido em 5 de junho de 2014, foi exibido na íntegra no quadro Ídolos da Música, em 24 de abril de 2014.

No indicador diálogo com/entre plataformas, Tá no Ar obteve notas boas, pois, apesar de ser pequeno o engajamento do programa com a internet nos episódios avaliados, além das sátira e paródias se basearem em programas reais, há citações de outros canais, celebridades e personagens em todos os episódios, de acordo com a proposta metalinguística do programa. A emissão de 26 de março de 2015, por exemplo, tentou criar um diálogo com as redes sociais, já nos primeiros minutos: “Interrompemos nossa programação para tentar emplacar a hashtag ‘interrompemos’”. A partir da terceira temporada, as paródias de clipes musicais feitas pelo programa conquistaram o público internauta, como o Lord of the Ends: Spoiler e o Chico Buarque de Orlando.

A solicitação da participação ativa do público não se destacou muito, sendo considerada razoável em todas as emissões. A linguagem dos episódios é voltada para o público, com vocabulário simplificado e uso de gírias. Além disso, as situações encenadas provocam identificação no espectador, mas não há interação direta com ele.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, originalidade/criatividade, recebeu nota considerável em todas as emissões. Tá no Ar: a TV na TV tem uma proposta bem diferente do que o humor brasileiro já viu, principalmente no que diz respeito à metalinguagem e linguagem audiovisual. Dentre vários exemplos, encontra-se o episódio exibido em 5 de junho de 2014, um especial de Natal (característica comum dos programas da Globo, como forma de reforçar a verossimilitude das narrativas) na metade do ano, porque aquela temporada terminaria antes de dezembro, como é justificado no episódio. Além disso, para que a simulação de uma programação de TV seja completa, o programa recria e satiriza também os comerciais, que na verdade se mostram bem sinceros sobre a realidade do produto e a satisfação do consumidor. Como no Qualquer Bank, que critica as publicidades dos bancos brasileiros e seus clientes sempre satisfeitos.

O esquete demonstra quais são as possíveis reclamações com os serviços e como seria a propaganda se houvesse sinceridade, como na fala de uma personagem idosa, esperando na fila de um banco lotada: “Eu quero um banco com um caixa só trabalhando nos dias mais cheios”. No entanto, a sátira à programação da televisão, principal fator motivador do programa, é uma herança da TV Pirata e do humorístico Satiricom, da década de 1970.

A seguir, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Com base nessas avaliações, é possível observar a tentativa do programa de inovar no âmbito do humor brasileiro, por meio de seus recursos técnico-expressivos, principalmente na ilusão de mudança de canal em seus esquetes, pelo modo de representação e diversificação dos personagens, mesmo estes sendo satíricos, da boa construção de diálogos e utilização da metalinguagem, e da ironia na abordagem ao telespectador. Apesar de reciclar muitos elementos de outros programas do gênero, Tá no Ar: a TV na TV contribui para a construção de uma narrativa diferenciada, podendo, por isso, ser considerado um programa de humor de qualidade.

Por Lilian Delfino