Observatório da Qualidade no Audiovisual

A literacia dos fãs de Bridgerton Stans

Por Ana Luiza Pires
Revisão Daiana Sigiliano

O perfil Bridgerton Stans no Instagram se destaca como um exemplo das novas dinâmicas entre fãs e a indústria do entretenimento, evidenciando a crescente interação entre ambos. Uma das administradoras da página, por exemplo, participou do baile promovido pela Netflix — evento criado para divulgar a estreia da terceira temporada da série, em 2024. Isso demonstra como, hoje, as ações dos fãs podem ser reconhecidas e valorizadas pela indústria, consolidando o papel ativo dos consumidores ávidos no campo midiático.

Descrito como uma “[…] fonte brasileira de atualizações sobre Bridgerton, as adaptações para a Netflix, e da autora Julia Quinn”, o perfil publica conteúdos diários. As postagens exploram desde bastidores e informações sobre o universo da série e dos livros até tudo o que acontece na vida dos atores do elenco, além de curiosidades sobre o período histórico em que a trama se passa — a chamada era da Regência.

Além da página no Instagram, que oferece uma grande variedade de conteúdo e já conta com mais de 150 mil seguidores, o projeto Bridgerton Stans se expande para diversas outras redes, como X (antigo Twitter), TikTok, Pinterest, YouTube e playlists no Spotify – tudo criada e gerenciado pelos fãs.

Nesta análise iremos refletir sobre as habilidades críticas e criativas em operação nos conteúdos publicados no Instagram, como iremos detalhar adiante o protocolo metodológico se divide em três dimensões, são elas: o universo de referência, a arquitetura informacional do Instagram e a pedagogia do pop.

O Universo Bridgerton

Quando falamos do universo Bridgerton, é importante lembrar que estamos nos referindo a um conjunto amplo de histórias. Ele inclui uma série de nove livros, uma adaptação da Netflix com três temporadas lançadas até o momento, além de um prequel, A Rainha Charlotte. Esse prequel se desdobra tanto em uma minissérie quanto em um livro, que expande a narrativa do universo original. Além disso, com o sucesso crescente da série ao longo das temporadas, novos guias e materiais complementares também foram escritos e publicados.

A série de livros de época foi escrita pela autora Julia Quinn, e lançada entre os anos 2000 e 2016 (Amazon, Online). Tendo Londres como cenário, no período da Regência, os livros contam as histórias dos irmãos Bridgertons – Daphne, Anthony, Benedict, Colin, Eloise, Francesca, Gregory e Hyacinth. Cada livro nos traz a história de um desses irmãos, assim como os romances vividos por cada um deles. Entretanto, o cenário nos leva a refletir sobre as nuances dessas relações. Em um período marcado por casamentos arranjados ou por conveniência, em que mulheres precisavam debutar e se casar até certa idade para não serem mal vistas, os desejos pessoais muitas vezes entravam em conflito com as expectativas sociais — especialmente dentro da rígida estrutura da aristocracia inglesa.

Um ponto a se destacar é que todas as histórias estão conectadas de alguma maneira, apesar de cada livro ser centrado em um dos irmãos. Além disso, toda a narrativa também é marcada pela presença da misteriosa Lady Whistledown, uma jornalista anônima, determinada a contar em seus escritos os maiores escândalos envolvendo a alta sociedade londrina. Parte da trama gira em torno da caçada pela autora, a fim de descobrir e desvendar a sua identidade.

Com Chris Van Dusen como criador e Shonda Rhimes como produtora, a primeira temporada da adaptação em série, nomeada como Bridgerton, chegou ao catálogo da Netflix em 25 de dezembro de 2020. Segundo a informação do próprio streaming, a série tem até o momento 15 indicações ao Emmy. Desde seu lançamento a trama se destacou pela presença de atores de diferentes etnias, que apesar do período em que a narrativa se passa, estavam incluídos entre os membros da alta sociedade. Além disso, a produção se destacou pela ambientação cuidadosamente elaborada, com cenários e figurinos marcantes. As cenas de baile também chamaram atenção, trazendo trilhas sonoras que misturam sucessos da cultura pop em versões adaptadas ao estilo e à estética do universo da série.

