Observatório da Qualidade no Audiovisual

Domingos Caetano: “Não tem piada nenhuma ser infeliz”

Entrevista: José Duarte
Vídeo: Ricardo Faustino
Design: Ricardo Santos

Enquanto se preparavam as luzes, câmaras e cenários, sem avisar de sua chegada, eis que surge entre as cortinas que tapavam as portas do estúdio, Domingos Caetano, vocalista e fundador dos incontornáveis IRIS. Acompanhado por alunos que lhe guiaram o caminho até ao local, de sorriso arrojado no rosto, não tardou em cumprimentar os presentes energicamente, fazendo sentir a sua presença, em todo o recanto da sala. Com toda a naturalidade, estivesse a conhecer ou a reencontrar, a conversa que dava era sempre dopada de carinho e simpatia, distribuindo jovialidade e boa disposição por todos com que se cruzava. Sempre com uma piada na ponta da língua, sentou-se, recusou a água que lhe ofereceram e depressa se pôs confortável para conversar – e se há vozes no Algarve que dão gosto de se ouvir, seja a cantar ou a falar, é a de Domingos, alguém que nunca é demais apresentar:

Não conseguindo falar de si mesmo, sem falar de música ou da Fuzeta, a sua história no mundo melómano começa logo a seguir ao 25 de abril de 1974, aquando do regresso do seu irmão mais velho do Ultramar, que, como havia prometido, lhe ofereceu uma guitarra. Depressa, o jovem Domingos tentou perceber como este “objeto”, até então estranho, funcionava, pois Domingos conta que “nunca tinha imaginado que alguma vez pudesse ter contacto com um instrumento musical”.

 

Após tentar descobrir a guitarra, acaba por usar os tempos livres do liceu para começar a “estudar” a guitarra, pois: “Aí eu já chamava estudar guitarra, porque eu tinha que treinar, havia coisas que eu tinha que aprender, ouvi o solo da ‘Wish You Were Here’ e eu queria saber fazer aquilo, eu tinha que aprender e o tempo que eu tinha para isso, era o meu tempo de escola”, conta-nos nostalgicamente.

Nestes seus tempos de liceu, enquanto Domingos andava a “descobrir o blues e aquelas coisas”, como descreve, conheceu um colega – a que se referiu como João – que tocava harmónica e que o começou a acompanhar nas suas aventuras musicais. Descobre então o improviso, mas acima de tudo, descobre a beleza de uma amizade musical: “Eu não sabia quem ele era e durante muito tempo, pelo menos mais de três meses, nunca tinha falado com ele. Eu tocava, ele tocava, ele ia embora e eu depois também ia, pois eu era o primeiro a chegar e o último a sair do liceu [risos]. Depois fiz amizade com ele e descobri que tocando com outra pessoa aprendemos muito mais. Fui conhecendo outros músicos e começou a surgir aquela ideia de banda, de tocar em conjunto…foi a desgraça!”, conta-nos o artista algarvio.

Entretanto, Domingos, sempre acompanhado da sua guitarra, forma como este é ainda lembrado por amigos do liceu, apercebe-se que pode ganhar dinheiro com a música:

Apesar de ao início a reação parental ter sido difícil, Domingos afirma que os seus pais “foram fantásticos. Depois até colaboraram, quer dizer, nunca mais me chatearam  [risos]. Disseram-me que se eu precisasse deles, estavam lá para mim. Felizmente nunca precisei porque consegui gerir a minha atividade musical para me dar dinheiro”. Desta forma, 5 anos após a guitarra ultramarina que fizera Domingos apaixonar-se por música, em 1979 funda os IRIS. Estes começam a atuar em bailes, bares e hoteis, tocando covers, aquilo a que Domingos Caetano dá o nome de “trabalho de pedreiro”, respeitosamente. Porém, o trabalho de artesão de compor canções, nunca foi algo premeditado:

É notável que nunca houve grande pretensão no processo criativo de Domingos e dos seus IRIS, nem sequer nas aspirações destes um dia gravarem, devido à dificuldade de se fazer música na região algarvia, especialmente nos anos iniciais do grupo: “ Ser músico aqui no Algarve é completamente diferente de se ser artista em Lisboa. Tudo se passa em Lisboa. Até 95, nem havia o sonho de gravar, porque nós não tínhamos condições cá em baixo”, relata-nos o artista fuzetense. Até conseguirem gravar, estes sonhavam, ao ver os espetáculos de outros artistas:

Confessa que até um dos grandes êxitos da banda, o tema “Oh Mãe!!”, só foi gravado devido à pressão amigável de companheiros que alertavam Domingos para a eventualidade deste se arrepender caso não o fizesse, devido ao enorme sucesso que a “brincadeira” feita ao tema dos The Animals, “House Of The Rising Sun”, estava a ter a nível local: “toda a gente ficou maluca com aquilo. Eu tocava a música 10 vezes numa noite, ali na baixa de Faro, aquilo era uma loucura completa, íamos a qualquer sítio e as pessoas enchiam para ouvir a porcaria do Oh Mãe… porcaria, disse isto com carinho, pois aquilo é uma brincadeira”, diz-nos sorridente

“O rock sou eu”, enfatiza Domingos, dizendo que é a sua maneira de ser, apesar de não se sentir preso a nenhum género musical, referindo que o seu objetivo é aprender tudo. Não havendo assim limites nesse universo, este toca tudo, seja valsa, seja tango, sejam uns Led Zeppelin ou uns Black Sabbath, desde que possa tocar à sua maneira e que possa meter tudo “com power” e guitarras com distorção, o vocalista dos IRIS toca, pois não tem qualquer pudor de nenhum estilo musical. Não há género que o descreva, porém há uma palavra que este assume que o faz: irreverente.

