Arquivo da tag: qualidade

Canal Ironia

maxresdefaultO canal Ironia foi criado por Oney Araújo – que é quem faz os vídeos – em 16 de Outubro de 2012. De acordo com descrição do canal, há postagem de vídeo toda semana, porém isso não se comprovou. Foram analisadas duas emissões, resultado das postagens do mês de Setembro de 2015; ambas foram classificadas pelo próprio canal como comédia. Além disso, há a divulgação de uma loja online de suplementos no fim dos vídeos e na descrição; existem várias emissões com a temática de academia e estética corporal.

No Plano da Expressão não foi observada uma riqueza de elementos estéticos. Os dois vídeos foram gravados no mesmo formato: a câmera fixa e Oney falando diretamente para o público. Ele se portava de forma natural e falava em linguagem coloquial. A edição foi feita de maneira linear, o que trouxe uma fluidez no decorrer da emissão.

O vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresenta um off falando sobre o que será feito, enquanto Oney na tela, faz menções com a cabeça como se estivesse entendendo o que a voz diz. Já no vídeo “Pergunte ao frango”, havia uma vinheta que aparecia a cada troca de perguntas; a arte consistia em uma inscrição da “Fábrica de frango” e o nome de Oney Araújo abaixo, em um fundo preto. Além disso, as perguntas sempre apareciam em formato de print. O recurso sonoro utilizado foi o som de uma guitarra. No canto inferior direito da tela, sempre havia um ícone com uma pequena foto do criador do canal.

Avaliando o Plano do Conteúdo, os dois episódios apresentaram pouca ampliação do horizonte do público. Isso justifica-se pelo pouco engajamento do programa em assuntos de relevância social ou estímulo à reflexão. Um exemplo de situação em que o tema poderia ser aprofundado, foi no vídeo do dia 21 de Setembro de 2015, em que o apresentador lê uma pergunta que diz: “O que é maior, os músculos do Arnold Schwarzenegger ou os impostos da Dilma?”. A resposta tenta escapar de um debate mais aprofundado. Oney diz que Kai Greene (fisiculturista profissional americano) saiu porque a Dilma entrou em seu lugar e que ela é a nova campeã; a única capaz de enfrentar Phil Heath (um dos maiores fisiculturistas estadunidenses) no próximo campeonato.  Essas citações não apresentam uma ampliação do conhecimento do público que não conhece o universo do fisiculturismo, pois a menos que este faça uma pesquisa, o vídeo não se preocupa em explicar o que cada um dos nomes representa.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, esta não constou em nenhum vídeo, já que o único que aparece na tela e consequentemente tem o protagonismo na representação e nas ideias, é Oney Araújo, um homem jovem e branco. Não há uma pluralidade de pensamentos nem mesmo no vídeo “Pergunte ao frango”, em que há a participação de espectadores, pois foi feita uma seleção das questões que apareceriam, sendo escolhidas as mais descontraídas, de acordo com a proposta de Oney.

O indicador desconstrução de estereótipos foi pouco observado. O episódio do dia 9 de Setembro de 2015 foi avaliado como fraco, por ter apresentado um assunto sério sem aprofundamento.  O vídeo começa com o apresentador imitando Mc Melody, uma garota de 10 anos, cantora de funk. No momento da música em que ela daria um falsete – sua marca particular – aparece na tela um porco grunhindo. Oney é irônico ao falar que ela é uma cantora profissional e que tem um agente, ao contrário dele.

Depois de zombar do jeito da garota cantar e até do nome do pai dela – Belinho, seu agente – ele faz um apelo real para as pessoas pararem de “zoar” a Melody. Ele argumenta que ela é uma criança e não tem culpa e nem noção do que faz; mas o importante é que ela está conseguindo o que quer, que é ficar famosa. Oney fala que inclusive gostou muito de sua música nova e chega a cantar um trecho. Diz ainda que desde que o pai dela não a coloque dançando de maneira sensual na frente de “um monte de macho”, está tudo bem. O debate sobre sexualização da garota, assunto que foi pauta midiática e social no momento em que ela fazia sucesso, foi levantado de maneira superficial, por isso a classificação da desconstrução foi baixa.

Já o quesito oportunidade obteve avaliação fraca no episódio do dia 9 e não constou em 21 de Setembro. Pode-se justificar a diferença pelos temas abordados. No primeiro vídeo, em que o assunto era a Mc Melody havia uma atualidade, uma vez que sua imagem estava muito presente nas redes sociais naquele momento. O segundo vídeo, com temática sobre estética e academia, não era uma pauta social especificamente nova.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

i3

Falando da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve uma classificação razoável e uma muito boa. Isso justifica-se no primeiro caso (emissão do dia 21 de setembro de 2015) porque o modo como o vídeo foi conduzido tinha chances de confundir o espectador. No início parecia que seriam esclarecidas dúvidas reais do público sobre o mundo da academia, porém as perguntas demonstraram que ao contrário, o vídeo seria somente de comédia e não visava responder seriamente nenhuma questão. Já na emissão muito boa, o próprio nome do vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresentava o que seria feito; de fato Oney tinha a intenção de fazer um falsete, imitando a Mc Melody .

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como muito bom em ambas as emissões, uma vez que no início dos vídeos eram divulgadas as redes sociais do dono do canal. Além disso, existem citações ao longo dos vídeos sobre personagens de séries – power rangers –, fisiculturistas reconhecidos internacionalmente e até cantoras.

A solicitação da participação ativa do público obteve uma avaliação boa e uma muito boa, pois por se tratar de um programa do You Tube, já existe um estímulo que chama o espectador a interagir. No final dos vídeos, a tela se dividia e enquanto Oney continuava falando em uma divisão, nas outras telas apareciam links para outros vídeos e um link fixado para se inscrever no canal.  Também apareciam novamente suas redes sociais. Além disso, o público sempre é convidado a dar like no vídeo.

No dia 9 de Setembro, a emissão termina com o anúncio de uma promoção e uma propaganda de uma loja de suplementos que o patrocina – aparece o site na barra do vídeo. O canal possui um cupom de desconto para os espectadores, o que além de estimulá-lo a assistir os vídeos, estimula a compra.  O vídeo avaliado como muito bom foi o dia 21 de Setembro, onde todo o conteúdo foi baseado nas perguntas dos internautas, que concorreriam a uma camiseta através de um sorteio.

O indicador originalidade/criatividade obteve duas classificações razoáveis. No vídeo “Pergunte ao frango” isso se deu porque a proposta de responder perguntas dos internautas não é nova, porém Oney faz isso com o intuito principal de fazer rir e não de tirar as dúvidas das pessoas, que também não eram sérias. Já na emissão “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, a avaliação se justifica pela reciclagem da proposta de tentar reproduzir alguma ação famosa na internet, sendo assim não foi observada uma originalidade considerável.

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

i2

Falando sobre os modos de representação, a atuação de Oney diante da câmera se dava de forma natural, buscando deixar o espectador à vontade. Dentre as emissões, o tema com potencial para um debate de cunho social, não foi tratado de maneira aprofundada, o que reforçou a banalização que o audiovisual geralmente reafirma nesses casos. Também não foi observada uma diversidade de olhares sobre as questões.

No aspecto da experimentação também não houve novidade; os recursos técnico-expressivos utilizados já eram conhecidos no YouTube e as propostas não passavam de reciclagem de formatos já existentes. Existia a possibilidade da participação do público, de modo a tornar o programa mais rico em perspectivas, porém isso foi pouco empregado e a construção da narrativa ficou majoritariamente por conta do dono do canal, Oney Araújo.

Por Letícia Silva

 

Cilada

cilada-airlines

Cilada é uma sitcom brasileira exibida pela Rede Globo, entre 2005 e 2009, primeiramente como um quadro do Fantástico e, posteriormente, como a primeira série nacional do canal Multishow, encerrando-se com seis temporadas e 53 episódios. Com aproximadamente 25 minutos de duração, o programa mostra situações corriqueiras que podem se transformar em problemas, ciladas.

Estrelado por Bruno Mazzeo, como o protagonista Bruno, o programa conta ainda com Renata Barbosa, namorada de Bruno na primeira e segunda temporadas, e Débora Lamm, que assume o papel da namorada a partir da terceira temporada. Além desses, outros personagens complementam as cenas, de acordo com o tema tratado no programa, porém, a maioria interpretado pelo próprio Mazzeo e, geralmente, são paródias de celebridades ou outros personagens famosos do audiovisual.

No Plano da Expressão, são características marcantes do programa a narração em off e também a introdução feita no início de três dos cinco episódios analisados, quando Bruno contextualiza o assunto, falando diretamente ao espectador, como em Supermercado, exibido em 20 de outubro de 2006, no qual a primeira fala de Bruno era: “Poluição sonora, poluição visual, filas enormes, tempo e dinheiro gastos três vezes mais que o esperado… Se você ainda não percebeu, isso aqui é uma lista de supermercado. Essa lista tem todos os ingredientes de uma receita perfeita de cilada. Quer dizer, todos não, né, porque em lista de supermercado a gente sempre esquece alguma coisa”.

A partir da sexta temporada, algumas mudanças ocorrem no programa, como a retirada da “Análise Cilada” e da introdução. No entanto, acrescenta-se a apresentação do episódio como “Cilada de hoje” e o respectivo nome da emissão, e a alusão de passagem do tempo com uma ilustração de dia e noite em time lapse.

A vinheta de abertura consegue caracterizar bem a proposta do programa: quando no Fantástico, a abertura exibia o próprio Bruno em “situações-cilada”, como ficar sem água durante o banho ou ser empurrado pela multidão para dentro do metrô quando se está tentando sair. Já no canal Multishow, a vinheta passa a ilustrar uma situação comum (pessoas andando pela rua), mas logo há mudança no clima (alusão de um céu claro se transformando em tempestade), confusão no trânsito, o som estridente de sirenes ao fundo e os pedestres correndo e se esbarrando, passando da calmaria e da mesmice para o caos. A música-tema, no entanto, interpretada por Gabriel, o Pensador, permanece a mesma em todas as temporadas e complementa a sugestão do que será exibido: “Parece que ‘tá’ tudo no esquema, mas ‘tô’ sentindo cheiro de problema/ Sempre tem alguma coisa errada/ Eu falei ‘pra’ você, só pode ser cilada/ Falei ‘pra’ você, mais uma vez, cilada”.

