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Felipe Neto

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O sucesso do youtuber Felipe Neto veio com a série de vídeos Não Faz Sentido, na qual criticava personalidades e comportamentos através de uma linguagem agressiva e provocante.

A linguagem, aliás, foi, na análise, um ponto de destaque do canal em relação ao Plano da Expressão. Em todos os vídeos, Felipe Neto utiliza uma linguagem informal, carregada de expressões populares, principalmente palavrões. Essa escolha permite uma aproximação por parte do público do conteúdo disseminado nos vídeos. Assuntos polêmicos e muitas vezes considerados complexos, como a situação política do país, tratada no vídeo “Não Faz Sentido – Dilma e o PT”, podem ser melhor trabalhados através de uma linguagem próxima do público, como ocorre nesse vídeo.

Outro destaque do Plano da Expressão foi o cenário utilizado nos vídeos do Não Faz Sentido. Assim como o cenário dos primeiros vídeos desse quadro, lançados há cerca de seis anos, o cenário atual mantém as famosas placas e molduras dispostas em uma parede branca. São utilizadas placas de trânsito, por exemplo, como Pare ou Proibido. Além disso, Felipe Neto, ao fazer o Não Faz Sentido, sempre usa óculos escuros, o que diferencia o personagem do quadro, sempre agressivo e incisivo, do Felipe Neto que aparece nos outros vídeos. Mesmo em vídeos que não pertencem a essa série, Felipe Neto também utiliza os óculos escuros quando vai falar agressivamente sobre algo, em referência ao personagem do Não Faz Sentido.

Já em relação ao Plano do Conteúdo, o canal obteve destaque no indicador oportunidade, no qual recebeu avaliação muito boa em quatro emissões e avaliação boa em outras duas. Assuntos cotidianos, presentes tanto na agenda da mídia quanto do público, são frequentemente abordados nos vídeos do canal. Tem-se como exemplo o vídeo “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha”, cujo tema é o Video Music Awards, grande premiação da música americana feita pelo canal televisivo MTV. À época do vídeo, a premiação havia ocorrido recentemente, sendo ainda pauta no cotidiano da mídia e do público.

Outro vídeo que recebeu avaliação muito boa nesse indicador foi o “Não Faz Sentido – Dilma e o PT”, que trata da situação política do país. O vídeo “Soco na Cara e Haters”, que traz Lucas Salles como convidado, foi igualmente avaliado, uma vez que tem como tema o soco que o ator levou durante uma entrevista, à época recente, que fazia para o programa CQC, do canal Bandeirantes. Na entrevista, Lucas Salles questionava um homem sobre a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”.

Tais vídeos também receberam avaliação muito boa no indicador ampliação do horizonte do público, pois tratam de temas relevantes socialmente e que estimulam o pensamento do público e o debate de ideias. Entretanto, o canal não obteve destaque nesse indicador, sendo que a maioria dos vídeos analisados recebeu avaliação fraca nesse quesito.

O indicador diversidade de sujeitos representados também não obteve destaque nas emissões analisadas, uma vez que, em tal indicador, a maioria dos vídeos recebeu avaliação fraca. Apenas os vídeos “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha” e “Desafio da MC Melody – Felipe Neto Responde” receberam avaliação razoável por citarem ou falarem sobre diferentes personalidades da mídia.

O indicador desconstrução de estereótipos foi, por sua vez, percebido em apenas cinco emissões, sendo três fracas, uma razoável e uma boa. O vídeo “VMA 2015 – Teta da Miley, Cabelo do Justin e Maconha” recebeu avaliação fraca no indicador, pois Felipe Neto desconstrói o que ele chama de “gourmetização” da maconha – pessoas que sentem orgulho de usar a substância – e também do Rivotril. Entretanto, durante o vídeo há diversas afirmações de estereótipos, o que justifica o desempenho fraco no indicador. Outro vídeo que obteve tal desempenho foi o “SDV Troco Like – Felipe Neto Responde”, no qual Felipe Neto desconstrói a ideia de que homens não choram ao responder que ele chorava com livros e filmes.

Já no vídeo “Crush no Youtube – Felipe Neto Responde”, que recebeu avaliação razoável no indicador, uma fã pergunta: “Quero ir na sua peça, mas meu noivo descobriu que sou apaixonada por você e não quer deixar eu ir. O que eu faço?”. Felipe Neto responde: “Seu noivo diz o que você deve ou não deve fazer? Você faz o que você quiser da sua vida e foda-se o seu noivo.” Desse modo, desconstrói-se a ideia da submissão feminina, por exemplo.

O único vídeo que recebeu avaliação boa no indicador desconstrução de estereótipos foi o “Soco na Cara e Haters”, que trata da questão da criminalidade e da afirmação de que “bandido bom é bandido morto”. Durante o vídeo desconstrói-se tal afirmação, ao passo que assuntos como violência e justiça são discutidos.

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Já na esfera da Mensagem Audiovisual, os indicadores diálogo com/entre plataformas, clareza da proposta e solicitação da participação ativa do público obtiveram avaliação muito boa em todas as emissões analisadas do canal.

Em todos os vídeos Felipe Neto disponibiliza suas redes sociais, como Instagram ou Snapchat. Links para outros vídeos do canal também são disponibilizados para o público. Além disso, em alguns vídeos tem-se a participação de convidados, como no vídeo “Soco na Cara e Haters”, que conta com a presença de Lucas Salles, então repórter do programa CQC. Elementos da realidade, externos à internet, também são frequentemente citados durante os vídeos, como a premiação VMA, no caso do vídeo do dia 01/09/2015, ou a MC Melody, no caso do vídeo do dia 14/09/2015, incrementando o indicador diálogo com/entre plataformas.

Já em relação ao indicador solicitação da participação ativa do público, a avaliação muito boa se deve ao fato de Felipe Neto, além de sempre se dirigir ao público olhando diretamente para a câmera, solicitar que o internauta clique em links para se inscrever no canal ou para assistir outros vídeos. Em várias emissões Felipe Neto também solicita que o público entre no site da sua peça e compre os ingressos.

As propostas e objetivos dos vídeos, por sua vez, são nítidos e não deixam dúvidas aos internautas, o que justifica a avaliação muito boa do canal no indicador clareza da proposta. Quando algum formato novo é estreado nos vídeos, Felipe Neto explica a dinâmica da proposta, como no vídeo “Minha Vida Não Faz Sentido – Primeiro Ensaio”, em que diz: “Olá, seja bem-vindo para algo diferente aqui no canal agora”. Felipe Neto explica, então, que o vídeo vai acompanhar os bastidores dos ensaios da peça Minha Vida Não Faz Sentido.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável nas emissões analisadas, pois o formato dos vídeos apresentados pelo canal não é inovador ou muito diferente de outros formatos utilizados por outros canais do YouTube.

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A partir da análise, pôde-se perceber que o canal Felipe Neto se destacou em elementos da Mensagem Audiovisual, como no diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Contudo, tais indicadores são bem trabalhados de um modo geral no YouTube, não constituindo, portanto, um diferencial do canal.

Em algumas emissões, porém, o canal apresentou conteúdo com características do humor de qualidade, se destacando no indicador oportunidade, por exemplo. Alguns vídeos também obtiveram avaliação razoável no indicador ampliação do horizonte do público, essencial por fomentar o pensamento e o debate de ideias.

Entretanto, a maioria dos vídeos traz temáticas cotidianas que não possuem grande relevância social, além de reafirmarem algum tipo de estereótipo, motivo pelo qual o indicador desconstrução de estereótipos foi percebido em poucas emissões. Sendo assim, de um modo geral, o canal Felipe Neto não obteve grande destaque em indicadores essenciais ao humor de qualidade, considerado aquele que traz discussões férteis e relevantes, capazes de estimular o público ao debate.

Por Júlia Garcia

Tapas & Beijos

Leia a análise dos indicadores de qualidade de Tapas & Beijos

Tapas & Beijos é uma série de televisão brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão entre 5 de abril de 2011 e 15 de setembro de 2015. Protagonizada pelas atrizes Fernanda Torres e Andréa Beltrão, a comédia romântica tem a direção de Maurício Farias, produção de Cláudio Paiva, e nomes como Vladimir Brichta, Fábio Assunção, Otávio Müller, Natália Lage e Daniel Boaventura no elenco. Com uma duração média de 45 minutos cada emissão, a série exibiu 169 episódios e foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Prêmio Extra de Televisão, o Troféu APCA, o Troféu Imprensa e o Arte Qualidade Brasil Televisão.

A série conta as peripécias do dia a dia de duas amigas de mais ou menos 40 anos de idade, trabalhadoras, independentes e francas, que vivem cercadas por confusões em suas vidas amorosas, mas que ainda assim tentam ser felizes e sonham com seus príncipes encantados. Ao longo das cinco temporadas em que esteve no ar, a série passou por muitas mudanças. Num primeiro momento, por exemplo, Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andréa Beltrão) são solteiras, dividem apartamento no Méier e trabalham na Djalma Noivas, uma loja de Capacabana que aluga vestidos e artigos para cerimônias de casamento; posteriormente, as amigas se interessam por Armane (casado) e Jorge (dono de uma boate de strip-tease), respectivamente, e acabam casando com eles; na quarta temporada, Fátima e Sueli percebem que seus casamentos estão desgastados e põem fim às suas relações, tentando seguir a vida a diante, mas tendo diversas recaídas com os ex; e no último ano em que foi exibido, em 2015, as protagonistas pedem demissão da “Djalma Noivas”, após 15 anos, para abrirem o seu próprio negócio: um brechó chique.