Embora siga, em linhas gerais, a narrativa dos livros — centrada nos romances vividos por cada um dos irmãos Bridgerton ao longo das temporadas —, a série tem se aprofundado em novas questões e subtramas. Com isso, muitos acontecimentos vêm sendo antecipados, o que altera a ordem cronológica conhecida pelos fãs.

A literacia dos fãs de Bridgerton Stans

Em síntese, a literacia do fã envolve a análise de três dimensões: o Universo de Referência, que abarcar o domínio do cânone pelo fã e se ele realmente detém esse conhecimento; a arquitetura informacional, que observa como o fã utiliza os principais recursos do Instagram para produzir e compartilhar seu conteúdo; e a Pedagogia do Pop, que analisa de que maneira o fã incorpora elementos externos à obra original em sua produção. Cada uma dessas dimensões abrange habilidades específicas que permitem uma compreensão mais integrada dos conteúdos produzidos pelos fãs.

A dimensão do universo de referência é composta por quatro habilidades, são elas: a estética, as regras e códigos, o metatexto e as lacunas.

Fonte: Sigiliano e Borges (2024)

 

Na habilidade da estética, busca-se compreender como o fã utiliza seu universo de referência para criar novos conteúdos visuais. Analisa-se de que forma elementos como cores, figurinos, design de produção, tipografia, entre outros, são empregados em suas produções. A principal cor que predomina nas produções dos fãs do perfil Bridgerton Stans é o lilás em tom pastel. Essa escolha é uma referência direta tanto à série da Netflix quanto aos livros, que exploram variações dessa cor em tonalidades similares. O lilás se destaca não só nas artes principais do perfil, mas também na logo, nas capas dos destaques, criando uma identidade visual coesa. A tonalidade é especialmente reminiscente da paleta utilizada na primeira temporada, reforçando a conexão com a produção original.

Os designs são desenvolvidos conforme a temática abordada. As postagens de entrevistas e notícias seguem um padrão visual específico, enquanto aquelas que celebram aniversários adotam um estilo distinto, assim como outros tipos de conteúdo. Um ponto relevante nesse contexto é que muitos dos conteúdos são compartilhados em dois idiomas, o inglês e o português. Isso não apenas reflete uma estratégia de expansão para além do público brasileiro, alcançando fãs de outros países, mas também demonstra a expectativa de que o conteúdo possa atingir produtores e atores da série, ampliando sua visibilidade.

Imagens mostram a descrição e os destaques da página Bridgerton Stans, evidenciando algumas postagens e a paleta de cores utilizada.

 

Na logo do perfil, a letra “B” é destacada, e a tipografia utilizada é a mesma presente na produção da série pela Netflix. Ao redor da letra, flores lilases são incorporadas. Essa escolha reflete como a estética do universo da série foi adaptada pelos fãs. No material de produção oficial, as mesmas flores aparecem ao redor do quadro, funcionando como uma moldura, o que reforça a identidade visual de forma coerente, mas sutil.

A habilidade relacionada às regras e códigos analisa o domínio do fã sobre o universo de referência e como esse repertório midiático é incorporado na criação de seus conteúdos. Na página Bridgerton Stans observa-se o domínio tanto da série quanto dos livros, os fãs estabelecem conexões entre essas duas linguagens ao compartilhar seus conteúdos. As publicações exploram curiosidades que ampliam o universo da história, revelando detalhes não explicados nos livros, mas que são aprofundados no perfil. Na produção de memes, por exemplo, é possível observar o domínio dos fãs em relação aos personagens e seus respectivos arcos narrativos. Deste modo, momentos da série que poderiam ser esquecidos por um telespectador casual são relembrados a partir do repertório midiático dos fãs que gerenciam a página Bridgerton Stans.

A dimensão da arquitetura informacional é composta por quatro habilidades, são elas: o conteúdo visual, as ferramentas de engajamento, o tempo real e a templabilidade do conteúdo.

