Observatório da Qualidade no Audiovisual

Estratégias de transmidiação na ficção seriada: TV e streaming

Equipe
Eutália Ramos
Matheus Soares
Ricardo Souza

As séries ficcionais estão entre os conteúdos mais consumidos na atualidade e possuem grande poder de engajamento junto ao público nas redes sociais. Elas estão espalhadas por diversas plataformas, desde a televisão aberta, passando por canais pagos, até os serviços por streaming – cada vez mais populares e numerosos -, além de sites piratas que disponibilizam os episódios online. Não à toa, o interesse acadêmico em torno dessas obras também tem se intensificado.

Nas últimas três décadas, inúmeras transformações têm marcado o cenário da ficção seriada em relação aos seus modos de produção, distribuição e consumo. Essas mudanças foram destacadas, inicialmente, em produções de origem estadunidense (JENKINS, 1995; JOHNSON, 2005; MITTELL, 2012a), mas também vêm caracterizando obras oriundas de outros países nos últimos anos. 

Tendo em vista a possibilidade em multiplicar a distribuição e, consequentemente, o consumo dessas produções, obras da ficção seriada adquirem um novo contexto após disponibilização em diferentes ambientes, sejam produções atuais ou antigas – principalmente no streaming. Do mesmo modo, formatos como a telenovela ganham espaço neste cenário, por possuir uma narrativa também marcada pela serialidade. No Brasil, estamos vivenciando esse quadro nas plataformas de streaming que disponibilizam obras televisivas no ambiente digital.

O atual cenário midiático é marcado cada vez mais por nichos de consumo, com mensagens construídas para atingir determinados públicos específicos (ANDERSON, 2006). As séries e, agora, a telenovela também fazem parte dessa realidade e seus modos de produção, de veiculação em diferentes plataformas e as interações com os fãs, são orientadas de maneira planejada, buscando atingir os objetivos de seus criadores.

Além de inovações nos modos de criação das narrativas, as séries também são atravessadas por novas práticas de divulgação pelas suas emissoras, propiciadas pelo ambiente da convergência midiática (JENKINS, 2013). Essas práticas também atingem o formato telenovela, com o intuito de conquistar o público do digital que difere totalmente do espectador do fluxo televisivo. As estratégias transmídia têm o objetivo de gerar engajamento e reforçar a presença do mundo ficcional nos ambientes digitais, principalmente nas redes sociais. “A chave da experiência transmídia passa a ser, agora, a ressonância e a retroalimentação dos conteúdos” (FECHINE e FIGUEROA, 2011, p.26). Os paratextos (GRAY apud MITTELL, 2012b) como trailers, sites, propagandas, pôsteres, entre outros, são conteúdos que formam as estratégias transmídia das séries ficcionais. Como salienta Lessa (2017), os paratextos não possuem funções narrativas, mas são extensões informativas que repercutem o mundo ficcional.

Os modos mais elaborados de construção narrativa, somados às inovações tecnológicas e as diversas formas de consumo disponíveis nos colocam hoje em um ambiente de uma cultura das séries (SILVA, 2014). Tendo em vista as práticas emergentes de articulação da ficção seriada no ambiente digital, nos propomos a analisar as estratégias transmídia dos canais de televisão para a divulgação de suas séries.

Warner Channel


Desde seu lançamento na América Latina, que ocorreu em 1995, a Warner Channel se destaca como uma das emissoras mais assistidas na TV por assinatura em virtude dos filmes e séries produzidos por sua matriz, a Warner Bros. Entertainment. Em sua grade de programação, a ficção seriada é voltada principalmente para o público infanto-juvenil – com classificação entre 12 e 14 anos –, transmitida nos Estados Unidos pela CW, rede exclusiva para transmissão de séries da Warner Bros.

Nosso objetivo neste projeto é identificar os modos pelos quais a emissora trabalha as estratégias de transmidiação de suas séries nas redes sociais Instagram e YouTube, além da construção de seu site oficial. Visamos assim, compreender como as estratégias adotadas pela Warner Channel estão associadas às temáticas de seus conteúdos e de que maneiras elas solicitam o engajamento dos fãs.

As séries escolhidas são aquelas que possuem maior destaque nas ações das redes sociais da Warner e estavam sendo exibidas pela emissora durante o primeiro trimestre de 2020, período de recorte do levantamento: Supernatural (2005), The Flash (2014), Supergirl (2015) e Riverdale (2017).

Globoplay


Desenvolvida em 2015, a plataforma de streaming do Grupo Globo inicialmente se portava como uma expansão da grade da TV Globo. Entretanto, esse cenário vem se modificando e, atualmente, além da disponibilização dos conteúdos veiculados na televisão, temos a criação de obras acompanhadas pelo selo “Original Globoplay”, com formatos como séries de ficção, humorísticas e documentários. Por outro lado, há no catálogo online séries internacionais famosas, como Grey’s Anatomy, The Big Bang Theory, entre outras. 

Em maio de 2020, a empresa divulgou a divulgação de telenovelas clássicas no streaming. Algumas produções que foram transmitidas desde meados dos anos 1970 até 2020 na televisão agora estão disponíveis a qualquer momento no Globoplay. A distribuição ocorre mensalmente, geralmente são duas a três telenovelas “novas” na plataforma. Como divulgação, o Globoplay vem adotando práticas do ambiente digital para um maior engajamento do público e dos fãs. 

