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Tapas & Beijos

Leia a análise dos indicadores de qualidade de Tapas & Beijos

Tapas & Beijos é uma série de televisão brasileira exibida pela Rede Globo de Televisão entre 5 de abril de 2011 e 15 de setembro de 2015. Protagonizada pelas atrizes Fernanda Torres e Andréa Beltrão, a comédia romântica tem a direção de Maurício Farias, produção de Cláudio Paiva, e nomes como Vladimir Brichta, Fábio Assunção, Otávio Müller, Natália Lage e Daniel Boaventura no elenco. Com uma duração média de 45 minutos cada emissão, a série exibiu 169 episódios e foi vencedora de vários prêmios, entre eles o Prêmio Extra de Televisão, o Troféu APCA, o Troféu Imprensa e o Arte Qualidade Brasil Televisão.

A série conta as peripécias do dia a dia de duas amigas de mais ou menos 40 anos de idade, trabalhadoras, independentes e francas, que vivem cercadas por confusões em suas vidas amorosas, mas que ainda assim tentam ser felizes e sonham com seus príncipes encantados. Ao longo das cinco temporadas em que esteve no ar, a série passou por muitas mudanças. Num primeiro momento, por exemplo, Fátima (Fernanda Torres) e Sueli (Andréa Beltrão) são solteiras, dividem apartamento no Méier e trabalham na Djalma Noivas, uma loja de Capacabana que aluga vestidos e artigos para cerimônias de casamento; posteriormente, as amigas se interessam por Armane (casado) e Jorge (dono de uma boate de strip-tease), respectivamente, e acabam casando com eles; na quarta temporada, Fátima e Sueli percebem que seus casamentos estão desgastados e põem fim às suas relações, tentando seguir a vida a diante, mas tendo diversas recaídas com os ex; e no último ano em que foi exibido, em 2015, as protagonistas pedem demissão da “Djalma Noivas”, após 15 anos, para abrirem o seu próprio negócio: um brechó chique.

No Plano da Expressão, muitos aspectos se destacam. A vinheta de abertura, por exemplo, traz em todas as temporadas uma animação em que noivos no topo de um bolo aparecem em situações de conflito, e no final a cabeça do homem desmonta de seu corpo e cai sobre o bolo. Na vinheta final, os créditos em cor branca sobem na tela enquanto são mostradas as últimas imagens do episódio, que diminuem de tamanho e ficam de lado. Quanto aos efeitos sonoros, a série traz barulhos de carros e buzinas quando os personagens estão na rua, barulhos característicos de cada cenário e músicas de fundo que condizem com a temática da obra.

Os cenários que compõem a trama são bem diversos, como o apartamento de Sueli, o apartamento de Fátima, a boate La Conga, a loja Djalma Noivas, a loja de importados do Armane, e o restaurante do seu Chalita. Sobre a linguagem, a série adota um vocabulário informal, com palavras como sacanagem, cassete, cafajeste, piranha, gostosa, baranga, cretino, pilantra e bunda, além de expressões metafóricas e cotidianas, como a proferida por Fátima no episódio do dia 10 de junho de 2014: “minha relação é tão quente, mas é tão quente, que ela até piora o efeito estufa”.

No decorrer de alguns episódios analisados, verifica-se que mershandising não é uma prática incomum. Marcas como Fiat, Citroën e Kia são identificadas na trama, às vezes até não exclusivas no mesmo episódio, e sempre compondo o cenário, ao fundo das personagens. Outros tipos de propagandas também são feitas, como a do filme S.O.S Mulheres ao Mar, que naquele momento estava passando nas salas de cinema do Brasil. Quanto à composição gráfica, chama atenção as passagens de uma cena para outra, em que muitas vezes transitam na tela figuras geométricas mais transparentes que caracterizam o Rio de Janeiro, como as famosas paisagens ou formatos de calçadas.

No Plano do Conteúdo, o indicador ampliação do horizonte do público deixou a desejar. Somente os episódios da primeira e da última temporada são considerados razoáveis e, os demais, fracos. Isso se deve ao tipo de tema abordado pela trama, que é preferencialmente o desenrolar do dia a dia de uma pessoa que acorda cedo todos os dias, pega condução lotada, trabalha longe de casa, e tem que enfrentar os percalços da rotina. O episódio da última temporada, por exemplo, é razoável nesse indicador porque trata de temas relevantes de forma razoavelmente eficaz, como o suborno de representantes da lei, o exercício ilegal de uma profissão, e o racismo intrínseco nas pessoas.

No indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados, vemos novamente um destaque para o episódio de 2015, que usou diferentes tipos de personagens para a encenação dos temas mecionados acima, como um fiscal do comércio, um dentista, um advogado, duas senhoras idosas, duas mulheres de meia idade, cinco crianças, um bebê de colo, um vendedor ambulante, patrões e empregados. Das emissões analisadas, quatro são razoáveis nesse indicador, e apenas essa é considerada boa.

No indicador desconstrução de estereótipos, as notas também não são muito altas. Entretanto, apesar de não desconstruir estigmas, Tapas & Beijos não os reafirma constantemente. No episódio do dia 12 de novembro de 2013, intitulado Lembranças do passado geram brigas no presente, porém, é uma exceção. Aos 7 minutos e 50 segundos acontece o seguinte diálogo entre Sueli e Jurandir:

JURANDIR: Oi Sueli. A gente precisa levar um papo sério.

SUELI: Tem que ser agora?

JURANDIR: É. A Bia me falou sobre o lance de você ter iniciado o pequeno PC.

SUELI: Poe que, eu também fui a sua primeira vez?

JURANDIR: Que… você foi a segunda.

SUELI: Que desculpa de mulherzinha. Vai, desembucha Jurandir, que eu tô ocupada.

(Tapas & Beijos – episódio Lembranças do passado geram brigas no presente 12/11/2013)

Com essa última fala de Sueli, vemos a inferiorização da mulher: o uso da palavra “mulherzinha”, uma tentaiva do diminuivo de “mulher”, associado a uma atitude errada (inventar motivos para algo), deixa claro o pressuposto de que mulheres mentem e agem de forma indevida.

E no último indicador de qualidade do plano do conteúdo, oportunidade, vemos uma variedade na avaliação: das cinco emissões, duas são fracas nesse indicador; duas, razoáveis; e uma, boa. Sobre as fracas, a justificativa é por abordar temas que ocorrem no dia a dia das pessoas, mas não estão na agenda midiática. E sobre a boa, a jusificativa é por abordar temas recorrentes na sociedade, que constantemente são vistos também nas mídias informacionais a que temos acesso, como, por exemplo, o racismo, que ainda é uma questão a ser vencida e veio na trama representada pela dificuldade que as pessoas têm para agirem de forma natural diante de um pai negro com um filho branco. Abaixo, os indicadores de qualidade do plano do conteúdo, com suas respectivas avaliações:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas obteve avaliação razoável em todos os cinco episódios analisados devido à pouca interação do programa com os diferentes tipos de plataformas e conteúdos. Na série, o que constantemene acontece é o diálogo implícito com filmes que estão no cinema da vida real, a menção a bairros reais do Rio de Janeiro, e um dos sites da Rede Globo, que aparece no final dos créditos de cada episódio.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi fraco em todas as emissões. Isso se deve, principalmente, ao formato do programa, que não é aberto à opinião do público e conta com uma equipe de roteiristas já formada. Na série, um dos únicos exemplos de interação direta entre personagem e público está aos 28 minutos do episódio do dia 10 de junho de 2014, intitulado Sueli é acolhida por Fátima e Armane, quando Sueli, sozinha na cena, olha para a câmera, aperta os olhos e morde a boca, como se estivesse mostrando ao público como ela está feliz com a situação de amor entre Fátima e Armane, que incluiu naquele momento gritos, tapas e gemidos.

No quesito originalidade/criatividade a série foi razoável em todas as emissões analisadas. Contudo, extrapolando o campo de visão dessas emissões, percebe-se que a série em geral é importante para a ampliação do horizonte do público quando aborda na trama as questões LGBT, até então original por trazer, a partir da terceira temporada, a personagem Stephanie, interpretada por Rafael Primot, que é uma travesti ingênua que se relaciona com Tijolo (Orã Figueiredo), o sócio de Jorge (Fábio Assunção) na boate.

O último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, ao contrário dos anteriores, foi muito bem pontuado. Clareza da proposta foi assim avaliado devido à transparência dos seus objetivos e à explicitação do formato com o qual o programa trabalha. A linguagem coloquial, por exemplo, e o fato de o episódio sempre começar mostrando as ruas da cidade do Rio de Janeiro, as pessoas passando, trabalhando ou conversando na calçada, a frente de algumas lojas e os carros passando na rua geram uma identificação do público com o programa, que já no início se situa e entende sobre onde a narrativa se passará.

A primeira canção que é apresentada também contribui para essa clareza, já que a letra geralmente dialoga com a temática que será abordada em seguida. No episódio exibido no dia 10 de junho de 2014, por exemplo, o trecho “ele já não gosta mais de mim, mas eu gosto dele mesmo assim, que pena, que pena…” da música Que Pena, de Marisa Monte, introduz a história em que Sueli, separada de Jorge, tenta se recuperar com outros homens e vê o ex se relacionando com Flavinha, uma narrativa, portanto, que se relaciona com o trecho da música cantado no início. Abaixo, a avaliação recebida por cada indicador de qualidade da mensagem audiovisual.

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Por levantar questões importantes sem explorá-las de forma aprofundada e abrangente, podemos afirmar que Tapas & Beijos é uma série que apresenta características de qualidade em algumas emissões, mas que não pode ser assim considerada majoritariamente. Entretanto, é inegável a identificação e aproximação que o público teve com a série, fazendo com que ele se visse e se inspirasse nas personagens, espelhando-se nos seus desejos e objetivos.

Por Luma Perobeli

Quinta Categoria

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Quinta Categoria foi um programa exibido pela MTV Brasil pela primeira vez em 13 de março de 2008. Dirigido e escrito por Ivan VonSimson, consistia na apresentação de jogos improvisados a partir de temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa. Durante as quatro temporadas em que foi transmitido, o game-show foi ao ar todos os sábados, às 20h, com duração média de 45 minutos, e destinava-se ao público jovem, de 15 a 30 anos de idade, das classes A, B e C. Os jogos são elaborados pelo grupo Desnecessários (Paulo Serra, Rodrigo Capella e Tatá Werneck), e conta também com a participação de um artista convidado. Tendo as mesmas características do programa Whose Line Is It Anyway?, criado em 1988 na rádio BBC, no Reino Unido, o formato do Quinta Categoria se instalou nas telinhas do Brasil após o sucesso da Cia. Barbixas de Humor no teatro, que já adotava o gênero.

No Plano da Expressão, são destaques os códigos visuais e gráficos, referentes ao cenário e à vinheta de abertura, respectivamente. O amplo palco de apresentação dos artistas, composto por paredes de tijolos, vigas de ferro, grandes janelas ao fundo, placas de trânsito, um telão à esquerda do plano, uma caixa de energia à direita do plano, e caixas de madeira posicionadas ao lado das cadeiras que ficam alinhadas ao fundo, conferem ao programa um ambiente moderno e descontraído, despreocupado com a beleza artística do cenário. E a vinheta de abertura, trazendo um robô vestido com roupa amarela e azul, que participa de uma série de situações engraçadas e absurdas de maneira tosca, já anuncia ao espectador o estilo do programa, que utiliza o grotesco e o caricato para gerar o riso. A composição gráfica também chama a atenção, pois o logotipo e as letras dos grafismos de rodapé dialogam com o mesmo aspecto geométrico e despojado do cenário e da vinheta de abertura, sendo vistos, portanto, como um conjunto de elementos do plano da expressão essenciais para a identificação do público jovem com o programa.

No Plano do Conteúdo, os indicadores de qualidade oportunidade e desconstrução de estereótipos foram pontuados. Partindo do conceito de que a oportunidade refere-se, entre outras coisas, à atualidade dos temas, podemos considerar o Quinta Categoria um programa atual porque utiliza as sugestões dos espectadores dadas na hora, fruto das vivências, experiências e concepções de cada um. Analisando o estereótipo, podemos considerar que o programa utiliza esse recurso para a desconstrução, afirmação ou para uma mistura das duas formas. No episódio do dia 5 de novembro de 2011, por exemplo, quando aos 18 minutos e 25 segundos Rodrigo Capella anuncia o jogo da cena em funk, ele estereotipa as pessoas que escutam o estilo musical funk (“Ahh, é o jogo da cena em funk, pra você que é carioca, ou você que tem uma gangue, ou você que faz parte de uma facção criminosa”) e depois, ao perceber a asneira que falou, tenta desconversar o que havia dito (“Não tem nada a ver com isso rapaz, que aqui é só um funk, é só uma brincadeira”), fazendo, portanto, a afirmação e a desconstrução do estereótipo na mesma frase.

O indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados obteve bons resultados, pois, como já falamos anteriormente, o programa é inteiramente elaborado por temas sugeridos pelo público, pertencente às diferentes classes da sociedade. Apesar de a plateia ser constituída na sua maioria por jovens e brancos, há pessoas de todas as idades, cores e estilos, que são selecionadas pelos artistas e têm voz no programa. Porém, no indicador ampliação do horizonte do público, ao contrário do anterior, os números já não existem, pois as propostas sugeridas pela plateia (e até mesmo as selecionadas do site), não são polêmicas, contraditórias ou férteis, no sentido que podem fazer os telespectadores refletirem ou debaterem ideias relevantes que contribuirão para ampliar o seu repertório cultural ou sua visão de mundo. Confira, abaixo, a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade solicitação da participação ativa do público foi muito identificado em todos os episódios. Isso se deve, além da comunicação coloquial estabelecida entre os artistas e a plateia, ao formato do programa de se constituir inteiramente pelos jogos de improviso com temas sugeridos pela plateia e pelo público de casa, que interage virtualmente. No episódio exibido no dia 21 de junho de 2011, aos 12 minutos e 44 segundos, por exemplo, Rodrigo Capella vai até a plateia para pegar um tema:

RODRIGO: Vou pegar um tema ali com o meu amigo aqui… Pô, vai ser difícil de passar, mas não problema. Como é teu nome?

ESPECTADOR: Lucas.

RODRIGO: Você me chamou até aqui, se você não tiver um tema bom, você tá ferrado, hein. Ô Lucas, fala pra mim uma briga entre duas pessoas, porque que tava rolando essa briga, e essas pessoas, fala aí quê que você veio pensando de casa.

ESPECTADOR: Ahh, um índio assim todo barrigudo…

RODRIGO: Um índio?

ESPECTADOR: Todo barrigudo.

RODRIGO: Um índio barrigudo tá brigando por quê?

ESPECTADOR: Porque ele queria os pataxó todo em volta da fogueira.

RODRIGO: Cara, um índio barrigudo brigou por que queria os pataxó em volta da fogueira. Aí você vê… mas foi bom. Como é teu nome? Lucas, né? Eu falo, não usa droga, galera, mas vocês insitem… Valeu, valeu.

(Quinta Categoria – episódio 21/06/2011)

Para a participação do público de casa, o jogo das frases exemplifica bem essa solicitação, pois nele os jogadores têm que improvisar algo relacionado a uma frase enviada pelo espectador para o site do programa. Abaixo, aos 9 minutos e 36 segundos do mesmo episódio, a fala de Paulinho Serra para explicar o jogo:

Muito bem, então se você é do Quinta Categoria e tá aqui sempre, você sabe que quem manda são vocês as frases agora no nosso programa. Então entra no site, manda a sua frase por que ela vai ser selecionada, ou não [...]. então vamos ver qual é a frase e quem mandou: ‘Maneiras de quinta para contar para seu pai que você está grávida’. Foi a Laura Juliani, que tá grávida, daqui de São Paulo. (Quinta Categoria – episódio 21/06/2011).

Além da solicitação da participação ativa do público através de temas dados por eles, pessoal ou virtualmente, outro método bastante usado pelo programa é o da participação do espectador na própria cena, como acontece no jogo da foto e no jogo serenata de quinta.

No indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas, os resultados também foram bastante satisfatórios. Além de aparecer na tela a referência do Twitter de cada humorista na sua primeira fala, menções a outras plataformas ao longo do episódio também são comuns, como ocorre no início do episódio do dia 2 de julho de 2011, com a fala de Paulinho Serra: “Hoje, está de arrepiar os culhões. Então, vamos colocando aí no Twitter ‘#QUINTACATEGORIA’. Vamos bombar de palmas também a presença dos Desnecessários”.

Ainda na mensagem audiovisual, o indicador clareza da proposta foi muito bem avaliado em todos os episódios da amostra. Uma das formas utilizadas para deixar claro o objetivo do programa de fazer o público rir com os jogos de improviso, é pela apresentação de Paulinho Serra logo no início de cada episódio, quando ele profere frases como “embarque no mundo do improviso” ou “o programa mais improvisado da televisão brasileira” (falada em três das cinco emissões analisadas). Além dessa, a outra forma de esclarecer para o público o tipo de conteúdo que está assistindo é explicando as regras de cada jogo antes de começá-lo. Com o nome e o funcionamento do jogo aparecendo no telão do palco, um humorista fixo do programa explica para o público como se dará a brincadeira, para que este tome nota de como serão os próximos minutos e julgue se acha interessante assistir ou não.

No indicador de qualidade originalidade/criatividade, o Quinta Categoria também se destaca em todas as emissões analisadas. Em nível mundial, não podemos dizer que o programa foi inovador, pois, como dito anteriormente, é fruto de um formato já existente e consolidado no Reino Unido e Estados Unidos. Porém, por se tratar de um programa nacionalmente novo, nunca antes visto nas telinhas brasileiras, e de formato pouco conhecido pelo espectador, é considerado um programa original, criativo e experimental, pois, além das adaptações que sofreu para cair no gosto popular, conta ainda com o talento de quatro comediantes que, na sua maioria, já tinham experiência com o teatro e com a arte do improviso, o que fomenta a criação dos jogos e enriquece a qualidade artística do programa. Observe, a seguir, a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual: q2

Objetivando divulgar parte do trabalho desenvolvido pelo projeto Observatório da Qualidade no Audiovisual, da UFJF, com esta análise investigamos o gênero humorístico no programa Quinta Categoria. Quanto ao modo de experimentação, vimos que o programa foi inovador porque ajudou a popularizar os jogos de improviso no Brasil, e se mostrou original e criativo ao levar o riso ao público de maneira irreverente, nova e até então incomum. Entretanto, não foi possível unir esse formato ao humorismo (modo de representação), uma vez que nele identificamos a comédia predominantemente presente.

Apesar de levar o riso, o programa não adota temas relevantes para a sociedade ou não apresenta ferramentas suficientes para promover a ampliação da visão de mundo do espectador e o estímulo ao pensamento e ao debate de ideias. Além disso, o uso do estereótipo muitas vezes é para reafirmar preconceitos já consolidados na nossa sociedade e, por mais que tenha em alguns momentos desconstruído paradigmas, isso não foi uma preocupação constante do programa.

Por Luma Perobeli

Comédia MTV

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O programa Comédia MTV estreou na MTV Brasil no dia 3 de março de 2010 e foi veiculado até março de 2012, quando mudou seu formato e passou a ser chamado de Comédia MTV Ao Vivo.Criado por Lilian Amarante, Gabriel Muller e Álvaro Campos, a apresentação ficava por conta de Marcelo Adnet, que contava no elenco com Rafael Queiroga, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Talita Werneck, Paulo Serra, Rodrigo Capella, Guilherme Santana e Fabio Rabin. Com duração de 1 hora e 45 minutos, o programa era composto por esquetes que faziam paródias de temas ou conteúdos da época.

Apesar de rotulado pela própria emissora como um programa de humor, o Comédia MTV era mesmo um programa de comédia, como sugere o próprio nome, que se baseava no riso fácil diante do “anormal”, daquilo que fugia do padrão. Dos cinco elementos que compõe o Plano da Expressão, ao menos um aspecto de três deles é destaque. Nos códigos visuais,cenário e atuação do elenco chamam atenção por atribuírem ao programa uma característica despojada e descontraída, que não preza pela verossimilhança, ou seja, a preocupação de passar realismo às cenas ao ponto de torná-las credíveis ao espectador. No episódio do dia 3 de maio de 2011, por exemplo, aos 7 minutos e 4 segundos, Bento Ribeiro protagoniza um esquete em que interpreta um homem prestando serviço comunitário a crianças por não pagar pensão alimentícia aos filhos. Na ocasião, o homem veste roupa da Branca de Neve e chega para contar histórias para as crianças, que são interpretadas por outros sete humoristas do programa, adultos, portanto, mas que devidamente caracterizados com roupa e penteado se comportam e falam como crianças. Também no cenário, a descontração está na diversidade de lugares apresentados, sem muitos detalhes e cuidados artísticos. Com uma ausência de padrão ou ordem na execução e/ou transmissão das cenas, o único momento que se repete em todas as emissões analisadas é quando aparecem os clipes musicais, que se passam num quadrado no centro da tela, sobre uma arte de muro de tijolos com quatro setas de luzes de neon piscando e apontando para o mesmo.

Nos códigos sintáticos, o destaque está na edição, que muito se faz presente no programa. Movimentos abruptos de câmera, efeitos sonoros, o uso do zoom in (que acontece para dar destaque para trechos da fala do emissor), do zoom out (para revelar a reação dos outros personagens diante do que é falado) e a presença dos cortes secos (cortes sem transição que têm a finalidade de aproximar a câmera e dar destaque ao rosto dos atores) são aspectos constantemente vistos no programa, que chamam a atenção do espectador e o faz por isso, talvez, pensar no conteúdo que é mostrado. Nos códigos gráficos, o aspecto que se destaca é a vinheta, tanto de abertura quanto de finalização, que é adequada ao estilo do programa no que se refere às cores, cenário, roteiro, falas e atuação.

Na abertura, a vinheta traz figuras que se formam em luzes de neon coloridas. Na primeira cena um homem corre na esteira, atrás dele vários chapéus passam voando e um deles o atinge; logo após, uma mulher pula num trampolim. Na terceira cena, uma mulher dança em frente a um homem de terno e gravata; ao fundo algumas bailarinas dançam e um laser vermelho sai do homem de terno e corta a cabeça da dançarina. Na segunda cena,uma garçonete segura uma bandeja e, ao fundo, um guitarrista sem cabeça toca. Na sequência, a cabeça da dançarina surge na bandeja da garçonete e, ao final, surge o nome do programa, também em letras de neon. Uma abertura, portanto, bastante irreverente.

No Plano do Conteúdo, o indicador desconstrução de estereótipos foi pouco identificado no programa. Apesar do posicionamento progressista da MTV de se mostrar a favor da diversidade sexual, a representação dos homossexuais ainda é carregada de estereótipos, o que acarreta uma visão distorcida dessa minoria. No quadro Nunca vai passar de novo, por exemplo, o objetivo é parodiar o quadro da Rede Globo Vale a pena ver de novo, que reprisa novelas antigas de sucesso. No Comédia MTV, a  paródia se dá pela representação de situações ruins, homofóbicas, machistas e absurdas, de novelas escritas por autores homossexuais. A título de exemplo, a frase proferida aos 5 minutos e 36 segundos do episódio do dia 19 de abril reforça ainda mais esse estigma de que escritores gays só fazem novelas ruins, com temática homossexual, situações absurdas e incapazes de serem reprisadas: “De um autor homossexual:Pais e Filhos. Mais uma novela que nunca vai passar de novo”.

Tendo em vista a diversidade presente dentro do grupo de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais, entre outros, é inegável a complexidade de se fazer uma boa representação dos mesmos, mas é inegável também a possibilidade de assim fazê-la. Se a proposta é de um humor inteligente, a opção mais razoável é tentar fugir dos estereótipos. E então, nesses casos, a opção por fazer piada do opressor é mais viável e, falemos a verdade, muito mais engraçada. Entretanto, não foi essa a postura adotada pelo Comédia MTV.

O indicador de qualidade oportunidade não foi muito pontuado. A avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato deo Comédia MTV produzir esquetes que fazem referência a assuntos de conhecimento do público, mas que não necessariamente estão na agenda midiática. Paródia de outros programas, como o feito em Big Brother Afeganistão, Nunca vai passar de novo, Desgraça Urgente, Domingúo e Plantão, ou de personalidades, como mostrado em HebeCam e Pormeliê, são a base do programa e por isso comumente vistos nas emissões.

A diversidade de sujeitos representados foi razoável nas emissões analisadas. A única melhor avaliada é a do dia 3 de maio de 2011, que se destaca pela grande variedade de tipos que mostrou, principalmente no quadro que abordava a religião Normal. Cariocas, paulistanos, lésbicas, negros, brancos, presos, consumistas, gordos,magros, estrangeiros, crianças, jovens, idosos, pais, mães,jornalistas, psicólogos, atrizes e cantores são alguns dos tipos representados pela emissão, seja por muito tempo ou não.

Ampliação do horizonte do público e estímulo ao pensamento e ao debate de ideias não são recorrentes ao longo das emissões aqui analisadas. A avaliação fraca recebida por esse indicador de qualidade em todas as emissões se justifica pela forma escrachada e estereotipada com que o programa faz referência aos outros conteúdo se pela escolha por temas rasos e quase que insignificantes que pouco objetivam a transformação sócio-político-cultural dos espectadores. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta está muito presente em todas as emissões analisadas. O objetivo do programa é bem apresentado ao espectador porque é constante o uso da paródia, da ironia ou da sátira para criticar padrões e provocar o riso. Como exemplo, temos o primeiro esquete do dia 29 de março de 2011, que traz Dani Calabresa e Tatá Werneck conversando sobre uma possível cena entre elas e outro humorista, que interpretaria um pai. No diálogo, que tem intercalado cenas dos humoristas fazendo o clipe de uma música, vemos que todos os personagens fazem papel de si mesmos, estando cada um o seu próprio nome artístico, o que deixa evidente se tratar de uma sátira à ausência das pessoas aos seus compromissos.