A caracterização dos cenários de cada episódio também marca o programa, como no episódio Supermercado, o qual é bastante fiel a um supermercado real, com corredores, caixas, produtos e outros elementos característicos de tal espaço.

No Plano do Conteúdo, o indicador que mais se destacou foi o de desconstrução de estereótipos, com nota mínima em todas as emissões, pois o programa utiliza exatamente os clichês da vida comum para causar o riso no telespectador. No episódio Nova Chefe, exibido em 17 de outubro de 2009, por exemplo, fica bem claro como vários chavões machistas são empregados nos trocadilhos e piadas de duplo sentido a respeito da nova chefe, e outros lugares-comuns como a “mulher mal comida”, como é dito por outro personagem, e o sentimento de inveja entre mulheres, exemplificado quando Soraya conta a Bruno sobre a nova chefe e logo a chama de “ridícula”, sem nenhum motivo aparente:

BRUNO: “É? Por que?”

SORAYA: “Ah, sem noção, sem critério, totalmente equivocada, Bruno.

BRUNO: “Que foi? Já chegou demitindo?”

SORAYA: “Não! Sombra, perfume, a essa hora da manhã, você acredita?!”

BRUNO: “Ué, mas tem problema isso?”

SORAYA: “Só porque é chefona, só porque é poderosa, se acha. Sem falar que é ‘uó’! Não é, Gerson?”

(Cilada – episódio Nova Chefe 17/10/2009)

Em outros episódios também são colocados em cena vários outros estereótipos, como a “mulher chiclete”, a “mulher feia” que é aquela que os homens só saem quando estão bêbados, e a “faladeira”. No episódio Mulher Chiclete, exibido em 10 de outubro de 2009, é possível perceber algumas tentativas de desconstrução (na primeira afirmação da frase), mas logo na mesma fala, outros clichês são reafirmados:

BRUNO: “Engraçado, muitas mulheres acham que têm que dar uma desculpa por terem transado na primeira noite, como se fosse um crime. Agora, ‘pra’ dizer que vão dormir na sua casa, não precisam de desculpa nenhuma, né! Aí é a coisa mais natural do mundo!”.

Mas em outro momento do episódio, quando Roberta (Juliana Baroni), a namorada, pergunta sobre impedimento no jogo de futebol, Bruno afirma: “Tem gente que acha que esse papo de mulher não entender muito de futebol é folclore. Mas quem acha isso não deve entender muito de mulher”.

No indicador oportunidade, as emissões também não tiveram boa nota, sendo avaliadas como fracas, porque tratam de temas comuns, sem uma abordagem diferenciada ou até mesmo ousada. Apesar de essa ser a proposta do programa, tais temas não despertam outro tipo de reflexão no público senão a que já é arraigada a respeito dos assuntos, o que interfere diretamente no indicador de ampliação do horizonte do público. Nesse aspecto Cilada deixa a desejar quando não aproveita os assuntos que provocam identificação no espectador, para trata-lo de forma diferenciada e agregar novos valores a respeito deles. Desse modo, os episódios também foram considerados fracos nesse quesito.

Sobre a diversidade de sujeitos representados, o programa foi avaliado como razoável, por representar pessoas de diferentes classes econômicas, tanto nos personagens principais, quanto nos secundários. Mas não há representatividade, por exemplo, da diversidade de gênero ou de raça, visto que todos os personagens nos episódios analisados são heterossexuais e brancos. Também não existe diversidade no ponto de vista, pois a maior parte da série é narrada pelo protagonista.

Abaixo é possível conferir o gráfico com as avaliações de qualidade do plano de conteúdo:

cpc

De acordo com os critérios de análise da mensagem audiovisual, o primeiro indicador avaliado, clareza da proposta, recebeu muito boa, nas cinco emissões analisadas. Isso se deve ao formato facilmente repetível do programa, com elementos e personagens que são reconhecíveis ao longo das temporadas e que se adaptam a todos os episódios, independentemente do tema deste.

Já no solicitação da participação ativa do público, três episódios receberam nota boa devido à linguagem adotada pelo programa, de acordo com o público-alvo (jovens e adultos, entre 15 e 30 anos, das classes A, B e C) e pelo uso de expressões e gírias como “pô”, “cara”, “que saco!”, “seu”, em vez de “senhor”, e inclusive alguns palavrões. Também há comunicação direta com o espectador, principalmente por parte do protagonista, através das câmeras.

Alguns elementos gráficos como o “Comentário Cilada” – quando é introduzida uma explicação, ou mesmo um pensamento não dito de Bruno em um plano a parte, uma pequena televisão no canto inferior da tela – e a “Análise Cilada”, que interrompe a cena e insere um breve contexto histórico ou ponderações sobre o tema tratado no episódio, também ajudam nesse indicador por ter a intenção de clarificar o entendimento do leitor sobre a cilada daquele episódio. Os dois episódios que receberam nota 2 não utilizam mais esses elementos, fato que diminui a interação direta com o público.

No indicador originalidade e criatividade, todas as emissões receberam nota razoável, pois é possível perceber um formato diferenciado na sitcom, que opta, por exemplo, pela participação de personagens fora da cena principal, interpretados pelo mesmo ator, um complemento incomum nas séries nacionais. Além disso, o “Comentário Cilada” e o “Análise Cilada”, complementam a linguagem diferenciada característica do programa.

Sobre o diálogo com/entre plataformas, as emissões também foram consideradas razoáveis, pois percebe-se, por exemplo, a paródia e referência ao ator Alexandre Frota, no personagem Alexandre Focker, presente em todas as emissões avaliadas. Além disso, a história foi adaptada para os cinemas, no filme “Cilada.com”, em 2011, mantendo a maior parte do elenco, roteiristas e enredo, no entanto, vários personagens que existiam na série não fizeram parte do longa-metragem. O programa também cita lugares reais do Rio de Janeiro, como bairros e estabelecimentos.

A seguir, podemos observar a nota de cada episódio analisado de acordo com os critérios de qualidade da mensagem audiovisual:

cma

Considerando as avaliações, o programa Cilada está inserido no gênero comédia, mesmo possuindo algumas características satisfatórias do humor de qualidade, como originalidade/criatividade e solicitação de participação ativa do público.

A sitcom é assim considerada por ainda fazer uso, por exemplo, de vários clichês sociais, muitas vezes com cunho machista ou homofóbico, e por ainda construir personagens grotescos baseados em tais estereótipos, como no caso de Alexandre Focker.

No quesito experimentação visual, Cilada utiliza bem diversos recursos adicionais à cena normal, como “Análise   Cilada”, com animações gráficas que aumentam a interação direta com o público e demonstram preocupação em fazer o espectador entender, de fato, a narrativa do programa. No entanto, o fato de não explorar temas da agenda midiática (oportunidade) ou que estimulem uma discussão, levando a outros pontos de vista (ampliação do horizonte do público), faz com que a sitcom volte ao lugar-comum, sem trazer nenhum diferencial para o âmbito do audiovisual brasileiro.

Por Lilian Delfino

Amada Foca

foto-amada-foca-trailerAmada Foca é um canal de vídeos do YouTube, que se descreve como humorístico. Ele é composto por Bento Ribeiro, Bruno Sutter, Paulinho Serra, Daniel Furlan e Paulinha Vilhena e dirigido por Marcelo Botta e Gabriel Di Giacomo; foi criado em 29 de Maio de 2013. Os horários das postagens são sempre às 20h, sendo que no mês analisado, setembro, a programação se dividia entre o reality Casa da Foca às segundas e o programa Foca News às quintas.

No Plano da Expressão, um dos aspectos de destaque é a tela preta em que aparecem inscrições, como se alguém estivesse digitando informações como passagem de tempo ou explicações para o espectador. Além disso, todos os vídeos tem a marca do canal na parte inferior direita da tela. Uma característica marcante do reality Casa da Foca é a constante participação da produção e do operador de câmera do programa. O elenco interage com quem está nos bastidores, principalmente através de conversas.

Falando sobre o Plano do Conteúdo, o indicativo ampliação do horizonte do público não constou em seis dos sete episódios analisados. Isso acontece porque não são levantados temas de relevância para o espectador ou que trazem algum tipo de reflexão. O único vídeo tido como razoável foi o “Casa da Foca #01”, em que Bento Ribeiro expõe que tem síndrome do pânico. Mesmo sendo um assunto importante por poder contribuir para informar as pessoas, este não foi tratado de maneira aprofundada, talvez até pela proposta do canal de levar situações leves a quem assiste. Ele está triste com a possibilidade do canal acabar e diz que ultimamente sua síndrome do pânico está atacada: “A síndrome do pânico só para quando eu tenho que ‘comer mulher’. Mas agora responsabilidade, sair na rua pra pagar conta, trabalhar mesmo, aí a síndrome do pânico bate violenta, entendeu?”. A forma como é explorada a questão, não amplia consideravelmente a perspectiva do público.

O indicador diversidade de sujeitos representados obteve seis avaliações fracas e não constou em um episódio, devido à falta de pluralidade dos participantes. Eram em sua maioria homens, brancos, jovens e que tinham a personalidade parecida, o que não ampliava a diferença de perspectivas do programa.

Quanto à desconstrução de estereótipos, esta não constou em nenhuma das emissões. Em alguns vídeos ocorre o contrário: os participantes reforçam algum tipo de senso comum. No dia 23 de setembro de 2015, por exemplo, o programa usa como personagens dois velhinhos preconceituosos. A ideia que o episódio passa é de querer reforçar esses comportamentos a fim de fazer o espectador perceber que é prejudicial. Porém, isso é feito com tanta segurança que algumas pessoas podem entender como verdadeiro e acreditar. Este recurso de reforçar para tentar desconstruir não foi utilizado de maneira a ajudar o espectador a pensar, além de deixar confusa a proposta do programa.

O padre representado começa o assunto falando de “homossexualismo” e cita que isso e o food truck estão acabado com a juventude deste país. Seu convidado faz comentários como: “É tudo bicha”, “Isso aí é armação do PT”, “A Rede Globo quer trocar o sexo das nossas crianças”, trazendo opiniões reais, mas contribuindo para uma afirmação de que pessoas mais velhas tem esse tipo de pensamento. Também ridiculariza um antigo caso do jogador Ronaldo com uma travesti, brincando com a situação.

