Por Júlia Garcia
Servant é uma série que mescla elementos do suspense e do terror psicológico. Foi distribuída pela Apple TV + e exibida em quatro temporadas entre 2019 e 2023. Um dos produtores executivos – e diretor de alguns episódios – é M. Night Shyamalan, cineasta conhecido por filmes como O Sexto Sentido (1999), Sinais (2002) e Fragmentado (2016), os quais, assim como Servant, também abrangem aspectos do suspense e do terror psicológico – uma característica de Shyamalan. O elenco principal da série conta com Nell Tiger Free (Leanne Grayson), Lauren Ambrose (Dorothy Turner), Toby Kebbell (Sean Turner) e Rupert Grint (Julian Pearce).
A narrativa se concentra em Sean e Dorothy Turner, um casal da Filadélfia que perdeu recentemente o filho recém-nascido, Jericho. Como forma de lidar com o luto, Sean dá a Dorothy um bebê reborn, e a jornalista passa a acreditar que aquele é, de fato, seu filho. A família contrata uma babá, Leanne, para cuidar do falso Jericho, e Sean continua com a farsa para que Dorothy não se lembre da tragédia. No entanto, a chegada de Leanne muda a dinâmica do lar, e acontecimentos estranhos passam a rodear a família Turner. A presente análise centra-se na primeira temporada de Servant.
No plano da expressão, os elementos estéticos, por meio dos recursos técnico-expressivos, reforçam, a todo momento, o gênero narrativo. A trilha sonora instrumental busca evidenciar sentimentos como medo e ansiedade, com composições de pouca variação de notas – como, por exemplo, no filme Tubarão (1975) – e com graves sobressalentes, além de tons dissonantes. Na vinheta de abertura, a trilha parece ser composta a partir de um xilofone, o que remete a brinquedos infantis, encerrando-se com o surgimento de um boneco reborn assustador. Do mesmo modo, a fotografia investe em cenários escuros, principalmente nas cenas noturnas, que apresentam baixa iluminação e luzes quentes. A luz indireta também é utilizada com frequência, o que valoriza a aposta na pouca iluminação e no caráter sombrio dos cenários.

É possível notar que a fotografia muda em cenas de flashback, utilizadas para recontar o passado. Enquanto as cenas do presente diegético são mais escuras e menos saturadas, o passado apresenta uma fotografia mais iluminada, com maior saturação. Isso contrapõe a realidade que a família tem que enfrentar no presente, após a trágica morte do filho, à felicidade que permeava o ambiente antes, quando descobriram a gravidez de Dorothy. Por vezes, a fotografia muda “em tempo real”, sem cortes, como na cena em que Dorothy abre a geladeira e fica estática, lembrando-se de algo do passado – nesse momento, sua face é iluminada por uma luz quente, que desvanece quando ela volta à realidade.

Embora a história se passe nos tempos atuais, a ambientação da casa remete a épocas passadas, não somente porque a construção é antiga, mas também devido aos móveis e à decoração. Além disso, os tons utilizados no cenário e no figurino são sóbrios, com pouca saturação. Nesse sentido, há poucos elementos que remetem a uma estética moderna: a casa traz móveis e pisos de madeira escura, além de paredes com cenários pintados à mão, enquanto os figurinos, especialmente os femininos, apostam em tecidos de fibras naturais, como seda e algodão, e rejeitam materiais com aspectos mais atuais, como o jeans. É interessante pontuar que essas características residem no núcleo central de personagens. Alguns personagens secundários adotam estilos mais contemporâneos, como Wanda, que aparece de cabelos descoloridos, calça jeans e casaco com estampa de oncinha.

O figurino e o cenário enfatizam, ainda, a posição social dos personagens, já que Dorothy e seu irmão, Julian, vêm de uma família rica. Sean – cujo passado difícil, em situação de vulnerabilidade social, é revelado em temporadas posteriores – costuma adotar, por vezes, roupas menos sofisticadas, como camisetas sobrepostas por casacos xadrez. No entanto, o personagem não deixa de se encaixar na finesse e no requinte da família, especialmente ao preparar pratos sofisticados para os jantares, já que é um chef renomado. Por outro lado, Leanne adota roupas mais simples, que reforçam seu caráter interiorano, de uma garota ingênua, mas misteriosa, do Winsconsin.

