Observatório da Qualidade no Audiovisual

Kristóman: “Estou mesmo muito feliz com o rumo que estou a tomar agora na música”

Entrevista: José Duarte
Produção: Luana Piegas
Texto: José Duarte 

Quando falamos em Vozes do Algarve, especialmente naquelas que são entregues à proa do ritmo e poesia, é provável que nos deparemos com o nome Kristóman. Ao longo de mais de 20 anos de carreira, com 5 álbuns editados – três a nome próprio, Charnecos (2013), Remédio Santo (2016) e Another Situation (2024), dois com o grupo Tribruto – e já tendo colaborado com nomes conceituados do género como Sam The Kid, Regula, Valete e Capicua, o rapper de São Brás de Alportel tem consolidado o seu nome no panorama nacional como um dos grandes porta-estandartes do rap da região mais a sul do país. Ainda assim, quando questionado sobre quem é, responde: “ O Kristóman é uma pessoa igual às outras todas”.

Porém, mais de duas décadas volvidas, antes de ser Kristóman, antes de ser Kristo, havia um amante de metal. Apanhando o boom do nu metal do inicio dos anos 2000, foi em Loulé, cidade onde vivia, que através de um irmão mais velho de um amigo, que ouvia muito Papa Roach e Sepultura, é introduzido ao género, onde se deixa aliciar pelos trabalhos da bateria de uns System of a Down e pela agressividade libertadora de uns Limp Bizkit. Com estes últimos, conhece Method Man – Fred Durst e companhia colaboraram com o rapper novaiorquino no tema “N 2 Gether Now” -, onde, acaba por conhecer o hip hop. Intrigado com a descoberta, procura saber quem o faz em Portugal. Começando pelo norte, conhece Dealema e Mind Da Gap, e vai descendo o país com as descobertas de Sam The Kid e Regula, onde acaba por perceber que é no hip hop que “posso dizer aquilo que eu quero, sem ser censurado […] encontrei um gosto por fazer aquilo que eu quero na música”, conta-nos.

Cativado pela libertação contra-cultura do hip hop, é pela forma espontânea dos freestyles que começa a aventura, sendo depois pelo feedback positivo que recebia das pessoas que se começa a envergar pelas rimas:

E é através de tocar ao vivo, que se junta aos colegas de estrada Rafael Correia (conhecido enquanto produtor como Sickonce e enquanto DJ como Gijoe) e Real Punch, para formar os Tribruto.  Numa altura em que atuavam todos a solo, mas que tinham vários concertos em comum, surgiu a ideia de criar um grupo, com o intuito de se tornarem mais fortes e abrangerem mais público. Como estavam todos na mesma editora, a independente e armacenense Kimahera, estes tinham então as ferramentas necessárias para abrir portas, não só para o trio, como para o Algarve em geral.

Com muito carisma e um estilo que unia malabarismos de palavras, a humor e a especificidades algarvias, o trio acabaria por se estrear nos lançamentos em 2010, com um EP homónimo e nesse mesmo ano acabaria por editar o seu álbum de estreia Algazarra, que conta com participações como Dino d’Santiago, Nerve e Sacik Brow. No ano seguinte, lançaram gratuitamente a mixtape Moços Marafados, de onde se destaca o êxito “Grande e Grosso”. Acabariam ainda por lançar um álbum de remixes e um de instrumentais, antes de em 2014 editarem o seu segundo álbum de originais Chavascal, com convidados já supracitados como Capicua, Sam The Kid, Valete, ou também Mundo Segundo e Fuse. Tal caminhada discográfica, fez com que o grupo pisasse palcos como Lux Frágil, Hard Club, Music Box, Sudoeste ou até a Altice Arena (como parte do espetáculo A História do Hip Hop Tuga).

Não sendo por isso de estranhar que no livro Hip Hop Tuga: Quatro décadas de rap em Portugal (2023), de Ricardo Farinha, estes são referidos como o grupo “que mais elevou o nome do Hellgarve no mapa do rap nacional, nos últimos anos”. Afirmação esta que Kristoman, aceita com facilidade:

10 anos depois do último álbum e 14 desde o de estreia, no Festival F de 2024 os Tribruto regressaram aos palcos para um concerto muito especial. “Para já significou ter que ensaiar para caraças, porque a gente já não tocava há muitos anos”, conta-nos Kristóman ao reagir ao concerto, apesar de que confessa que não chegaram a ensaiar em grupo, tendo-se reunido apenas umas vezes com Real Punch. Ainda assim, foi o suficiente para gravarem duas músicas novas, que apresentaram nesse dia, mas que ainda não têm previsão de lançamento: “Não sei quando é que vão sair, o Gijoe é que tem isso num cofre guardado”. Agradece ao Festival F a oportunidade e gostou da experiência, especialmente por encontrar na plateia, pessoas que agora já os estão a ver com outra idade, mas com a mesma energia de antigamente.