No dia 7 de setembro de 2015 também há outra demonstração de reafirmação de um tipo de preconceito. Bento “leva” o público para conhecer a Casa da Foca e aproveita para mostrar a decoração. Quando ele se depara com uma máscara de origem africana, diz: “Isso que é escroto, foi o Serra (Paulinho Serra) que trouxe. Essa máscara bizarra, uma merda.”. Em outros episódios, Bento também utiliza o termo “viado” como xingamento.

O indicador oportunidade não constou em várias emissões vistas e obteve somente uma avaliação boa. Esta foi no vídeo de 16 de setembro de 2015, um esquete com a temática Rock in Rio. O tema era atual, uma vez que o festival começaria no dia 18 do mesmo mês. No episódio de 23 de setembro de 2015 o assunto principal é o Snapchat, que segundo o personagem do vídeo, é um aplicativo que só serve pra tirar foto de pênis. Esse aplicativo estava sendo muito usado e comentado na época, o que indica a oportunidade. Os outros episódios utilizavam temas que não eram necessariamente pautas midiáticas ou sociais.

Confira os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

AMADA1

Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi bem avaliado na maioria das emissões analisadas. A proposta é clara nos dois formatos, tanto os esquetes quanto os vídeos temáticos da Casa da Foca, têm a intenção de fazer rir mostrando situações cotidianas.  Os únicos vídeos com avaliação razoável foram os do dia 16 e 23 de setembro de 2015 (“Rock in Rio II” e “Juventude em debate”). A justificativa é que nos dois casos a forma narrativa utilizada dá a entender uma intenção de quebra de estereótipo, porém esta é explorada de maneira inversa, reafirmando por meio de falas e ações das personagens, o que pode confundir o espectador. A ironia também é utilizada, mas não a ponto de fazer as pessoas pensarem sobre o assunto.

Falando sobre diálogo com/entre outras plataformas, este foi muito bem avaliado. Pode-se observar que há em vários episódios citações sobre o canal MTV, uma vez que alguns dos integrantes já trabalharam na emissora. Também há em vários vídeos a aparição de bonecos que são personagens de filmes, os quais Bento Ribeiro coleciona. As duas emissões que tiveram maior demonstração desse diálogo foram as do dia 10 e 23 de setembro, que apresentavam paródias de programas televisivos. A primeira parodiava um programa policial, apresentando o fenômeno do Stand Up de maneira sensacionalista, enquanto a segunda buscou imitar o modelo de um programa religioso, que inclusive cita o aplicativo Snapchat.

Em relação à solicitação da participação ativa do público, esta obteve variações entre razoável e boa. Isso se justifica pelo próprio tipo de plataforma utilizada, o YouTube, que possibilita o público participar com comentários, curtidas e compartilhamentos. Além disso, ao final de cada vídeo é fixado um link na tela convidando as pessoas para se inscreverem e assistirem vídeos antigos do canal.  O critério utilizado na diferença das avaliações foi o tipo do vídeo analisado. Quando se tratava de vídeos do reality em que o elenco falava diretamente com a câmera, trazendo uma proximidade com o seu público e tinha a linguagem mais informal com gírias e palavrões, por exemplo, foi tido como bom; uma vez que esse era o diferencial. Nas outras emissões em que a solicitação foi razoável, a avaliação foi dada somente pelo olhar diretamente para a câmera.

O quesito originalidade/criatividade foi avaliado como considerável em quase todas as emissões, principalmente nos episódios de Casa da Foca. Observou-se uma pequena inovação no esquema de câmera, que ficava na mão e não fixa. Sempre mostravam a casa e a reação do participante de maneira natural, sem roteiro, o que ocasiona uma proximidade com o público. Geralmente eles agiam de maneira espontânea, como no episódio do dia 28 de Setembro de 2015, em que Paula Vilhena ao ser surpreendida com a nova casa, diz estar muito feliz, mas não consegue chorar por estar de ressaca

No gráfico abaixo encontram-se os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

amada2

Observando o canal como um todo, nota-se que a representação utilizada não descontrói estereótipos, sendo que algumas vezes até reforça através das ações e falas de alguns participantes.  A atuação dos personagens nos esquetes geralmente eram satíricas e buscavam usar a ironia para representar as situações do cotidiano. Nos episódios analisados essa escolha não foi eficaz, uma vez que ao reafirmar os lugares-comuns, mesmo com a intenção de fazer o espectador pensar, isso poderia trazer a impressão contrária. De modo geral, não foram apresentados temas que davam atenção à diversidade, crítica social ou reflexão.

A experimentação no modo de filmagem nos episódios de Casa da Foca deixava evidente a personalidade dos participantes, uma vez que mostrava-os de maneira natural, sem filtros. Também foi utilizado o recurso da câmera subjetiva, como se fossem os olhos do personagem. As propostas observadas nos vídeos analisados são reciclagem de formatos que já existem. Nos episódios do reality show nota-se somente mudança da temática: a utilizada no canal é a mudança da casa que eles usavam para trabalhar. Já nos esquetes, não se nota nenhuma grande inovação, uma vez que pode-se comparar o que foi feito com esquetes de programas da MTV, por exemplo. Além disso, o público não era parte da construção da narrativa, mesmo que a plataforma seja propícia.

Por Letícia Silva

Aí eu vi vantagem

182204_1

Direção: Pedro Antonio Paes
Roteiro: Fil Braz
Elenco: Samantha Schmütz, Luciana Paes, Oscar Filho, Stepan Nercessian, Edmilson Filho , Fafy Siqueira ,Carmem Verônica  e Sheila Friedhofer
Período de exibição: 07/08/2015 – 11/09/2015
Horário: 22:30h
Nº de episódios: 16 episódios

Protagonizada por Samantha Schmütz, a série Aí eu vi vantagem, exibida no canal pago Multishow em 2015, é um spin off de Vai que cola (Multishow, 2013-presente). Na trama, roteirizada por Fil Braz, Jéssica (Samantha Schmütz) vai visitar a amiga Katarina (Luciana Paes) e sua familia, os Barroso de Barros, no centro do Rio de Janeiro. Lá a a promoter descobre que  Barroso de Barros são donos de um cabaré, porém o lugar está quase falindo. Em busca do sucesso e de realizar seu sonho de ser famosa Jéssica (Samantha Schmütz) decide ajudar Katarina (Luciana Paes) com o cabaré e a cada semana propõe novas atrações e eventos para o lugar.

Por ser uma série episódica, as tramas são unitárias e de fácil compreensão. Nesse sentido, mesmo sendo protagonizado por uma personagem que integra o universo ficcional de Vai que cola o spin off  apresenta várias setas chamativas que ajudam o telespectador no desdobramento dos arcos narrativos.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Apesar da ambientação de eu vi vantagem ser fundamental para o desenvolvimento dos plots e sub plots, os elementos cênicos apresentam pouca verossimilhança com o contexto retratado. Isto é, na trama tanto a casa da família Barroso de Barros quanto o cabaré contribuem para as ações dos personagens, porém os cenários não se aproximam da realidade. Apesar de se tratar de uma série de comédia, que de certa forma permite que o cenário seja mais lúdico, os elementos (móveis, eletrodomésticos, papéis de parede, objetos de decoração, etc)  não reproduzem, em nenhum momento, uma casa do centro do cidade, mas um cenário fictício de um programa televisivo.

01

O mesmo acontece no indicador caracterização dos personagens , os figurinos reforçam os arquétipos de cada personagem, facilitando o entendimento do telespectador, entretanto as roupas são caricatas. Como, por exemplo, o personagem Oswaldo (Stepan Nercessian), que é descrito na abertura da série como um botafoguense fanático e em todas as cenas dos episódios de eu vi vantagem usa uma camisa do Botafogo. Nesse sentido, a identidade e o perfil dos personagens é constante reforçada pelo figurino, porém de uma maneira didática e de distante da realidade.

02

Os figurinos de Katarina (Luciana Paes), que é descrita como uma jovem tímida também refletem de modo caricato a sua personalidade. Um ponto que chama a atenção neste indicador é o sotaque dos personagens, apesar de se passar no centro do Rio de Janeiro e retratar uma família tradicional do lugar, somente Jéssica (Samantha Schmütz) adota a prosódia do estado. Os outros personagens têm sotaque paulista e mineiro, se distanciando do ‘s’ puxado dos fluminenses. Também não são adotadas, de modo geral, gírias e expressões mais usadas na região. O aspecto tira a verossimilhança de todo o universo ficcional, distanciando a trama da ambientação.

Apesar de ter um cabaré como ponto central dos acontecimentos narrativos, a trilha sonora de eu vi vantagem é composta, em sua maioria, por músicas instrumentais. Os efeitos sonoros são usados para contextualizar as situações da história como, por exemplo, as brigas entre os personagens, os momentos de suspense, etc. Em alguns episódios, principalmente nas sequências do cabaré, são usadas músicas populares dos anos 1980 e 1990, mas nada que contribuía diretamente para o desdobramento da trama.

A fotografia da trama do canal pago Multishow é naturalista. Nesse sentido, a iluminação das sequências não apresenta nenhuma variação e/ou influencia no desenvolvimento dos arcos narrativos da atração.

Por se tramar de uma série episódica os acontecimentos narrativos de eu vi vantagem seguem uma estrutura dividida em cinco atos: equilíbrio, interrupção, clímax, resolução de conflitos e retorno do equilíbrio. Desta forma, o programa apresenta uma edição linear, norteada por apenas uma temporalidade, seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

No indicador da intertextualidade, é importante ressaltar as constantes referências a artistas e grupos musicais da cultura pop. Em várias sequências a personagem Jéssica (Samantha Schmütz) faz alusão a cantoras como Lady Gaga, Rihanna, etc.Nesse sentido, apesar de não ser fundamental para a compreensão da trama as referências aprofundam o universo ficcional, enriquecendo a contextualização do programa.

03

O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em eu vi vantagem. A trama do Multishow é norteada por cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. O recurso está presente não só nas cenas e diálogos dos personagens, mas na abertura da atração. Além do nome dos personagens serem acompanhados de definições que resumem sua personalidade, a sequências de abertura é narrada pela voz em off de Jéssica (Samantha Schmütz). A protagonista explica, didaticamente ao telespectador, não só o perfil dos integrantes da família Barroso de Barros, mas contextualiza os arcos narrativos centrais da história.

