Por Samara Angela
Revisão Daiana Sigiliano
O grupo sul-coreano BTS mobiliza diariamente uma legião de fãs por meio de suas músicas e produções midiáticas. Nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter) e no Instagram, as Armys — sigla do nome dado ao fandom — buscam se atualizar diariamente sobre os ídolos e, acima de tudo, manter a prática de convívio entre si (Santana; Santos, 2019).
O perfil que será analisado apresenta um hibridismo entre a fã-arte como representação e a elaboração de fanfictions a partir dessas imagens. Em que fãs usam personagens e seus relacionamentos como ponto de entrada de suas produções (Jenkins, 2012). A kindofb__, ou Soff, é uma ilustradora argentina que usa o Instagram para a divulgação de suas artes. As produções são, em maioria, representações dos membros Jimin e Jung Kook, ou JiKook, nome dado pelo fandom ao par.
Portanto, a partir de seu perfil, será feito a análise da literacia do fã (Borges; Sigiliano, 2024), ao qual com base na definição busca verificar por meio do protocolo metodológico desenvolvido no âmbito do Observatório três dimensões. A primeira, empenha compreender o nível de entendimento que o fã apresenta para com o universo de referência, observando quais e de que maneira esses elementos são aplicados em suas produções. Em conseguinte, é observado a interação do fã para com a arquitetura informacional do Instagram, plataforma a qual ele utiliza para a propagação desses conteúdos, que dispõe de diferentes funcionalidades. Por último, mira-se além do universo de referência, onde aqui a procura se dá na identificação de possíveis interpretações e novas produções de sentido.
Universo de referência
Iniciando a análise, coloca-se em foco o domínio sobre o cânone, então, a observação se dá em verificar os conhecimentos acerca do universo de referência, correlacionando com o que se é apresentado no perfil, constatando se há ou não concordância nas produções (Sigiliano et al, 2025). Por se tratar de um grupo, o BTS não apresenta aspectos rígidos no que se diz a estética. Portanto, possibilita o fã a adotar uma paleta de cores e outros elementos individuais, porém, se atentando a características da realidade, como aspectos físicos, cores de cabelo, figurinos e demais componentes. Deste modo, é possível observar que a identificação da persona se dá devido a características físicas, como cicatrizes e tatuagens — nesse caso, a falta delas — podendo causar confusão em indivíduos que não possuam conhecimento aprofundado acerca do universo.

Assim, quanto a regras e códigos, o fã desenvolve arcos narrativos que se aproximam da realidade do cânone. Para além, a criação desses personagens segue uma lógica adotada também por meio de teorias, atribuindo a eles determinados papéis em concordância com esses dois olhares. As ações dos membros, como a postura protetora de Jung Kook com Jimin, são ressignificadas pelo olhar dos fãs. Esses selecionam interações específicas para sustentar dinâmicas afetivas entre os integrantes. Assim, traços como proteção ou vulnerabilidade são atribuídos subjetivamente. Essa leitura coletiva orienta a criação de narrativas coerentes com a percepção do fandom.

Juntamente, no que se diz a respeito ao metatexto, isto é, informações obtidas por fontes secundárias, o BTS se caracteriza por, além de suas músicas, ter um catálogo variado de conteúdos produzidos para os fãs. Em suas artes, Soff utiliza referências diversas como, por exemplo, o reality show Are you sure? (2024). Em que se identifica várias artes com essa temática. Para além, figurinos de clipes, photoshoots, postagens pessoais em redes sociais e até fontes não oficiais, como looks de aeroporto.

Por fim, apesar de ser um perfil com o foco em fã-artes, é possível observar um hibridismo com fanfics, dado por meio de lacunas, ampliando o espectro dos sentidos possíveis do cânone (Jenkins, 2012), o último ponto da análise relacionado ao universo de referência. Como, por exemplo, a alusão a uma cena do documentário citado anteriormente como uma das fontes de produção. A mesma não é 100% fiel à realidade, em que apesar da viagem de trem retratada na imagem haver verossimilhança com o conteúdo original, a ação e diálogo aqui presentes em específico nunca foram ao ar.

Logo, com base no entendimento de cultura de fãs, o qual Borges et al. (2022) aponta como superador da simples decodificação das mensagens midiáticas, entende-se que os fãs desenvolvem uma produção que, para além de evocar criatividade, também implica intervenção. Soff, no que se refere ao universo de referência, demonstra um conhecimento aprofundado e um engajamento aprimorado em todas as etapas da análise, produzindo artes coesas com o cânone, conservando traços já consolidados como seu estilo artístico e que apresentam características fideísticas aos ídolos representados.
Arquitetura informacional do Instagram
O presente tópico, por meio da análise, foi identificado como o menos satisfatório quando relacionado a Soff. O ponto elencado como conteúdo visual é o foco desse perfil, considerado ser um usuário que compartilha fã-artes. Porém, dado às ferramentas de engajamento, a mesma não incentiva ativamente a participação do fandom, utilizando raramente de hashtags, como em aniversários ou eventos organizados, para além de legendas escassas que apontam para outras informações presentes no perfil, como a possibilidade de comissões através do link na bio.
É observado a utilização dos stories, entretanto de maneira moderada, sendo apenas para republicar artes, tanto as pessoais quanto de outros criadores. Outro recurso de tempo real a pontuar é o adesivo ‘Perguntas’, já utilizado para promover discussões sobre temas como desenho e aspectos do universo de referência.