Sonoramente, devido à natureza camaleónica de Sickonce enquanto produtor, Kristóman explorou muita planície estilística, aspeto que também perdurou para sua carreira a solo. Sendo o seu nome quase sinónimo de punchlines, não se cinge à sua competência enquanto artesão de barras e já foi do boom bap ao trap, de coisas mais grime ao drill, tendo até já rimado por cima de dubstep e drum&bass.

Assume que hoje em dia se preocupa cada vez mais com a conexão com aquilo que está a dizer, não rimando apenas por rimar, focando-se em construir uma consistência interna das canções. “Pondero melhor a escrita, antigamente escrevia para um tipo de público, e atenção, isto não é estar a limitar-me, é estar-me a expandir,  é preciso tentar perceber que com a minha idade há certas palavras ou certos temas que se calhar não devo dizer, especialmente se quiser chegar a mais gerações. É mais por aí. Estruturar as coisas para que possa ter uma música mais abrangente”, reflete ao pensar como tem alterado o seu processo criativo.

A verdade é que antes do seu mais recente disco, Another Situation, lançado em 2024, Kristóman pensou mesmo em desistir do rap. Como conta no Rapresentação, programa de autor de Carlos Almeida na RUA FM, o facto de não tocar ao vivo (que como já nos referiu, é um dos grandes motivos que o move), aliado a outros contornos da sua vida pessoal, levaram-no a considerar “pendurar as botas”. Porém, numa conversa que teve com Valete, em que este o incentiva a não deixar a música, motivou-se e em três meses escreveu e gravou o seu oitavo projeto, ou como este coloca no som inaugural, “Malabarista”, “é só fazer as contas, 8 bolas como o argentino”, para se ter a certeza que está mais que apto para dar toques na bola.

E que não se eufemize o feito que é a gravação de um álbum, especialmente por alguém com tanto ofício como Kristóman. Entre barbearia, família e futsal (é treinador principal dos seniores da Casa do Benfica de São Brás de Alportel), a vida de André Guerreiro, nome civil do rapper, é cronometrada ao segundo. Mas confessa que há muita simbiose entres estas atividades e que acaba por transportar muito do que consome para a sua música:

Não é surpresa saber que umas das coisas basilares na vida de Kristóman é a convivência com pessoas, basta olharmos para a extensa lista de colaborações que tem, para identificar em si uma forte vertente colaborativa. Refere que estas surgem de forma orgânica, frisando a importância de conhecer as pessoas antes de começar a trabalhar e reforça a importância que estas parcerias têm em fortalecer a conectividade dentro da indústria musical. Prefere o presencial, não só pela virtude da troca de experiência de estúdio, mas também pela facilidade de comunicação, o que acaba por ser um dos fatores que o tem levado a colaborar nos últimos projetos com artistas da região.

Contudo, não esconde o desejo de continuar a trabalhar com grandes nomes e acima de tudo que se sente grato pela sua carreira no ponto de vista das colaborações:

Quanto aos artistas com quem ainda gostaria de trabalhar, admite que tem insistido com Kappa Jotta, que espera trabalhar com Dillaz e não esconde a vontade de “fazer uma coisa diferente” com Diogo Piçarra, principalmente pelo elo de ligação algarvio. Ainda indica Boss AC e Xeg como nomes com quem gostaria de ter colaborado e que nunca fecha a porta, não deixando de voltar a reforçar que já fez canções com os artistas que gostaria de ter feito, do qual se destaca Regula, que Kristoman afirma: “É o meu ídolo, não tenho problemas de assumir isso, às vezes até há malta que me associa, que há músicas que é parecido. Ya meu, é a minha referência, qual é a cena? [risos] Não escondo isso.”

A distância, como já referido, tem sido um dos fatores que o têm levado a colaborar só com artistas da região nos seus últimos trabalhos, pela preferência de trabalhar presencialmente. Distância esta que acompanhou desde sempre, estando bem familiarizado do que é ser um artista independente algarvio. Recorda que a distância dos grandes centros urbanos continua a ser um grande entrave para a expansão e respetiva consolidação de um artista a nível nacional, tecendo um paralelismo com os depoimentos do humorista portimonense Dário Guerreiro (nome civil de Moce dum Cabreste), na entrevista, recentemente recordada, ao podcast Humor à Primeira Vista.