Obs

Os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram observados na série episódica.Apesar de ter clímax e reviravoltas, em nenhum momento o telespectador é obrigado a reconsiderar tudo o que viu até então.

Por Daiana Sigiliano

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Minha Nada Mole Vida

Foto

Dos criadores Luiz Fernando Guimarães, Alexandre Machado e Fernanda Young, Minha Nada Mole Vida é um seriado de televisão que estreou na Rede Globo em 7 de abril de 2006, com direção de José Alvarenga Jr e produção de Daniel Vincent. No ar em 2006 e 2007, o programa conta com 23 episódios de 30 minutos cada, divididos em três temporadas, exibidos todas as sextas-feiras, às 23h. Protagonizado por Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) e Silvana (Maria Clara Gueiros), o seriado traz o dia a dia de Jorge Horácio com o filho Hélio (David Lucas) e a ex-mulher Silvana, que o obriga judicialmente a ficar mais tempo com o filho.

Fazendo uma sátira aos programas que se dedicam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., Jorge Horácio é um jornalista que comanda o programa Jorge Horácio By Night, atração comumente vista por Silvana, a ex-mulher, que torce para que o ex cometa gafes ao vivo. Paralela à sua vida de apresentador de TV, a trama mostra a guerra travada entre os adultos por causa de Hélio, o filho do casal, de apenas 10 anos, que vive no meio das brigas, discussões e implicâncias dos pais.

No Plano da Expressão, alguns aspectos chamam a atenção do espectador, como a vinheta do programa, o ritmo, a linguagem e o cenário. Na abertura, pai e filho fazem uma dança sincronizada da música de fundo Não é Mole Não, do grupo carioca Funk n’ Lata, que dialoga não só com o nome do humorístico, mas também com o seu conteúdo, composto por situações embaraçosas, complicadas e cheias de confusões que provam que a vida do protagonista Jorge Horácio não é fácil. Para o fechamento do programa não há vinheta final, pois os créditos aparecem em letras brancas, na parte de baixo do plano, enquanto os últimos segundos do episódio passam na tela.

Com relação ao código sintático, o ritmo do programa nem sempre é linear, como no episódio do dia 12 de maio de 2006, quando no primeiro minuto, após uma cena entre uma mulher desconhecida e Hélio, aparece na tela a frase “Poucos dias antes…” em letras brancas e fundo preto, deixando evidente que o que será mostrado a seguir já aconteceu em momento anterior. Somente no último bloco do programa, com a frase “Naquela noite, então…”, também em letras brancas e fundo preto, é que o tempo linear da trama é retomado, com parte da cena anteriormente mostrada sendo passada de novo.

Quanto à linguagem utilizada pelo programa, a tentativa é de aproximação com o público jovem, já que aposta num roteiro coloquial, com expressões e gírias comumente faladas por esse tipo de espectador. Palavras de baixo calão também se incluem nas falas dos personagens, como cagando, cassete, vagabunda, cagada, imbecil e otário. Além dos termos chulos, frases de duplos sentidos também são muito proferidas, como no diálogo a seguir, exibido no mesmo episódio citado anteriormente, em que uma conversa sobre profissões se inicia na mesa de jantar, e o foco do assunto é a garota de programa Sônia:

JORGE HORÁCIO: A Bia Sônia faz parte de uma geração de mulheres que optou por ralar, e muito.
SÔNIA: É verdade, eu sempre ralei muito.
JORGE HORÁCIO: Ela rala demais.
SILVANA: Olha, que interessante. Você tá ralando com o que agora?
JORGE HORÁCIO: Computação. A Bia Sônia acabou de criar uma internet que vai substituir essa nossa internet. Ela vai ficar rica. Muito rica.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

Quanto ao cenário, o seriado se desenvolve em dois lugares principais: o apart-hotel em que Jorge Horácio vive (um ambiente pequeno, mas confortável e arrumado) e as festas que o personagem cobre (geralmente com fundo escuro, com convidados e garçons passando). Também é característico do programa mostrar a frente do prédio do apart-hotel de Jorge Horácio, em câmera contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima) com leve aproximação, antes de mostrar uma cena no referido apartamento. Situações como essa também acontecem no início ou no meio do episódio em outros lugares, como no condomínio de Silvana, para situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará. No dia 4 de maio, por exemplo, no episódio intitulado “Noite de queijos e vinhos”, a história se inicia mostrando a imagem de um prédio de dois andares, de cor marrom e janelas abertas, com barulhos e vozes de crianças ao fundo. Com isso, entendemos que a trama começará num colégio, o que fica comprovado quando na cena seguinte pai, mãe e filho estão sentados numa mesa olhando para uma senhora que fala sobre as notas de Hélio.

Um aspecto do plano da expressão que é marca do programa Jorge Horácio By Night e que se tornou marca também do Minha Nada Mole Vida, é a estrofe de sucesso Everybody dance now, do grupo C&C Music Factory, sucesso das pistas de dança dos anos 1990. Comumente cantada para Jorge Horário quando as pessoas o reconhecem, o trecho é uma marca do personagem porque é o refrão da música de abertura do seu programa, o Jorge Horácio By Night. E, apesar de na abertura do seriado Minha Nada Mole Vida a música ser outra, essa metalinguagem utilizada caiu no gosto popular e fez de Everybody dance now uma expressão muito conhecida e falada por diversos grupos de amigos da vida real.

Das emissões analisadas, três eram de 2006 e duas de 2007, e as únicas mudanças aparentes foram nas cores de fundo da abertura do programa, que antes eram brancas e em 2007 ficaram coloridas, com um mix de cor que acompanha o ritmo da música de fundo, e a troca do ator que interpreta o cinegrafista da trama, que antes era o Cabreira, personagem de Carlos Mariano, e que em 2007 passou a ser o Pascal, interpretado por Pedro Paulo Rangel.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público se deu de forma razoável em quatro episódios e de forma considerável em um. O programa aborda novos conceitos, opiniões e propostas para o público, mas não de uma forma que gere de fato a reflexão do seu telespectador. No episódio Procura-se uma namoradado, razoável para esse indicador, por exemplo, um diálogo entre pai e filho se inicia e levanta a possibilidade de reflexão (ainda que pouca, devido ao curto tempo) nos pais que não medem direito as palavras que falam para os filhos, que acabam assimilando e aprendendo os mesmos modos dos pais.

JORGE HORÁCIO: Então vamos jogar juntos, joga aqui comigo.
HÉLIO: Claro que não, você tá maluco?
JORGE HORÁCIO: Ué, por quê?
HÉLIO: Ué, porque você é ruim pra cassete.
JORGE HORÁCIO: Em primeiro lugar: falar “pra cassete” é feio, tá? Segundo lugar: ruim pra cassete é a vovozinha, por parte de mãe.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

No único episódio em que esse indicador está mais presente, intitulado Noite de queijos e vinhos, a reflexão é facilitada pelo diálogo da última cena, que traz uma representante do colégio questionando Hélio e seus pais sobre a sua nota máxima na prova de matemática.

SENHORA: Eu só gostaria de saber quem foi a pedagoga que fez com que o aluno que nunca tirou mais do que 5,5 em matemática, de repente tire um 10.
HÉLIO: Foi a arrumadeira. E ela não é pedagoga: ela é bissexual.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Noite de queijos e vinhos 04/05/2007).

Com todo o decorrer da trama dessa emissão, que aborda a diversidade sexual, mais a resposta de Hélio à senhora, o pensamento do público foi estimulado à reflexão de que a orientação sexual de uma pessoa nada interfere na sua inteligência ou sabedoria. Talvez o horizonte do público tenha sido incrementado ao ponto de fazê-lo ampliar o seu repertório cultural, enxergar novas formas de vida e quebrar paradigmas e preconceitos.

O seriado não faz o uso abusivo de estereótipos, como geralmente é visto nos programas de humor. O interesse em gerar o riso através da representação fiel e verossímil do cotidiano de pessoas comuns é maior que o de se fazer comédia pela representação deturpada, exagerada e distorcida de tipos já preconcebidos pela sociedade. O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi observado em todas as emissões analisadas, mas com avaliações razoáveis. As duas formas do uso do estereótipo (para afirmar e desconstruir) são identificadas, porém, observamos que no episódio anteriormente citado, o estereótipo de afirmação está presente em vários momentos no decorrer da trama, mas que a última fala proferida (descrita acima) vem para desconstruir esses estigmas e modificar as mentes preconceituosas.

Uma situação em que o estereótipo de afirmação está presente é na fala de Silvana, quando ela está no elevador ao lado de uma mulher quieta e desconhecida e começa a falar sobre a recepcionista Bianca, que é lésbica: “Hum. Pra aquela sapatinha da recepção não tá lá aposto que ela tá naquela bagunça, no apartamento do Jorge Horácio, né. Hum. Sapata é fogo, né. Impressionante. Como é que pode gostar de mulher, gente. Só de pensar nisso me dá uma angústia”. Ao associar a orientação sexual de Bianca com “bagunça”, vemos que a fala de Silvana reforça o estereótipo de que lésbicas se relacionam com várias pessoas ao mesmo tempo. A mesma coisa acontece na fala de Pascal, quando ele responde a Jorge Horácio que não vale a pena tentar conquistar Zenaide, que é bissexual: “Ahh não, pelo amor de Deus. Já namorei uma bissexual e não vale a pena. É o dobro de chance de você ser chifrado”. Com essa fala de Palcal, vemos que ele também reforça um estereótipo ao condicionar a traição de uma pessoa à sua orientação sexual e não ao seu caráter.

Ainda no Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados foi bem variado, tendo se mostrado razoável em uma emissão; bom em três; e muito bom em uma. No geral, os episódios são bem heterogêneos quanto à representação dos diferentes grupos sociais, principalmente no que se refere à cultura, à sexualidade e aos pontos de vista. No episódio que mais se destaca no plano do conteúdo (exibido no dia 4 de maio de 2007), por exemplo, é possível identificar a presença desses três fatores: na cultura, a diversidade está no contraste entre os personagens fixos da trama, Jorge Horácio, Zenaide e Pascal, que fazem parte de uma equipe de televisão, e os personagens convidados, moradores do subúrbio que compõem a festa Noite de queijos e vinhos, e que não entendem as expressões usadas pela equipe de gravação; na sexualidade, a diversidade é trazida à tona com a atuação de Bianca e Zenaide, mulheres lésbicas e bissexuais, respectivamente; e nos pontos de vista a diversidade está nas diferentes opiniões emitidas sobre um determinado assunto, facilmente visualizados nas discussões e discordâncias de Jorge Horácio e Silvana.