No indicador diálogo com/entre plataformas, todos os episódios foram bem avaliados, pois a relação da TV com as outras plataformas é vista em alguns esquetes do programa e na vinheta final de cada emissão, quando aparece nos créditos a frase: “mas quem faz o Comédia?! equipe completa no site!!!”. Abaixo dessa frase, que dialoga muito bem com o estilo descontraído do programa ao usar as letras minúsculas no início das frases e os excessos de pontuação, tem o endereço do site e do Twitter do programa. Além disso, a esse indicador também compete a menção a outros conteúdos televisivos, que é comumente visto no Comédia MTV através das inúmeras referências a músicas, artistas e outros programas da TV.

Em alguns esquetes do programa esse diálogo com outras plataformas também é visto quando vídeos feitos pelos espectadores são mostrados, o que incrementa também o indicador solicitação da participação ativa do público. Sendo considerável em todas as emissões, a avaliação desse indicador se justifica não pelo Comédia MTV solicitar diretamente a participação do espectador, mas por dar a ele oportunidade de aparecer na emissão. No final do episódio do dia 29 de março de 2011, por exemplo, o clipe que aparece é o enviado pelo espectador Bruno Costta, que mostra um homem vestido de passarinho azul dançando ao lado de duas meninas a música de fundo, que faz referência ao Twitter. Outro exemplo está no clipe exibido no final do episódio do dia 17 de maio do mesmo ano, enviado pelo Twitter @rodrigoguth1, em que um rapaz faz paródia da música New York, de Alicia Keys.

Último indicador da mensagem audiovisual, originalidade/criatividade, foi razoável em todas as emissões. Por ser de um formato já conhecido pelo público, inovação e experimentação não são destaques no programa, mas originalidade e criatividade pode-se dizer que sim, pois parodiava programas, personalidades, músicas e temas conhecidos da massa de forma escrachada, exagerada e engraçada. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Como vimos,aspectos característicos do programa, como o próprio nome diz, apenas geram a comédia, o riso fácil, imediato e despreocupado diante do diferente. Segundo os modos de representação e experimentação, a atuação dos personagens é satírica e grotesca e, por isso, acarreta uma visão distorcida das minorias, principalmente da comunidade LGBTTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais). Estigmas sociais foram reforçados, e a banalização do audiovisual reiterada incessantemente na maioria dos produtos da televisão não deixou de ser assim tratada no Comédia MTV, o que dificultou o envolvimento de uma comunidade e a sua categorização como humor de qualidade, já que nem ao humor o programa pertence.

Por Luma Perobeli

Estranha Mente

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Estranha Mente é um seriado de televisão que estreou no canal Multishow em 3 de outubro de 2012. Cada uma das três temporadas exibidas até o final de 2014 contém 13 episódios. As cinco emissões analisadas neste estudo foram escritas por Fernando Caruso, Jaiê, Luiza Yabrudi e Eduardo Rios, que apostam em esquetes baseadas em situações reais “e às vezes surreais” da mente de Fernando, como o próprio programa define. Protagonizado por Caruso, o elenco ainda conta com Hamilton Dias, Mari Cabral, Márcio Lima, Roberta Brisson, Paulo Dodô, Ricardo Rossini, Diogo Costa, Raphael Logam e Alexandre Régis.

No plano da expressão, um dos aspectos que chama a atenção do espectador é a vinheta de abertura do programa, que traz a voz de Fernando Caruso explicando a quinta dimensão não conhecida pelo homem: a imaginação dele. Durante a narração, apenas círculos verdes aparecem na tela, e logo depois o seu rosto é colocado em diferentes contextos do dia-a-dia. Cada episódio tem entre sete e 11 esquetes que se misturam ao longo da narrativa e trazem Fernando Caruso interpretando diferentes personagens ou até ele próprio.

O tom descontraído do programa se dá pelo seu fechamento, que mostra os créditos dentro de uma nuvem branca e verde na parte de baixo do plano enquanto os erros de gravação vão sendo mostrados na tela, com gírias e palavrões sendo falados, como “porra”, “cretino”, “merda”, “sacanagem” e “caralho”. Além disso, os episódios exibem frequentemente vinhetas toscas em determinados esquetes e efeitos especiais mal elaborados, deixando claro que o objetivo do programa não é ser verossímil, mas despertar o riso pelo grotesco.

No plano do conteúdo, o indicador diversidade de sujeitos representados obteve avaliação razoável. O episódio que mais se destacou foi o exibido no dia 19 de junho de 2013, cuja análise foi considerável quanto à representação de grupos sociais no esquete das dúvidas sobre a Tuberculose. A partir dos 13 minutos e 36 segundos, uma agente de saúde em uma sala com cartazes ao fundo, livros e jarra de suco de frutas na mesa, tenta informar às pessoas e tirar as suas dúvidas sobre o assunto. Após um breve panorama sobre a doença, quatro personagens homens em lugares diferentes, com vestimentas de estilos distintos e realizando ações também diferentes, começam a aparecer na tela com perguntas, o que deixa claro o objetivo do programa em simular a diversidade buscada pelas entrevistas que consultam o público na rua.

Porém, mais do que simular, Estranha Mente satiriza essa tentativa da diversidade ao trazer personagens de diferentes classes sociais fazendo perguntas repetidas, ou sem sentido, e mostrando as respostas da agente de saúde, que progressivamente vai ficando irritada: “por quê que vocês estão fazendo isso comigo?”, dramatiza ela. Em seguida, Fernando Caruso aparece na tela falando sobre a ignorância como uma doença, referência clara aos quatro personagens mostrados anteriormente, que muitas vezes representam o público da vida real mostrado nas entrevistas, que não faz perguntas relevantes ou realmente pertinentes sobre o assunto.

O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos não foi muito identificado no programa. Nas cinco emissões analisadas de Estranha Mente, este recurso é usado para afirmar estigmas e pré-conceitos já existentes na sociedade atual, como o de que toda mulher é interesseira ou o de que “advogado fala, fala, e não diz nada”. No episódio exibido no dia 3 de outubro de 2012, por exemplo, aos 14 minutos e 16 segundos se inicia um esquete em que dois amigos estão no bar de uma boate e um deles tenta paquerar a funcionária do local. Vendo que a menina reage de maneira arrogante, o rapaz decide apelar para a frase “eu tenho um programa no Multishow” e consegue o que quer: um beijo da garota. Essa cena, apesar de curta, reforçou o estereótipo de que existem mulheres que só se relacionam com outra pessoa por causa do status que sua profissão tem na sociedade.

No quinto episódio aqui analisado, exibido no dia 19 de junho de 2013, outra situação em que há a afirmação do estereótipo, está no esquete do tribunal do júri, em que Fernando Caruso interpreta um advogado de defesa que, apesar de falar muito, só diz coisas sem sentido. O senso comum de que “advogado fala, fala, e não diz nada”, que vale para muitos profissionais da área jurídica, é reafirmado nesse esquete pelo exagero das falas do advogado e pelas reações dos demais personagens, que, diante das falas confusas, tentam compreender minimamente o advogado.

Ainda sobre utilizar a ferramenta do estereótipo para afirmar paradigmas sociais, no episódio do dia 3 de outubro de 2012 o programa conseguiu, sem nenhuma fala, apenas com uma música de fundo, reforçar a ideia de que a banda Calypso não é boa ao mostrar a frase “Dançar Calypso na festa da firma é crime. Tudo bem, não é. Mas deveria”, após sucessivas fotos de pessoas supostamente presas.

O indicador de qualidade oportunidade foi identificado de forma razoável nas emissões analisadas, pois, apesar de não tratar de assuntos presentes na agenda midiática, traz para o público temas do dia-a-dia de qualquer pessoa, sendo esse tema relevante ou não. No quadro Cinemón, do episódio exibido no dia 24 de abril de 2013, por exemplo, ao invés de Fernando Caruso satirizar os especialistas de cinema fazendo referência a filmes atuais, foi usado como objeto o filme Karate Kid, que, apesar de ser um clássico, foi lançado em 1994.

No último indicador de qualidade do plano do conteúdo, ampliação do horizonte do público, percebe-se que o programa fracassou. Foram poucos os momentos em que foi possível estimular o pensamento e o debate no espectador e, mesmo nos esquetes em que isso foi feito, o programa pecou com o excesso da piada e acabou por reforçar algum estereótipo. Isso é o que ocorre no primeiro episódio do seriado, exibido no dia 3 de outubro de 2012, no esquete em que uma cena de crime está sendo gravada. Após o “corta” falado em off, o esquete continua com os personagens incorporando suas próprias personalidades. Na sequência da identificação dos atores, a partir dos 17 minutos, Rafael Logan e Fernando Caruso iniciam um diálogo em que Rafael questiona Caruso sobre os papeis que sempre são destinados a ele, de assaltante ou sequestrador, insinuando que seja devido à cor da sua pele, que é negra.

Esse contexto permite que o público reflita sobre a real situação de atrizes e atores negros na televisão brasileira, que comumente são vistos como domésticas, seguranças, faxineiros, babás, motoristas, caseiros, vigias, ou qualquer qualificação que permeia o crime. Entretanto, apesar disso, Estranha Mente acaba mais uma vez afirmando estereótipos, por querer fazer piada de tudo, inclusive de uma discussão séria como essa. No esquete acima citado, Fernando Caruso se compromete a ajudar Rafael Logan para reparar o seu erro e, então, o coloca para interpretar uma Branca de Neve, personagem desejada por Logan, o que é irônico, já que uma Branca de Neve dificilmente seria interpretada por um homem negro. Na sequência, um ator anão também questiona Caruso sobre os seus repetidos papeis, e mais uma vez o suposto diretor da cena ajuda o colega: Fernando coloca o anão para interpretar um jogador de basquete que faz muitas cestas e que é melhor que todos os outros jogadores, de estatura mediana.

Entretanto, o que é comum às duas subversões de papeis é que ambos os personagens saem prejudicados (a Branca de Neve é abandonada sozinha na cena e o jogador de basquete fica preso na cesta), o que invalida totalmente a necessidade de se diversificar os papeis sociais dos atores, diminuindo a importância da causa.

Abaixo, as avaliações dos indicadores de qualidade do plano do conteúdo:

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Na mensagem audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão – como a vinheta de abertura descontraída, a linguagem informal e a repetição do primeiro esquete, que é comum a todos os episódios – conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos. “Agora o comediante vai contar uma piada sem ofender ninguém” é a frase comum a todos os episódios e precede o esquete que traz Fernando Caruso interpretando um comediante que fracassa ao tentar fazer piadas sendo politicamente correto. Presentes nesse início, é possível perceber que a ironia e a afirmação de conceitos podem ser ferramentas constantes no programa.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas teve uma avaliação considerável, visto que em vários momentos há a interação com diferentes tipos de conteúdos e menções a lugares e filmes existentes fora da ficção, como no quadro Cinemón, em que Fernando Caruso interpreta um crítico de cinema e cita filmes reais, como Robocop 3 e Karate Kid 4, e faz referência, de forma satírica, aos verdadeiros programas que se dedicam às análises de filmes. Além disso, o programa também menciona lugares como Casaquistão, Afeganistão e Argentina, e traz Fernando Caruso dialogando com a plataforma da internet ao pedir, aos 15 min e 40 segundos do episódio do dia 15 de maio de 2013, por exemplo, que o telespectador entre no site do Multishow para interagir com o programa e escolher o novo personagem que ele quer ver nos esquetes.

O indicador solicitação da participação ativa do público teve uma avaliação razoável nas emissões aqui analisadas. Isso se deve, principalmente, à linguagem informal utilizada, como já falado, e à interação personagem-público estabelecida quando os personagens olham para a câmera como se conversassem com o espectador. No quadro Dr. Toko, por exemplo, Fernando Caruso interpreta um médico especialista em desvendar os sentimentos de um homem rejeitado por uma mulher, olhando para a câmera como na intenção de ensinar ao público como essa rejeição é sentida pelo homem. Usando palavras como “vocês” e fazendo perguntas como “viu?” quando somente Caruso está em cena, fica claro que o programa deseja interagir com o público e fazê-lo permanecer no canal.

Originalidade e criatividade não são elementos muito presentes em Estranha Mente. A nota fraca foi atribuída ao programa porque este não apresenta um formato diferenciado com ideias novas que surpreendem o público, apenas abordam os temas de forma exagerada, fazendo uso da sátira e da ironia para dar ênfase a assuntos muitas vezes irrelevantes que em nada têm para acrescentar à sociedade.

A seguir, podemos observar a avaliação que cada indicador recebeu na mensagem audiovisual:

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Analisando os modos de representação dos personagens na construção das cenas e dos diálogos, e o uso dos recursos técnico-expressivos, que contribuem para a construção de uma narrativa que pode promover a reflexão e o debate de ideias, observamos que Estranha Mente explora pouco essas potencialidades. Como visto, temas relevantes para a sociedade até foram abordados, mas não com a complexidade que merecem, o que acaba fazendo do programa mais uma ferramenta de banalização da televisão e da questão em pauta.