Deste modo, nota-se o desenvolvimento de uma identidade visual no perfil, construída a partir de seu traço artístico, para além da correlação com o universo de referência e com o shipp principal ao qual ele se vincula. Isso caracteriza o aspecto denominado ‘templabilidade do conteúdo’, que, nesse caso, se manifesta.

Apesar de ter um engajamento considerável no Instagram, reunindo mais de 29 mil seguidores, é possível apontar que a mesma não utiliza os conjuntos de ferramentas da plataforma em seu potencial máximo, indicando possuir um público já consolidado ao qual suas produções são direcionadas. Ainda assim, a identidade visual do perfil se destaca como um dos pontos fortes desta etapa, especialmente pelo viés artístico, com uma paleta de cores e traços específicos que conferem coesão às imagens e tornam o feed esteticamente agradável.
Pedagogia do pop
Apesar de não ser possível constatar claramente o parâmetro ‘identificação’ na observação, visto o perfil ser reservado quanto ao seu lado pessoal, Soff utiliza, em suas produções, signos do universo de referência para reafirmar aspectos como sexualidade, dado, por exemplo, pela camisa retratada no membro Jimin, recorrente em diversas postagens. A mesma é usualmente citada em discussões pautadas em teorias, onde os membros do grupo defendem supostamente determinadas causas, sem um pronunciamento formal para sustentação do ponto de vista. Aqui, a sexualidade seria uma delas, portanto, o uso desta camiseta fora vista como uma espécie de declaração nesse sentido, considerado ser de uma coleção pride da marca de luxo Yves Saint Laurent, com a parte gráfica desenhada pelo próprio Yves, em que sua sexualidade também se torna um dos argumentos para sustentar as discussões acerca do tema e da escolha da utilização por Jimin em um photoshoot oficial.

O repertório midiático, no caso de Soff, é um dos pontos mais palpáveis no perfil. Neste contexto, observam-se nomes já consolidados, como Taylor Swift; Spy X Family (2019) e Go for it, Nakamura! (2014), ambos mangás que ganharam grande destaque nas redes sociais; além de High School Musical (2006) e outras referências, como cenas de videoclipes, séries e músicas de diversos artistas, em sua maioria relacionados ao gosto da mesma. Para além, a participação em trends, seja essas de áudio ou a releitura de imagens que ganham visibilidade nas redes.

Em virtude do parâmetro final, a ‘controvérsia’, é possível afirmar que todo o perfil é baseado em uma, pois é fundamentado em um shipp, no qual a maioria das representações são amarrações interpretativas que não estão presentes na obra original, que nesse caso, são as relações dos membros do grupo. Pauta-se muita das vezes em recortes de um diálogo em que, a partir dele, cria-se um universo relacionado fundamentado no que Jenkins (2012) conceitua como potenciais, ou seja, possibilidades narrativas que vão além do enredo original.
Sendo assim, no que tange à Pedagogia do Pop, observa-se um envolvimento intrínseco com diversos conteúdos da cultura pop, que vão desde áudios virais até releituras de imagens consolidadas. Porém, deixa a desejar no que se refere à identificação e à temática, talvez por não se tratar de uma conta com caráter pessoal, mas sim voltada à divulgação de suas artes, que agora se caracterizam como trabalho, dada a possibilidade de realizar comissões.
Em suma, as habilidades críticas e criativas da literacia do fã estão em operação no perfil do Instagram, kindofb__. A página apresenta uma produção criativa rica em detalhes tanto do cânone quanto em interlocuções e diálogos para além do universo de referência. Soff transforma assim suas artes em algo significativo para o que se diz respeito ao fandom, e acima de tudo, o subgrupo ao qual ela pertence, trazendo um dos pontos-chave em que Jenkins (2012) evidencia como uma produção acertada acerca da fanfiction, referindo-se a capacidade de transformar diálogos em fundamento para a sustentação da história criada, sendo para além de intrínseco em suas produções, por muita das vezes, evidenciado pela mesma ao apresentar o momento original que se deu a inspiração para a criação, demonstrando sua capacidade de expansão de narrativas.
Referências:
BORGES, G. et al. Cultura de Fãs em Portugal – Estudos Culturais no campo dos media. In: BAPTISTA, M. M et al. (Orgs). Estudos Culturais em Portugal: Cartografias, Desafios e Possibilidades. Coimbra: Grácio Editor, 2022. p. 117-130.
JENKINS, H. Lendo criticamente e lendo criativamente. Matrizes, v. 9, n. 1, p. 11-24, 2012. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v6i1-2p11-24.
SANTANA, A. G; SANTOS, M ST. Práticas culturais urbanas: análise do comportamento das Armys – fãs do grupo de K-pop BTS. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 42., 2019, Belém. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2019.
SIGILIANO, D; BORGES, G. Literacia dos fãs da série brasileira As Five na rede social X. Journal of Digital Media & Interaction, v. 7, n. 17, p. 77-92, 2024. DOI: https://doi.org/10.34624/jdmi.v7i17.38017.
SIGILIANO, D. et al. Literacia do fã em animês: a ressignificação do cânone de Shingeki no Kyojin no Youtube. 34º Encontro Anual da Compós, 2025. Anais […], 2025 (no prelo)














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