Quanto ao indicador de qualidade oportunidade, a avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato de Minha Nada Mole Vida abarcar assuntos cotidianos da vida de uma pessoa, incluindo seus problemas, questionamentos e prazeres na vida social ou familiar. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

PNG

Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão, como a vinheta de abertura descontraída, o figurino moderno e a linguagem informal, conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos, que se baseiam na comédia gerada pelo dia-a-dia de um atrapalhado apresentador de TV. No começo de todo episódio, por exemplo, na primeira cena sempre é apresentado ao público um problema da relação de Jorge Horácio com sua ex-mulher ou filho, ou um problema que envolve o seu trabalho. Basendo-se em uma dessas duas questões, portanto, o programa deixa sempre bem clara a sua proposta e já na primeira cena o espectador entende o que será tratado no decorrer do episódio.

Inovação e experimentação não são o carro-chefe do humorístico, já que tinha o mesmo formato de diversos outros programas já existentes e conhecidos do público, como Os Normais, da mesma emissora, que também era protagonizado por Luiz Fernando Guimarães e tinha a mesma equipe de roteiro e direção, além de também focar no dia a dia das pessoas, mais especificamente no de um casal de noivos. Entretanto, com relação à originalidade/criatividade, podemos dizer que Minha Nada Mole Vida foi razoável, pois o modo como é elaborada a história pode gerar curiosidade no público e o instigar a ver os acontecimentos e peripécias do desenrolar da trama.

Solicitação da participação ativa do público também foi razoavelmente identificada nas emissões. Isso se deve, principalmente, à linguagem coloquial utilizada e à estreita relação programa-espectador estabelecida quando a tela que o público vê é a mesma tela que o espectador do Jorge Horácio By Night vê. Esso mescla de ficção e realidade acontece para interagir o público, e fica evidente quando na tela Jorge Horácio é mostrado olhando para a câmera do seu cinegrafista, em plano médio ou plano americano, e posteriormente a sua imagem em grande plano, com o logo da emissora a que pertence o programa de Jorge Horácio no canto inferior direito da tela.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas não foi observado no decorrer dos episódios analisados, mas foi considerado “fraco” apenas pelo fato de o programa dialogar com a vida real e fazer referência implícita aos programas que se dedicavam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., que na época apresentava o Programa Amaury Jr. na RedeTV!, que tinha o mesmo formato que o Jorge Horácio By Night. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual:

PNG 2

Como aqui procuramos demonstrar, no modo de representação a atuação dos personagens e a construção dos diálogos de Minha Nada Mole Vida geram o riso e reforçam estereótipos, mas deixa claro que de um modo geral o programa têm a intenção de levantar discussões e assuntos pertinentes da vida em sociedade. Entretanto, tais temas abordados, apesar de relevantes, podem não ter sido suficientes para conduzir o espectador a uma reflexão mais profunda, visto que acontecem em tempo curto ou apenas “jogam” a discussão para o público, sem se estender muito, deixando que ele mesmo tire suas próprias conclusões.

Quanto aos modos de experimentação, o uso dos recursos técnico-expressivos se dá de forma a aproximar o espectador. O refrão da música de abertura do programa Jorge Horácio By Nigh, que marcou o personagem de Luiz Fernando Guimarães na vida real, e a mescla de ficção e realidade comprovada quando a imagem vista pelo público de Minha Nada Mole Vida é a mesma que a vista pelo público do Jorge Horácio By Night, evidencia a tentativa de inserir o espectador no processo narrativo, para que assim as chances de envolvimento e reflexão do mesmo sejam aumentadas diante das discussões levantadas pelo programa.

Por Luma Perobeli

Amor Verissimo

fbb86732b390cbfbc2231d2bd149f077Amor Verissimo é uma série de televisão brasileira baseada nas crônicas sobre relacionamentos amorosos escritas por Luis Fernando Verissimo. Exibida pela primeira vez em 8 de janeiro de 2014 na GNT, o programa traz no elenco principal Fernanda Paes Leme, Gabriela Duarte, Leticia Colin, Marcelo Faria, Paulo Tiefenthaler e Pedro Monteiro, que interpretam diferentes personagens a cada um dos 13 episódios da primeira temporada. Sendo transmitida todas as quartas-feiras às 22h30, a adaptação da obra de Verissimo é uma produção da Conspiração Filmes com a direção de Arthur Fontes.

Os episódios selecionados para análise são os cinco iniciais da primeira temporada exibida. Neles, a trama mescla depoimentos de personagens que olham diretamente para a câmera com cenas que retratam o último depoimento contado. Em cada emissão, algum ator do elenco fixo da trama aparece encarnado em um novo personagem somente depois de uma sequência de dois ou três depoimentos de casais que permanecem com os mesmos nomes e figurinos em todas as suas aparições nos episódios (o que confunde o espectador, já que não sabemos se esses casais são reais ou parte da trama).

Atentando-se para o Plano da Expressão, são destaques os cenários, o figurino, a maquiagem e a atuação do elenco. Uma parede marrom de fundo caracteriza o cenário dos depoimentos dos personagens, que olham diretamente para a câmera e se sentam confortavelmente em um rebuscado sofá vermelho e dourado. Por abordar temas do dia-a-dia de casais, os cenários que compõem as histórias que estão sendo retratadas são únicos ou pouco numerosos, concentrando toda a trama em situações específicas.

Quanto ao figurino, maquiagem e atuação do elenco, a série se destaca por caprichar muito nesses fatores para tornar verossímil ao espectador a abordagem de diferentes idades, estilos e épocas nos mesmos seis atores jovens. No episódio exibido dia 22 de janeiro, intitulado A Vida Não é uma Comédia Romântica, por exemplo, Gabriela Duarte e Marcelo Faria interpretam Maria Alice e Rogério em diferentes épocas de suas vidas, a partir de 1991, e têm que se adequarem, portanto, ao figurino, maquiagem e comportamento das épocas.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi bom porque o humor de Amor Veríssimo é sucinto e não apela para o uso explícito do estereótipo para gerar o riso. O fato de trazer em três das cinco emissões analisadas um casal de lésbicas, por exemplo, é uma desconstrução implícita do estereótipo de que um casal do mesmo sexo não pode ou não consegue ter uma grande e séria história de amor. No quinto episódio da primeira temporada, exibido dia 5 de fevereiro e intitulado Trauma, quando aos 54 segundos a personagem diz “a mulher quando passa dos 30 ela não tá só em busca de um namorado, ela quer o pai do filho dela”, a afirmação do estereótipo de que mulheres acima dos 30 anos só pensam em conseguir um pai para seus futuros filhos, é clara, porém, sucinta. A trama não se agarra a esse tipo de ferramenta para gerar o humor, mas apenas a utiliza como gancho para amarrar a história.

Por abordar temas referentes aos relacionamentos cotidianos das pessoas, o indicador de qualidade oportunidade foi bem avaliado. Junto com esses temas atuais, observa-se o indicador ampliação do horizonte do público, que não foi muito bem avaliado por nem sempre estar presente na trama.No primeiro episódio, por exemplo, chamado História De Verão: Uma Leve Brisa, o enredo se baseia num grupo de amigos que fica intrigado com uma bela mulher que tem cabelos esvoaçantes mesmo quando não existe vento sobre ela, o que caracteriza, portanto, um tema irrelevante para a sociedade, incapaz de gerar debate ou estimular o pensamento do público.

O último indicador de qualidade do plano do conteúdo, diversidade de sujeitos representados, também não foi muito bem avaliado. O fato de trazer diferentes idades, estilos e orientações sexuais não torna imperceptível ao espectador o fato de não conter nem um personagem negro na trama. Além disso, em todas as cinco emissões analisadas percebe-se a predominância de histórias de amor pertencentes à classe média brasileira (pelo requinte dos cenários e figurinos), o que também diminui a diversidade dos sujeitos representados pelo humorístico. Abaixo, o gráfico do plano do conteúdo:

Untitled 5

Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todos os episódios da amostra selecionada. Um dos aspectos que caracteriza a estrutura bem organizada e padronizada de todas as emissões e que se relaciona diretamente com a temática a ser abordada é o trecho da música que acompanha a vinheta de abertura da série, A Minha Menina, da banda Mutantes, que diz: “Ela é minha menina, e eu sou o menino dela. Ela é o meu amor, e eu sou o amor todinho dela”.

No indicador diálogo com/entre outras plataformas, a série não se destacou muito. Consideramos razoável a utilização desse quesito por poucas vezes fazer alusão a outros conteúdos que não fossem da trama. Quando isso ocorria, geralmente era mencionando nome de artistas reais, como ocorreu também no episódio do dia 22 com os nomes de Xuxa, Ayrton Senna e Pelé, que nessa ocasião foram falados por causa da manchete de uma revista, posteriormente identificada como a Caras.

Ao contrário do anterior, o indicador solicitação da participação ativa do púbico foi bem avaliado. Pelo caráter documental que os depoimentos conferem à série, o público se identifica com as histórias ao ver pessoas confortáveis em um sofá falando sobre suas vidas, interagindo com a suposta equipe de produção do programa e respondendo às perguntas feitas por eles. Apesar da linguagem informal, o pouco uso de palavras de baixo calão dá certo requinte às histórias, que não deixam de representar o espectador que está assistindo pelo simples fato de abordar temas de relacionamento passíveis a qualquer pessoa.

Através do último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, a originalidade/criatividade, também observamos o zelo e o cuidado dos produtores para adaptar da melhor forma para a TV as crônicas escritas por Veríssimo. No quarto episódio, por exemplo, clamado Dinossauro Digital, um diálogo entre o casal Bianca e Thaís, aos 10 minutos e 31 segundos, se inicia de forma criativa e descontraída ao envolver a suposta produção do humorístico e fomentar ainda mais o seu caráter documental.

