por Clara Gomes
Asura (阿修羅のごとく) é um dorama dirigido e escrito por Hirokazu Kore-eda. Lançado em 2025 pela Netflix, possui sete episódios com duração aproximada de uma hora. É um remake da produção de 1979-1980 exibida pela emissora NHK de mesmo nome, dirigida por Kuniko Mukoda, também autor do livro homônimo no qual ambas foram baseadas.
A trama se passa em 1979 e segue as irmãs Takezawa, Takiko (Yu Aoi), Sakiko (Suzu Hirose), Makiko (Machiko Ono) e Tsunako (Miyazawa Rio). Takiko reúne-se com suas irmãs para contar que seu pai, Kotaro (Kunimura), está tendo um caso há mais de 10 anos, e sua esposa, Fuji (Keito Matsuzaka), não desconfia. Ao descobrir o segredo, as irmãs decidem não contar para a mãe, mas a revelação começa a abalar suas vidas pessoais, trazendo à tona conflitos e emoções reprimidas.

Quando se trata das vidas pessoais das irmãs, o foco acaba sendo suas relações amorosas. Ao longo da série, o telespectador acompanha o desenvolvimento do relacionamento entre Takiko e Shizuo Katsumata (Ryuhei Matsuda), detetive particular contratado por ela para investigar seu pai. Também é mostrada a vida doméstica de Makiko, mãe de dois filhos e casada com Takao Satomi (Masahiro Motoki), e que desconfia de um caso extraconjugal de seu marido com sua secretária. Tsunako é viúva, mas mantém um relacionamento com Sadaharu Masukawa (Seiyo Uchino), um homem casado que, em conjunto com sua esposa, é dono do restaurante em que ela trabalha. Já Sakiko namora o boxeador Hidemitsu Jinnai, que aspira a ser campeão nacional de sua categoria.
Com a exceção de Takiko, uma mulher tímida com baixa autoestima e sem relacionamentos anteriores, todas as irmãs vivenciam a traição amorosa. Tsunako ao ter uma relação com um homem casado, Makiko ao receber uma ligação errada do marido para a amante, cuja identidade nunca é revelada, e Sakiko ao flagrar seu namorado a traindo em sua própria casa. Além disso, a própria mãe já sabia da traição do marido e mesmo assim vivia normalmente, o que intriga as irmãs, mas ao mesmo tempo também as ajuda a lidar com estas situações.
O plano de expressão analisa como o produto é elaborado a partir de seus recursos técnicos-expressivos, como áudio, vídeo, edição e grafismo, e a produção de sentidos geradas a partir da composição deste elementos, percebidas através dos códigos visuais (planos e enquadramentos, iluminação e cenário, atuação do elenco, figurinos e maquiagem e qualidade técnica da imagem), sonoros (tipos de áudio e sua qualidade técnica), sintáticos (edição, ritmo do programa) e gráficos (vinhetas e grafismos).
Quando se trata dos códigos visuais, os figurinos e a maquiagem refletem a personalidade de cada personagem. Tsunako, a irmã mais velha que trabalha com ikebana, uma arte japonesa de arranjos florais, veste trajes tradicionais japoneses, como kimonos. Makiko, também mais velha, usa roupas mais recatadas e da época em que se passa o dorama, com tons mais coloridos. As mais novas, Takiko e Sakiko, são opostas em relação à moda. A primeira utiliza roupas recatadas, formais e de tons mais escuros, com pouca maquiagem, enquanto a segunda utiliza roupas mais coloridas, mais expostas, e maquiagem, um estilo bem influenciado pela moda do exterior.
O cenário é formado pelos lugares frequentados pela família, com grande destaque para as casas de Makiko e dos pais, ambos pontos de encontro para todos. No núcleo de Tsunako, também há ênfase na sua casa e no restaurante no qual trabalha seu amante. Todas as residências remetem à cultura japonesa, tanto na decoração quanto no estilo arquitetônico.
A fotografia da produção segue um plano naturalista e realista, sem muitos efeitos ou cortes especiais, e com cores que remetem àquelas usadas em filmes da época que retrata.