No Plano da Expressão, muitos aspectos se destacam. A vinheta de abertura, por exemplo, traz em todas as temporadas uma animação em que noivos no topo de um bolo aparecem em situações de conflito, e no final a cabeça do homem desmonta de seu corpo e cai sobre o bolo. Na vinheta final, os créditos em cor branca sobem na tela enquanto são mostradas as últimas imagens do episódio, que diminuem de tamanho e ficam de lado. Quanto aos efeitos sonoros, a série traz barulhos de carros e buzinas quando os personagens estão na rua, barulhos característicos de cada cenário e músicas de fundo que condizem com a temática da obra.

Os cenários que compõem a trama são bem diversos, como o apartamento de Sueli, o apartamento de Fátima, a boate La Conga, a loja Djalma Noivas, a loja de importados do Armane, e o restaurante do seu Chalita. Sobre a linguagem, a série adota um vocabulário informal, com palavras como sacanagem, cassete, cafajeste, piranha, gostosa, baranga, cretino, pilantra e bunda, além de expressões metafóricas e cotidianas, como a proferida por Fátima no episódio do dia 10 de junho de 2014: “minha relação é tão quente, mas é tão quente, que ela até piora o efeito estufa”.

No decorrer de alguns episódios analisados, verifica-se que mershandising não é uma prática incomum. Marcas como Fiat, Citroën e Kia são identificadas na trama, às vezes até não exclusivas no mesmo episódio, e sempre compondo o cenário, ao fundo das personagens. Outros tipos de propagandas também são feitas, como a do filme S.O.S Mulheres ao Mar, que naquele momento estava passando nas salas de cinema do Brasil. Quanto à composição gráfica, chama atenção as passagens de uma cena para outra, em que muitas vezes transitam na tela figuras geométricas mais transparentes que caracterizam o Rio de Janeiro, como as famosas paisagens ou formatos de calçadas.

No Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público deixou a desejar. Somente os episódios da primeira e da última temporada são considerados razoáveis e, os demais, fracos. Isso se deve ao tipo de tema abordado pela trama, que é preferencialmente o desenrolar do dia a dia de uma pessoa que acorda cedo todos os dias, pega condução lotada, trabalha longe de casa, e tem que enfrentar os percalços da rotina. O episódio da última temporada, por exemplo, é razoável nesse indicador porque trata de temas relevantes de forma razoavelmente eficaz, como o suborno de representantes da lei, o exercício ilegal de uma profissão, e o racismo intrínseco nas pessoas.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, vemos novamente um destaque para o episódio de 2015, que usou diferentes tipos de personagens para a encenação dos temas mecionados acima, como um fiscal do comércio, um dentista, um advogado, duas senhoras idosas, duas mulheres de meia idade, cinco crianças, um bebê de colo, um vendedor ambulante, patrões e empregados. Das emissões analisadas, quatro são razoáveis nesse indicador, e apenas essa é considerada boa.

No indicador desconstrução de estereótipos, as notas também não são muito altas. Entretanto, apesar de não desconstruir estigmas, Tapas & Beijos não os reafirma constantemente. No episódio do dia 12 de novembro de 2013, intitulado Lembranças do passado geram brigas no presente, porém, é uma exceção. Aos 7 minutos e 50 segundos acontece o seguinte diálogo entre Sueli e Jurandir:

JURANDIR: Oi Sueli. A gente precisa levar um papo sério.

SUELI: Tem que ser agora?

JURANDIR: É. A Bia me falou sobre o lance de você ter iniciado o pequeno PC.

SUELI: Poe que, eu também fui a sua primeira vez?

JURANDIR: Que… você foi a segunda.

SUELI: Que desculpa de mulherzinha. Vai, desembucha Jurandir, que eu tô ocupada.

(Tapas & Beijos – episódio Lembranças do passado geram brigas no presente 12/11/2013)

Com essa última fala de Sueli, vemos a inferiorização da mulher: o uso da palavra “mulherzinha”, uma tentaiva do diminuivo de “mulher”, associado a uma atitude errada (inventar motivos para algo), deixa claro o pressuposto de que mulheres mentem e agem de forma indevida.

E no último indicador de qualidade do plano do conteúdo, oportunidade, vemos uma variedade na avaliação: das cinco emissões, duas são fracas nesse indicador; duas, razoáveis; e uma, boa. Sobre as fracas, a justificativa é por abordar temas que ocorrem no dia a dia das pessoas, mas não estão na agenda midiática. E sobre a boa, a jusificativa é por abordar temas recorrentes na sociedade, que constantemente são vistos também nas mídias informacionais a que temos acesso, como, por exemplo, o racismo, que ainda é uma questão a ser vencida e veio na trama representada pela dificuldade que as pessoas têm para agirem de forma natural diante de um pai negro com um filho branco. Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo, com suas respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas obteve avaliação razoável em todos os cinco episódios analisados devido à pouca interação do programa com os diferentes tipos de plataformas e conteúdos. Na série, o que constantemene acontece é o diálogo implícito com filmes que estão no cinema da vida real, a menção a bairros reais do Rio de Janeiro, e um dos sites da Rede Globo, que aparece no final dos créditos de cada episódio.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi fraco em todas as emissões. Isso se deve, principalmente, ao formato do programa, que não é aberto à opinião do público e conta com uma equipe de roteiristas já formada. Na série, um dos únicos exemplos de interação direta entre personagem e público está aos 28 minutos do episódio do dia 10 de junho de 2014, intitulado Sueli é acolhida por Fátima e Armane, quando Sueli, sozinha na cena, olha para a câmera, aperta os olhos e morde a boca, como se estivesse mostrando ao público como ela está feliz com a situação de amor entre Fátima e Armane, que incluiu naquele momento gritos, tapas e gemidos.

No quesito originalidade/criatividade a série foi razoável em todas as emissões analisadas. Contudo, extrapolando o campo de visão dessas emissões, percebe-se que a série em geral é importante para a ampliação do horizonte do público quando aborda na trama as questões LGBT, até então original por trazer, a partir da terceira temporada, a personagem Stephanie, interpretada por Rafael Primot, que é uma travesti ingênua que se relaciona com Tijolo (Orã Figueiredo), o sócio de Jorge (Fábio Assunção) na boate.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, ao contrário dos anteriores, foi muito bem pontuado. Clareza da proposta foi assim avaliado devido à transparência dos seus objetivos e à explicitação do formato com o qual o programa trabalha. A linguagem coloquial, por exemplo, e o fato de o episódio sempre começar mostrando as ruas da cidade do Rio de Janeiro, as pessoas passando, trabalhando ou conversando na calçada, a frente de algumas lojas e os carros passando na rua geram uma identificação do público com o programa, que já no início se situa e entende sobre onde a narrativa se passará.

A primeira canção que é apresentada também contribui para essa clareza, já que a letra geralmente dialoga com a temática que será abordada em seguida. No episódio exibido no dia 10 de junho de 2014, por exemplo, o trecho “ele já não gosta mais de mim, mas eu gosto dele mesmo assim, que pena, que pena…” da música Que Pena, de Marisa Monte, introduz a história em que Sueli, separada de Jorge, tenta se recuperar com outros homens e vê o ex se relacionando com Flavinha, uma narrativa, portanto, que se relaciona com o trecho da música cantado no início. Abaixo, a avaliação recebida por cada indicador de qualidade da mensagem audiovisual.

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Por levantar questões importantes sem explorá-las de forma aprofundada e abrangente, podemos afirmar que Tapas & Beijos é uma série que apresenta características de qualidade em algumas emissões, mas que não pode ser assim considerada majoritariamente. Entretanto, é inegável a identificação e aproximação que o público teve com a série, fazendo com que ele se visse e se inspirasse nas personagens, espelhando-se nos seus desejos e objetivos.

Por Luma Perobeli

Quinta Categoria

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Quinta Categoria foi um programa exibido pela MTV Brasil pela primeira vez em 13 de março de 2008. Dirigido e escrito por Ivan VonSimson, consistia na apresentação de jogos improvisados a partir de temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa. Durante as quatro temporadas em que foi transmitido, o game-show foi ao ar todos os sábados, às 20h, com duração média de 45 minutos, e destinava-se ao público jovem, de 15 a 30 anos de idade, das classes A, B e C. Os jogos são elaborados pelo grupo Desnecessários (Paulo Serra, Rodrigo Capella e Tatá Werneck), e conta também com a participação de um artista convidado. Tendo as mesmas características do programa Whose Line Is It Anyway?, criado em 1988 na rádio BBC, no Reino Unido, o formato do Quinta Categoria se instalou nas telinhas do Brasil após o sucesso da Cia. Barbixas de Humor no teatro, que já adotava o gênero.

No Plano da Expressão, são destaques os códigos visuais e gráficos, referentes ao cenário e à vinheta de abertura, respectivamente. O amplo palco de apresentação dos artistas, composto por paredes de tijolos, vigas de ferro, grandes janelas ao fundo, placas de trânsito, um telão à esquerda do plano, uma caixa de energia à direita do plano, e caixas de madeira posicionadas ao lado das cadeiras que ficam alinhadas ao fundo, conferem ao programa um ambiente moderno e descontraído, despreocupado com a beleza artística do cenário. E a vinheta de abertura, trazendo um robô vestido com roupa amarela e azul, que participa de uma série de situações engraçadas e absurdas de maneira tosca, já anuncia ao espectador o estilo do programa, que utiliza o grotesco e o caricato para gerar o riso. A composição gráfica também chama a atenção, pois o logotipo e as letras dos grafismos de rodapé dialogam com o mesmo aspecto geométrico e despojado do cenário e da vinheta de abertura, sendo vistos, portanto, como um conjunto de elementos do plano da expressão essenciais para a identificação do público jovem com o programa.