Além de não trazer para o público nada de novo em relação ao formato adotado, o programa utiliza efeitos especiais e roteiro pouco verossímeis (como identificado nos disparos das armas de fogo que não ocasionam nenhum sangramento nas vítimas atingidas) que causam estranhamento no público. Na cena da gravação de um crime exibida dia 2 de outubro de 2012, como já mencionado anteriormente, a partir dos 8 minutos e 30 segundos, Rafael Logan, que interpreta um criminoso, pega nos braços a vítima que está aparentemente morta e começa a mexer seu queixo e lábios como se esta estivesse falando. Escondendo a sua cabeça atrás do corpo da menina, Logan afina a voz e dá início a um roteiro distante da realidade que banaliza a situação de um crime e põe em cheque a competência da classe policial. “Eu não tô morta não, foi tudo um grande mal entendido. Ó, é bom fazer tudo que ele tá mandando. Ele é bem mal”, mascara o criminoso.

A construção desta cena é um exemplo de como o programa banaliza situações sérias antes de chegarem no ponto principal da cena. Ainda assim, quando abordam o assunto chave também acabam banalizando a situação para gerar o riso, invalidando-a por se aproximar do grotesco. Dessa forma, torna-se inexistente na série aqui analisada um ponto de vista diferente em relação à maioria dos programas da televisão brasileira que geram o riso. Sem esse diferencial na experimentação e sem essa complexidade da representação, Estranha Mente se mostra mais um exemplo das tantas “reciclagens” da nossa programação televisual brasileira, visto que não apresenta recursos suficientes para levantar reflexões na sociedade.

Por Luma Perobeli

Cilada

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Cilada é uma sitcom brasileira exibida pela Rede Globo, entre 2005 e 2009, primeiramente como um quadro do Fantástico e, posteriormente, como a primeira série nacional do canal Multishow, encerrando-se com seis temporadas e 53 episódios. Com aproximadamente 25 minutos de duração, o programa mostra situações corriqueiras que podem se transformar em problemas, ciladas.

Estrelado por Bruno Mazzeo, como o protagonista Bruno, o programa conta ainda com Renata Barbosa, namorada de Bruno na primeira e segunda temporadas, e Débora Lamm, que assume o papel da namorada a partir da terceira temporada. Além desses, outros personagens complementam as cenas, de acordo com o tema tratado no programa, porém, a maioria interpretado pelo próprio Mazzeo e, geralmente, são paródias de celebridades ou outros personagens famosos do audiovisual.

No Plano da Expressão, são características marcantes do programa a narração em off e também a introdução feita no início de três dos cinco episódios analisados, quando Bruno contextualiza o assunto, falando diretamente ao espectador, como em Supermercado, exibido em 20 de outubro de 2006, no qual a primeira fala de Bruno era: “Poluição sonora, poluição visual, filas enormes, tempo e dinheiro gastos três vezes mais que o esperado… Se você ainda não percebeu, isso aqui é uma lista de supermercado. Essa lista tem todos os ingredientes de uma receita perfeita de cilada. Quer dizer, todos não, né, porque em lista de supermercado a gente sempre esquece alguma coisa”.

A partir da sexta temporada, algumas mudanças ocorrem no programa, como a retirada da “Análise Cilada” e da introdução. No entanto, acrescenta-se a apresentação do episódio como “Cilada de hoje” e o respectivo nome da emissão, e a alusão de passagem do tempo com uma ilustração de dia e noite em time lapse.

A vinheta de abertura consegue caracterizar bem a proposta do programa: quando no Fantástico, a abertura exibia o próprio Bruno em “situações-cilada”, como ficar sem água durante o banho ou ser empurrado pela multidão para dentro do metrô quando se está tentando sair. Já no canal Multishow, a vinheta passa a ilustrar uma situação comum (pessoas andando pela rua), mas logo há mudança no clima (alusão de um céu claro se transformando em tempestade), confusão no trânsito, o som estridente de sirenes ao fundo e os pedestres correndo e se esbarrando, passando da calmaria e da mesmice para o caos. A música-tema, no entanto, interpretada por Gabriel, o Pensador, permanece a mesma em todas as temporadas e complementa a sugestão do que será exibido: “Parece que ‘tá’ tudo no esquema, mas ‘tô’ sentindo cheiro de problema/ Sempre tem alguma coisa errada/ Eu falei ‘pra’ você, só pode ser cilada/ Falei ‘pra’ você, mais uma vez, cilada”.

A caracterização dos cenários de cada episódio também marca o programa, como no episódio Supermercado, o qual é bastante fiel a um supermercado real, com corredores, caixas, produtos e outros elementos característicos de tal espaço.

No Plano do Conteúdo, o indicador que mais se destacou foi o de desconstrução de estereótipos, com nota mínima em todas as emissões, pois o programa utiliza exatamente os clichês da vida comum para causar o riso no telespectador. No episódio Nova Chefe, exibido em 17 de outubro de 2009, por exemplo, fica bem claro como vários chavões machistas são empregados nos trocadilhos e piadas de duplo sentido a respeito da nova chefe, e outros lugares-comuns como a “mulher mal comida”, como é dito por outro personagem, e o sentimento de inveja entre mulheres, exemplificado quando Soraya conta a Bruno sobre a nova chefe e logo a chama de “ridícula”, sem nenhum motivo aparente:

BRUNO: “É? Por que?”

SORAYA: “Ah, sem noção, sem critério, totalmente equivocada, Bruno.

BRUNO: “Que foi? Já chegou demitindo?”

SORAYA: “Não! Sombra, perfume, a essa hora da manhã, você acredita?!”

BRUNO: “Ué, mas tem problema isso?”

SORAYA: “Só porque é chefona, só porque é poderosa, se acha. Sem falar que é ‘uó’! Não é, Gerson?”

(Cilada – episódio Nova Chefe 17/10/2009)

Em outros episódios também são colocados em cena vários outros estereótipos, como a “mulher chiclete”, a “mulher feia” que é aquela que os homens só saem quando estão bêbados, e a “faladeira”. No episódio Mulher Chiclete, exibido em 10 de outubro de 2009, é possível perceber algumas tentativas de desconstrução (na primeira afirmação da frase), mas logo na mesma fala, outros clichês são reafirmados:

BRUNO: “Engraçado, muitas mulheres acham que têm que dar uma desculpa por terem transado na primeira noite, como se fosse um crime. Agora, ‘pra’ dizer que vão dormir na sua casa, não precisam de desculpa nenhuma, né! Aí é a coisa mais natural do mundo!”.

Mas em outro momento do episódio, quando Roberta (Juliana Baroni), a namorada, pergunta sobre impedimento no jogo de futebol, Bruno afirma: “Tem gente que acha que esse papo de mulher não entender muito de futebol é folclore. Mas quem acha isso não deve entender muito de mulher”.

No indicador oportunidade, as emissões também não tiveram boa nota, sendo avaliadas como fracas, porque tratam de temas comuns, sem uma abordagem diferenciada ou até mesmo ousada. Apesar de essa ser a proposta do programa, tais temas não despertam outro tipo de reflexão no público senão a que já é arraigada a respeito dos assuntos, o que interfere diretamente no indicador de ampliação do horizonte do público. Nesse aspecto Cilada deixa a desejar quando não aproveita os assuntos que provocam identificação no espectador, para trata-lo de forma diferenciada e agregar novos valores a respeito deles. Desse modo, os episódios também foram considerados fracos nesse quesito.

Sobre a diversidade de sujeitos representados, o programa foi avaliado como razoável, por representar pessoas de diferentes classes econômicas, tanto nos personagens principais, quanto nos secundários. Mas não há representatividade, por exemplo, da diversidade de gênero ou de raça, visto que todos os personagens nos episódios analisados são heterossexuais e brancos. Também não existe diversidade no ponto de vista, pois a maior parte da série é narrada pelo protagonista.

Abaixo é possível conferir o gráfico com as avaliações de qualidade do plano de conteúdo:

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De acordo com os critérios de análise da mensagem audiovisual, o primeiro indicador avaliado, clareza da proposta, recebeu muito boa, nas cinco emissões analisadas. Isso se deve ao formato facilmente repetível do programa, com elementos e personagens que são reconhecíveis ao longo das temporadas e que se adaptam a todos os episódios, independentemente do tema deste.

Já no solicitação da participação ativa do público, três episódios receberam nota boa devido à linguagem adotada pelo programa, de acordo com o público-alvo (jovens e adultos, entre 15 e 30 anos, das classes A, B e C) e pelo uso de expressões e gírias como “pô”, “cara”, “que saco!”, “seu”, em vez de “senhor”, e inclusive alguns palavrões. Também há comunicação direta com o espectador, principalmente por parte do protagonista, através das câmeras.

Alguns elementos gráficos como o “Comentário Cilada” – quando é introduzida uma explicação, ou mesmo um pensamento não dito de Bruno em um plano a parte, uma pequena televisão no canto inferior da tela – e a “Análise Cilada”, que interrompe a cena e insere um breve contexto histórico ou ponderações sobre o tema tratado no episódio, também ajudam nesse indicador por ter a intenção de clarificar o entendimento do leitor sobre a cilada daquele episódio. Os dois episódios que receberam nota 2 não utilizam mais esses elementos, fato que diminui a interação direta com o público.

No indicador originalidade e criatividade, todas as emissões receberam nota razoável, pois é possível perceber um formato diferenciado na sitcom, que opta, por exemplo, pela participação de personagens fora da cena principal, interpretados pelo mesmo ator, um complemento incomum nas séries nacionais. Além disso, o “Comentário Cilada” e o “Análise Cilada”, complementam a linguagem diferenciada característica do programa.

Sobre o diálogo com/entre plataformas, as emissões também foram consideradas razoáveis, pois percebe-se, por exemplo, a paródia e referência ao ator Alexandre Frota, no personagem Alexandre Focker, presente em todas as emissões avaliadas. Além disso, a história foi adaptada para os cinemas, no filme “Cilada.com”, em 2011, mantendo a maior parte do elenco, roteiristas e enredo, no entanto, vários personagens que existiam na série não fizeram parte do longa-metragem. O programa também cita lugares reais do Rio de Janeiro, como bairros e estabelecimentos.

A seguir, podemos observar a nota de cada episódio analisado de acordo com os critérios de qualidade da mensagem audiovisual:

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Considerando as avaliações, o programa Cilada está inserido no gênero comédia, mesmo possuindo algumas características satisfatórias do humor de qualidade, como originalidade/criatividade e solicitação de participação ativa do público.

A sitcom é assim considerada por ainda fazer uso, por exemplo, de vários clichês sociais, muitas vezes com cunho machista ou homofóbico, e por ainda construir personagens grotescos baseados em tais estereótipos, como no caso de Alexandre Focker.

No quesito experimentação visual, Cilada utiliza bem diversos recursos adicionais à cena normal, como “Análise   Cilada”, com animações gráficas que aumentam a interação direta com o público e demonstram preocupação em fazer o espectador entender, de fato, a narrativa do programa. No entanto, o fato de não explorar temas da agenda midiática (oportunidade) ou que estimulem uma discussão, levando a outros pontos de vista (ampliação do horizonte do público), faz com que a sitcom volte ao lugar-comum, sem trazer nenhum diferencial para o âmbito do audiovisual brasileiro.

Por Lilian Delfino

Minha Nada Mole Vida

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Dos criadores Luiz Fernando Guimarães, Alexandre Machado e Fernanda Young, Minha Nada Mole Vida é um seriado de televisão que estreou na Rede Globo em 7 de abril de 2006, com direção de José Alvarenga Jr e produção de Daniel Vincent. No ar em 2006 e 2007, o programa conta com 23 episódios de 30 minutos cada, divididos em três temporadas, exibidos todas as sextas-feiras, às 23h. Protagonizado por Jorge Horácio (Luiz Fernando Guimarães) e Silvana (Maria Clara Gueiros), o seriado traz o dia a dia de Jorge Horácio com o filho Hélio (David Lucas) e a ex-mulher Silvana, que o obriga judicialmente a ficar mais tempo com o filho.

Fazendo uma sátira aos programas que se dedicam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., Jorge Horácio é um jornalista que comanda o programa Jorge Horácio By Night, atração comumente vista por Silvana, a ex-mulher, que torce para que o ex cometa gafes ao vivo. Paralela à sua vida de apresentador de TV, a trama mostra a guerra travada entre os adultos por causa de Hélio, o filho do casal, de apenas 10 anos, que vive no meio das brigas, discussões e implicâncias dos pais.

No Plano da Expressão, alguns aspectos chamam a atenção do espectador, como a vinheta do programa, o ritmo, a linguagem e o cenário. Na abertura, pai e filho fazem uma dança sincronizada da música de fundo Não é Mole Não, do grupo carioca Funk n’ Lata, que dialoga não só com o nome do humorístico, mas também com o seu conteúdo, composto por situações embaraçosas, complicadas e cheias de confusões que provam que a vida do protagonista Jorge Horácio não é fácil. Para o fechamento do programa não há vinheta final, pois os créditos aparecem em letras brancas, na parte de baixo do plano, enquanto os últimos segundos do episódio passam na tela.

