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Zé do Caixão

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  • Roteiro: André Barcinski, Ricardo Grynszpan, Vítor Mafra
  • Elenco: Matheus Nachtergaele, Maria Helena Chira, Bruno Autran, Anamaria Barreto, Walter Breda, Felipe Solari
  • Período de exibição: 13/11/2015 a 18/12/2015
  • Horário: 22h30
  • Nº de episódios: 6

Zé do Caixão foi uma produção do canal pago Space que retratou a vida do cineasta José Mojica Marins, mais conhecido por criar e interpretar o personagem Zé do Caixão. A série acompanha, sem compromisso documental, alguns anos da vida de Mojica e a produção de alguns de seus filmes, bem como a criação do icônico personagem. O elenco é composto por Matheus Nachtergaele (Mojica/Zé do Caixão), Maria Helena Chira (Dirce), Bruno Autran (Chico), Anamaria Barreto (Dona Carmen) entre outros.

A trama segue o formato episódico, ou seja, a maioria dos arcos narrativos tem início e fim no mesmo episódio. Cada capítulo mostra a produção de um filme de Mojica e, entre cada um, às vezes se passam anos. Tal escolha de formato permite, portanto, que o telespectador entenda a maior parte da trama sem precisar acompanhar todos os episódios.

No Plano da Expressão iremos destacar os seguintes indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição. A história tem início em São Paulo na década de 60 e tanto a ambientação quanto o figurino são montados de acordo com a época. Nesse sentido, o indicador não só interfere no desdobramento da trama como também contribuiu para a imersão do público.

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Um fator importante é a caracterização do personagem Zé do Caixão (Matheus Nachtergaele), que segue fielmente a estética do personagem original, interpretado pelo próprio Mojica. Isso se faz importante não apenas para a verossimilhança e aproximação com a história real, mas para o envolvimento do público com a trama.

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A trilha sonora é predominantemente instrumental e composta, principalmente, por músicas de suspense e terror, que ambientam os filmes rodados por Mojica (Matheus Nachtergaele) como Zé do Caixão. Entretanto, outros momentos fazem uso da trilha sonora para dar o tom da cena, como aqueles divididos por Mojica (Matheus Nachtergaele) e Dirce (Maria Helena Chira), nos quais, por vezes, há músicas românticas.

A fotografia, por sua vez, é composta, na maioria das vezes, por muitas sombras, contrastes e cores escuras, o que se adequa à figura do Zé do Caixão. Além disso, quando há cenas dos filmes que estão sendo rodados nos episódios, a imagem fica em preto e branco para simular o aspecto do filme real.

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Já a edição segue o padrão linear e não apresenta alterações cronológicas, deixando a narrativa clara ao telespectador, que não se confunde nas temporalidades exploradas na trama.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling. Em relação à intertextualidade, a trama faz referência a lugares e pessoas reais, como São Paulo e Glauber Rocha, que tem a famosa frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” citada em um dos episódios da série. Isso contribui na ambientação da produção e na verossimilhança da trama, uma vez que traz elementos da realidade a uma série que trata de um personagem que realmente existiu – o cineasta Mojica(Matheus Nachtergaele).

Em relação à escassez de setas chamativas, foram observados alguns elementos que facilitam a compreensão do telespectador a cerca do que está ocorrendo na trama. Um exemplo ocorre no primeiro episódio, onde balas de festim são trocadas por balas reais pela mulher do delegado durante a produção do filme “A sina do aventureiro”, o que acaba ferindo a atriz principal. Antes de isso ocorrer, o público já pode imaginar o que acontecerá, já que a câmera foca, mais de uma vez, nas balas de festim ao lado das balas reais.

Em relação aos efeitos especiais narrativos, a série apresenta pequenos clímax e reviravoltas em todos os episódios, mas em nenhum momento o espectador é levado a reconsiderar tudo o que viu até então. O estilo narrativo do programa também se mantém constante ao longo dos episódios.

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Quanto aos recursos de storytelling, há, ao longo da série, algumas sequências fantasiosas, as quais são, em sua maioria, sonhos do protagonista. Isso se mostra claro, uma vez que tais sequências são em preto e branco e pode-se ver o personagem abrindo os olhos ao final dessas sequências, deixando evidente, portanto, que se tratam de sonhos. Dessa forma, pode-se perceber, também, a presença de setas chamativas.

Por Júlia Garcia

O Não Famoso

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Criado por Daniel Santos, o canal O Não Famoso, em maio de 2016, contava com cerca de 280.000 inscritos e 232 vídeos. Na descrição do canal, Santos se apresenta como “cantor, compositor e produtor musical”, o que justifica o grande número de paródias dentre os vídeos. Em geral, também há vídeos sobre temas diversos, às vezes com convidados ou perguntas dos internautas.

Na esfera do Plano da Expressão, se destaca a linguagem utilizada por Daniel Santos – sempre informal e com expressões populares, como “bagaça” ou “vai plantar batata”, o que permite uma aproximação do público. Já o cenário e o figurino não possuem grande destaque. Os vídeos são gravados em um estúdio musical, com paredes de isolamento acústico e um computador ao fundo. O cenário, geralmente, só muda nas paródias, quando é utilizado o chromakey para colocar certas imagens como fundo.

Quanto ao Plano do Conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados recebeu avaliação fraca em todas as emissões analisadas, já que, na maioria dos vídeos, tem-se apenas Daniel Santos, ou ele e mais um convidado, geralmente homem. Desse modo, há também pouca diversidade de opiniões e pontos de vista.

A desconstrução de estereótipos foi percebida em apenas uma emissão, a do dia 10 de setembro, no vídeo com a participação de Wilson Neto, mas mesmo assim de forma bem discreta e superficial. Nele, Daniel pergunta:

DANIEL: E se a gente tivesse um olho só?
WILSON: A gente não podia cagar né… A mulher nunca, não ia ser permitido que mulher tirasse carteira de motorista, jamais. Se dois olhos ela…
DANIEL: Não, não. Aí pegou no pé das mulheres que assistem os meus vídeos, agora não. Castigo, vai ter castigo.

O indicador oportunidade, por sua vez, recebeu avaliação fraca em três emissões, por não haver nelas temas relevantes ou atuais, presentes constantemente nas agendas do público e da mídia. Já a paródia da música Suíte 14 recebeu avaliação razoável no indicador, uma vez que se refere a uma canção atual e muito tocada em festas, por exemplo. Desse modo, a música se faz presente no cotidiano de grande parte do público.

O vídeo Adaptando Filosofias, do dia 17 de setembro, e Falsetes da Melody, do dia 08, receberam avaliação boa nesse indicador. O primeiro traz citações de pensadores antigos, como Platão e Aristóteles, para os dias atuais, numa readaptação. Sendo assim, várias situações cotidianas e muito comuns são representadas. No vídeo, Daniel readapta, por exemplo, a frase “Tente mover o mundo, o primeiro passo é mover a si mesmo” para “Tente mover a si mesmo, o primeiro passo será sair do WhatsApp”. Modificou ainda a frase “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” para “Não sabendo que era impossível, foi lá e clicou para mudar a cor do Facebook”.

Já em Falsetes da Melody, Daniel discorre sobre os vídeos da MC Melody, muito compartilhados nas redes sociais, motivos de debates e de alguns memes. O pai da menina, inclusive, foi acusado de hipersexualizar a filha nos seus shows, assunto que estava em pauta na época. Dessa forma, os falsetes da MC Melody compunham temas recorrentes na agendas do público e de algumas mídias.

A ampliação do horizonte do público foi avaliada de modo fraco em três das emissões analisadas, as quais não apresentavam temas relevantes que pudessem estimular o debate ou o pensamento. Já os vídeos Adaptando Filosofias e Paródia Suíte 14 receberam avaliação razoável. O primeiro, ao trazer frases de filósofos para os dias atuais utilizando, na maioria das vezes, hábitos comuns na era da internet, pode levar a uma reflexão a cerca desses hábitos, muitas vezes questionáveis. Já a paródia discorre sobre coisas comuns da infância nos anos 90 e 2000, como assistir desenhos ou brincar na rua. Resgatar tais elementos pode fazer com que o público reflita sobre as mudanças que ocorreram e como as crianças se divertem hoje em dia.

O vídeo Falsetes da Melody, por sua vez, traz uma discussão sobre o modo como o MC Belinho, pai da MC Melody, trata a exposição da filha. Daniel comenta no vídeo: “Na real, eu sinto pena dela, porque, na verdade, ela está sendo usada como um produto do próprio pai.”. E ainda complementa: “Não é difícil perceber que ele está explorando a imagem dela de todas as formas possíveis, expondo ela ao ridículo.”. A partir do vídeo é possível levantar questões sobre exposição infantil e paternidade, por exemplo. A seguir, o gráfico que mostra os indicadores e as avaliações de cada emissão no plano do conteúdo:

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Em relação à mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. Normalmente a estrutura dos vídeos se repete, mas quando há um formato diferente do usual, como a gravação de uma tag, a proposta é explicada no início do vídeo. Na emissão do dia 10 de setembro de 2015, E Se (ft. Wilson Neto), Daniel explica: “A gente vai gravar um vídeo um pouco diferente (…) Então, a gente vai fazer uma tagque a gente inventou que se chama E Se”. Já no vídeo Nudes, do dia 22, Daniel explica a dinâmica do AskSnap, novo quadro do canal: “No caso, vai ser um quadro que eu vou abrir o meu snap pra galera mandar vídeos, fazendo perguntas”.

Assim como o indicador anterior, a solicitação da participação ativa do públicorecebeu avaliação muito boa. Comumente Daniel cumprimenta sua audiência com a frase “fala galerinha não famosa”, além de, em quase todas as emissões, pedir para o público deixar likesnos vídeos e seguir o canal em outras redes sociais. Expressões como “vocês” também são utilizadas, ao mesmo tempo em que Daniel olha, a quase todo momento, diretamente para a câmera. Ao final dos vídeos também há dois links: um que leva a outro vídeo do canal, com a frase “veja também”, e outro que leva à página do canal, com a frase “me aperta vai”.