Outros elementos corroboram a sensação de suspense. A série se passa quase inteiramente dentro da casa dos Turner, e quando há personagens fora desse cenário, a comunicação se dá principalmente por dispositivos digitais, ou seja, a ambientação principal continua sendo a casa. Um exemplo é quando Julian e Roscoe (Phillip James Brannon), um investigador particular, estão investigando a antiga casa de Leanne. As cenas dessa investigação são acompanhadas pelo público através do celular de Sean, que recebe uma ligação de vídeo de Julian. A centralidade da casa enquanto cenário remete a uma sensação de enclausuramento, de modo que, assim como a família está presa à tragédia e aos acontecimentos estranhos que circundam Leanne, o espectador-interagente está preso àquele cenário.
Além disso, a profissão de Sean como chef, voltado a experimentações culinárias, gera cenas que flertam com o grotesco ao mostrar a preparação de carnes cruas e frutos do mar, mortos e dissecados na bancada da cozinha. De modo semelhante, a utilização de primeiríssimos planos, por vezes frontais, pode causar estranhamento, assim como a longa duração de alguns planos, que apostam nos silêncios, nas pausas e na ausência de ação. Isso reforça, novamente, o suspense de Servant. É interessante ressaltar, ainda, que a edição não é inteiramente linear, já que o passado dos personagens e a causa da morte de Jericho – que só é revelada no final da temporada – são contados por meio de flashbacks.

Em linhas gerais, o enredo trata da família Turner, que passa por uma tragédia quando Dorothy, sobrecarregada pelos deveres da maternidade, esquece, no carro, o filho recém-nascido, Jericho, que acaba morrendo devido às altas temperaturas. A jornalista entra em estado catatônico, e Natalie, uma terapeuta não licenciada que atua com cinesiologia (ramo que estuda os movimentos do corpo), recomenda que Sean e Julian, marido e irmão de Dorothy respectivamente, comprem um bebê reborn para que ela possa lidar com o luto. Dorothy sai do estado catatônico sem se lembrar da tragédia, acreditando que o boneco é realmente seu filho. Sean e Julian, com medo de que o estado mental da jornalista piore ao revelarem a verdade, seguem com a farsa, tratando, na frente dela, o bebê reborn como se fosse Jericho. Pode-se associar, portanto, o plot de Servant à fase de negação do luto.
Os rumos da família mudam quando Dorothy resolve contratar uma babá para morar e trabalhar na casa. Leanne chega ao local e age normalmente à situação, mesmo após Sean explicar que, quando Dorothy não está presente, ela não precisa cuidar do falso Jericho e pode se afastar das funções. Leanne, no entanto, não reage às explicações e continua seu trabalho como babá, mesmo longe de Dorothy. Eventualmente, Sean a confronta de forma mais direta, estranhando o comportamento da jovem. Em determinado momento, Leanne entrega a Sean a babá eletrônica, pedindo para que ele fique atento e cuide de Jericho. Sean se assusta quando ouve um choro e, ao chegar no quarto, encontra um bebê vivo no berço. Ao ser perguntada, Leanne apenas afirma que aquele é Jericho. Sem saber de onde veio a criança e com medo de provocar uma piora na saúde mental de Dorothy, que não percebe a diferença entre o bebê vivo e o boneco reborn, Sean e Julian mantêm a criança como Jericho, enquanto buscam respostas sobre quem, na verdade, é Leanne.
Outros eventos estranhos começam a acontecer na casa dos Turner. Sean, por exemplo, passa a se machucar com muitas farpas, presentes em lugares incomuns, como na comida e nos lençóis, além de perder completamente o paladar e a capacidade de sentir dor física. A família também recebe a visita do tio de Leanne, George (Boris McGiver), que, com uma aparência distinta e maneiras não convencionais, tenta convencer a menina a abandonar a família e voltar para casa. Dessa forma, a estranheza e o suspense construídos pelos recursos técnico-expressivos são reforçados, também, no plano do conteúdo. Nesse sentido, por meio das atuações e da construção dos personagens, Dorothy e Leanne incorporam essa estranheza, se afastando de representações ordinárias.
Dorothy é quase caricata ao simbolizar a vida das elites, e soa insincera, embora polida, com a maior parte das pessoas fora do seu núcleo familiar, inclusive com Leanne. Já Leanne é quieta e quase sempre parece se destoar do ambiente, sem responder às situações como se esperaria que alguém respondesse. Exemplo é quando Sean a confronta diretamente sobre o bebê vivo no berço de Jericho, e a menina apenas responde que aquele é Jericho, saindo sem oferecer nenhuma explicação. Ou quando trata o bebê reborn como uma criança real, mesmo após Sean explicar que ela não precisa fazer isso longe de Dorothy. Como pontuado, Sean perpassa a estranheza a partir de sua profissão como chef, oferecendo pratos como Croquembouches recheados com a placenta de Dorothy, da gestação de Jericho. Entretanto, em geral, Sean e Julian agem de forma mais convencional ao longo da temporada. Julian é, inclusive, um alívio cômico, o que fica mais evidente em temporadas posteriores.
Ainda sobre Leanne, é interessante pontuar como a jovem – ao contrário do aspecto vilanesco que possui com os Turner – parece uma menina comum de 18 anos ao lado de Tobe (Tony Revolori), que trabalha como chef assistente de Sean e, por vezes, está na casa. Essa pureza de Leanne não é usada como manipulação ou falsidade e parece, na verdade, uma característica genuína, que demonstra a complexidade da personagem. Há poucos momentos de interação entre os dois, e o modo como a juventude e a inocência de Leanne são evidenciadas na relação com Tobe só fica mais aparente em temporadas posteriores. No entanto, desde a primeira temporada, pode-se ver como pessoas de fora do núcleo central de personagens representam contrapontos evidentes entre a cotidianidade do mundo exterior e a estranheza da casa dos Turner.
Um ponto que diferencia Servant do que comumente se encontra em outras séries ficcionais é o ritmo da narrativa. Como discutido, isso pode ser observado na edição, que aposta em planos de longa duração, com espaço para silêncios, suspiros e pausas, sem grandes ações ou trilhas sonoras de fundo. Debatendo a série em vídeo bônus da Apple TV +, Shyamalan utiliza o termo “meditação visual” para descrever essa característica rítmica de Servant. Mas, além disso, a história também é narrada de forma mais lenta, de modo a construir e reforçar o suspense aos poucos, com pequenos eventos ou revelações incomuns a cada episódio. As próprias temporadas não se encerram com grandes desfechos ou clímax, aproximando-se mais de uma narrativa contínua, quase fílmica.