Com relação ao código sintático, o ritmo do programa nem sempre é linear, como no episódio do dia 12 de maio de 2006, quando no primeiro minuto, após uma cena entre uma mulher desconhecida e Hélio, aparece na tela a frase “Poucos dias antes…” em letras brancas e fundo preto, deixando evidente que o que será mostrado a seguir já aconteceu em momento anterior. Somente no último bloco do programa, com a frase “Naquela noite, então…”, também em letras brancas e fundo preto, é que o tempo linear da trama é retomado, com parte da cena anteriormente mostrada sendo passada de novo.

Quanto à linguagem utilizada pelo programa, a tentativa é de aproximação com o público jovem, já que aposta num roteiro coloquial, com expressões e gírias comumente faladas por esse tipo de espectador. Palavras de baixo calão também se incluem nas falas dos personagens, como cagando, cassete, vagabunda, cagada, imbecil e otário. Além dos termos chulos, frases de duplos sentidos também são muito proferidas, como no diálogo a seguir, exibido no mesmo episódio citado anteriormente, em que uma conversa sobre profissões se inicia na mesa de jantar, e o foco do assunto é a garota de programa Sônia:

JORGE HORÁCIO: A Bia Sônia faz parte de uma geração de mulheres que optou por ralar, e muito.
SÔNIA: É verdade, eu sempre ralei muito.
JORGE HORÁCIO: Ela rala demais.
SILVANA: Olha, que interessante. Você tá ralando com o que agora?
JORGE HORÁCIO: Computação. A Bia Sônia acabou de criar uma internet que vai substituir essa nossa internet. Ela vai ficar rica. Muito rica.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

Quanto ao cenário, o seriado se desenvolve em dois lugares principais: o apart-hotel em que Jorge Horácio vive (um ambiente pequeno, mas confortável e arrumado) e as festas que o personagem cobre (geralmente com fundo escuro, com convidados e garçons passando). Também é característico do programa mostrar a frente do prédio do apart-hotel de Jorge Horácio, em câmera contra-plongée (câmera baixa, voltada para cima) com leve aproximação, antes de mostrar uma cena no referido apartamento. Situações como essa também acontecem no início ou no meio do episódio em outros lugares, como no condomínio de Silvana, para situar o espectador sobre onde a cena seguinte se passará. No dia 4 de maio, por exemplo, no episódio intitulado “Noite de queijos e vinhos”, a história se inicia mostrando a imagem de um prédio de dois andares, de cor marrom e janelas abertas, com barulhos e vozes de crianças ao fundo. Com isso, entendemos que a trama começará num colégio, o que fica comprovado quando na cena seguinte pai, mãe e filho estão sentados numa mesa olhando para uma senhora que fala sobre as notas de Hélio.

Um aspecto do plano da expressão que é marca do programa Jorge Horácio By Night e que se tornou marca também do Minha Nada Mole Vida, é a estrofe de sucesso Everybody dance now, do grupo C&C Music Factory, sucesso das pistas de dança dos anos 1990. Comumente cantada para Jorge Horário quando as pessoas o reconhecem, o trecho é uma marca do personagem porque é o refrão da música de abertura do seu programa, o Jorge Horácio By Night. E, apesar de na abertura do seriado Minha Nada Mole Vida a música ser outra, essa metalinguagem utilizada caiu no gosto popular e fez de Everybody dance now uma expressão muito conhecida e falada por diversos grupos de amigos da vida real.

Das emissões analisadas, três eram de 2006 e duas de 2007, e as únicas mudanças aparentes foram nas cores de fundo da abertura do programa, que antes eram brancas e em 2007 ficaram coloridas, com um mix de cor que acompanha o ritmo da música de fundo, e a troca do ator que interpreta o cinegrafista da trama, que antes era o Cabreira, personagem de Carlos Mariano, e que em 2007 passou a ser o Pascal, interpretado por Pedro Paulo Rangel.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade ampliação do horizonte do público se deu de forma razoável em quatro episódios e de forma considerável em um. O programa aborda novos conceitos, opiniões e propostas para o público, mas não de uma forma que gere de fato a reflexão do seu telespectador. No episódio Procura-se uma namoradado, razoável para esse indicador, por exemplo, um diálogo entre pai e filho se inicia e levanta a possibilidade de reflexão (ainda que pouca, devido ao curto tempo) nos pais que não medem direito as palavras que falam para os filhos, que acabam assimilando e aprendendo os mesmos modos dos pais.

JORGE HORÁCIO: Então vamos jogar juntos, joga aqui comigo.
HÉLIO: Claro que não, você tá maluco?
JORGE HORÁCIO: Ué, por quê?
HÉLIO: Ué, porque você é ruim pra cassete.
JORGE HORÁCIO: Em primeiro lugar: falar “pra cassete” é feio, tá? Segundo lugar: ruim pra cassete é a vovozinha, por parte de mãe.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Procura-se uma namorada 12/05/2006).

No único episódio em que esse indicador está mais presente, intitulado Noite de queijos e vinhos, a reflexão é facilitada pelo diálogo da última cena, que traz uma representante do colégio questionando Hélio e seus pais sobre a sua nota máxima na prova de matemática.

SENHORA: Eu só gostaria de saber quem foi a pedagoga que fez com que o aluno que nunca tirou mais do que 5,5 em matemática, de repente tire um 10.
HÉLIO: Foi a arrumadeira. E ela não é pedagoga: ela é bissexual.
(Minha Nada Mole Vida – episódio Noite de queijos e vinhos 04/05/2007).

Com todo o decorrer da trama dessa emissão, que aborda a diversidade sexual, mais a resposta de Hélio à senhora, o pensamento do público foi estimulado à reflexão de que a orientação sexual de uma pessoa nada interfere na sua inteligência ou sabedoria. Talvez o horizonte do público tenha sido incrementado ao ponto de fazê-lo ampliar o seu repertório cultural, enxergar novas formas de vida e quebrar paradigmas e preconceitos.

O seriado não faz o uso abusivo de estereótipos, como geralmente é visto nos programas de humor. O interesse em gerar o riso através da representação fiel e verossímil do cotidiano de pessoas comuns é maior que o de se fazer comédia pela representação deturpada, exagerada e distorcida de tipos já preconcebidos pela sociedade. O indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi observado em todas as emissões analisadas, mas com avaliações razoáveis. As duas formas do uso do estereótipo (para afirmar e desconstruir) são identificadas, porém, observamos que no episódio anteriormente citado, o estereótipo de afirmação está presente em vários momentos no decorrer da trama, mas que a última fala proferida (descrita acima) vem para desconstruir esses estigmas e modificar as mentes preconceituosas.

Uma situação em que o estereótipo de afirmação está presente é na fala de Silvana, quando ela está no elevador ao lado de uma mulher quieta e desconhecida e começa a falar sobre a recepcionista Bianca, que é lésbica: “Hum. Pra aquela sapatinha da recepção não tá lá aposto que ela tá naquela bagunça, no apartamento do Jorge Horácio, né. Hum. Sapata é fogo, né. Impressionante. Como é que pode gostar de mulher, gente. Só de pensar nisso me dá uma angústia”. Ao associar a orientação sexual de Bianca com “bagunça”, vemos que a fala de Silvana reforça o estereótipo de que lésbicas se relacionam com várias pessoas ao mesmo tempo. A mesma coisa acontece na fala de Pascal, quando ele responde a Jorge Horácio que não vale a pena tentar conquistar Zenaide, que é bissexual: “Ahh não, pelo amor de Deus. Já namorei uma bissexual e não vale a pena. É o dobro de chance de você ser chifrado”. Com essa fala de Palcal, vemos que ele também reforça um estereótipo ao condicionar a traição de uma pessoa à sua orientação sexual e não ao seu caráter.

Ainda no Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade diversidade de sujeitos representados foi bem variado, tendo se mostrado razoável em uma emissão; bom em três; e muito bom em uma. No geral, os episódios são bem heterogêneos quanto à representação dos diferentes grupos sociais, principalmente no que se refere à cultura, à sexualidade e aos pontos de vista. No episódio que mais se destaca no plano do conteúdo (exibido no dia 4 de maio de 2007), por exemplo, é possível identificar a presença desses três fatores: na cultura, a diversidade está no contraste entre os personagens fixos da trama, Jorge Horácio, Zenaide e Pascal, que fazem parte de uma equipe de televisão, e os personagens convidados, moradores do subúrbio que compõem a festa Noite de queijos e vinhos, e que não entendem as expressões usadas pela equipe de gravação; na sexualidade, a diversidade é trazida à tona com a atuação de Bianca e Zenaide, mulheres lésbicas e bissexuais, respectivamente; e nos pontos de vista a diversidade está nas diferentes opiniões emitidas sobre um determinado assunto, facilmente visualizados nas discussões e discordâncias de Jorge Horácio e Silvana.

Quanto ao indicador de qualidade oportunidade, a avaliação razoável para todas as emissões se deve ao fato de Minha Nada Mole Vida abarcar assuntos cotidianos da vida de uma pessoa, incluindo seus problemas, questionamentos e prazeres na vida social ou familiar. Abaixo, podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Na Mensagem Audiovisual, o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem avaliado em todas as emissões analisadas. O conjunto de elementos do plano da expressão, como a vinheta de abertura descontraída, o figurino moderno e a linguagem informal, conferem ao programa uma exposição audiovisual clara dos seus objetivos, que se baseiam na comédia gerada pelo dia-a-dia de um atrapalhado apresentador de TV. No começo de todo episódio, por exemplo, na primeira cena sempre é apresentado ao público um problema da relação de Jorge Horácio com sua ex-mulher ou filho, ou um problema que envolve o seu trabalho. Basendo-se em uma dessas duas questões, portanto, o programa deixa sempre bem clara a sua proposta e já na primeira cena o espectador entende o que será tratado no decorrer do episódio.

Inovação e experimentação não são o carro-chefe do humorístico, já que tinha o mesmo formato de diversos outros programas já existentes e conhecidos do público, como Os Normais, da mesma emissora, que também era protagonizado por Luiz Fernando Guimarães e tinha a mesma equipe de roteiro e direção, além de também focar no dia a dia das pessoas, mais especificamente no de um casal de noivos. Entretanto, com relação à originalidade/criatividade, podemos dizer que Minha Nada Mole Vida foi razoável, pois o modo como é elaborada a história pode gerar curiosidade no público e o instigar a ver os acontecimentos e peripécias do desenrolar da trama.

Solicitação da participação ativa do público também foi razoavelmente identificada nas emissões. Isso se deve, principalmente, à linguagem coloquial utilizada e à estreita relação programa-espectador estabelecida quando a tela que o público vê é a mesma tela que o espectador do Jorge Horácio By Night vê. Esso mescla de ficção e realidade acontece para interagir o público, e fica evidente quando na tela Jorge Horácio é mostrado olhando para a câmera do seu cinegrafista, em plano médio ou plano americano, e posteriormente a sua imagem em grande plano, com o logo da emissora a que pertence o programa de Jorge Horácio no canto inferior direito da tela.

O indicador de qualidade diálogo com/entre plataformas não foi observado no decorrer dos episódios analisados, mas foi considerado “fraco” apenas pelo fato de o programa dialogar com a vida real e fazer referência implícita aos programas que se dedicavam a cobrir eventos sociais, principalmente ao do apresentador Amaury Jr., que na época apresentava o Programa Amaury Jr. na RedeTV!, que tinha o mesmo formato que o Jorge Horácio By Night. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador obteve na mensagem audiovisual:

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Como aqui procuramos demonstrar, no modo de representação a atuação dos personagens e a construção dos diálogos de Minha Nada Mole Vida geram o riso e reforçam estereótipos, mas deixa claro que de um modo geral o programa têm a intenção de levantar discussões e assuntos pertinentes da vida em sociedade. Entretanto, tais temas abordados, apesar de relevantes, podem não ter sido suficientes para conduzir o espectador a uma reflexão mais profunda, visto que acontecem em tempo curto ou apenas “jogam” a discussão para o público, sem se estender muito, deixando que ele mesmo tire suas próprias conclusões.

Quanto aos modos de experimentação, o uso dos recursos técnico-expressivos se dá de forma a aproximar o espectador. O refrão da música de abertura do programa Jorge Horácio By Nigh, que marcou o personagem de Luiz Fernando Guimarães na vida real, e a mescla de ficção e realidade comprovada quando a imagem vista pelo público de Minha Nada Mole Vida é a mesma que a vista pelo público do Jorge Horácio By Night, evidencia a tentativa de inserir o espectador no processo narrativo, para que assim as chances de envolvimento e reflexão do mesmo sejam aumentadas diante das discussões levantadas pelo programa.

