Por Gustavo Furtuoso
Revisão: Júlia Garcia
Tensionando discussões identitárias que conectam trauma, cultura de fãs e midiatização, Swarm (2023) é uma minissérie estadunidense que combina horror, comédia e sátira social. A partir da protagonista Dre (Dominique Fishback), acompanhamos a história de uma jovem que passa a oscilar entre a idolatria e a obsessão. Após a morte de sua irmã Marissa (Chloe Bailey), que se soma a diversos traumas da infância, Dre cai em uma espiral de violência motivada pela devoção extrema à Ni’Jah, cantora pop fictícia inspirada em Beyoncé, cujo nome do fandom dá nome à série – enxame (swarm, em inglês). O luto da personagem mescla-se com sua devoção ao fandom, criando uma espécie de curto-circuito entre realidade e mídia, entre delírio e fantasmagoria, que motiva as descontinuidades e reconfigurações narrativas e estéticas entre os episódios.
Criada por Janine Nabers e Donald Glover, a minissérie estreou em março de 2023 no Amazon Prime Video, com 7 episódios. A produção foi elogiada pela crítica e recebeu 3 indicações ao Emmy. Em entrevista, Nabers revelou que, nas conversas iniciais que teve com Glover, a ideia era abordar o fenômeno da pós-verdade ao narrar a trajetória de uma mulher negra marginalizada que se torna uma serial killer cujos crimes têm base no universo dos fandoms (Humphrey, 2023). A criadora também conta que foram feitas diversas pesquisas sobre serial killers e que, apesar do grande interesse que os estadunidenses possuem no assunto, eram extremamente raros os casos de mulheres, sobretudo negras, como protagonistas dessas histórias (Gonzales, 2023).
Apesar do aspecto sombrio, Nabers conta que o dado revela mais uma faceta da invisibilização de mulheres negras na sociedade, uma vez que “ninguém consegue realmente dar [à Dre e suas ações] a análise que ela merece da mesma forma como se olha para Ted Bundy”, por exemplo (Gonzales, 2023, n.p.). Com sequências fantasiosas, subjetivas e ambíguas, Swarm cria uma narrativa com múltiplas camadas, que se reconfigura continuamente e que confia no espectador para conectar as peças oferecidas. A partir de um elenco com figuras conhecidas do mundo da música pop, como Chloe Bailey e Billie Eilish, o paralelismo entre a cantora fictícia Ni’Jah e Beyoncé, e de menções a casos reais que serviram de inspiração para a narrativa, a série mescla elementos de ficção e realidade para representar a confusão de Dre entre vida e espetáculo.
O primeiro plano da série em que Dre aparece trabalha uma composição visual que já assinala sua transição de personalidade em direção a Ni’Jah. Num movimento bastante rápido, a silhueta da garota se sobrepõe ao pôster da artista na parede. A cena não só serve de prenúncio aos espectadores do destino da personagem, mas também alude à sua obsessão com a cantora e ao sonho da fã que, em última instância, deseja tornar-se o ídolo e ter acesso a uma vida idealizada como perfeita.

A confusão mental vivida por Dre é mimetizada na edição da série, que, ao intercalar distintas realidades – que incluem perspectivas objetivas do universo, delírios ou memórias da personagem, imagens de arquivo de dispositivos eletrônicos, videoclipes e programas de televisão –, desorienta o espectador com relação ao que se pode tomar como verdade para os acontecimentos da diegese. Tal desorientação replica, no plano estético da obra, a confusão mental que a protagonista experimenta no plano da narrativa. Além disso, ao utilizar interfaces de dispositivos digitais, telas e conteúdos midiáticos como parte da narrativa, Swarm expande a reflexão sobre interferência dos ambientes virtuais na identidade e vida de Dre, acionando sensibilidades próprias da contemporaneidade. O vínculo que a personagem tem com a realidade torna-se cada vez menor ao passo que cresce a conexão da mesma com a comunidade online de fãs, o que é traduzido na edição com o uso desse tipo de imagens e de uma estilização na faixa sonora.

O clímax dessa desorientação entre realidade, espetáculo, fantasia e delírio acontece no terceiro episódio da série. Após ter matado uma série de pessoas que postaram opiniões negativas com relação à sua cantora favorita, Dre invade uma festa e fica de frente à Ni’Jah pela primeira vez. Ao longo dos assassinatos anteriores, a violência da personagem é associada a um apetite insaciável que, simbolicamente, refere-se ao vazio que tenta preencher em sua jornada da superação do trauma. Na cena da festa, a narração nos insere no fascínio que a personagem sente e nos mostra, junto a imagens de Ni’Jah, Dre mordendo vorazmente diversas ameixas que estavam sendo servidas no local. No entanto, logo em seguida tomamos dimensão que, ao invés das ameixas, Dre havia mordido o pescoço da cantora, indicando que a visão que tínhamos até então era subjetiva e deturpava os fatos apresentados.