BIANCA: Tá frio né, aqui. Tá um pouco frio. O que foi, você não tá achando?
THAÍS: Eu falei pra eles que se eles ficassem sem perguntar um pouco você ia travar e ia entrar no seu pancadão do silêncio e ia começar a se tremer toda.
BIANCA: Você combinou isso com eles?
THAÍS: Combinei.
BIANCA: A gente, por quê? Eu não sou cobaia pra você fazer experiência comigo, gente.
(Amor Verissimo – episódio Dinossauro Digital 29/01/2014)

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual, com suas respectivas avaliações:

Untitled 6

Como aqui procuramos demonstrar, os modos de representação dos personagens e a experimentação dos recursos técnico-expressivos adotados configuram Amor Verissimo num programa que até apresenta algumas características de qualidade, mas não pode ser assim denominado (de qualidade) por não estar preocupado em se apresentar majoritariamente dessa forma. Os temas abordados nem sempre têm relevância social ou acrescentam novas perspectivas ao espectador, e muitas vezes as discussões são rasas e superficiais, fato que dificulta a ampliação do horizonte do público e incrementa tal percepção sobre a qualidade.

Por Luma Perobeli

Chico Rezende

533530449_1280x720O canal Chico Rezende, criado em 17 de Abril de 2006, é classificado como comédia em suas descrições. Quem protagoniza os vídeos é o próprio Chico, que faz as postagens normalmente toda Segunda e Sexta-Feira às 11h. O canal conta com dois tipos de vídeos: os esquetes e os chamados “Chico Responde”, sendo que na maioria das vezes o segundo tem maior duração.

Observando a partir dos elementos estéticos do Plano da Expressão, percebeu-se uma variedade de recursos que constroem o canal. Os vídeos não começam com uma vinheta, mas geralmente, no início são mostradas as redes sociais de Chico na parte inferior da tela. Durante a emissão, em alguns momentos “fora do roteiro”, é usada a tela em preto e branco, o que traz uma sensação de estarmos vendo os bastidores. No encerramento aparece uma tela preta com o nome do canal em grandes letras brancas. Depois, como forma de propaganda social, aparece um vídeo de poucos segundos que mostra um cachorro de rua olhando para a câmera e a inscrição “Adote um vira lata” cobrindo a imagem.

Falando sobre os aspectos sonoros, os vídeos de perguntas contam com a voz em off de Gabriel, um amigo de Chico, que algumas vezes lê as perguntas da internet e faz comentários.

Como é comum em vários canais, este também contém links fixados para vídeos antigos ou para os canais de convidados. O diferencial encontrado é o momento “Chico recomenda”, que é quando o apresentador dá uma dica de livro, vídeo ou filme e deixa um link que redireciona o espectador para o seu outro canal.

Falando sobre o Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público obteve uma variedade de classificações, sendo que alguns vídeos, ele não esteve presente. A emissão “Você acredita em ETs!?”, de 11 de setembro de 2015, foi avaliada como muito boa nesse quesito. A discussão é sobre a existência de vida em outros planetas e Chico Rezende argumenta a favor dessa hipótese; ele diz que o ser humano pensa baseado na sua ignorância e não considera a possibilidade de haver vida fora da Terra se não for nas mesmas condições que existem aqui – um contra argumento para quem fala que a inexistência de água gera inexistência de seres em outros planetas. Para reforçar sua opinião ele dá dica de um livro, mostra uma tirinha e dá exemplos relacionados ao assunto, que trazem um potencial para reflexão. Os recursos utilizados ajudam o espectador a pensar e talvez até formar uma opinião.

Além disso, a mesma emissão ao fazer uma citação sobre o filme Matrix mostra a cena simultaneamente na parte inferior da tela, apresentando ao público que não conhece, do que se trata. Isso contribui para a ampliação, mesmo que pequena, do repertório do espectador.

A maioria das avaliações do indicador diversidade de sujeitos representados foi fraca ou não constou. Isso aconteceu porque quem protagonizava o vídeo era o próprio Chico Rezende. As avaliações que não foram nulas se deram por alguma participação de espectadores, que mesmo não dando uma opinião direta, contribuíam para a construção do vídeo. Os dois episódios que obtiveram avaliação razoável foram os de 2 e 25 de Setembro de 2015, que contaram com a participação de Sangerine; ela opinava e ajudava a responder as questões trazidas pelos internautas.

A desconstrução de estereótipos não constou em sete das dez emissões analisadas. Os episódios com classificação razoável foram “Opinião sobre tudo” e “Apocalipse zumbi com a Sangerine”. O primeiro recebeu essa análise pois é um esquete em que Chico faz um questionamento sobre o hábito criado nas redes sociais em que todo as pessoas precisam ter uma opinião formada sobre os assuntos do momento. No vídeo ele assume que não sabe sobre certos temas e trata isso com normalidade. Já o segundo apresentou uma quebra do senso comum que diz que mulheres precisam se encantar com bebês. Chico mostra duas vezes à Sangerine um vídeo das crianças rindo – ele gosta muito – mas ela permanece indiferente, diz que não se importa com esse tipo de coisa.

Porém, um dos vídeos em que não constou essa desconstrução foi no dia 4 de setembro de 2015. Nele algum internauta faz uma pergunta sobre o último livro lido por Chico. Ele diz que é um livro de crônicas sobre a pornografia escrito por uma atriz desse tipo de filme.  Enquanto ele fala sobre o livro, permanece na tela uma foto sensual da mulher de lingerie, tornando seu corpo ainda mais sexualizado. A voz em off comenta que ela é uma “excelente profissional” em tom irônico e Chico concorda. A situação foi considerada um reforço velado da imagem comumente associada à atriz de filmes adultos.

O indicador oportunidade foi muito bem avaliado somente em duas emissões, sendo que nas outras se dividiu entre razoável e fraco. No vídeo “Masterchef na vida real” a oportunidade do tema foi muito boa, uma vez que se aproximava a final deste reality show de culinária que estava sendo muito falado na época, principalmente nas redes sociais. O vídeo trouxe a presença de uma finalista, o que poderia atrair ainda mais os espectadores.

Outro vídeo que ganhou avaliação muito boa foi “Opinião sobre tudo”. A temática abordada é bem atual e faz parte do cotidiano de quem está conectado às redes sociais. Chico começa falando que na semana anterior ao vídeo aconteceram duas coisas marcantes: a alta do dólar, um recorde histórico – ficou acima de R$ 4,00 – e o Rock in Rio. Ele diz que não entende de economia nem de música, mas sente que as pessoas já deviam estar falando mal dele porque todo mundo postava sobre isso menos ele, que inclusive foi ao festival citado. Chico expõe criticamente a urgência atual de que todo mundo tem que ter uma opinião sobre todos os assuntos, mas que às vezes ele mesmo não tem opinião sobre certas coisas. É citada uma situação engraçada em que um amigo dele postou um texto sobre o aumento do preço do dólar mas não sabia falar do mesmo tema na “vida real”. Isso indica uma crítica sobre o que ele chama de “intelectuais e comentaristas” de Facebook, ou seja, não é todo mundo que opina que realmente sabe o que está falando. Nas emissões em que a oportunidade foi considerada fraca, o motivo foi que mesmo sem a abordagem de assuntos que são pauta, estes faziam parte do cotidiano da maioria das pessoas.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

cr1

A seguir a análise da Mensagem Audiovisual, que obteve altas classificações. A clareza da proposta foi um dos indicadores mais bem avaliados, todas as emissões foram consideradas muito boas. Isso aconteceu porque no próprio nome do vídeo era designado o que aconteceria, sendo que havia uma diferenciação entre os vídeos temáticos e os de perguntas e respostas. No decorrer da emissão o assunto principal era abordado e os formatos utilizados – esquetes mescladas com opinião e seleção de questões do público – contribuíram para que o desenvolvimento fosse satisfatório.

Outro indicador notório foi o diálogo com/entre outras plataformas, que obteve todas as avaliações muito boas. Isso aconteceu principalmente porque todos os vídeos exibiam os contatos de Chico em diversas redes sociais. Além disso, dentre as emissões foi vista uma propaganda do canal de filmes Megapix (30 de Setembro), citações ao festival Rock in Rio (18 e 28 de Setembro), indicação de série da Netflix e conversas sobre o mundo da Disney (25 de Setembro), dentre outros exemplos.

A solicitação da participação ativa do público foi muito bem avaliada, principalmente porque a plataforma é favorável nesse sentido. Sempre é pedida a opinião e interação do público por meio de comentários no próprio vídeo no YouTube. Em “Coisas que odeio no vídeo game”, por exemplo, Chico conta sobre seu amigo que sempre ganha os jogos e fica “contando vantagem” por isso. Uma situação cotidiana, que pode gerar identificação com quem também joga. Ao final ele pede que enviem dicas com comentários na publicação. Além disso, por meio dos contatos das redes sociais divulgados, os espectadores têm a oportunidade de enviar perguntas e sugestões para próximos vídeos. Com isso, mesmo que os assuntos escolhidos não sejam pautas midiáticas e sociais, não se pode negar que fazem parte de conversas do cotidiano.

O indicador originalidade/criatividade foi o único que apresentou variações dentro da mensagem audiovisual. Os vídeos no esquema de perguntas e respostas, por serem extremamente comuns no YouTube, foram avaliados como fracos, pois não era um formato novo. Entretanto, as emissões temáticas que faziam um misto de esquete e opinião, foram tidas como boas pela inovação na forma de apresentar o que era desejado. Em “Crianças + Tecnologia”, por exemplo, Chico faz um vídeo que une a sua fala sobre o assunto no cenário habitual, com imagens para ilustrar o tema – cenas em que ele interage com uma tia e uma prima criança que tem uma boa relação com o computador.

Abaixo, temos os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

cr2

Falando sobre os modos de representação percebe-se que a atuação de Chico Rezende nos vídeos se dá, na maioria do tempo, de forma natural, ou seja, ele mostra sua própria personalidade.  Não houve uma expressiva desconstrução de estereótipos, mas os episódios possuíam uma visão crítica de temas que fazem parte do cotidiano das pessoas.

Em relação à experimentação pode-se dizer que esta foi pouco percebida. Em geral, as propostas do canal eram reciclagem de formatos já consolidados, como o esquema de perguntas e respostas. Porém, nos vídeos temáticos é utilizada a estratégia de unir o esquete com a opinião do apresentador, o que tornou a linguagem audiovisual mais criativa. Mesmo não sendo novidade o estilo de vídeo “Chico Responde”, o recurso nele utilizado contribui para a participação do público na construção da narrativa. Essa interação poderia ser melhor aproveitada no sentido de promover a diversidade e o debate de ideias, porém existe uma seleção das perguntas de acordo com os critérios de Chico; isto, junto com seu protagonismo no programa, tornam o recurso pouco eficaz.