No Plano do Conteúdo, os indicadores de qualidade oportunidade e desconstrução de estereótipos foram pontuados. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o Quinta Categoria um programa atual porque utiliza as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um. Analisando o estereótipo, podemos considerar que o programa utiliza esse recurso para a desconstrução, afirmação ou para uma mistura das duas formas. No episódio do dia 5 de novembro de 2011, por exemplo, quando aos 18 minutos e 25 segundos Rodrigo Capella anuncia o jogo da cena em funk, ele estereotipa as pessoas que escutam o estilo musical funk (“Ahh, é o jogo da cena em funk, pra você que é carioca, ou você que tem uma gangue, ou você que faz parte de uma facção criminosa”) e depois, ao perceber a asneira que falou, tenta desconversar o que havia dito (“Não tem nada a ver com isso rapaz, que aqui é só um funk, é só uma brincadeira”), fazendo, portanto, a afirmação e a desconstrução do estereótipo na mesma frase.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados obteve bons resultados, pois, como já falamos anteriormente, o programa é inteiramente elaborado por temas sugeridos pelo público, pertencente às diferentes classes da sociedade. Apesar de a plateia ser constituída na sua maioria por jovens e brancos, há pessoas de todas as idades, cores e estilos, que são selecionadas pelos artistas e têm voz no programa. Porém, no indicador ampliação do horizonte do público, ao contrário do anterior, os números já não existem, pois as propostas sugeridas pela plateia (e até mesmo as selecionadas do site), não são polêmicas, contraditórias ou férteis, no sentido que podem fazer os telespectadores refletirem ou debaterem ideias relevantes que contribuirão para ampliar o seu repertório cultural ou sua visão de mundo. Confira, abaixo, a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito identificado em todos os episódios. Isso se deve, além da comunicação coloquial estabelecida entre os artistas e a plateia, ao formato do programa de se constituir inteiramente pelos jogos de improviso com temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa, que interage virtualmente. No episódio exibido no dia 21 de junho de 2011, aos 12 minutos e 44 segundos, por exemplo, Rodrigo Capella vai até a plateia para pegar um tema:

RODRIGO: Vou pegar um tema ali com o meu amigo aqui… Pô, vai ser difícil de passar, mas não problema. Como é teu nome?

ESPECTADOR: Lucas.

RODRIGO: Você me chamou até aqui, se você não tiver um tema bom, você tá ferrado, hein. Ô Lucas, fala pra mim uma briga entre duas pessoas, porque que tava rolando essa briga, e essas pessoas, fala aí quê que você veio pensando de casa.

ESPECTADOR: Ahh, um índio assim todo barrigudo…

RODRIGO: Um índio?

ESPECTADOR: Todo barrigudo.

RODRIGO: Um índio barrigudo tá brigando por quê?

ESPECTADOR: Porque ele queria os pataxó todo em volta da fogueira.

RODRIGO: Cara, um índio barrigudo brigou por que queria os pataxó em volta da fogueira. Aí você vê… mas foi bom. Como é teu nome? Lucas, né? Eu falo, não usa droga, galera, mas vocês insitem… Valeu, valeu.

(Quinta Categoria – episódio 21/06/2011)

Para a participação do público de casa, o jogo das frases exemplifica bem essa solicitação, pois nele os jogadores têm que improvisar algo relacionado a uma frase enviada pelo espectador para o site do programa. Abaixo, aos 9 minutos e 36 segundos do mesmo episódio, a fala de Paulinho Serra para explicar o jogo:

Muito bem, então se você é do Quinta Categoria e tá aqui sempre, você sabe que quem manda são vocês as frases agora no nosso programa. Então entra no site, manda a sua frase por que ela vai ser selecionada, ou não [...]. então vamos ver qual é a frase e quem mandou: ‘Maneiras de quinta para contar para seu pai que você está grávida’. Foi a Laura Juliani, que tá grávida, daqui de São Paulo. (Quinta Categoria – episódio 21/06/2011).

Além da solicitação da participação ativa do público através de temas dados por eles, pessoal ou virtualmente, outro método bastante usado pelo programa é o da participação do espectador na própria cena, como acontece no jogo da foto e no jogo serenata de quinta.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, os resultados também foram bastante satisfatórios. Além de aparecer na tela a referência do Twitter de cada humorista na sua primeira fala, menções a outras plataformas ao longo do episódio também são comuns, como ocorre no início do episódio do dia 2 de julho de 2011, com a fala de Paulinho Serra: “Hoje, está de arrepiar os culhões. Então, vamos colocando aí no Twitter ‘#QUINTACATEGORIA’. Vamos bombar de palmas também a presença dos Desnecessários”.

Ainda na mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todos os episódios da amostra. Uma das formas utilizadas para deixar claro o objetivo do programa de fazer o público rir com os jogos de improviso, é pela apresentação de Paulinho Serra logo no início de cada episódio, quando ele profere frases como “embarque no mundo do improviso” ou “o programa mais improvisado da televisão brasileira” (falada em três das cinco emissões analisadas). Além dessa, a outra forma de esclarecer para o público o tipo de conteúdo que está assistindo é explicando as regras de cada jogo antes de começá-lo. Com o nome e o funcionamento do jogo aparecendo no telão do palco, um humorista fixo do programa explica para o público como se dará a brincadeira, para que este tome nota de como serão os próximos minutos e julgue se acha interessante assistir ou não.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Quinta Categoria também se destaca em todas as emissões analisadas. Em nível mundial, não podemos dizer que o programa foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado no Reino Unido e Estados Unidos. Porém, por se tratar de um programa nacionalmente novo, nunca antes visto nas telinhas brasileiras, e de formato pouco conhecido pelo espectador, é considerado um programa original, criativo e experimental, pois, além das adaptações que sofreu para cair no gosto popular, conta ainda com o talento de quatro comediantes que, na sua maioria, já tinham experiência com o teatro e com a arte do improviso, o que fomenta a criação dos jogos e enriquece a qualidade artística do programa. Observe, a seguir, a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual: q2

Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no programa Quinta Categoria. Quanto ao modo de experimentação, vimos que o programa foi inovador porque ajudou a popularizar os jogos de improviso no Brasil, e se mostrou original e criativo ao levar o riso ao público de maneira irreverente, nova e até então incomum. Entretanto, não foi possível unir esse formato ao humorismo (modo de representação), uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Apesar de levar o riso, o programa não adota temas relevantes para a sociedade ou não apresenta ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias. Além disso, o uso do estereótipo muitas vezes é para reafirmar preconceitos já consolidados na nossa sociedade e, por mais que tenha em alguns momentos desconstruído paradigmas, isso não foi uma preocupação constante do programa.

Por Luma Perobeli

Comédia MTV

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O programa Comédia MTV estreou na MTV Brasil no dia 3 de março de 2010 e foi veiculado até março de 2012, quando mudou seu formato e passou a ser chamado de Comédia MTV Ao Vivo.Criado por Lilian Amarante, Gabriel Muller e Álvaro Campos, a apresentação ficava por conta de Marcelo Adnet, que contava no elenco com Rafael Queiroga, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Talita Werneck, Paulo Serra, Rodrigo Capella, Guilherme Santana e Fabio Rabin. Com duração de 1 hora e 45 minutos, o programa era composto por esquetes que faziam paródias de temas ou conteúdos da época.

Apesar de rotulado pela própria emissora como um programa de humor, o Comédia MTV era mesmo um programa de comédia, como sugere o próprio nome, que se baseava no riso fácil diante do “anormal”, daquilo que fugia do padrão. Dos cinco elementos que compõe o Plano da Expressão, ao menos um aspecto de três deles é destaque. Nos códigos visuais,cenário e atuação do elenco chamam atenção por atribuírem ao programa uma característica despojada e descontraída, que não preza pela verossimilhança, ou seja, a preocupação de passar realismo às cenas ao ponto de torná-las credíveis ao espectador. No episódio do dia 3 de maio de 2011, por exemplo, aos 7 minutos e 4 segundos, Bento Ribeiro protagoniza um esquete em que interpreta um homem prestando serviço comunitário a crianças por não pagar pensão alimentícia aos filhos. Na ocasião, o homem veste roupa da Branca de Neve e chega para contar histórias para as crianças, que são interpretadas por outros sete humoristas do programa, adultos, portanto, mas que devidamente caracterizados com roupa e penteado se comportam e falam como crianças. Também no cenário, a descontração está na diversidade de lugares apresentados, sem muitos detalhes e cuidados artísticos. Com uma ausência de padrão ou ordem na execução e/ou transmissão das cenas, o único momento que se repete em todas as emissões analisadas é quando aparecem os clipes musicais, que se passam num quadrado no centro da tela, sobre uma arte de muro de tijolos com quatro setas de luzes de neon piscando e apontando para o mesmo.