Com relação ao som, a série brinca com sons de violinos que criam uma sensação de zumbido de abelhas. Como exposto, a temática do enxame é recorrente na série e simboliza o distanciamento de Dre com relação à realidade e sua dissolução no delírio causado por seus traumas. Assim, da mesma forma como é feito com a imagem, a faixa de áudio mistura instrumentos musicais e ruídos, criando uma instabilidade na percepção que, ao se repetir, torna-se um indicador para a audiência de quando a personalidade monstruosa da personagem toma conta de seu comportamento. Outro aspecto relevante da trilha sonora é a utilização de inúmeras canções fictícias de Ni’Jah, que inclusive foram lançadas em plataformas de música e receberam videoclipes – que são exibidos na diegese da série como parte do consumo da protagonista.
Com Dre colocando-se em locais e situações extremamente variadas conforme os episódios avançam, a ambientação de Swarm muda constantemente, o que conecta-se narrativamente com a falta de pertencimento vivida por Dre desde sua infância. Cada episódio traz novos desafios à personagem e suscita, com isso, uma nova personalidade, uma vez que sua identidade já tornou-se fragmentada a ponto de adquirir certa maleabilidade. A esfera virtual, no entanto, é constante. No fandom, ela consegue ter uma identidade fixa, numa sobreposição do midiático com relação ao real. Estruturalmente, isso se traduz numa grande variabilidade da trama, com diversos enredos episódicos que são iniciados e concluídos rapidamente e que fazem referência a diversos gêneros.
O ápice dessa variabilidade acontece no episódio 6, em que há uma reconfiguração total da série, mudando da perspectiva de Dre para a da investigadora Loretta Greene (Heather Alicia Simms). O episódio assume a estrutura de um programa true crime, em que os assassinatos cometidos por Dre são investigados em busca de um suposto serial killer. Com isso, todos os recursos técnico-expressivos são modificados, incluindo câmeras na mão, uso de relatos e imagens de cobertura e quebra da quarta parede. Essa instabilidade de gêneros, caracterização e objetivos de enredo, desafia o espectador a prestar mais atenção aos aspectos estéticos da série e como estes se relacionam com a jornada da personagem na narrativa.

Rejeitada desde a infância, inclusive por seus pais adotivos, Dre nunca sentiu pertencimento com nada nem ninguém além de sua irmã, Marissa, e sua cantora idolatrada, Ni’Jah. Não é atoa que, quando a primeira morre, no episódio piloto da série, Dre passa a direcionar todo seu amor e atenção para a segunda, chegando ao ponto de delírio ao misturar as duas figuras entre si e consigo mesma. Em Swarm, acompanhamos uma protagonista que, tendo sido oprimida por toda a vida, revolta-se contra a sociedade ao tornar-se, ao mesmo tempo, poderosa e monstruosa.
Tal representação vai ao encontro da discussão de Creed (2023) sobre o retorno do feminino-monstruoso, que identifica como figura central do que chama de Nova Onda Feminista, uma safra de filmes dirigidos por mulheres e que usam o monstro com figura empoderora e de transformação – que aqui ampliamos também para a ficção seriada a partir de Swarm e da autoria de Janine Nabers. Nessas obras, que denunciam a opressão da ideologia patriarcal, utiliza-se “o horror como forma estética para transmitir a realidade – muitas vezes, a surrealidade – da luta humana” (Creed, 2023, p.3). Apesar de ocupar uma centralidade na construção de sentido, o horror mescla-se com uma série de outros gêneros que expandem seu raio de atuação, “ao mesmo tempo em que mantêm seus poderes de crítica social subversiva e capacidade de vanguarda para minar a ideologia patriarcal.”
Apesar da sua falta de pertencimento, Dre faz parte de diversos grupos oprimidos ou marginalizados nos Estados Unidos: é mulher, negra, adotada, com distúrbios psicológicos e membro de fandom. A partir do momento em que passa a ter atitudes violentas e torna-se uma mulher/fã monstruosa, passa a ter um certo tipo de poder e agência que não possuía em sua vida cotidiana. Por mais que tal atitude derive de surtos psicóticos, ela é capaz de inverter as posições e praticar a violência contra aqueles que a oprimiam.