Depois de um 2024 repleto de concertos, em celebração dos 45 anos dos seus IRIS, esta continua a ver muito bem, pela constante e persistente vontade de Domingos querer aprender, mantendo o mesmo espírito do jovem que tocava guitarra nas escadas do liceu. “Repara que socialmente isto é uma vida insegura. Eu não posso garantir que tenho dinheiro para viver no próximo mês, mas esse risco é prazeroso e eu faço por isso. É isso que me faz continuar”, confessa apaixonadamente.

Embora o espírito seja o mesmo, já é mais de meio século desde que Domingos começou nas suas “brincadeiras”. Muita coisa mudou, ganhou-se muita experiência, desde as “horas de voo”, às pessoas com quem foi trabalhando, mas o artista algarvio realça que há sempre coisas novas para aprender, seja na forma como gere o trabalho interpessoal, seja nas novas tecnologias, com que este se fascina diariamente, recordando o que foi a sua primeira experiência de produzir num gravador 4 pistas, algo que este nunca pensou ser possível:

Relativamente ao panorama musical português e lusófono, Domingos afirma que os IRIS continuam a ser “uma pedra no sapato”. Aponta ainda para os conflitos de interesse das grandes editoras – como as multinacionais – e as suas consequentes hegemonias nas rádios, frisando a dificuldade que é para artistas independentes conseguirem romper essas barreiras. Ainda assim, denota a relevância das plataformas digitais, como o Youtube, na partilha de música, mas, por outro lado, diz que estes “também são uns sacanas, porque não ganhas nada com aquilo. Os músicos já não ganham nada com a música, o que é muito chato”.

Quanto ao futuro dos IRIS, admite a vontade de fechar o decálogo na sua discografia, afirmando que “será o último, não quero fazer mais. Dez álbuns! Vamos fazer mais um. Até podem acontecer mais, mas a partir dali, já não sinto essa responsabilidade, posso fazer se me apetecer ou não. Sinto esta necessidade de fazer o décimo. Epa, porque são 10! [sorri]”. Durante a pandemia, conta-nos que fez 24 temas, de forma a que a banda possa escolher, quais poderão figurar num longa-duração – isto porque, todos os discos da banda, contam com 12 faixas.

Quando se fala de Domingos Caetano, apesar de ser sempre indissociável dos seus IRIS, há que não esquecer as suas restantes aventuras musicais, como os projetos  Feijão Com Massa – que até relembra ter apresentado numa sala da Universidade do Algarve, na companhia do saudoso Prof. Vítor Reia-Baptista -, Rockestra ou até mesmo quando este se apresenta a solo – acompanhado da sua guitarra, como sempre. Justifica esta pluralidade, como um reflexo do seu percurso artístico, relembrando os tempos em que tocava como músico privativo no Hotel Atlantis, em Vilamoura, onde tinha que tocar temas que nunca lhe tinham passado pela cabeça, onde se introduziu aos standards de jazz, e afirma que sempre recebeu todos esses serviços com o mesmo respeito: “Sou tudo menos um músico que só toca uma coisa. A minha maneira de ser é rock, mas posso tocar um ‘My Way’ do Frank Sinatra, ou qualquer coisa que seja, desde que haja uma guitarra e um serviço para fazer. Depois apaixono-me pelos diferentes estilos”, refere Domingos enquanto transita para a sua paixão pela música tradicional.

Em 1983, deixou o ensino regular, onde já era professor de música. Hoje em dia, sobre outros contornos, dedica-se novamente ao ensino de música, com a sua própria escola, dando aulas no Cinema Topázio, na Fuzeta. Mas quando questionado se o ensino é a sua segunda paixão, este é assertivo e corrige esta terminologia:

Diz que não é fã de receber e que “vive muito mais a dar”, porém nunca desperdiça a oportunidade de aprender o que pode, o que acaba por não se cingir somente à música. Insaciável por absorver coisas novas, admite que é bem ligado ao digital, devido à rapidez com que este avança e pela necessidade constante que sente em se atualizar. É um assumido utilizador de redes sociais, mas no que toca aos IRIS, “entrego isso a outra pessoa”, sendo os conteúdos à base de fotografias e divulgação dos seus concertos. 

No que toca à sua presença pessoal, Domingos assume: “eu pego no telemóvel e vou gravando tudo o que é parvoíces e olha, tem sido um sucesso. Nada planeado, não tenho jeito nenhum para essas coisas”. 

Reflete também sobre o avanço das novas tecnologias e mostra-se ora apreensivo, ora curioso pela Inteligência Artificial, mas remata dizendo: “opa não é orgânico, não tem o engano. Eu tenho coisas gravadas, que foram enganos e ficaram assim guardados”. Diz que “não ouve música” e que uma das coisas mais importantes para si é o silêncio: “A música está toda na minha cabeça e eu vou compondo, mas para isso preciso de ter silêncio. E este silêncio é o que me tem acompanhado ultimamente”, relata-nos Domingos, nunca deixando de amar a música.

E é ao explicar como ama a música que Domingos, de sorriso rasgado, assume a sua felicidade:

Em tom de despedida, Domingos é direto ao assunto na mensagem que quer deixar, dizendo que “toda a gente serve de exemplo, nem que seja de mau exemplo”:

Conheça o trabalho de Domingos Caetano

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