Nos códigos sintáticos, o destaque está na edição, que muito se faz presente no programa. Movimentos abruptos de câmera, efeitos sonoros, o uso do zoom in (que acontece para dar destaque para trechos da fala do emissor), do zoom out (para revelar a reação dos outros personagens diante do que é falado) e a presença dos cortes secos (cortes sem transição que têm a finalidade de aproximar a câmera e dar destaque ao rosto dos atores) são aspectos constantemente vistos no programa, que chamam a atenção do espectador e o faz por isso, talvez, pensar no conteúdo que é mostrado. Nos códigos gráficos, o aspecto que se destaca é a vinheta, tanto de abertura quanto de finalização, que é adequada ao estilo do programa no que se refere às cores, cenário, roteiro, falas e atuação.

Na abertura, a vinheta traz figuras que se formam em luzes de neon coloridas. Na primeira cena um homem corre na esteira, atrás dele vários chapéus passam voando e um deles o atinge; logo após, uma mulher pula num trampolim. Na terceira cena, uma mulher dança em frente a um homem de terno e gravata; ao fundo algumas bailarinas dançam e um laser vermelho sai do homem de terno e corta a cabeça da dançarina. Na segunda cena,uma garçonete segura uma bandeja e, ao fundo, um guitarrista sem cabeça toca. Na sequência, a cabeça da dançarina surge na bandeja da garçonete e, ao final, surge o nome do programa, também em letras de neon. Uma abertura, portanto, bastante irreverente.

No Plano do Conteúdo, o indicador desconstrução de estereótipos foi pouco identificado no programa. Apesar do posicionamento progressista da MTV de se mostrar a favor da diversidade sexual, a representação dos homossexuais ainda é carregada de estereótipos, o que acarreta uma visão distorcida dessa minoria. No quadro Nunca vai passar de novo, por exemplo, o objetivo é parodiar o quadro da Rede Globo Vale a pena ver de novo, que reprisa novelas antigas de sucesso. No Comédia MTV, a  paródia se dá pela representação de situações ruins, homofóbicas, machistas e absurdas, de novelas escritas por autores homossexuais. A título de exemplo, a frase proferida aos 5 minutos e 36 segundos do episódio do dia 19 de abril reforça ainda mais esse estigma de que escritores gays só fazem novelas ruins, com temática homossexual, situações absurdas e incapazes de serem reprisadas: “De um autor homossexual:Pais e Filhos. Mais uma novela que nunca vai passar de novo”.

Tendo em vista a diversidade presente dentro do grupo de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais, entre outros, é inegável a complexidade de se fazer uma boa representação dos mesmos, mas é inegável também a possibilidade de assim fazê-la. Se a proposta é de um humor inteligente, a opção mais razoável é tentar fugir dos estereótipos. E então, nesses casos, a opção por fazer piada do opressor é mais viável e, falemos a verdade, muito mais engraçada. Entretanto, não foi essa a postura adotada pelo Comédia MTV.

O indicador de qualidade oportunidade não foi muito pontuado. A avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato deo Comédia MTV produzir esquetes que fazem referência a assuntos de conhecimento do público, mas que não necessariamente estão na agenda midiática. Paródia de outros programas, como o feito em Big Brother Afeganistão, Nunca vai passar de novo, Desgraça Urgente, Domingúo e Plantão, ou de personalidades, como mostrado em HebeCam e Pormeliê, são a base do programa e por isso comumente vistos nas emissões.

A diversidade de sujeitos representados foi razoável nas emissões analisadas. A única melhor avaliada é a do dia 3 de maio de 2011, que se destaca pela grande variedade de tipos que mostrou, principalmente no quadro que abordava a religião Normal. Cariocas, paulistanos, lésbicas, negros, brancos, presos, consumistas, gordos,magros, estrangeiros, crianças, jovens, idosos, pais, mães,jornalistas, psicólogos, atrizes e cantores são alguns dos tipos representados pela emissão, seja por muito tempo ou não.

Ampliação do horizonte do público e estímulo ao pensamento e ao debate de ideias não são recorrentes ao longo das emissões aqui analisadas. A avaliação fraca recebida por esse indicador de qualidade em todas as emissões se justifica pela forma escrachada e estereotipada com que o programa faz referência aos outros conteúdo se pela escolha por temas rasos e quase que insignificantes que pouco objetivam a transformação sócio-político-cultural dos espectadores. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta está muito presente em todas as emissões analisadas. O objetivo do programa é bem apresentado ao espectador porque é constante o uso da paródia, da ironia ou da sátira para criticar padrões e provocar o riso. Como exemplo, temos o primeiro esquete do dia 29 de março de 2011, que traz Dani Calabresa e Tatá Werneck conversando sobre uma possível cena entre elas e outro humorista, que interpretaria um pai. No diálogo, que tem intercalado cenas dos humoristas fazendo o clipe de uma música, vemos que todos os personagens fazem papel de si mesmos, estando cada um o seu próprio nome artístico, o que deixa evidente se tratar de uma sátira à ausência das pessoas aos seus compromissos.

No indicador diálogo com/entre plataformas, todos os episódios foram bem avaliados, pois a relação da TV com as outras plataformas é vista em alguns esquetes do programa e na vinheta final de cada emissão, quando aparece nos créditos a frase: “mas quem faz o Comédia?! equipe completa no site!!!”. Abaixo dessa frase, que dialoga muito bem com o estilo descontraído do programa ao usar as letras minúsculas no início das frases e os excessos de pontuação, tem o endereço do site e do Twitter do programa. Além disso, a esse indicador também compete a menção a outros conteúdos televisivos, que é comumente visto no Comédia MTV através das inúmeras referências a músicas, artistas e outros programas da TV.

Em alguns esquetes do programa esse diálogo com outras plataformas também é visto quando vídeos feitos pelos espectadores são mostrados, o que incrementa também o indicador solicitação da participação ativa do público. Sendo considerável em todas as emissões, a avaliação desse indicador se justifica não pelo Comédia MTV solicitar diretamente a participação do espectador, mas por dar a ele oportunidade de aparecer na emissão. No final do episódio do dia 29 de março de 2011, por exemplo, o clipe que aparece é o enviado pelo espectador Bruno Costta, que mostra um homem vestido de passarinho azul dançando ao lado de duas meninas a música de fundo, que faz referência ao Twitter. Outro exemplo está no clipe exibido no final do episódio do dia 17 de maio do mesmo ano, enviado pelo Twitter @rodrigoguth1, em que um rapaz faz paródia da música New York, de Alicia Keys.

Último indicador da mensagem audiovisual, originalidade/criatividade, foi razoável em todas as emissões. Por ser de um formato já conhecido pelo público, inovação e experimentação não são destaques no programa, mas originalidade e criatividade pode-se dizer que sim, pois parodiava programas, personalidades, músicas e temas conhecidos da massa de forma escrachada, exagerada e engraçada. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Como vimos,aspectos característicos do programa, como o próprio nome diz, apenas geram a comédia, o riso fácil, imediato e despreocupado diante do diferente. Segundo os modos de representação e experimentação, a atuação dos personagens é satírica e grotesca e, por isso, acarreta uma visão distorcida das minorias, principalmente da comunidade LGBTTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais). Estigmas sociais foram reforçados, e a banalização do audiovisual reiterada incessantemente na maioria dos produtos da televisão não deixou de ser assim tratada no Comédia MTV, o que dificultou o envolvimento de uma comunidade e a sua categorização como humor de qualidade, já que nem ao humor o programa pertence.

Por Luma Perobeli

A Grande Família

a-grande-familiaA Grande Família foi uma série produzida por Guel Arraes, que estreou em 2001 no canal Globo e foi exibida até setembro de 2014. O programa foi uma releitura da versão dos anos 1970, idealizada por Max Nunes e Marcos Freire e escrita por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. O seriado, que ia ao ar toda quinta-feira às 23h, retrata o cotidiano da família Silva, que vive no subúrbio carioca e luta para se manter unida apesar de conflitos nas relações familiares e dificuldades diversas.

O elenco contava com atores fixos, dentre eles, Marco Nanini (Lineu), Marieta Severo (Dona Nenê), Lúcio Mauro Filho (Tuco), Guta Stresser (Bebel) e Pedro Cardoso (Agostinho). Rogério Cardoso interpretou Floriano, pai de Nenê, na série até 2003 quando faleceu; depois disso não houve substituição para o personagem.

No que diz respeito ao Plano da Expressão no programa, alguns aspectos são chamativos. A música tema é marcante e tem uma letra que explica bem a proposta da série: “Esta família é muito unida/E também muito ouriçada/Brigam por qualquer razão/Mas acabam pedindo perdão…/Pirraça pai!/Pirraça mãe!/Pirraça filha!/Eu também sou da família/Eu também quero pirraçar…”. Essa vinheta toca tanto no início quanto no fim do programa, sendo que na abertura ela acompanha a exibição de um antigo álbum de fotografias que mostra fotos de pessoas “comuns” se transformando nos rostos dos personagens. No fim, os créditos sobem na tela enquanto a música está em BG.

Um ponto notório de A Grande Família são os cenários, figurinos e linguagem, que, por serem simples, geram uma identificação popular com o programa e maior aceitação do público.

Outro detalhe percebido foi que o nome de todos os episódios aparece quase na metade do programa, sempre com uma formatação característica do tema do dia.

Em relação ao Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público foi tido como bom em duas emissões. Na emissão do dia 15 de maio de 2001, notou-se uma forte presença do tema machismo, tratado de maneira a levar o público a refletir sobre as opressões que em geral são normalizadas na sociedade. Outro exemplo foi no episódio do dia 17 de abril de 2008, quando Agostinho faz um escândalo no salão onde Bebel trabalha porque o filho deles, um bebê, não parava de chorar. Esse episódio enfatiza o debate sobre o papel do pai no cuidado com o filho e a ideia de que não só a mãe é responsável pela criança; uma vez que Bebel precisava voltar a trabalhar após o fim de sua licença maternidade. O mesmo episódio também faz uma rápida citação ao Bolsa Família, programa do governo federal.