O entrelaçamento de personalidades e surgimento da faceta monstruosa acontece ainda no episódio piloto quando, após ser abandonada por Marissa, recebe notificações do enxame sobre o lançamento de Festival, novo videoclipe de Ni’Jah. Recalcando seus problemas e insatisfações, Dre assume uma nova persona, que muda desde a sua forma de se vestir até seu comportamento com outras pessoas. Ela vai a uma festa e passa a noite com um homem desconhecido, rompendo com limitações que sentiu durante toda a vida. Tal caráter serve como empoderamento para a personagem e lhe traria, talvez, um aspecto positivo, caso a noite não tivesse resultado num trágico incidente. Por estar sem bateria no celular, Dre perdeu dezenas de notificações da irmã pedindo ajuda após ter brigado com o namorado. Ao retornar para casa e encontrar o corpo de Marissa, já morta, tem que lidar com uma série de sentimentos que acionam traumas iniciados na infância que a propelem para tornar-se uma serial killer.
As figuras de Marissa e Ni’Jah passam a mesclar-se na mente de Dre por serem ambas referências de mulheres negras que a ofereciam uma sensação de pertencimento e afeto. A ausência de uma reforça a idealização da outra. Tal mistura atinge um grau máximo na cena final da série, em que – numa sequência aparentemente fantasiosa – Dre invade o palco de sua ídola, que assume a aparência de Marissa e a acolhe nos braços. Tal conclusão narrativa oferece uma redenção simbólica para a personagem, ao mesmo tempo que potencialmente caracteriza sua dissolução final de personalidades. Após sete episódios e mudar completamente de aparência, nome e personalidade, Dre encara e resolve, mesmo que dentro de seu delírio, o trauma sofrido.
De forma geral, a trama desenvolve-se de maneira contínua, numa estrutura seriada, mas que trabalha diversos arcos episódicos. Numa construção típica dos road movies, a protagonista cai na estrada numa jornada cujos diversos encontros promovem uma gradual transformação pessoal. Neste caso, tal estrutura é subvertida ao ser mesclada com convenções do horror, na qual uma figura monstruosa configura uma ameaça a partir do perigo que representa e da repulsa que desperta. Assim, não temos um amadurecimento de Dre com uma redenção ao final da história, mas uma descida da personagem em uma espiral de violência que a transforma num monstro de ordem psicológica.
A representação proposta nas personagens de Dre e Loretta tocam em questões de diversidade a partir da subversão de estereótipos. Como apontado pela criadora Janine Nabers (Gonzales, 2023), podemos citar diversas séries estadunidenses sobre serial killers, porém em sua grande maioria trazem criminosos homens e brancos. Enquanto uma mulher negra e jovem, as motivações de Dre para seus crimes têm muitas relações com sua construção identitária, tendo contornos bastante diferentes dos crimes comumente representados em obras que abordam o tema. Da mesma forma, a detetive que acompanha o caso é uma mulher negra, o que também rompe com expectativas e estereótipos que, geralmente, colocam homens brancos em tal posição. Também há uma reconfiguração das vítimas, em sua maioria masculinas, invertendo, no universo ficcional, a ameaça que, conforme acompanhamos diariamente nos noticiários, trazem números que revelam uma estatística oposta.
É como se, ao subverter o estereótipo do assassino em série, a narrativa promovesse uma espécie de justiça simbólica, utilizando a figura do monstro como uma forma de questionar a ordem social patriarcal e misógina. Tal lógica é identificada como uma estratégia discursiva típica do horror, como apontada por Wood (1979), configurando o que chama de retorno do oprimido, ou seja, aquilo que é recalcado pela mente humana ou pela sociedade, como um todo, luta para voltar e, quando o faz, é de maneira descontrolada e violenta. Além da opressão racial e de gênero, a monstruosidade atribuída à Dre também dialoga com estereótipos associados à figura dos fãs, ainda vistos por determinadas parcelas da sociedade como pessoas irracionais e manipuláveis. Ao tornar-se uma assassina, a personagem traz um retorno desses valores de forma empoderada, utilizando-os a seu favor para dominar aqueles que a subjugaram.
No que toca à questão da diversidade, podemos citar também a jornada identitária da protagonista como uma pessoa queer, no sentido de que ela abandona representações de gênero e, no último episódio da série, por exemplo, apresenta-se de forma masculina e numa relação afetiva com uma garota. A transformação é apresentada de forma casual, sem grandes contextualizações sobre uma possível transgeneridade ou não-binariedade, o que reforça o questionamento das dicotomias criadas pela sociedade por não definir, de forma explícita, a identidade de Dre.