 Por Letícia Silva

 

As Canalhas

As-Canalhas (1)

As Canalhas é uma série de televisão brasileira exibida pela GNT desde 6 de maio de 2013. Inspirada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, conta com a direção geral de Vicente Amorim e a produção da Migdal Filmes. As emissões, que terminaram em junho de 2015, trouxeram, em cada temporada, 13 mulheres, uma para cada episódio, contando suas “maldades” contra suas vítimas em um salão de beleza. Exibido todas as terças-feiras às 22h30, o programa durava de 20 a 25 minutos e contava com poucas personagens fixas, sendo Marilyn (Zezeh Barbosa), a dona do salão em que cada história se inicia, uma das poucas.

Na série, cada episódio mostra uma mulher relatando friamente a algum profissional do salão de beleza suas maldades contra maridos, filhos, patrões ou namorados, enquanto se cuida. Além da sua intrínseca relação com as redes sociais, a temática da série já se anuncia também logo no início, ainda na vinheta de abertura e na música que a compõe. Nesse começo, são mostradas fotos frontais e da lateral direita do corpo de todas as protagonistas da série, em preto e branco, e em plano médio, segurando uma placa com seus nomes, cidades e alguns números, o que nos remete às fotos de identificação tiradas nas cadeias. A música de abertura que acompanha as imagens, uma produção musical do estúdio Maravilha 8, também nos ajuda a entender que o objetivo do programa é subverter o comum e mostrar o outro lado das mulheres,um lado pouco mostrado: “Eu te quero sim. Ao mesmo tempo eu me pergunto: o que vai ser de mim agora? Nessa hora, a encruzilhada, quando aparece na tua frente aquela fera tão querida, na valha no olho do furacão. Pedrada amorosa no coração. Canalhinha, canalhosa, canalhuda, canalhante, canalhianque, fêmea, canalha”.

Além da vinheta de abertura, outros elementos também são destaques, como a narração em off, que ocorre a todo momento, quando a personagem principal narra um fato e na tela aparece a situação relatada; a caracterização da protagonista no começo de cada episódio, como no exibido no dia 3 de junho, com a descrição “INGRID 29 ANOS, LOIRA EM ASCENSÃO”, ou no do dia 8 de junho, com a descrição “ISABELA 15 ANOS, ESTUDANTE”; e a pronúncia de ao menos uma vez no episódio da palavra canalha. No exibido do dia 10 de junho, por exemplo, na caracterização da história, aos 18 minutos e 40 segundos, a personagem Meg indaga ao personagem Jandir: “Quem é? Quem é a canalha? Pelo menos me diz: quem é a canalha?”. 35 segundos depois, aos 19 minutos e 15 segundos, o personagem Geraldo pronuncia quase a mesma coisa à esposa: “Quem é o canalha? Pelo menos me diz: quem é o canalha?” Como vemos, além de canalha ter sido falada mais de uma vez na emissão, foi proferida duas vezes por cada personagem em cenas seguidas uma da outra, como se a trama e o roteiro pretendessem, de certa forma, justificar o nome da série.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi pouco observado em todos os episódios. Apesar de apostar na subversão dos gêneros (pois “cafajestagens” como as retratadas são características, estigmatizadas e comumente vistas em personagens masculinos) e de a atuação das protagonistas ser ideal e passar total credibilidade para quem assiste (desconstruindo a ideia de que somente os homens são canalhas), o programa também faz uso de estereótipos de afirmação. O episódio exibido no dia 3 de junho de 2013 é um exemplo desse uso, pois aborda mulheres que ascendem socialmente de forma aparentemente inexplicável.

No decorrer do episódio, são mostradas quatro cenas em que a personagem principal Ingrid mantém relações sexuais com três homens e uma mulher. Ao final das cenas com os homens, depois do ato sexual, cada um deles falou que Ingrid tinha muito talento, o que fez sentido no final do episódio, aos 21 minutos e 43 segundos, quando na sua última fala a personagem principal disse: “Tudo que eu quis na minha vida, eu consegui com o meu trabalho, fruto do meu talento”. Nesse episódio, por exemplo, o programa estereotipou mulheres de sucesso ao deixar subentendido que elas só conseguiram alavancar a sua carreira tendo relações amorosas e sexuais com pessoas influentes do mundo artístico, como produtores de elenco, diretores, atores e empresários, do mesmo sexo ou não, ajudando a confirmar essa concepção do senso comum.

O indicador de qualidade oportunidade foi razoável nas emissões, pois estas não se pautam na agenda midiática para a escolha dos seus temas, mas nas abordagens recorrentes da vida social, que abarcam problemáticas e situações passíveis do dia-a-dia de qualquer pessoa. Outro indicador do plano do conteúdo, o diversidade de sujeitos representados apresentou valores significativos. O episódio em que esse indicador mais foi observado foi o do dia 27 de junho, em que trouxe na trama pessoas de diferentes cores, classes e orientações sexuais, representados pela protagonista da história, a acompanhante de idosos de pele branca, o namorado, o porteiro de pele negra, o filho gay, o idoso homofóbico e preconceituoso, e a senhora empregada doméstica.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, a ampliação do horizonte do público, duas emissões analisadas mostraram-se razoáveis e três boas. No episódio do dia 13 de maio, por exemplo, a personagem principal Carol faz uma declaração pertinente e relevante para os dias atuais que pode contribuir para que os telespectadores reflitam sobre o assunto. Aos 8 minutos e 52 segundos, durante o seu relato, ela diz: “Além do mais, eu pensei: ‘poxa, se ele quer tanto ter um filho, ele com certeza vai assumir várias responsabilidades em relação a essa criança, vai ajudar a cuidar, botar pra dormir, lavar fralda, trocar fralda, enfim, essas coisas, né, que pai ajuda a fazer’”. Ao afirmar que os pais ajudam na realização dessas tarefas, é possível que reflexões tenham sido despertadas em alguns pais ausentes que assistiam ao programa no momento.

Outro exemplo em que a abordagem de temas polêmicos e contraditórios foi utilizada está na emissão do dia 27 de maio. Antes do diálogo que se inicia, Gisleine e Agenor estão andando na rua, quando um menino passa vendendo bala:

GISLEINE: O que quê foi, seu Agenor?
AGENOR: Ahh, na minha época não tinha isso aqui não…
GISLEINE: Isso aqui o quê?
AGENOR: Criolo vendo balinha na rua. Não sabe o que foi o regime militar. Era aquela disciplina, ordem na rua.
GISLEINE: Racismo é crime, viu, seu Agenor. E é pecado também.

Após esse diálogo, que faz parte da história narrada pela protagonista, a cena é cortada para o salão de beleza, e Gisleine continua o seu relato: “Ainda bem que eu não peguei essa ditadura aí, viu. Já imaginou: um bando de velho feito o seu Agenor, comandando tudo aqui no Brasil? Deus me livre e guarde”.Essa sequência de falas, portanto, aborda temas relevantes para a sociedade e possuem elementos essenciais para contribuir com a ampliação do horizonte do público, enriquecendo a visão de mundo do telespectador interagente, apresentando outros pontos de vista e estimulando o pensamento e o debate de ideias. Abaixo podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

Untitled 7

Analisando a série à luz dos aspectos que compõe a Mensagem Audiovisual, identificamos que o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas. Isso se deve, principalmente, a dois fatores: à maneira com que a série é referida nas redes sociais, e à vinheta de abertura, pertencente ao plano da expressão. Como já adianta o próprio site do programa, “a série mostra que os homens podem ser mais canalhas em quantidade, mas que as mulheres sabem ser com muito mais qualidade”, ou seja, o programa objetiva mostrar o grau de canalhice que algumas mulheres têm, que muitas vezes ultrapassa o nível pré-estabelecido para o homem, normalmente subjugado como o gênero mais cafajeste.

Quanto ao indicador originalidade/criatividade, o programa também foi muito bem pontuado em todas as cinco emissões analisadas. Apesar de parecer mais uma série televisiva que traz protagonistas e vilões, conflitos e reviravoltas, o programa inova ao colocar mulheres interpretando papéis que geralmente são destinados aos homens.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi notado de forma considerável nas emissões, pois estas se desenvolvem sempre no mesmo formato:mesclando o depoimento da personagem principal com a história que está sendo contada. Na confissão, as protagonistas interagem, falam e olham para a câmera, com entonação e perguntas, como se estivessem conversando pessoalmente com quem está do outro lado da lente, numa tentativa de gerar intimidade e identificação com o público, o aproximar da trama e prender a sua atenção. Um exemplo disso pode ser identificado no episódio Carolina, da 1ª temporada, em que no primeiro minuto e 39 segundos a protagonista Carol se deita na cama de massagem e sua filha, que não está aparecendo em cena, começa a chorar. Após ouvir o choro, Carol lamenta: “Ai, gente, acabou meu sossego. Por favor, Marilyn, você pode ir lá calar a boca dessa criança?”. Neste momento, a massagista sai de cena e a personagem retorna a falar, olhando pra câmera e sem ninguém a sua volta, como se estivesse se comunicando com o público.

Último indicador da mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas não foi muito identificado no programa. Sua baixa avaliação somente se deve ao fato de a história se adaptar à convergência midiática, pois foi inicialmente contada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, e depois transformada em um produto audiovisual, portanto, uma outra plataforma. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador teve na mensagem audiovisual:

Untitled 8

À luz dos modos de representação adotados pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual, As Canalhas se destacou na atuação verossímil dos personagens e nas construções das cenas. A subversão de gênero, bem como a abordagem de temas comuns da vida social, causam não só uma identificação com o púbico, que quer ver nas telinhas o que acontece na vida real, mas também a curiosidade de ver como essa nova trama se desenvolverá, se será criativa e credível ao ponto de se assemelhar à realidade e fazê-lo acreditar no que vê.Nos modos de experimentação, ouso dos recursos técnico-expressivos de apostar numa interação com o públicoatravés da linguagem e da função da câmera, que serve como um canal entre o personagem e o espectador, também foi de certa forma inovador, pois prende a atenção do público e assim contribui para uma possível reflexão e debate sobre o que está sendo falado.