Todos os episódios analisados tiveram classificação razoável no que diz respeito à diversidade de sujeitos representados, isso se deve à multiplicidade de tipos de pessoas observada nas emissões. No episódio do dia 17 de abril de 2008, por exemplo, são vistos personagens jovens, amigos de Tuco; pessoas mais maduras, no baile da Terceira Idade; diferentes profissionais na delegacia. Além disso, é possível observar diversos pontos de vista sobre o tema central, que é a volta de Bebel ao trabalho após ela ter um filho. Porém, em nenhuma das emissões analisadas foi percebida uma grande pluralidade no que diz respeito à questão racial e sexual.

O indicador de destaque no plano de conteúdo foi desconstrução de estereótipos, sendo que dois episódios foram avaliados como bons e três como fracos. Os episódios que foram bem avaliados focaram em assuntos que estão presentes em pautas feministas. A emissão do dia 15 de maio de 2001 focou no machismo dos personagens da família Silva. Agostinho tenta impedir Bebel de sair com um vestido curto, justo e transparente e chega a dizer que “Nem madrinha de bateria de escola de samba usa um negócio desse”, valendo-se da imagem estereotipada da mulher no carnaval. Além disso, é consenso entre os homens da família que uma roupa daquela causaria assédios. Bebel se posiciona em favor da sua liberdade e diz: “Quer dizer então que esses animais não sabem se conter e eu é que tenho que me reprimir? Eles que aprendam a se controlar!” e a mãe a apoia. Bebel considera os homens da família retrógrados e repressores. Quando ela se arruma com um vestido mais longo, sem transparência e decotes, este é visto como “vestido de evangélica”.

O episódio do dia 17 de abril de 2008 também foi bem avaliado graças à temática feminista, em que Bebel descontrói a visão de Agostinho de que a mulher deve cuidar da casa e do filho e o homem trabalhar fora, ser o provedor da família.

Já o episódio do dia 27 de julho de 2006 foi considerado fraco nesse quesito porque reforçava alguns estereótipos, como quando Paulão repreende Marilda por ter ido ao “Baile das cachorras” dizendo: “Você que não devia estar aqui. Isso aqui não é lugar pra mulher decente.” E quando mostra uma briga no mesmo ambiente, reafirmando a visão de que baile funk é um lugar violento.

O indicador oportunidade obteve baixas avaliações, sendo considerado duas vezes como razoável e duas vezes como fraco. O episódio do dia 14 de abril de 2008, por exemplo, foi tomado como razoável, pela atualidade do tema da bebida combinada com direção. Esse episódio mostra que enquanto Lineu estava bêbado em um clube noturno que tinha ido com Nenê, Tuco, que estava na função de levar os pais para casa, preferiu não beber álcool, justamente para a segurança deles. Uma forma de conscientização popular no mesmo ano em que a Lei Seca foi promulgada no Brasil.

Veja a seguir as avaliações referentes aos indicadores do plano do conteúdo:

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Observando a Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões. Isso se deve ao formato narrativo do programa, que sempre apresenta desentendimentos e suas respectivas soluções. Porém, no final há sempre um conflito, mesmo que pequeno, que é deixado em aberto. Além disso, as personalidades são bem definidas e as personagens têm atitudes previsíveis; por exemplo, Lineu geralmente é estressado e tem muitas preocupações, já Agostinho sempre tenta se beneficiar de alguma situação. A música tema, como dito anteriormente, também já deixa clara a ideia do programa.

O critério diálogo com/entre outras plataformas teve três avaliações fracas e uma razoável. Isso justifica-se pelo pouco contato com outras mídias, sendo que somente em alguns episódios analisados houve esta relação, com citações a outros produtos audiovisuais da própria emissora. O episódio do dia 31 de Julho de 2008 foi o único razoável, por fazer citações a uma telenovela, ao reality show da emissora, “Big Brother Brasil”, e uma pequena divulgação do projeto Criança Esperança.

Com relação à solicitação da participação ativa do público, esta não foi muito observada, sendo percebida somente na linguagem, sempre popular e jovem. Por este motivo todas as emissões foram avaliadas como fracas.

Na análise sobre originalidade/criatividade, todos os episódios foram razoáveis, uma vez que o programa faz uma abordagem diferenciada de alguns temas que não são tratados na mídia, inserindo-os dentro do cotidiano. Porém não é completamente inovador, justamente por se tratar de um sitcom passado num ambiente familiar.

Confira os indicadores de qualidade referentes à mensagem audiovisual:

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Pode-se dizer que os episódios ficaram divididos em relação ao seu potencial de levar o espectador à reflexão. Falando sobre reforço de estereótipos, percebeu-se que alguns promoviam um debate sobre assuntos relevantes socialmente – como o papel da mulher – outros evidenciavam comportamentos e opiniões já convencionadas.

Não foi percebida uma experimentação técnico-expressiva considerável no programa, que se utilizava de um roteiro sem grandes novidades para um sitcom. A atuação dos personagens contribuiu para a característica mais importante do programa: identificação popular pela familiaridade. À medida que situações cotidianas de um núcleo familiar se repetem nos episódios, o espectador se sente mais próximo da história. Além disso, não há uma participação do público na construção da narrativa, porém os episódios analisados deixam claros a diversidade de opiniões das personagens – muitas vezes divergências que se tornam brigas – o que pode enriquecer a reflexão do espectador.

Por Letícia Silva

Zé do Caixão

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  • Roteiro: André Barcinski, Ricardo Grynszpan, Vítor Mafra
  • Elenco: Matheus Nachtergaele, Maria Helena Chira, Bruno Autran, Anamaria Barreto, Walter Breda, Felipe Solari
  • Período de exibição: 13/11/2015 a 18/12/2015
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 6

Zé do Caixão foi uma produção do canal pago Space que retratou a vida do cineasta José Mojica Marins, mais conhecido por criar e interpretar o personagem Zé do Caixão. A série acompanha, sem compromisso documental, alguns anos da vida de Mojica e a produção de alguns de seus filmes, bem como a criação do icônico personagem. O elenco é composto por Matheus Nachtergaele (Mojica/Zé do Caixão), Maria Helena Chira (Dirce), Bruno Autran (Chico), Anamaria Barreto (Dona Carmen) entre outros.

A trama segue o formato episódico, ou seja, a maioria dos arcos narrativos tem início e fim no mesmo episódio. Cada capítulo mostra a produção de um filme de Mojica e, entre cada um, às vezes se passam anos. Tal escolha de formato permite, portanto, que o telespectador entenda a maior parte da trama sem precisar acompanhar todos os episódios.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A história tem início em São Paulo na década de 60 e tanto a ambientação quanto o figurino são montados de acordo com a época. Nesse sentido, o indicador não só interfere no desdobramento da trama como também contribuiu para a imersão do público.

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Um fator importante é a caracterização do personagem Zé do Caixão (Matheus Nachtergaele), que segue fielmente a estética do personagem original, interpretado pelo próprio Mojica. Isso se faz importante não apenas para a verossimilhança e aproximação com a história real, mas para o envolvimento do público com a trama.

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A trilha sonora é predominantemente instrumental e composta, principalmente, por músicas de suspense e terror, que ambientam os filmes rodados por Mojica (Matheus Nachtergaele) como Zé do Caixão. Entretanto, outros momentos fazem uso da trilha sonora para dar o tom da cena, como aqueles divididos por Mojica (Matheus Nachtergaele) e Dirce (Maria Helena Chira), nos quais, por vezes, há músicas românticas.

A fotografia, por sua vez, é composta, na maioria das vezes, por muitas sombras, contrastes e cores escuras, o que se adequa à figura do Zé do Caixão. Além disso, quando há cenas dos filmes que estão sendo rodados nos episódios, a imagem fica em preto e branco para simular o aspecto do filme real.

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Já a edição segue o padrão linear e não apresenta alterações cronológicas, deixando a narrativa clara ao telespectador, que não se confunde nas temporalidades exploradas na trama.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, a trama faz referência a lugares e pessoas reais, como São Paulo e Glauber Rocha, que tem a famosa frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” citada em um dos episódios da série. Isso contribui na ambientação da produção e na verossimilhança da trama, uma vez que traz elementos da realidade a uma série que trata de um personagem que realmente existiu – o cineasta Mojica(Matheus Nachtergaele).

Em relação à escassez de setas chamativas, foram observados alguns elementos que facilitam a compreensão do telespectador a cerca do que está ocorrendo na trama. Um exemplo ocorre no primeiro episódio, onde balas de festim são trocadas por balas reais pela mulher do delegado durante a produção do filme “A sina do aventureiro”, o que acaba ferindo a atriz principal. Antes de isso ocorrer, o público já pode imaginar o que acontecerá, já que a câmera foca, mais de uma vez, nas balas de festim ao lado das balas reais.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, a série apresenta pequenos clímax e reviravoltas em todos os episódios, mas em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que viu até então. O estilo narrativo do programa também se mantém constante ao longo dos episódios.

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Quanto aos recursos de storytelling, há, ao longo da série, algumas sequências fantasiosas, as quais são, em sua maioria, sonhos do protagonista. Isso se mostra claro, uma vez que tais sequências são em preto e branco e pode-se ver o personagem abrindo os olhos ao final dessas sequências, deixando evidente, portanto, que se tratam de sonhos. Dessa forma, pode-se perceber, também, a presença de setas chamativas.