Por Luma Perobeli

As Canalhas

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As Canalhas é uma série de televisão brasileira exibida pela GNT desde 6 de maio de 2013. Inspirada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, conta com a direção geral de Vicente Amorim e a produção da Migdal Filmes. As emissões, que terminaram em junho de 2015, trouxeram, em cada temporada, 13 mulheres, uma para cada episódio, contando suas “maldades” contra suas vítimas em um salão de beleza. Exibido todas as terças-feiras às 22h30, o programa durava de 20 a 25 minutos e contava com poucas personagens fixas, sendo Marilyn (Zezeh Barbosa), a dona do salão em que cada história se inicia, uma das poucas.

Na série, cada episódio mostra uma mulher relatando friamente a algum profissional do salão de beleza suas maldades contra maridos, filhos, patrões ou namorados, enquanto se cuida. Além da sua intrínseca relação com as redes sociais, a temática da série já se anuncia também logo no início, ainda na vinheta de abertura e na música que a compõe. Nesse começo, são mostradas fotos frontais e da lateral direita do corpo de todas as protagonistas da série, em preto e branco, e em plano médio, segurando uma placa com seus nomes, cidades e alguns números, o que nos remete às fotos de identificação tiradas nas cadeias. A música de abertura que acompanha as imagens, uma produção musical do estúdio Maravilha 8, também nos ajuda a entender que o objetivo do programa é subverter o comum e mostrar o outro lado das mulheres,um lado pouco mostrado: “Eu te quero sim. Ao mesmo tempo eu me pergunto: o que vai ser de mim agora? Nessa hora, a encruzilhada, quando aparece na tua frente aquela fera tão querida, na valha no olho do furacão. Pedrada amorosa no coração. Canalhinha, canalhosa, canalhuda, canalhante, canalhianque, fêmea, canalha”.

Além da vinheta de abertura, outros elementos também são destaques, como a narração em off, que ocorre a todo momento, quando a personagem principal narra um fato e na tela aparece a situação relatada; a caracterização da protagonista no começo de cada episódio, como no exibido no dia 3 de junho, com a descrição “INGRID 29 ANOS, LOIRA EM ASCENSÃO”, ou no do dia 8 de junho, com a descrição “ISABELA 15 ANOS, ESTUDANTE”; e a pronúncia de ao menos uma vez no episódio da palavra canalha. No exibido do dia 10 de junho, por exemplo, na caracterização da história, aos 18 minutos e 40 segundos, a personagem Meg indaga ao personagem Jandir: “Quem é? Quem é a canalha? Pelo menos me diz: quem é a canalha?”. 35 segundos depois, aos 19 minutos e 15 segundos, o personagem Geraldo pronuncia quase a mesma coisa à esposa: “Quem é o canalha? Pelo menos me diz: quem é o canalha?” Como vemos, além de canalha ter sido falada mais de uma vez na emissão, foi proferida duas vezes por cada personagem em cenas seguidas uma da outra, como se a trama e o roteiro pretendessem, de certa forma, justificar o nome da série.

No Plano do Conteúdo, o indicador de qualidade desconstrução de estereótipos foi pouco observado em todos os episódios. Apesar de apostar na subversão dos gêneros (pois “cafajestagens” como as retratadas são características, estigmatizadas e comumente vistas em personagens masculinos) e de a atuação das protagonistas ser ideal e passar total credibilidade para quem assiste (desconstruindo a ideia de que somente os homens são canalhas), o programa também faz uso de estereótipos de afirmação. O episódio exibido no dia 3 de junho de 2013 é um exemplo desse uso, pois aborda mulheres que ascendem socialmente de forma aparentemente inexplicável.

No decorrer do episódio, são mostradas quatro cenas em que a personagem principal Ingrid mantém relações sexuais com três homens e uma mulher. Ao final das cenas com os homens, depois do ato sexual, cada um deles falou que Ingrid tinha muito talento, o que fez sentido no final do episódio, aos 21 minutos e 43 segundos, quando na sua última fala a personagem principal disse: “Tudo que eu quis na minha vida, eu consegui com o meu trabalho, fruto do meu talento”. Nesse episódio, por exemplo, o programa estereotipou mulheres de sucesso ao deixar subentendido que elas só conseguiram alavancar a sua carreira tendo relações amorosas e sexuais com pessoas influentes do mundo artístico, como produtores de elenco, diretores, atores e empresários, do mesmo sexo ou não, ajudando a confirmar essa concepção do senso comum.

O indicador de qualidade oportunidade foi razoável nas emissões, pois estas não se pautam na agenda midiática para a escolha dos seus temas, mas nas abordagens recorrentes da vida social, que abarcam problemáticas e situações passíveis do dia-a-dia de qualquer pessoa. Outro indicador do plano do conteúdo, o diversidade de sujeitos representados apresentou valores significativos. O episódio em que esse indicador mais foi observado foi o do dia 27 de junho, em que trouxe na trama pessoas de diferentes cores, classes e orientações sexuais, representados pela protagonista da história, a acompanhante de idosos de pele branca, o namorado, o porteiro de pele negra, o filho gay, o idoso homofóbico e preconceituoso, e a senhora empregada doméstica.

Quanto ao último indicador de qualidade do plano do conteúdo, a ampliação do horizonte do público, duas emissões analisadas mostraram-se razoáveis e três boas. No episódio do dia 13 de maio, por exemplo, a personagem principal Carol faz uma declaração pertinente e relevante para os dias atuais que pode contribuir para que os telespectadores reflitam sobre o assunto. Aos 8 minutos e 52 segundos, durante o seu relato, ela diz: “Além do mais, eu pensei: ‘poxa, se ele quer tanto ter um filho, ele com certeza vai assumir várias responsabilidades em relação a essa criança, vai ajudar a cuidar, botar pra dormir, lavar fralda, trocar fralda, enfim, essas coisas, né, que pai ajuda a fazer’”. Ao afirmar que os pais ajudam na realização dessas tarefas, é possível que reflexões tenham sido despertadas em alguns pais ausentes que assistiam ao programa no momento.

Outro exemplo em que a abordagem de temas polêmicos e contraditórios foi utilizada está na emissão do dia 27 de maio. Antes do diálogo que se inicia, Gisleine e Agenor estão andando na rua, quando um menino passa vendendo bala:

GISLEINE: O que quê foi, seu Agenor?
AGENOR: Ahh, na minha época não tinha isso aqui não…
GISLEINE: Isso aqui o quê?
AGENOR: Criolo vendo balinha na rua. Não sabe o que foi o regime militar. Era aquela disciplina, ordem na rua.
GISLEINE: Racismo é crime, viu, seu Agenor. E é pecado também.

Após esse diálogo, que faz parte da história narrada pela protagonista, a cena é cortada para o salão de beleza, e Gisleine continua o seu relato: “Ainda bem que eu não peguei essa ditadura aí, viu. Já imaginou: um bando de velho feito o seu Agenor, comandando tudo aqui no Brasil? Deus me livre e guarde”.Essa sequência de falas, portanto, aborda temas relevantes para a sociedade e possuem elementos essenciais para contribuir com a ampliação do horizonte do público, enriquecendo a visão de mundo do telespectador interagente, apresentando outros pontos de vista e estimulando o pensamento e o debate de ideias. Abaixo podemos conferir a tabela dos indicadores da qualidade do plano de conteúdo com a avaliação de cada um deles:

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Analisando a série à luz dos aspectos que compõe a Mensagem Audiovisual, identificamos que o indicador de qualidade clareza da proposta foi muito bem pontuado em todas as emissões analisadas. Isso se deve, principalmente, a dois fatores: à maneira com que a série é referida nas redes sociais, e à vinheta de abertura, pertencente ao plano da expressão. Como já adianta o próprio site do programa, “a série mostra que os homens podem ser mais canalhas em quantidade, mas que as mulheres sabem ser com muito mais qualidade”, ou seja, o programa objetiva mostrar o grau de canalhice que algumas mulheres têm, que muitas vezes ultrapassa o nível pré-estabelecido para o homem, normalmente subjugado como o gênero mais cafajeste.

Quanto ao indicador originalidade/criatividade, o programa também foi muito bem pontuado em todas as cinco emissões analisadas. Apesar de parecer mais uma série televisiva que traz protagonistas e vilões, conflitos e reviravoltas, o programa inova ao colocar mulheres interpretando papéis que geralmente são destinados aos homens.

O indicador solicitação da participação ativa do público foi notado de forma considerável nas emissões, pois estas se desenvolvem sempre no mesmo formato:mesclando o depoimento da personagem principal com a história que está sendo contada. Na confissão, as protagonistas interagem, falam e olham para a câmera, com entonação e perguntas, como se estivessem conversando pessoalmente com quem está do outro lado da lente, numa tentativa de gerar intimidade e identificação com o público, o aproximar da trama e prender a sua atenção. Um exemplo disso pode ser identificado no episódio Carolina, da 1ª temporada, em que no primeiro minuto e 39 segundos a protagonista Carol se deita na cama de massagem e sua filha, que não está aparecendo em cena, começa a chorar. Após ouvir o choro, Carol lamenta: “Ai, gente, acabou meu sossego. Por favor, Marilyn, você pode ir lá calar a boca dessa criança?”. Neste momento, a massagista sai de cena e a personagem retorna a falar, olhando pra câmera e sem ninguém a sua volta, como se estivesse se comunicando com o público.

Último indicador da mensagem audiovisual, o diálogo com/entre plataformas não foi muito identificado no programa. Sua baixa avaliação somente se deve ao fato de a história se adaptar à convergência midiática, pois foi inicialmente contada no livro Canalha, substantivo feminino, de Martha Mendonça, e depois transformada em um produto audiovisual, portanto, uma outra plataforma. A seguir podemos observar a avaliação que cada indicador teve na mensagem audiovisual:

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À luz dos modos de representação adotados pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual, As Canalhas se destacou na atuação verossímil dos personagens e nas construções das cenas. A subversão de gênero, bem como a abordagem de temas comuns da vida social, causam não só uma identificação com o púbico, que quer ver nas telinhas o que acontece na vida real, mas também a curiosidade de ver como essa nova trama se desenvolverá, se será criativa e credível ao ponto de se assemelhar à realidade e fazê-lo acreditar no que vê.Nos modos de experimentação, ouso dos recursos técnico-expressivos de apostar numa interação com o públicoatravés da linguagem e da função da câmera, que serve como um canal entre o personagem e o espectador, também foi de certa forma inovador, pois prende a atenção do público e assim contribui para uma possível reflexão e debate sobre o que está sendo falado.

Por Luma Perobeli

Zona do Agrião

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Zona do Agrião foi um programa que buscava parodiar as mesas redondas esportivas, testado pelo canal Multishow, na Copa do Mundo de 2010, com apresentação de Bruno Mazzeo. Inicialmente o formato era de pílulas de 3 minutos que apareciam durante a programação e contava com a participação dos personagens Yatta Fonseca, Manzana Zil e Caio Lúcio. Em Julho de 2012 o canal estreou um novo formato, desta vez com a apresentação do humorista Marco Bianchi. Diferente da primeira temporada, os episódios teriam sempre a participação de um convidado. Os personagens foram conservados; Gillray Coutinho permaneceu representando o comentarista Yatta Fonseca e Rodrigo Candelot, o repórter Caio Lúcio. Mariana Gouveia entrou como a assistente de palco Manzana Zil e o ex-jogador de futebol Odvan, no papel de correspondente internacional do programa. A segunda temporada, trabalho da jovem produtora audiovisual 2 Moleques, contou com 13 episódios, que iam ao ar toda terça-feira às 23h. Eram trazidos debates e comentários inusitados sobre diversas modalidades esportivas.

Uma curiosidade é que a Rede Globo já havia exibido um programa esportivo chamado Na Zona do Agrião, que começou em 1966 e durou um ano. Foi o primeiro programa na emissora com comentários sobre futebol, apresentado por João Saldanha – criador dessa gíria futebolística. O programa ia ao ar de segunda a sábado, às 19h35. “Na zona do agrião” é uma expressão do futebol, que se refere à grande área onde todas as jogadas são de grande importância, tanto para quem ataca, como para quem se defende. O significado do termo está relacionado ao cultivo do agrião, uma vez que a hortaliça deve ser plantada num terreno que retém uma grande quantidade de água e no qual as pessoas precisam se mover com cuidado.

No Plano da Expressão alguns detalhes se destacam no programa. Nota-se principalmente a linguagem e o estilo de fala do apresentador, que se parece muito com o jeito comum entre narradores e comentaristas esportivos. Manzana Zil também tem uma maneira própria de falar, gesticulando muito e com um tom chamativo. Marco Bianchi repete a expressão “nesta jornada querida” no início dos episódios, o que estimula uma memória no espectador. A apresentação inicial dos personagens do estúdio também é feita sempre, com Manzana sendo caracterizada como “internauta e banhista” e Yatta como o “ex vice campeão carioca de pebolim”. Quando o apresentador anuncia o convidado, geralmente fala seu nome inteiro, depois revela o nome artístico. Na chegada ele o cumprimenta e faz perguntas, numa demonstração de intimidade.