A solicitação da participação do público também pode ser percebida em alguns quadros do canal. No quadro AskSnap, como citado anteriormente, os internautas enviam perguntas para Daniel por vídeos feitos através do Snapchat. O quadro Não Famoso Responde se assemelha a ele, mas as perguntas são feitas através de comentários nas redes sociais.

O diálogo com/entre plataformas também recebeu avaliação muito boa em todas as emissões. Nos quadros citados, por exemplo, as perguntas dos internautas são feitas em outras mídias, como o Snapchat, e respondidas através dos vídeos do YouTube feitos pelo canal. Além disso, em todos os vídeos são mostradas as outras redes sociais do canal, como Instagram ou Facebook. Frequentemente também há parcerias com outros canais, sendo os vídeos feitos com a participação de convidados, como a paródia de Suíte 14, da dupla Henrique e Diego, ou a tagE Se. Na paródia de Suíte 14, por exemplo, percebe-se também a presença de elementos externos à internet, como no trecho: “É que eu estudava vendo/ Dragon Ball e Pokémon”. Ou ainda: “Vê/ que Merthiolate arde pra desgraça”.

Já o indicador originalidade/criatividade recebeu avaliação razoável na maioria das emissões, já que não há grande inovação no formato ou no conteúdo do canal. A única emissão que recebeu avaliação boa nesse indicador foi a do dia 15/09/2015 – Paródia Suíte 14 (ft. Caio Romano) – pois transforma totalmente uma música já existente, utilizando outro tema como base. Abaixo, o gráfico da mensagem audiovisual:

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A partir da análise, pôde-se concluir que o canal O Não Famoso, nas emissões estudadas, não se destaca em aspectos importantes do humor de qualidade, explicitados em indicadores como ampliação do horizonte do público e desconstrução de estereótipos, nos quais o canal não obteve avaliações relevantes. Já no plano da mensagem audiovisual, puderam-se ver alguns elementos de destaque, como diálogo com/entre plataformas e solicitação da participação ativa do público. Entretanto, tais elementos são comumente bem trabalhados no YouTube, não sendo, portanto, um grande diferencial do canal.

Por Júlia Garcia

Treme, Treme

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  • Direção: Pedro Antonio Paes
  • Roteirista: Letícia Dornelles
  • Elenco: Gustavo Mendes, Fernando Caruso, Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna
  • Período de exibição: 01/11/2015 a 26/05/2016
  • Duração: 25 minutos
  • Nº de episódios: 50

Exibido pelo canal pago Multishow, o sitcom Treme, Treme é protagonizada por Gustavo Mendes e Fernando Caruso. Na trama os humoristas interpretam o zelador Belmiro e o porteiro Gilmar, respectivamente. Ao longo dos episódios da série os funcionários têm que lidar com os encontros inusitados e o cotidiano dos moradores na portaria de um prédio residencial e comercial Treme Treme, em São Paulo.

Além do elenco fixo composto por Márcia Cabrita, Lindsay Paulino e Caike Luna, as esquetes contam com a participação dos competidores do Prêmio Multishow de Humor e de comediantes veteranos. A cada episódio os humoristas vão se revezando em diferentes papeis.

Fernando Caruso interpreta o porteiro Gilmar. O personagem é dedicado, está sempre atento a tudo, porém possui um lado ranzinza, que o torna antipático. Já o zelador Belmiro (Gustavo Mendes), assume a portaria quando Gilmar (Fernando Caruso) precisa se ausentar. O personagem é enrolado, muito desatento e adora aumentar o que ouve.

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Além dos protagonistas, a atração conta com mais de 30 personagens. Entre os tipos estão o faxineiro Gagoberto (Caíke Luna), o torcedor fanático Faisão (Felipe Ruggeri), o estranho garotinho Jaquisom David (Rafael Mazzi), o funkeiro Gigante Ostentação (Gigante Léo) e a dupla sertaneja Três Marias (Larissa Câmara e Bia Guedes). Entre as participações especiais estão nomes como Ary Toledo, Ceará, Dani Valente, Gorete Milagres, Marcelo Marrom, Nany People, Paulinho Serra, Pedro Bismarck, Samantha Schmütz, Sergio Mallandro e Tirullipa.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

As esquetes da série Treme Treme são ambientadas no prédio residencial e comercial que leva o nome do programa. Entretanto, o único ambiente explorado é a portaria do edifício.

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A cada episódio do telespectador acompanha a entrada e a saída dos moradores e funcionários do Treme Treme. Além da limitação do cenário, que retratada, em todos os 50 episódios o mesmo espaço, a ambientação da trama não apresenta verossimilhança. Os objetos cênicos se distanciam dos que integram, normalmente, um prédio residencial e comercial.

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Outro ponto que chama a atenção na ambientação da série é que apesar da portaria do edifício ser o principal cenário onde que desdobram todos os arcos narrativos da história, em momento algum o indicador contribui efetivamente para a atração. Isto é, a ambientação só serve como pano de fundo para as esquetes e não interfere do desenvolvimento do sitcom.

Por se tratar de uma série episódica a caracterização dos personagens de Treme Treme tem a função de passar uma mensagem instantânea para o telespectador. Em outras palavras, os personagens são construídos a partir de arquétipos nesse sentido as roupas e o gestual são facilmente compreendidos pelo público.

Alguns personagens vestem, praticamente, a mesma roupa durante vários episódios, como, por exemplo, a síndica (Márcia Cabrita). Muito rigorosa com as regras do edifício, um pouco louca e com um prazer imenso em mandar, a personagem está usando o mesmo figurino ao longo das temporadas, independente da situação.

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A trilha sonora de Treme Treme é composta por efeitos sonoros pontuais que marcam a transição das esquetes. Desta forma, os episódios não apresentam músicas e/ou faixas instrumentais.

A fotografia é norteada pelo estilo naturalista, a variação de iluminação e uso de filtros não esteve presente na análise das temporadas. Todos os episódios possuem o mesma tonalidade e o mesmo contraste.

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Por ser gravada em um teatro no Rio de Janeiro, a edição de Treme Treme é linear. As esquetes não exploram múltiplas temporalidades e se passam apenas no presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Por ser composta por várias esquetes e personagens a série apresenta várias intertextualidades, as referências externas ao universo ficcional da trama abrangem desde figuras conhecidos do cenário humorístico nacional como, Juninho Play, interpretado por Samantha Schmutz, até citações a Caio Ribeiro, Casagrande, Galvão Bueno, entre outras personalidades do âmbito televisivo.

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Apesar de não serem fundamentais para a compreensão das esquetes, ao reconhecer as intertextualidades os telespectadores têm uma experiência mais rica da trama, passando por várias camadas interpretativas.

O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em Treme Treme. Nesse sentido, vários elementos da trama apresentam cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. Desde a abertura da atração até os diálogos encenados pelo elenco não exigem esforço analítico dos telespectadores, os desdobramentos narrativos são didaticamente pontuados.

Por fim, os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram identificados nas temporadas de Treme Treme. Os arcos narrativos não estimulam o telespectador a reconsiderar o paratexto e as histórias exploram a mesma temporalidade, estética e narratológica.

Por Daiana Sigiliano

Trair e coçar é só começar

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  • Escrita por: Marcos Caruso e Gisele JorasElenco: Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro.
  • Duração: 45 minutos
  • Período de exibição: 24/11/2014 a 31/08/2015
  • Nº de episódios: 26

Escrita por Marcos Caruso e Gisele Joras, a série Trair e coçar é só começar é protagonizada pela empregada doméstica Olímpia (Cacau Protásio). A personagem passa por conflitos relacionados à separação do seus dois patrões, Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). A partir de então Olímpia (Cacau Protásio) passa a se dividir entre os dois e decidida a unir o casal novamente apronta várias confusões com ajuda de Lígia (Dani Valente), Cristiano (Marcelo Flores), Zilda (Gorete Milagres) e Joel (Vinícius Marins).

O elenco conta com nomes como Cacau Protásio, Márcia Cabrita, Daniele Valente, Bento Ribeiro, Gorete Milagres, Marcelo Flores, Vinicius Marins, Cássio Scapin e Pedroca Monteiro. Os arcos narrativos giram em torno das tentativas de Olímpia (Cacau Protásio) de reatar o casamento de seus patrões Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin). Por ser norteado pela estrutura episódica, cada episódio apresenta um arco narrativo isolado, sempre se iniciando com um equilíbrio, passando por conflito e culminando no equilíbrio novamente, no desfecho.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

A série Trair e coçar é só começar é gravada em um teatro, sendo assim seu cenário é fixo e, neste caso, não apresenta nenhuma mudança durante a narrativa. Outro aspecto importante na análise do indicador é a composição do ambiente. A trama do canal pago Multishow apresenta um cenário com dois andares, o andar de baixo representa a casa de Inês (Márcia Cabrita) e Eduardo (Cássio Scapin) e o andar de cima é a cobertura, também de posse do casal. No episódio Separação a visualização simultânea dos dois ambientes por parte do telespectador era necessária para a compreensão da narrativa, uma vez que parte do humor e desenvolvimento da trama envolviam conflitos que aconteciam nos dois ambientes no mesmo momento.

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Considerando a personalidade plana dos personagens, ou seja, baseada em arquétipos, a caracterização é responsável por fazer o telespectador entender rapidamente o papel desempenhado por cada um na narrativa. Assim, Inês (Márcia Cabrita) compondo uma mulher rica e bem-sucedida veste peças de tecidos leves, calças de alfaiataria e sapato de salto e seu marido Eduardo (Cássio Scapin), um médico de sucesso, está sempre de roupa social.