Lançada em 2023, Swarm traz relações com alguns eventos e discussões que a situam num contexto histórico e cultural específico. Após a repercussão ao redor do assassinato de George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos, figuras públicas e empresas tornaram-se mais vocais com relação às injustiças raciais no país. Para a Amazon, desenvolvedora da série, ter um lançamento protagonizado e criado por pessoas negras naquele momento era algo mercadologicamente interessante, configurando uma oportunidade tanto de debater o assunto e trazer representatividade, quanto de se beneficiar como uma empresa consciente. Outro ponto relevante para entender as escolhas temáticas da obra é o cenário pós-pandemia de COVID-19, quando grandes eventos puderam voltar a ser realizados, como turnês e shows em estádios. A primeira cena do episódio piloto faz justamente referência à espera em filas virtuais para conseguir um ingresso de show que se esgota em poucos minutos. Essas mega turnês passaram a ser algo comum no mundo da música, dando aos telespectadores uma possibilidade de identificação com Dre a partir da posição de fãs.
O fato de Ni’Jah ser uma superestrela pop com forte apelo visual também traz um caráter de atualidade por representar artistas que criam universos temáticos inteiros, como é o caso de Beyoncé, que, na época, havia lançado o álbum Renaissance e que, assim como Ni’Jah, também estava viajando o mundo com uma grande turnê. Assim como ela, a cantora fictícia também representa uma figura de empoderamento feminino e negro e possui uma legião de fãs – a beyhive, cujo trocadilho claramente foi inspiração para a fã-base ficcional da série, o enxame. Ao longo dos episódios, da mesma forma com que Dre endeusa sua ídola, outras pessoas questionam a espetacularização e capitalização em cima de tais pautas. Canções reais, inclusive, foram criadas e lançadas nas plataformas de música paralelamente ao período de exibição, criando um universo transmídia que reflete não apenas tematicamente, mas nas escolhas de produção, o contexto contemporâneo com o qual a série dialoga.
Essa relação buscada entre ficção e realidade configura um aspecto de originalidade da série. Mais que apenas se inspirar em figuras reais do mundo da música, como Beyoncé, a obra inclui artistas como Chloe Bailey e Billie Eilish como personagens, acionando repertórios e imaginários já familiares ao público. Isso, somado ao lançamento de canções de Ni’Jah nas plataformas musicais, cria dois vetores em sentidos opostos que trazem a diegese para o real, e o real para a diegese. Não bastando essa mistura, a estrutura narrativa da série é baseada numa reconstituição ficcional dos crimes de Dre, revelada apenas no penúltimo episódio, que traz uma estética de programa true crime para debater os crimes reais – na diegese – cometidos pela personagem. Somado às entrevistas de Nabers, que contou ter criado novas camadas a partir de alguns eventos reais que havia lido em noticiários, essa dinâmica cria um universo ficcional complexo que convida o espectador a partir de uma série de referências reconhecíveis, mas também o desafia a identificar quais aspectos são parte da trama e quais a extrapolam.
Esse jogo criado entre real e ficcional, entre material e virtual, leva para a audiência o dilema vivido por Dre em seu arco narrativo. Ao apresentar para um público geral as dinâmicas e especificidades do pertencimento a um fandom, promove uma ampliação do horizonte do público com relação à midiatização e às relações virtuais propiciadas pelas redes sociais. A forma como esse tipo de vivência impacta a sensibilidade humana, alterando a forma de perceber o mundo e a si mesmo, é representada na deriva identitária vivida pela protagonista, cujo senso de pertencimento não se dá com instituições tradicionais como a família ou o trabalho, mas sim numa comunidade virtual e ausente, mediada por dispositivos digitais.
Referências
CREED, B. The return of the monstrous-feminine: feminism, horror, film. Nova York: Routledge, 2023.
GONZALES, E. The Swarm Creators Wanted to Start Conversation—And They Did. Elle, 23 mar. 2023. Disponível em: <https://www.elle.com/culture/movies-tv/a43393162/swarm-finale-janine-nabers-interview>. Acesso em: 18 ago. 2025.
HUMPHREY, J. Actress Janine Nabers Talks Swarm, On-Set Secrets and Working with Donald Glover. Modern Luxury, 10 mai. 2023. Disponível em: <https://www.modernluxury.com/janine-nabers-houston-interview>. Acesso em: 18 ago. 2025.











Comentar