A abertura é bem rápida e tem desenhos animados que mencionam vários esportes num cenário de campo de futebol à noite; a vinheta remete ao ruído de torcida. Outro destaque é o cenário que imita o padrão observado em programas esportivos e abusa dos tons de verde, roxo e laranja; o piso lembra o gramado de um campo.

Nos momentos finais do programa, há a transmissão do correspondente Odvan. O repórter sempre está sem retorno de som, e são feitas perguntas a ele – que tem fones na orelha – mas ele fica só olhando para frente ou para o ambiente em que está, uma vez que não ouve o apresentador. Existe uma inscrição na tela dividida com a marca “satélite zoneado” e Odvan nunca fala nada. Esse quadro pode ser interpretado como uma paródia dos telejornais , quando comumente ocorre um delay, ou seja, um atraso de som nas transmissões via satélite.

Todos os episódios apresentam alguns momentos fixos, como o sorteio de algum prêmio aos telespectadores, o “Baú do Yatta”, o correspondente Odvan e o “pingue-pongue” com o entrevistado, o que cria um costume em quem assiste.

Na análise do Plano do Conteúdo, quanto à ampliação do horizonte do público, todas as notas foram fracas. Isso se deve à carência de assuntos que levassem o espectador à reflexão. O programa investia em piadas costumeiras, como no episódio do dia 24 de julho, em que Bianchi brinca com o tamanho de Yatta dizendo: “A primeira vista pode parecer baixinho, mas pessoalmente ele é ainda mais tampinha”, e Yatta responde: “Tampinha não, compacto”.  Ou no episódio do dia 24 de julho quando Yatta diz ao convidado Biro Biro que ainda não almoçou, coloca um guardanapo na blusa e pega um prato de macarrão instantâneo. Bianchi comenta sobre a semelhança da comida com o cabelo do convidado.

Também é visto uma falta de aproveitamento dos temas, que sempre são tratados de maneira superficial. No episódio de 14 de agosto, por exemplo, no quadro “Baú do Yatta”, o personagem diz que sente saudade dos anos 70, quando as mulheres saíam para “queimar os sutiãs”. De acordo com ele, o fato além de ter gerado a emancipação das mulheres, permitiu que os homens tivessem acesso ao “farol aceso”. Essa referência, correspondente às manifestações feministas da época, poderia ter servido para levar o espectador a uma reflexão, porém foi colocada de maneira extremamente machista e rasa.

No quesito diversidade de sujeitos representados, as notas variaram entre fraco e razoável. O critério utilizado foi o convidado do dia, uma vez que dentre os personagens fixos não é observada uma multiplicidade de sujeitos, sendo que quatro são homens e só há uma mulher, que quase não participa ativamente. Portanto, quando a convidada do dia era uma mulher foi dada a nota razoável; quando o convidado era homem, a nota foi fraca.

Neste plano, indicador que mais chama a atenção no programa é a desconstrução de estereótipos: todas as emissões obtiveram nota mínima, ou seja, esse indicador não constou. Uma das justificativas é a presença da mulher atraente no palco; Manzana Zil tem a única função de ler uma mensagem no início do programa – que sempre tem uma tendência cômica – e comunicar o sorteio do dia; depois não tem mais participação, o que faz supor que ela está ali somente para atrair o olhar do espectador. Às vezes a câmera passa rapidamente por ela, que aparece mexendo no celular.

Outro motivo observado foi o modo como estereótipos femininos são reforçados, como no quadro “Baú do Yatta” em que ele se refere à sua esposa como “Dona Encrenca”. Outro exemplo pode ser visto no episódio do dia 24 de julho, quando é exibido um VT com os “carrinhos” de Biro Biro e o ex jogador é mostrado em vários automóveis; são feitos comentários como “porta loira clássico” e “motor para sete cavalas”, sugerindo o interesse das mulheres em carros.

O indicador oportunidade foi avaliado como fraco em todas as emissões, uma vez que o apresentador muitas vezes trazia temas irrelevantes na vivência do entrevistado. No episódio do dia 14 de agosto, por exemplo, em mais uma das perguntas que pretendiam fugir ao lugar comum dos debates esportivos, a esportista Jaqueline Silva responde: “Sei lá, o que isso tem a ver com voleibol?”, deixando o apresentador sem graça. Nessa hora aparece o efeito de uma bola quebrando vidro na cara de Bianchi. As perguntas e temas também não eram necessariamente atuais.

Veja a seguir as avaliações segundo os indicadores do Plano do Conteúdo:

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Na análise da Mensagem Audiovisual, o indicador clareza da proposta obteve avaliação muito boa em todas as emissões, uma vez que pelo formato do programa ser fixo, leva a uma melhor assimilação pelo espectador. O programa é realmente muito parecido com os exemplares de jornalismo esportivos, sendo que no inicio é feito um resumo com os destaques do programa; há matérias externas com um repórter de rua e há entrevista no estúdio. Além disso, toda a trilha musical e o cenário são comuns aos programas desse ramo.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi classificado como bom, uma vez que por ser uma paródia de outros programas, é vista uma relação. Outra menção observada foi a citação “Pois bem, amigos do Multishow”, com a qual Bianchi iniciava as transmissões, e que lembra a famosa frase do narrador Galvão Bueno “Bem amigos da Rede Globo”, dita em inícios de jogos, o que foi interpretado como um diálogo com outro produto audiovisual.

O indicador solicitação da participação ativa do público, assim como o anterior obteve notas fracas. O motivo foi que a solicitação só existia de forma fictícia a cada começo de programa, quando Manzana Zil convidava os espectadores a mandarem e-mails para participação nas promoções.

No quesito originalidade/criatividade as emissões foram classificadas como razoáveis, uma vez que é um formato de programa já bastante conhecido, porém com a proposta cômica e que investe no riso fácil. Um exemplo é a atuação de Gillray Coutinho, que no início do episódio do dia 07 de julho de 2012, aparece fazendo abdominais deitado no chão e com os pés na cadeira enquanto fala. O personagem também é visto fazendo graça com caretas e caindo em cena em algumas emissões.

Outro exemplo é no momento depois que o convidado chega. O apresentador mostra seu “fã clube”, que é montado com a pequena equipe de produção e filmagem e sempre serve como um tipo de provocação ao entrevistado. Como no episódio do dia 4 de setembro de 2012 em que o fã clube de Sandra de Sá tem homens que usam roupas e tem bandeiras vascaínas, isso porque a cantora torce pelo Flamengo. Confira o gráfico:

zona2Observando os modos de representação, a criação e atuação dos personagens se dava de forma caricata, de modo a reafirmar alguns estereótipos, como o da mulher bonita e fútil. O programa não demonstrou nenhuma preocupação com críticas sociais ou representação de diversidade, sendo que os temas tratados não contribuíam para a mínima reflexão do espectador.

O uso dos recursos da linguagem audiovisual eram reciclagem de programas já existentes e com formato consolidado. A proposta era favorável para promover o debate de ideias e de pontos de vista, porém isso não acontecia. O público também não possuía nenhum tipo de participação. Além disso, o programa não apresentou nenhuma característica marcante que o fizesse ser lembrado, como bordões ou marcas específicas.

Por Letícia Silva

Sexo Frágil

sexo_fragil_5Sexo Frágil foi um seriado que estreou na Rede Globo de Televisão em 17 de outubro de 2003 a partir de um quadro exibido pelo programa Fantástico. Sendo transmitido todas as sextas-feiras às 23hs, ao longo dos 10 meses em que esteve no ar teve um total de vinte episódios que tinham, em média, 25 minutos de duração. Criado por Luis Fernando Verissimo e adaptado por Guel Arraes, o humorístico descreveu o dilema de quatro jovens que viviam divididos entre o papel tradicional do homem na sociedade e sua vontade de ser mais sensível, flexível e gostar de discutir a relação a dois. Os atores Bruno Garcia, Wagner Moura, Lázaro Ramos e Lúcio Mauro Filho são os únicos atores no programa, interpretando os homens e as mulheres do seriado.

No plano da expressão, observamos que o tema de abertura do seriado, a canção “Gosto que me enrosco”, um samba de 1929 do compositor “Sinhô”, levanta a discussão da relação homem e mulher diante das transformações buscadas pelas feministas, como, por exemplo, o direito ao voto, que foi conquistado três anos após a gravação dessa música. A vinheta reforça essa relação de gênero da música de abertura e subverte a lógica de superioridade dos homens sobre as mulheres ao posicioná-los em primeiro plano para, posteriormente, revela-los muito menores em relação às mulheres, dando ideia de inferioridade perante elas. Ao mostrar, por exemplo, um homem musculoso fazendo exercício na barra de ferro, a câmera faz um movimento aparente de afastamento (zoom out) em relação ao que é filmado, para revelar o que está ao redor do objeto inicial, que é, no caso, um homem dependurado no brinco de uma mulher, e a representação de toda a grandeza feminina diante da pequenez do homem, que se mostra inferior.

No plano do conteúdo, um dos indicadores destaques foi ampliação do horizonte do público, observado nas propostas polêmicas que estimulavam o repertório cultural do espectador ao fazê-lo pensar e refletir sobre o que estava assistindo. Dos seis episódios analisados da série, no indicador ampliação do horizonte do público três episódios são fracos; dois, razoáveis; e um, bom, o que revela uma tentativa razoável do programa de inserir em seu público discussões de cunho relevante. Um bom exemplo disso pode ser identificado no episódio O ciúme, já no seu primeiro minuto. Ao som da música “Ciúme”, da banda Ultraje a Rigor, o tema “ciúme” é levantado numa mesa de bar pelo personagem Beto e logo em seguida um diálogo se inicia, com Fred se defendendo da acusação:

FRED: Eu não tenho ciúmes, porque graças a Deus eu não tenho dentro de mim esse sentimento egocêntrico e castrador que é o ciúme. Ciúme não é uma coisa legal de se ter. Ciúme não é coisa de homem.

ALEX: Concluindo: só o que é legal de se ter é coisa de homem?

FRED: Eu não disse isso. Eu disse isso?

BETO: E coisa de mulher, não é legal de se ter?

ALEX: Esquece!

(Sexo Frágil – episódio O Ciúme 23/07/2004)

A combinação desse diálogo com o movimento abrupto da câmera e os efeitos sonoros compõe a estética da cena e dão um ar de leveza ao tema, que é rapidamente inserido. O uso do zoom in, que acontece para dar destaque para trechos da fala do emissor; do zoom out, para revelar a reação dos outros personagens diante do que é falado; e a presença dos cortes secos, destacam o rosto dos atores e introduzem certa reflexão, dando ao espectador a chance de pensar por si mesmo.

O indicador de qualidade do plano do conteúdo diversidade de sujeitos representados é bastante importante se pensarmos que para desconstruir uma visão consolidada, ou um estereótipo, precisamos de um panorama plural de diferentes grupos da sociedade. Nesse indicador, dois episódios são razoáveis, e quatro são bons, o que revela que o programa não se preocupa em contar as histórias sob múltiplos ângulos e representações em todas as emissões. Normalmente, encontra-se uma visão dos homens protagonistas e outra das mulheres. No episódio Como dar o fora, que foi bem avaliado, assim como nos outros que também foram considerados diversos, a tática usada foi a de ir para as ruas para saber a opinião do público.

Durante 25 segundos do referido episódio, são levantadas questões como o que falar para o parceiro na hora de “dar o fora” e onde seria o melhor lugar para se fazer isso. Na entrevista, percebe-se a tentativa de um equilíbrio de gênero, já que são mostrados nove homens e nove mulheres. Desse total, quatro mulheres permanecem em silêncio, e uma introduz a primeira pergunta sem emitir seu palpite, já que não havia um entrevistador; dos homens, apenas um não opina. Durante o tempo da externa, três pessoas falaram duas vezes: duas meninas respondem às duas perguntas, e um rapaz introduz a segunda pergunta para logo em seguida respondê-la. Como se trata de uma externa, o som é ambiente, típico das ruas, com pessoas comuns, umas com roupas mais sociais e outras mais despojadas, para dar a impressão de pessoas de distintos círculos sociais.

O indicador desconstrução de estereótipos não se destacou no programa. O recurso do estereótipo foi bastante utilizado, a princípio para desconstruir as representações limitadas, mas acabou, ao final, reforçando-os. No episódio Minha vida não é um sitcom, por exemplo, os quatro personagens iniciam a história falando que “o mundo é dividido entre as celebridades, pessoas famosas e maravilhosas que todo mundo adora, e as pessoas comuns, que adoram as pessoas famosas”. Dessa forma, eles estimam que 98% das pessoas são banais e que eles fazem parte dessa imensa massa desconhecida à qual “ninguém dá a mínima”. Após uma tentativa falha de serem notados do jeito que são, vendo o porteiro do prédio do personagem Beto no Programa do Jô, chegam à conclusão de que também querem ser notados e que por isso devem adotar “tipos”. O “fortão burro”, o “atleta sexual que pega todas”, o “culto sensível” e o “hilário e espirituoso” são, segundo o consenso deles, os tipos mais interessantes e bem sucedidos. Observamos aqui, portanto, um constante e intenso uso do estereótipo nas emissões, mas não para a desconstrução, e sim para a afirmação.