Os códigos sonoros são refletidos principalmente na trilha sonora em música ambiente feita pelo trio japonês Fox Capture Plan exclusivamente para o dorama. Os sons expostos ao fundo são fundamentais para o ritmo e edição do drama, que não depende de canções não originais.
Em Asura, o ritmo narrativo é mais lento, com o desenvolvimento gradual dos arcos narrativos e personagens. Assim como em outras obras do diretor Kore Eda, há sempre um enfoque nas relações familiares, neste caso no amor entre as irmãs. Como na imagem abaixo, que mostra as irmãs unidas, no momento final do dorama, observando sua vida familiar e contemplando o futuro.

Os códigos gráficos figuram principalmente na abertura, com uma mistura de desenho e colagem que demonstra as principais paixões das irmãs. Há também grande destaque ao desenho de flores, símbolo de feminilidade, e à paleta de cores laranja, característica dos anos 70.

O plano de conteúdo procura analisar a narrativa e a composição dos personagens dentro da dramaturgia analisada. No caso de Asura, que é um dorama de apenas uma temporada, a narrativa é focada na vida das quatro irmãs e tem como plano de fundo a descoberta da traição de seu pai. A narrativa se passa ao longo de 1979, com pequenas passagens de tempo, o que ajuda a evoluir algumas tramas. Enquanto no começo a preocupação era a descoberta da mãe sobre o adultério, ela falece no meio da narrativa e a nova preocupação se torna a vida solitária do pai, que não aceita sair da sua residência. Ao mesmo tempo, a morte da matriarca ajuda as filhas a se aproximarem do pai, e, no fim, aceitarem a existência de uma segunda família.
Mesmo com poucos episódios, o drama desenvolve bem as irmãs Takezawa, suas principais personagens. Tsunako, que começa o drama como uma mulher que representa as tradições japonesas, com vergonha de sua realidade como amante, acaba no final do dorama a aceitando, assim como os prazeres sexuais, antes reprimidos por ela como uma mulher viúva. Makiko se apresenta como uma dona de casa, que, ao longo da trama, é a que mais cuida das suas irmãs. Em uma sociedade na qual o matrimônio ainda era visto como essencial para a mulher, Makiko decide manter seu casamento, mesmo desconfiando da traição de seu marido.
Takiko era uma bibliotecária tímida, que não se achava o suficiente para amar, e que, no fim, encontra o amor no detetive Katsumata. Enquanto era a que mais se desentendia com o pai devido à traição, termina morando junto com ele e o marido na casa da família. A caçula, Sakiko, inicialmente trabalha como uma garçonete e com a ascensão do marido, se torna a mais rica. Ao mesmo tempo, vira mãe e amadurece, sempre se mantendo ao lado do marido, ainda que no final ele termine em coma e com menos poder financeiro, o que era antes seu principal objetivo.
A mensagem audiovisual da trama ao abordar o adultério, traz um tema oportuno, que gera uma reflexão geral do público sobre essa questão, principalmente ao trazer tanto o lado de quem foi traído quanto de quem trai. A série falha em trazer mais diversidade, mas quebra estereótipos sobre as mulheres japonesas, que na trama cometem erros e são seguras de si, diferente da idealização de fofura e inocência comumente associado a elas.
A originalidade/criatividade do dorama está no foco sobre o relacionamento entre irmãs e no amor que existe entre elas, em vez de centrar-se na traição do pai ou em resumi-las aos seus parceiros. Os filmes do diretor Kore-eda já são conhecidos por mostrar famílias fora do comum e abordar relações familiares de forma distinta, e Asura demonstra novamente sua maestria nesse campo. A união entre as irmãs em meio ao caos é a força matriz do dorama.














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