Fonte: Sigiliano e Borges (2024)

 

Na habilidade relacionada ao conteúdo visual, observa-se como os fãs exploram de forma criativa as ferramentas oferecidas pelo Instagram. A conta utiliza diferentes formatos disponíveis na plataforma, como vídeos, imagens estáticas e carrosséis. Nas imagens estáticas, destacam-se frames da série, tirinhas, trechos da produção, além de registros dos bastidores, eventos com os atores, entrevistas e até memes. Os carrosséis, por sua vez, são geralmente usados para compartilhar curiosidades. O perfil também faz uso dos destaques, recurso que amplia a visibilidade de conteúdos específicos aos quais se deseja dar maior ênfase. Entre eles, estão disponíveis wallpapers criados pelo próprio perfil. Os conteúdos em vídeo seguem a mesma linha, trazendo trechos da série, entrevistas e memes. É comum também o uso de áudios populares ou virais para criar novas produções baseadas no universo da série, sempre mantendo a referência e a identidade do conteúdo original.

Na habilidade relacionada às ferramentas de engajamento, o principal recurso utilizado pela página são os comentários. Embora não haja solicitações explícitas para que os seguidores interajam, é notável a presença constante de comentários, muitos dos quais são respondidos pelo próprio perfil. Durante o desenvolvimento desta análise, observamos pouca interação nos stories, recursos como, por exemplo, enquetes, caixas de perguntas e outros recursos interativos, comuns na plataforma, não foram utilizados de forma recorrente. Este ponto pode estar relacionado ao intervalo entre os lançamentos das temporadas. Na habilidade relacionada ao tempo real, que analisa o uso dos stories para transmissões ao vivo, observa-se a ausência desse recurso, indicando que o perfil não o utiliza de forma ativa. Em relação à templabilidade do conteúdo, como mencionado, a página padroniza seus conteúdos de acordo com a temática, tendo uma cor principal. As tipografias variam conforme o tipo de conteúdo compartilhado, assim como o design, que é construído de maneira uniforme em cada postagem.

A dimensão da pedagogia do pop é composta por quatro habilidades, são elas: a identificação, a temática, o repertório midiático e a controvérsia.

Fonte: Sigiliano e Borges (2024)

Em relação às habilidades da pedagogia do pop observa-se que a página adota uma abordagem mais informativa, centrada no compartilhamento de conteúdos. De maneira geral, ela se dedica a desdobrar e aprofundar o que acontece no universo de Bridgerton, o que limita os fãs de explorarem camadas interpretativas externas ao cânone. Porém, a habilidade do repertório midiático está em operação nas postagens incluem indicações de outras obras que se assemelham à narrativa de Bridgerton. As publicações são acompanhadas de resenhas e avaliações. Além disso, os fãs criam memes com base nos assuntos em alta no momento, reforçando a factualidade e a intertextualidade entre o Bridgerton e outras obras.

Outro exemplo do repertório midiático é a publicação feita no início da nova edição do Big Brother Brasil, que inspirou uma postagem conectando o reality ao universo de Bridgerton, resultando no criativo “BBBridgerton”. Na nova edição do reality, os participantes foram organizados em duplas, e o perfil aproveitou essa dinâmica para criar uma analogia, separando personagens de Bridgerton que poderiam formar pares nos jogos. A postagem também serviu como uma oportunidade para estabelecer uma conexão com a próxima temporada da série.

Ao analisarmos o perfil Bridgerton Stans, observamos que os fãs demonstram profundo domínio do universo de referência, sendo capazes de compreender o cânone da obra e criar novos conteúdos a partir dele. Destaca-se, ainda, a habilidade dos administradores da página no uso de diversas ferramentas digitais, tanto nas redes sociais quanto no compartilhamento de conteúdo informativo — frequentemente em dois idiomas. Deste modo, a produção dos fãs não se configura apenas como uma extensão da obra original, mas como um trabalho singular, com identidade e linguagens próprias. Isso também nos leva a refletir sobre as relações estabelecidas dentro da comunidade de fãs. Percebe-se que há um engajamento significativo com os conteúdos criados por outros membros, o que fortalece o vínculo e a interação entre eles. Em suma, os conteúdos criados por fãs vão além da simples reprodução, configurando-se como uma forma legítima de expressão. A habilidade do fandom em dominar tanto o universo da série quanto as ferramentas digitais, combinada com o engajamento contínuo entre os fãs, evidencia a importância e o impacto desses grupos na construção de novos significados e na redefinição do papel do telespectador na era digital.

Referências

SIGILIANO, D; BORGES, G. Literacia dos fãs da série brasileira As Five na rede social X. Journal of Digital Media & Interaction, v. 7, n. 17, p. 77-92, 2024. DOI: https://doi.org/10.34624/jdmi.v7i17.38017.

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