Por Júlia Garcia

O Não Famoso

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Criado por Daniel Santos, o canal O Não Famoso, em maio de 2016, contava com cerca de 280.000 inscritos e 232 vídeos. Na descrição do canal, Santos se apresenta como “cantor, compositor e produtor musical”, o que justifica o grande número de paródias dentre os vídeos. Em geral, também há vídeos sobre temas diversos, às vezes com convidados ou perguntas dos internautas.

Na esfera do Plano da Expressão, se destaca a linguagem utilizada por Daniel Santos – sempre informal e com expressões populares, como “bagaça” ou “vai plantar batata”, o que permite uma aproximação do público. Já o cenário e o figurino não possuem grande destaque. Os vídeos são gravados em um estúdio musical, com paredes de isolamento acústico e um computador ao fundo. O cenário, geralmente, só muda nas paródias, quando é utilizado o chromakey para colocar certas imagens como fundo.

Quanto ao Plano do Conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados recebeu avaliação fraca em todas as emissões analisadas, já que, na maioria dos vídeos, tem-se apenas Daniel Santos, ou ele e mais um convidado, geralmente homem. Desse modo, há também pouca diversidade de opiniões e pontos de vista.

A desconstrução de estereótipos foi percebida em apenas uma emissão, a do dia 10 de setembro, no vídeo com a participação de Wilson Neto, mas mesmo assim de forma bem discreta e superficial. Nele, Daniel pergunta:

DANIEL: E se a gente tivesse um olho só?
WILSON: A gente não podia cagar né… A mulher nunca, não ia ser permitido que mulher tirasse carteira de motorista, jamais. Se dois olhos ela…
DANIEL: Não, não. Aí pegou no pé das mulheres que assistem os meus vídeos, agora não. Castigo, vai ter castigo.

O indicador oportunidade, por sua vez, recebeu avaliação fraca em três emissões, por não haver nelas temas relevantes ou atuais, presentes constantemente nas agendas do público e da mídia. Já a paródia da música Suíte 14 recebeu avaliação razoável no indicador, uma vez que se refere a uma canção atual e muito tocada em festas, por exemplo. Desse modo, a música se faz presente no cotidiano de grande parte do público.

O vídeo Adaptando Filosofias, do dia 17 de setembro, e Falsetes da Melody, do dia 08, receberam avaliação boa nesse indicador. O primeiro traz citações de pensadores antigos, como Platão e Aristóteles, para os dias atuais, numa readaptação. Sendo assim, várias situações cotidianas e muito comuns são representadas. No vídeo, Daniel readapta, por exemplo, a frase “Tente mover o mundo, o primeiro passo é mover a si mesmo” para “Tente mover a si mesmo, o primeiro passo será sair do WhatsApp”. Modificou ainda a frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” para “Não sabendo que era impossível, foi lá e clicou para mudar a cor do Facebook”.

Já em Falsetes da Melody, Daniel discorre sobre os vídeos da MC Melody, muito compartilhados nas redes sociais, motivos de debates e de alguns memes. O pai da menina, inclusive, foi acusado de hipersexualizar a filha nos seus shows, assunto que estava em pauta na época. Dessa forma, os falsetes da MC Melody compunham temas recorrentes na agendas do público e de algumas mídias.

A ampliação do horizonte do público foi avaliada de modo fraco em três das emissões analisadas, as quais não apresentavam temas relevantes que pudessem estimular o debate ou o pensamento. Já os vídeos Adaptando Filosofias e Paródia Suíte 14 receberam avaliação razoável. O primeiro, ao trazer frases de filósofos para os dias atuais utilizando, na maioria das vezes, hábitos comuns na era da internet, pode levar a uma reflexão a cerca desses hábitos, muitas vezes questionáveis. Já a paródia discorre sobre coisas comuns da infância nos anos 90 e 2000, como assistir desenhos ou brincar na rua. Resgatar tais elementos pode fazer com que o público reflita sobre as mudanças que ocorreram e como as crianças se divertem hoje em dia.

O vídeo Falsetes da Melody, por sua vez, traz uma discussão sobre o modo como o MC Belinho, pai da MC Melody, trata a exposição da filha. Daniel comenta no vídeo: “Na real, eu sinto pena dela, porque, na verdade, ela está sendo usada como um produto do próprio pai.”. E ainda complementa: “Não é difícil perceber que ele está explorando a imagem dela de todas as formas possíveis, expondo ela ao ridículo.”. A partir do vídeo é possível levantar questões sobre exposição infantil e paternidade, por exemplo. A seguir, o gráfico que mostra os indicadores e as avaliações de cada emissão no plano do conteúdo:

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Em relação à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. Normalmente a estrutura dos vídeos se repete, mas quando há um formato diferente do usual, como a gravação de uma tag, a proposta é explicada no início do vídeo. Na emissão do dia 10 de setembro de 2015, E Se (ft. Wilson Neto), Daniel explica: “A gente vai gravar um vídeo um pouco diferente (…) Então, a gente vai fazer uma tagque a gente inventou que se chama E Se”. Já no vídeo Nudes, do dia 22, Daniel explica a dinâmica do AskSnap, novo quadro do canal: “No caso, vai ser um quadro que eu vou abrir o meu snap pra galera mandar vídeos, fazendo perguntas”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do públicorecebeu avaliação muito boa. Comumente Daniel cumprimenta sua audiência com a frase “fala galerinha não famosa”, além de, em quase todas as emissões, pedir para o público deixar likesnos vídeos e seguir o canal em outras redes sociais. Expressões como “vocês” também são utilizadas, ao mesmo tempo em que Daniel olha, a quase todo momento, diretamente para a câmera. Ao final dos vídeos também há dois links: um que leva a outro vídeo do canal, com a frase “veja também”, e outro que leva à página do canal, com a frase “me aperta vai”.

A solicitação da participação do público também pode ser percebida em alguns quadros do canal. No quadro AskSnap, como citado anteriormente, os internautas enviam perguntas para Daniel por vídeos feitos através do Snapchat. O quadro Não Famoso Responde se assemelha a ele, mas as perguntas são feitas através de comentários nas redes sociais.

O diálogo com/entre plataformas também recebeu avaliação muito boa em todas as emissões. Nos quadros citados, por exemplo, as perguntas dos internautas são feitas em outras mídias, como o Snapchat, e respondidas através dos vídeos do YouTube feitos pelo canal. Além disso, em todos os vídeos são mostradas as outras redes sociais do canal, como Instagram ou Facebook. Frequentemente também há parcerias com outros canais, sendo os vídeos feitos com a participação de convidados, como a paródia de Suíte 14, da dupla Henrique e Diego, ou a tagE Se. Na paródia de Suíte 14, por exemplo, percebe-se também a presença de elementos externos à internet, como no trecho: “É que eu estudava vendo/ Dragon Ball e Pokémon”. Ou ainda: “Vê/ que Merthiolate arde pra desgraça”.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável na maioria das emissões, já que não há grande inovação no formato ou no conteúdo do canal. A única emissão que recebeu avaliação boa nesse indicador foi a do dia 15/09/2015 – Paródia Suíte 14 (ft. Caio Romano) – pois transforma totalmente uma música já existente, utilizando outro tema como base. Abaixo, o gráfico da mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se concluir que o canal O Não Famoso, nas emissões estudadas, não se destaca em aspectos importantes do humor de qualidade, explicitados em indicadores como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos, nos quais o canal não obteve avaliações relevantes. Já no plano da mensagem audiovisual, puderam-se ver alguns elementos de destaque, como diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Entretanto, tais elementos são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um grande diferencial do canal.

Por Júlia Garcia

Treme, Treme

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  • Direção: Pedro Antonio Paes
  • Roteirista: Letícia Dornelles
  • Elenco: Gustavo Mendes, Fernando Caruso, Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna
  • Período de exibição: 01/11/2015 a 26/05/2016
  • Duração: 25 minutos
  • Nº de episódios: 50

Exibido pelo canal pago Multishow, o sitcom Treme, Treme é protagonizada por Gustavo Mendes e Fernando Caruso. Na trama os humoristas interpretam o zelador Belmiro e o porteiro Gilmar, respectivamente. Ao longo dos episódios da série os funcionários têm que lidar com os encontros inusitados e o cotidiano dos moradores na portaria de um prédio residencial e comercial Treme Treme, em São Paulo.

Além do elenco fixo composto por Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna, as esquetes contam com a participação dos competidores do Prêmio Multishow de Humor e de comediantes veteranos. A cada episódio os humoristas vão se revezando em diferentes papeis.

Fernando Caruso interpreta o porteiro Gilmar. O personagem é dedicado, está sempre atento a tudo, porém possui um lado ranzinza, que o torna antipático. Já o zelador Belmiro (Gustavo Mendes), assume a portaria quando Gilmar (Fernando Caruso) precisa se ausentar. O personagem é enrolado, muito desatento e adora aumentar o que ouve.