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A série não apresenta trilha sonora ao longo dos episódios. Há apenas a presença de efeitos sonoros ressaltando encerramento de cada episódio. A fotografia de Trair e coçar é só começar é pautada pela iluminação característica de teatro onde a atração é gravada. Apesar disso, o indicador não influência no desdobramento dos arcos narrativos.

Por ser também uma peça de teatro, a edição da série se apresenta de forma linear, ou seja, não utiliza de outra cronologia além do presente.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

Trair e coçar é só começar não apresenta nenhum tipo de intertextualidade no seu enredo, ou seja, não traz nenhuma referência externa ao universo ficcional da série.

A atração apresenta setas chamativas, em forma de repetição de acontecimentos. Por exemplo, no episódio Casamento de Neco, o personagem Túlio (Pedro Monteiro) reforça em forma de diálogo com Cristiano (Marcelo Flores) que acontecerá um casamento e outras informações que já foram apresentadas ao telespectador anteriormente. Desta forma, o indicador não foi observado no programa. Nesse sentido, o indicador escassez de setas chamativas não foi identificado.

Compondo a estrutura episódica, as reviravoltas são presentes em cada episódio e são solucionadas no mesmo episódio, fechando o arco narrativo. Apesar de ser esperado pelo telespectador, o clímax não deixa de cumprir seu papel de representar uma quebra na narrativa. As reviravoltas são importantes para a trama, porém não tão significativas a ponto de fazer o telespectador reconsiderar toda a história até então, aspecto central dos efeitos especiais narrativos.

Por último, os recursos de storytelling não são explorados em Trair e coçar é só começar. A série não apresenta flashbacks, sequências fantasiosas ou múltiplas perspectivas.

 Por Mariana Meyer

Estranha Mente

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Estranha Mente é um seriado de televisão que estreou no canal Multishow em 3 de outubro de 2012. Cada uma das três temporadas exibidas até o final de 2014 contém 13 episódios. As cinco emissões analisadas neste estudo foram escritas por Fernando Caruso, Jaiê, Luiza Yabrudi e Eduardo Rios, que apostam em esquetes baseadas em situações reais “e às vezes surreais” da mente de Fernando, como o próprio programa define. Protagonizado por Caruso, o elenco ainda conta com Hamilton Dias, Mari Cabral, Márcio Lima, Roberta Brisson, Paulo Dodô, Ricardo Rossini, Diogo Costa, Raphael Logam e Alexandre Régis.

No plano da expressão, um dos aspectos que chama a atenção do espectador é a vinheta de abertura do programa, que traz a voz de Fernando Caruso explicando a quinta dimensão não conhecida pelo homem: a imaginação dele. Durante a narração, apenas círculos verdes aparecem na tela, e logo depois o seu rosto é colocado em diferentes contextos do dia-a-dia. Cada episódio tem entre sete e 11 esquetes que se misturam ao longo da narrativa e trazem Fernando Caruso interpretando diferentes personagens ou até ele próprio.

O tom descontraído do programa se dá pelo seu fechamento, que mostra os créditos dentro de uma nuvem branca e verde na parte de baixo do plano enquanto os erros de gravação vão sendo mostrados na tela, com gírias e palavrões sendo falados, como “porra”, “cretino”, “merda”, “sacanagem” e “caralho”. Além disso, os episódios exibem frequentemente vinhetas toscas em determinados esquetes e efeitos especiais mal elaborados, deixando claro que o objetivo do programa não é ser verossímil, mas despertar o riso pelo grotesco.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados obteve avaliação razoável. O episódio que mais se destacou foi o exibido no dia 19 de junho de 2013, cuja análise foi considerável quanto à representação de grupos sociais no esquete das dúvidas sobre a Tuberculose. A partir dos 13 minutos e 36 segundos, uma agente de saúde em uma sala com cartazes ao fundo, livros e jarra de suco de frutas na mesa, tenta informar às pessoas e tirar as suas dúvidas sobre o assunto. Após um breve panorama sobre a doença, quatro personagens homens em lugares diferentes, com vestimentas de estilos distintos e realizando ações também diferentes, começam a aparecer na tela com perguntas, o que deixa claro o objetivo do programa em simular a diversidade buscada pelas entrevistas que consultam o público na rua.

Porém, mais do que simular, Estranha Mente satiriza essa tentativa da diversidade ao trazer personagens de diferentes classes sociais fazendo perguntas repetidas, ou sem sentido, e mostrando as respostas da agente de saúde, que progressivamente vai ficando irritada: “por quê que vocês estão fazendo isso comigo?”, dramatiza ela. Em seguida, Fernando Caruso aparece na tela falando sobre a ignorância como uma doença, referência clara aos quatro personagens mostrados anteriormente, que muitas vezes representam o público da vida real mostrado nas entrevistas, que não faz perguntas relevantes ou realmente pertinentes sobre o assunto.

O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos não foi muito identificado no programa. Nas cinco emissões analisadas de Estranha Mente, este recurso é usado para afirmar estigmas e pré-conceitos já existentes na sociedade atual, como o de que toda mulher é interesseira ou o de que “advogado fala, fala, e não diz nada”. No episódio exibido no dia 3 de outubro de 2012, por exemplo, aos 14 minutos e 16 segundos se inicia um esquete em que dois amigos estão no bar de uma boate e um deles tenta paquerar a funcionária do local. Vendo que a menina reage de maneira arrogante, o rapaz decide apelar para a frase “eu tenho um programa no Multishow” e consegue o que quer: um beijo da garota. Essa cena, apesar de curta, reforçou o estereótipo de que existem mulheres que só se relacionam com outra pessoa por causa do status que sua profissão tem na sociedade.

No quinto episódio aqui analisado, exibido no dia 19 de junho de 2013, outra situação em que há a afirmação do estereótipo, está no esquete do tribunal do júri, em que Fernando Caruso interpreta um advogado de defesa que, apesar de falar muito, só diz coisas sem sentido. O senso comum de que “advogado fala, fala, e não diz nada”, que vale para muitos profissionais da área jurídica, é reafirmado nesse esquete pelo exagero das falas do advogado e pelas reações dos demais personagens, que, diante das falas confusas, tentam compreender minimamente o advogado.

Ainda sobre utilizar a ferramenta do estereótipo para afirmar paradigmas sociais, no episódio do dia 3 de outubro de 2012 o programa conseguiu, sem nenhuma fala, apenas com uma música de fundo, reforçar a ideia de que a banda Calypso não é boa ao mostrar a frase “Dançar Calypso na festa da firma é crime. Tudo bem, não é. Mas deveria”, após sucessivas fotos de pessoas supostamente presas.

O indicador de qualidade oportunidade foi identificado de forma razoável nas emissões analisadas, pois, apesar de não tratar de assuntos presentes na agenda midiática, traz para o público temas do dia-a-dia de qualquer pessoa, sendo esse tema relevante ou não. No quadro Cinemón, do episódio exibido no dia 24 de abril de 2013, por exemplo, ao invés de Fernando Caruso satirizar os especialistas de cinema fazendo referência a filmes atuais, foi usado como objeto o filme Karate Kid, que, apesar de ser um clássico, foi lançado em 1994.

No último indicador de qualidade do plano do conteúdo, ampliação do horizonte do público, percebe-se que o programa fracassou. Foram poucos os momentos em que foi possível estimular o pensamento e o debate no espectador e, mesmo nos esquetes em que isso foi feito, o programa pecou com o excesso da piada e acabou por reforçar algum estereótipo. Isso é o que ocorre no primeiro episódio do seriado, exibido no dia 3 de outubro de 2012, no esquete em que uma cena de crime está sendo gravada. Após o “corta” falado em off, o esquete continua com os personagens incorporando suas próprias personalidades. Na sequência da identificação dos atores, a partir dos 17 minutos, Rafael Logan e Fernando Caruso iniciam um diálogo em que Rafael questiona Caruso sobre os papeis que sempre são destinados a ele, de assaltante ou sequestrador, insinuando que seja devido à cor da sua pele, que é negra.

Esse contexto permite que o público reflita sobre a real situação de atrizes e atores negros na televisão brasileira, que comumente são vistos como domésticas, seguranças, faxineiros, babás, motoristas, caseiros, vigias, ou qualquer qualificação que permeia o crime. Entretanto, apesar disso, Estranha Mente acaba mais uma vez afirmando estereótipos, por querer fazer piada de tudo, inclusive de uma discussão séria como essa. No esquete acima citado, Fernando Caruso se compromete a ajudar Rafael Logan para reparar o seu erro e, então, o coloca para interpretar uma Branca de Neve, personagem desejada por Logan, o que é irônico, já que uma Branca de Neve dificilmente seria interpretada por um homem negro. Na sequência, um ator anão também questiona Caruso sobre os seus repetidos papeis, e mais uma vez o suposto diretor da cena ajuda o colega: Fernando coloca o anão para interpretar um jogador de basquete que faz muitas cestas e que é melhor que todos os outros jogadores, de estatura mediana.

Entretanto, o que é comum às duas subversões de papeis é que ambos os personagens saem prejudicados (a Branca de Neve é abandonada sozinha na cena e o jogador de basquete fica preso na cesta), o que invalida totalmente a necessidade de se diversificar os papeis sociais dos atores, diminuindo a importância da causa.

Abaixo, as avaliações dos indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão – como a vinheta de abertura descontraída, a linguagem informal e a repetição do primeiro esquete, que é comum a todos os episódios – conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos. “Agora o comediante vai contar uma piada sem ofender ninguém” é a frase comum a todos os episódios e precede o esquete que traz Fernando Caruso interpretando um comediante que fracassa ao tentar fazer piadas sendo politicamente correto. Presentes nesse início, é possível perceber que a ironia e a afirmação de conceitos podem ser ferramentas constantes no programa.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas teve uma avaliação considerável, visto que em vários momentos há a interação com diferentes tipos de conteúdos e menções a lugares e filmes existentes fora da ficção, como no quadro Cinemón, em que Fernando Caruso interpreta um crítico de cinema e cita filmes reais, como Robocop 3 e Karate Kid 4, e faz referência, de forma satírica, aos verdadeiros programas que se dedicam às análises de filmes. Além disso, o programa também menciona lugares como Casaquistão, Afeganistão e Argentina, e traz Fernando Caruso dialogando com a plataforma da internet ao pedir, aos 15 min e 40 segundos do episódio do dia 15 de maio de 2013, por exemplo, que o telespectador entre no site do Multishow para interagir com o programa e escolher o novo personagem que ele quer ver nos esquetes.