Nosso objetivo é identificar as ações e estratégias de transmidiação utilizadas e se há similaridades nesse modo de divulgação nas redes sociais do Globoplay (Instagram, Facebook e Twitter). Dessa forma, identificar as modificações propiciadas pela convergência midiática que acarretam na retroalimentação das janelas do Grupo Globo (TV Globo e Globoplay) e o aumento do consumo de suas produções. 

Optamos por observar um mês de divulgação das dez primeiras telenovelas disponibilizadas no Globoplay, desde maio a outubro de 2020 São elas: A Favorita (2008), Tieta (1989), Explode Coração (1995), Estrela-Guia (2001), Vale Tudo (1988), Torre de Babel (1998), Fera Radical (1988), A Indomada (1997), Laços de Família (2000) e Meu Bem, Meu Mal (1990).

Estratégias de transmidiação

Iremos estudar as estratégias de transmidiação da Warner Channel e do Globoplay a partir das propostas elaboradas por Fechine et al (2013) e Lessa (2017), categorizando-as em: antecipação, recuperação, remixagem e contextos de produção.

Em uma breve definição elas funcionam da seguinte forma:

Antecipação: são os conteúdos que cumprem a função de informar o público sobre as produções que serão transmitidas, visando gerar expectativa e atrair a audiência para a exibição dos programas. Pôsteres e trailers promocionais postados nas redes sociais, assim como guias informativos e de programação nos sites dos canais são exemplos desse tipo de estratégia.

Recuperação: essas ações são voltadas para o público como forma de relembrar acontecimentos da narrativa, de forma que os espectadores não percam contato com o enredo das séries. Resumos de capítulos e temporadas, vídeos de análise das tramas e até mesmo os episódios disponibilizados em plataformas de streaming para assinantes são alguns dos elementos que constituem esta categoria.

Remixagem: são extensões paratextuais construídas com o objetivo de engajar o público, muitas vezes através de postagens dotadas de um tom humorado ou irônico, ressignificando os contextos originais das séries. A criação de memes e paródias são algumas das formas que os canais podem utilizar para chamar atenção dos espectadores e incentivar a participação nas redes.

Contextos de produção: estas ações são voltadas para oferecer ao público informações que vão além das narrativas, de forma que os espectadores se sintam mais próximos das séries que assistem. Entrevistas com os atores e membros da produção dos programas, vídeos de making of e conteúdos informativos sobre a construção dos enredos fazem parte dessa estratégia.Essas quatro iniciativas não estão todas presentes necessariamente nas plataformas da emissora e do serviço de streaming e, muitas vezes, elas podem se combinar dependendo das ações realizadas. Dessa forma, buscamos analisar as ações de transmidiação exercidas pelo Warner Channel para a ficção seriada e pelo Globoplay para as telenovelas, destacando suas características e articulações mais relevantes em suas plataformas digitais.

Referências

ANDERSON, Chris. A Cauda Longa: do mercado de massa para o mercado de nicho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

FECHINE, Yvana; FIGUEIRÔA, Alexandre. Transmidiação: explorações conceituais a partir da telenovela brasileira. In: VASSALLO DE LOPES, Maria Immacolata (Org). Ficção televisiva transmidiática no Brasil: plataformas, convergência, comunidades virtuais. Porto Alegre: Sulina, 2011, p. 17-59.

FECHINE, Yvana et al. Como pensar os conteúdos transmídias na teledramaturgia brasileira? Uma proposta de abordagem a partir das telenovelas da Globo. In: VASSALLO DE LOPES, Maria Immacolata (Org.). Estratégias de transmidiação na ficção televisiva brasileira. São Paulo: Globo, 2013, p. 19-60.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência (livro eletrônico). São Paulo: Aleph, 2013.

___. Do You Enjoy Making the Rest of Us Feel Stupid? Alt.Tv.Twinpeaks, the Trickster Author, and Viewer Mastery. In.: Fullof Secrets: Critical Approaches to “Twin Peaks.” Ed. David Lavery. Detroit: Wayne State UP, 1995, p.51–69.

JOHNSON, Steven. Everything Bad Is Good for You: How Today’s Popular Culture Is Actually Making Us Smarter. New York: Riverhead Books, 2005.

LESSA, Rodrigo. Explorações conceituais acerca de narrativa transmídia e ficção
seriada televisiva. In: Ficção televisiva seriada no espaço lusófono, 87-105. Covilhã: Editora LabCom.IFP, 2017.

MITTEL, Jason. Complexidade narrativa na televisão americana contemporânea. Revista Matrizes. Ano 5 –nº 1 jan./jul. 2012, p.29-52. São Paulo: USP/ECA, 2012a.

_. Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling, pre-publication edition. New York: MediaCommons Press, 2012b. Disponível em: <http://mediacommons.futureofthebook.org/ mcpress/complextelevision>. Acesso em: 9 mar. 2020.

SILVA, Marcel Vieira Barreto. Cultura das séries: forma, contexto e consumo de ficção seriada na contemporaneidade. In: Galáxia. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. ISSN 1982-2553, [S.l.], n. 27, jun. 2014. ISSN 1982-2553. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/galaxia/article/view/15810>. Acesso em: 9 mar. 2020.