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Além dos protagonistas, a atração conta com mais de 30 personagens. Entre os tipos estão o faxineiro Gagoberto (Caíke Luna), o torcedor fanático Faisão (Felipe Ruggeri), o estranho garotinho Jaquisom David (Rafael Mazzi), o funkeiro Gigante Ostentação (Gigante Léo) e a dupla sertaneja Três Marias (Larissa Câmara e Bia Guedes). Entre as participações especiais estão nomes como Ary Toledo, Ceará, Dani Valente, Gorete Milagres, Marcelo Marrom, Nany People, Paulinho Serra, Pedro Bismarck, Samantha Schmütz, Sergio Mallandro e Tirullipa.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

As esquetes da série Treme Treme são ambientadas no prédio residencial e comercial que leva o nome do programa. Entretanto, o único ambiente explorado é a portaria do edifício.

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A cada episódio do telespectador acompanha a entrada e a saída dos moradores e funcionários do Treme Treme. Além da limitação do cenário, que retratada, em todos os 50 episódios o mesmo espaço, a ambientação da trama não apresenta verossimilhança. Os objetos cênicos se distanciam dos que integram, normalmente, um prédio residencial e comercial.

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Outro ponto que chama a atenção na ambientação da série é que apesar da portaria do edifício ser o principal cenário onde que desdobram todos os arcos narrativos da história, em momento algum o indicador contribui efetivamente para a atração. Isto é, a ambientação só serve como pano de fundo para as esquetes e não interfere do desenvolvimento do sitcom.

Por se tratar de uma série episódica a caracterização dos personagens de Treme Treme tem a função de passar uma mensagem instantânea para o telespectador. Em outras palavras, os personagens são construídos a partir de arquétipos nesse sentido as roupas e o gestual são facilmente compreendidos pelo público.

Alguns personagens vestem, praticamente, a mesma roupa durante vários episódios, como, por exemplo, a síndica (Márcia Cabrita). Muito rigorosa com as regras do edifício, um pouco louca e com um prazer imenso em mandar, a personagem está usando o mesmo figurino ao longo das temporadas, independente da situação.

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A trilha sonora de Treme Treme é composta por efeitos sonoros pontuais que marcam a transição das esquetes. Desta forma, os episódios não apresentam músicas e/ou faixas instrumentais.

A fotografia é norteada pelo estilo naturalista, a variação de iluminação e uso de filtros não esteve presente na análise das temporadas. Todos os episódios possuem o mesma tonalidade e o mesmo contraste.

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Por ser gravada em um teatro no Rio de Janeiro, a edição de Treme Treme é linear. As esquetes não exploram múltiplas temporalidades e se passam apenas no presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Por ser composta por várias esquetes e personagens a série apresenta várias intertextualidades, as referências externas ao universo ficcional da trama abrangem desde figuras conhecidos do cenário humorístico nacional como, Juninho Play, interpretado por Samantha Schmutz, até citações a Caio Ribeiro, Casagrande, Galvão Bueno, entre outras personalidades do âmbito televisivo.

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Apesar de não serem fundamentais para a compreensão das esquetes, ao reconhecer as intertextualidades os telespectadores têm uma experiência mais rica da trama, passando por várias camadas interpretativas.

O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em Treme Treme. Nesse sentido, vários elementos da trama apresentam cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Desde a abertura da atração até os diálogos encenados pelo elenco não exigem esforço analítico dos telespectadores, os desdobramentos narrativos são didaticamente pontuados.

Por fim, os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram identificados nas temporadas de Treme Treme. Os arcos narrativos não estimulam o telespectador a reconsiderar o paratexto e as histórias exploram a mesma temporalidade, estética e narratológica.

Por Daiana Sigiliano

Trair e coçar é só começar

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  • Escrita por: Marcos Caruso e Gisele JorasElenco: Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro.
  • Duração: 45 minutos
  • Período de exibição: 24/11/2014 a 31/08/2015
  • Nº de episódios: 26

Escrita por Marcos Caruso e Gisele Joras, a série Trair e coçar é só começar é protagonizada pela empregada doméstica Olímpia (Cacau Protásio). A personagem passa por conflitos relacionados à separação do seus dois patrões, Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). A partir de então Olímpia (Cacau Protásio) passa a se dividir entre os dois e decidida a unir o casal novamente apronta várias confusões com ajuda de Lígia (Dani Valente), Cristiano (Marcelo Flores), Zilda (Gorete Milagres) e Joel (Vinícius Marins).

O elenco conta com nomes como Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro. Os arcos narrativos giram em torno das tentativas de Olímpia (Cacau Protásio) de reatar o casamento de seus patrões Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). Por ser norteado pela estrutura episódica, cada episódio apresenta um arco narrativo isolado, sempre se iniciando com um equilíbrio, passando por conflito e culminando no equilíbrio novamente, no desfecho.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A série Trair e coçar é só começar é gravada em um teatro, sendo assim seu cenário é fixo e, neste caso, não apresenta nenhuma mudança durante a narrativa. Outro aspecto importante na análise do indicador é a composição do ambiente. A trama do canal pago Multishow apresenta um cenário com dois andares, o andar de baixo representa a casa de Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin) e o andar de cima é a cobertura, também de posse do casal. No episódio Separação a visualização simultânea dos dois ambientes por parte do telespectador era necessária para a compreensão da narrativa, uma vez que parte do humor e desenvolvimento da trama envolviam conflitos que aconteciam nos dois ambientes no mesmo momento.

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Considerando a personalidade plana dos personagens, ou seja, baseada em arquétipos, a caracterização é responsável por fazer o telespectador entender rapidamente o papel desempenhado por cada um na narrativa. Assim, Inês (Márcia Cabrita) compondo uma mulher rica e bem-sucedida veste peças de tecidos leves, calças de alfaiataria e sapato de salto e seu marido Eduardo (Cássio Scapin), um médico de sucesso, está sempre de roupa social.

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A série não apresenta trilha sonora ao longo dos episódios. Há apenas a presença de efeitos sonoros ressaltando encerramento de cada episódio. A fotografia de Trair e coçar é só começar é pautada pela iluminação característica de teatro onde a atração é gravada. Apesar disso, o indicador não influência no desdobramento dos arcos narrativos.

Por ser também uma peça de teatro, a edição da série se apresenta de forma linear, ou seja, não utiliza de outra cronologia além do presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Trair e coçar é só começar não apresenta nenhum tipo de intertextualidade no seu enredo, ou seja, não traz nenhuma referência externa ao universo ficcional da série.

A atração apresenta setas chamativas, em forma de repetição de acontecimentos. Por exemplo, no episódio Casamento de Neco, o personagem Túlio (Pedro Monteiro) reforça em forma de diálogo com Cristiano (Marcelo Flores) que acontecerá um casamento e outras informações que já foram apresentadas ao telespectador anteriormente. Desta forma, o indicador não foi observado no programa. Nesse sentido, o indicador escassez de setas chamativas não foi identificado.

Compondo a estrutura episódica, as reviravoltas são presentes em cada episódio e são solucionadas no mesmo episódio, fechando o arco narrativo. Apesar de ser esperado pelo telespectador, o clímax não deixa de cumprir seu papel de representar uma quebra na narrativa. As reviravoltas são importantes para a trama, porém não tão significativas a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a história até então, aspecto central dos efeitos especiais narrativos.

Por último, os recursos de storytelling não são explorados em Trair e coçar é só começar. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

 Por Mariana Meyer

Estranha Mente

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Estranha Mente é um seriado de televisão que estreou no canal Multishow em 3 de outubro de 2012. Cada uma das três temporadas exibidas até o final de 2014 contém 13 episódios. As cinco emissões analisadas neste estudo foram escritas por Fernando Caruso, Jaiê, Luiza Yabrudi e Eduardo Rios, que apostam em esquetes baseadas em situações reais “e às vezes surreais” da mente de Fernando, como o próprio programa define. Protagonizado por Caruso, o elenco ainda conta com Hamilton Dias, Mari Cabral, Márcio Lima, Roberta Brisson, Paulo Dodô, Ricardo Rossini, Diogo Costa, Raphael Logam e Alexandre Régis.

No plano da expressão, um dos aspectos que chama a atenção do espectador é a vinheta de abertura do programa, que traz a voz de Fernando Caruso explicando a quinta dimensão não conhecida pelo homem: a imaginação dele. Durante a narração, apenas círculos verdes aparecem na tela, e logo depois o seu rosto é colocado em diferentes contextos do dia-a-dia. Cada episódio tem entre sete e 11 esquetes que se misturam ao longo da narrativa e trazem Fernando Caruso interpretando diferentes personagens ou até ele próprio.

O tom descontraído do programa se dá pelo seu fechamento, que mostra os créditos dentro de uma nuvem branca e verde na parte de baixo do plano enquanto os erros de gravação vão sendo mostrados na tela, com gírias e palavrões sendo falados, como “porra”, “cretino”, “merda”, “sacanagem” e “caralho”. Além disso, os episódios exibem frequentemente vinhetas toscas em determinados esquetes e efeitos especiais mal elaborados, deixando claro que o objetivo do programa não é ser verossímil, mas despertar o riso pelo grotesco.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados obteve avaliação razoável. O episódio que mais se destacou foi o exibido no dia 19 de junho de 2013, cuja análise foi considerável quanto à representação de grupos sociais no esquete das dúvidas sobre a Tuberculose. A partir dos 13 minutos e 36 segundos, uma agente de saúde em uma sala com cartazes ao fundo, livros e jarra de suco de frutas na mesa, tenta informar às pessoas e tirar as suas dúvidas sobre o assunto. Após um breve panorama sobre a doença, quatro personagens homens em lugares diferentes, com vestimentas de estilos distintos e realizando ações também diferentes, começam a aparecer na tela com perguntas, o que deixa claro o objetivo do programa em simular a diversidade buscada pelas entrevistas que consultam o público na rua.