O indicador solicitação da participação ativa do público teve uma avaliação razoável nas emissões aqui analisadas. Isso se deve, principalmente, à linguagem informal utilizada, como já falado, e à interação personagem-público estabelecida quando os personagens olham para a câmera como se conversassem com o espectador. No quadro Dr. Toko, por exemplo, Fernando Caruso interpreta um médico especialista em desvendar os sentimentos de um homem rejeitado por uma mulher, olhando para a câmera como na intenção de ensinar ao público como essa rejeição é sentida pelo homem. Usando palavras como “vocês” e fazendo perguntas como “viu?” quando somente Caruso está em cena, fica claro que o programa deseja interagir com o público e fazê-lo permanecer no canal.

Originalidade e criatividade não são elementos muito presentes em Estranha Mente. A nota fraca foi atribuída ao programa porque este não apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, apenas abordam os temas de forma exagerada, fazendo uso da sátira e da ironia para dar ênfase a assuntos muitas vezes irrelevantes que em nada têm para acrescentar à sociedade.

A seguir, podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Analisando os modos de representação dos personagens na construção das cenas e dos diálogos, e o uso dos recursos técnico-expressivos, que contribuem para a construção de uma narrativa que pode promover a reflexão e o debate de ideias, observamos que Estranha Mente explora pouco essas potencialidades. Como visto, temas relevantes para a sociedade até foram abordados, mas não com a complexidade que merecem, o que acaba fazendo do programa mais uma ferramenta de banalização da televisão e da questão em pauta.

Além de não trazer para o público nada de novo em relação ao formato adotado, o programa utiliza efeitos especiais e roteiro pouco verossímeis (como identificado nos disparos das armas de fogo que não ocasionam nenhum sangramento nas vítimas atingidas) que causam estranhamento no público. Na cena da gravação de um crime exibida dia 2 de outubro de 2012, como já mencionado anteriormente, a partir dos 8 minutos e 30 segundos, Rafael Logan, que interpreta um criminoso, pega nos braços a vítima que está aparentemente morta e começa a mexer seu queixo e lábios como se esta estivesse falando. Escondendo a sua cabeça atrás do corpo da menina, Logan afina a voz e dá início a um roteiro distante da realidade que banaliza a situação de um crime e põe em cheque a competência da classe policial. “Eu não tô morta não, foi tudo um grande mal entendido. Ó, é bom fazer tudo que ele tá mandando. Ele é bem mal”, mascara o criminoso.

A construção desta cena é um exemplo de como o programa banaliza situações sérias antes de chegarem no ponto principal da cena. Ainda assim, quando abordam o assunto chave também acabam banalizando a situação para gerar o riso, invalidando-a por se aproximar do grotesco. Dessa forma, torna-se inexistente na série aqui analisada um ponto de vista diferente em relação à maioria dos programas da televisão brasileira que geram o riso. Sem esse diferencial na experimentação e sem essa complexidade da representação, Estranha Mente se mostra mais um exemplo das tantas “reciclagens” da nossa programação televisual brasileira, visto que não apresenta recursos suficientes para levantar reflexões na sociedade.

Por Luma Perobeli

Canal Ironia

maxresdefaultO canal Ironia foi criado por Oney Araújo – que é quem faz os vídeos – em 16 de Outubro de 2012. De acordo com descrição do canal, há postagem de vídeo toda semana, porém isso não se comprovou. Foram analisadas duas emissões, resultado das postagens do mês de Setembro de 2015; ambas foram classificadas pelo próprio canal como comédia. Além disso, há a divulgação de uma loja online de suplementos no fim dos vídeos e na descrição; existem várias emissões com a temática de academia e estética corporal.

No Plano da Expressão não foi observada uma riqueza de elementos estéticos. Os dois vídeos foram gravados no mesmo formato: a câmera fixa e Oney falando diretamente para o público. Ele se portava de forma natural e falava em linguagem coloquial. A edição foi feita de maneira linear, o que trouxe uma fluidez no decorrer da emissão.

O vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresenta um off falando sobre o que será feito, enquanto Oney na tela, faz menções com a cabeça como se estivesse entendendo o que a voz diz. Já no vídeo “Pergunte ao frango”, havia uma vinheta que aparecia a cada troca de perguntas; a arte consistia em uma inscrição da “Fábrica de frango” e o nome de Oney Araújo abaixo, em um fundo preto. Além disso, as perguntas sempre apareciam em formato de print. O recurso sonoro utilizado foi o som de uma guitarra. No canto inferior direito da tela, sempre havia um ícone com uma pequena foto do criador do canal.

Avaliando o Plano do Conteúdo, os dois episódios apresentaram pouca ampliação do horizonte do público. Isso justifica-se pelo pouco engajamento do programa em assuntos de relevância social ou estímulo à reflexão. Um exemplo de situação em que o tema poderia ser aprofundado, foi no vídeo do dia 21 de Setembro de 2015, em que o apresentador lê uma pergunta que diz: “O que é maior, os músculos do Arnold Schwarzenegger ou os impostos da Dilma?”. A resposta tenta escapar de um debate mais aprofundado. Oney diz que Kai Greene (fisiculturista profissional americano) saiu porque a Dilma entrou em seu lugar e que ela é a nova campeã; a única capaz de enfrentar Phil Heath (um dos maiores fisiculturistas estadunidenses) no próximo campeonato.  Essas citações não apresentam uma ampliação do conhecimento do público que não conhece o universo do fisiculturismo, pois a menos que este faça uma pesquisa, o vídeo não se preocupa em explicar o que cada um dos nomes representa.

Quanto à diversidade de sujeitos representados, esta não constou em nenhum vídeo, já que o único que aparece na tela e consequentemente tem o protagonismo na representação e nas ideias, é Oney Araújo, um homem jovem e branco. Não há uma pluralidade de pensamentos nem mesmo no vídeo “Pergunte ao frango”, em que há a participação de espectadores, pois foi feita uma seleção das questões que apareceriam, sendo escolhidas as mais descontraídas, de acordo com a proposta de Oney.

O indicador desconstrução de estereótipos foi pouco observado. O episódio do dia 9 de Setembro de 2015 foi avaliado como fraco, por ter apresentado um assunto sério sem aprofundamento.  O vídeo começa com o apresentador imitando Mc Melody, uma garota de 10 anos, cantora de funk. No momento da música em que ela daria um falsete – sua marca particular – aparece na tela um porco grunhindo. Oney é irônico ao falar que ela é uma cantora profissional e que tem um agente, ao contrário dele.

Depois de zombar do jeito da garota cantar e até do nome do pai dela – Belinho, seu agente – ele faz um apelo real para as pessoas pararem de “zoar” a Melody. Ele argumenta que ela é uma criança e não tem culpa e nem noção do que faz; mas o importante é que ela está conseguindo o que quer, que é ficar famosa. Oney fala que inclusive gostou muito de sua música nova e chega a cantar um trecho. Diz ainda que desde que o pai dela não a coloque dançando de maneira sensual na frente de “um monte de macho”, está tudo bem. O debate sobre sexualização da garota, assunto que foi pauta midiática e social no momento em que ela fazia sucesso, foi levantado de maneira superficial, por isso a classificação da desconstrução foi baixa.

Já o quesito oportunidade obteve avaliação fraca no episódio do dia 9 e não constou em 21 de Setembro. Pode-se justificar a diferença pelos temas abordados. No primeiro vídeo, em que o assunto era a Mc Melody havia uma atualidade, uma vez que sua imagem estava muito presente nas redes sociais naquele momento. O segundo vídeo, com temática sobre estética e academia, não era uma pauta social especificamente nova.

A seguir, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Falando da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve uma classificação razoável e uma muito boa. Isso justifica-se no primeiro caso (emissão do dia 21 de setembro de 2015) porque o modo como o vídeo foi conduzido tinha chances de confundir o espectador. No início parecia que seriam esclarecidas dúvidas reais do público sobre o mundo da academia, porém as perguntas demonstraram que ao contrário, o vídeo seria somente de comédia e não visava responder seriamente nenhuma questão. Já na emissão muito boa, o próprio nome do vídeo “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, apresentava o que seria feito; de fato Oney tinha a intenção de fazer um falsete, imitando a Mc Melody .

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como muito bom em ambas as emissões, uma vez que no início dos vídeos eram divulgadas as redes sociais do dono do canal. Além disso, existem citações ao longo dos vídeos sobre personagens de séries – power rangers –, fisiculturistas reconhecidos internacionalmente e até cantoras.

A solicitação da participação ativa do público obteve uma avaliação boa e uma muito boa, pois por se tratar de um programa do You Tube, já existe um estímulo que chama o espectador a interagir. No final dos vídeos, a tela se dividia e enquanto Oney continuava falando em uma divisão, nas outras telas apareciam links para outros vídeos e um link fixado para se inscrever no canal.  Também apareciam novamente suas redes sociais. Além disso, o público sempre é convidado a dar like no vídeo.

No dia 9 de Setembro, a emissão termina com o anúncio de uma promoção e uma propaganda de uma loja de suplementos que o patrocina – aparece o site na barra do vídeo. O canal possui um cupom de desconto para os espectadores, o que além de estimulá-lo a assistir os vídeos, estimula a compra.  O vídeo avaliado como muito bom foi o dia 21 de Setembro, onde todo o conteúdo foi baseado nas perguntas dos internautas, que concorreriam a uma camiseta através de um sorteio.