Em relação aos indicadores da mensagem audiovisual, apesar de apresentar alguns personagens não brancos, como Tobe, Roscoe e Natalie (Jerrika Hinton), tais personagens possuem apenas papéis secundários, que giram em torno do núcleo central, composto por um elenco branco. A narrativa também é centrada em uma família da elite da Filadélfia, sem grande representação de outros contextos socioculturais. Também não são abordadas temáticas que fujam ao escopo principal do plot, focado no luto dos Turner e no mistério de Leanne. Desse modo, Servant não se destaca no indicador diversidade. Entretanto, a representação quase caricatural da vida das elites, especialmente de Dorothy, pode funcionar como uma crítica ao evidenciar o descolamento dessas famílias da realidade da maior parte da população. Nesse sentido, a partir do um reforço desse estereótipo, Servant pode operar como uma crítica, a depender de como os espectadores-interagentes apreendem tais elementos narrativos.

Em relação à oportunidade, a série antecede a popularização das discussões, no Brasil, sobre os bebês reborn. Mas o foco de Servant está centrado no luto, que é uma temática atemporal e universal. Nesse contexto, a ampliação do horizonte do público pode ser observada ao se considerar que a série trata da morte de bebês esquecidos em carros a partir do ponto de vista da família, evidenciando a culpa que todos carregam. Apesar de chocante, esse tipo de morte é relativamente comum, inspirando documentários como Death of a Child (2017), que aborda, justamente, o testemunho de pais que causaram a morte dos filhos por hipertermia ao esquecê-los em carros.
No caso de Servant, Dorothy foi deixada sozinha, cuidando do pequeno Jericho, enquanto Sean viajava a trabalho para filmar um reality show de culinária. Sobrecarregada com os deveres da maternidade, Dorothy liga para Julian, que não atende suas ligações. Em determinado momento, Dorothy vai às compras com Jericho e, ao chegar em casa, pega as sacolas do mercado, mas esquece o filho no carro. Desse modo, a partir da culpa que todos os personagens carregam, Servant estabelece a discussão: quem causou a morte de Jericho? O pai que se ausentou em um momento tão delicado e deixou todas as responsabilidades do cuidado com o filho à mãe? O irmão que ignorou as ligações da irmã no puerpério porque estava usando drogas, mesmo sabendo da ausência do cunhado? Ou a mãe que esqueceu o filho no carro? A série não dá respostas a tais perguntas, mas amplia a visão do público ao evidenciar que a morte de uma criança nessas condições é uma situação complexa, que afeta profundamente todos os envolvidos, e nem sempre é resultado de pura negligência.
Ao abordar tal temática a partir do suspense e do terror psicológico – ao invés do drama convencional, por exemplo – em uma ficção seriada, estrutura na qual predominam outros gêneros narrativos, Servant se destaca na originalidade/criatividade. Além disso, o ritmo lento da história, construído tanto pelos recursos técnico-expressivos quanto pelo conteúdo, se difere de grande parte das séries, que apostam em narrativas mais movimentadas e rápidas. Apesar de ser uma obra dividida por temporadas, Servant apresenta uma narrativa mais contínua, o que a aproxima de características fílmicas e oferece uma experiência distinta de séries tradicionais.












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