Por Luma Perobeli

A Qualidade Na Ficção Seriada Brasileira: Uma Análise Da Minissérie Presença De Anita

intercom

Leony Lima
Mariana Meyer
Gabriela Borges

Resumo

Este artigo aborda a questão da qualidade na ficção seriada brasileira, utilizando conceitos desenvolvidos pelo projeto “Observatório da Qualidade no Audiovisual”, da UFJF. Apoiada na metodologia semiótica dos planos da expressão e conteúdo foi realizada a análise da minissérie Presença de Anita, exibida pela Rede Globo em 2001. Sendo assim, pretende-se avaliar se o uso de recursos técnicos e de linguagem foram capazes de aprofundar a experiência e engajamento dos telespectadores na atração.

Palavras-chave: Presença de Anita, ficção; qualidade; minissérie.

Leia o artigo na íntegra: https://goo.gl/ShStzD

Zona do Agrião

zona_do_agriao

Zona do Agrião foi um programa que buscava parodiar as mesas redondas esportivas, testado pelo canal Multishow, na Copa do Mundo de 2010, com apresentação de Bruno Mazzeo. Inicialmente o formato era de pílulas de 3 minutos que apareciam durante a programação e contava com a participação dos personagens Yatta Fonseca, Manzana Zil e Caio Lúcio. Em Julho de 2012 o canal estreou um novo formato, desta vez com a apresentação do humorista Marco Bianchi. Diferente da primeira temporada, os episódios teriam sempre a participação de um convidado. Os personagens foram conservados; Gillray Coutinho permaneceu representando o comentarista Yatta Fonseca e Rodrigo Candelot, o repórter Caio Lúcio. Mariana Gouveia entrou como a assistente de palco Manzana Zil e o ex-jogador de futebol Odvan, no papel de correspondente internacional do programa. A segunda temporada, trabalho da jovem produtora audiovisual 2 Moleques, contou com 13 episódios, que iam ao ar toda terça-feira às 23h. Eram trazidos debates e comentários inusitados sobre diversas modalidades esportivas.

Uma curiosidade é que a Rede Globo já havia exibido um programa esportivo chamado Na Zona do Agrião, que começou em 1966 e durou um ano. Foi o primeiro programa na emissora com comentários sobre futebol, apresentado por João Saldanha – criador dessa gíria futebolística. O programa ia ao ar de segunda a sábado, às 19h35. “Na zona do agrião” é uma expressão do futebol, que se refere à grande área onde todas as jogadas são de grande importância, tanto para quem ataca, como para quem se defende. O significado do termo está relacionado ao cultivo do agrião, uma vez que a hortaliça deve ser plantada num terreno que retém uma grande quantidade de água e no qual as pessoas precisam se mover com cuidado.

No Plano da Expressão alguns detalhes se destacam no programa. Nota-se principalmente a linguagem e o estilo de fala do apresentador, que se parece muito com o jeito comum entre narradores e comentaristas esportivos. Manzana Zil também tem uma maneira própria de falar, gesticulando muito e com um tom chamativo. Marco Bianchi repete a expressão “nesta jornada querida” no início dos episódios, o que estimula uma memória no espectador. A apresentação inicial dos personagens do estúdio também é feita sempre, com Manzana sendo caracterizada como “internauta e banhista” e Yatta como o “ex vice campeão carioca de pebolim”. Quando o apresentador anuncia o convidado, geralmente fala seu nome inteiro, depois revela o nome artístico. Na chegada ele o cumprimenta e faz perguntas, numa demonstração de intimidade.

A abertura é bem rápida e tem desenhos animados que mencionam vários esportes num cenário de campo de futebol à noite; a vinheta remete ao ruído de torcida. Outro destaque é o cenário que imita o padrão observado em programas esportivos e abusa dos tons de verde, roxo e laranja; o piso lembra o gramado de um campo.

Nos momentos finais do programa, há a transmissão do correspondente Odvan. O repórter sempre está sem retorno de som, e são feitas perguntas a ele – que tem fones na orelha – mas ele fica só olhando para frente ou para o ambiente em que está, uma vez que não ouve o apresentador. Existe uma inscrição na tela dividida com a marca “satélite zoneado” e Odvan nunca fala nada. Esse quadro pode ser interpretado como uma paródia dos telejornais , quando comumente ocorre um delay, ou seja, um atraso de som nas transmissões via satélite.

Todos os episódios apresentam alguns momentos fixos, como o sorteio de algum prêmio aos telespectadores, o “Baú do Yatta”, o correspondente Odvan e o “pingue-pongue” com o entrevistado, o que cria um costume em quem assiste.

Na análise do Plano do Conteúdo, quanto à ampliação do horizonte do público, todas as notas foram fracas. Isso se deve à carência de assuntos que levassem o espectador à reflexão. O programa investia em piadas costumeiras, como no episódio do dia 24 de julho, em que Bianchi brinca com o tamanho de Yatta dizendo: “A primeira vista pode parecer baixinho, mas pessoalmente ele é ainda mais tampinha”, e Yatta responde: “Tampinha não, compacto”.  Ou no episódio do dia 24 de julho quando Yatta diz ao convidado Biro Biro que ainda não almoçou, coloca um guardanapo na blusa e pega um prato de macarrão instantâneo. Bianchi comenta sobre a semelhança da comida com o cabelo do convidado.

Também é visto uma falta de aproveitamento dos temas, que sempre são tratados de maneira superficial. No episódio de 14 de agosto, por exemplo, no quadro “Baú do Yatta”, o personagem diz que sente saudade dos anos 70, quando as mulheres saíam para “queimar os sutiãs”. De acordo com ele, o fato além de ter gerado a emancipação das mulheres, permitiu que os homens tivessem acesso ao “farol aceso”. Essa referência, correspondente às manifestações feministas da época, poderia ter servido para levar o espectador a uma reflexão, porém foi colocada de maneira extremamente machista e rasa.

No quesito diversidade de sujeitos representados, as notas variaram entre fraco e razoável. O critério utilizado foi o convidado do dia, uma vez que dentre os personagens fixos não é observada uma multiplicidade de sujeitos, sendo que quatro são homens e só há uma mulher, que quase não participa ativamente. Portanto, quando a convidada do dia era uma mulher foi dada a nota razoável; quando o convidado era homem, a nota foi fraca.

Neste plano, indicador que mais chama a atenção no programa é a desconstrução de estereótipos: todas as emissões obtiveram nota mínima, ou seja, esse indicador não constou. Uma das justificativas é a presença da mulher atraente no palco; Manzana Zil tem a única função de ler uma mensagem no início do programa – que sempre tem uma tendência cômica – e comunicar o sorteio do dia; depois não tem mais participação, o que faz supor que ela está ali somente para atrair o olhar do espectador. Às vezes a câmera passa rapidamente por ela, que aparece mexendo no celular.

Outro motivo observado foi o modo como estereótipos femininos são reforçados, como no quadro “Baú do Yatta” em que ele se refere à sua esposa como “Dona Encrenca”. Outro exemplo pode ser visto no episódio do dia 24 de julho, quando é exibido um VT com os “carrinhos” de Biro Biro e o ex jogador é mostrado em vários automóveis; são feitos comentários como “porta loira clássico” e “motor para sete cavalas”, sugerindo o interesse das mulheres em carros.

O indicador oportunidade foi avaliado como fraco em todas as emissões, uma vez que o apresentador muitas vezes trazia temas irrelevantes na vivência do entrevistado. No episódio do dia 14 de agosto, por exemplo, em mais uma das perguntas que pretendiam fugir ao lugar comum dos debates esportivos, a esportista Jaqueline Silva responde: “Sei lá, o que isso tem a ver com voleibol?”, deixando o apresentador sem graça. Nessa hora aparece o efeito de uma bola quebrando vidro na cara de Bianchi. As perguntas e temas também não eram necessariamente atuais.

Veja a seguir as avaliações segundo os indicadores do Plano do Conteúdo:

zona1

Na análise da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve avaliação muito boa em todas as emissões, uma vez que pelo formato do programa ser fixo, leva a uma melhor assimilação pelo espectador. O programa é realmente muito parecido com os exemplares de jornalismo esportivos, sendo que no inicio é feito um resumo com os destaques do programa; há matérias externas com um repórter de rua e há entrevista no estúdio. Além disso, toda a trilha musical e o cenário são comuns aos programas desse ramo.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como bom, uma vez que por ser uma paródia de outros programas, é vista uma relação. Outra menção observada foi a citação “Pois bem, amigos do Multishow”, com a qual Bianchi iniciava as transmissões, e que lembra a famosa frase do narrador Galvão Bueno “Bem amigos da Rede Globo”, dita em inícios de jogos, o que foi interpretado como um diálogo com outro produto audiovisual.

O indicador solicitação da participação ativa do público, assim como o anterior obteve notas fracas. O motivo foi que a solicitação só existia de forma fictícia a cada começo de programa, quando Manzana Zil convidava os espectadores a mandarem e-mails para participação nas promoções.

No quesito originalidade/criatividade as emissões foram classificadas como razoáveis, uma vez que é um formato de programa já bastante conhecido, porém com a proposta cômica e que investe no riso fácil. Um exemplo é a atuação de Gillray Coutinho, que no início do episódio do dia 07 de julho de 2012, aparece fazendo abdominais deitado no chão e com os pés na cadeira enquanto fala. O personagem também é visto fazendo graça com caretas e caindo em cena em algumas emissões.

Outro exemplo é no momento depois que o convidado chega. O apresentador mostra seu “fã clube”, que é montado com a pequena equipe de produção e filmagem e sempre serve como um tipo de provocação ao entrevistado. Como no episódio do dia 4 de setembro de 2012 em que o fã clube de Sandra de Sá tem homens que usam roupas e tem bandeiras vascaínas, isso porque a cantora torce pelo Flamengo. Confira o gráfico:

zona2Observando os modos de representação, a criação e atuação dos personagens se dava de forma caricata, de modo a reafirmar alguns estereótipos, como o da mulher bonita e fútil. O programa não demonstrou nenhuma preocupação com críticas sociais ou representação de diversidade, sendo que os temas tratados não contribuíam para a mínima reflexão do espectador.

O uso dos recursos da linguagem audiovisual eram reciclagem de programas já existentes e com formato consolidado. A proposta era favorável para promover o debate de ideias e de pontos de vista, porém isso não acontecia. O público também não possuía nenhum tipo de participação. Além disso, o programa não apresentou nenhuma característica marcante que o fizesse ser lembrado, como bordões ou marcas específicas.

Por Letícia Silva