O indicador originalidade/criatividade obteve duas classificações razoáveis. No vídeo “Pergunte ao frango” isso se deu porque a proposta de responder perguntas dos internautas não é nova, porém Oney faz isso com o intuito principal de fazer rir e não de tirar as dúvidas das pessoas, que também não eram sérias. Já na emissão “Desafio Mc Melody – Meu falsete”, a avaliação se justifica pela reciclagem da proposta de tentar reproduzir alguma ação famosa na internet, sendo assim não foi observada uma originalidade considerável.

Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Falando sobre os modos de representação, a atuação de Oney diante da câmera se dava de forma natural, buscando deixar o espectador à vontade. Dentre as emissões, o tema com potencial para um debate de cunho social, não foi tratado de maneira aprofundada, o que reforçou a banalização que o audiovisual geralmente reafirma nesses casos. Também não foi observada uma diversidade de olhares sobre as questões.

No aspecto da experimentação também não houve novidade; os recursos técnico-expressivos utilizados já eram conhecidos no YouTube e as propostas não passavam de reciclagem de formatos já existentes. Existia a possibilidade da participação do público, de modo a tornar o programa mais rico em perspectivas, porém isso foi pouco empregado e a construção da narrativa ficou majoritariamente por conta do dono do canal, Oney Araújo.

Por Letícia Silva

 

Cilada

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Cilada é uma sitcom brasileira exibida pela Rede Globo, entre 2005 e 2009, primeiramente como um quadro do Fantástico e, posteriormente, como a primeira série nacional do canal Multishow, encerrando-se com seis temporadas e 53 episódios. Com aproximadamente 25 minutos de duração, o programa mostra situações corriqueiras que podem se transformar em problemas, ciladas.

Estrelado por Bruno Mazzeo, como o protagonista Bruno, o programa conta ainda com Renata Barbosa, namorada de Bruno na primeira e segunda temporadas, e Débora Lamm, que assume o papel da namorada a partir da terceira temporada. Além desses, outros personagens complementam as cenas, de acordo com o tema tratado no programa, porém, a maioria interpretado pelo próprio Mazzeo e, geralmente, são paródias de celebridades ou outros personagens famosos do audiovisual.

No Plano da Expressão, são características marcantes do programa a narração em off e também a introdução feita no início de três dos cinco episódios analisados, quando Bruno contextualiza o assunto, falando diretamente ao espectador, como em Supermercado, exibido em 20 de outubro de 2006, no qual a primeira fala de Bruno era: “Poluição sonora, poluição visual, filas enormes, tempo e dinheiro gastos três vezes mais que o esperado… Se você ainda não percebeu, isso aqui é uma lista de supermercado. Essa lista tem todos os ingredientes de uma receita perfeita de cilada. Quer dizer, todos não, né, porque em lista de supermercado a gente sempre esquece alguma coisa”.

A partir da sexta temporada, algumas mudanças ocorrem no programa, como a retirada da “Análise Cilada” e da introdução. No entanto, acrescenta-se a apresentação do episódio como “Cilada de hoje” e o respectivo nome da emissão, e a alusão de passagem do tempo com uma ilustração de dia e noite em time lapse.

A vinheta de abertura consegue caracterizar bem a proposta do programa: quando no Fantástico, a abertura exibia o próprio Bruno em “situações-cilada”, como ficar sem água durante o banho ou ser empurrado pela multidão para dentro do metrô quando se está tentando sair. Já no canal Multishow, a vinheta passa a ilustrar uma situação comum (pessoas andando pela rua), mas logo há mudança no clima (alusão de um céu claro se transformando em tempestade), confusão no trânsito, o som estridente de sirenes ao fundo e os pedestres correndo e se esbarrando, passando da calmaria e da mesmice para o caos. A música-tema, no entanto, interpretada por Gabriel, o Pensador, permanece a mesma em todas as temporadas e complementa a sugestão do que será exibido: “Parece que ‘tá’ tudo no esquema, mas ‘tô’ sentindo cheiro de problema/ Sempre tem alguma coisa errada/ Eu falei ‘pra’ você, só pode ser cilada/ Falei ‘pra’ você, mais uma vez, cilada”.

A caracterização dos cenários de cada episódio também marca o programa, como no episódio Supermercado, o qual é bastante fiel a um supermercado real, com corredores, caixas, produtos e outros elementos característicos de tal espaço.

No Plano do Conteúdo, o indicador que mais se destacou foi o de desconstrução de estereótipos, com nota mínima em todas as emissões, pois o programa utiliza exatamente os clichês da vida comum para causar o riso no telespectador. No episódio Nova Chefe, exibido em 17 de outubro de 2009, por exemplo, fica bem claro como vários chavões machistas são empregados nos trocadilhos e piadas de duplo sentido a respeito da nova chefe, e outros lugares-comuns como a “mulher mal comida”, como é dito por outro personagem, e o sentimento de inveja entre mulheres, exemplificado quando Soraya conta a Bruno sobre a nova chefe e logo a chama de “ridícula”, sem nenhum motivo aparente:

BRUNO: “É? Por que?”

SORAYA: “Ah, sem noção, sem critério, totalmente equivocada, Bruno.

BRUNO: “Que foi? Já chegou demitindo?”

SORAYA: “Não! Sombra, perfume, a essa hora da manhã, você acredita?!”

BRUNO: “Ué, mas tem problema isso?”

SORAYA: “Só porque é chefona, só porque é poderosa, se acha. Sem falar que é ‘uó’! Não é, Gerson?”

(Cilada – episódio Nova Chefe 17/10/2009)

Em outros episódios também são colocados em cena vários outros estereótipos, como a “mulher chiclete”, a “mulher feia” que é aquela que os homens só saem quando estão bêbados, e a “faladeira”. No episódio Mulher Chiclete, exibido em 10 de outubro de 2009, é possível perceber algumas tentativas de desconstrução (na primeira afirmação da frase), mas logo na mesma fala, outros clichês são reafirmados:

BRUNO: “Engraçado, muitas mulheres acham que têm que dar uma desculpa por terem transado na primeira noite, como se fosse um crime. Agora, ‘pra’ dizer que vão dormir na sua casa, não precisam de desculpa nenhuma, né! Aí é a coisa mais natural do mundo!”.

Mas em outro momento do episódio, quando Roberta (Juliana Baroni), a namorada, pergunta sobre impedimento no jogo de futebol, Bruno afirma: “Tem gente que acha que esse papo de mulher não entender muito de futebol é folclore. Mas quem acha isso não deve entender muito de mulher”.

No indicador oportunidade, as emissões também não tiveram boa nota, sendo avaliadas como fracas, porque tratam de temas comuns, sem uma abordagem diferenciada ou até mesmo ousada. Apesar de essa ser a proposta do programa, tais temas não despertam outro tipo de reflexão no público senão a que já é arraigada a respeito dos assuntos, o que interfere diretamente no indicador de ampliação do horizonte do público. Nesse aspecto Cilada deixa a desejar quando não aproveita os assuntos que provocam identificação no espectador, para trata-lo de forma diferenciada e agregar novos valores a respeito deles. Desse modo, os episódios também foram considerados fracos nesse quesito.

Sobre a diversidade de sujeitos representados, o programa foi avaliado como razoável, por representar pessoas de diferentes classes econômicas, tanto nos personagens principais, quanto nos secundários. Mas não há representatividade, por exemplo, da diversidade de gênero ou de raça, visto que todos os personagens nos episódios analisados são heterossexuais e brancos. Também não existe diversidade no ponto de vista, pois a maior parte da série é narrada pelo protagonista.

Abaixo é possível conferir o gráfico com as avaliações de qualidade do plano de conteúdo:

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De acordo com os critérios de análise da mensagem audiovisual, o primeiro indicador avaliado, clareza da proposta, recebeu muito boa, nas cinco emissões analisadas. Isso se deve ao formato facilmente repetível do programa, com elementos e personagens que são reconhecíveis ao longo das temporadas e que se adaptam a todos os episódios, independentemente do tema deste.

Já no solicitação da participação ativa do público, três episódios receberam nota boa devido à linguagem adotada pelo programa, de acordo com o público-alvo (jovens e adultos, entre 15 e 30 anos, das classes A, B e C) e pelo uso de expressões e gírias como “pô”, “cara”, “que saco!”, “seu”, em vez de “senhor”, e inclusive alguns palavrões. Também há comunicação direta com o espectador, principalmente por parte do protagonista, através das câmeras.

Alguns elementos gráficos como o “Comentário Cilada” – quando é introduzida uma explicação, ou mesmo um pensamento não dito de Bruno em um plano a parte, uma pequena televisão no canto inferior da tela – e a “Análise Cilada”, que interrompe a cena e insere um breve contexto histórico ou ponderações sobre o tema tratado no episódio, também ajudam nesse indicador por ter a intenção de clarificar o entendimento do leitor sobre a cilada daquele episódio. Os dois episódios que receberam nota 2 não utilizam mais esses elementos, fato que diminui a interação direta com o público.

No indicador originalidade e criatividade, todas as emissões receberam nota razoável, pois é possível perceber um formato diferenciado na sitcom, que opta, por exemplo, pela participação de personagens fora da cena principal, interpretados pelo mesmo ator, um complemento incomum nas séries nacionais. Além disso, o “Comentário Cilada” e o “Análise Cilada”, complementam a linguagem diferenciada característica do programa.

Sobre o diálogo com/entre plataformas, as emissões também foram consideradas razoáveis, pois percebe-se, por exemplo, a paródia e referência ao ator Alexandre Frota, no personagem Alexandre Focker, presente em todas as emissões avaliadas. Além disso, a história foi adaptada para os cinemas, no filme “Cilada.com”, em 2011, mantendo a maior parte do elenco, roteiristas e enredo, no entanto, vários personagens que existiam na série não fizeram parte do longa-metragem. O programa também cita lugares reais do Rio de Janeiro, como bairros e estabelecimentos.