Complementa ainda ao refletir sobre a dificuldade de atuar, dizendo que “é complicado, tens sempre de pagar as deslocações, se tu pedes um cachê baixo para tentares ir, vais ter despesas, se pedes um cachê mais alto que engloba as despesas, já vão ter medo de te ir buscar porque há alguém mais perto com um cachê mais acessível […] e depois tens o verão, que vem tudo para cá, em que tens concertos e coisas cá, mas não se lembram de nós, vão buscar os lá de fora. É muito complicado”. 

Apesar de assumir que o digital veio trazer uma nova acessibilidade para expandir horizontes, aponta para o quão desafiante é conseguir-se destacar nos dias de hoje nas plataformas e o trabalho necessário para romper os algoritmos. Porém não desanima e acredita que está na consistência a chave para se ter “hipóteses”:

Hoje em dia trabalha com a agência FADED para tratar sobretudo da sua imagem nas plataformas, planeando “sem pressão” a promoção dos seus lançamentos. No caso de um álbum, saber quantas músicas serão, quantos videoclipes haverá e em seguida decidir-se quantos formatos e publicações distribuídas pelas várias plataformas serão feitas, com especial atenção à sua calendarização e aos horários. “É tentar cumprir esses timings e horários, para que se possa tirar o maior sumo da fruta. Mas essas são as únicas regras, de resto é fluído”, conta-nos o rapper, confessando que excepcionalmente investe em publicidade com intuito de tentar direcionar algumas canções para um público-alvo.

De momento não se vê purista, nem nega o digital, apontando a necessidade de usar as ferramentas que existem para tentar divulgar o seu trabalho. Ainda assim, quando questionado se este novo paradigma afeta a sua criação, refere:

Independentemente da sua adaptação aos media digitais, nunca deixou de valorizar os media físicos, gostando sempre de assumir uma edição em CD nos seus projetos, aproveitando até para brindar os fãs com algumas surpresas escondidas:

Enquanto senhor que anda com a “bandeirinha algarve”, como este nos conta que o descrevem, acredita que o hip hop algarvio tem uma identidade própria dentro da música nacional, apontando Uzzy e o streamer Possessivo, como alguns dos atuais companheiros nesse quesito de divulgar e representar o que se faz por cá, se bem que aponta que são necessários mais artistas a fazê-lo, porque há potencial, mas é preciso trabalhar mais, pois segundo Kristóman “o artista algarvio é um bocado preguiçoso [risos], contra mim falo, mas acho que sim e nesse sentido tento dar um boost aos artistas, sempre que estou com eles digo-lhes para terem consistência, para fazerem, que tempo não pode ser desculpa e que não se podem ter medo de arriscar”.

No que toca ao rap nacional, constata que “está a sofrer uma grande transformação, o people que está a vir, está a vir com números. É verdade que os pioneiros abriram isto de uma maneira que não está a ser feita agora, mas o que está a ser feito agora, está a fazer cabeças-de-cartaz, não vês um festival de verão que não tenha hip hop […] a nova escola está a trazer isso, temos de respeitar e nós artistas que somos mais antigos temos de acompanhar ao nosso estilo, se não vamos morrer na praia!”.

Quanto à lusofonia de forma geral, tendo uma história inusitada com dois dos maiores nomes do rap feito em português e colaborações com nomes como Dino d’Santiago, que transpiram a multiculturalidade lusófona, mais recentemente apontou como inspiração para o seu mais recente single, “Berlusconi”, o rapper brasileiro MD Chefe, que Kristóman afirma ter estudado para saber como poderia enquadrar uma estética mais “mumble” ao seu estilo.

Porém, como até se pode ver pelo refrão “luso-italiano” da canção, Kristóman não vê qualquer tipo de barreira linguística na música que consome e no que lhe serve de inspiração para assimilar às suas valências:

Para mim é um orgulho, malta de 40 e tal anos que hoje me diz que o despertador deles é uma música minha”, conta-nos o artista algarvio acrescentando que mesmo nestas novas sonoridades, continua a colocar lá “um punchlinezinho”, nunca deixando a sua essência, reforçando que: “Estou mesmo muito feliz com o rumo que estou a tomar agora na música. Estou num bom momento de forma e de criatividade”.

Para um artista que chegou a pensar em desistir, tem planeado um álbum para sair num futuro próximo, contradizendo esses pensamentos que cada vez pertencem mais ao passado:

 

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