Já no último indicador da qualidade do conteúdo, oportunidade, a avaliação revelou números baixos, pois, apesar de ser produzido em uma época de ascensão social das mulheres, o tema da relação de gênero na forma como é abordada não era tão falado e nem estava na agenda midiática, sendo o Sexo Frágil, por isso, um programa que possibilitou um pouco mais esses diálogos. Abaixo, a avaliação recebida por cada indicador de qualidade do plano do conteúdo:

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Quanto à análise da mensagem audiovisual, no indicador de qualidade originalidade/criatividade temos nos seis episódios analisados uma avaliação boa, o que aponta um bom desempenho do programa em surpreender o público com seu formato, apresentação e abordagem de temas. Essa avaliação se deve, entre outras coisas, à interação promovida com o público por meio de uma linguagem mais informal e direta, em que diversas vezes vemos que os atores falam como se estivessem conversando com o espectador pessoalmente.

Esse envolvimento é relevante, pois a temática comum a todos os indivíduos possibilita a identificação do público e sustenta os altos números recebidos pelo indicador solicitação da participação ativa do público, em que a participação dos mesmos, opinando acerca das situações abordadas no programa, permitiu um vínculo entre ambas as partes. Apesar dessa interação programa-público, não constatamos números no indicador diálogo com outras plataformas. Uma das justificativas para essa ausência deve-se ao fato de naquela época a internet não ser tão difundida como nos dias atuais, em que muitos programas conversam diretamente com seu público através das diferentes mídias.

No último indicador de qualidade da mensagem audiovisual, clareza da proposta, a alta avaliação recebida se justifica pelas discussões diretas e esclarecedoras trazidas pelos personagens, e pela objetividade que a música e a vinheta de abertura trazem, que adiantam o assunto tratado no programa, como já falamos anteriormente. Abaixo, os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual, com suas respectivas avaliações:

sf2No início do século XXI, a fragilidade do tradicional “macho alfa” veio à tona quando, no contexto social, essa representação se viu diante de uma nova sociedade dominada pelo “sexo frágil”, antes assim rotulado, mas que se subverteu a esse estereótipo. As novas mulheres, mais independentes e seguras, ganhavam o seu espaço na sociedade e na televisão. Assuntos polêmicos sobre gênero, sexo, orientação sexual e preconceito, eram pontuados no programa a fim de ampliar o horizonte do público e gerar reflexões sob uma ótica nunca antes abordada nas telinhas.

Atitudes como indecisão, insegurança, choro, sensibilidade e sentimentalismo colaboram para a desconstrução do macho alfa na sociedade e foram constantemente notadas na atração. No entanto, a ideia de que homens só pensam em sexo e em mulheres contrapõe as atitudes mostradas, colaborando para fortalecer o conceito e o preconceito do senso comum.

Ao longo dos episódios percebemos uma dualidade: ora o programa se apresentava como um agente da desconstrução, por meio de ações, palavras ou da inserção de reflexões, ora promovia o reforço de generalizações construídas socialmente. Ao trabalhar a desconstrução para arquitetar formas de romper com o consolidado, foram usadas ideias que fortaleciam os estereótipos que recaíam sobre as mulheres.

Tentando desconstruir o estereótipo do homem e acabando, por fim, construindo o da mulher, o programa não tratou o homem como um ser autossuficiente, provedor, seguro e viril, como comumente é visto, e expôs as suas fragilidades, dúvidas e incertezas, ao passo que também exagerou, ridicularizou e rotulou algumas “atitudes de mulher”.

Em vista do analisado e considerando que existe uma linha muito tênue entre desconstruir um estereótipo e reforçar outro, é possível dizer que o seriado pecou pelo excesso da paródia na inversão dos papéis e acabou por reforçar os rótulos e paradigmas que giram em torno da mulher. Apesar disso, é inegável que teve sua importância no cenário da televisão brasileira, ao gerar certa reflexão e promover o envolvimento do público.

Por Luma Perobeli

 

CQC – Custe o Que Custar

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Custe o Que Custar (CQC) estreou na Rede Bandeirantes de Televisão no dia 17 de março de 2008 e é uma franquia do formato argentino CaigaQuienCaiga, produzido pela Eyeworks. Mesclando humor e jornalismo, o programa tinha três apresentadores de bancada e já passaram por lá Dan Stulbach, Marco Luque, Rafael Cortez, Marcelo Tas e Oscar Filho. Eles vestiam um figurino em comum: terno preto, gravata e óculos escuros, fazendo referência ao filme “MIB – Homens de preto”. Dos criadores Diego Guebel e Mario Pergolini, desde 2010 o humorístico é dirigido por Gonzalo Marco. Apresentando ao longo das suas seis temporadas uma grande rotatividade entre seus participantes, já passaram pelo elenco do CQC nomes como Felipe Andreoli, Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Monica Iozzi e Dani Calabresa. A atração ia ao ar todas as segundas-feiras às 22h30, com duração aproximada de duas horas e trazia os fatos políticos, artísticos e esportivos da semana de forma satírica e bem humorada.

No que se refere ao plano da expressão o programa apresentava boa qualidade de som e imagem, uma vez que cumpria o estilo jornalístico. Falando das reportagens, estas sempre apresentavam na parte superior da tela as palavras chaves do tema e antes da sua exibição era mostrada a editoria a qual a matéria pertencia. Parte das vezes quando um entrevistado era identificado, havia alguma descrição abaixo do nome que tinha o objetivo de ser engraçada, por exemplo: Aécio Neves – “candidato a presidente derrotado”.

Um ponto notório é a publicidade, excessivamente explorada em esquetes que faziam propagandas de produtos e serviços com atuação dos próprios integrantes. Além disso, a arte de abertura também havia marcas inseridas.

No plano do conteúdo houve uma grande variedade na classificação dos indicadores. Falando sobre a ampliação do horizonte do público, duas emissões foram consideradas muito boas e duas boas. Isso aconteceu principalmente pelo cunho informativo do programa. Era dada uma contextualização dos assuntos e buscava-se uma diversidade de fontes, o que permitia um maior conhecimento do público acerca dos temas. Um dos episódios com melhor classificação foi o do dia 3 de Junho de 2013. Nele é exibida uma reportagem sobre a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil e a discordância do PSC (Partido Social Cristão), que tentava impedir. Há uma contextualização citando outros países que já adotaram a medida, além de mostrar a visão sobre o assunto no congresso e no partido em questão. Isso contribui para um maior engajamento e reflexão do espectador que vê diversos pontos de vista sobre o mesmo tema.

Falando sobre diversidade de sujeitos representados, pode-se observar que os episódios tiveram boas classificações, sendo que três foram muito bons. Como um programa jornalístico apresenta uma pluralidade de vozes, buscando ouvir além das fontes oficiais, as pessoas que geralmente não tem espaço de fala. Na reportagem sobre a dengue, exibida no programa de 3 de Junho de 2013, por exemplo, são entrevistadas pessoas negras e brancas, homens e mulheres de diversas faixas etárias, além de um especialista no assunto. São feitas até mesmo denúncias acerca do tratamento médico de má qualidade; o espaço é aberto a qualquer tipo de crítica. Foram feitas entrevistas em um bairro periférico, onde o repórter mostra as condições de moradia e como a falta de saneamento básico e a negligência do poder público podem gerar condições para a doença se proliferar.

O indicador desconstrução de estereótipos foi o mais chamativo: não constou em três emissões e foi fraco em uma. Isso aconteceu porque muitas vezes os repórteres e apresentadores reafirmavam lugares comuns através de suas falas ou entrevistas. Um claro exemplo aconteceu no dia 26 de Setembro de 2011, na cobertura que Rafael Cortez fez de Dilma em uma viagem a Nova York, onde ela seria a primeira mulher a abrir a Assembleia Geral da ONU. O repórter pergunta a um entrevistado: “Uma mulher no poder aqui é uma boa maneira de limpar a sujeira?”. Além disso, ele pergunta ao presidente Chile: “Você acha que Dilma vai fazer um grande discurso hoje ou como mulher vai falar em direitos iguais e blábláblá?”, reiterando a opinião de uma camada da sociedade que pensa baseada em opiniões machistas.

Outra demonstração clara de piada que gerou uma problemática relacionada ao machismo, foi o momento após um quadro em que Mônica Iozzi interagia com Tiririca e ele a assediava verbalmente. Os apresentadores vão em “defesa” dela, afirmando que é uma mulher séria e começam a dizer que a mesma nunca ficou com ninguém, além de Marcelo Tas, do diretor do programa – para ser admitida – do segurança e da moça que trabalha no café. As falas são feitas no sentido de reafirmar o estereótipo da mulher interesseira e que busca benefícios. Ao final do programa, o apresentador diz que tirando os nomes que aparecem nos créditos, ela não “deu” pra mais ninguém, porque ela é “para casar”.

O indicador oportunidade foi claramente percebido e todos os episódios foram muito bons. Por ser um programa jornalístico de humor, os assuntos eram pautas midiáticas e sociais e geralmente tinham como pré-requisito a atualidade. Na emissão de 27 de Outubro de 2014, por exemplo, o dia era de resultado de eleição presidencial e Marcelo Tas já no início do programa deseja boa sorte à presidente Dilma, reeleita para o cargo. O episódio traz ainda uma cobertura da disputa eleitoral entre Dilma e Aécio e o dia das eleições de 2014. Outro exemplo de atualidade, dentre vários, foi no dia 17 de Novembro de 2014, em que Guga Noblat cobre os protestos daquele mês contra o governo, com vários manifestantes pedindo o impeachment da presidente Dilma.

Veja a seguir as avaliações referentes ao plano do conteúdo:

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Falando sobre a mensagem audiovisual, a clareza da proposta obteve todas as classificações muito boas. Isso se deu principalmente pela divisão que era feita como num telejornal comum, com matérias de política, esporte, internacional, dentre outras editorias, sendo que a notícia mais esperada ficava para o final. Além disso, o último quadro era o “Top five”, que continha momentos engraçados e marcantes de outros programas ou vídeos da semana.

O indicador diálogo com/entre outras plataformas foi tido como bom em todas as emissões analisadas. Os apresentadores e repórteres sempre citavam nomes de políticos, partidos, personalidades, emissoras e outras atrações televisivas. Em algumas reportagens e no quadro “Top five” chegam a ser exibidos pequenos trechos de programas de outros canais.

Outro indicador com altas avaliações foi a solicitação da participação ativa do público, que foi boa em todas as emissões. Além da linguagem que é simples e acessível, Marcelo Tas pede a participação dos internautas para o “Top five” via Twitter – eles mandam sugestões de vídeos para a conta @topfivebrasil. Outro quadro que conta com essa interação é o “Reclame já”, que recebe queixas de espectadores a respeito de algum problema de responsabilidade do poder público. Esses problemas são mostrados e são feitas entrevistas com os afetados e com as pessoas responsáveis, em busca de solução.

No que se refere à originalidade/criatividade do programa, todos os episódios foram bons. Nesse quesito foi levado em consideração o formato inovador de um conteúdo jornalístico apurado, mas com forte presença do repórter e sua opinião, uma vez que ao fazerem as entrevistas alguns de seus pontos de vista apareciam, ao contrário dos telejornais tradicionais que optam pelo discurso da imparcialidade. Na emissão do dia 27 de Outubro, por exemplo, há uma cobertura sobre as eleições de 2014 e por meio das entrevistas aos políticos e apoiadores dos candidatos, nota-se um tom irônico nas entrevistas aos que preferiam o projeto de Aécio Neves. No mesmo programa, o repórter Guga Noblat chega a falar com o político Hugo Leal do PSD que seu partido é interesseiro, uma vez que sempre escolhe ficar do lado de quem que está no poder, independente de sua ideologia.

A seguir, os indicadores da mensagem audiovisual:

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Percebeu-se que o programa, descrito como “resumo semanal de notícias”, trazia quadros informativos e bem produzidos, reportagens com a abordagem de assuntos relevantes para a sociedade e que tocam em questões de saúde, educação, política, esportes, dentre outros. O conteúdo era elaborado baseado no máximo de fontes possível – falas de especialistas, testemunhas, pessoas diretamente envolvidas com os fatos – e às vezes infográficos informativos. Em relação aos modos de representação, muitas vezes foi observada uma reafirmação de estereótipos através de falas de repórteres e apresentadores ou até mesmo dos esquetes publicitários. Porém, haviam reportagens preocupadas em fazer críticas sociais e contribuir para a promoção da diversidade. Além disso, CQC fazia cobranças às autoridades, em busca de respostas às demandas da população; as fugas daqueles eram combatidas com argumentos e provas das situações reais. Os pedidos às vezes eram atendidos devido à visibilidade do programa.

Falando dos modos de experimentação, não foi percebido o uso dos recursos técnico-expressivos de forma inovadora, uma vez que o formato utilizado era o mesmo dos telejornais. O público tinha a possibilidade de participar de alguns quadros, o que contribuía para a construção da narrativa e promovia a diversidade de pontos de vista.

Por Letícia Silva