A seguir, podemos observar a nota de cada episódio analisado de acordo com os critérios de qualidade da mensagem audiovisual:

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Considerando as avaliações, o programa Cilada está inserido no gênero comédia, mesmo possuindo algumas características satisfatórias do humor de qualidade, como originalidade/criatividade e solicitação de participação ativa do público.

A sitcom é assim considerada por ainda fazer uso, por exemplo, de vários clichês sociais, muitas vezes com cunho machista ou homofóbico, e por ainda construir personagens grotescos baseados em tais estereótipos, como no caso de Alexandre Focker.

No quesito experimentação visual, Cilada utiliza bem diversos recursos adicionais à cena normal, como “Análise   Cilada”, com animações gráficas que aumentam a interação direta com o público e demonstram preocupação em fazer o espectador entender, de fato, a narrativa do programa. No entanto, o fato de não explorar temas da agenda midiática (oportunidade) ou que estimulem uma discussão, levando a outros pontos de vista (ampliação do horizonte do público), faz com que a sitcom volte ao lugar-comum, sem trazer nenhum diferencial para o âmbito do audiovisual brasileiro.

Por Lilian Delfino

Amada Foca

foto-amada-foca-trailerAmada Foca é um canal de vídeos do YouTube, que se descreve como humorístico. Ele é composto por Bento Ribeiro, Bruno Sutter, Paulinho Serra, Daniel Furlan e Paulinha Vilhena e dirigido por Marcelo Botta e Gabriel Di Giacomo; foi criado em 29 de Maio de 2013. Os horários das postagens são sempre às 20h, sendo que no mês analisado, setembro, a programação se dividia entre o reality Casa da Foca às segundas e o programa Foca News às quintas.

No Plano da Expressão, um dos aspectos de destaque é a tela preta em que aparecem inscrições, como se alguém estivesse digitando informações como passagem de tempo ou explicações para o espectador. Além disso, todos os vídeos tem a marca do canal na parte inferior direita da tela. Uma característica marcante do reality Casa da Foca é a constante participação da produção e do operador de câmera do programa. O elenco interage com quem está nos bastidores, principalmente através de conversas.

Falando sobre o Plano do Conteúdo, o indicativo ampliação do horizonte do público não constou em seis dos sete episódios analisados. Isso acontece porque não são levantados temas de relevância para o espectador ou que trazem algum tipo de reflexão. O único vídeo tido como razoável foi o “Casa da Foca #01”, em que Bento Ribeiro expõe que tem síndrome do pânico. Mesmo sendo um assunto importante por poder contribuir para informar as pessoas, este não foi tratado de maneira aprofundada, talvez até pela proposta do canal de levar situações leves a quem assiste. Ele está triste com a possibilidade do canal acabar e diz que ultimamente sua síndrome do pânico está atacada: “A síndrome do pânico só para quando eu tenho que ‘comer mulher’. Mas agora responsabilidade, sair na rua pra pagar conta, trabalhar mesmo, aí a síndrome do pânico bate violenta, entendeu?”. A forma como é explorada a questão, não amplia consideravelmente a perspectiva do público.

O indicador diversidade de sujeitos representados obteve seis avaliações fracas e não constou em um episódio, devido à falta de pluralidade dos participantes. Eram em sua maioria homens, brancos, jovens e que tinham a personalidade parecida, o que não ampliava a diferença de perspectivas do programa.

Quanto à desconstrução de estereótipos, esta não constou em nenhuma das emissões. Em alguns vídeos ocorre o contrário: os participantes reforçam algum tipo de senso comum. No dia 23 de setembro de 2015, por exemplo, o programa usa como personagens dois velhinhos preconceituosos. A ideia que o episódio passa é de querer reforçar esses comportamentos a fim de fazer o espectador perceber que é prejudicial. Porém, isso é feito com tanta segurança que algumas pessoas podem entender como verdadeiro e acreditar. Este recurso de reforçar para tentar desconstruir não foi utilizado de maneira a ajudar o espectador a pensar, além de deixar confusa a proposta do programa.

O padre representado começa o assunto falando de “homossexualismo” e cita que isso e o food truck estão acabado com a juventude deste país. Seu convidado faz comentários como: “É tudo bicha”, “Isso aí é armação do PT”, “A Rede Globo quer trocar o sexo das nossas crianças”, trazendo opiniões reais, mas contribuindo para uma afirmação de que pessoas mais velhas tem esse tipo de pensamento. Também ridiculariza um antigo caso do jogador Ronaldo com uma travesti, brincando com a situação.

No dia 7 de setembro de 2015 também há outra demonstração de reafirmação de um tipo de preconceito. Bento “leva” o público para conhecer a Casa da Foca e aproveita para mostrar a decoração. Quando ele se depara com uma máscara de origem africana, diz: “Isso que é escroto, foi o Serra (Paulinho Serra) que trouxe. Essa máscara bizarra, uma merda.”. Em outros episódios, Bento também utiliza o termo “viado” como xingamento.

O indicador oportunidade não constou em várias emissões vistas e obteve somente uma avaliação boa. Esta foi no vídeo de 16 de setembro de 2015, um esquete com a temática Rock in Rio. O tema era atual, uma vez que o festival começaria no dia 18 do mesmo mês. No episódio de 23 de setembro de 2015 o assunto principal é o Snapchat, que segundo o personagem do vídeo, é um aplicativo que só serve pra tirar foto de pênis. Esse aplicativo estava sendo muito usado e comentado na época, o que indica a oportunidade. Os outros episódios utilizavam temas que não eram necessariamente pautas midiáticas ou sociais.

Confira os indicadores de qualidade do plano do conteúdo com as respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi bem avaliado na maioria das emissões analisadas. A proposta é clara nos dois formatos, tanto os esquetes quanto os vídeos temáticos da Casa da Foca, têm a intenção de fazer rir mostrando situações cotidianas.  Os únicos vídeos com avaliação razoável foram os do dia 16 e 23 de setembro de 2015 (“Rock in Rio II” e “Juventude em debate”). A justificativa é que nos dois casos a forma narrativa utilizada dá a entender uma intenção de quebra de estereótipo, porém esta é explorada de maneira inversa, reafirmando por meio de falas e ações das personagens, o que pode confundir o espectador. A ironia também é utilizada, mas não a ponto de fazer as pessoas pensarem sobre o assunto.

Falando sobre diálogo com/entre outras plataformas, este foi muito bem avaliado. Pode-se observar que há em vários episódios citações sobre o canal MTV, uma vez que alguns dos integrantes já trabalharam na emissora. Também há em vários vídeos a aparição de bonecos que são personagens de filmes, os quais Bento Ribeiro coleciona. As duas emissões que tiveram maior demonstração desse diálogo foram as do dia 10 e 23 de setembro, que apresentavam paródias de programas televisivos. A primeira parodiava um programa policial, apresentando o fenômeno do Stand Up de maneira sensacionalista, enquanto a segunda buscou imitar o modelo de um programa religioso, que inclusive cita o aplicativo Snapchat.

Em relação à solicitação da participação ativa do público, esta obteve variações entre razoável e boa. Isso se justifica pelo próprio tipo de plataforma utilizada, o YouTube, que possibilita o público participar com comentários, curtidas e compartilhamentos. Além disso, ao final de cada vídeo é fixado um link na tela convidando as pessoas para se inscreverem e assistirem vídeos antigos do canal.  O critério utilizado na diferença das avaliações foi o tipo do vídeo analisado. Quando se tratava de vídeos do reality em que o elenco falava diretamente com a câmera, trazendo uma proximidade com o seu público e tinha a linguagem mais informal com gírias e palavrões, por exemplo, foi tido como bom; uma vez que esse era o diferencial. Nas outras emissões em que a solicitação foi razoável, a avaliação foi dada somente pelo olhar diretamente para a câmera.

O quesito originalidade/criatividade foi avaliado como considerável em quase todas as emissões, principalmente nos episódios de Casa da Foca. Observou-se uma pequena inovação no esquema de câmera, que ficava na mão e não fixa. Sempre mostravam a casa e a reação do participante de maneira natural, sem roteiro, o que ocasiona uma proximidade com o público. Geralmente eles agiam de maneira espontânea, como no episódio do dia 28 de Setembro de 2015, em que Paula Vilhena ao ser surpreendida com a nova casa, diz estar muito feliz, mas não consegue chorar por estar de ressaca

No gráfico abaixo encontram-se os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual com as respectivas avaliações:

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Observando o canal como um todo, nota-se que a representação utilizada não descontrói estereótipos, sendo que algumas vezes até reforça através das ações e falas de alguns participantes.  A atuação dos personagens nos esquetes geralmente eram satíricas e buscavam usar a ironia para representar as situações do cotidiano. Nos episódios analisados essa escolha não foi eficaz, uma vez que ao reafirmar os lugares-comuns, mesmo com a intenção de fazer o espectador pensar, isso poderia trazer a impressão contrária. De modo geral, não foram apresentados temas que davam atenção à diversidade, crítica social ou reflexão.

A experimentação no modo de filmagem nos episódios de Casa da Foca deixava evidente a personalidade dos participantes, uma vez que mostrava-os de maneira natural, sem filtros. Também foi utilizado o recurso da câmera subjetiva, como se fossem os olhos do personagem. As propostas observadas nos vídeos analisados são reciclagem de formatos que já existem. Nos episódios do reality show nota-se somente mudança da temática: a utilizada no canal é a mudança da casa que eles usavam para trabalhar. Já nos esquetes, não se nota nenhuma grande inovação, uma vez que pode-se comparar o que foi feito com esquetes de programas da MTV, por exemplo. Além disso, o público não era parte da construção da narrativa, mesmo que a plataforma seja propícia.