Porém, mais do que simular, Estranha Mente satiriza essa tentativa da diversidade ao trazer personagens de diferentes classes sociais fazendo perguntas repetidas, ou sem sentido, e mostrando as respostas da agente de saúde, que progressivamente vai ficando irritada: “por quê que vocês estão fazendo isso comigo?”, dramatiza ela. Em seguida, Fernando Caruso aparece na tela falando sobre a ignorância como uma doença, referência clara aos quatro personagens mostrados anteriormente, que muitas vezes representam o público da vida real mostrado nas entrevistas, que não faz perguntas relevantes ou realmente pertinentes sobre o assunto.

O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos não foi muito identificado no programa. Nas cinco emissões analisadas de Estranha Mente, este recurso é usado para afirmar estigmas e pré-conceitos já existentes na sociedade atual, como o de que toda mulher é interesseira ou o de que “advogado fala, fala, e não diz nada”. No episódio exibido no dia 3 de outubro de 2012, por exemplo, aos 14 minutos e 16 segundos se inicia um esquete em que dois amigos estão no bar de uma boate e um deles tenta paquerar a funcionária do local. Vendo que a menina reage de maneira arrogante, o rapaz decide apelar para a frase “eu tenho um programa no Multishow” e consegue o que quer: um beijo da garota. Essa cena, apesar de curta, reforçou o estereótipo de que existem mulheres que só se relacionam com outra pessoa por causa do status que sua profissão tem na sociedade.

No quinto episódio aqui analisado, exibido no dia 19 de junho de 2013, outra situação em que há a afirmação do estereótipo, está no esquete do tribunal do júri, em que Fernando Caruso interpreta um advogado de defesa que, apesar de falar muito, só diz coisas sem sentido. O senso comum de que “advogado fala, fala, e não diz nada”, que vale para muitos profissionais da área jurídica, é reafirmado nesse esquete pelo exagero das falas do advogado e pelas reações dos demais personagens, que, diante das falas confusas, tentam compreender minimamente o advogado.

Ainda sobre utilizar a ferramenta do estereótipo para afirmar paradigmas sociais, no episódio do dia 3 de outubro de 2012 o programa conseguiu, sem nenhuma fala, apenas com uma música de fundo, reforçar a ideia de que a banda Calypso não é boa ao mostrar a frase “Dançar Calypso na festa da firma é crime. Tudo bem, não é. Mas deveria”, após sucessivas fotos de pessoas supostamente presas.

O indicador de qualidade oportunidade foi identificado de forma razoável nas emissões analisadas, pois, apesar de não tratar de assuntos presentes na agenda midiática, traz para o público temas do dia-a-dia de qualquer pessoa, sendo esse tema relevante ou não. No quadro Cinemón, do episódio exibido no dia 24 de abril de 2013, por exemplo, ao invés de Fernando Caruso satirizar os especialistas de cinema fazendo referência a filmes atuais, foi usado como objeto o filme Karate Kid, que, apesar de ser um clássico, foi lançado em 1994.

No último indicador de qualidade do plano do conteúdo, ampliação do horizonte do público, percebe-se que o programa fracassou. Foram poucos os momentos em que foi possível estimular o pensamento e o debate no espectador e, mesmo nos esquetes em que isso foi feito, o programa pecou com o excesso da piada e acabou por reforçar algum estereótipo. Isso é o que ocorre no primeiro episódio do seriado, exibido no dia 3 de outubro de 2012, no esquete em que uma cena de crime está sendo gravada. Após o “corta” falado em off, o esquete continua com os personagens incorporando suas próprias personalidades. Na sequência da identificação dos atores, a partir dos 17 minutos, Rafael Logan e Fernando Caruso iniciam um diálogo em que Rafael questiona Caruso sobre os papeis que sempre são destinados a ele, de assaltante ou sequestrador, insinuando que seja devido à cor da sua pele, que é negra.

Esse contexto permite que o público reflita sobre a real situação de atrizes e atores negros na televisão brasileira, que comumente são vistos como domésticas, seguranças, faxineiros, babás, motoristas, caseiros, vigias, ou qualquer qualificação que permeia o crime. Entretanto, apesar disso, Estranha Mente acaba mais uma vez afirmando estereótipos, por querer fazer piada de tudo, inclusive de uma discussão séria como essa. No esquete acima citado, Fernando Caruso se compromete a ajudar Rafael Logan para reparar o seu erro e, então, o coloca para interpretar uma Branca de Neve, personagem desejada por Logan, o que é irônico, já que uma Branca de Neve dificilmente seria interpretada por um homem negro. Na sequência, um ator anão também questiona Caruso sobre os seus repetidos papeis, e mais uma vez o suposto diretor da cena ajuda o colega: Fernando coloca o anão para interpretar um jogador de basquete que faz muitas cestas e que é melhor que todos os outros jogadores, de estatura mediana.

Entretanto, o que é comum às duas subversões de papeis é que ambos os personagens saem prejudicados (a Branca de Neve é abandonada sozinha na cena e o jogador de basquete fica preso na cesta), o que invalida totalmente a necessidade de se diversificar os papeis sociais dos atores, diminuindo a importância da causa.

Abaixo, as avaliações dos indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão – como a vinheta de abertura descontraída, a linguagem informal e a repetição do primeiro esquete, que é comum a todos os episódios – conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos. “Agora o comediante vai contar uma piada sem ofender ninguém” é a frase comum a todos os episódios e precede o esquete que traz Fernando Caruso interpretando um comediante que fracassa ao tentar fazer piadas sendo politicamente correto. Presentes nesse início, é possível perceber que a ironia e a afirmação de conceitos podem ser ferramentas constantes no programa.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas teve uma avaliação considerável, visto que em vários momentos há a interação com diferentes tipos de conteúdos e menções a lugares e filmes existentes fora da ficção, como no quadro Cinemón, em que Fernando Caruso interpreta um crítico de cinema e cita filmes reais, como Robocop 3 e Karate Kid 4, e faz referência, de forma satírica, aos verdadeiros programas que se dedicam às análises de filmes. Além disso, o programa também menciona lugares como Casaquistão, Afeganistão e Argentina, e traz Fernando Caruso dialogando com a plataforma da internet ao pedir, aos 15 min e 40 segundos do episódio do dia 15 de maio de 2013, por exemplo, que o telespectador entre no site do Multishow para interagir com o programa e escolher o novo personagem que ele quer ver nos esquetes.

O indicador solicitação da participação ativa do público teve uma avaliação razoável nas emissões aqui analisadas. Isso se deve, principalmente, à linguagem informal utilizada, como já falado, e à interação personagem-público estabelecida quando os personagens olham para a câmera como se conversassem com o espectador. No quadro Dr. Toko, por exemplo, Fernando Caruso interpreta um médico especialista em desvendar os sentimentos de um homem rejeitado por uma mulher, olhando para a câmera como na intenção de ensinar ao público como essa rejeição é sentida pelo homem. Usando palavras como “vocês” e fazendo perguntas como “viu?” quando somente Caruso está em cena, fica claro que o programa deseja interagir com o público e fazê-lo permanecer no canal.

Originalidade e criatividade não são elementos muito presentes em Estranha Mente. A nota fraca foi atribuída ao programa porque este não apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, apenas abordam os temas de forma exagerada, fazendo uso da sátira e da ironia para dar ênfase a assuntos muitas vezes irrelevantes que em nada têm para acrescentar à sociedade.

A seguir, podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Analisando os modos de representação dos personagens na construção das cenas e dos diálogos, e o uso dos recursos técnico-expressivos, que contribuem para a construção de uma narrativa que pode promover a reflexão e o debate de ideias, observamos que Estranha Mente explora pouco essas potencialidades. Como visto, temas relevantes para a sociedade até foram abordados, mas não com a complexidade que merecem, o que acaba fazendo do programa mais uma ferramenta de banalização da televisão e da questão em pauta.

Além de não trazer para o público nada de novo em relação ao formato adotado, o programa utiliza efeitos especiais e roteiro pouco verossímeis (como identificado nos disparos das armas de fogo que não ocasionam nenhum sangramento nas vítimas atingidas) que causam estranhamento no público. Na cena da gravação de um crime exibida dia 2 de outubro de 2012, como já mencionado anteriormente, a partir dos 8 minutos e 30 segundos, Rafael Logan, que interpreta um criminoso, pega nos braços a vítima que está aparentemente morta e começa a mexer seu queixo e lábios como se esta estivesse falando. Escondendo a sua cabeça atrás do corpo da menina, Logan afina a voz e dá início a um roteiro distante da realidade que banaliza a situação de um crime e põe em cheque a competência da classe policial. “Eu não tô morta não, foi tudo um grande mal entendido. Ó, é bom fazer tudo que ele tá mandando. Ele é bem mal”, mascara o criminoso.

A construção desta cena é um exemplo de como o programa banaliza situações sérias antes de chegarem no ponto principal da cena. Ainda assim, quando abordam o assunto chave também acabam banalizando a situação para gerar o riso, invalidando-a por se aproximar do grotesco. Dessa forma, torna-se inexistente na série aqui analisada um ponto de vista diferente em relação à maioria dos programas da televisão brasileira que geram o riso. Sem esse diferencial na experimentação e sem essa complexidade da representação, Estranha Mente se mostra mais um exemplo das tantas “reciclagens” da nossa programação televisual brasileira, visto que não apresenta recursos suficientes para levantar reflexões na sociedade.

Por Luma Perobeli