Por Letícia Silva

Aí eu vi vantagem

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Direção: Pedro Antonio Paes
Roteiro: Fil Braz
Elenco: Samantha Schmütz, Luciana Paes, Oscar Filho, Stepan Nercessian, Edmilson Filho , Fafy Siqueira ,Carmem Verônica  e Sheila Friedhofer
Período de exibição: 07/08/2015 – 11/09/2015
Horário: 22:30h
Nº de episódios: 16 episódios

Protagonizada por Samantha Schmütz, a série Aí eu vi vantagem, exibida no canal pago Multishow em 2015, é um spin off de Vai que cola (Multishow, 2013-presente). Na trama, roteirizada por Fil Braz, Jéssica (Samantha Schmütz) vai visitar a amiga Katarina (Luciana Paes) e sua familia, os Barroso de Barros, no centro do Rio de Janeiro. Lá a a promoter descobre que  Barroso de Barros são donos de um cabaré, porém o lugar está quase falindo. Em busca do sucesso e de realizar seu sonho de ser famosa Jéssica (Samantha Schmütz) decide ajudar Katarina (Luciana Paes) com o cabaré e a cada semana propõe novas atrações e eventos para o lugar.

Por ser uma série episódica, as tramas são unitárias e de fácil compreensão. Nesse sentido, mesmo sendo protagonizado por uma personagem que integra o universo ficcional de Vai que cola o spin off  apresenta várias setas chamativas que ajudam o telespectador no desdobramento dos arcos narrativos.

No Plano da Expressão iremos analisar os indicadores: ambientação, caracterização dos personagens, trilha sonora, fotografia e edição.

Apesar da ambientação de eu vi vantagem ser fundamental para o desenvolvimento dos plots e sub plots, os elementos cênicos apresentam pouca verossimilhança com o contexto retratado. Isto é, na trama tanto a casa da família Barroso de Barros quanto o cabaré contribuem para as ações dos personagens, porém os cenários não se aproximam da realidade. Apesar de se tratar de uma série de comédia, que de certa forma permite que o cenário seja mais lúdico, os elementos (móveis, eletrodomésticos, papéis de parede, objetos de decoração, etc)  não reproduzem, em nenhum momento, uma casa do centro do cidade, mas um cenário fictício de um programa televisivo.

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O mesmo acontece no indicador caracterização dos personagens , os figurinos reforçam os arquétipos de cada personagem, facilitando o entendimento do telespectador, entretanto as roupas são caricatas. Como, por exemplo, o personagem Oswaldo (Stepan Nercessian), que é descrito na abertura da série como um botafoguense fanático e em todas as cenas dos episódios de eu vi vantagem usa uma camisa do Botafogo. Nesse sentido, a identidade e o perfil dos personagens é constante reforçada pelo figurino, porém de uma maneira didática e de distante da realidade.

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Os figurinos de Katarina (Luciana Paes), que é descrita como uma jovem tímida também refletem de modo caricato a sua personalidade. Um ponto que chama a atenção neste indicador é o sotaque dos personagens, apesar de se passar no centro do Rio de Janeiro e retratar uma família tradicional do lugar, somente Jéssica (Samantha Schmütz) adota a prosódia do estado. Os outros personagens têm sotaque paulista e mineiro, se distanciando do ‘s’ puxado dos fluminenses. Também não são adotadas, de modo geral, gírias e expressões mais usadas na região. O aspecto tira a verossimilhança de todo o universo ficcional, distanciando a trama da ambientação.

Apesar de ter um cabaré como ponto central dos acontecimentos narrativos, a trilha sonora de eu vi vantagem é composta, em sua maioria, por músicas instrumentais. Os efeitos sonoros são usados para contextualizar as situações da história como, por exemplo, as brigas entre os personagens, os momentos de suspense, etc. Em alguns episódios, principalmente nas sequências do cabaré, são usadas músicas populares dos anos 1980 e 1990, mas nada que contribuía diretamente para o desdobramento da trama.

A fotografia da trama do canal pago Multishow é naturalista. Nesse sentido, a iluminação das sequências não apresenta nenhuma variação e/ou influencia no desenvolvimento dos arcos narrativos da atração.

Por se tramar de uma série episódica os acontecimentos narrativos de eu vi vantagem seguem uma estrutura dividida em cinco atos: equilíbrio, interrupção, clímax, resolução de conflitos e retorno do equilíbrio. Desta forma, o programa apresenta uma edição linear, norteada por apenas uma temporalidade, seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos.

No Plano do Conteúdo iremos destacar os seguintes indicadores: intertextualidade, escassez de setas chamativas, efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling.

No indicador da intertextualidade, é importante ressaltar as constantes referências a artistas e grupos musicais da cultura pop. Em várias sequências a personagem Jéssica (Samantha Schmütz) faz alusão a cantoras como Lady Gaga, Rihanna, etc.Nesse sentido, apesar de não ser fundamental para a compreensão da trama as referências aprofundam o universo ficcional, enriquecendo a contextualização do programa.

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O indicador escassez de setas chamativas não foi observado em eu vi vantagem. A trama do Multishow é norteada por cartazes narrativos dispostos convenientemente para ajudar o público a entender o que está acontecendo. O recurso está presente não só nas cenas e diálogos dos personagens, mas na abertura da atração. Além do nome dos personagens serem acompanhados de definições que resumem sua personalidade, a sequências de abertura é narrada pela voz em off de Jéssica (Samantha Schmütz). A protagonista explica, didaticamente ao telespectador, não só o perfil dos integrantes da família Barroso de Barros, mas contextualiza os arcos narrativos centrais da história.

Obs

Os indicadores efeitos especiais narrativos e recursos de storytelling também não foram observados na série episódica.Apesar de ter clímax e reviravoltas, em nenhum momento o telespectador é obrigado a reconsiderar tudo o que viu até então.

Por Daiana Sigiliano

* Todas as imagens da minissérie usadas nesta análise são capturas de tela.

Minha Nada Mole Vida

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Dos criadores Luiz Fernando Guimarães, Alexandre Machado e Fernanda Young, Minha Nada Mole Vida é um seriado de televisão que estreou na Rede Globo em 7 de abril de 2006, com direção de José Alvarenga Jr e produção de Daniel Vincent. No ar em 2006 e 2007, o programa conta com 23 episódios de 30 minutos cada, divididos em três temporadas, exibidos todas as sextas-feiras, às 23h. Protagonizado por Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) e Silvana (Maria Clara Gueiros), o seriado traz o dia a dia de Jorge Horácio com o filho Hélio (David Lucas) e a ex-mulher Silvana, que o obriga judicialmente a ficar mais tempo com o filho.

Fazendo uma sátira aos programas que se dedicam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., Jorge Horácio é um jornalista que comanda o programa Jorge Horácio By Night, atração comumente vista por Silvana, a ex-mulher, que torce para que o ex cometa gafes ao vivo. Paralela à sua vida de apresentador de TV, a trama mostra a guerra travada entre os adultos por causa de Hélio, o filho do casal, de apenas 10 anos, que vive no meio das brigas, discussões e implicâncias dos pais.

No Plano da Expressão, alguns aspectos chamam a atenção do espectador, como a vinheta do programa, o ritmo, a linguagem e o cenário. Na abertura, pai e filho fazem uma dança sincronizada da música de fundo Não é Mole Não, do grupo carioca Funk n’ Lata, que dialoga não só com o nome do humorístico, mas também com o seu conteúdo, composto por situações embaraçosas, complicadas e cheias de confusões que provam que a vida do protagonista Jorge Horácio não é fácil. Para o fechamento do programa não há vinheta final, pois os créditos aparecem em letras brancas, na parte de baixo do plano, enquanto os últimos segundos do episódio passam na tela.

Com relação ao código sintático, o ritmo do programa nem sempre é linear, como no episódio do dia 12 de maio de 2006, quando no primeiro minuto, após uma cena entre uma mulher desconhecida e Hélio, aparece na tela a frase “Poucos dias antes…” em letras brancas e fundo preto, deixando evidente que o que será mostrado a seguir já aconteceu em momento anterior. Somente no último bloco do programa, com a frase “Naquela noite, então…”, também em letras brancas e fundo preto, é que o tempo linear da trama é retomado, com parte da cena anteriormente mostrada sendo passada de novo.

Quanto à linguagem utilizada pelo programa, a tentativa é de aproximação com o público jovem, já que aposta num roteiro coloquial, com expressões e gírias comumente faladas por esse tipo de espectador. Palavras de baixo calão também se incluem nas falas dos personagens, como cagando, cassete, vagabunda, cagada, imbecil e otário. Além dos termos chulos, frases de duplos sentidos também são muito proferidas, como no diálogo a seguir, exibido no mesmo episódio citado anteriormente, em que uma conversa sobre profissões se inicia na mesa de jantar, e o foco do assunto é a garota de programa Sônia:

JORGE HORÁCIO: A Bia Sônia faz parte de uma geração de mulheres que optou por ralar, e muito.
SÔNIA: É verdade, eu sempre ralei muito.
JORGE HORÁCIO: Ela rala demais.
SILVANA: Olha, que interessante. Você tá ralando com o que agora?
JORGE HORÁCIO: Computação. A Bia Sônia acabou de criar uma internet que vai substituir essa nossa internet. Ela vai ficar rica. Muito rica.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

Quanto ao cenário, o seriado se desenvolve em dois lugares principais: o apart-hotel em que Jorge Horácio vive (um ambiente pequeno, mas confortável e arrumado) e as festas que o personagem cobre (geralmente com fundo escuro, com convidados e garçons passando). Também é característico do programa mostrar a frente do prédio do apart-hotel de Jorge Horácio, em câmera contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima) com leve aproximação, antes de mostrar uma cena no referido apartamento. Situações como essa também acontecem no início ou no meio do episódio em outros lugares, como no condomínio de Silvana, para situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará. No dia 4 de maio, por exemplo, no episódio intitulado “Noite de queijos e vinhos”, a história se inicia mostrando a imagem de um prédio de dois andares, de cor marrom e janelas abertas, com barulhos e vozes de crianças ao fundo. Com isso, entendemos que a trama começará num colégio, o que fica comprovado quando na cena seguinte pai, mãe e filho estão sentados numa mesa olhando para uma senhora que fala sobre as notas de Hélio.

Um aspecto do plano da expressão que é marca do programa Jorge Horácio By Night e que se tornou marca também do Minha Nada Mole Vida, é a estrofe de sucesso Everybody dance now, do grupo C&C Music Factory, sucesso das pistas de dança dos anos 1990. Comumente cantada para Jorge Horário quando as pessoas o reconhecem, o trecho é uma marca do personagem porque é o refrão da música de abertura do seu programa, o Jorge Horácio By Night. E, apesar de na abertura do seriado Minha Nada Mole Vida a música ser outra, essa metalinguagem utilizada caiu no gosto popular e fez de Everybody dance now uma expressão muito conhecida e falada por diversos grupos de amigos da vida real.

Das emissões analisadas, três eram de 2006 e duas de 2007, e as únicas mudanças aparentes foram nas cores de fundo da abertura do programa, que antes eram brancas e em 2007 ficaram coloridas, com um mix de cor que acompanha o ritmo da música de fundo, e a troca do ator que interpreta o cinegrafista da trama, que antes era o Cabreira, personagem de Carlos Mariano, e que em 2007 passou a ser o Pascal, interpretado por Pedro Paulo Rangel.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público se deu de forma razoável em quatro episódios e de forma considerável em um. O programa aborda novos conceitos, opiniões e propostas para o público, mas não de uma forma que gere de fato a reflexão do seu telespectador. No episódio Procura-se uma namoradado, razoável para esse indicador, por exemplo, um diálogo entre pai e filho se inicia e levanta a possibilidade de reflexão (ainda que pouca, devido ao curto tempo) nos pais que não medem direito as palavras que falam para os filhos, que acabam assimilando e aprendendo os mesmos modos dos pais.

JORGE HORÁCIO: Então vamos jogar juntos, joga aqui comigo.
HÉLIO: Claro que não, você tá maluco?
JORGE HORÁCIO: Ué, por quê?
HÉLIO: Ué, porque você é ruim pra cassete.
JORGE HORÁCIO: Em primeiro lugar: falar “pra cassete” é feio, tá? Segundo lugar: ruim pra cassete é a vovozinha, por parte de mãe.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

No único episódio em que esse indicador está mais presente, intitulado Noite de queijos e vinhos, a reflexão é facilitada pelo diálogo da última cena, que traz uma representante do colégio questionando Hélio e seus pais sobre a sua nota máxima na prova de matemática.

SENHORA: Eu só gostaria de saber quem foi a pedagoga que fez com que o aluno que nunca tirou mais do que 5,5 em matemática, de repente tire um 10.
HÉLIO: Foi a arrumadeira. E ela não é pedagoga: ela é bissexual.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Noite de queijos e vinhos 04/05/2007).

Com todo o decorrer da trama dessa emissão, que aborda a diversidade sexual, mais a resposta de Hélio à senhora, o pensamento do público foi estimulado à reflexão de que a orientação sexual de uma pessoa nada interfere na sua inteligência ou sabedoria. Talvez o horizonte do público tenha sido incrementado ao ponto de fazê-lo ampliar o seu repertório cultural, enxergar novas formas de vida e quebrar paradigmas e preconceitos.

O seriado não faz o uso abusivo de estereótipos, como geralmente é visto nos programas de humor. O interesse em gerar o riso através da representação fiel e verossímil do cotidiano de pessoas comuns é maior que o de se fazer comédia pela representação deturpada, exagerada e distorcida de tipos já preconcebidos pela sociedade. O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi observado em todas as emissões analisadas, mas com avaliações razoáveis. As duas formas do uso do estereótipo (para afirmar e desconstruir) são identificadas, porém, observamos que no episódio anteriormente citado, o estereótipo de afirmação está presente em vários momentos no decorrer da trama, mas que a última fala proferida (descrita acima) vem para desconstruir esses estigmas e modificar as mentes preconceituosas.

Uma situação em que o estereótipo de afirmação está presente é na fala de Silvana, quando ela está no elevador ao lado de uma mulher quieta e desconhecida e começa a falar sobre a recepcionista Bianca, que é lésbica: “Hum. Pra aquela sapatinha da recepção não tá lá aposto que ela tá naquela bagunça, no apartamento do Jorge Horácio, né. Hum. Sapata é fogo, né. Impressionante. Como é que pode gostar de mulher, gente. Só de pensar nisso me dá uma angústia”. Ao associar a orientação sexual de Bianca com “bagunça”, vemos que a fala de Silvana reforça o estereótipo de que lésbicas se relacionam com várias pessoas ao mesmo tempo. A mesma coisa acontece na fala de Pascal, quando ele responde a Jorge Horácio que não vale a pena tentar conquistar Zenaide, que é bissexual: “Ahh não, pelo amor de Deus. Já namorei uma bissexual e não vale a pena. É o dobro de chance de você ser chifrado”. Com essa fala de Palcal, vemos que ele também reforça um estereótipo ao condicionar a traição de uma pessoa à sua orientação sexual e não ao seu caráter.

Ainda no Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados foi bem variado, tendo se mostrado razoável em uma emissão; bom em três; e muito bom em uma. No geral, os episódios são bem heterogêneos quanto à representação dos diferentes grupos sociais, principalmente no que se refere à cultura, à sexualidade e aos pontos de vista. No episódio que mais se destaca no plano do conteúdo (exibido no dia 4 de maio de 2007), por exemplo, é possível identificar a presença desses três fatores: na cultura, a diversidade está no contraste entre os personagens fixos da trama, Jorge Horácio, Zenaide e Pascal, que fazem parte de uma equipe de televisão, e os personagens convidados, moradores do subúrbio que compõem a festa Noite de queijos e vinhos, e que não entendem as expressões usadas pela equipe de gravação; na sexualidade, a diversidade é trazida à tona com a atuação de Bianca e Zenaide, mulheres lésbicas e bissexuais, respectivamente; e nos pontos de vista a diversidade está nas diferentes opiniões emitidas sobre um determinado assunto, facilmente visualizados nas discussões e discordâncias de Jorge Horácio e Silvana.

Quanto ao indicador de qualidade oportunidade, a avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato de Minha Nada Mole Vida abarcar assuntos cotidianos da vida de uma pessoa, incluindo seus problemas, questionamentos e prazeres na vida social ou familiar. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão, como a vinheta de abertura descontraída, o figurino moderno e a linguagem informal, conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos, que se baseiam na comédia gerada pelo dia-a-dia de um atrapalhado apresentador de TV. No começo de todo episódio, por exemplo, na primeira cena sempre é apresentado ao público um problema da relação de Jorge Horácio com sua ex-mulher ou filho, ou um problema que envolve o seu trabalho. Basendo-se em uma dessas duas questões, portanto, o programa deixa sempre bem clara a sua proposta e já na primeira cena o espectador entende o que será tratado no decorrer do episódio.

Inovação e experimentação não são o carro-chefe do humorístico, já que tinha o mesmo formato de diversos outros programas já existentes e conhecidos do público, como Os Normais, da mesma emissora, que também era protagonizado por Luiz Fernando Guimarães e tinha a mesma equipe de roteiro e direção, além de também focar no dia a dia das pessoas, mais especificamente no de um casal de noivos. Entretanto, com relação à originalidade/criatividade, podemos dizer que Minha Nada Mole Vida foi razoável, pois o modo como é elaborada a história pode gerar curiosidade no público e o instigar a ver os acontecimentos e peripécias do desenrolar da trama.

Solicitação da participação ativa do público também foi razoavelmente identificada nas emissões. Isso se deve, principalmente, à linguagem coloquial utilizada e à estreita relação programa-espectador estabelecida quando a tela que o público vê é a mesma tela que o espectador do Jorge Horácio By Night vê. Esso mescla de ficção e realidade acontece para interagir o público, e fica evidente quando na tela Jorge Horácio é mostrado olhando para a câmera do seu cinegrafista, em plano médio ou plano americano, e posteriormente a sua imagem em grande plano, com o logo da emissora a que pertence o programa de Jorge Horácio no canto inferior direito da tela.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas não foi observado no decorrer dos episódios analisados, mas foi considerado “fraco” apenas pelo fato de o programa dialogar com a vida real e fazer referência implícita aos programas que se dedicavam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., que na época apresentava o Programa Amaury Jr. na RedeTV!, que tinha o mesmo formato que o Jorge Horácio By Night. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual:

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Como aqui procuramos demonstrar, no modo de representação a atuação dos personagens e a construção dos diálogos de Minha Nada Mole Vida geram o riso e reforçam estereótipos, mas deixa claro que de um modo geral o programa têm a intenção de levantar discussões e assuntos pertinentes da vida em sociedade. Entretanto, tais temas abordados, apesar de relevantes, podem não ter sido suficientes para conduzir o espectador a uma reflexão mais profunda, visto que acontecem em tempo curto ou apenas “jogam” a discussão para o público, sem se estender muito, deixando que ele mesmo tire suas próprias conclusões.

Quanto aos modos de experimentação, o uso dos recursos técnico-expressivos se dá de forma a aproximar o espectador. O refrão da música de abertura do programa Jorge Horácio By Nigh, que marcou o personagem de Luiz Fernando Guimarães na vida real, e a mescla de ficção e realidade comprovada quando a imagem vista pelo público de Minha Nada Mole Vida é a mesma que a vista pelo público do Jorge Horácio By Night, evidencia a tentativa de inserir o espectador no processo narrativo, para que assim as chances de envolvimento e reflexão do mesmo sejam aumentadas diante das discussões levantadas pelo programa.

Por Luma Perobeli